CULTURAS E PRODUÇÃO ASSOCIATIVISTA/COOPERATIVISTA: considerações em torno de alguns elementos de uma problemática Prof. Dr. Paulo de Jesus Curso de Mestrado em Administração e Comunicação Rural - UFRPE INTERCOM Londrina - 1996 1 Resumo: O autor trabalha sobre a produção cooperativista. Evoca o modo de produção que baliza a compreensão da lógica camponesa, por exemplo, caracteriza-se a produção cooperativista, problematiza, comparando-a com a produção patronal. Evoca ainda características da empresa cooperativista, como gestão participativa e a utilização nela de elementos eficazes na empresa patronal, como o C.Q.T., por exemplo. Por fim, tece considerações sobre as mediações culturais e as implicações no processos e práticas de comunicação rural. 2 Modo de produção e produção agrícola Em tempo de globalização, pode parecer inútil retomar a categoria modo de produção. Uma explicação para este senso de inutilidade pode estar no próprio sentido epistemológico dado às categorias, isto é, na dificuldade de encará-las como instrumental de análise do real. O entendimento e consequentemente o uso da categoria modo de produção implica num exercício de sua clarificação. Os textos organizados por GEBRAN (1991), por exemplo, podem contribuir a tal exercício. Aí, FIORAVANTE ressalta o caráter abstrato indicativo e instrumental de análise da categoria em pauta e a define como “uma combinação específica de diversas estruturas e práticas que, em combinação, aparecem como instâncias ou níveis, isto é, como estruturas regionais com uma autonomia e dinâmica próprias, ligadas a uma unidade dialética. (...) é um conceito abstrato-formal que não existe na realidade e que adotamos exclusivamente com fins operatórios para constituir um modelo teórico de análise que nos sirva de instrumento para a interpretação de uma realidade social.”(FIORAVANTE,1991:31-33). Em qualquer modo de produção há de se considerar que ele se refere a uma realidade constituída por três estruturas: a econômica, a jurídico-política e a ideológica. Na sua estrutura econômica encontram-se três fatores: o trabalhador, os meios de produção e o não trabalhador. O autor, trabalhando esses três fatores da base econômica, no que se refere à propriedade e à posse, indica dezesseis combinações possíveis de modo de produção, a partir dos elementos da esfera econômica (FIORAVANTE, 1991:44-45). Isto explica a afirmação de que numa sociedade determinada e num determinado tempo, podem-se encontrar diferentes modos de produção, ocorrendo sempre a relação de um sobre os demais. É neste sentido que merece maior consideração sobre a questão da produção no meio rural. Tomando-se a agricultura, por exemplo, podemos nos referir à agricultura capitalista e à agricultura camponesa muito bem diferenciadas por CHONCHOL(1985): a agricultura capitalista funciona na lógica das categorias econômicas clássicas (lucro, renda e salário),utilizando fundamentalmente o trabalho assalariado, completamente integrada ao mercado, tanto na venda da produção quanto na aquisição/compra dos fatores tecnológicos de produção. Já na agricultura camponesa, a lógica essencial é a sobrevivência e a reprodução da força de trabalho (família), integrando fortemente as atividades de produção e as atividades familiares e utilizando sobretudo a mão-de-obra familiar, sem excluir totalmente o trabalho assalariado. Outras nomenclaturas/adjetivações são utilizadas: por exemplo agricultura empresarial e agricultura familiar1. O Ministério da Agricultura, do Abastecimento e da Reforma Agrária - MAARA, por exemplo, em documento recente refere-se a dois modelos básicos de agricultura no Brasil: a agricultura patronal, que compreende 1 Estudo de Geraldo Medeiros de AGUIAR(1985), em relação a região Nordeste do Brasil, apresenta a seguinte tipologia de: agricultura especulativa de mercado (tradicional de plantação, dominal incentivada, dominal cooperativada), agricultura pastoril dominal patriarcalista e/ou de coleta (totalitária, absenteista) e agricultura semi-mercantil (minifundiária, camponesa entravada, servil, arrendatária e parceria e cooperativada), agricultura de fronteira agrícola (primitiva itinerante, de posseiro entravada, de posseiro em conflito, camponesa familiar, latifundiária de grilagem e indígena). 3 em torno de 580.000 estabelecimentos, “em que predomina a completa separação entre gestão e trabalho, organização centralizada, ênfase na especialização, práticas agrícolas padronizáveis e trabalho assalariado”(MAARA, 1996:9) e a agricultura familiar, com aproximadamente 5.220.000 estabelecimentos, “em que predomina a integração entre gestão e trabalho, a direção do processo produtivo pelos proprietários, a ênfase na diversificação, na durabilidade dos recursos e na qualidade de vida e o trabalho familiar complementado por trabalho assalariado.”(MAARA, 1996:9). Neste mesmo documento, o MAARA ressalta a importância da agricultura familiar, afirmando que ä agricultura familiar chega a superar a agricultura patronal na produção, por exemplo, de carnes suínas e de aves, leite, ovos, batata, trigo, cacau, banana, café, milho, feijão, tomate, mandioca e laranja.”(MAARA, 1996:10). Num e noutro tipo de agricultura, o trabalhador, os meios de produção e o não trabalhador apresentam situações diferentes. Diferenças que no real podem não ser facilmente percebidas, sobretudo dadas as atuações das estruturas jurídico-política e ideológica. A importância da consideração dessa categoria de análise - modo de produção - reside no fato de contribuir para compreender melhor os processos de organização da produção, as diferenças entre a produção da agricultura patronal e da agricultura familiar, por exemplo, como trataremos adiante. A qualificação da produção agrícola acima esboçada pode ainda ser analisada pelo prisma da produção individualizada e produção associativa. Produção associativista/cooperativista e agricultura Assim como se identificam dois tipos de agricultura, a capitalista ou empresarial e a camponesa ou familiar, uma e outra podem se apresentar no real com organização de forma individual ou associativa. Uma empresa agrícola de produção de frutos tropicais ou uma empresa agropecuária que alem de frutos tropicais, por exemplo, produza também bovinos, leite e seus derivados quase sempre se organiza sob o comando único do proprietário dos bens de produção, para quem os lucros são também revertidos. Os proprietários dos bens de produção podem também compor uma associação do capital que detêm, formando, por exemplo, as Sociedades Anônimas. Tem-se também a organização associativa da produção consistindo num modelo onde a propriedade, a gestão e a repartição são baseadas na cooperação, constituindo-se uma associação de pessoas e não de capital, onde a propriedade atribuída aos associados, independentemente das contribuições financeiras individuais à constituição da sociedade, e onde o poder de decisão último é competência da assembléia dos associados e a distribuição das sobras financeiras no final de um ano de trabalho deve ser feita de uma maneira diversa da que ocorre numa empresa capitalista(Rios, 1987:13). A organização associativa da produção tem se materializado entre nós em duas formas mais freqüentes: a associação de produtores, como por exemplo, associação de produtores de feijão, associação 4 de produtores de mandioca, associação de produtores de batatinha e a cooperativa, como cooperativa dos produtores de algodão, cooperativa de crédito agrícola, cooperativa dos produtores de feijão. As duas formas, associações e cooperativas, integram o quadro da agropecuária brasileira. Quanto ao cooperativismo, no Estado de Pernambuco, por exemplo, segundo os dados da Organização das Cooperativas do Brasil - OCB o número de cooperativas tem apresentado razoável crescimento. Em 1994, o Estado tinha 156 cooperativas, das quais 78 eram as chamadas cooperativas de produção onde se situam as agropecuárias; em 1995, o total era de 176, sendo 86 no segmento agropecuária e mineral e em 1996, de um total de 222 cooperativas, 110 são .cooperativas agropecuárias filiadas ao Sistema OCB. O quadro abaixo apresenta algumas estatísticas do cooperativismo no Brasil, nos três últimos anos que confirmam o razoável crescimento deste movimento na sociedade e economia brasileiras. QUADRO I Cooperativas em atividade Brasil, regiões e alguns Estados 1994 1995 1996 produção total agropecuária total agropecuária total Norte 59 110 55 107 72 145 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Nordeste 411 787 430 839 455 921 Pernambuco 78 156 86 176 110 222 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Sudeste 436 1 643 440 1707 432 1756 S. Paulo 155 621 154 645 140 637 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Sul 283 775 296 761 296 795 Paraná 69 185 65 183 71 196 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Centro-Oeste 118 366 123 370 121 374 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------BRASIL 1 288 3 681 1 301 3 784 1 376 3 991 Regiões/Estados Fonte: OCB/DENACOOP. Anuário Das Cooperativas do Brasil. Brasília, 1994, 1995 e 1996. Se, no caso do Brasil, o cooperativismo ainda parece tímido, em outros países, principalmente do hemisfério Norte, tal movimento parece apresentar relevante significação para a economia e a sociedade2. 2 Sobre cooperativismo na França, por exemplo, ver, entre outros, VIENNEY (1991) e cooperativismo no Canadá, ver LEVESQUE et COTE(1991). Outras informações são dadas por LAIDLAW(S/D:10-11): “No Japão, as cooperativas polivalentes ocupam um lugar preponderante no desenvolvimento econômico moderno das regiões modernas. (...) Na Índia, cerca da metade da produção açucareira vem de cooperativas (...) e no Estado de Gugarat, as cooperativas leiteiras tem usina de transformação de leite que estão entre as maiores e mais modernas do mundo. (...) Na França, as caixas cooperativas agrícolas ocupam o segundo lugar mundial no sistema bancário e de crédito. (...) No Canadá, um habitante em três é membro de uma caixa cooperativa de crédito, e mais de 75% da produção de trigo e outros cereais do país passam pelas mão de cooperativas de comercialização.” 5 O caráter associativista na organização da produção não se apresenta de forma monolítica e estática. Historicamente, as associações e as cooperativas apresentam diferenciações no tempo e no espaço. Hoje, por exemplo, uma das questões mais presentes no debate que se estabelece no meio cooperativista é o de se tentar bem definir o que é uma empresa cooperativa. Nesta direção, SOARES(1984) nos colocou o debate centrado entre as hipóteses de dois pesquisadores: Albert Maister e Josip Zapanov. Maister, segundo SOARES, constatou quatro estágios na evolução de uma organização associativista: no primeiro, o da conquista, na constituição da organização, marcada pelo entusiasmo e pela esperança e onde se prima pela decisão por consenso, mas, em função mesmo da divisão técnica do trabalho, o voluntarismo leva a uma plurifuncionalidade do grupo, dispersiva nas tarefas econômicas.” Segundo estágio, o da consolidação econômica. Aí tende-se a desestimular o voluntarismo, produzem-se diferenciações internas e especializações nos conselhos de administração que “assumem atitudes racionais ‘mais próximas das formas capitalistas’ (...) Ao mesmo tempo que se introduzem práticas econômicas mais distantes dos objetivos sociais, busca-se unifuncionalidade das tarefas.” E aí os executivos mais dinâmicos predominam sob os militantes fiéis aos objetivos constitutivos. O terceiro estágio é o da coexistência, isto é, o da aceitação da democracia delegada estendida a todas as atividades da sociedade associativa, ocorrendo também a priorização da satisfação das necessidades individuais às coletivas. Com o crescente desinteresse dos associados, contratam-se gerentes e outros funcionários. O quarto estágio é marcado pelo poder dos administradores, com predomínio da racionalizasse econômica e o funcionalismo de práticas administrativas. Maister, sempre segundo SOARES, generaliza: há um envelhecimento dos dirigentes e redução na participação voluntária dos associados; esta decresce à medida em que se alcança os objetivos-meio proposto. Já Zupanov, partindo inicialmente da necessidade de contestar Meister em suas pesquisa na Yugoslávia, formula uma hipótese inversa, qual seja a de que se constata um processo de transformação das empresas em associações nos últimos anos e distingue conceitos de empresa: um restrito, como “unidade econômica do sistema concorrencial do mercado ”e outro, mais amplo, como “sistema definido de organização social” e propõe igualmente conceitos mais precisos de associação: “Na associação há um caráter livre de adesão face a objetivos comuns conscientemente aceitos e um esforço coletivo, também consciente, para se alcançar os objetivos. O indivíduo não faz somente parte do capital-trabalho da organização, mas é reconhecido como membro interessado, sujeito da atividade. Mas há duas maneiras de um homem ser sujeito de uma atividade e portanto dois modelos de associação. A primeira é a associação não estruturada, não organizada, que escapa à dominação imposta pela estrutura social. A segunda é a possibilidade de ‘abertura’ de uma estrutura organizada do grupo para um ‘patamar ’mais expontâneo da realidade social, capaz de gerar livre circulação e interpenetração entre a estrutura organizada e os 6 ‘patamares’ espontâneos”(ZUPANOV, apud SOARES, 1984:94). Para Zaponov, na primeira situação configura-se- uma associação total e na segunda, ter-se-ia a associação setorial ”que comporta certa estrutura administrativa (econômica, social ou política) sob um interesse único”. A questão, pois, presente à definição ou caracterização da empresa cooperativista reside na necessidade de bem precisar os sujeitos e como tais sujeitos participam da propriedade, da gestão e da distribuição dos resultados do processo produtivo. No caso do Brasil, mais especificamente da região Nordeste, a quantidade de cooperativas e sobretudo a facilidade com que se criam cooperativas e ao mesmo tempo com que são desativadas muitas recem-criadas e até antigas cooperativas, merece consideração. Muito freqüentemente a adesão à associação ou à cooperativa se processa sem nenhum conhecimento de causa: o que é cooperativa, o que é associação de produtores, porque se vai fundar uma associação ou uma cooperativa. Adere-se à associação ou à cooperativa por uma relação de amizade ou de parentesco com um ou uma líder que está propondo que por sua vez também quase sempre não tem conhecimento da causa e está cumprindo uma condição burocrática definida por algum órgão público (administração federal ou estadual ou municipal). Ocorre também que todo aparato institucional da sociedade tem fortes determinantes do modo de produção dominante, o capitalismo. Neste contexto, a educação que se desenvolve no sistema formal de ensino não é direcionada para formar cooperadores. Como pensar e ser cooperativas sem cooperadores? como formar cooperadores numa sociedade de economia capitalista?” As estruturas cooperativas não garantem por elas mesmas os valores cooperativos; necessitam-se de cooperadores e cooperadoras para animar estas estruturas e dar uma vida cooperativa à empresa. Se as cooperativas não são animadas por verdadeiros cooperadores, elas degeneram e se transformam em empresas que se afastam do projeto cooperativo”(BELAND, 1993:5). Uma outra questão merecedora de discussão no caso das cooperativas brasileiras é a que se refere ao isolacionismo ou individualismo da cooperativa enquanto organização social. Admitindo que efetivamente pode haver práticas de cooperação entre os associados, esta prática ainda não transcendeu os limites da cooperativa, manifestando-se em práticas de cooperação com outras organizações, no desenvolvimento de parcerias, de trabalhos conjuntos, numa perspectiva de complementariedade em prol de uma consertação que resulte num esforço de desenvolvimento local. Tal esforço precisa ser efetuado, guardando inclusive coerência com os princípios do Cooperativismo internacionalmente aceitos (ACI). Alem disso, as cooperativas começam a perceber a relevância da questão quantidadexqualidade. No estágio de mobilização/criação a adesão em termos qualitativos parece 7 significativa. Passados alguns anos, tem-se, por exemplo, um quadro social de 600 associados formalmente e apenas 15% deles tomando parte. Estamos assim caracterizando um quadro das associações e cooperativas marcado pelas dificuldades de participação na gestão e nos resultados do processo produtivo. Em documento elaborado por A. F. LAIDLAW sob o patrocínio da Aliança Cooperativa Internacional - ACI3 , a questão da participação é freqüentemente evocada, inclusive sob a forma de questões como, por exemplo, as que se seguem: “Os mecanismos democráticos que tanto contribuiram ao sucesso das pequenas cooperativas de ontem são ainda aplicáveis às grandes cooperativas de hoje? Como o indivíduo pode participar de maneira efetiva na vida de uma cooperativa que conta com dezenas de milhares de membros? Qual é a estrutura mais democrática possível para uma federação ou para uma entidade cooperativa de compras a atacado cobrindo uma região de vasta superfície?” Este mesmo autor, no citado documento/relatório, propõe encaminhamentos/soluções que continuam privilegiando a participação: falando, por exemplo, nos planos para o futura, o autor enfatiza: (...) os planos das cooperativas têm maiores possibilidades de alcançarem resultados positivos na medida em que sua definição e o seu modo de aplicação se harmonizem com as regras e os ideais do movimento cooperatvo. ”E as cooperativas “(..) devem fazer participar no plano o maior número possível o maior número possível de pessoas (...). (...) O corpo de associados deve ter um papel a desempenhar em cada etapa da planificação. Assim, as questões postas por LAIDLAW, como aquelas de MAISTER e ZUPANOV nos remetem a considerações sobre participação, democracia, quantidade e qualidade. Gramsci já advertiu: “Dado que não pode existir quantidade sem qualidade (economia sem cultura, atividade prática sem inteligência e vice-versa), qualquer contraposição dos termos é, racionalmente, um contra-senso. E realmente, quando se contrapõe a qualidade à quantidade (...) o que em realidade se faz é contrapor certa qualidade a outra qualidade, certa quantidade a outra quantidade, isto é, faz-se uma determinada política e não uma afirmação filosófica”(Apud GENTILI, 1994:170). A nosso ver, a questão da democracia, da participação e da qualidade nas cooperativas passa também pela magnitude que vem assumindo algumas organizações cooperativas. Dado o tamanho e também a natureza da produção e ainda a necessidade de incorporar à organização força de trabalho assalariada, a participação dos associados nos processos de gestão vai gradativa ou bruscamente se reduzindo. E neste ponto, a hipótese de MAISTER parece se confirmar. Contudo, corroborando com as inquietações de ZUPANOV (redefinição do que seja organização, associação), LAIDLAW indaga: (...) quais são as finalidade de uma empresa cooperativa? O que se pretende delas? Como deve ser medido o sucesso de uma empresa cooperativa? Ou ainda, podemos lhe aplicar os mesmos tipos de critérios utilizados por outro gênero de empresa? E, em caso negativo, quais serão então os critérios?”(p.8). Precisamos, pois, refletir um pouco mais sobre empresa cooperativa. Retomando ainda 8 LAIDLAW: “(...) as cooperativas se diferenciam das empresas industriais e comerciais de tipo clássico, privadas ou públicas, pela sua dupla características de organização, ou seja, apresentam ao mesmo tempo objetivos comerciais, e uma vocação social.”(p.43). Eis outra grande questão: o que significa uma empresa com vocação social? Na visão deste autor, alguns pontos configuram a vocação social: “ela contribui às atividades que tendem a criar um espírito de comunidade e intervém, de modo geral, nos grandes problemas humanos e sociais sem aceitar o confinamento no campo social; ela mostra interesse pela educação, senso lato, sendo que o valor social de uma cooperativa pode ser medido pela amplitude de suas atividades educativas; ela exclui qualquer forma de discriminação racial, religiosa ou de sexo em sua política de pessoal e em seus métodos de funcionamento; ela se associa a causas democráticas e humanitárias, concernentes a todos os homens, cooperativistas ou não; ela se preocupa com o destino dos desfavorecidos e sabe tomar as providências necessárias que permitam aos economicamente carentes pertencerem a seu quadro e usufruírem de suas vantagens; ela é respeitada como um empregador correto e por preencher seu papel público; ela colabora com as atividades de ajuda internacional que contribuem ao desenvolvimento das cooperativas do Terceiro Mundo. “(p.45). Curiosamente, a questão da participação na aparece explicitamente no elenco de características acima transcrito. Características que poderíamos traduzir em termos de satisfação: a empresa cooperativa deve primar e assegurar uma satisfação plena de seus participantes, de seus associados. Se o que se afirmou anteriormente é coerente com o pensamento de LAIDLAW, consideremos a contribuição de outros autores. CAMPOS, por exemplo, caracterizando a empresa, assim se exprimiu: “Uma empresa honesta só pode sobreviver dentro de uma sociedade se for para contribuir para a satisfação das necessidades das pessoas. (...) a primeira preocupação da administração da empresa deve ser a satisfação das necessiades das pessoas afetadas pela sua existência. (CAMPOS, 1992: 11). O autor então enumera as pessoas afetadas pela empresa: os consumidores (qualidade), os empregados (crescimento do ser humano, os acionistas (produtividade), os vizinhos (contribuição social). ISHIKAWA caracterizando o controle da qualidade total como uma no pensamento administrativo, enfatiza o respeito à humanidade como filosofia descreve o respeito pela humanidade como filosofia de administração: “A indústria pertence à sociedade. Seu objetivo básico é engajar-se na administração tendo as pessoas como centro. Todos os que estão ligados à empresa (consumidores, empregados e suas famílias, acionistas, subcontratantes e empregados no sistema afiliado de distribuição) precisam poder sentir-se confortáveis e felizes com a 3 LAIDLAW, A. F. As cooperativas no ano 2000, publicado no Brasil pela Organização das Cooperativas de Minas Gerais - OCEMG - Belo Horizonte, S/D. 9 empresa e poder usar suas capacidades e realizar seu potencial. O lucro em primeiro lugar é uma idéia antiquada que precisa ser descartada. As pessoas (...) têm suas próprias vontades e fazem as coisas voluntariamente, sem ser comandadas por outras. Elas usam suas cabeças e estão sempre pensando. A administração baseada na humanidade é um sistema de administração que permite o florescimento o potencial ilimitado dos seres humanos.”( ISHIKAWA, 1993:116-117). Estes autores (CAMPOS e ISHIKAWA) entre outros trabalham a perspectiva da gestão da produção pelas organizações nos paradigmas da chamada qualidade total, contribuindo significativamente para o aumento da produtividade das empresas nos Estados Unidos da América, no Japão e em outros países. Temos pois dois mundos: o das empresas cooperativas e o das empresas capitalistas. São mundos distintos, diferentes, nas finalidades, nos objetivos, nos métodos, por exemplo. Importa descobrir as intersecções, os pontos comuns, as semelhanças. A caracterização de um e de outro, como tentamos empreender anteriormente, se confrontada, pode dar margem a certas constatações, como, por exemplo, a questão da participação. Se no cooperativismo a participação é inerente à natureza da organização associativa, na perspectiva da qualidade total a participação é igualmente um recurso e um meio de satisfação dos usuários/clientes e trabalhadores. Estas questões se inserem naquela posta por LAIDLAW ao indagar se pode utilizar os mesmos critérios utilizados por outro gênero de empresa, ou seja, o ideário da Qualidade Total bem apropriado às empresas capitalista é também o ideário das empresas cooperativas? Alem do ideário, os processos, os instrumentos, as ferramentas da Qualidade Total desenvolvidos na empresa capitalista são também adequados à empresa cooperativista? Nossa convivência com o mundo do cooperativismo4, mesmo que limitado espacialmente (Pernambuco e Nordeste) e com maior conhecimento de cooperativas de pequeno e médio portes, dá margem a indicar algumas estratégias em resposta a necessidades urgentes das cooperativas: consolidação do quadro social da cooperativa: dificilmente processar-se-ão mudanças nas cooperativas se processos de mobilização não forem desenvolvidos, na perspectiva de uma redefinição do quadro social: quem é sócio da cooperativa; desenvolvimento de planejamento estratégico nas cooperativas: definição de missão e sobretudo do negócio da cooperativa - que se produz e o que se deve produzir. consolidação de praticas de cooperação em parceria com outras organizações: sejam governamentais ou não governamentais, visando o esforço de desenvolvimento local. Trata-se de um relatório apresentado pela ACI no seu XXVII Congresso, realizado em Moscou, em 1980. 10 Estas três estratégias podem se constituir um recurso para o desencadeamento ou o fortalecimento de processos de mudanças. Elas nem são excludentes, nem devem ocorrer necessariamente na ordem apresentada. O planejamento estratégico pode oportunizar a redefinição do quadro social como esta pode favorecer os processos de participação e as parcerias com outras organizações podem decorrer do planejamento estratégico e das novas práticas participativas. Tanto uma como outra estratégia aqui sumariamente esboçada podem oportunizar o efetivo exercício da participação, marca maior da empresa cooperativista. Mas, tais estratégias terão que considerar outras especificidade a que já nos referimos anteriormente: a magnitude/tamanho da organização. Em outras palavras, os processos, os tratamentos na direção da consolidação do quadro social das cooperativas e do desenvolvimento de planejamento estratégico nas cooperativas deverão fatalmente ser diferenciados em função do tamanho de cada organização., Produção cooperativista e mediações culturais As discussões sobre cultural e suas classificações tem apresentado avanço significativo: de cultura popular e erudita, cultura dos dominantes e dos dominandos, para a noção de cultura hegemônica5. Nos limites deste texto, interessa-nos contudo, o sentido ou entendimento que se tem de cultura. Entendemos aqui cultura como o conjunto de processos simbólicos através dos quais se compreende, se reproduz e se transforma a estrutura social”(CANCLINI:1988), ou como “o saber disponível onde os sujeitos da atividade comunicacional possuem interpretações, virtualmente consensuais, procurando se compreender sobre qualquer coisa que exista no mundo”(HABERMAS, 1988:405). Com tal entendimento de cultura, imaginemos, pois, um(a) profissional de Comunicação rural atuando atraves de uma organização, seja ela do setor público ou do setor privado, inclusive organização não governamental. Sua atuação, enquanto profissional de comunicação rural, consiste essencialmente em proceder/desenvolver mediações culturais. Ora, as praticas de mediações, e sobretudo aquelas de natureza cultural trabalha com processos simbólicos, com representações sociais (conjunto de imagens, símbolos, ideis que os sujeitos constroem historicamente). Nesta direção, as considerações, as análise aqui esboçadas se constituem objeto de investigação junto aos profissionais de comunicação rural com atuação voltada para a produção agropecuária e associativista/cooperativista. Um conjunto de questões pode ser elencado para evidenciar tal inquietação. Entre outras, vejamos: 4 O autor, alem de coordenar na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) o Curso de Especialização em Associativismo/Cooperativismo, tem prestado serviços de consultoria à Organização das Cooperativas de Pernambuco - OCEPE e atuado em eventos do Programa de Capacitação da OCB/DENACOOP. 5 Sobre a contribuição de GRAMSCI e CANCLINI, entre outros, à concepção de cultura, ver TAUK SANTOS(1994), especialmente pp. 118-127. 11 Que diferenças os profissionais de comunicação rural estabelecem entre a agricultura patronal e a agricultura familiar? Quais as implicações da percepção destas diferenças na sua prática de mediação cultural? Que diferenças os profissionais estabelecem entre um empresa patronal e uma empresa cooperativista? Que experiencias de vida contribuiram para a construção das representações sociais dos mediadores cultural da comunicação rural sobre cooperativismo e sobre agricultura familiar? Estas e outras podem se constituir objeto de pesquisa e objeto de discussão junto aqueles e aquelas que profissionalmente dão o melhor de suas inteligências a serviço do desenvolvimento, numa sociedade marcada por tanta desigualdade, como a Brasileira. Temos certeza que o aprofundamento destas questões e das reflexões esboçadas neste texto podem contribuir para a melhoria da produção e da produtividade e, sobretudo, para a melhoria de vida do grande contingente de agricultores e agricultoras, camponeses e camponesas que se organizam em associações ou cooperativas para produzirem e viverem melhor. BIBLIOGRAFIA AGUIAR, Geraldo Medeiros. Agriculturas no Nordeste. Apreciação e sugestão de políticas. Petropolis, Vozes, 1985. BELAND, Claude. Allocution d’ouverture. IN: Sommet sur l’éducation cooperative le mayen de réussir ensemble. Quebeque, C.C.Q., 1993 CAMPOS, V. Falconi. TQC Controle da Qualidade Total. Belo Horizonte, F.C.O, 1992 CANCLINI, Nestor Garcia. 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