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Peter Dormer
Os Significados do Design Moderno. A caminho do
século XXI
Introdução
índice geral da obra
Paul Storey A Vision, 1987.
Porque compramos tantas coisas? Quem convence os designers a redesenharem
tudo constantemente? O consumidor, o fabricante, o publicitário? Ou os próprios
designers? Porquê e de que forma a arte, os misteres, o artesanato e os acabamentos
à mão são relevantes para o design numa cultura de consumo industrializada?
Embora haja, como sempre, excepções à regra, subjacente ao enorme interesse
que actualmente existe pelos objectos de design está uma verdade insofismável:
desde que lhes seja dada a oportunidade, as pessoas gostam de adquirir coisas. O
desejo de possuir coisas contribui para o êxito tanto da indústria como do design.
Haverá provavelmente razões subtis que expliquem os vários tipos de avidez
aquisitiva, mas existem também outras bastante lineares: as máquinas de lavar roupa
e outros equipamentos tomam a vida mais fácil (e, consequentemente, mais
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agradável); outros objectos, como as cadeiras, proporcionam conforto; e existem
artefactos lúdicos, como a telefonia, a alta fidelidade, a televisão e os brinquedos. Há
ainda outras coisas — algumas classificadas como arte, outras como peças de
artesanato — que queremos à nossa volta para nos emprestarem cor, variedade ou
expressividade.
Raramente são indispensáveis à nossa sobrevivência. Mas a partir do momento em
que o aumento da população e a complexidade das nossas relações sociais passaram
a caminhar a par da evolução associada à produção da energia, da medicina e do
comércio, pode dizer-se que a nossa existência está dependente daquilo que algumas
pessoas consideram supérfluo. A moderna cultura dos materiais é de tal modo
elaborada que ficamos mutuamente interdependentes de um conjunto complicado,
gongórico e aparentemente esbanjador de relações e condições, qual miríade de
insectos da floresta tropical. A sobrevivência pura e simples não se põe sequer como
hipótese.
Aquilo que torna designers, fabricantes e objectos irresistivelmente interessantes é
o facto de estarem integrados no seio de culturas materialistas, procurando dar
expressão a uma grande variedade de realizações culturais e aspirações do Homem.
Neste livro, dá-se ênfase ao designer enquanto estilista, espécie de corretor de uma
bolsa de ideias e valores; um intermediário entre fabricantes, engenheiros e cientistas,
por um lado, e o consumidor, por outro. Toda a interacção pressupõe necessariamente
valores partilhados. Para que o fabricante possa ter lucros, o designer receber
honorários e o consumidor ver aumentada a sua auto-estima, têm de partilhar a
mesma linguagem. Tem que existir um consenso sobre o que é bom aspecto, quais os
materiais que devem ser valorizados e porquê; tem que existir uma comunhão de
opiniões sobre aquilo a que vale a pena aspirar e de que modo essas aspirações
podem ser reforçadas através de bens materiais. A consonância nestes aspectos
manifesta-se por convenções de gosto, classe e moda que caracterizam uma cultura
em todos os momentos da história.
Consequentemente, a possibilidade de um vanguardismo no design é mais restrita
do que nas belas-artes — o que é óbvio, porque, se o design estiver muito avançado
relativamente à compreensão das pessoas, deixará de corresponder às suas
expectativas enquanto consumidores, perdendo-as enquanto tal. Na actualidade, as
belas-artes deixaram de valorizar a ideia de que o vanguardismo deve ser acessível ao
grande público, pelo que a maioria das pessoas o ignora.
Existem importantes diferenças ao nível económico entre arte e design; mas a
estrutura e as ambições de artistas e designers confundem-se por vezes no campo do
design de luxo e do artesanato de qualidade, áreas em que a exclusividade é um valor
em si e em que o valor estético apenas pode ser reconhecido pelos conhecedores. Um
exemplo deste facto foi o mobiliário produzido em Milão pelo Grupo de Memphis em
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princípios dos anos oitenta. O seu trabalho não atraiu o público, mas esse não parece
ter sido alguma vez o objectivo; foram os museus que o compraram, enquanto símbolo
de um fenómeno cultural, no que foram imitados por alguns coleccionadores ricos.
De uma maneira geral, os designers e os fabricantes não se podem dar ao luxo de
estar muito avançados em relação aos gostos dos consumidores nem do que os
preocupa — sobretudo numa época de crescente consciencialização para questões
ecológicas. Mas isto não significa que o consumidor esteja na origem de todas as
influências dos designers e fabricantes. Fazem-se experiências, avança-se uma ou
outra provocação, testam-se coisas nunca pedidas nem sequer esperadas pelo
consumidor.
Para aguçar o apetite dos potenciais consumidores, o fabricante recorre aos
serviços dos especialistas na matéria, as agências de publicidade. Os publicitários
contribuem para a construção dos valores que moldam o consumismo. Os diferentes
elementos — design, consumismo e construção da imagem do consumismo através da
publicidade — mantêm uma relação bastante instável: o processo é contínuo, como
verter tintas de óleo sobre a água e vê-las misturar-se. Umas vezes conseguimos ver
em que ponto as cores se tocam; outras, é impossível determinar a fronteira entre elas.
Os matizes gerados pelogrande consumo.
Todo o design envolve, aberta ou dissimuladamente, a expressão de valores. Neste
livro, analisam-se as seguintes categorias de objectos:
1 Objectos de consumo duráveis: tais como secadores de cabelo, chaleiras
eléctricas e aspiradores.
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Artesanato: cerâmica, mobiliário, téxteis ou joalharia, feitos à mão.
3 Artefactos de design de luxo: peças que, tendo sido desenhadas por arquitectos
ou designers conceituados, exigem uma grande quantidade de mão-de-obra
especializada (aqui se incluem produtos de preço elevado, como automóveis, relógios
e serviços de chá).
A estrutura do livro reflecte a importância de quatro temas — o contexto económico
do design e da produção, incluindo o fabrico artesanal; o papel desempenhado pelas
novas tecnologias na abertura de possibilidades aos estilistas; a relação entre fabrico,
consumo e realização pessoal; a necessidade crescente de enquadrar o design nos
valores mais elevados da sociedade — saúde e segurança, realização profissional do
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indivíduo e responsabilização face ao meio ambiente. Este livro não se baseia,
portanto, nas histórias e percursos de designers individuais.
A nossa relação com o consumismo, neste final do século XX, é ambígua; apesar de
se reconhecer o êxito e o prazer tomados possíveis pela cultura do consumismo, a
actual espiral de excessos não pode continuar sem que haja estruturas nacionais e
internacionais para regulamentar o fabrico dos produtos de consumo. Estamos a
exercer demasiada pressão sobre o planeta e defrontamo-nos já com o perigo real de
o envenenar. E os principais responsáveis são sobretudo o Ocidente e o Japão; o
resto do Mundo não aderiu ainda ao clube dos consumidores.
O design e o estilo, o primeiro capítulo, define o âmbito de todo o livro e explica a
distinção entre “abaixo” e “acima da linha”, que permite identificar separadamente o
design enquanto processo estilístico e enquanto produto da engenharia.
No capítulo 2, Noventa anos de design, define-se o contexto económico geral que
esteve na raíz da modificação estilística verificada no design do século XX, com
especial ênfase na economia e na política externa dos Estados Unidos. Considera-se
frequentemente que a guerra é um motor de inovação e de progresso do design, e há
boas razões para que assim seja. O capítulo 3, Como duas gotas de água, demonstra
que muito se fez em prol do design também em tempo de paz, através da dinâmica do
próprio consumismo — em larga medida auxiliado pelas indústrias de armamento e
aerospaciais, sustentadas, como em tempo de guerra, pelos impostos e não por
políticas comerciais baseadas no lucro. No entanto, o capítulo incide
fundamentalmente na contribuição estilística dos novos materiais.
O panorama doméstico actual (capítulo 4) começa por analisar o design e o estilo
das ferramentas, passando em seguida às “pseudoferramentas”. Assim, as máquinas
de lavar são consideradas “verdadeiras ferramentas”, enquanto a máquina de
fotografar SLR 35 mm, com todos os seus acessórios, é considerada uma
“pseudoferramenta”. Debate-se ainda o papel do simbolismo e significado do estilo no
produto questões recorrentes, sob diferentes formas, ao longo do livro.
Assim, o capítulo 5, Design de luxo, detém-se no papel do simbolismo no marketing
dirigido aos ricos ou aspirantes a ricos, salientando a importância do artesanato neste
sector.
O trabalho dos artesãos é o tema principal do capítulo 6, Valorizar a produção
manual. Aí se defende a tese de que o artesanato contemporâneo é uma invenção do
século XX e de que o seu significado se forja não só na sua oposição ao design e à
indústria, mas também pelo seu distanciamento da ética da concorrência dos preços.
O capítulo final, Futuros do design, enuncia dois tipos de abordagem para o design:
a conservação e o conservadorismo. Agora que os consumidores dispõem de uma
enorme variedade de objectos, o próximo passo no percurso lógico do consumismo
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(que está a desenrolar-se perante os nossos olhos) é a preocupação com o meio
ambiente. No design, como em qualquer actividade, há lugar para o cepticismo. Mas
ao aproximar-se o termo do século XX temos de acreditar no futuro se quisermos
encontrar o que torna a vida tolerável—os valores inatos.
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ÍNDICE GERAL DA OBRA:
PREFÁCIO
1 O DESIGN E O ESTILO. A relação entre estilo e engenharia:
Acima e abaixo da linha - Estilos agradáveis à vista - Não há artesãos
2 NOVENTA ANOS DE DESIGN. O estilo em design desde 1900 OS FUTUROS DO DESIGN:
O direito de escolha - A economia norte-americana e o design do século XX
3 COMO DUAS GOTAS DE ÁGUA. O impacte dos novos materiais
Os valores do plástico:
A revolução da supercondutividade- As limitações da carne - E o Homem criou a
máquina - A infra-estrutura incorpórea
4 O PANORAMA DOMÉSTICO ACTUAL. O design e o lar:
Os instrumentos que prolongam o corpo humano - A alma da máquina - Emoções face
ao objecto - Valores em mudança
5 DESIGN DE LUXO. O luxo do design
A deificação do dinheiro - Objectos paradisíacos - Feitos à mão - Objectosde figuração
6 VALORIZAR A PRODUÇÃO MANUAL. O artesanato de atelier e significado do seu estilo
autónomos?
David Pye - O percurso do artesão - Libertação face ao mercado - Realizaçãopessoal O estilo do artesanato - Uma estética de oposição?
7 OS FUTUROS DO DESIGN. Conservação e conservadorismo
Publicidade e ideologia - Ouro de lei - O design e as raízes da sociedade
NOTAS
ILUSTRAÇÕES
ÍNDICE REMISSIVO
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Introdução