FATOS E PROCESSOS DO
DESENVOLVIMENTO LINGUISTICO DE SURDOS: UM ESTUDO DE CASO1
JORGE, Izéle Rodrigues2; PINHEIRO Daiane3; ABREU, Josiele Almeida4;
RAMBURGER, Janice Saratt5.
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Trabalho de Iniciação científica – disciplina de desenvolvimento lingüístico e educação de
surdos_UFSM
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Curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), RS, Brasil.
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Professora Orientadora - departamento de Educação Especial da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil.
4
Curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS,
Brasil.
5
Curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS,
Brasil.
E-mail: [email protected]; [email protected], [email protected];
[email protected]
RESUMO
Esse estudo objetivou olhar para as questões do desenvolvimento lingüístico de sujeitos surdos
permeando pela importância de uma aquisição de língua, cultura e identidade. Dessa forma,
iniciamos pensando nos conceitos de língua e linguagem para discutir a importância da estruturação
lingüística dos surdos, entendendo a Língua de Sinais como fundamental para o desenvolvimento
cognitivo desses sujeitos. Para isso, foi entrevistado um adulto surdo estudante em uma escola de
surdos de Santa Maria – RS na turma da EJA, dando direcionamentos específicos ao seu processo
de desenvolvimento lingüístico. Tomamos como abordagem metodológica o estudo de caso, fazendo
articulações bibliográficas que referenciaram e justificaram o caso em questão. O caso estudado
ratifica a importância de uma estruturação lingüística para desenvolvimento da linguagem humana.
Dessa forma, os surdos precisam adquirir a Lingua de sinais para estruturar o pensamento e se
desenvolver cognitivamente.
Palavras-chave: Desenvolvimento linguístico. Língua de sinais brasileira. Desenvolvimento cognitivo
INTRODUÇÃO
Os direcionamentos que buscamos apontar nesse estudo foram orientados pelas
discussões fomentadas na disciplina de Desenvolvimento Linguístico e Educação de
Surdos, ofertada no curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria.
Dessa forma propomos pensar primeiramente nos conceitos de língua e linguagem para
discutir a importância da estruturação lingüística dos surdos, entendendo a Língua de Sinais
como fundamental para o desenvolvimento cognitivo desses sujeitos.
É por meio da aquisição da língua que os humanos constituem a linguagem, e esse
processo é requisito para dar significados as coisas, dessa forma, o ser humano se
constituiu a partir da linguagem. Para Fernandes (2003, p.38)
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A garantia do domínio de uma língua desde os primeiros meses de idade é
fator fundamental para o desenvolvimento natural do indivíduo. Por esta
razão (entre outras, de ordem sociocultural), defendemos a aquisição da
língua de sinais como primeira língua do surdo.
Para a autora a língua é considerada um tipo de linguagem, porém a linguagem não
é um tipo de língua. Essa explanação ratifica as considerações pensadas anteriormente,
colocando língua e linguagem em uma mesma ordem constitutiva de sujeitos, ou seja,
pensar na aquisição de uma língua natural é dar a base para o desenvolvimento cognitivo
humano.
A partir dessas considerações sobre língua e linguagem, e entendendo que os
surdos precisam adquirir a Língua de Sinais como primeira língua no seu processo de
desenvolvimento, é possível direcionar as objetivações desse estudo.
Este trabalho objetiva pensar o desenvolvimento lingüístico de sujeitos surdos
tomando como parâmetro de discussão um estudo de caso realizado com um adulto surdo,
estudante da EJA na Escola Estadual Dr. Reinaldo Fernando Coser. Tal trabalho foi prérequisito para aprovação na disciplina referida anteriormente e objetiva trazer articulações
sobre o histórico educacional do sujeito entrevistado, dando ênfase no seu processo de
aquisição da Língua de Sinais Brasileira.
ENCAMINHAMENTOS DE PESQUISA
Tomamos como abordagem metodológica desse trabalho o estudo de caso
buscando referências que identifiquem o contexto histórico específico do sujeito surdo
entrevistado. Ponte (1994, p. 2) considera que o estudo de caso
É uma investigação que se assume como particularística, isto é, que se
debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser
única ou especial, pelo menos em certos aspectos, procurando descobrir a
que há nela de mais essencial e característico e, desse modo, contribuir
para a compreensão global de um certo fenômeno de interesse
Prioriza-se tomar o caso narrado como uma base de discussão sobre o
desenvolvimento lingüístico de sujeitos surdos, dessa forma, a pesquisa toma um caráter
bibliográfico, trazendo em meio aos direcionamentos, um levantamento de idéias,
pensamentos e orientações de autores que conversam com essa área de estudo.
Para coleta da materialidade de pesquisa foi feita uma entrevista filmada com um
surdo adulto de 36 anos, na própria escola em que ele estuda, utilizando a Língua
Brasileira de Sinais. Esse estudo irá identificar tal sujeito pela letra “E”. Para dar forma aos
dados coletados foram feitas análises parciais, articulando os relatos históricos desse
sujeito com os processos de desenvolvimento lingüístico.
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NARRATIVAS HISTÓRICAS DO SUJEITO SURDO: TECENDO ANÁLISES
“E” nasceu ouvinte e teve na infância um desenvolvimento lingüístico normal através
da aquisição da língua oral. No entanto, aos 7 anos perdeu a audição em função da doença
meningite e a partir daí deixou gradativamente de utilizar sua língua, até então natural.
O fato de ter perdido a audição no mesmo período do inicio da escolarização gerou
diversos problemas para o seu desenvolvimento linguístico e, portanto cognitivo. “E”
utilizava gesto criados por seus irmãos para facilitar a interação na família, no entanto, na
época, era impedido de usar esse método na escola em que estudava.
O aluno tornou-se surdo em um momento muito importante do seu desenvolvimento
cognitivo, pois o aluno estava ingressando na vida escolar e além das aprendizagens
escolares tinha que aprender uma nova maneira de comunicar-se, ainda desconhecida por
muitos professores da época. Dessa forma, o “E” enfrentou nesse período uma grande
dificuldade em comunicar-se com colegas e professores e consequentemente de constituir a
linguagem, organizadora do pensamento.
Goldfeld (1997, p. 18) toma Vygostky para
explicar a função da linguagem
Uma importante noção de Vygotsky é o fato de perceber a linguagem não
apenas como uma forma de comunicação, mas também como função
reguladora do pensamento. O conceito de fala se refere à linguagem em
ação, a produção linguística do falante no discurso. Vygotsky cita três tipos
de fala: social, egocêntrica e interior. Provavelmente, o autor utiliza o termo
fala e não linguagem, pois se refere à produção do individuo. A fala tem
uma conotação de ação e envolve o contexto.
O aluno relatou que iniciou sua escolarização na cidade de São Pedro do Sul- RS,
em uma escola da rede regular de ensino. Tal instituição, na época, seguia padrões de
ouvintização, entendo a condição da surdez como uma deficiência a ser normalizada. Essa
normalização estava na ordem do oralismo, método difundido na época.
Para Skliar (1997), a língua oral como método de ensino de sujeitos surdos não
demanda de aparatos efetivos para seu desenvolvimento, pois tais estratégias tornaram-se
historicamente perversas dentro de muitas instituições de ensino. Nessa configuração de
ensino está impressa a representação clínica da surdez. O autor comenta que isso
significa orientar toda a atenção à cura do problema auditivo, à correção dos
defeitos da fala, ao treinamento de certas habilidades menores, como a
leitura labial e a articulação, mais que à interiorização (...) da Língua de
Sinais (SKLIAR, 1997, p. 111).
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Dessa forma, o surdo narrado sobre essas concepções e constituído nesse sistema
não tinha uma língua estruturada, tornando-se dependente e subordinado aos ouvintes.
Esse cenário é relatado por “E”, o qual coloca ênfase a visão clínica da Educação
Especializada na época em que se buscava a normalização de sujeitos, punindo os que não
se encaixavam ou tentassem fugir a esse padrão de ensino.
Ao problematizar as estratégias de adestramento e a constituição do sujeito
a ser corrigido, Foucault (2002) discute, em Os anormais, sujeito incapaz,
produzido pelos discursos como incompleto, imperfeito, a ser normatilizado.
O filosofo apresenta uma figura que demonstrava a perversidade a qual
essas pessoas, os anormais, eram tratados. Na concepção adotada, o
surdo, também produzido pelo discurso da falta e, assim, da deficiência,
entra na ordem disciplinar do corpo, sendo ajustado aos padrões ouvintes.
(PINHEIRO, 2011, p. 33)
Essa formatação de ensino contradiz os atuais discursos sobre a educação de
surdos, os quais vem fomentando o respeito a língua natural desses sujeitos. Goldfeld
(1997), argumenta a importância da adequação de um ambiente linguístico favorável a
criança surda, priorizando a aquisição da língua de sinais e consequentemente evitando os
atrasos no desenvolvimento cognitivo desses sujeitos.
Diante a tais dificuldades relatadas, “E” parou de estudar aos 20 anos por não
compreender os conteúdos e não interagir com os colegas. Atualmente trabalha e mora
sozinho na cidade de Santa Maria-RS. Voltou a estudar no ano de 2010 e no momento está
no 2º ano. Observando a realização das atividades com o aluno percebemos que ele
apresenta muitas dificuldades em compreender e internalizar conteúdos. Acreditamos que
grande parte das dificuldades de “E” tenha origem no inicio de sua escolarização devido a
falta de compreensão da escola sobre diante da surdez do aluno. Essa visão que havia do
sujeito como incapaz gerou dificuldades que acompanham o aluno ate os dias de hoje.
O aluno não é alfabetizado, não possui um amplo vocabulário em Libras e, por isso,
muitas vezes não compreendemos o que ele sinaliza e nem ele compreende o que
sinalizamos. Para Goldfeld (1997, 108) “a língua de sinais será a língua mais utilizada na
construção da fala interior e exercerá a função planejadora da linguagem, já que esta língua
é mais fácil e natural para o surdo”.
Um dos motivos da falta de entendimento tanto dele quanto dos professores é o fato
de ter sinais próprios, trazidos de casa. Na maioria das vezes, durante as atividades ele
concorda com o que dito (sinalizado), mas na hora de realizá-las encontra dificuldades e não
procura esclarecer suas duvidas.
É fato que a aquisição da língua de sinais pelos surdos é fundamental para
o desenvolvimento cognitivo deles (...), sendo dessa forma pela qual a
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linguagem constitui-se e permite a representação sobre as coisas
(PINHEIRO, 2011, p 37-38).
A língua de sinais deve ser priorizada no ensino dos surdos, deve haver uma
compreensão de que eles aprendem através de maneira visual gestual para que eles
possam se desenvolver de maneira efetiva.
CONCLUSÃO
A partir dos relatos, podemos entender o quanto é importante a experiência visual e
o contato com sujeitos surdos para o aprendizado e formação da identidade do aluno surdo,
eles compreendem o mundo de maneira diferente e esse aprendizado é facilitado quando
acontece em contato com pessoas que compreendem o mundo da mesma forma, em
contato com sujeitos surdos.
A voz dos surdos são as mãos e os corpos que pensam, sonham e
expressam. As línguas de sinais envolvem movimentos que podem parecer
sem sentido para muitos, mas que significam a possibilidade de organizar
as idéias, estruturar o pensamento e manifestar o significado da vida para
os surdos. Pensar sobre a surdez requer penetrar no “mundo dos surdos” e
“ouvir” as mãos que, com alguns movimentos, nos dizem o que fazer para
tornar possível o contato entre os mundos envolvidos, requer conhecer “a
língua de sinais”. Permite-se “ouvir” essas mãos, pois somente assim será
possível mostrar aos surdos como eles podem “ouvir” o silêncio da palavra
escrita. (QUADROS, 1997, p. 119).
O surdo percebe o mundo de maneira visual, sua língua é visual e por isso é muito
importante que tenha contato desde muito cedo com a língua de sinais, seja na família, na
escola ou em contato com a comunidade surda, pois isso possibilitará um melhor
desenvolvimento linguístico que servirá como base para um desempenho escolar positivo.
Fernandes (2003, p. 150) destaca que
A aquisição da língua de sinais destaca-se dentre todos os recursos
necessários para o seu desenvolvimento. Garantimos, assim, o espaço de
sua identidade na sociedade (...) garantimos a presença de um instrumento
de comunicação com o meio (...) oferecemos uma infra-estrutura capaz de
prover o acesso à educação, mais especificamente ao conteúdo escolar;
garantimos o suporte imediato as necessidades prementes da maturação
dos processos cognitivos. Ao dominar a língua adquirida de modo natural e,
consequentemente, acesso mais eficaz ao português, como segunda
língua.
Conforme a autora é pela língua de sinais que acontece o aprendizado de uma
segunda língua, no caso a língua portuguesa. Não se pode negar a importância de uma
língua escrita, presente na realidade social em que os surdos estão inseridos. A língua
escrita é necessária para estarem inseridos de maneira efetiva na comunidade em que
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vivem. Essa é uma das importâncias sociais da aquisição lingüística dos surdos. O
aprendizado da língua portuguesa é uma conseqüência do desenvolvimento cognitivo e da
aquisição da LIBRAS. Nessa analogia, a inserção educacional e social dos surdos esta
dependente do desenvolvimento lingüístico, e portanto da constituição e estruturação
cognitiva pela Língua de Sinais.
REFERÊNCIAS
FERNANDES, E. Linguagem e Surdez. Porto Alegre: Editora ArtMed, 2003.
GOLDFELD, M. A criança surda: Linguagem e cognição numa perspectiva sóciointeracionista. São Paulo: Plexus, 1997.
PINHEIRO, Daiane. Atravessamentos culturais na ruralidade: produzindo verdades sobre os
sujeitos surdos/por Daiane Pinheiro. – 2011.
PONTE, J. P. (1994). O estudo de caso na investigação em educação matemática.
Disponível em:
<http://br.librosintinta.in/biblioteca/ver-pdf/www.educ.fc.ul.pt/docentes/jponte/docs-pt/94Ponte(Quadrante-Estudo%2520caso).pdf.htx> Acesso em: 06 Abril 12.
QUADROS, R. M. Educação de Surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Editora
ArtMed. 1997.
SKLIAR, C. Uma perspectiva sócio-histórica sobre a Psicologia e a Educação dos Surdos.
In: Educação e Exclusão: abordagens sócioantropológicas em Educação Especial,
Cadernos de Autoria, p. 105-153. Porto Alegre: Editora Mediação, 1997.
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