FREUD E FOUCAULT: PSICANÁLISE E DOMINAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE
JOSÉ MANUEL DE SACADURA ROCHA
A obra de Sigmund Freud – a quem Foucault se refere nos últimos tempos como
aquele que “relançava com admirável eficácia, digna dos maiores espirituais e diretores
da época clássica, a injunção secular de conhecer o sexo e colocá-lo em discurso”
(História da Sexualidade - 1. A vontade de saber, 2009:173) - em muitos aspectos pode
explicar nossa lógica do trabalho, quando define a necessidade de transformar desejos
reprimidos em produção. Desde seus primeiros trabalhos a concepção de uma energia
vital que não pode realizar todos seus desejos é mola propulsora do mal-estar e da
violência humana. Essa repressão que o convívio social imprime ao instinto, essa
obrigação de refrear os impulsos mais bestiais, essa frustração afinal da alma não poder
ser o que efetivamente é e deseja cria tensão, fornece energia, que por meio de um
mecanismo sócio-psíquico, se transforma em criatividade produtiva e impulsiona a
civilização. A tese de Freud fornece também a explicação da formação da sociedade
disciplinar: para este fim, para que o espírito humano seja obediente ao convívio social
e sublime seus desejos mais íntimos, uma constelação de pequenas e grandes
instituições disciplinares precisam ser inventadas. Neste sentido, a expressão “máquina
de guerra”, inventada por Delleuze, parece apropriada: existe uma guerra entre o Id e o
Superego, entre a liberdade absoluta e a possível oferecida pela sociedade; a libido é
estrangulada a ponto de deixar escapar sua energia pelo funil que o Ego cria como
trabalho. A sociedade disciplinar oferece a domesticação para o Ego e ao mesmo tempo
a realização possível na exploração produtiva da libido. “Nenhuma outra técnica para a
conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a ênfase
concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte
da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de
deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos,
agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos
humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em
segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e
justificação da existência em sociedade (Freud: O Mal-Estar na Civilização, 1974:37).
De forma instigante Freud e Foucault se complementam: um diz como funciona,
ou não funciona, a domesticação psíquica do indivíduo, o outro diz como essa
domesticação tem uma história na vida real e produtiva dos homens, uma vida que está
na base de um poder mais forte do que as práticas da política regular, por ser mais
dissimulado e disseminado, escondido nas consciências mundanas de que somos um
mal a ser tratado e uma máquina a ser preparada para o trabalho. O pós-estruturalismo
de ambos1 - se assim pode-se falar de Freud?! - parte de outras categorias mais
universais, a psique, o inconsciente, a energia domesticada do inconsciente, os
dispositivos disciplinares dessa energia, o trabalho afinal não como dádiva da
humanidade, mas como maldição bíblica: o poder estaria assim antes nas formas de
disciplina e controle da tensão libidinal do que na propriedade das ferramentas e formas
de produção. Em tese, ainda que Foucault tenha acabado por ver na psicanálise um
instrumento de domesticação para a sociedade disciplinar se fortalecer, ele se aproxima
de Freud quando refuta a idéia que a dominação e exploração do homem pelo homem
sejam típicas construções de lutas de classes, e, portanto, poderiam ser eliminadas a
partir de intervenções político-revolucionárias nos modos produtivos estruturais das
sociedades. Como Freud, essas lutas parecem ter um peso menor do ponto de vista da
psicologia por detrás do poder sobre os mecanismos de dominação que se verificam no
nível da energia canalizada pelo trauma original de sublimação do ID. Quando Michel
Foucault se distancia do marxismo se aproxima da psicanálise.
O fato das formas de dominação política e exploração econômica entre os
homens se modificarem ao longo da história não invalida a dominação da vida social a
1
“O conjunto de relações e formas sociais de existência material é que Lévi-Strauss vai denominar
estrutura. Uma estrutura, nesta visão, então, é o conjunto de relações sociais específicas de uma
determinada organização da produção para a vida em grupo, como no caso do parentesco e liderança
mágica, que está na origem das funções superficiais observáveis das instituições culturais” (José Manuel
de Sacadura Rocha: Antropologia Jurídica: Para uma filosofia antropológica do Direito, 2008: 26). Na
década de 60 e 70 o Estruturalismo era o método mais cultuado nas Ciências Humanas. Grande parte
desse sucesso se deveu aos estudos antropológicos de Lévi-Strauss, inclusive a partir de seus estudos
dos Índios brasileiros. As obras de Foucault não podiam estar imunes a esse verdadeiro “fanatismo”
metodológico. Mesmo não sendo um estruturalista de “carteirinha”, Foucault tinha ciência da
importância do método para a renovação da ciência. Com o passar do tempo, mais e mais sua obra se
atualizou no sentido de ultrapassar o “determinismo” das relações sociais como base de todas as
explicações da história dos homens e seu devir, inclusive das concepções estruturalistas marxistas, o
que lhe rendeu depois o título de pós-estruturalismo. Por exemplo, na obra de Foucault o poder não é a
superestrutura que emana da dominação de classe das forças produtivas e da determinação ideológica
das relações sociais de produção, nem tampouco as relações sociais gerais são puramente determinadas
por aquelas, mas o poder é, sobretudo, uma trama de relações sociais gerais que demandam saberes
especializados e que, deste modo, exercem dominação e submissão a partir de seus papéis
socioeconômicos, paralelamente e apesar das determinações do poder central.
partir de máquinas de guerra energéticas. Os dispositivos de domesticação em prol da
produção estão presentes desde os primórdios da civilização, mesmo na produção
comunista inicial e na convivência gentílica. Por outro lado, o caráter agressivo do
homem teima através dos tempos em se manifestar como reação àquela primordial
frustração na admoestação do inconsciente. Não existe civilização sem violência, a
começar pela violência primordial contra o instinto, contra o desejo, contra a energia
mais espontânea e criativa. As escaramuças e os ódios entre indivíduos, as guerras entre
classes sociais, as revoluções, as conquistas sanguinárias, os ódios entre povos e as
guerras entre as nações, são a chave da história e da epopeia humana na Terra. Na
verdade os períodos mais sombrios e os momentos mais ensanguentados são as
“minhocas” do tempo2, ao mesmo tempo os buracos e os túneis de formação e de escape
de nossa existência. Canalizamos nossas frustrações nesses momentos de desvario
vingativo.
É conhecida a idéia de Freud de que o socialismo não pode resolver o Mal-Estar
na Civilização: “Abolindo a propriedade privada, privamos o amor humano da agressão
de um dos seus instrumentos, decerto forte, embora, decerto também, não o mais forte;
de maneira alguma, porém, alteramos as diferenças em poder e influência que são mal
empregadas pela agressividade, nem tampouco alteramos nada em sua natureza. A
agressividade não foi criada pela propriedade” (1974:73). Foucault compartilhava esta
opinião, na medida em que a violência pode ocorrer ou não como conseqüência das
estratégias das “relações de poder”. Em um debate em 1971 com Noam Chomsky
(1928) e outros intelectuais, Foucault defendia a ideia de que a ocorrência de estratégias
de guerra e violência não dependia de sistemas econômicos ou políticos, ao contrário de
Chomsky que acreditava que essa violência dependia diretamente dos sistemas e
regimes políticos. Assim, para Chomsky uma sociedade que primasse por justiça social,
por exemplo, fundada na base de uma revolução proletária, aboliria práticas de poder
autoritárias e desumanas. Já Foucault combatia essa ideia e procurava demonstrar que
2
É conhecida a tese de Marx de que a história se repete: “Hegel observa em uma de suas obras que
todos os fatos e personagens de grande importância da história do mundo ocorrem, por assim dizer,
duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. E
acrescentou logo a seguir que “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem;
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,
ligadas e transmitidas pelo passado” (O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In Obras Escolhidas, v.1,
s/d:203). Um “buraco de minhoca” é um conceito da física moderna onde seria possível viajar no
espaço-tempo para trás e para frente no universo.
“[...] se a justiça está em jogo em um combate, é como instrumento de poder; não é a
esperança de que, finalmente, um dia, nessa sociedade ou em outra, as pessoas serão
recompensadas de acordo com seus méritos, ou punidas conforme suas faltas. Melhor
do que pensar a luta social em termos de justiça, é preciso enfatizar a justiça em termos
de luta social” (Da Natureza Humana. In Ditos & Escritos IV, 2006:121). Essa
impossibilidade de resolver de forma “idealista” pela reformulação dos processos
descritivos e discursivos a violência humana e o autoritarismo, ou mesmo
revolucionando a “estrutura” produtiva de uma sociedade, sem levar em consideração
que essa violência e autoritarismo estão sempre relacionados com as “relações de
poder” dadas, foi sempre um ponto central no pensamento de Foucault. Nessa mesma
entrevista Foucault ainda salienta “que o proletariado não faz guerra à classe dirigente
porque ele considera que essa guerra seja justa. O proletariado faz guerra à classe
dirigente porque, pela primeira vez na história, ele quer tomar o poder. E porque ele
quer derrubar o poder da classe dirigente ele considera que essa guerra é justa” (Da
Natureza Humana. In Ditos & Escritos IV, 2006:122). Obviamente que Chomsky
continuou a discordar. No entanto é sabido que a ex-União Soviética foi um dos regimes
mais autoritários e ditatoriais já existentes, e que, apesar de ter revolucionado as
formações econômicas estruturais da sociedade burguesa, foi um dos regimes que mais
fez experimentos desumanos de psicologia experimental, e os aplicou de fato, tanto a
inimigos do Estado como aos seus colaboracionistas, destarte ou apesar dos direitos
humanos e do ordenamento jurídico3.
Para Freud, esse “mal-estar” não estaria, todavia, dado no nível das instituições
políticas e formas de produção econômica, mas na obstinada e inexorável recusa do
instinto que se esconde no inconsciente. Evidentemente que para os homens que
acreditam na construção de uma formação econômica-política onde os homens não
sejam mercadoria e onde a riqueza social não seja usufruída de forma privada, a
3
Thomas Szasz, no livro O Mito da Doença Mental, fala a respeito do comportamento dos médicos
soviéticos: “Podemos observar agora uma semelhança reveladora entre o papel do médico soviético e o
papel do médico europeu do século XIX. Tanto um quanto o outro tendem a diagnosticar a maioria de
seus pacientes como doentes simulados. As razões para isso são agora evidentes: em ambos os casos, o
médico é um agente da sociedade (ou de alguma instituição social), e não do paciente; nos dois casos, o
médico tacitamente adota e sustenta os valores dominantes da sociedade, especialmente quando esses
valores dizem respeito ao ‘papel correto’ do paciente no grupo. O médico soviético não só se identifica
como também serve aos interesses do Estado comunista: ele acredita, por exemplo, que o trabalho
forçado onde ‘se necessita de pessoas’ seja necessário para o bem-estar do indivíduo e da sociedade”
(s.d.:70-71).
afirmativa de Freud só pode ser mal interpretada. Da mesma forma, Foucault que havia
visto na psicanálise algo de inovador a construir um novo homem (As Palavras e as
Coisas: As Ciências Humanas - V. Psicanálise,Etnologia) para o “além do homem”
nietzscheniano, com base na percepção e conhecimento dos mecanismos do
inconsciente, passa a ver nela um instrumento de recalque, um dispositivo de
domesticação da personalidade, uma máquina de instrumentação justificativa da
exploração das energias humanas. É neste sentido também, que Delleuze e Guattari
escrevem o Anti-Édipo. Embora reconhecendo que a psicanálise descobre as “máquinas
do desejo” e que ela “abalou o conjunto da medicina mental”, estes autores afirmam que
“Freud descobre o desejo enquanto libido, desejo que produz, e ao mesmo tempo realiena sem parar a libido na representação familiar (Édipo)” (Guattari: Entrevista sobre
o Anti-Édipo in Gilles Deleuze: Conversações, 1998:27).
Assim, Freud passou a ser amaldiçoado por socialistas e por individualistas,
como havia acontecido em relação ao puritanismo tardio do período vitoriano4: parecia
que as idéias de Freud apontavam para o fracasso da política, da autogestão, da vontade,
da moral, da religião e do direito. Nenhuma destas instâncias filosóficas e práticas
poderiam evitar a violência e civilizar de fato o ser humano, e ao tentar fazê-lo sempre
seria a castração da vontade e da potência de “ser-para-si-mesmo”.
Mas essa máquina de guerra desejante freudiana, por outro lado, também pode
explicar os grandes feitos da civilização, os longos períodos em que a humanidade
conseguiu refrear seus impulsos mais instintivos, os momentos em que afinal a
diplomacia e a paz puderam ser vitoriosas ao se reconhecer que a política e o direito
podem ser ferramentas úteis para edificar máximas morais maiores como Kant
apregoava no findar do século XVIII: a liberdade de um homem termina quando
começa a liberdade de outro! Se lembrarmos de que não existe civilização humana a não
ser pelo convívio social, gostemos ou não dele, o fato mais indiscutível é que até o
4
Em meados do século XVII – de 1627 a 1658 – a Inglaterra viveu um período de guerra civil entre
partidários da monarquia e republicanos. Os republicanos, que acabaram por conseguir condenar à
morte o rei Carlos I em 1649, eram cristãos fervorosos que tinham na moral e ética religiosas os
princípios basilares de suas condutas consideradas extremamente pudicas, filosofia conhecida por
Puritanismo. A personagem central deste movimento republicano de configurações puritanas é Oliver
Cromwell, que acabou por se tornar um soberano absoluto após dissolver o parlamento inglês, tendo
governado até sua morte em 1658. Este puritanismo volta a ter alguma importância política na
Inglaterra durante o reinado da rainha Vitória I (1837-1901). À época da produção científica de Freud,
no início do século XX, a Europa ainda sentia os efeitos da ortodoxia e atraso provocados por uma
exacerbação da moral cristã, o que, obviamente, influenciará as obras de vários autores.
porco-espinho encolhe seus espinhos para conviver com seus semelhantes. Freud não
estava imbuído de edificar uma teoria a serviço da domesticação e dos mecanismos
disciplinares das sociedades modernas. Na verdade esses mecanismos sempre existiram
e provavelmente sempre existirão, com pena de se os abolirmos por completo mergulhe
definitivamente a humanidade em o mais completo caos. Talvez Espinosa tenha razão e
seja possível construir dispositivos de autocontrole de nossos desejos ilimitados: “Todas
as afecções de ódio são más; e, por conseguinte, aquele que vive sob a direção da Razão
esforçar-se-á, quanto puder, por conseguir não ser dominado pelas afecções de ódio, e
consequentemente, esforçar-se-á também por que outrem não sofra as mesmas afecções.
Mas o ódio é aumentado pelo ódio recíproco, e, ao contrário, pode ser extinto pelo amor
de tal maneira que o ódio se converta em amor. Logo, aquele que vive sob a direção da
Razão esforçar-se-á por compensar o ódio, etc., de outrem pelo amor, isto é, pela
generosidade” (Demonstração da Proposição XLVI: Ética IV in Os Pensadores,
1983:252).
O fato de a teoria psicanalista ser tão discutida hoje, bem como a importância do
trabalho de Foucault, provém do fato de que em nenhum outro período da história antes
da modernidade as tecnociências haviam colocado a questão da perda quase inconteste
da liberdade em nome da maximização indescritível da energia psíquica humana a
serviço da produção de bens materiais e imateriais, muitas vezes sem racionalidade e
sem fundamento, transformando a vida e o próprio homem em coisas absolutamente
supérfluas – supérfluas as coisas e os homens! Logo, nunca antes os homens
experimentaram sua vida tão domesticada pelas instâncias do poder disciplinador, nunca
como agora palpita entre nós de forma sub-reptícia a maximização do supérfluo como
produto da domesticação da energia vital, em nome de uma vontade e poder que já não
nos pertence, que não tem mais a ver com a convivência e inegável limitação do
convivo social, mas de uma espécie de produção da vida sem consciência, o triunfo do
império do medo sobre a esperança, do tecnocientificismo sobre a criatividade, do
arregimentar sobre a liberdade, da massa disforme e sem vontade sobre o indivíduo
político, do terror sobre o amor, afinal o espezinhar do homem pela máquina.
Em Freud, como antes em Kant ou em Hegel 5, ainda era possível ver a perda de
algo de minha liberdade e o afunilar de minha libido como um ato em favor da
5
Para Immanuel Kant (1724-1804) existe uma luta intestina entre Imperativos: o Imperativo Categórico
e o Imperativo Hipotético. O primeiro representa a ética ontológica, quer dizer, que permanece imersa
no espírito humano, portanto uma qualidade nata do homem. O segundo representa, grosso modo, os
humanidade, quando crio a Política para a convivência e a governabilidade dos povos,
quando crio as máximas morais como alicerce de um direito que pretende ser doação ao
outro, ou mesmo a Religião quando pretende atemorizar em nome do semelhante.
Esperávamos que a modernidade nos livra-se dessa retórica de autoflagelação,
ressentimento e penitência ascética. Esperávamos que a razão triunfasse sobre o
obscurantismo e a escravidão de sermos tão rebanho. Em vão: ganhamos a
domesticação e a vigilância capilar a servir como simples engrenagens de uma máquina
tecnocientífica sem dó e sem compaixão. Possivelmente Sigmund Freud estava mais
interessado em chamar a atenção para os mecanismos de poder e domesticação das
vontades diante das premissas produtivas das sociedades disciplinares industriais
modernas.
As filosofias anarcoindividualistas obviamente tendem a ver na sociedade
disciplinar o grande vilão do empobrecimento do espírito e a “animalização” da
humanidade, assim como repudiam todas as filosofias que a seu ver domesticam a
vontade em nome da existência de rebanho. Não há como contestar que a vida social é
restritiva e que a dominação dos desejos infinitos produz tensões indesejáveis aos
homens. A vida social o impõe. Ainda que possamos imaginar um autocontrole efetivo
de nossos desejos ilimitados a partir desse reconhecimento, e na experiência presumível
de uma liberdade que não esteja cerceada pelos mecanismos disciplinares avançados de
nossas sociedades modernas, ainda assim, em algum momento cada indivíduo terá que
compartilhar suas experiências de sobrevida com o outro. E nesses momentos
inevitáveis a limitação estará dada. Obviamente o que Michel Foucault estava
interessado em pesquisar eram as formas como essa limitação se impôs historicamente e
para onde ela caminha destarte a percepção dos indivíduos, uma percepção embutida
pelo dinamismo disciplinar de instituições capilares onde aparentemente poder-se-ia
imaginar menor coercitividade.
apelos sociais, os desejos mundanos, as possibilidades de conquista material. Em uma época de plena
efervescência mercantil, às portas da consagração da sociedade de mercado, é evidente que Kant está
apontando para uma luta entre a ética e as particularidades da sociedade capitalista. Já em Friedrich
Hegel (1770-1831), o mesmo dilema se coloca através de seus conceitos de Espírito Subjetivo e Espírito
Objetivo, sendo o primeiro portador de toda a liberdade e desejos, enquanto o segundo é portador do
sentido de realidade, na medida em que a liberdade ilimitada não é possível, pois ela se defronta com a
liberdade do outro. Este enfrentamento tem uma importância psicológica fundamental, pois coloca cada
indivíduo frente ao “inimigo” que o confronta e impede a realização de todos os desejos, trauma só
superado, na tese hegeliana, quando acredito que a máxima liberdade é a dedicação deliberada ao
outro.
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