5599 A POLÍTICA EDUCACIONAL E OS PROGRAMAS ESCOLARES DAS ESCOLAS PÚBLICAS DO RIO GRANDE DO SUL/BRASIL (1889/1930) Berenice Corsetti Universidade do Vale do Rio dos Sinos RESUMO O trabalho que apresentamos trata da política educacional implementada no estado do Rio Grande do Sul/Brasil, no que tange particularmente às orientações adotadas nos programas escolares das escolas públicas, no período de 1889/1930. Durante esse período, a sociedade rio-grandense vivenciou um processo de modernização encabeçado pelo Estado gaúcho, que adotou uma série de medidas que visaram garantir a consolidação do capitalismo na região. A implementação da escola, no âmbito das ações destinadas à expansão do ensino, integrou esse processo. O Partido Republicano Rio-Grandense, representante partidário do grupo que ascendeu ao poder na República, propôs a solução dos problemas do Estado através de um projeto de modernização justificado a partir do conjunto de idéias elaboradas por Augusto Comte. Tendo como inspiração o ideário construído por Comte, foi proposta a construção de uma sociedade racional, distinta da anterior, com o controle dos trabalhadores sendo feito através da utilização sistemática da educação moral e da prática do trabalho regular. O esforço educacional era, assim, indispensável à nova ordem. Nesse sentido, a escola pública se transformou em instrumento fundamental da política do Estado gaúcho, para a consecução dos objetivos de modernização, em paralelo à garantia da estabilidade e do controle social. Foi, portanto, nesse contexto que o projeto político dos dirigentes positivistas rio-grandenses envolveu a escola pública, a partir de uma organização educacional e de uma política do Estado para o setor da educação. O objetivo central deste estudo é apresentar os elementos fundamentais que caracterizaram os programas escolares adotados nas escolas públicas rio-grandenses, a partir da política educacional autoritária e centralizadora do Estado gaúcho. Trata-se de um estudo historiográfico, realizado com fontes primárias, trabalhadas a partir de uma leitura hermenêutica e de uma metodologia de caráter dialético. As categorias teóricas mais relevantes que adotamos na sustentação do nosso trabalho são: Estado, escola, modernização conservadora, hegemonia, política educacional, programas escolares, ciência, mercado, entre outras. Dentre as fontes que utilizamos destacamos as seguintes: a legislação do Estado do Rio Grande do Sul, do período; os regulamentos e regimentos escolares; os relatórios da Secretaria do Interior e Exterior; publicações de época. Entre as principais conclusões da investigação indicamos que a política educacional definida pelos dirigentes republicanos deu mostras de ser de caráter excludente e autoritário, características que se expandiram por toda a organização escolar riograndense. Os programas escolares foram utilizados pelos dirigentes como instrumento de formação dos rio-grandenses para os novos tempos do capitalismo. A reorganização curricular e programática efetivada nas escolas públicas do Rio Grande do Sul, na Primeira República, possibilitou a adoção de um caráter científico e técnico na estruturação dos conteúdos, o que foi importante para preparação dos trabalhadores que se faziam necessários para a realidade capitalista que os republicanos desejavam consolidar. O tipo de trabalhador que interessava ao projeto dos positivistas exigiu que a escola, além de ensinar, educasse para a disciplina, para a produtividade e para os cuidados com a saúde. A preparação para o mercado incluiu instrumentos através dos quais os governantes gaúchos encaminharam as crianças e os jovens rio-grandenses para a aceitação da lógica do capital. Assim, a análise dos programas escolares implementados por decreto nas escolas públicas do Rio Grande do Sul evidencia, de forma expressiva, a política educacional adotada pelos dirigentes republicanos de orientação positivista, no período indicado. 5600 TRABALHO COMPLETO Introdução O trabalho que apresentamos trata da política educacional implementada no Estado do Rio Grande do Sul/Brasil, no que tange particularmente às orientações adotadas nos programas escolares das escolas públicas, no período de 1889/1930. Durante esse período, a sociedade rio-grandense vivenciou um processo de modernização encabeçado pelo Estado gaúcho, que adotou uma série de medidas que visaram garantir a consolidação do capitalismo na região. Foi nesse contexto que o projeto político dos dirigentes positivistas rio-grandenses envolveu a escola pública, a partir de uma organização educacional e de uma política do Estado para o setor da educação. O objetivo central deste estudo é apresentar os elementos fundamentais que caracterizaram os programas escolares adotados nas escolas públicas rio-grandenses, a partir da política educacional autoritária e centralizadora do Estado gaúcho. Trata-se de um estudo historiográfico, realizado com fontes primárias, trabalhadas a partir de uma leitura hermenêutica e de uma metodologia de caráter dialético. A análise dos programas escolares nos possibilita perceber a extensão da política educacional republicana até as salas de aula do Rio Grande. A observação e análise dos conteúdos que deveriam ser ensinados por determinação dos dirigentes do Estado possibilita a compreensão de aspectos relevantes da escola pública rio-grandense. Estaremos priorizando o programa do ensino elementar, conforme estabelecido em 1910 para os colégios elementares, considerando que através dele podemos perceber o papel conferido aos conteúdos escolares no projeto republicano para a escola pública. Para os esclarecimentos que se fizerem pertinentes, faremos referência aos programas das escolas elementares de 1899 e o das escolas complementares. 1. Características gerais do programa do ensino elementar A tentativa feita pelos dirigentes educacionais rio-grandenses foi a de estruturar os conteúdos programáticos segundo a orientação teórico-metodológica marcada pela lógica indutiva. A introdução da perspectiva científica e a eliminação dos elementos metafísicos foram critérios alardeados e, em parte, implementados. A observação do quadro do programa do ensino elementar de 1910, que incluímos em anexo ao final deste texto, nos permite perceber que os conteúdos, de um modo geral, apresentavam um desenvolvimento gradual iniciando com os conhecimentos mais simples, que foram ampliados para os mais complexos, tendo sido mantida uma relação de continuidade, nessa direção, entre as diversas seções do programa. São bem típicos, em termos de uma exemplificação, os conteúdos relacionados ao ensino da língua portuguesa e aritmética, onde os conhecimentos foram claramente sistematizados de forma a possibilitar a compreensão do aluno a partir dos elementos mais elementares que foram sendo complexificados ao longo do estudo dessas disciplinas. O caráter prático das diversas disciplinas era insistentemente reafirmado. Assim, no ensino da língua portuguesa, a finalidade principal era fazer com que o aluno conseguisse exprimir as suas idéias, tanto verbalmente como por escrito, de maneira compreensível e correta. Todos os trabalhos escritos eram considerados exercícios de caligrafia, devendo, para este fim, depois de corrigidos pelo professor, serem passados a limpo.1 Talvez o exemplo mais expressivo da orientação indutiva nos programas das escolas elementares tenha sido o dos conteúdos de geografia, tanto no caso do programa das escolas elementares como, de forma ainda mais saliente, no programa dos colégios elementares. O início da formação dos conhecimentos geográficos era própria carteira do aluno, sua realidade mais próxima na sala de aula, para daí chegar às realidades gradualmente mais afastadas. Tudo isso era realizado de 1 Art. 8o e 16o dos programas do ensino primário de 1899. Leis, Decretos e Atos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul de 1899, p. 257-9. 5601 forma a privilegiar o concreto para dele chegar ao abstrato, com a representação dessas realidades nos mapas. Outra característica que merece ser destacada, em termos da orientação geral dos programas, é o aspecto doutrinário afirmado nos conteúdos de instrução moral e cívica. Desde o início da gestão republicana, esse caráter foi implementado. No regulamento da Instrução pública de 1897, ficou estabelecido que a instrução moral e cívica não teria curso especial, devendo ocupar constantemente e no mais alto grau a atenção dos professores.2 Todavia, a generalidade dessa orientação, deixando aos professores a deliberação da oportunidade de tratar dos conteúdos morais e cívicos, mesmo que tenha sido colocada de forma a considerar a elevada relevância dos mesmos para os dirigentes do Estado, parece não ter sido satisfatória, a ponto do programa dos colégios elementares passar a incluir, como matéria específica, esses conteúdos. Além disso, os conhecimentos previstos eram os que interessavam ao projeto republicano, ou seja, desde a reafirmação das datas cívicas, dos aspectos relacionados aos deveres dos alunos, das questões relativas aos aspectos políticos como o exercício do voto, a apologia republicana, a importância das leis e dos impostos, enfim, aspectos doutrinários que era do maior interesse dos positivistas garantir no âmbito da escola pública. Nas escolas complementares, esse trabalho tinha seqüência com os conteúdos de Direito Pátrio, que incluía temas relacionados à família, à propriedade, aos deveres e às garantias do cidadão, aos poderes, entre outros. Dessa forma, a política educacional republicana se realizava também através dos programas escolares, reforçando o imaginário social favorável à consolidação do projeto dos positivistas que comandavam o Estado. Outros aspectos merecem análise especial, como procederemos a seguir. 2. Ciência, mercado, civismo e moral. Para a análise dos programas escolares, torna-se necessário a recuperação de um elemento que integrou a discussão científica, social e política no período que estamos analisando. Falamos da questão racial, cuja importância nos remete a algumas considerações que se relacionam com o tratamento dos conteúdos ensinados na escola pública do Rio Grande do Sul. Não é nossa pretensão realizar um mapeamento das discussões relativas à questão racial, o que não caberia neste trabalho. Interessa-nos situá-la e apontar para as implicações no âmbito da escola pública rio-grandense, já que os positivistas que comandaram o Estado à época inseriram-se nesse contexto, defendendo posições que refletem a introdução da temática racial entre as suas preocupações. Para os fins de nosso estudo, interessa-nos apontar que a questão racial ganhou uma conotação política, com o surgimento da eugenia, cujo objetivo era intervir na reprodução das populações. Nessa direção, a eugenia incentivou uma administração científica e racional da hereditariedade, com a introdução de novas políticas sociais de intervenção que incluíam uma deliberada seleção social.3 Assim, a defesa da higiene pública ganhou força no período que estamos analisando, garantindo espaço aos pesquisadores médicos, aos higienistas e aos saneadores. A atuação nas comunidades chegou ao campo da educação e da prevenção. A nação almejada pelos eugenistas, como um corpo homogêneo e saudável, necessitava passar por um processo acelerado de transformação. 2 3 Artigo 6o do Regulamento de 1897. Leis, Decretos e Atos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul de 1897, p. 164. O termo eugenia foi criado pelo cientista britânico Francis Galton, que buscou provar, a partir de um método estatístico e genealógico, que a capacidade humana era função da hereditariedade e não da educação. Nesse sentido, as proibições aos casamentos inter-raciais, as restrições que incidiam sobre “alcoólatras, epilépticos e alienados”, visavam a um maior equilíbrio genético, “um aprimoramento das populações”, ou a identificação precisa “das características físicas que apresentavam grupos sociais indesejáveis”. Cf.: SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870/1930, p. 60-1. 5602 Se, a nível nacional, a situação se configurou dessa forma, no Rio Grande do Sul ela apresentou especificidades que nos interessa ressaltar, particularmente no que diz respeito aos conteúdos de ciências e educação física previstos para o ensino nas escolas elementares. As “lições de coisas” passaram a apresentar os conteúdos de ciências físicas e naturais, assumindo esta denominação no programa dos colégios elementares de 1910. Chama a atenção a vinculação da questão da higiene à área das ciências, bem como seu tratamento como conteúdo escolar. No programa de 1910, a abordagem da higiene como conteúdo ensinado ocorreu desde o primeiro ano escolar, com a inclusão da temática do asseio e de sua importância, em paralelo ao estudo de conhecimentos científicos. Pudemos constatar, portanto, que o ensino das ciências físicas e naturais foi previsto, em termos dos conteúdos estabelecidos nos programas escolares do nível elementar, com uma vinculação à questão da higiene. Nesse sentido, a orientação adotada indicou a sistemática aplicação dos conhecimentos científicos que iam sendo oferecidos à problemática da higiene. Percebeu-se, assim, que, nos conteúdos escolares, estava incluída uma orientação que visava à prevenção da saúde. Se considerarmos que esse período caracterizou-se pela ausência de uma política de saúde, com a reduzida intervenção do Estado gaúcho nesse campo, com os indicadores apontados pelos programas do ensino elementar, salientou-se a estratégia dos dirigentes que comandavam o Rio Grande. Ou seja, além de ensinar, a escola pública tinha também a tarefa de prevenir a saúde, relacionando ciência e higiene, na tentativa de, por esse veículo, conseguir a melhoria da saúde das crianças e jovens, o que poderia influir no melhoramento da raça. Essa tentativa foi complementada com o aprimoramento perceptível dos conteúdos de educação física nos programas do ensino elementar. A observação do programa de 1910 torna clara uma ampliação das pretensões dos elaboradores do programa, em relação ao papel da educação física. Verificou-se um aprimoramento nos conteúdos, que indicaram a introdução dos exercícios calistênicos destinados a promover a beleza e o vigor físico. A preocupação com o desenvolvimento do corpo foi se aperfeiçoando ao longo das seções escolares, culminando com a introdução, na primeira seção da terceira classe, dos exercícios militares, bem mais intensos e dos quais não participavam as meninas. Portanto, a orientação dos programas escolares do ensino elementar demonstrou que os positivistas rio-grandenses foram precoces na busca de uma solução via escola para a questão da eugenia, relacionando os conteúdos de ciências físicas e naturais com a questão da higiene, buscando dessa forma e com o reforço da educação física, aprimorar a raça e conseguir os cidadãos saudáveis tão necessários ao seus projeto de desenvolvimento econômico do Estado. Como podemos perceber, ficou a cargo da escola pública o desenvolvimento da “consciência sanitária” da população, e isso foi feito através dos conteúdos inseridos nos programas escolares. Os programas estabelecidos pelos dirigentes educacionais republicanos apresentaram, ainda, uma característica que merece ser salientada. Referimo-nos à determinação incluída nas instruções preliminares ao programas de 1899, que estabeleceu, em seu artigo 7o que, nas escolas rurais do sexo masculino, o ensino de “Lições de coisas” seria, nas duas últimas classes, substituído pelo de Agricultura Prática, de acordo com o respectivo programa.4 Essa orientação indica com clareza que, para os alunos das escolas rurais, na concepção governamental, era mais importante conhecer aspectos relativos ao trato da terra, conhecimentos esses rudimentares, do que ser introduzidos de forma sistemática no conhecimento científico. Essa posição expressa, mais uma vez com coerência, a política educacional dos positivistas gaúchos, centrada na diferenciação dos saberes pois, como já apontamos em outra parte deste trabalho, se fossem necessários orientações científicas mais avançadas, isso deveria ser buscado junto aos técnicos formados pela Escola de Engenharia, através do Instituto de Agronomia, o que garantia, além da diferenciação dos saberes, sua hierarquização. Merece ser recordado que as escolas isoladas constituíam o maior número das escolas públicas do Rio Grande. Portanto, para a maioria das crianças que freqüentavam as aulas espalhadas pelo interior do Estado, os conteúdos ensinados demonstram que o reconhecimento da predominância das 4 Leis, Decretos e Atos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul de 1899, p. 257. 5603 atividades agrárias na economia gaúcha definiu a orientação adotada no programa, em relação ao ensino da agricultura prática. Portanto, preparar para o mercado de trabalho, de acordo com as condições dadas, foi um critério que esteve presente na elaboração dos programas das escolas elementares. Por outro lado, se observarmos o programa de 1910, podemos ampliar nossas conclusões. Em todas as classes desses colégios, foram introduzidos os trabalhos manuais5, o que se constituiu numa iniciativa que visou preparar os alunos das áreas urbanas para as possíveis atividades profissionais que, no futuro, poderiam vir a desenvolver nas cidades. Desde as tarefas mais simples de dobramento de papel, alinhavos em cartão e, para as meninas, as diversas atividades relacionadas à costura e bordado, a finalidade era o treinamento para futuras profissões. Esse objetivo pode ser mais explicitamente ainda percebido se observarmos a introdução, nas duas seções da terceira classe, de conteúdos de escrituração mercantil e escrituração agropecuária, através dos quais os alunos eram colocados em contato com conhecimentos relativos ao movimento de débito e crédito e aos livros de contabilidade, familiarizando-se com a lógica do capital. O programa dos colégios elementares, dessa forma, adequava-se à realidade econômica gaúcha, centrada na agricultura e no comércio e na qual as atividades industriais eram ainda incipientes. Os programas escolares, ao introduzirem conteúdos relativos à trabalhos manuais, escrituração mercantil e escrituração agropecuária, transformaram-se em instrumento da política educacional republicana, que teve seqüência com a criação das caixas escolares, na década de 1920. A valorização da propriedade privada e do capital estiveram presentes como elementos subjacentes desses conteúdos dos programas, evidenciando a intenção de fornecer ao ensino público a orientação pragmática que interessava aos dirigentes do Rio Grande, em função do seu projeto de desenvolvimento econômico do Estado. Os aspectos que apontamos ganharam reforço no programa das escolas complementares, no qual a disciplina de Direito Pátrio incluía elementos como: aquisição da propriedade, herança, legado, contratos de compra e venda, hipoteca e penhor, bem como a questão das sociedades, sua constituição, características, dissolução e liquidação. Em relação ao ensino da história, a tentativa dos positivistas gaúchos foi de adequá-lo à concepção evolucionista da ciência, ao mesmo tempo em que davam a ela papel expressivo na formação cívica e moral, interagindo com os conteúdos de instrução cívica e moral que anteriormente caracterizamos. Apesar disso, a história constituiu-se, ao longo de todo o período, numa área de conhecimento onde dificuldades apareceram, para a consecução de tais fins. As fontes de época apontam a existência de problemas metodológicos no ensino da disciplina histórica. No entanto, a problemática a ela referente não se restringiu à maneira de ensiná-la. A análise dos conteúdos inseridos nos programas das escolas públicas primárias nos possibilitam algumas conclusões que gostaríamos de registrar. A observação dos conteúdos de história selecionados nos programas do ensino elementar nos possibilita perceber alguns elementos importantes. As narrativas predominaram enquanto forma de desenvolvimento dos conteúdos, a partir do descobrimento, percorrendo os principais acontecimentos da história política de cunho oficial e destacando os principais vultos dessa história que teve seu apogeu e marco cronológico delimitador o advento e a organização da República. O resgate desses eventos e dessas personagens significou o delineamento, também a partir da atividade educacional do Rio Grande do Sul, de uma identidade nacional que teve nos modelos do passado a base para sua constituição. Se compararmos a situação dos conteúdos históricos com o ocorrido com os de geografia, surge a seguinte questão: porque os dirigentes rio-grandenses, que haviam conseguido concretizar, na organização dos programas do ensino público primário, o avanço trazido pelos conhecimentos científicos da época em algumas disciplinas, não conseguiram fazer o mesmo no caso da história? 5 Relatório da Secretaria do Interior e Exterior de 08.09.1909, p. X. 5604 A reposta a essa questão pode estar situada em dois pontos. O primeiro deles vincula-se à influência dos institutos históricos e geográficos que, no caso o do Rio Grande do Sul, tinha atividade expressiva à época, tendo tido importantes relações com o governo republicano, a ponto de ter recebido auxílios financeiros do Estado em várias oportunidades, inclusive para a construção do prédio de sua sede.6 O tipo de história oficial produzida pelo instituto rio-grandense, que seguia a linha geral das demais instituições similares, servia aos interesses dos republicanos, mesmo que não se ajustasse à perspectiva científica que eles próprios defendiam. Um segundo ponto da explicação leva em conta a posição da Igreja Católica, instituição com a qual os republicanos desenvolveram uma relação política importante. No caso do ensino da história, parece-nos relevante considerar sua posição. O que estamos querendo dizer é que a história foi transformada, pelos governantes do Estado, não apenas em instrumento de manipulação ideológica, pois isso não teria sido prerrogativa exclusiva dos republicanos. Mais do que isso, a história foi utilizada também como forma de mediação do Estado com a Igreja, na medida em que a manutenção do modelo dedutivista de organização do conhecimento histórico possibilitou mais uma acomodação entre as duas instituições. Ou seja, enquanto a Igreja Católica passou a reconhecer a importância da ciência empírica, adotando-a em boa parte dos conteúdos que ministrava nas escolas religiosas, no que concerne às matérias ditas “científicas”, o Estado gaúcho manteve, nas disciplinas que tinham relação com a formação de valores éticos, morais, sociais e políticos, o mesmo padrão de estruturação que o adotado pela Igreja. Considerações finais Entre as principais conclusões da investigação indicamos os programas escolares foram utilizados pelos dirigentes como instrumento de formação dos rio-grandenses para os novos tempos do capitalismo. A reorganização curricular e programática efetivada nas escolas públicas do Rio Grande do Sul, na Primeira República, possibilitou a adoção de um caráter científico e técnico na estruturação dos conteúdos, o que foi importante para preparação dos trabalhadores que se faziam necessários para a realidade capitalista que os republicanos desejavam consolidar. O tipo de trabalhador que interessava ao projeto dos positivistas exigiu que a escola, além de ensinar, educasse para a disciplina, para a produtividade e para os cuidados com a saúde. A preparação para o mercado incluiu instrumentos através dos quais os governantes gaúchos encaminharam as crianças e os jovens riograndenses para a aceitação da lógica do capital. Assim, a análise dos programas escolares implementados por decreto nas escolas públicas do Rio Grande do Sul evidencia, de forma expressiva, a política educacional adotada pelos dirigentes republicanos de orientação positivista, no período indicado. Referências bibliográficas SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil - 1870/1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 6 Cf.: despesas extraordinárias do Rio Grande do Sul dos anos de 1922 a 1927, nos relatórios da Secretaria da Fazenda dos respectivos anos. 5605 ANEXO PROGRAMA DAS ESCOLAS PÚBLICAS PRIMÁRIAS DO RIO GRANDE DO SUL: O ENSINO ELEMENTAR - 1910 CONTEÚDOS 1aClasse/ Leitura e Escrita 1a Seção Aritmética Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais – Higiene Desenho Música Ginástica Geografia Trabalhos Manuais Instrução Cívica e Moral 1aClasse Leitura e Escrita 2a Seção COLÉGIOS ELEMENTARES - 1910 Leitura - Leitura de vogais e sucessivas combinações destas com as invogais, conforme o método de João de Deus, em coro, só utilizando-se de mapas murais. Leituras de palavras e pequenas frases combinadas dos elementos aprendidos. O professor explicará o sentido de cada palavra lida; o aluno a empregará em seguida em pequenas frases, provando ter adquirido o conhecimento. Linguagem - Descrição oral de objetos comuns do uso do aluno, primeiro na presença do objeto, depois sem tê-lo em vista. Narração de fatos instrutivos e morais com reprodução socrática e completa da mesma. Recitação de máximas e poesias, apropriadas à classe, porém sem sobrecarregar a memória pela extensão ou difícil compreensão. O professor terá em muito especial cuidado a correção da pronúncia. Caligrafia - Cópia de letras, palavras, algarismos e pequenas sentenças escritas na tábua negra. Rudimentos das duas primeiras operações, começando pelos meios concretos com o auxílio de varinhas, grãos, etc.; no limite de 1 a 100. Resolução de problemas práticos, ligando-se a máxima importância à decomposição dos números. Uso dos sinais x, - e =. Caracteres gerais e distintivos dos animais, vegetais e minerais. Os três estados dos corpos. O professor fará ver ao aluno a insuficiência de nossos sentidos para a percepção dos objetos e suas propriedades, noção de lentes de aumento, explicação do período do uso da água contaminada. O professor terá em especial atenção o asseio, mostrando aos alunos os perigos que correm pela sua falta. Traçar sem auxílio da régua linhas retas, horizontais, verticais e inclinadas, depois perpendiculares, oblíquas e paralelas. Sem o auxílio de medidas dividir retas em partes iguais. Desenho de quadrados e retângulos, divisão destas figuras em partes iguais. Desenho de objetos muito simples. Solfejo; exercícios, compostos primeiro de dó e ré, depois de dó, ré, mi, e assim aumentando até que constem de seis tons. Exercícios calistênicos na sala de aula; exercícios preliminares, as quatro operações fundamentais. Voltas, marchas simples. Exercícios simples de cabeça, tronco, braços e pernas. Pequenas corridas. A carteira na sua parte superior, distinção dos lados direito e esquerdo, a posição da carteira em relação às cadeiras próximas. A sala de aula, a situação da casa no quarteirão. Esboço aproximado do quarteirão com as ruas próximas, no quadro negro, copiado pelos alunos. Pontos cardeais. Medida do tempo; dia, semana, mês, ano. a) Para ambos os sexos: Dobramento do papel. Fazer do papel objetos usuais como caixinhas, etc. Tecidos de papel, alinhavos em cartão à vista de modelos apropriados. b) Para o sexo feminino: Modo de segurar a agulha. Pontos simples. Crochet simples. O professor aproveitará todos os incidentes para desenvolver esta partes do programa. Na véspera do dia feriado, explicará o motivo e historiará o ato relativo. Leitura - Leitura diária, devendo o professor esclarecer previamente o assunto do trecho, depois de ler em voz alta, frase por frase, e mandar repetí-las. Em seguida o trecho será lido pelos alunos em coro e individualmente. Linguagem - a) Oral: As qualidades dos objetos. Narração de fatos relativos à escola, à família e à sociedade e a reprodução da mesma pelos alunos. b) Escrita: Cópia de frases escritas na tábua negra e depois no livro. Ditado de 5606 Aritmética Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais – Higiene Desenho Música Ginástica Geografia Trabalhos Manuais Instrução Cívica e Moral 2a.Classe/ Leitura e Escrita 1a Seção Aritmética Geometria Prática Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais Higiene Geografia História Desenho Música palavras e pequenas frases. c) Noções práticas do substantivo, adjetivo e verbo. Conjugação oral dos verbos nos tempos simples. Distinção dos tempos: presente, passado e futuro. Noções do gênero e número dos substantivos e adjetivos; sem auxílio de livro. Ampliação do conhecimento das duas primeiras operações e aplicações destas na resolução de problemas. Leitura e escrita de números em caracteres árabes e romanos. Multiplicação e divisão dentro dos limites dos milhares. Divisão do reino animal. Idéias gerais sobre classificação de animais, vegetais e minerais. Aplicação do aprendizado a animais conhecidos pelos alunos. Desenvolvimento da primeira parte quanto ao asseio, sobretudo no que diz respeito à boca e aos dentes. Os prejuízos resultantes da má recepção ou deficiência da luz. Desenho de mosaicos, enlaçamento e objetos sem aplicação da perspectiva. Sombreamento por meio de linhas grossas em baixo e à direita. Continuação dos exercícios em seis tons, porém escritos no compasso a três e quatro tempos. Os mesmos exercícios em duas vozes. Desenvolvimento do programa da primeira seção. A cidade e seus arrabaldes, sua posição relativa. Aplicação dos conhecimentos do aluno no mapa do estado. Termos geográficos explicados com o auxílio de tábua e areia em massa. a) Para ambos os sexos: Alinhavos em cartão, executados a cores sob modelos diversos, representando animais, flores, etc. Figuras geométricas em cartão. b) Para o sexo feminino: Crochet. Pontos, alinhavos, pespontos, pespontos no claro, pontos fechados e abertos, pontos de remate. Preparação e modos de franzir. Franzimentos duplos. Como na primeira seção. Recitação de trechos morais e cívicos. Leitura e Escrita - Exercícios graduados de leitura corrente, com observação da pontuação e explicação dos vocábulos. Cópia e ditado dos trechos de leitura. Reprodução oral de pequenas narrativas. Recitação de pequenas fábulas e poesias próprias da idade e do desenvolvimento do aluno. Linguagem - Desenvolvimento das idéias de substantivo, adjetivo e verbo. Distinção de adjetivo qualificativo e determinativo. Conjugação oral e escrita dos tempos simples. Desenvolvimento da idéia de pronome. Estudo completo das quatro operações em números inteiros. Frações decimais: leitura e escrita das mesmas. As quatro operações em números inteiros e decimais, aplicando a redução à unidade. Geometria - Noções de linha reta, curva e quebrada; retas verticais, horizontais e inclinadas; perpendiculares, oblíquas e paralelas. Noções do ângulo; distinção de ângulo reto, agudo e obtuso. Avaliação aproximada dos ângulos. Divisão do ângulo reto em duas e três partes iguais, dando idéia de um ângulo de 30°, 45° e 60°. Animais úteis e nocivos à agricultura. Produtos animais: o couro, os ossos, a seda, etc. Noções gerais e elementares do corpo humano. Principais funções da vida: respiração e nutrição; aplicação dos conhecimentos adquiridos à higiene, fazendo ver o prejuízo produzido pelo ar confinado, mastigação incompleta, etc. Distinguir pelo aspecto minerais facilmente encontrados no solo. Os alunos estudarão exclusivamente no mapa e em classe a geografia do Estado, limitando-se às cidades principais e hidrografia, figurando na tábua negra a matéria estudada. O professor dará idéia das distâncias aproximadas dos principais pontos. Pequenas narrativas da História Pátria. Explicação dos principais fatos por meio de biografias: Colombo, Cabral, Tomé de Souza, Anchieta, Henrique Dias, Camarão, Tiradentes, D. Pedro I, D. Pedro II, Bento Gonçalves, Duque de Caxias, Marechal Deodoro, Floriano. Desenho de arcos, traçando primeiro as cordas com linhas auxiliares. Desenho de arcos iguais de ambos os lados das cordas, em posição vertical, horizontal e inclinada. Desenho de figuras compostas de arcos e retas. Os valores das notas e pausas; semibreve, mínima, semínima, colcheia. 5607 Ginástica Trabalhos Manuais Instrução Cívica e Moral Agricultura Prática (escolas rurais) 2aClasse/ Leitura e Escrita 2a Seção Aritmética Geometria Prática Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais – Higiene Geografia História Desenho Música Ginástica Agricultura Prática (escolas rurais) 3a Classe/ Leitura e Escrita 1a Seção Valores de notas pontuadas. Solfejo de exercícios de notas de valores diferentes. Exercícios de vocalização. Canto por audição. Os exercícios da primeira classe, mais aperfeiçoados e acompanhados de canto. Formação de cadeias. Movimento dos ombros com extensão dos braços. Formaturas para exercícios ginásticos. Exercícios preparatórios para pulos. Marchas sinuosas em círculo ou em especial. Corridas não excedendo de 40 metros. Jogos ginásticos. Para o sexo feminino são excetuados os exercícios para pulos. Para o sexo feminino: crochet, franzidos, serziduras, pregas, bainhas. Casear e pregar botões, colchetes, etc. Remendos diversos. Pontos russos e de ornamentos. Pontos de marca, letras e nomes. Palestras, narrações e leituras sobre os deveres dos alunos, em relação a si mesmos, à família e à Pátria. Leitura - Leitura em prosa e verso. Sentido próprio e figurado das palavras. Formação de sentenças com as palavras estudadas. Explicação oral do trecho lido. Leitura de manuscritos. Linguagem - 1a. Oral - Descrição de objetos ausentes e de cenas naturais. Ampliação do vocabulário pelos sinônimos e antônimos. Exposição sobre assuntos de outras aulas e descrição de quadros ou estampas presentes. Reprodução de contos lidos com antecedência. Declamação em prosa e verso. Conhecimento prático das partes do discurso e das sentenças. Desenvolvimento das noções práticas de gramática, estudadas na primeira seção. 2a. Escrita - Descrições e narrativas. Reprodução de contos e fábulas lidas pelo professor. Os assuntos das narrações devem de preferência ser tirados da História Pátria. Noções de divisibilidade dos números. Caracteres da divisibilidade por 2, 3, 5, 9, 10 e 11. Menor múltiplo comum e máximo comum divisor. Frações ordinárias, empregando os meios intuitivos. Simplificação e redução ao mesmo denominador. As quatro operações de frações ordinárias. Conversão de frações ordinárias em decimais e vice-versa. Pequenos problemas práticos sobre frações. Geometria - Noções de plano - Triângulos, sua divisão. Quadriláteros: trapézio, paralelogramo, losango, retângulo e quadrado. Polígonos regulares de mais de quatro lados. Avaliação das áreas. Desenvolvimento das noções aprendidas na primeira seção. Os três estados dos corpos. Noções mais desenvolvidas do ar e da água. Idéia da alta importância que eles têm na higiene. Combustão, pequenas demonstrações experimentais ao alcance dos alunos e que não exijam aparelhos especiais. Estudo completo da geografia física dos Estados. Vias de comunicação. Municípios servidos por vias férreas e navegação a vapor. Principais produtos industriais segundo a sua distribuição geográfica. Narrativas dos principais acontecimentos da História Pátria, sem auxílio do livro. Descobrimento do Brasil, Explorações, Capitanias, Tomé de Souza, Duarte da Costa, Mem de Sá, Fundação do Rio de Janeiro, Domínio Espanhol, Invasões Holandesas, Palmares, Tiradentes. Desenho de objetos de faces curvas, como copos, garrafas, xícaras, chaleiras, etc., porém só em seus contornos. Traçado de figuras geométricas, acompanhando as noções de geometria. Exercícios em notas pontuadas. Cânticos escolares por audição. Continuação e desenvolvimento dos exercícios da primeira seção. Leitura - Leitura expressiva. Uso dos sinônimos e mudança de estrutura. Linguagem - Oral: narrações e descrições de objetos ou ocorrências. Diálogos reproduzidos de memória. Manejo do dicionário. Sentenças declarativas, interrogativas, imperativas, condicionais e exclamativas. Lexeologia, sendo permitido ao aluno o uso do livro sob condição de não servir-se 5608 Aritmética Geometria Prática Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais Higiene Geografia História Desenho Música Ginástica Agricultura Prática (escolas rurais) Instrução Cívica e Moral Trabalhos Manuais Escrituração Mercantil 3a Casse/ Leitura e Escrita 2a Seção exclusivamente da memória. Escrita: redução de poesia à prosa. Esboços biográficos de brasileiros ilustres. Reprodução de episódios históricos narrados pelo professor. Cartas, ofícios, requerimentos e recibos. Regra de três simples e composta, pelo método da redução à unidade. Regra de juros simples: avaliação dos juros, capital, taxa e tempo. Idéia de acumulação de um capital por meio de prestações em bancos e caixas econômicas. Regra de sociedade simples e composta. Geometria - Circunferência e círculo. Idéia prática da relação constante entre a circunferência e o diâmetro. Linhas e planos no círculo e sua avaliação. Ampliação do estudo do corpo humano. Estudo prático dos principais órgãos da planta. Noções das principais matérias de construção: pedra, tijolo, cal, cimento, madeiras. Noções dos principais minerais: ferro, ouro, prata, cobre caolim. Ampliação das noções de higiene das seções anteriores, sobretudo no relativo ao ensino do anti-alcoólico. Estados da República, sua área relativa, capitais, sistemas orográfico e hidrográfico, população aproximada. América do Sul e Norte: países e capitais, montanhas e rios mais importantes. Posição da Terra no espaço, sistema solar Continuação das narrativas dos principais acontecimentos da História Pátria: chegada da família real. Independência. Reinado de D. Pedro I. Principais fatos do tempo das Regências. Principais fatos do reinado de D. Pedro II. Guerra do Paraguai. Emancipação dos escravos. Proclamação da República. Noções preliminares de perspectiva e da teoria das sombras. Representação em perspectiva e com suas sombras: 1o. Corpos de faces planas, com caixas, armários monumentos simples, etc. 2o. Corpos de faces curvas, como cilindros, copos, pratos, xícaras, etc. Exercícios em todos os tons da escala de Dó, em compassos diferentes. Solfejo de exercícios compostos de “seis por oito”. Ginástica e Exercícios Militares - Repetição dos anteriores exercícios calistênicos, acrescentando as posições fundamentais 5, 6 e 7. Combinação dos exercícios das extremidades superiores com os das inferiores. Exercícios na aula e fora dela. Formatura para exercícios ginásticos. Evoluções em passo ordinário ou acelerado. Marchas combinadas com movimentos das extremidades superiores. Exercícios de pulos. Corridas não excedentes de 60 metros. Corridas com obstáculos. Pulos de pé firme e correndo. Jogos ginásticos. Exercícios militares, as principais evoluções da companhia. Para o sexo feminino excetuam-se os pulos e exercícios militares. Governo, suas formas. Vantagens da forma republicana. O voto e a sua importância. A necessidade das leis, dos impostos. Impostos diretos e indiretos. a) Para ambas as seções: modelagem de figuras geométricas e objetos usuais. Cópia de modelos fáceis como casas, mapas em relevo, etc. b) Para o sexo feminino: repetição dos trabalhos das classes anteriores. Confecção de roupas brancas usuais, que serão cortadas e cozidas sob a direção da professora, podendo a matéria-prima ser proporcionada pelos pais, em que caso ser-lhesão entregues os objetos após exibição no ato do exame. Noções preliminares de escrituração por partidas simples. Explicação do movimento de Débito e Crédito. Exercícios de escriturar compromissos de Débitos e a sua satisfação, em folhas avulsas, representando folhas do Livro de Contas Correntes. Exercícios de registrar a satisfação de compromissos de Débitos, em folhas avulsas, representando folhas do Livro Caixa. Leitura - Leitura expressiva de prosa e verso, com explicação do texto. Linguagem - Oral: narração e descrição de objetos e ocorrências como na primeira seção. Revisão geral da gramática com definições, com o auxílio de compêndios. Escrita: ditado de trechos mais difíceis de autores clássicos. Redução de poesia à prosa. Resumos escritos de leituras feitas e explicadas. 5609 Aritmética Geometria Prática Lições de Coisas / Ciências Físicas e Naturais Higiene Geografia História Desenho Música Ginástica Agricultura Prática (escolas rurais) Instrução Cívica e Moral Trabalhos Manuais Escrituração Mercantil Escrituração Agropecuária Descrição de passeios, festas e outros acontecimentos, sem narrativa prévia. Exercícios de análise. Quadrado e raiz quadrada de números inteiros, decimais e fracionários. Cubo e extração de raiz cúbica de números inteiros, decimais e fracionários. Problemas práticos com aplicação da raiz quadrada. Problemas de recapitulação do programa da primeira seção. Geometria - Aplicação da raiz quadrada em problemas geométricos, avaliação da hipotenusa do triângulo retângulo, dados os lados; lado do quadrado, dada a área; avaliação do raio e do diâmetro, dada a área do círculo. Conhecimento prático dos sólidos geométricos: prisma, paralelepípedo, cubo, pirâmide, cilindro, cone, esfera. Avaliação de seus volumes e suas superfícies. Recapitulação e desenvolvimento das seções anteriores. Os países da Europa, suas capitais e forma de governo. A extensão dos pricipais países europeus comparada com a extensão do Estado e da República. Principais rios e cidades da Europa. Os países mais importantes da Ásia e da África. Círculo da esfera terrestre. Zonas. Conhecimento prático de longitude e latitude. Narrativas dos principais acontecimentos da História do Rio Grande do Sul: primeiras excursões. Expedição de portugueses da Laguna. Colonização açoriana. Tratado de 1750 e suas conseqüências quanto ao Rio Grande. Primeira invasão inimiga. Conseqüência da Guerra da Independência. A batalha de Ituzaingo. Segunda invasão inimiga. A revolução de 1835. Invasão Oriental. Invasão Paraguaia. Movimento abolicionista e propaganda republicana no Rio Grande. Organização do governo republicano. Desenho de folhas e flores para bordados. Resolver os problemas mais simples do desenho linear com o auxílio da régua e compasso. Estudo das palavras abreviadas e dos sinais usados na música. Solfejar cantos simples. Ginástica e Exercícios Militares - Recapitulação e desenvolvimento das seções anteriores. Recapitulação e desenvolvimento das seções anteriores. Recapitulação e desenvolvimento dos trabalhos das seções anteriores Conhecimento mais lato do comércio em geral. Lançamento de compromissos de Débito e Crédito no Livro “Contas Correntes”. Encerramento de uma conta aberta em conta corrente. Maneira de extrair uma conta corrente. Maneira prática de registrar a satisfação de diversos compromissos de Débito no Livro “Caixa”. Noções preliminares (de acordo com as lições de aritmética) de escrituração por Partidas Simples e sua maneira prática de aplicar-se ao comércio agropecuário. Explicação do movimento de Débito e Crédito. Maneira prática de escriturar um compromisso de Débito e satisfação do dito compromisso, sobre modelos traçados em folhas avulsas simulando folhas do livro “Razão”. Maneira prática de escriturar um compromisso de Débito, sobre modelos traçados em folhas avulsas, simulando o “Livro Caixa”, dando assim antrada e saída às importâncias recebidas ou pagas por conta ou a saldo. Contas principais que terão sua abertura no referido Livro “Razão”: a) Máquinas, representando todas as que estiverem em uso. b) Instrumentos agrários: para representar os arados, enxadas, alviões, foices, machados e, em geral, toda a ferramenta necessária. c) Plantação: para representar o valor estimativo de toda a cultura, isto é, tantos pés de laranjeiras, ao preço de ... etc. d) Produtos: para representar todos os frutos depois de colhidos e devidamente beneficiados para serem levados os mercados exportadores ou consumidores. E) Frutos pendentes: para representar os frutos a colher, que são muitas vezes dados pelo agricultor em garantia de operações realizadas. f) Terrenos: para representar toda a área ocupada ou não, que pertencer ao estabelecimento 5610 agrpicola. g) Animais, sua divisão em diversas espécies e sua produção. h) Gastos diversos para representar: arrendamentos, salários, impostos, mantimentos de animais, estrume, etc., etc. i) Lucros e perdas. j) Balanço Geral. FONTE: Decreto n° 1575, de 27.01.1910. Leis, Decretos e Atos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul do ano de 1910, p. 196-212.