A MISSÃO DA UNIVERSIDADE NA FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO
E MÉDICO VETERINÁRIO DAS UNIVERSIDADES GAÚCHAS: QUAIS
PROFISSIONAIS A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO PARA O RIO GRANDE
DO SUL E QUAIS PROFISSIONAIS DEVERIA FORMAR NA PERCEPÇÃO DOS
DIRIGENTES DE COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS
Rosani Sgari Szilagyi
Doutoranda da UFRGS
PALAVRAS-CHAVE: ensino superior, formação técnica/humana, cooperativas,
mercado de trabalho, racionalidade instrumental/emancipativa.
O presente estudo é resultante do Mestrado e examina os pressupostos
que fundamentam e definem os modelos de inteligibilidade na formação acadêmica
do curso de engenharia agronômica e medicina veterinária, abrangendo instituições
universitárias públicas, privadas e instituições cooperativistas agropecuárias do Rio
Grande do Sul. Tem como base teórica as reflexões sobre a racionalidade
instrumental e emancipativa de Adorno e Horkheimer, reforma e mudança de
Thomas Popkewitz, além dos estudos sobre a história da universidade ao longo dos
séculos. Os resultados revelam que os cursos examinados são expoentes
sementeiras de elaborações teóricas que renunciam às significações do fenômeno
humano em prol da técnica. Centrar-se num conjunto de disciplinas que utilizam em
maior escala um esquema de racionalidade positiva, uma racionalidade voltada para
meios/fins. Há uma tendência em situar a formação humana como sinônimo de
procedimentos técnicos necessários ao mercado de trabalho. Os atores procedem a
uma separação do técnico e humano quando se referem a formação superior destes
profissionais, como se de duas naturezas se tratasse; a universidade não está
conseguindo mediar a convivência e a síntese entre a formação humana e a técnica,
entre o conhecimento e o comportamento. O sentido de unidade está mais instalado
no imaginário e no discurso do que na realidade. O estudo proporcionou a análise e
o efeito recíproco entre os atores e instituições envolvidas: quarenta
formandos/finalistas e dez professores universitários dos cursos focalizados em
cinco universidades gaúchas. Cinco dirigentes de instituições cooperativistas e vinte
profissionais de ambas as áreas que nelas atuam, perfazendo um total de setenta e
cinco sujeitos, através da ação combinada de entrevistas e questionários semiestruturados, documentos específicos e gerais e análise de conteúdo, numa
perspectiva qualitativa e histórico-crítica. Dada a extensão da pesquisa serão
apresentadas as percepções dos dirigentes das cooperativas agropecuárias.
A MISSÃO DA UNIVERSIDADE NA FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO
E MÉDICO VETERINÁRIO DAS UNIVERSIDADES GAÚCHAS: QUAIS
PROFISSIONAIS A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO PARA O RIO GRANDE
DO SUL E QUAIS PROFISSIONAIS DEVERIA FORMAR NA PERCEPÇÃO DOS
DIRIGENTES DE COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS.
Rosani Sgari Szillagyi 1
UFRGS
Penso que, à medida que o pesquisador prepara as informações reunidas,
dialoga com a informação recolhida, elabora sua percepção do fenômeno e se deixa
guiar pelas especificidades do material selecionado. E ao integrar BARDIN(1977)
nessa reflexão, cabe ressaltar que, a partir de sua orientação dediquei-me à tarefa
de desenvolver o corpo analítico através da construção de categorias temáticas para
cada grupo de respondentes que, baseadas em dimensões, agrupam questões dos
questionários
semi-estruturados
aplicados
e
entrevistas
semi-estruturadas
realizadas. Os conteúdos coletados e recortados a partir das unidades de
significação foram passados às grelhas categoriais de análise criadas e, dessas,
para o estudo, interpretação e reconstrução do sentido por uma abordagem
qualitativa. A análise constrói entendimentos em nível de inferências e de relações
que os elementos mantêm entre si.
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SZILAGYI, Rosani Sgari. Profa. Ms. Da Universidade de Passo Fundo, Psicologia. Doutoranda em Educação
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Para principiar o desenrolar desse encarte metodológico, faz- se necessária
uma aproximação com
os atores em foco. Inicio a discussão dos resultados
relativos aos dirigentes das Cooperativas Agropecuárias, apresentando o objeto de
justificação para a escolha das mesmas, e, lembrando a todos que recrutar o
problema não é tarefa difícil; é, antes de tudo, uma tarefa angustiante. Difícil é tecer
uma rede de parcerias na discussão, análise e busca de alternativas para o
problema, principalmente quando ele envolve muitos atores supostamente próximos
mas realisticamente distantes: formandos e professores universitários, profissionais
engenheiros agrônomos e médicos veterinários que atuam em cooperativas
agropecuárias e seus respectivos dirigentes. Dada a extensão da pesquisa, cabe
ressaltar novamente que o estudo ora apresentado refere-se ao cenário perceptivo
dos dirigentes de cooperativas. Discutir a formação universitária dos profissionais
engenheiros agrônomos e médicos veterinários a partir do cenário perceptivo e
específico de um empregador - Cooperativas Agropecuárias, mais que oportuno, se
faz necessária no Rio Grande do Sul, uma vez que o
Estado e a Região em foco desenvolvem-se expressivamente na área agrícola e na
bacia leiteira. Realizar a escuta e o diálogo com estes atores, significa dialogar com
a Universidade, com o perfil exigido pelo mercado de trabalho, com a estrutura
curricular do curso, com as áreas de conhecimento valorizadas e com os maiores
problemas que o profissional enfrenta depois de formado. Significa
pensar e
repensar educação superior na região Sul.
Os critérios adotados para a escolha das cooperativas investigadas, foram
de ordem prática. No contexto da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio
Grande do Sul - Fecoagro-RS, procurei investigar filiadas que congregam a Região
Seis observando:
a) área de abrangência da minha atuação profissional enquanto psicóloga
(seleção de pessoal, treinamento, outros);
b) a existência de um departamento técnico que congregasse um expressivo
número de profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários envolvidos
com assistência técnica e oriundos das Universidades investigadas;
c) conseqüentemente, essas cooperativas deveriam estar envolvidas com
produção agrícola que incluísse recebimento de grãos, sementes e insumos
(fertilizantes e outros);
d) por suposto, as cooperativas deveriam estar envolvidas com atividades de
ordem pecuária: leite, suínos, UPL – Unidade Produtora de Leitões, gado de corte,
fábrica de rações e abatedouro;
e) finalmente, deviam apresentar expressiva área geográfica agricultável na
região de atuação.
Assim, destaco as escolhidas e trabalhadas com base nesses critérios:
Cooperativa Tritícola Espumoso Ltda. – Cotriel; Cooperativa Tritícola Mista General
Osório Ltda. – Cotribá; Cooperativa Tritícola Panambi Ltda. – Cotripal; Cooperativa
Tritícola Mista Alto Jacuí Ltda. – Cotrijal e Cooperativa Tritícola Taperense Ltda –
Cotrisoja.
O cenário perceptivo dos dirigentes e/ou gerentes das cooperativas
agropecuárias
Os atores sociais em questão compreendem uma idade cronológica que gira
em torno de 40 anos a 48 anos e traduzem exatamente 19 anos, 20 anos, 21 e 25
anos de atividades profissionais desenvolvidas no sistema cooperativo gaúcho. O
tempo de formação profissional e atuação profissional aumenta a responsabilidade
com os demais atores; encontrar novos caminhos para construir não apenas um
novo modelo de formação universitária, mas um novo modelo de relações de
trabalho que garantam além da competitividade, a aprendizagem, o respeito e a
confiança no engenheiro agrônomo e médico veterinário nas cooperativas e fora
delas. Á medida que questionei com os demais participantes a necessidade da
expressão de uma imaginação livre dos controles de uma consciência deformada
pela racionalidade instrumental, defrontei-me com um grupo de atores cujo poder é
legítimo e hierárquico, o que pode ocasionar um conflito saudável ou um conflito
desagregador no que tange a sua reflexão relacionada aos recursos humanos engenheiros agrônomos e médicos veterinários. Nesse sentido, necessária se faz,
mais uma vez, a inserção imediata da grelha categorial que tenta coletar com
fidelidade a fala dos entrevistados. Considero relevantes as suas verbalizações para
o objeto da pesquisa e, como tal, não vou me furtar da sua inclusão no transcorrer
da análise. Dessa forma convido o leitor para a apreciação da grelha categorial 1 :
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GRELHA CATEGORIAL I
PERCEPÇÕES
1.1. PERFIL ALCANÇADO
1.2. PERFIL DESEJADO
DIRCOOP
1.1. PROFISSIONAL QUE A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO
PARA O RIO GRANDE DO SUL
* Os profissionais da área agronômica e veterinária tem uma limitação
muito grande no que diz respeito à informações tecnológicas e, ao
repasse tecnológico. Essa universidade não tem tecnologia de ponta
e os profissionais que estão saindo da universidade não tem um
trabalho pedagógico, não tem formação pedagógica para repassar
essas tecnologia. Nas pessoas que nós sentimos que tem condições
nós investimos através de treinamentos. O produtor se encontra numa
letargia intelectual e nós precisamos gente na vanguarda pra
despertá-lo; Os produtores saem da reunião e dizem que não
entenderam nada com esses profissionais; A gente vê resultados
muito pifes, muito pequenos, constrangedores de pessoas que estão
saindo da universidade. A universidade ainda forma a pessoa para
fazer a extensão rural dos quinze, vinte anos e todos sabemos eu o
processo tecnológico do agro-business do Rio Grande do Sul, do
Brasil ou do mundo mudou no mínimo umas dez vezes. E nós ainda
estamos fazendo a assistência rural dos últimos vinte anos. O pessoal
sai com uma postura de diplomado, de formado e quer transferir
tecnologias. Eu digo com tristeza que a universidade prepara um
profissional para sentar ou ficar e pé, porque se fica de pé se
atrapalha; então ele senta na frente de trinta produtores e prepara um
discurso de quinze, vinte minutos... abotoadinho. Se saem duas
perguntas, fica complicada a situação dele.
Eu acredito que a universidade saiba disso. Não sei se ela tem
coragem de fazer essa discussão muito aberta e clara. Tanto não
prepara que é preciso prepará-lo três, quatro anos na empresa
investindo em cursos, treinamentos, pós-graduações nas áreas
humanas, gerenciamento, comunicação, liderança, coordenação de
equipes. As universidades nasceram paternalistas, tuteladas por um
governo; elas transitam e se relacionam muito mais com as
instituições públicas onde a eficiência não é uma questão primordial.
Elas não buscam essas questões de integração com as empresas
privadas. O nível de exigência de uma empresa pública é muito baixo
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e como a universidade também não tem uma capacidade de produção
tecnológica com alta competitividade, essa relação é muito mais entre
me engana que eu gosto. Ela se relaciona mais facilmente com os
órgãos públicos porque existe uma troca e informações superficiais
onde a contestação e a discussão deixam a desejar.
* Um profissional voltado mais para um conhecimento geral da parte
técnica para depois ele si virar sozinho, para ele depois apresentar o
título “sou formado engenheiro agrônomo”, para se virar depois.
* Um técnico, verdadeiro capacho de bancos, sem autonomia. Eu sou
agrônomo e me sinto frustrado porque eu não exerci a agronomia que
eu imaginava que ia encontrar; que se preconizava, que seria um
ensino voltado para criar alternativas, oportunidades para o homem
do campo.
* Existe uma discrepância muito grande entre aquilo que a
universidade forma e o que é; entre o imaginário e o que acontece na
realidade.
* A universidade não tem evoluído na medida que as mudanças tem
exigido. Com uma visão tecnicista, foram preparados para exercer
funções na Emater e outras instituições públicas.
* Uma formação voltada para a porteira para dentro a universidade
tem deixado a desejar porque não prepara os profissionais para o pós
porteira.
* Saem de uma forma muito técnica e ainda sem aquela visão de
negócio como um todo. A universidade trabalha muito pouco a parte
das relações humanas, comportamento, atitudes e isso é uma
carência; têm uma visão do sistema antigo e com isso o profissional
fica perdido.
1.2. PROFISSIONAL QUE A UNIVERSIDADE DEVERIA FORMAR
* Deveria acordar e formar profissionais par a comunicação; deveria
propor melhores condições tecnológicas e a questão mais forte:
trabalhar a postura do profissional. Ao invés de sair diplomado me
parece que ele teria que ter muito mais uma postura de um aprendiz;
alguém que tem algumas noções básicas de tecnologia, mas que
respeite todas as noções tecnológicas do nosso produtor. Precisam
de um comportamento pessoal de aprendizado. Um profissional capaz
de interagir com o produtor. Nós temos um projeto de trazer o
produtor junto com essa evolução tecnológica e econômica, e,
principalmente, dessa interação, integração entre associado e
cooperativa. Nenhum profissional pode vir acabado dentro de uma
universidade. Esse profissional não tem lugar na nossa empresa.
* Um profissional que além daqueles conhecimentos gerais tivesse
um pouco mais de prática nas disciplinas profissionalizantes. Um
profissional que aceite desafios, que não tenha medo.
* Na nossa profissão tudo é muito rápido, o agricultor quando engaja
uma pergunta ele quer uma resposta assim no seco, no imediato.
Então o agrônomo e o veterinário não podem tatear. A universidade
deve formar clínicos gerais, diversificado, tem que entender de tudo
um pouco. Deve fugir da especialização que muitos preconizam. Seria
interessante que o profissional tivesse mais contato com a realidade,
na situação que ele vai trabalhar, no dia-a-dia, que aos poucos fosse
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trabalhando as suas tendências: vendas, ramos de ementes, clínica
de grandes animais, etc. O grosso da coisa ele tem que saber. Não
pode se omitir dizendo que essa não é a área dele ou porque não é
especialista.
* Somos clientes da universidade, nós temos que ser ouvidos; quer
dizer, a universidade está preparando o aluno para quem? Na nossa
visão ela tem que entrar na propriedade, deve preparar profissionais
para a gestão da propriedade, olhá-la como um todo, olhar a família
do produtor. A universidade deve sair de dentro do seu espaço físico,
de eu espaço geográfico e interagir. A demanda de hoje, exige além
de um profissional técnico outros atributos. A universidade deveria
fazer discussões: que tipo de profissionais nós estamos produzindo?
Me parece que ela presta um serviço a sociedade e deve questionar a
formação desse profissional. Essa interação com as cooperativas
seria salutar; o professor não tem a visão porque ele não trabalha fora
da organização e, precisa ampliar sua visão. Promover essa interação
com os profissionais. Isso evitaria que a gente tenha que ficar
monitorando esse profissional dois, três anos em cima daquilo que
nós achamos que deve ser um profissional. Se vê profissionais com
boa formação técnica, mas com péssima qualidade de
relacionamento. É lamentável, vai Ter que trabalhar em outro
segmento.
* Desenvolver um perfil mais coletivo, que veja a empresa de forma
global e que atue de forma sistêmica. * Não pode ser só um técnico e
especialista, tem que ter uma visão psicossocial para utilizar as
habilidades e obtenha mais sucesso.
Atendendo às expectativas dos desafios enfrentados, os dirigentes/gerentes
revelam que também as cooperativas sofreram e sofrem modernos processos de
mudança organizacional para assegurar o sucesso constante nos seus negócios.
Em um ambiente com transformações cada vez mais aceleradas, desenvolver
engenheiros agrônomos e médicos veterinários dentro desse ambiente de trabalho
tornou-se uma meta. As áreas de produção de grãos e produção animal são o
coração das cooperativas e os profissionais em questão são peças fundamentais na
manutenção desse coração. Ao avaliarmos as expressões dos entrevistadosDirigentes Cooperativas- DirCoop 1, 2, 3, 4 e 5, como por exemplo, “o pessoal que
sai com uma postura de diplomado, de formado”, de quem tudo sabe, de quem foi
preparado durante anos para revelar os conhecimentos recebidos, aqui se confirma.
O aluno preparado para apresentar o título “sou engenheiro agrônomo e/ ou médico
veterinário”, corre o risco de à boca pequena ser ironizado pelo complexo
organizacional. Essa tendência em colocar o profissional no Olimpo dos saberes já é
por demais delirante, aistórica e jurássica. Embora as organizações cooperativistas
já tenham decretado a sua falência, ela ainda vigora na universidade, e nos cursos
de engenharia agronômica e medicina veterinária.
Assim como os professores parecem tratar a formação do profissional como
uma fotografia, uma “coisa parada”, também os gerentes/dirigentes descrevem uma
formação um tanto idealizada. Ainda que verbalizem que a universidade deveria
formar um profissional aprendiz, um profissional que não venha pronto e acabado,
parecem requerer, desejar um profissional zero defeito. Penso que esse desejo
pouco inconsciente e muito consciente é fruto de uma sociedade de mercado que
não exclui a universidade e as organizações. O receitador não pensante e o
especialista do campo foram assim preparados e desejados pelo mercado de
trabalho e, até bem pouco tempo esse perfil era válido às cooperativas. Entretanto,
não estamos mais falando da arte de colocar a tropa na linha, senão também da arte
que dá sentido grupal às ações individuais e daquela que consegue agregar
capacidades dispersas. Percebe-se que o mercado de trabalho está a exigir hoje
essa nova modalidade. A padronização dos comportamentos se impõe sob a
pressão do mercado mundial, e a disciplina no gestual do trabalho é posta em
prática pela cooperativa máquina. Os discursos dos DirCoop se aprimoram de tal
forma, que a diversidade passa a ser um pressuposto comportamental importante.
Aparentemente as diferenças são importantes, todavia, a mesmice é um padrão
comportamental agradável a racionalidade instrumental dos DirCoop. Toda a vida do
profissional deve ser subvertida pela razão econômica: os ritmos, os modos, as
finalidades.
Não se pode negar a veracidade das necessidades e reivindicações dos
dirigentes ao se pronunciarem com relação ao profissional que a universidade
deveria formar. Processos e assessorias pedagógicas se constituem hoje como
mudanças irreversíveis, desejáveis e necessárias não apenas nos cursos de
engenharia agronômica e medicina veterinária, como também todos os demais
cursos afetos a uma universidade. O diagnóstico desses gerentes, de certa forma,
causa impacto ao detectar que os profissionais não tem formação pedagógica ou
habilidade para repassar as tecnologia aprendidas. Temos técnicos incapazes de
operacionalizar e viabilizar o próprio conhecimento adquirido, porque a sua
transmissão exige razoável uso de processos de interação e práticas pedagógica
que lhe são estranhas, desnecessárias e ridículas. Os “resultados pifes e
constrangedores” produzidos por esses profissionais, sugerem uma formação
universitária deslocada, desvinculada e até mesmo disfuncional. A discrepância
assinalada entre a realidade e o aprendido é desoladora e as percepções com
relação a estrutura curricular dos cursos, confirma as observações realizadas pelos
demais atores. Nota-se que o estudante ao atuar profissionalmente realmente vive
um profundo sentimento de frustração ao deparar-se com a realidade.
Os dirigentes parecem inferir que primeiro, os profissionais e a universidade
devem descobrir que não sabem tudo; e em segundo lugar, descobrir que aquilo que
conhecem é muito menos do que precisam. Tanto quanto avaliam a velocidade das
mudanças tecnológicas e do ambiente de trabalho, inferem que o debatido, o
discutido, o estudado é ultrapassado e retrógrado. Essa preocupação está centrada
exclusivamente na formação técnica; o problema é quase sempre a tecnologia e não
a formação humana. É bem verdade que localizam algumas disciplinas básicas
nesse ínterim, e, DirCoop 3 sintetiza: “Acho que se o cara durasse 100 anos, ele
nunca vai ocupar uma matéria em que ele gastou o cérebro para passar de ano,
porque não tem utilização básica nenhuma para ele”. Ao pensar nesse entrevistado,
ainda sinto a sua raiva contida e não elaborada, mesmo depois de 20 anos de
formação e atuação profissional. Um dirigente trabalhador que traz consigo uma
certa exaustão emocional, pois, a tensão entre a necessidade de estabelecer um
vínculo afetivo e a impossibilidade de concretizá-lo lá, o então meio acadêmico,
ainda hoje se refletem. A humildade intelectual necessária para o avanço do
conhecimento, da racionalidade emancipativa e do ser não é figura protagonista na
história dos cursos de engenharia agronômica e medicina veterinária e tampouco
nas verbalizações dos dirigentes.
GRELHA CATEGORIAL II
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PERCEPÇÕES
2.1. ESTRUTURA CURRICULAR DO CURSO
DirCoop * Há um hiato muito grande nesse processo educacional, nesse
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processo de motivação, nesse processo de comunicação.
Eles mesmos dizem que aquilo que aprenderam na universidade não
tem valia nenhuma. E, que muito daquilo que está precisando naquele
momento, não recebeu o devido valor. Além de buscar tecnologia de
ponta, faltam disciplinas que os preparem para a área humana.
Deveria haver uma integração cada vez maior entre empresa e
universidade. Nunca uma universidade veio aqui saber quais as
deficiências dos alunos egressos. Não é uma questão de mandar um
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professor duas horas para catalogar uma planilha, uma entrevista. Me
refiro a pessoas que realmente tenham condições de influir no
processo de discussão da universidade. Há empresas dispostas a
investir, mas há empresas que não tem essa tolerância nem
econômica e nem de tempo para investir em profissionais
despreparados. A universidade prepara profissionais para quê? Para
ingressar no processo da atividade econômica. Ela teria que sentar
com as empresas para saber o que as empresas querem com os
profissionais; que tipo de profissional nós queremos para que ele
possa realmente ser uma boa resposta econômica e operacional para
essa empresa. Nunca vi essa discussão. As universidades estão muito
fechadas ainda. O que esperam do cliente agricultor? O cliente
produtor de leite? De soja? O estagiário vem, faz o seu currículo,
recebe uma assinatura e acaba o seu problema. Mas, o estágio não
muda mais um profissional. É uma pequena e superficial adequação
prática. São fracos e deixam muito a desejar. Não estou vendo nada
de mudança substancial na universidade para que nós tenhamos
profissionais melhores adequados nos próximos anos. Ela não está
andando na mesma velocidade que a sociedade está andando a nível
de exigência de preparação de profissionais.
* Temos um currículo com conteúdos desatualizados; as práticas de
campo são muito superficiais; muita matéria técnica e quase sempre
ultrapassada, desatualizada; os professores estão num sistema antigo,
preparam aula uma vez a vinte anos e continuam a lecionar do mesmo
jeito com métodos antiquados.
Não fazem o embasamento prático de vida.
* A Universidade deve rever as disciplinas, o currículo que vinha sendo
feito.
* Acho que se o cara durasse 100 anos, ele nunca vai ocupar uma
matéria em que ele gastou o cérebro para passar de ano, porque não
tem utilização básica nenhuma para ele.
* Existe certa resistência em mudar o currículo. É preciso incorporar
outras disciplinas que são vitais: gestão de propriedade, de relações
humanas, de gerenciamento. Conhecimento engavetado não adianta
e, hoje nós temos muito conhecimento em gavetas, na cabeça de
pesquisadores A, B ou C e isso tem custo para a sociedade. O
pesquisador tem que preparar gente, tem que preparar uma extensão
rural que leve o conhecimento.
* Tecnicamente, mais ou menos; é muito superficial; o profissional é
inseguro e corre poucos riscos.
PERFIL EXIGIDO PELO MERCADO DE TRABALHO
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* Um perfil de aprendizado; Habilidades de comunicação; Capacidade
de se interrelacionar cada vez mais; Capacidade de liderar uma
equipe, de trabalhar em grupo; Não podemos pensar em profissionais
mais ou menos, ou profissionais de média competência, se o mundo
vai exigir alta e altíssima competência. Devem integrar-se a
comunidade/projeto de integração comunitária: lazer, fim-de-semana,
atividades esportivas, sociais, culturais, respeitando toda a cultura
básica da comunidade regional. Estabelecer confiança, um vínculo
afetivo com o agricultor.
DirCoop * Responsabilidade, conhecimento geral para resolução de problemas,
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poder de decisão. Pontualidade, capacidade de relacionamento
humano,
ouvir
a
todos,
tomar
decisões,
apresentar
alternativas/soluções, ter a informação certa. Ter humildade para
aprender, ser um generaliza. Ter conhecimento em todas as áreas.
DirCoop * Jogo de cintura, muita criatividade, bom senso, não indicando coisas
3
mirabolantes e não executáveis, boa capacidade de relacionamento
com o agricultor. O produtor é um confessor, pés no chão, capacidade
de ouvir, procurar soluções, estabelecer confiança.
* Gostar da profissão, domínio da matéria, visão comercial, cativar o
agricultor
DirCoop * Dedicação, idoneidade, fidelidade, ética, princípios; Intensificar a
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relação consultor produtor; capaz de somar os saberes, produtor e
profissional, porque isso cria vínculo, gera o comprometimento, cria
parceria e ocorre avanço nos conceitos técnicos que, geralmente são
difíceis ao agricultor. Comunicação, liderança, perspicácia,
sensibilidade, ser aberto, receptivo, que assuma compromissos,
desafios; tomada de decisões. Sólida formação técnica, capacidade de
estabelecer um planejamento, metas, visão de resultados, de
rentabilidade.
DirCoop * Que o profissional seja um especialista e um generalista; Visão de
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mercado e de negócio, capacidade de relacionamento humano,
rapidez nas ações, precisão nas informações e na sua interpretação;
Que saiba lidar com gente.
É preciso que se diga que os gerentes entrevistados participaram de diversos
programas de formação em liderança, comunicação e outros. Isto também não lhes
outorga características que descrevem como importantes no perfil desejado pela
empresa, mas é um candidato seguro e permanente aos bancos escolares para não
ser reprovado tardiamente no vestibular profissional. Anda às voltas com apostilas,
livros, trabalhos grupais, reuniões, grupos de estudo, audiovisuais, programas de
treinamento, palestras e, diferente dos filhos, tudo isso deverá se transformar
rapidamente em novo estilo comportamental e novas competências: liderança,
tomada de decisões, habilidade na comunicação, perspicácia, sensibilidade,
capacidade de relacionamento, de interação, liderar equipes, trabalhar em equipe,
ouvir a todos, tolerar frustrações, etc. Como realizar tal proeza sabedores de que
não existem porções mágicas no mundo onde quem prescreve o tempo das
mudanças de atitudes e de comportamentos é muito mais o relógio interno de cada
qual do que o relógio externo da empresa?
Vamos por etapas. Poucos profissionais se dão conta de que a vida toda os
seres humanos estão envolvidos com situações de aprendizagem e mudança. Elas
são sempre gradativas e progressivas. Esse é um ponto preocupante. Na condição
de psicóloga e educadora, é possível constatar que por mais que esse profissional
seja depois trabalhado em programas permanentes de educação comportamental,
isso leva o seu tempo e, não é suficiente. Exatamente por isso, uma formação
universitária que gire em torno de quatro ou cinco anos, dispõe de um tempo médio
para o desenvolvimento dessas habilidades. Entretanto, é preciso que se diga que
aprender a Ser, não é tão trivial como muitos gerentes acreditam. Mesmo que o
desenvolvimento mental humano não seja imutável e passivo, tampouco independe
do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana. A natureza
humana internaliza
formas culturais que precisam de um tempo para serem
rompidas . É mister que se reflita e se entenda:
Assim como no corpo, alguns músculos e articulações que são
pouco exercitados tendem a enrijecer, também na mente
ocorre fenômeno semelhante. Algumas funções psíquicas,
quando se concentram em certas modalidades, deixando
outras sem exercício, tendem a favorecer um processo de
rigidez gradativa, que se traduz por comportamentos
estereotipados, não flexíveis, chegando, por vezes, até ao
extremo da radicalização ( MOSCOVICI, 1995, p. 157).
A possibilidade de romper este condicionamento está diretamente ligada a
existência de um desequilíbrio ou crise interna que para a autora propiciam alteração
de percepções e introdução de novos sentimentos, percepções, atitudes e
comportamentos. Destarte, o perfil de aprendiz sempre foi uma variável importante
na vida do ser humano e hoje, as exigências do atual mercado de trabalho, estão
desumanizando o profissional com base em psicologismos sem precedentes.
Mudança de atitudes, saúde emocional, qualidade de vida e habilidades
comportamentais não podem continuar sendo vistos pelos Dirigentes e
demais
gerentes empresariais como um meio pelas quais se pode obter determinados
resultados respeitantes a modificações de estados de consciência, mas de analisar a
lógica, em sentido lato, dos meios que, a título de experiência, são utilizados e
engendrados para obter esses estados de consciência. Com relação a esse
comentário, gostaria apenas de frisar que a competência interpessoal tão ansiada
pelos DirCoop 1, 2, 3, 4 e 5 está por eles vinculada à competência técnica. Sua
experiência profissional embasada na racionalidade instrumental, não lhes possibilita
a compreensão teórica da síntese entre o conhecimento e o comportamento; da
importância das ciências humanas nos cursos técnicos voltada para a formação
humana.
Por outro lado, reconhecer que as medidas de reajustamento estão
diminuindo o mercado de trabalho e determinam um crescimento mais lento na
carreira, o rebaixamento de níveis salariais e processos seletivos cada vez mais
exigentes, é uma atitude realista. Os DirCoop dimensionam com propriedade esse
novo ambiente dos negócios para os engenheiros agrônomos e médicos
veterinários, porque, também eles vivem esse contexto. Tentam adaptar-se às novas
exigências do mercado, eliminando seus antigos manuais. O espaço é cedido para
aqueles que tem idéias próprias e que são criativos. No lugar da obediência cega o
mercado espera respostas rápidas, alternativas ousadas, inovações. A maratona
supõe, falsamente, um salto da impessoalidade para a relações comprometidas,
uma reserva de aptidões que geralmente não estão a disposição nem dos
profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários, nem de qualquer outro
profissional.
No cenário docente e empresarial, não localizamos com facilidade
professores e gerentes preparados para dirigir grupos na descoberta de si próprios
e dos outros, bem como, criativos. SCHUTZ(1974, p.49) refere que “o conceito de
criatividade é o mais adequado para expressar a noção de prazer através do
desenvolvimento pleno do funcionamento pessoal” ; para ele, a criatividade implica
não somente no uso total de nossas capacidades, mas também inclui incursões
além das mesmas, em áreas previamente inexploradas.
Considero valoroso que um professor e um gerente saibam ajudar os alunos e
os seus funcionários a se revelarem enquanto estão em aula e na empresa; isso não
quer dizer que nessa sala de aula ou no escritório não haja espaço para a
competência técnica. Permitir que o estudante e o profissional se transformem de tal
modo a transcender a mera intelectualização e, tornar-se um indivíduo melhor, mais
realizado, parece constituir-se igualmente em uma necessidade sem volta, porque
as pessoas desejam e necessitam realizar-se e gratificar-se. Essa discussão se
amplia e se retifica ao analisarmos os maiores problemas enfrentados pelos
profissionais tão logo se formem na visão do atores entrevistados.
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GRELHA CATEGORIAL III
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PERCEPÇÕES
MAIORES PROBLEMAS QUE O PROFISSIONAL ENFRENTA
DEPOIS DE FORMADO
* Dá pena você ver um profissional saindo da universidade e fazer
uma reunião, por exemplo., com vinte, trinta produtores. Ele está
totalmente despreparado. Eles não tem conhecimento de dinâmica de
grupo, de estrutura de grupos. Outro problema: o nível de convicção
desses profissionais é muito baixo e você só convence quando está
convicto. Esses profissionais também não conhecem e não tem
acesso aos recursos didáticos, que, poderiam melhorar muito a forma
de comunicação. Muitos produtores tem um acervo cultural e
tecnológico igual ou até melhor que muitos profissionais que saem da
universidade. O produtor que permanecer hoje no meio rural é um
produtor que tem tecnologia, está aberto a discussão tecnológica.
Um projeto de aprendizagem ultrapassado.
* Conteúdos desatualizados, ultrapassados, sem adequação e sem
validade. *O profissional sai da faculdade e aqueles produtos, por
exemplo nem existem mais no mercado e trabalho. Eles dão uma
noção técnica geral e quando o profissional vai começar a atuar, ele
tem que começar a estuar. * Saber enxergar e preparar o agricultor
para as inovações tecnológicas.
* É aquele abismo que tem entre a realidade e muitas vezes a prática
e a gramática como se diz, preconizam uma coisa e acontece outra. *
Vivem muito atrelados a burocracia, perdem tempo em minúcias e
estão sempre com a cabeça a mil. Isso desgasta muito o profissional.
* Considerar a realidade do produtor; seus objetivos, os objetivos e
sua família, as diferenças que existem. Respeitar a dinâmica familiar
para inserir o conhecimento, a tecnologia;
Uma visão muito pequena do ambiente onde vão atuar; a falta de
ligação com aquilo que está ocorrendo no mundo. O retrabalho é uma
dificuldade. A universidade deveria interagir com o seu meio, com o
que está a sua volta e perpassar aos alunos essa realidade. Não ter
uma visão mais plástica, não ter uma formação mais completa como
pessoa e profissional. Temos dificuldades enormes de colocação
destes profissionais e por outro lado, necessidades enormes de
profissionais.
* O confronto com a realidade profissional/mercado de trabalho; sua
falta de conhecimento fora da Universidade; * A idéia que ele tem de
que o canudo vai resolver todas as coisas e que ele tem a fórmula
para resolver todos os problemas.
Concepções do tipo “o retrabalho é uma dificuldade” ou “um projeto de
aprendizagem ultrapassado”, inferem a compreensão de que isso não é resultado
somente de um mecanismo econômico enquanto tal, mas de um processo de
desculturação. “Esta desculturação, por sua vez, se reproduz e se agrava pela
terapêutica colocada em prática para remediá-la: a política do desenvolvimento e da
modernização” (LATOUCHE, 1994, p. 62). Tentei dimensionar o alcance e o
significado da expressão, “um projeto de aprendizagem ultrapassado” e, confesso
que tardei para perceber que se tratava de um projeto voltado somente para a
tecnologia. Uma aprendizagem que exclui processo, construção, possibilidades.
Uma aprendizagem que não inclui a formação humana.
A fragilidade ou ausência de convicção nesses profissionais pautada pelo
DirCoop 1, pode ser entendida como uma conseqüência da filosofia, estrutura e
funcionamento da sociedade mercadológica, em que a lógica taylorista, o positivismo
comteano impregnaram os meios acadêmicos e dificultaram ao longo dos anos tanto
o auto-conhecimento como o hetero – conhecimento. O empobrecimento precoce de
características comportamentais é mascarado pela racionalidade instrumental, que
não contribui com o real desenvolvimento de potencialidades do indivíduo. Uma
proposta adaptativa e um modelo de pensamento que dita as pautas e determina o
pensar e o agir, não pode esperar muita convicção a nível de atitudes e
comportamentos. Enquanto elementos de manutenção da estrutura sócioeconômica, o mecanismo psicológico submete e desqualifica os modos de pensar,
de sentir e agir dos engenheiros agrônomos e médicos veterinários. Os argumentos
pseudo-científicos
perpassados
na
formação
universitária
lhes
conferem
inferioridade cerebral e desqualificação sócio-cultural. É quase uma fórmula
científico comportamental.
O preconizado como ciências humanas (vide ANEXO 1 – Grelha Categorial
IV- áreas de conhecimento valorizadas pelos Dirigentes Cooperativistas), confirma a
interpretação e análise já inferidas. A expressão do DirCoop 4, “eu costumo dizer
para a área técnica que o produtor não está louco por agrônomo e veterinário; ele
está sedento por gente que venha para ajudar a produzir mais e mais barato. Se
você for essa pessoa ele te aplaude, se não for você é custo”, permite essa polêmica
porque enquanto parece enfatizar a idéia de que “antes de formar o técnico é
preciso formar o homem”, no momento seguinte da sua retórica o exclui, diante da
suave fórmula de consenso: aplausos para o seu valor operacional e econômico e
vaias para o gasto que você pode representar para a empresa. Privados de sua
socialidade autêntica e, portanto, do conhecimento de sua realidade, os DirCoop só
se reconhecem nas novas relações políticas e administrativas. Quando deixados a si
próprios, correm o risco de desconhecerem a sua estrutura original de
personalidade.
Não vou aqui dissertar sobre o complexo mundo da personalidade e do
trabalho, mas, ao estar firmemente empenhada nas relações dos profissionais,
dirigentes das cooperativas e professores, me permito a pelo menos refletir sobre
essas relações que pretendem contribuir para um suposto bem social, dirigindo
esforços para reformular profissões ou para desenvolver um conjunto de habilidades
isoladas que hoje interessam a empresa. Posso estar especulando cientificamente,
dirá o leitor. Eu respondo que nesse momento a especulação é uma necessidade
imperiosa na pesquisa.
Que os gerentes/dirigentes sejam capazes de avaliar as demandas
organizacionais, sociais, econômicas e humanas. Que os discursos não sejam a
tradução de uma caça à vida material simplesmente, como transparece . Que não se
trate de manter novos conjuntos de padrões culturais supostamente humanos e
críticos. Uma retórica onde o profissionalismo entendido como responsabilidade,
autonomia, criatividade, flexibilidade e liderança, se volte especificamente para o
conhecimento técnico e administrativo, diminuindo a preocupação com os aspectos
sociais e políticos subjacentes a vida e atuação profissional do engenheiro
agrônomo e médico veterinário. A concepção de que o conhecimento é um bem que
deve gerar retorno me preocupa porque não deixa de reforçar a ideologia de uma
nova ciência que sustenta esse mesmo conhecimento, tão bem discutido por
POPKEWITZ(1997) que não se cansa de designar o fenômeno, como a ação
combinada da profissionalização do conhecimento e do individualismo possessivo
para proporcionar o viés dos discursos. São os dirigentes capazes de compreender
o espírito de uma sociedade que não esteja centrada na propriedade e na avidez?
Serão as descrições perceptivas dos gerentes somente fruto de um caráter mercantil
cujo ser vivo torna-se uma mercadoria no “mercado de personalidades” como bem
traduz FROMM(1976)?
Atualmente, o mundo inteiro cultua a técnica e a realização da sociedade
passa pela industrialização. Ela acredita que a sociedade é tomada por um
irresistível desejo de produção e progresso; ela acredita que a humanidade poderá
chegar a emancipação e plena autonomia via ciência, a técnica, economia,
desenvolvimento e domínio da natureza. As relações são mercantilizadas e contém
o fermento de destruição da ordem política e ética. O valor econômico introduz-se
nas engrenagens do vínculo social e, através do século XIX e XX, assume várias
faces na universidade gaúcha, nos cursos em foco e nas cooperativas
agropecuárias. Há uma tendência em situar a formação humana como sinônimo de
procedimentos técnicos necessários ao mercado de trabalho. Uma racionalidade
instrumental revestida de emancipação.
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ANEXO 1
DirCoop
1-
DirCoop
2-
GRELHA CATEGORIAL IV
DIRCOOP
SABERES NECESSÁRIOS
4.1. ÁREAS DE CONHECIMENTO VALORIZADAS
* A área comportamental numa empresa é questão de viabilização
dela. São as pessoas que fazem a empresa ser uma empresa ativa,
competitiva e com todas as condições de viabilizar um projeto
econômico. E são as mesmas pessoas que poderão inviabilizar um
projeto muito bonito. Se não buscássemos um projeto de integração
do produtor através de um projeto e transferência tecnológica, onde
nós sentimos a grande deficiência pedagógica, nós seríamos uma
empresa mesmice. Eu diria que a deficiência hoje é de 80%
comportamental e 20% de instrumentalização tecnológica.
* Assuntos globais como: meteorologia, questão ambiental,
reflorestamento, legislação em geral na parte da agricultura,
comercialização de grãos e produtos animais. Nem tanto
conhecimento técnico, mas também ciências humanas. Tem que
DirCoop
3
DirCoop
4
DirCoop
5
DirCoop
1–
DirCoop
2
DirCoop
3
DirCoop
4
DirCoop
5
saber lidar adequadamente, saber chegar adequadamente até ele.
Relações humanas, gerenciamento na propriedade como um todo.
Inglês, informática. Deve-se dar importância a todo o percurso do
curso; dizer que não vai aproveitar tal disciplina, ou que tal coisa não
me interessa, não pode. Todos os dias os profissionais são
desafiados e muitas vezes não se dá importância aquilo que é
importante. Tudo de um jeito ou de outro, se ocupa.
* Bom domínio da matéria: saber s culturas regionais que estão
sendo cultivadas, conhecer as atividades pecuárias, acompanhar
pesquisas, conhecer novos produtos e tecnologias. * O conhecimento
técnico não basta, tem que ter prática, vivência, experiência,
sensibilidade.
* Ele tem que exercitar mais as perguntas porque e não tanto a
pergunta como? Saberes que proporcionem a ligação entre si e com
a realidade. * Línguas é importante, informática. Que a todo e
qualquer momento em que não estejam na sala e aula estejam
fazendo um treinamento na Embrapa, na cooperativa, num curso de
psicologia, de marketing.
* Conhecimentos técnicos e conhecimentos relativos a área
comportamental como já citei anteriormente. * Gerenciamento de
propriedade.
4.2. IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS
*É de uma importância transcendental na empresa, no que diz
respeito a todo um projeto de treinamento, de profissionalização e de
integração e motivação. * Se nós não tivéssemos uma gestão
humana muito forte, não poderíamos ser um diferencial, seríamos
igual a qualquer multinacional, a nível interno.
* Nos auxiliam porque hoje nós temos que ter um relacionamento
adequado, saber entender eles, ter paciência, se vai conscientizando
ele, vamos dizer, se vai empurrar isso na cabeça dele. É um trabalho
de educação em geral.
* Importantíssima, porque tem que ser um pouco técnico e ter outras
habilidades. Essas habilidades seriam muito bem vistas, muito bem
vindas na carreira do agrônomo e veterinário.
* Eu costumo dizer para a área técnica que o produtor não está louco
por agrônomo e veterinário; ele está sedento por gente que venha
para ajudar a produzir mais e mais barato. Se você for essa pessoa
ele te aplaude, se não for você é custo. O que eu vou fazer com um
profissional que não é simpático com o produtor, que não saiba se
colocar em consonância com a meta, com o linguajar, com o modo
de vestir, com o que está ocorrendo ao seu redor. Um cara com
rabinho de cavalo, brinco, tatuagem e pircen não serve. Está fora da
cultura do agricultor. Não pode ser receita de bolo, tem que haver
sensibilidade, percepção acurada.
* Talvez esse seja o fator mais importante e necessário no momento
e quem não tiver essas habilidades terá dificuldade de se manter na
empresa.
Download

a missão da universidade na formação do engenheiro agrônomo e