A MISSÃO DA UNIVERSIDADE NA FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO E MÉDICO VETERINÁRIO DAS UNIVERSIDADES GAÚCHAS: QUAIS PROFISSIONAIS A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO PARA O RIO GRANDE DO SUL E QUAIS PROFISSIONAIS DEVERIA FORMAR NA PERCEPÇÃO DOS DIRIGENTES DE COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS Rosani Sgari Szilagyi Doutoranda da UFRGS PALAVRAS-CHAVE: ensino superior, formação técnica/humana, cooperativas, mercado de trabalho, racionalidade instrumental/emancipativa. O presente estudo é resultante do Mestrado e examina os pressupostos que fundamentam e definem os modelos de inteligibilidade na formação acadêmica do curso de engenharia agronômica e medicina veterinária, abrangendo instituições universitárias públicas, privadas e instituições cooperativistas agropecuárias do Rio Grande do Sul. Tem como base teórica as reflexões sobre a racionalidade instrumental e emancipativa de Adorno e Horkheimer, reforma e mudança de Thomas Popkewitz, além dos estudos sobre a história da universidade ao longo dos séculos. Os resultados revelam que os cursos examinados são expoentes sementeiras de elaborações teóricas que renunciam às significações do fenômeno humano em prol da técnica. Centrar-se num conjunto de disciplinas que utilizam em maior escala um esquema de racionalidade positiva, uma racionalidade voltada para meios/fins. Há uma tendência em situar a formação humana como sinônimo de procedimentos técnicos necessários ao mercado de trabalho. Os atores procedem a uma separação do técnico e humano quando se referem a formação superior destes profissionais, como se de duas naturezas se tratasse; a universidade não está conseguindo mediar a convivência e a síntese entre a formação humana e a técnica, entre o conhecimento e o comportamento. O sentido de unidade está mais instalado no imaginário e no discurso do que na realidade. O estudo proporcionou a análise e o efeito recíproco entre os atores e instituições envolvidas: quarenta formandos/finalistas e dez professores universitários dos cursos focalizados em cinco universidades gaúchas. Cinco dirigentes de instituições cooperativistas e vinte profissionais de ambas as áreas que nelas atuam, perfazendo um total de setenta e cinco sujeitos, através da ação combinada de entrevistas e questionários semiestruturados, documentos específicos e gerais e análise de conteúdo, numa perspectiva qualitativa e histórico-crítica. Dada a extensão da pesquisa serão apresentadas as percepções dos dirigentes das cooperativas agropecuárias. A MISSÃO DA UNIVERSIDADE NA FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO E MÉDICO VETERINÁRIO DAS UNIVERSIDADES GAÚCHAS: QUAIS PROFISSIONAIS A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO PARA O RIO GRANDE DO SUL E QUAIS PROFISSIONAIS DEVERIA FORMAR NA PERCEPÇÃO DOS DIRIGENTES DE COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS. Rosani Sgari Szillagyi 1 UFRGS Penso que, à medida que o pesquisador prepara as informações reunidas, dialoga com a informação recolhida, elabora sua percepção do fenômeno e se deixa guiar pelas especificidades do material selecionado. E ao integrar BARDIN(1977) nessa reflexão, cabe ressaltar que, a partir de sua orientação dediquei-me à tarefa de desenvolver o corpo analítico através da construção de categorias temáticas para cada grupo de respondentes que, baseadas em dimensões, agrupam questões dos questionários semi-estruturados aplicados e entrevistas semi-estruturadas realizadas. Os conteúdos coletados e recortados a partir das unidades de significação foram passados às grelhas categoriais de análise criadas e, dessas, para o estudo, interpretação e reconstrução do sentido por uma abordagem qualitativa. A análise constrói entendimentos em nível de inferências e de relações que os elementos mantêm entre si. 1 SZILAGYI, Rosani Sgari. Profa. Ms. Da Universidade de Passo Fundo, Psicologia. Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Para principiar o desenrolar desse encarte metodológico, faz- se necessária uma aproximação com os atores em foco. Inicio a discussão dos resultados relativos aos dirigentes das Cooperativas Agropecuárias, apresentando o objeto de justificação para a escolha das mesmas, e, lembrando a todos que recrutar o problema não é tarefa difícil; é, antes de tudo, uma tarefa angustiante. Difícil é tecer uma rede de parcerias na discussão, análise e busca de alternativas para o problema, principalmente quando ele envolve muitos atores supostamente próximos mas realisticamente distantes: formandos e professores universitários, profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários que atuam em cooperativas agropecuárias e seus respectivos dirigentes. Dada a extensão da pesquisa, cabe ressaltar novamente que o estudo ora apresentado refere-se ao cenário perceptivo dos dirigentes de cooperativas. Discutir a formação universitária dos profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários a partir do cenário perceptivo e específico de um empregador - Cooperativas Agropecuárias, mais que oportuno, se faz necessária no Rio Grande do Sul, uma vez que o Estado e a Região em foco desenvolvem-se expressivamente na área agrícola e na bacia leiteira. Realizar a escuta e o diálogo com estes atores, significa dialogar com a Universidade, com o perfil exigido pelo mercado de trabalho, com a estrutura curricular do curso, com as áreas de conhecimento valorizadas e com os maiores problemas que o profissional enfrenta depois de formado. Significa pensar e repensar educação superior na região Sul. Os critérios adotados para a escolha das cooperativas investigadas, foram de ordem prática. No contexto da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul - Fecoagro-RS, procurei investigar filiadas que congregam a Região Seis observando: a) área de abrangência da minha atuação profissional enquanto psicóloga (seleção de pessoal, treinamento, outros); b) a existência de um departamento técnico que congregasse um expressivo número de profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários envolvidos com assistência técnica e oriundos das Universidades investigadas; c) conseqüentemente, essas cooperativas deveriam estar envolvidas com produção agrícola que incluísse recebimento de grãos, sementes e insumos (fertilizantes e outros); d) por suposto, as cooperativas deveriam estar envolvidas com atividades de ordem pecuária: leite, suínos, UPL – Unidade Produtora de Leitões, gado de corte, fábrica de rações e abatedouro; e) finalmente, deviam apresentar expressiva área geográfica agricultável na região de atuação. Assim, destaco as escolhidas e trabalhadas com base nesses critérios: Cooperativa Tritícola Espumoso Ltda. – Cotriel; Cooperativa Tritícola Mista General Osório Ltda. – Cotribá; Cooperativa Tritícola Panambi Ltda. – Cotripal; Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí Ltda. – Cotrijal e Cooperativa Tritícola Taperense Ltda – Cotrisoja. O cenário perceptivo dos dirigentes e/ou gerentes das cooperativas agropecuárias Os atores sociais em questão compreendem uma idade cronológica que gira em torno de 40 anos a 48 anos e traduzem exatamente 19 anos, 20 anos, 21 e 25 anos de atividades profissionais desenvolvidas no sistema cooperativo gaúcho. O tempo de formação profissional e atuação profissional aumenta a responsabilidade com os demais atores; encontrar novos caminhos para construir não apenas um novo modelo de formação universitária, mas um novo modelo de relações de trabalho que garantam além da competitividade, a aprendizagem, o respeito e a confiança no engenheiro agrônomo e médico veterinário nas cooperativas e fora delas. Á medida que questionei com os demais participantes a necessidade da expressão de uma imaginação livre dos controles de uma consciência deformada pela racionalidade instrumental, defrontei-me com um grupo de atores cujo poder é legítimo e hierárquico, o que pode ocasionar um conflito saudável ou um conflito desagregador no que tange a sua reflexão relacionada aos recursos humanos engenheiros agrônomos e médicos veterinários. Nesse sentido, necessária se faz, mais uma vez, a inserção imediata da grelha categorial que tenta coletar com fidelidade a fala dos entrevistados. Considero relevantes as suas verbalizações para o objeto da pesquisa e, como tal, não vou me furtar da sua inclusão no transcorrer da análise. Dessa forma convido o leitor para a apreciação da grelha categorial 1 : DirCoop 1 GRELHA CATEGORIAL I PERCEPÇÕES 1.1. PERFIL ALCANÇADO 1.2. PERFIL DESEJADO DIRCOOP 1.1. PROFISSIONAL QUE A UNIVERSIDADE ESTÁ FORMANDO PARA O RIO GRANDE DO SUL * Os profissionais da área agronômica e veterinária tem uma limitação muito grande no que diz respeito à informações tecnológicas e, ao repasse tecnológico. Essa universidade não tem tecnologia de ponta e os profissionais que estão saindo da universidade não tem um trabalho pedagógico, não tem formação pedagógica para repassar essas tecnologia. Nas pessoas que nós sentimos que tem condições nós investimos através de treinamentos. O produtor se encontra numa letargia intelectual e nós precisamos gente na vanguarda pra despertá-lo; Os produtores saem da reunião e dizem que não entenderam nada com esses profissionais; A gente vê resultados muito pifes, muito pequenos, constrangedores de pessoas que estão saindo da universidade. A universidade ainda forma a pessoa para fazer a extensão rural dos quinze, vinte anos e todos sabemos eu o processo tecnológico do agro-business do Rio Grande do Sul, do Brasil ou do mundo mudou no mínimo umas dez vezes. E nós ainda estamos fazendo a assistência rural dos últimos vinte anos. O pessoal sai com uma postura de diplomado, de formado e quer transferir tecnologias. Eu digo com tristeza que a universidade prepara um profissional para sentar ou ficar e pé, porque se fica de pé se atrapalha; então ele senta na frente de trinta produtores e prepara um discurso de quinze, vinte minutos... abotoadinho. Se saem duas perguntas, fica complicada a situação dele. Eu acredito que a universidade saiba disso. Não sei se ela tem coragem de fazer essa discussão muito aberta e clara. Tanto não prepara que é preciso prepará-lo três, quatro anos na empresa investindo em cursos, treinamentos, pós-graduações nas áreas humanas, gerenciamento, comunicação, liderança, coordenação de equipes. As universidades nasceram paternalistas, tuteladas por um governo; elas transitam e se relacionam muito mais com as instituições públicas onde a eficiência não é uma questão primordial. Elas não buscam essas questões de integração com as empresas privadas. O nível de exigência de uma empresa pública é muito baixo DirCoop 2 DirCoop 3 DirCoop 4 DirCoop 5 DirCoop 1 DirCoop 2 DirCoop 3 e como a universidade também não tem uma capacidade de produção tecnológica com alta competitividade, essa relação é muito mais entre me engana que eu gosto. Ela se relaciona mais facilmente com os órgãos públicos porque existe uma troca e informações superficiais onde a contestação e a discussão deixam a desejar. * Um profissional voltado mais para um conhecimento geral da parte técnica para depois ele si virar sozinho, para ele depois apresentar o título “sou formado engenheiro agrônomo”, para se virar depois. * Um técnico, verdadeiro capacho de bancos, sem autonomia. Eu sou agrônomo e me sinto frustrado porque eu não exerci a agronomia que eu imaginava que ia encontrar; que se preconizava, que seria um ensino voltado para criar alternativas, oportunidades para o homem do campo. * Existe uma discrepância muito grande entre aquilo que a universidade forma e o que é; entre o imaginário e o que acontece na realidade. * A universidade não tem evoluído na medida que as mudanças tem exigido. Com uma visão tecnicista, foram preparados para exercer funções na Emater e outras instituições públicas. * Uma formação voltada para a porteira para dentro a universidade tem deixado a desejar porque não prepara os profissionais para o pós porteira. * Saem de uma forma muito técnica e ainda sem aquela visão de negócio como um todo. A universidade trabalha muito pouco a parte das relações humanas, comportamento, atitudes e isso é uma carência; têm uma visão do sistema antigo e com isso o profissional fica perdido. 1.2. PROFISSIONAL QUE A UNIVERSIDADE DEVERIA FORMAR * Deveria acordar e formar profissionais par a comunicação; deveria propor melhores condições tecnológicas e a questão mais forte: trabalhar a postura do profissional. Ao invés de sair diplomado me parece que ele teria que ter muito mais uma postura de um aprendiz; alguém que tem algumas noções básicas de tecnologia, mas que respeite todas as noções tecnológicas do nosso produtor. Precisam de um comportamento pessoal de aprendizado. Um profissional capaz de interagir com o produtor. Nós temos um projeto de trazer o produtor junto com essa evolução tecnológica e econômica, e, principalmente, dessa interação, integração entre associado e cooperativa. Nenhum profissional pode vir acabado dentro de uma universidade. Esse profissional não tem lugar na nossa empresa. * Um profissional que além daqueles conhecimentos gerais tivesse um pouco mais de prática nas disciplinas profissionalizantes. Um profissional que aceite desafios, que não tenha medo. * Na nossa profissão tudo é muito rápido, o agricultor quando engaja uma pergunta ele quer uma resposta assim no seco, no imediato. Então o agrônomo e o veterinário não podem tatear. A universidade deve formar clínicos gerais, diversificado, tem que entender de tudo um pouco. Deve fugir da especialização que muitos preconizam. Seria interessante que o profissional tivesse mais contato com a realidade, na situação que ele vai trabalhar, no dia-a-dia, que aos poucos fosse DirCoop 4 DirCoop 5 trabalhando as suas tendências: vendas, ramos de ementes, clínica de grandes animais, etc. O grosso da coisa ele tem que saber. Não pode se omitir dizendo que essa não é a área dele ou porque não é especialista. * Somos clientes da universidade, nós temos que ser ouvidos; quer dizer, a universidade está preparando o aluno para quem? Na nossa visão ela tem que entrar na propriedade, deve preparar profissionais para a gestão da propriedade, olhá-la como um todo, olhar a família do produtor. A universidade deve sair de dentro do seu espaço físico, de eu espaço geográfico e interagir. A demanda de hoje, exige além de um profissional técnico outros atributos. A universidade deveria fazer discussões: que tipo de profissionais nós estamos produzindo? Me parece que ela presta um serviço a sociedade e deve questionar a formação desse profissional. Essa interação com as cooperativas seria salutar; o professor não tem a visão porque ele não trabalha fora da organização e, precisa ampliar sua visão. Promover essa interação com os profissionais. Isso evitaria que a gente tenha que ficar monitorando esse profissional dois, três anos em cima daquilo que nós achamos que deve ser um profissional. Se vê profissionais com boa formação técnica, mas com péssima qualidade de relacionamento. É lamentável, vai Ter que trabalhar em outro segmento. * Desenvolver um perfil mais coletivo, que veja a empresa de forma global e que atue de forma sistêmica. * Não pode ser só um técnico e especialista, tem que ter uma visão psicossocial para utilizar as habilidades e obtenha mais sucesso. Atendendo às expectativas dos desafios enfrentados, os dirigentes/gerentes revelam que também as cooperativas sofreram e sofrem modernos processos de mudança organizacional para assegurar o sucesso constante nos seus negócios. Em um ambiente com transformações cada vez mais aceleradas, desenvolver engenheiros agrônomos e médicos veterinários dentro desse ambiente de trabalho tornou-se uma meta. As áreas de produção de grãos e produção animal são o coração das cooperativas e os profissionais em questão são peças fundamentais na manutenção desse coração. Ao avaliarmos as expressões dos entrevistadosDirigentes Cooperativas- DirCoop 1, 2, 3, 4 e 5, como por exemplo, “o pessoal que sai com uma postura de diplomado, de formado”, de quem tudo sabe, de quem foi preparado durante anos para revelar os conhecimentos recebidos, aqui se confirma. O aluno preparado para apresentar o título “sou engenheiro agrônomo e/ ou médico veterinário”, corre o risco de à boca pequena ser ironizado pelo complexo organizacional. Essa tendência em colocar o profissional no Olimpo dos saberes já é por demais delirante, aistórica e jurássica. Embora as organizações cooperativistas já tenham decretado a sua falência, ela ainda vigora na universidade, e nos cursos de engenharia agronômica e medicina veterinária. Assim como os professores parecem tratar a formação do profissional como uma fotografia, uma “coisa parada”, também os gerentes/dirigentes descrevem uma formação um tanto idealizada. Ainda que verbalizem que a universidade deveria formar um profissional aprendiz, um profissional que não venha pronto e acabado, parecem requerer, desejar um profissional zero defeito. Penso que esse desejo pouco inconsciente e muito consciente é fruto de uma sociedade de mercado que não exclui a universidade e as organizações. O receitador não pensante e o especialista do campo foram assim preparados e desejados pelo mercado de trabalho e, até bem pouco tempo esse perfil era válido às cooperativas. Entretanto, não estamos mais falando da arte de colocar a tropa na linha, senão também da arte que dá sentido grupal às ações individuais e daquela que consegue agregar capacidades dispersas. Percebe-se que o mercado de trabalho está a exigir hoje essa nova modalidade. A padronização dos comportamentos se impõe sob a pressão do mercado mundial, e a disciplina no gestual do trabalho é posta em prática pela cooperativa máquina. Os discursos dos DirCoop se aprimoram de tal forma, que a diversidade passa a ser um pressuposto comportamental importante. Aparentemente as diferenças são importantes, todavia, a mesmice é um padrão comportamental agradável a racionalidade instrumental dos DirCoop. Toda a vida do profissional deve ser subvertida pela razão econômica: os ritmos, os modos, as finalidades. Não se pode negar a veracidade das necessidades e reivindicações dos dirigentes ao se pronunciarem com relação ao profissional que a universidade deveria formar. Processos e assessorias pedagógicas se constituem hoje como mudanças irreversíveis, desejáveis e necessárias não apenas nos cursos de engenharia agronômica e medicina veterinária, como também todos os demais cursos afetos a uma universidade. O diagnóstico desses gerentes, de certa forma, causa impacto ao detectar que os profissionais não tem formação pedagógica ou habilidade para repassar as tecnologia aprendidas. Temos técnicos incapazes de operacionalizar e viabilizar o próprio conhecimento adquirido, porque a sua transmissão exige razoável uso de processos de interação e práticas pedagógica que lhe são estranhas, desnecessárias e ridículas. Os “resultados pifes e constrangedores” produzidos por esses profissionais, sugerem uma formação universitária deslocada, desvinculada e até mesmo disfuncional. A discrepância assinalada entre a realidade e o aprendido é desoladora e as percepções com relação a estrutura curricular dos cursos, confirma as observações realizadas pelos demais atores. Nota-se que o estudante ao atuar profissionalmente realmente vive um profundo sentimento de frustração ao deparar-se com a realidade. Os dirigentes parecem inferir que primeiro, os profissionais e a universidade devem descobrir que não sabem tudo; e em segundo lugar, descobrir que aquilo que conhecem é muito menos do que precisam. Tanto quanto avaliam a velocidade das mudanças tecnológicas e do ambiente de trabalho, inferem que o debatido, o discutido, o estudado é ultrapassado e retrógrado. Essa preocupação está centrada exclusivamente na formação técnica; o problema é quase sempre a tecnologia e não a formação humana. É bem verdade que localizam algumas disciplinas básicas nesse ínterim, e, DirCoop 3 sintetiza: “Acho que se o cara durasse 100 anos, ele nunca vai ocupar uma matéria em que ele gastou o cérebro para passar de ano, porque não tem utilização básica nenhuma para ele”. Ao pensar nesse entrevistado, ainda sinto a sua raiva contida e não elaborada, mesmo depois de 20 anos de formação e atuação profissional. Um dirigente trabalhador que traz consigo uma certa exaustão emocional, pois, a tensão entre a necessidade de estabelecer um vínculo afetivo e a impossibilidade de concretizá-lo lá, o então meio acadêmico, ainda hoje se refletem. A humildade intelectual necessária para o avanço do conhecimento, da racionalidade emancipativa e do ser não é figura protagonista na história dos cursos de engenharia agronômica e medicina veterinária e tampouco nas verbalizações dos dirigentes. GRELHA CATEGORIAL II DIRCOOP PERCEPÇÕES 2.1. ESTRUTURA CURRICULAR DO CURSO DirCoop * Há um hiato muito grande nesse processo educacional, nesse 1 processo de motivação, nesse processo de comunicação. Eles mesmos dizem que aquilo que aprenderam na universidade não tem valia nenhuma. E, que muito daquilo que está precisando naquele momento, não recebeu o devido valor. Além de buscar tecnologia de ponta, faltam disciplinas que os preparem para a área humana. Deveria haver uma integração cada vez maior entre empresa e universidade. Nunca uma universidade veio aqui saber quais as deficiências dos alunos egressos. Não é uma questão de mandar um DirCoop 2 DirCoop 3 DirCoop 4 DirCoop 5 DirCoop 1 professor duas horas para catalogar uma planilha, uma entrevista. Me refiro a pessoas que realmente tenham condições de influir no processo de discussão da universidade. Há empresas dispostas a investir, mas há empresas que não tem essa tolerância nem econômica e nem de tempo para investir em profissionais despreparados. A universidade prepara profissionais para quê? Para ingressar no processo da atividade econômica. Ela teria que sentar com as empresas para saber o que as empresas querem com os profissionais; que tipo de profissional nós queremos para que ele possa realmente ser uma boa resposta econômica e operacional para essa empresa. Nunca vi essa discussão. As universidades estão muito fechadas ainda. O que esperam do cliente agricultor? O cliente produtor de leite? De soja? O estagiário vem, faz o seu currículo, recebe uma assinatura e acaba o seu problema. Mas, o estágio não muda mais um profissional. É uma pequena e superficial adequação prática. São fracos e deixam muito a desejar. Não estou vendo nada de mudança substancial na universidade para que nós tenhamos profissionais melhores adequados nos próximos anos. Ela não está andando na mesma velocidade que a sociedade está andando a nível de exigência de preparação de profissionais. * Temos um currículo com conteúdos desatualizados; as práticas de campo são muito superficiais; muita matéria técnica e quase sempre ultrapassada, desatualizada; os professores estão num sistema antigo, preparam aula uma vez a vinte anos e continuam a lecionar do mesmo jeito com métodos antiquados. Não fazem o embasamento prático de vida. * A Universidade deve rever as disciplinas, o currículo que vinha sendo feito. * Acho que se o cara durasse 100 anos, ele nunca vai ocupar uma matéria em que ele gastou o cérebro para passar de ano, porque não tem utilização básica nenhuma para ele. * Existe certa resistência em mudar o currículo. É preciso incorporar outras disciplinas que são vitais: gestão de propriedade, de relações humanas, de gerenciamento. Conhecimento engavetado não adianta e, hoje nós temos muito conhecimento em gavetas, na cabeça de pesquisadores A, B ou C e isso tem custo para a sociedade. O pesquisador tem que preparar gente, tem que preparar uma extensão rural que leve o conhecimento. * Tecnicamente, mais ou menos; é muito superficial; o profissional é inseguro e corre poucos riscos. PERFIL EXIGIDO PELO MERCADO DE TRABALHO DIRCOOP * Um perfil de aprendizado; Habilidades de comunicação; Capacidade de se interrelacionar cada vez mais; Capacidade de liderar uma equipe, de trabalhar em grupo; Não podemos pensar em profissionais mais ou menos, ou profissionais de média competência, se o mundo vai exigir alta e altíssima competência. Devem integrar-se a comunidade/projeto de integração comunitária: lazer, fim-de-semana, atividades esportivas, sociais, culturais, respeitando toda a cultura básica da comunidade regional. Estabelecer confiança, um vínculo afetivo com o agricultor. DirCoop * Responsabilidade, conhecimento geral para resolução de problemas, 2 poder de decisão. Pontualidade, capacidade de relacionamento humano, ouvir a todos, tomar decisões, apresentar alternativas/soluções, ter a informação certa. Ter humildade para aprender, ser um generaliza. Ter conhecimento em todas as áreas. DirCoop * Jogo de cintura, muita criatividade, bom senso, não indicando coisas 3 mirabolantes e não executáveis, boa capacidade de relacionamento com o agricultor. O produtor é um confessor, pés no chão, capacidade de ouvir, procurar soluções, estabelecer confiança. * Gostar da profissão, domínio da matéria, visão comercial, cativar o agricultor DirCoop * Dedicação, idoneidade, fidelidade, ética, princípios; Intensificar a 4 relação consultor produtor; capaz de somar os saberes, produtor e profissional, porque isso cria vínculo, gera o comprometimento, cria parceria e ocorre avanço nos conceitos técnicos que, geralmente são difíceis ao agricultor. Comunicação, liderança, perspicácia, sensibilidade, ser aberto, receptivo, que assuma compromissos, desafios; tomada de decisões. Sólida formação técnica, capacidade de estabelecer um planejamento, metas, visão de resultados, de rentabilidade. DirCoop * Que o profissional seja um especialista e um generalista; Visão de 5 mercado e de negócio, capacidade de relacionamento humano, rapidez nas ações, precisão nas informações e na sua interpretação; Que saiba lidar com gente. É preciso que se diga que os gerentes entrevistados participaram de diversos programas de formação em liderança, comunicação e outros. Isto também não lhes outorga características que descrevem como importantes no perfil desejado pela empresa, mas é um candidato seguro e permanente aos bancos escolares para não ser reprovado tardiamente no vestibular profissional. Anda às voltas com apostilas, livros, trabalhos grupais, reuniões, grupos de estudo, audiovisuais, programas de treinamento, palestras e, diferente dos filhos, tudo isso deverá se transformar rapidamente em novo estilo comportamental e novas competências: liderança, tomada de decisões, habilidade na comunicação, perspicácia, sensibilidade, capacidade de relacionamento, de interação, liderar equipes, trabalhar em equipe, ouvir a todos, tolerar frustrações, etc. Como realizar tal proeza sabedores de que não existem porções mágicas no mundo onde quem prescreve o tempo das mudanças de atitudes e de comportamentos é muito mais o relógio interno de cada qual do que o relógio externo da empresa? Vamos por etapas. Poucos profissionais se dão conta de que a vida toda os seres humanos estão envolvidos com situações de aprendizagem e mudança. Elas são sempre gradativas e progressivas. Esse é um ponto preocupante. Na condição de psicóloga e educadora, é possível constatar que por mais que esse profissional seja depois trabalhado em programas permanentes de educação comportamental, isso leva o seu tempo e, não é suficiente. Exatamente por isso, uma formação universitária que gire em torno de quatro ou cinco anos, dispõe de um tempo médio para o desenvolvimento dessas habilidades. Entretanto, é preciso que se diga que aprender a Ser, não é tão trivial como muitos gerentes acreditam. Mesmo que o desenvolvimento mental humano não seja imutável e passivo, tampouco independe do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana. A natureza humana internaliza formas culturais que precisam de um tempo para serem rompidas . É mister que se reflita e se entenda: Assim como no corpo, alguns músculos e articulações que são pouco exercitados tendem a enrijecer, também na mente ocorre fenômeno semelhante. Algumas funções psíquicas, quando se concentram em certas modalidades, deixando outras sem exercício, tendem a favorecer um processo de rigidez gradativa, que se traduz por comportamentos estereotipados, não flexíveis, chegando, por vezes, até ao extremo da radicalização ( MOSCOVICI, 1995, p. 157). A possibilidade de romper este condicionamento está diretamente ligada a existência de um desequilíbrio ou crise interna que para a autora propiciam alteração de percepções e introdução de novos sentimentos, percepções, atitudes e comportamentos. Destarte, o perfil de aprendiz sempre foi uma variável importante na vida do ser humano e hoje, as exigências do atual mercado de trabalho, estão desumanizando o profissional com base em psicologismos sem precedentes. Mudança de atitudes, saúde emocional, qualidade de vida e habilidades comportamentais não podem continuar sendo vistos pelos Dirigentes e demais gerentes empresariais como um meio pelas quais se pode obter determinados resultados respeitantes a modificações de estados de consciência, mas de analisar a lógica, em sentido lato, dos meios que, a título de experiência, são utilizados e engendrados para obter esses estados de consciência. Com relação a esse comentário, gostaria apenas de frisar que a competência interpessoal tão ansiada pelos DirCoop 1, 2, 3, 4 e 5 está por eles vinculada à competência técnica. Sua experiência profissional embasada na racionalidade instrumental, não lhes possibilita a compreensão teórica da síntese entre o conhecimento e o comportamento; da importância das ciências humanas nos cursos técnicos voltada para a formação humana. Por outro lado, reconhecer que as medidas de reajustamento estão diminuindo o mercado de trabalho e determinam um crescimento mais lento na carreira, o rebaixamento de níveis salariais e processos seletivos cada vez mais exigentes, é uma atitude realista. Os DirCoop dimensionam com propriedade esse novo ambiente dos negócios para os engenheiros agrônomos e médicos veterinários, porque, também eles vivem esse contexto. Tentam adaptar-se às novas exigências do mercado, eliminando seus antigos manuais. O espaço é cedido para aqueles que tem idéias próprias e que são criativos. No lugar da obediência cega o mercado espera respostas rápidas, alternativas ousadas, inovações. A maratona supõe, falsamente, um salto da impessoalidade para a relações comprometidas, uma reserva de aptidões que geralmente não estão a disposição nem dos profissionais engenheiros agrônomos e médicos veterinários, nem de qualquer outro profissional. No cenário docente e empresarial, não localizamos com facilidade professores e gerentes preparados para dirigir grupos na descoberta de si próprios e dos outros, bem como, criativos. SCHUTZ(1974, p.49) refere que “o conceito de criatividade é o mais adequado para expressar a noção de prazer através do desenvolvimento pleno do funcionamento pessoal” ; para ele, a criatividade implica não somente no uso total de nossas capacidades, mas também inclui incursões além das mesmas, em áreas previamente inexploradas. Considero valoroso que um professor e um gerente saibam ajudar os alunos e os seus funcionários a se revelarem enquanto estão em aula e na empresa; isso não quer dizer que nessa sala de aula ou no escritório não haja espaço para a competência técnica. Permitir que o estudante e o profissional se transformem de tal modo a transcender a mera intelectualização e, tornar-se um indivíduo melhor, mais realizado, parece constituir-se igualmente em uma necessidade sem volta, porque as pessoas desejam e necessitam realizar-se e gratificar-se. Essa discussão se amplia e se retifica ao analisarmos os maiores problemas enfrentados pelos profissionais tão logo se formem na visão do atores entrevistados. DirCoop 1 DirCoop 2 DirCoop 3 DirCoop 4 DirCoop 5 GRELHA CATEGORIAL III DIRCOOP PERCEPÇÕES MAIORES PROBLEMAS QUE O PROFISSIONAL ENFRENTA DEPOIS DE FORMADO * Dá pena você ver um profissional saindo da universidade e fazer uma reunião, por exemplo., com vinte, trinta produtores. Ele está totalmente despreparado. Eles não tem conhecimento de dinâmica de grupo, de estrutura de grupos. Outro problema: o nível de convicção desses profissionais é muito baixo e você só convence quando está convicto. Esses profissionais também não conhecem e não tem acesso aos recursos didáticos, que, poderiam melhorar muito a forma de comunicação. Muitos produtores tem um acervo cultural e tecnológico igual ou até melhor que muitos profissionais que saem da universidade. O produtor que permanecer hoje no meio rural é um produtor que tem tecnologia, está aberto a discussão tecnológica. Um projeto de aprendizagem ultrapassado. * Conteúdos desatualizados, ultrapassados, sem adequação e sem validade. *O profissional sai da faculdade e aqueles produtos, por exemplo nem existem mais no mercado e trabalho. Eles dão uma noção técnica geral e quando o profissional vai começar a atuar, ele tem que começar a estuar. * Saber enxergar e preparar o agricultor para as inovações tecnológicas. * É aquele abismo que tem entre a realidade e muitas vezes a prática e a gramática como se diz, preconizam uma coisa e acontece outra. * Vivem muito atrelados a burocracia, perdem tempo em minúcias e estão sempre com a cabeça a mil. Isso desgasta muito o profissional. * Considerar a realidade do produtor; seus objetivos, os objetivos e sua família, as diferenças que existem. Respeitar a dinâmica familiar para inserir o conhecimento, a tecnologia; Uma visão muito pequena do ambiente onde vão atuar; a falta de ligação com aquilo que está ocorrendo no mundo. O retrabalho é uma dificuldade. A universidade deveria interagir com o seu meio, com o que está a sua volta e perpassar aos alunos essa realidade. Não ter uma visão mais plástica, não ter uma formação mais completa como pessoa e profissional. Temos dificuldades enormes de colocação destes profissionais e por outro lado, necessidades enormes de profissionais. * O confronto com a realidade profissional/mercado de trabalho; sua falta de conhecimento fora da Universidade; * A idéia que ele tem de que o canudo vai resolver todas as coisas e que ele tem a fórmula para resolver todos os problemas. Concepções do tipo “o retrabalho é uma dificuldade” ou “um projeto de aprendizagem ultrapassado”, inferem a compreensão de que isso não é resultado somente de um mecanismo econômico enquanto tal, mas de um processo de desculturação. “Esta desculturação, por sua vez, se reproduz e se agrava pela terapêutica colocada em prática para remediá-la: a política do desenvolvimento e da modernização” (LATOUCHE, 1994, p. 62). Tentei dimensionar o alcance e o significado da expressão, “um projeto de aprendizagem ultrapassado” e, confesso que tardei para perceber que se tratava de um projeto voltado somente para a tecnologia. Uma aprendizagem que exclui processo, construção, possibilidades. Uma aprendizagem que não inclui a formação humana. A fragilidade ou ausência de convicção nesses profissionais pautada pelo DirCoop 1, pode ser entendida como uma conseqüência da filosofia, estrutura e funcionamento da sociedade mercadológica, em que a lógica taylorista, o positivismo comteano impregnaram os meios acadêmicos e dificultaram ao longo dos anos tanto o auto-conhecimento como o hetero – conhecimento. O empobrecimento precoce de características comportamentais é mascarado pela racionalidade instrumental, que não contribui com o real desenvolvimento de potencialidades do indivíduo. Uma proposta adaptativa e um modelo de pensamento que dita as pautas e determina o pensar e o agir, não pode esperar muita convicção a nível de atitudes e comportamentos. Enquanto elementos de manutenção da estrutura sócioeconômica, o mecanismo psicológico submete e desqualifica os modos de pensar, de sentir e agir dos engenheiros agrônomos e médicos veterinários. Os argumentos pseudo-científicos perpassados na formação universitária lhes conferem inferioridade cerebral e desqualificação sócio-cultural. É quase uma fórmula científico comportamental. O preconizado como ciências humanas (vide ANEXO 1 – Grelha Categorial IV- áreas de conhecimento valorizadas pelos Dirigentes Cooperativistas), confirma a interpretação e análise já inferidas. A expressão do DirCoop 4, “eu costumo dizer para a área técnica que o produtor não está louco por agrônomo e veterinário; ele está sedento por gente que venha para ajudar a produzir mais e mais barato. Se você for essa pessoa ele te aplaude, se não for você é custo”, permite essa polêmica porque enquanto parece enfatizar a idéia de que “antes de formar o técnico é preciso formar o homem”, no momento seguinte da sua retórica o exclui, diante da suave fórmula de consenso: aplausos para o seu valor operacional e econômico e vaias para o gasto que você pode representar para a empresa. Privados de sua socialidade autêntica e, portanto, do conhecimento de sua realidade, os DirCoop só se reconhecem nas novas relações políticas e administrativas. Quando deixados a si próprios, correm o risco de desconhecerem a sua estrutura original de personalidade. Não vou aqui dissertar sobre o complexo mundo da personalidade e do trabalho, mas, ao estar firmemente empenhada nas relações dos profissionais, dirigentes das cooperativas e professores, me permito a pelo menos refletir sobre essas relações que pretendem contribuir para um suposto bem social, dirigindo esforços para reformular profissões ou para desenvolver um conjunto de habilidades isoladas que hoje interessam a empresa. Posso estar especulando cientificamente, dirá o leitor. Eu respondo que nesse momento a especulação é uma necessidade imperiosa na pesquisa. Que os gerentes/dirigentes sejam capazes de avaliar as demandas organizacionais, sociais, econômicas e humanas. Que os discursos não sejam a tradução de uma caça à vida material simplesmente, como transparece . Que não se trate de manter novos conjuntos de padrões culturais supostamente humanos e críticos. Uma retórica onde o profissionalismo entendido como responsabilidade, autonomia, criatividade, flexibilidade e liderança, se volte especificamente para o conhecimento técnico e administrativo, diminuindo a preocupação com os aspectos sociais e políticos subjacentes a vida e atuação profissional do engenheiro agrônomo e médico veterinário. A concepção de que o conhecimento é um bem que deve gerar retorno me preocupa porque não deixa de reforçar a ideologia de uma nova ciência que sustenta esse mesmo conhecimento, tão bem discutido por POPKEWITZ(1997) que não se cansa de designar o fenômeno, como a ação combinada da profissionalização do conhecimento e do individualismo possessivo para proporcionar o viés dos discursos. São os dirigentes capazes de compreender o espírito de uma sociedade que não esteja centrada na propriedade e na avidez? Serão as descrições perceptivas dos gerentes somente fruto de um caráter mercantil cujo ser vivo torna-se uma mercadoria no “mercado de personalidades” como bem traduz FROMM(1976)? Atualmente, o mundo inteiro cultua a técnica e a realização da sociedade passa pela industrialização. Ela acredita que a sociedade é tomada por um irresistível desejo de produção e progresso; ela acredita que a humanidade poderá chegar a emancipação e plena autonomia via ciência, a técnica, economia, desenvolvimento e domínio da natureza. As relações são mercantilizadas e contém o fermento de destruição da ordem política e ética. O valor econômico introduz-se nas engrenagens do vínculo social e, através do século XIX e XX, assume várias faces na universidade gaúcha, nos cursos em foco e nas cooperativas agropecuárias. Há uma tendência em situar a formação humana como sinônimo de procedimentos técnicos necessários ao mercado de trabalho. Uma racionalidade instrumental revestida de emancipação. 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ULLMANN, Reinholdo Aloysio & BOHNEN, Aloysio. A universidade – das origens à renascença. São Leopoldo: UNISINOS, 1994. ANEXO 1 DirCoop 1- DirCoop 2- GRELHA CATEGORIAL IV DIRCOOP SABERES NECESSÁRIOS 4.1. ÁREAS DE CONHECIMENTO VALORIZADAS * A área comportamental numa empresa é questão de viabilização dela. São as pessoas que fazem a empresa ser uma empresa ativa, competitiva e com todas as condições de viabilizar um projeto econômico. E são as mesmas pessoas que poderão inviabilizar um projeto muito bonito. Se não buscássemos um projeto de integração do produtor através de um projeto e transferência tecnológica, onde nós sentimos a grande deficiência pedagógica, nós seríamos uma empresa mesmice. Eu diria que a deficiência hoje é de 80% comportamental e 20% de instrumentalização tecnológica. * Assuntos globais como: meteorologia, questão ambiental, reflorestamento, legislação em geral na parte da agricultura, comercialização de grãos e produtos animais. Nem tanto conhecimento técnico, mas também ciências humanas. Tem que DirCoop 3 DirCoop 4 DirCoop 5 DirCoop 1– DirCoop 2 DirCoop 3 DirCoop 4 DirCoop 5 saber lidar adequadamente, saber chegar adequadamente até ele. Relações humanas, gerenciamento na propriedade como um todo. Inglês, informática. Deve-se dar importância a todo o percurso do curso; dizer que não vai aproveitar tal disciplina, ou que tal coisa não me interessa, não pode. Todos os dias os profissionais são desafiados e muitas vezes não se dá importância aquilo que é importante. Tudo de um jeito ou de outro, se ocupa. * Bom domínio da matéria: saber s culturas regionais que estão sendo cultivadas, conhecer as atividades pecuárias, acompanhar pesquisas, conhecer novos produtos e tecnologias. * O conhecimento técnico não basta, tem que ter prática, vivência, experiência, sensibilidade. * Ele tem que exercitar mais as perguntas porque e não tanto a pergunta como? Saberes que proporcionem a ligação entre si e com a realidade. * Línguas é importante, informática. Que a todo e qualquer momento em que não estejam na sala e aula estejam fazendo um treinamento na Embrapa, na cooperativa, num curso de psicologia, de marketing. * Conhecimentos técnicos e conhecimentos relativos a área comportamental como já citei anteriormente. * Gerenciamento de propriedade. 4.2. IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS *É de uma importância transcendental na empresa, no que diz respeito a todo um projeto de treinamento, de profissionalização e de integração e motivação. * Se nós não tivéssemos uma gestão humana muito forte, não poderíamos ser um diferencial, seríamos igual a qualquer multinacional, a nível interno. * Nos auxiliam porque hoje nós temos que ter um relacionamento adequado, saber entender eles, ter paciência, se vai conscientizando ele, vamos dizer, se vai empurrar isso na cabeça dele. É um trabalho de educação em geral. * Importantíssima, porque tem que ser um pouco técnico e ter outras habilidades. Essas habilidades seriam muito bem vistas, muito bem vindas na carreira do agrônomo e veterinário. * Eu costumo dizer para a área técnica que o produtor não está louco por agrônomo e veterinário; ele está sedento por gente que venha para ajudar a produzir mais e mais barato. Se você for essa pessoa ele te aplaude, se não for você é custo. O que eu vou fazer com um profissional que não é simpático com o produtor, que não saiba se colocar em consonância com a meta, com o linguajar, com o modo de vestir, com o que está ocorrendo ao seu redor. Um cara com rabinho de cavalo, brinco, tatuagem e pircen não serve. Está fora da cultura do agricultor. Não pode ser receita de bolo, tem que haver sensibilidade, percepção acurada. * Talvez esse seja o fator mais importante e necessário no momento e quem não tiver essas habilidades terá dificuldade de se manter na empresa.