Vacinas são administradas a pessoas sadias e, por isso, devem ter um alto padrão de biossegurança. Vasco Azevedo Prof. Adjunto do Departamento de Biologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG. Membro Titular da CTNBio. [email protected] Sérgio Costa Oliveira Prof. Adjunto do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG. Membro Titular da CTNBio. [email protected] Foto cedida pelos autores As duas medidas de saúde pública que tiveram maior impacto no controle das enfermidades infecciosas e parasitárias no mundo foram as de tratamento da água e a vacinação, sendo a segunda a que apresenta o melhor custo-benefício. Há duzentos anos atrás, Jenner criou uma nova era na medicina quando intencionalmente infectou uma criança com o vírus da varíola bovina. Esse experimento, que hoje seria considerado pela comunidade científica como anti-ético, foi o começo para a erradicação da primeira doença infecciosa no mundo, a varíola humana (Foto 1). Várias outras doenças e enfermidades consideradas de maior gravidade para a saúde humana estão sendo controladas com vacinas tradicionais ou de primeira geração (Tabela 1). Apesar do sucesso dessas vacinas convencionais, ainda existem muitas doenças que debilitam ou levam à morte, como, por exemplo, a AIDS, a malária, a dengue e a hepatite C, para as quais 46 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento não existem vacinas disponíveis ou as que existem não são efetivas e apresentam riscos inaceitáveis. Com o tremendo avanço da biologia molecular, que permite manipular, inserir e expressar genes heterólogos em diferentes organismos, novos tipos de vacinas estão sendo desenvolvidas como alternativas para o controle dessas enfermidades. Dessas vacinas recombinantes , a imunização genética ou vacina de DNA é a mais promissora. Essa tecnologia, de menos de uma década, envolve a administração direta do DNA plasmidiano carreando o gene codificador da proteína antigênica, a qual será expressa no interior da célula do hospedeiro. Recentemente, foram publicados nesta revista vários artigos sobre o assunto (1-3) e na literatura existe uma infinidade de exemplos que demonstram a importância desse novo instrumento na pesquisa biomédica (4,5). Vacinas são administradas a pessoas sadias e, por isso, devem ter um alto padrão de biossegurança. Os testes clínicos das vacinas de DNA são similares aos de outros produtos biológicos (Tabela 2), sendo o seu controle de qualidade mais fácil e menos oneroso pois necessita apenas da certificação da pureza do DNA. Contudo, existem riscos potenciais de biossegurança, como uma possível integração no genoma da célula hospedeira do DNA plasmidiano, que pode causar ativação de oncogenes ou inibição de genes supressores de tumor, e indução de autoimunidade, que devem ser exaus- tivamente investigados. Entretanto, poucas evidências existem de que as vacinas gênicas possam apresentar riscos superiores aos desencadeados pelo uso das vacinas convencionais (6). Neste artigo, daremos ênfase ao tema risco de integração do DNA vacinal no genoma da célula hospedeira. A integração do DNA plasmidiano em cromossomos de células somáticas pode potencialmente gerar efeitos patológicos. A mutagênese por inserção levaria a um câncer, caso esse evento ative (proto-oncogenes) ou inative genes (supressores de tumor) implicados na regulação do ciclo celular. Essa inserção pode ocorrer ao acaso ou por meio da recombinação homóloga, sendo que o primeiro evento seria o mais freqüente. Para tentar diminuir a possibilidade destes eventos ocorrerem, deve-se evitar, se possível, que existam seqüências nucleotídicas homólogas ao do genoma humano no plasmídio vacinal e que este não se replique nas células hospedeiras. Plasmídios usados na imunização genética possuem uma estrutura com elementos regulatórios como promotores, acentuadores, terminadores, e sítios de poliadenilização reconhecidos pelas células eucarióticas, marcadores de seleção, que são, na maioria, antibióticos, e uma origem de replicação que não é funcional em células de mamíferos (7). Apesar dos elementos regulatórios serem funcionais nessas células, as seqüências nucleotídicas desses plasmídios não devem possuir homologias significativas com o DNA genômico dos mamíferos iguais ou superiores a 0,6 kilobases (kb), o que evitaria uma maior eficiência na inserção do DNA, ao acaso. Na recombinação homóloga, além do requisito anterior, os dois genomas, o plasmidiano e o do hospedeiro, devem ser replicativos; como os plasmídios mais utilizados nas vacinas de DNA não se replicam, a eficiência desse evento ficaria comprometida. Esses argumentos teóricos são indicativos de que a taxa de integração é baixa, e se esta ocorresse, a probabilidade de mutação deveria ser insignificante, e isso foi comprovado pelos experimentos pré-clínicos realizados por Nichols e colaboradores (8) e Martin e colaboradores, (9) que utilizaram a técnica de PCR (Polymerase Chain Reaction). Como essa técnica é extremamente sensível, foi necessário realizar algumas adaptações para serem evitados resultados falso positivos. Para que o DNA genômico extraído de tecidos musculares dos quadríceps dos camundongos vacinados geneticamente fosse separado do DNA plasmidiano (vacina gênica), este foi digerido com uma enzima rara, cujo sítio de clivagem foi inserido no plasmídeo vacinal para evitar a formação de concatâmeros, eliminando uma migração em géis de agarose conjunta com o DNA genômico. Foram também tomados os clássicos cuidados para evitar contaminações na PCR, e, quando o resultado era positivo, ou seja, havia a ocorrência do evento de integração do plasmídeo no genoma, foi necessário repetir os ensaios com variantes da técnica de PCR, como LMPCR ( Ligation-mediatedPCR), ou PCR inversa, para a sua validação. Nichols e colaboradores não detectaram nenhuma evidência de integração usando de 1 a 7,5 cópias de plasmídeos por 150.000 células como limite de sensiblidade, porém Martin e colaboradores detectaram que entre 330 cópias de plasmídeos ficavam associados ao DNA genômico dos animais vacinados. Apesar de resultados conflitantes em relação à integração, a conclusão dos dois grupos foi unânime no cálculo de freqüência de muta- ção induzida pela integração do plasmídeo no genoma do hospedeiro. A probabilidade de uma mutação ocor- Figura 1: Homem com varíola. Foto da coleção do CDC (Center for Disease Control and Prevention) autorizada para divulgação rer em um dado gene devido à imunização gênica, seria 3.000 vezes menor do que a freqüência de mutação espontânea que ocorre no genoma das células dos mamíferos. Entretanto, Tabela 1. Datas da utilização em seres humanos de vacinas de primeira geração. Ano 1798 1885 1897 1923 1926 1927 1927 1935 1955 1962 1964 1967 1970 1981 Enfermidade Varíola Raiva Peste bubônica Difteria Coqueluche Tuberculose (BCG) Tétano Febre amarela Poliomielite injétavel Poliomielite oral Sarampo Papeira Rubéola Hepatite B* De acordo com Plotkin & Mortiner (15). * Vacina de segunda geração (proteina recombinante purificada de células) mesmo sendo a probabilidade tão baixa para que eventos oncogênicos ou patogênicos ocorram, somente um longo período de avaliação com um grande número de voluntários permitiria determinar, em seres humanos, a ocorrência desses fenômenos biológicos. O que significa que os testes clínicos são tão imprescindíveis para as avaliações desses riscos teóricos quanto para certificar os benefícios potenciais dessa nova tecnologia. A agência reguladora americana FDA (Food and Drug Administration) agora requer que testes com o uso de PCR sejam feitos com as adaptações descritas anteriormente nos ensaios préclínicos, mas ainda não estabeleceu os níveis aceitáveis de integração plasmidiana no genoma. Essa mesma agência possui um documento bem complexo que estabelece normas para os experimentos em animais e testes clínicos em humanos com a utilização de vacinas de DNA (10) . Na legislação brasileira de biossegurança, ainda não existe uma instrução normativa que seja específica e completa no trato dessa matéria. Testes clínicos na fase I e II em seres humanos já estão sendo realizados com vacinas de DNA contra as seguintes enfermidades: AIDS, malária, linfoma das células B, melanoma, hepatite B, e infecção pelo herpes vírus. Calarota e colaboradores (11) publicaram recentemente, na revista The Lancet, o resultado de testes clínicos na fase I, onde indivíduos imunizados com genes do HIV-1 induziram resposta imune celular específica, sem que efeitos colaterais tenham sido observados. O grupo de Stephen Hoffman (12), na fase I dos testes clínicos com a vacina de DNA contra a malária, relatou que a administração foi bem tolerada, sem problemas de biossegurança aparente e com uma excelente indução da resposta celular. Esses resultados deram suporte à passagem para a fase II, onde serão feitos testes de proteção contra essa enfermidade. Nos tratamentos de câncer, as vacinas de DNA estão sendo usadas em pacientes quando os tumores são refraBiotecnologia Ciência & Desenvolvimento 47 Tabela 2. Testes Clínicos Fases I II III Número de pacientes Tempo 20 a 100 Algumas centenas Algumas centenas até alguns milhares Alguns meses Alguns meses até 2 anos Alguns meses até 2 anos Avaliação da biossegurança Teste de proteção e efeitos colaterais +++ +++ +++ +++ +++ O primeiro passo para uma vacina ser aprovada para comercialização é o teste em animais de laboratório; se esses não apresentarem reações adversas, as etapas posteriores podem ser prosseguidas. O passo seguinte são testes clínicos em seres humanos, que são divididos em três fases de avaliação do nível de proteção conferido por estas vacinas e a sua biossegurança. Se nas últimas fases, for comprovada que essas vacinas são efetivas e seguras, então a indústria farmacêutica pode solicitar aos órgãos competentes a licença para a comercialização do produto tários às terapias tradicionais. Em um desses testes clínicos, pacientes com melanoma receberam injeções de DNA complexados a lipossomos diretamente nos tumores. Em alguns desses pacientes houve regressão do tumor e de suas metástases (13). Os testes clínicos relatados anteriormente foram realizados através da injeção direta de DNA no músculo do indivíduo ou nos tumores, porém o teste com a vacina de DNA contra a hepatite B foi realizado por meio da imunização pelo processo da biobalística, utilizando-se o gene gun ou arma de genes (14). O gene gun é um aparelho que promove a aceleração e a introdução de micropartículas de ouro encobertas com o DNA plasmidiano recombinante na derme dos indivíduos. Os voluntários vacinados não se queixaram de dor ou de qualquer outro desconforto devido à utilização desse aparelho. Uma resposta eritematosa moderada e transiente foi observada, o que consiste em uma resposta inflamatória natural da pele após a imunização. Esse estudo demonstra que essa via de administração das vacinas de DNA, utilizando a arma de genes gene gun, pode viabilizar a imunização de um grande número de indivíduos quase que automatizando esse processo. As vacinas de DNA em menos de uma década têm dado uma contribuição real no campo da vacinologia, e possuem uma grande vantagem em relação às vacinas tradicionais, o que torna essa tecnologia um instrumento importante no combate às doenças infecciosas que afetam a nossa sociedade. 48 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento Referências bibliográficas 1. Silva, C.L. Vacinas gênicas. O impacto sobre o controle das doenças infecciosas (1997). Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento. 3:32-34. 2. Silva, C.L. Tuberculose. Uso da biotecnologia para o desenvolvimento de uma vacina de DNA que previne e cura a doença. Vacinas gênicas (1998). Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento. 4. 3. Azevedo, V., Oliveira, S.C. (1998) Vacinas de DNA: o paradigma das vacinas gênicas. 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