Caro leitor, ISSN 1982-2898 Diretores Sônia Inakake Almir C. Almeida EDITORA Luiza Oliva COLUNISTAS Cassiano Zeferino de Carvalho Neto Claudio Castro Sanches Emilia Cipriano Maria Irene de Matos Maluf Nílson José Machado COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Anderson Fernandes de Alencar Ângela Antunes Celso dos Santos Vasconcellos Flávia Simões Vidal Francisca Pini Greyce Kelly Contaifer Chaves dos Santos Gustavo Teixeira Heloísa Lück Heloisa Monte Serrat Barbosa Laura Monte Serrat Barbosa Lúcia Helena Silva Pereira Maria Helena Negreiros Moacir Gadotti Olgair Gomes Garcia Paulo Roberto Padilha Renato Monteiro Ramos Sandra Regina do Amaral Sheila Ceccon Silvana Canônico Sonia Couto Feitosa Tatiana de Andrade Direção de Arte Jonas Coronado ASSISTENTE DE ARTE Cristiane Lima Sergio Willian Atendimento ao leitor e circulação Catia Gomes Jornalista Responsável Luiza Oliva MTB 16.935 [email protected] Impressão Prol gráfica Filiada à Apoio O Grupo Direcional apóia: EDITORIAL Desde o segundo semestre de 2012, a cada edição concluída nossa equipe percebia que o número 100 da Direcional Educador estava se aproximando. Uma ideia martelava em nossa cabeça: a data não poderia passar em branco. Era o caso de planejar uma edição especial! Ninguém mais do que Paulo Freire deveria ser nossa capa, pensamos. O educador foi homenageado como Patrono da Educação Brasileira em abril de 2012, através de lei sancionada pela presidente Dilma Roussef. Em maio de 2007 já havíamos dedicado nossa edição 28 a Paulo Freire, por ocasião dos 10 anos de sua morte, com uma entrevista com Moacir Gadotti e artigos de colaboradores como Mario Sergio Cortella e Olgair Gomes Garcia. Chegamos a 2013 e tivemos a certeza que a publicação de uma revista focada em Freire seria ainda mais propícia por este ser o Ano Paulo Freire da Educação, em que comemoramos os 50 anos da primeira turma de alfabetizados pelo educador Paulo Freire, na cidade de Angicos (RN). 2 de abril de 1963 foi a data de encerramento das aulas e o lançamento do projeto político-pedagógico de Paulo Freire, que alfabetizou cerca de 300 pessoas em 40 horas. “Angicos não é apenas um símbolo da luta contra o analfabetismo no Brasil. É um marco da luta pela universalização da educação em todos os graus, superando a visão estreita de que os graus superiores são destinados apenas aos segmentos das elites e das vanguardas. A proposta de Paulo Freire é mais ampla: uma educação para a democracia, uma educação que potencialize a construção da cidadania”. O texto faz parte do site http://angicos50anos.paulofreire.org , que traz a cronologia do Programa Nacional de Alfabetização de Paulo Freire, a agenda de celebrações dos 50 anos, além de fotos e vídeos. Os 50 anos de Angicos foram marcados com evento no auditório do campus da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), com a presença de Moacir Gadotti, Lutgardes Freire, filho de Paulo Freire, e de Marcos Guerra, que atuou no programa de alfabetização de Angicos (fotos do evento ilustram o artigo de Moacir Gadotti, a partir da página 8). Construímos essa edição com o apoio dos educadores do Instituto Paulo Freire, autores de diversos artigos. São vários enfoques da pedagogia freiriana, da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos, passando pela sustentabilidade, pelo uso das tecnologias, pela gestão, pela educação em direitos humanos, pelo planejamento e currículo. Outros dois colaboradores também são essenciais quando se trata de estudar Paulo Freire e participam deste número especial: Celso Vasconcellos e Olgair Gomes Garcia, com dois lindos textos. Nossos colunistas Emilia Cipriano, Nílson José Machado, Cassiano Zeferino de Carvalho Neto e Maria Irene Maluf inspiraram-se em Freire para construírem seus textos, compondo assim essa edição tão significativa. Queridos leitores, recebam com todo o carinho de nossa equipe e de nossos colaboradores esse número 100 que, esperamos, contribua firmemente com sua formação. Um grande abraço, Luiza Oliva Editora Revista Direcional Educador Direcional Educador é uma publicação mensal do Grupo Direcional, com circulação nacional. Dirigida a diretores, educadores, coordenadores e todos os profissionais que atuam na área da educação. Não é permitida a reprodução total ou parcial das matérias, sujeitando os infratores às penalidades legais. As matérias assinadas são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, a opinião da revista Direcional Educador. Rua Vergueiro, 2.556 - 7ª andar cj. 73 CEP 04102-000 - São Paulo-SP Tel.: (11) 5573-8110 - Fax: (11) 5084-3807 [email protected] www.direcionaleducador.com.br Para publicar seus artigos na revista Direcional Educador, basta enviá-los para: [email protected]. aos cuidados do diretor. Os artigos serão analisados e, caso aprovados, serão publicados oportunamente, conforme a programação das edições. Envie também no e-mail: • Seu mini-currículo para ser publicado junto ao artigo. • Sua foto em tamanho 600x600 pixels ou maior (opcional). • Seu endereço, para que possamos lhe enviar exemplares da revista. • Declaração de que o artigo é inédito e que não foi enviado para nenhuma outra revista da área de educação, autorizando sua publicação na revista Direcional Educador, tanto na versão impressa quanto na versão digital (internet e CD) Se você organiza algum evento na área da Educação (curso, palestra, seminário, congresso), envie material de divulgação para o e-mail faleconosco@grupodirecional. com.br. O material poderá ser divulgado na seção Agenda, conforme a disponibilidade de espaço e a programação das edições. Direcional Educador, Maio 13 SEJA COLABORADOR DA DIRECIONAL EDUCADOR 3 SUMÁRIO SUMÁRIO Maio 13 54 EDIÇÃO COMEMORATIVA Direcional Educador nº 100 Por Luiza Oliva 08 CAPA Paulo Freire: 50 anos de Angicos – Significado para a Educação brasileira hoje Por Moacir Gadotti 24 13 26 TETRAEDRO Paulo Freire e as competências básicas Por Nílson José Machado 14 CAPA Paulo Freire: educação integral, planejamento e currículo Por Paulo Roberto Padilha 18 Direcional Educador, Maio 13 CAPA Paulo Freire e o Amor: a identidade docente em questão Por Celso dos Santos Vasconcellos 4 CAPA Implicações da teoria de Paulo Freire na Educação Infantil: breves reflexões de uma educadora Por Silvana Canônico PÁGINA DO PSICOPEDAGOGO Família, sociedade e escola de qualidade Por Maria Irene Maluf CAPA Meu mestre, amigo e parceiro Por Emilia Cipriano 28 CAPA Paulo Freire e a gestão democrática Por Ângela Antunes 33 CURSO Educar a Infância – Desafios constantes Módulo IV – Para desenvolver a imaginação Por Laura Monte Serrat Barbosa e Heloísa Monte Serrat Barbosa 38 CAPA Paulo Freire e a educação em direitos humanos Por Francisca Pini 41 CAPA Paulo Freire e a educação socioambiental Por Sheila Ceccon ARTE Arte na educação: uma iniciativa para entender e trabalhar arte (6) Por Flávia Vidal, Greyce Kelly dos Santos, Lúcia Helena Pereira, Renato Ramos, Sandra Regina do Amaral e Tatiana de Andrade 58 NOSSOS ALUNOS E AS DROGAS Maconha Por Gustavo Teixeira 44 CAPA Paulo Freire e a tecnologia em Angicos Por Anderson Fernandes de Alencar e Sonia Couto Feitosa 46 CAPA Paulo Freire na Educação Infantil: uma reflexão a partir de alguns personagens da literatura infantil Por Olgair Gomes Garcia 51 GESTÃO DA APRENDIZAGEM NA SALA DE AULA O significado de necessidades educacionais no contexto da escola e da sala de aula (7) Por Heloísa Lück 60 EDUCAÇÃO INTEGRAL Desafios e Perspectivas da Educação Integral: o aluno integral Por Maria Helena Negreiros 62 LIVROS 63 E AGORA, PROFESSOR? Paulo Freire, referência na cultura digital Por Cassiano Zeferino de Carvalho Neto 66 AGENDA Direcional Educador, Maio 13 06 23 5 EDIÇÃO COMEMORATIVA Direcional Educador no 100: um presente para os educadores Direcional Educador chega ao número 100. Acompanhe a evolução da revista, voltada para a formação continuada do professor. Por Luiza Oliva Ed.28 Ed.27 Em abril de 2007, Maria Montessori foi tema de capa e a escritora Tatiana Belinky, nossa entrevistada especial. Ed.04 Ed.07 Ed.01 Ziraldo foi nosso entrevistado na edição 7: publicação passou a ter como meta a formação continuada do educador. Direcional Educador, Maio 13 Revista foi lançada visando atingir o gestor escolar. 6 irecional Educador nasceu em 2005, inicialmente como Direcional Escolas, publicando principalmente reportagens de interesse do gestor escolar e do coordenador pedagógico. A revista número um trazia uma entrevista com o médico psiquiatra Içami Tiba e a matéria principal mostrava as soluções encontradas pelas escolas para motivar a participação dos pais. Ainda em seu ano inicial, a publicação mudou seu perfil, focando em entrevistas, artigos e reportagens dirigidos à formação do educador e sendo comercializada apenas por assinaturas para leitores de todo o Brasil. As entrevistas especiais foram ganhando espaço na revista, assim como os cursos livres de formação continuada que os leitores acompanham através de módulos publicados nas edições. Ambos se tornaram diferenciais da Direcional Educador. As ilustrações caprichadas são outra marca registrada da revista, além do time de colaboradores de peso, mesclando nomes consagrados com professores Ed.50 Ed.45 Ed.22 Grandes educadores ilustram nossas capas: Mario Sergio Cortella, Celso Antunes, Emilia Cipriano e Tizuko Morchida Kishimoto foram alguns desses nomes. Em maio de 2007, edição especial sobre Paulo Freire. Edição 31, em agosto de 2007: nome alterado para Direcional Educador. Ed.64 Ed.63 Ed.65 Ed.57 Edição 57, de outubro de 2009: toda dedicada à Celestin Freinet. Ed.16 Ed.31 Em 2010 e 2011, atendendo aos pedidos dos leitores, diversas edições temáticas voltadas para as disciplinas escolares: Geografia, Matemática, Educação Física, Ciências, Arte, História e Filosofia. que vivenciam a prática das salas de aula e publicam seus relatos e observações em nossas páginas. A partir da edição 58, a revista ganhou novo projeto gráfico e novo logotipo. Continuamos publicando artigos com temáticas diversas, visando alcançar os interesses de nossos leitores (que incluem professores da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, Ensino Médio e EJA, além de coordenadores pedagógicos e diretores escolares, psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos e outros profissionais envolvidos com a educação). Chegamos ao número 100 com a prazerosa sensação de termos feito amigos pelo caminho: colaboradores e leitores. Sem vocês, educadores que nos ajudam a construir cada edição e educadores que recebem nossa revista mensalmente em suas casas e escolas, esse caminho não teria sido possível. Para comemorar, presenteamos vocês com essa edição superespecial, com um número maior de páginas, todas dedicadas ao patrono da educação brasileira, Paulo Freire. Ed.74 Ed.81 Ed.33 Piaget, neuroaprendizagem, interdisciplinaridade, inclusão, drogas, formação de leitores, entre inúmeros outros temas: a cada edição, leitura de qualidade. 7 CAPA CAPA Considerando, dentre tantas outras razões, os tempos em que vivemos: de ameaça mundial à educação como direito; de, em nosso país, ser urgente e necessário resgatar a história e tornar públicas as violações de direitos humanos na época da ditadura, que não se restringiram a prisões, tortura, morte e exílio de muitas pessoas, mas significaram negação de muitos outros direitos à população brasileira, como o que representou a interrupção do Programa de Alfabetização; e considerando, ainda, a nova história que se constrói no norte e nordeste de nosso país e, também, que, em 2012, Paulo Freire foi declarado patrono da educação brasileira, enfim, por tudo que significou Angicos e pelo que vive atualmente nosso país, tão bem apreendido, aquele projeto não pode ser esquecido. PAULO FREIRE: 50 ANOS DE ANGICOS Significado para a educação brasileira hoje Direcional Educador, Maio 13 Por Moacir Gadotti 8 m 1993, dia 28 de agosto, acompanhei Paulo Freire a Angicos (RN), trinta anos depois de ele realizar a experiência que o notabilizou no mundo. Ele dizia que aquela era uma viagem sentimental. De fato, Paulo estava muito debilitado naquele ano e, emocionalmente, ele estava reencontrando sonhos, pessoas, lugares de um grande projeto que marcou sua vida. Rever antigos alunos e monitores do seu projeto de alfabetização de adultos o emocionou muito. Neste reencontro, alguns ex-alunos perguntaram por que Paulo Freire foi preso e por que a experiência não continuou. Ele explicou que aquele processo de democratização do país havia sido interrompido por um golpe militar em que muitos, como ele, haviam perdido sua liberdade, que teve que partir para o exílio e não pode dar continuidade a seu programa nacional de alfabetização. Ex-alunos disseram que haviam ido a Natal procurar seus professores e que, na Secretaria, disseram para “não falar mais naquele assunto”. Um dos grandes intérpretes da obra de Freire, Carlos Alberto Torres também nos acompanhou a Angicos. Ele nos dizia que a proposta freiriana torna-se hoje ainda mais importante diante do embate do neoliberalismo e de seu esforço para transformar a educação de direito em serviço, chegando ao limite da mercantilização da educação pública. Angicos não é apenas um símbolo da luta contra o analfabetismo no Brasil; é um marco em favor da universalização da educação em todos os graus, superando a visão elitista. 1. O que foi Angicos A história de Angicos tem importantes antecedentes. Já nos anos 50 do século passado, Paulo Freire percebeu que os métodos utilizados na alfabetização de adultos eram os mesmos utilizados para alfabetizar crianças. Com a experiência que já havia tido, trabalhando no SESI, em Recife, via que isso era pedagogicamente inadequado, além de humilhar os alfabetizandos. Em julho de 1958, Paulo Freire apresentava as bases teóricas de seu sistema de alfabetização de adultos no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado no Rio de Janeiro, como coordenador do relatório do grupo de trabalho sobre “A educação de adultos e as populações marginais: o problema dos mocambos”. Os anos que precederam a experiência de Angicos foram muito favoráveis à sua realização. Havia um contexto de mobilização popular em todo o nordeste brasileiro. Em 1960, na gestão do recém-empossado prefeito Miguel Arraes, foi criado o Movimento de Cultura Popular (MCP), em Recife, com 90 sócios fundadores, tendo Germano Coelho como um dos seus idealizadores e Paulo Freire como um de seus membros mais atuantes. Os ideais do MCP espalharam-se rapidamente por diversos Estados do Nordeste. O MCP associava a cultura popular à luta política, conscientizando as massas e alfabetizando por meio de círculos de cultura. O MCP de Recife sediou a primeira experiência do Sistema Paulo Freire, no Centro Dona Olegarinha, em 1962, e o I Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, promovido pelo MEC, em 1963. No ano seguinte, 1961, várias ini- Direcional Educador, Maio 13 Foto: Eduardo Mendonça/Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) O busto de Paulo Freire, obra do artista plástico de Angicos, Marcos Silva, primeira peça do Memorial Paulo Freire, a ser construído no Rio Grande do Norte. 9 Direcional Educador, Maio 13 10 ciativas faziam parte deste contexto favorável a uma alfabetização de adultos cidadã. Em primeiro lugar o lançamento, pelo Secretário da Educação de Natal (RN), Moacyr de Góes, da Campanha De pé no chão também se aprende a ler na gestão do Prefeito Djalma Maranhão, entendendo a educação e a cultura como instrumentos de libertação. Neste mesmo ano, a Igreja Católica funda o Movimento de Educação de Base (MEB), uma parceria entre o Governo Federal e a CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil) para contribuir no processo de alfabetização de adultos, utilizando a rede de emissoras católicas, promovendo a valorização do ser humano e o desenvolvimento das comunidades. Ainda em 1961, a União Nacional dos Estudantes (UNE) cria o Centro Popular de Cultura (CPC) abrindo caminho para a politização das questões sociais. Seu objetivo era criar e divulgar uma arte popular revolucionária, defendendo o engajamento político do artista para superar a alienação e a consciência ingênua das massas. Para isso promovia a encenação de peças de teatro críticas em portas de fábricas, nas ruas e em sindicatos. A experiência de Angicos nasce de um convite feito, em 1962, por Calazans Fernandes, Secretário de Educação do Estado do Rio Grande do Norte e coordenador do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN). Calazans Fernandes e Maria José Monteiro, ex-aluna de pedagogia de Paulo Freire, reuniram-se com ele no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife para falar sobre o projeto de Angicos. Paulo Freire aceitou o convite com duas condições: autonomia para contratar os coordenadores e alfabetizadores e não interferência político-pedagógica e ideológica. Paulo convidou Marcos Guerra, estudante de Direito e presidente da União Estadual dos Estudantes, para formar a primeira equipe de alfabetizadores (monitores) para o Programa de Alfabetização de Angicos, uma parceria entre o SECERN e o SEC/UR (Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife) do qual Paulo Freire era Diretor. O trabalho se iniciou em dezembro daquele ano com o levantamento do número de analfabetos de Angicos e com a pesquisa do “universo vocabular” (palavras e temas geradores). Com a colaboração da educadora Elza Freire, esposa de Paulo Freire, foram selecionados 21 coordenadores (alfabetizadores) dos Círculos de Cultura, entre eles Madalena Freire, filha de Paulo Freire, então com 17 anos, e os coordenadores Marcos Guerra e Carlos Lyra. A intenção da Direção Executiva do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN) era alfabetizar, até 1965, 100 mil adultos e adolescentes. O projeto foi lançado dia 18 de janeiro de 1963 com a aula inaugural de Paulo Freire, na presença de Aluísio Alves, governador do Estado. 380 moradores de Angicos começam a sua alfabetização. No dia 24 de Janeiro foi dada a primeira aula regular do projeto sobre o tema: “Conceito antropológico de cultura”, iniciando a primeira das “Quarenta horas de Angicos”. Na primeira aula de alfabetização foi utilizada a palavra geradora “belota”. As aulas eram dadas ao mesmo tempo em que aconteciam as reuniões de formação continuada dos coordenadores dos Círculos de Cultura, refletindo sobre a sua prática. A primeira turma da experiência de Angicos concluiu o curso no dia 2 de abril de 1963 com a cerimônia de entrega de certificados aos que haviam se alfabetizado (300) com a presença do presidente da República João Goulart e de vários governadores do Nordeste, na qual também falou Aluísio Alves, Paulo Freire e o aluno alfabetizado Antonio Ferreira. A aluna mais idosa, Maria Hermínia, entregou cartas escritas pelos participantes do curso ao presidente. Assim se formava a primeira turma de Angicos. No discurso que Paulo Freire fez, enfatizou os princípios científicos e filosóficos do seu método, propondo uma educação que “conscientize o povo brasileiro e supere a compreensão predominantemente mágica”, por uma “visão crítica do saber”. Explicou aos presentes, referindo-se vários vezes ao presidente João Goulart, os passos de sua metodologia que impulsionava os alfabetizandos a serem “sujeitos da sua própria história” 2. O Programa Nacional de Alfabetização O presidente João Goulart viu, na experiência de Angicos, a possibilidade de tirar milhões de brasileiros da miséria e incluí-los na cidadania. Em junho de 1963, Paulo de Tarso Santos assume o Ministério da Educação. Darcy Ribeiro, seu antecessor, recomenda chamar a Brasília Paulo Freire para conceber um programa nacional de alfabetização baseado no experimento de Angicos. Em 16 de julho, a Portaria Ministerial 195 instituiu, junto ao Gabinete do Ministro da Educação, a Comissão de Cultura Popular “com o objetivo de implantar, em âmbito nacional, novos sistemas educacionais de cunho eminentemente popular, de modo a abranger áreas ainda não atingidas pelos benefícios da educação”. Paulo Freire é nomeado presidente desta Comissão. Sua primeira tarefa foi fazer um levantamento nacional do número de analfabetos para subsidiar o futuro Programa Nacional de Alfabetização. O número de analfabetos de 15 a 45 anos, em setembro de 1963, era de 20.442.000. A experiência de Angicos foi levada também para outras cidades: Quintas, Mossoró, Caicó, Macau, Osasco, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, Aracaju, Porto Alegre e outras, como “projeto-piloto” do Programa Nacional de Alfabetização (PNA). Em 1963, Paulo Freire percorreu o país estruturando o Programa Nacional de Alfabetização que seria iniciado oficialmente na Baixada Fluminense, no antigo Estado do Rio de Janeiro e em Sergipe, no início de 1964. Essa movimentação não passou despercebida. A oposição política ao governo popular de João Goulart se confundia com as críticas a Paulo Freire e ao seu método. A passagem de Paulo Freire por São Paulo também não ficou sem reação de seus opositores. O jornal O Estado de S. Paulo, dia 8 de dezembro de 1963 publicou um editorial com o título “Alfabetizar ou politizar?” em que ataca o Plano Nacional de Alfabetização. Em outro editorial, de 21 de dezembro, este jornal ataca diretamente a Paulo Freire, com um título que diz tudo: “Método nazista”. Em meio a essas críticas, João Goulart, por meio do Decreto nº 53.465, de 21 de janeiro de 1964, instituiu o Programa Nacional de Alfabetização consagrando o “Sistema Paulo Freire para alfabetização em tempo rápido”. O Programa Nacional de Alfabetização previa a “cooperação e os serviços” de “agremiações estudantis e profissionais, associações esportivas, sociedades de bairro e municipalistas, entidades religiosas, organizações governamentais, civis e militares, associações patronais, empresas privadas, órgãos de difusão, o magistério e todos os setores mobilizáveis”. Tudo isso cairia por terra com o golpe civil militar de 1964. Dia 14 de Abril, logo após o golpe de estado, o Decreto nº 53.886, um dia antes do General Castelo Branco assumir o poder, extinguiu o Programa Nacional de Alfabetização. Ranieri Mazzilli, presidente em exercício, por meio deste ato, afirma que extinguiu esse Programa considerando a necessidade de “reestruturar o Planejamento para a eliminação do analfabetismo no país” e para “preservar as instituições e tradições de nosso país”. O presidente João Goulart Direcional Educador, Maio 13 CAPA CAPA 11 PAULO FREIRE E CAPA Direcional Educador, Maio 13 3. A melhor maneira de celebrar Angicos: eliminar o analfabetismo 12 Angicos não pode ser celebrado como algo do passado, mas como uma referência histórica neste momento em que a sociedade brasileira está buscando, por meio da Conferência Nacional de Educação (Conae), a construção de um Sistema Nacional de Educação. Angicos aponta para a defesa da educação pública de excelência, no contexto de um estado democrático. Dia 6 de novembro de 2012, o Ministro da Educação Aloizio Mercadante criou a Comissão Organizadora do programa de comemorações “Paulo Freire – 50 anos de Angicos” para celebrar esse memorável experimento que deu origem ao Programa Nacional de Alfabetização. A Comissão estabeleceu como objetivo das celebrações “avançar nas políticas e ações de alfabetização, por meio do resgate do ethos freiriano da educação de adultos. As ações devem transcender o caráter meramente comemorativo, ganhando conteúdo pedagógico para dar continuidade ao ethos freiriano na educação brasileira”. Entre as propostas e sugestões da Comissão para celebrar os 50 anos de Angicos estão a redefinição da política nacional de educação de jovens e de adultos entendendo que a melhor homenagem que poderíamos prestar a Paulo Freire, na passagem dos 50 anos de Angicos, sintetiza-se num esforço nacional pela universalização da alfabetização no Brasil e a criação de um Pacto pela Alfabetização de Jovens e Adultos. As celebrações dos 50 anos de Angicos e do Programa Nacional de Alfabetização de Paulo Freire não podem ficar só em homenagens, seminários e publicações. Celebrar é manter viva a luta e anunciar conquistas. O contexto é propício ao anúncio de avanços significativos no campo da alfabetização de adultos. Uma homenagem à altura dos 50 anos de Angicos, que podemos prestar a Paulo Freire, é eliminar o analfabetismo no Brasil já. O Ministro Mercadante, com o apoio direto da Presidenta Dilma, criou um “Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa” - envolvendo Estados, Municípios e União - um pacto pela infância que inclui também a construção de numerosas creches. Complementar a esta importante iniciativa, poderia ser o “Pacto pela alfabetização de jovens e adultos” (ALFABETIZAÇÃO JÁ), o qual poderá mobilizar União, Estados e Municípios, por meio do Ministério da Educação e, com o apoio da Secretaria Geral da Presidência da República, mobilizar também a sociedade civil, os movimentos sociais, as ONGs, estabelecendo parcerias com as organizações não governamentais que têm programas de alfabetização de jovens e adultos, num esforço conjunto para o fim do analfabetismo da vida de milhões de jovens e adultos brasileiros, como compromisso de um governo democrático e popular. Esta poderá ser uma marca fundamental de um “Brasil sem miséria”, pois é sabido que o analfabetismo é fator e produto da miséria de um povo. 2013 será um ano de intensa mobilização municipal e estadual pela educação, preparando a II Conferência Nacional de Educação (CONAE) de 2014, que novamente se concentrará no principal entrave da educação nacional que é a falta de um sistema nacional articulado, colaborativo e emancipador. Todas as circunstâncias hoje conspiram em favor de um Pacto Nacional pelo fim do analfabetismo no Brasil. Como diria Paulo Freire: “é necessário, é urgente e é possível”. Não podemos ficar indiferentes a esta nova oportunidade histórica! Moacir Gadotti é Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, Doutor Honoris Causa pela Universidade Rural do Rio de Janeiro, Livre Docente pela Universidade Estadual de Campinas, Professor Titular da Universidade de São Paulo, Fundador e atual Presidente de Honra do Instituto Paulo Freire. É autor de diversos livros, traduzidos em vários idiomas, entre eles: Pedagogia da práxis (1996); História das ideias pedagógicas (1998); Paulo Freire: Uma biobibliografía (2001); Pedagogia da Terra (2002); Perspectivas atuais da educação (2003); Os mestres de Rousseau (2004), Educar para um outro mundo possível (2006) e Educar para a sustentabilidade (2008). E-mail: [email protected] www.paulofreire.org AS COMPETÊNCIAS BÁSICAS Por Nílson José Machado 1 – Ler o mundo Para nossos avós, era simples assim: estudamos muitas matérias, mas precisamos sair da escola sabendo leR, escreveR e contaR. Tínhamos que demonstrar competência nos chamados três “R”s. Hoje, os tempos são outros e os três “R”s já não parecem bastar. Antigamente, podíamos ser apenas analfabetos na língua materna; hoje, podemos ser polianalfabetos: em informática, em ciências, em política, em economia... Diante da multiplicidade de conteúdos disciplinares apresentados na escola, teorias sobre competências buscam uma nova tríade, uma visão sintética das competências pessoais para substituir os três “R”s, que teriam caducado. Uma brecha pode ser aberta em tal análise: não seria o caso de buscarmos uma revitalização das antigas competências? No fundo, tudo o que buscamos na escola é aprender a ler, escrever e contar; ocorre que, hoje, são outros os significados de tais ações. É preciso ser capaz de mais do que ler um texto; na expressão de Paulo Freire, estudamos para aprender a ler o mundo. 2 – Ler, escrever Em geral, aprendemos a ler antes de aprender a escrever e lemos um texto que não escrevemos. Apreciamos a expressão do outro antes de aprendermos a nos expressar por escrito. No antigo Egito, a leitura era ensinada a todos, mas a escrita era destinada apenas aos filhos das classes dominantes. Hoje, escrever e ler são competências complementares. Escrever é expressão de si; ler é compreensão do outro. As tecnologias amplificam as possibilidades da leitura e da escrita: é preciso saber explorá-las. Tal como a forma soneto, criada por Petrarca, no Renascimento, não eliminou os grandes poemas, recursos sintetizadores da escrita como emails, tweets, etc. são formas de expressão que favorecem a compreensão, quando a alma não é pequena. Uma atualização do significado da escrita deve situá-la como par complementar da leitura, na construção do modo dialógico de ser. Na perspectiva de Paulo Freire, o diálogo é constituinte do modo de ser do ser humano. Aprender a escrever é, então, aprender a ser. 3 – Escrever, contar Em quase todas as línguas, o verbo contar tem dupla acepção: enumerar ou narrar. Ao contarmos uma história , a sucessão dos eventos é decisiva para seu significado. As mesmas frases em diferentes ordens produzem narrativas diferentes: história 1 “João faltou à escola. A professora repreendeu João.” história 2 “A professora repreendeu João. João faltou à escola.” Existe, pois, um paralelismo entre enumerar e narrar. A História é uma matriz básica para a elaboração de narrativas significativas. Conhecer é construir o significado, o que somente se dá por meio de narrativas. Um professor competente é um bom contador de histórias, e boas histórias são enraizadas em um contexto, de onde extraem viço e vigor. Uma razão decisiva para o sucesso de Paulo Freire na educação de adultos é o fato de que ele nunca subestimou a importância das histórias de vida dos educandos, extraindo delas elementos para a construção de narrativas significativas. 4 – Ler, escrever, contar revisitados A tecnologia é onipresente e a escola tem incorporado cada vez mais seus recursos, mas as competências básicas que nela desenvolvemos ainda podem ser bem representadas pela tríade ler, escrever e contar, devidamente reinterpretada. Ler é mais do que compreender um texto, que é o primeiro outro que se põe diante de nós: é ler o mundo, compreender fenômenos de modo geral, sejam eles naturais, sociais, econômicos, históricos, geográficos, etc. Escrever é mais do que redigir um texto com o próprio punho: é ser capaz de expressar-se em diferentes linguagens, buscando permanentemente a comunicação e o diálogo, o que nos torna efetivamente humanos. Contar é mais do que enumerar ou fazer contas; é ser capaz de construir narrativas significativas: dos cases aos “causos”, elas constituem a arquitetura básica do conhecimento em todas as áreas. Como educador competente, Paulo Freire aponta, em sua obra, para tal ampliação de horizontes; em decorrência, seu pensamento permanece mais vivo do que nunca. Nílson José Machado é professor titular da Faculdade de Educação da USP, onde também coordena dois grupos de estudo de frequência livre: os Seminários de Estudo em Epistemologia e Didática - SEED, e os Seminários de Ensino de Matemática – SEMA. É autor de diversos livros, entre eles Educação – Microensaios em mil toques (volumes I, II e lll, pela Editora Escrituras). www.nilsonjosemachado.net Direcional Educador, Maio 13 havia marcado a inauguração oficial do Programa, simbolicamente, no dia 13 de Maio na praça principal de cidade de Caxias (RJ). Depois disso, a história é bem conhecida. Paulo Freire foi preso e passou 70 dias numa cadeia do quartel de Olinda, acusado de “subversivo e ignorante”. Detalhe: na prisão, um dos oficiais responsáveis pelo quartel, sabendo que ele era professor, solicitou a Paulo Freire para alfabetizar alguns recrutas. Paulo explicou-lhe que foi exatamente porque queria alfabetizar que fora preso. Alguns de seus alunos também foram presos e passaram por outras dificuldades depois da experiência de Angicos, considerada “subversiva” e mais tarde, também extinta. Em setembro de 1964, Paulo Freire partiu para o exílio. Depois de uma rápida passagem pela Bolívia, não suportando a altitude, em novembro de 1964, embarca para o Chile para trabalhar no Instituto de Capacitación y Investigación de la Reforma Agrária (ICIRA) onde permaneceu até 1969. Retorna ao Brasil apenas no final de 1979, e, definitivamente, no ano seguinte. TETRAEDRO 13 CAPA CAPA educação integral, planejamento e currículo Direcional Educador, Maio 13 Por Paulo Roberto Padilha 14 “O radical, comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em ‘círculos de segurança’, nos quais aprisione também a realidade. Tão mais radical, quanto mais se inscreve nesta realidade para, conhecendo-a melhor, melhor poder transformá-la.” (FREIRE, 1987, p. 27). nspirado em Paulo Freire que, no Brasil, foi um dos primeiros a incluir as “novas tecnologias” associadas à educação pública – tanto em Angicos, em 1963, como em São Paulo, em 1989 -, começo afirmando que não é possível falar de educação integral, de planejamento educacional e de currículo da/na escola sem sermos radicais. Principalmente na atualidade, quando nos encontramos quase ilhados num mar de plataformas educacionais “gratuitas”, de sistemas educacionais informatizados ou não, que trazem tudo o que o aluno deve aprender. A linguagem corrente parece ser esta: gestão por resultados e qualidade do ensino. A “meta” é a base do gerenciamento (da escola pública!). Os softwares educativos “ampliam” a inteligência dos alunos e prometem ajudar o “líder” a melhorar a posição do “público-alvo”, quer dizer, do cliente – leia-se, dos alunos – e das escolas, no IDEB, no Saresp, na Prova Brasil e nas demais avaliações que hoje determinam os lugares que eles ocupam nos rankings nacionais e internacionais da educação. Fala-se também, e muito, em “foco na aprendizagem” e na “qualidade do ensino”. Mas nada se explicita: de que qualidade e aprendizagem estão falando? O que ensinar? Como? Com quem? Quando, para quem (ah sim... para o aluno), e para que tipo de sociedade e de mundo? Estas perguntas quase nunca aparecem. Por isso, insisto que antes de qualquer outra decisão relacionada à educação e aos investimentos públicos em educação, há que partirmos da “leitura do mundo”, ou seja, do conhecimento profundo da nossa comunidade, mas com ela, não sobre ela e para ela. É conhecendo profunda e radicalmente a sua comunidade, que a escola terá condições de melhorá- tecnologias, de preferência com as tecnologias livres, para inserirmos e alfabetizarmos as nossas crianças, em termos, também, de sua alfabetização e inclusão digital – o mesmo valendo para todas as nossas comunidades? E como criar novos conhecimentos e saberes utilizando essas novas tecnologias, para além de utilizá-las apenas como ferramentas de ensino e de aprendizagem? Quais conhecimentos e saberes farão parte do nosso currículo, de forma a criarmos condições efetivas para que ocorram aprendizagens significativas condizentes com as exigências do mundo contemporâneo e para uma convivência digna, cidadã, solidária e transformadora? Nossos referenciais teóricos aproximam arte e ciência, educação e política, produção, conhecimentos e saberes. Buscamos os nossos fundamentos no universo de princípios políticos, pedagógicos e filosóficos de Paulo Freire, associados à teoria da complexidade (Morin, Bateson, Basarab, Maturana, entre outros), com base na qual podemos trabalhar com conexões, com aproximações teóricas e práticas, ao mesmo tempo em que valorizamos também as oposições. Buscamos superar a fragmentação do conhecimento e fazer aproximações com a totalidade dele – como propõem as teorias relacionadas à transdisciplinaridade (Basarab Nicolescu, 2004), inter/multiculturalidade (Stoer & Cortesão, 1999), intertransculturalidade (Padilha, 2004/ 2007; 2012; Antunes & Padilha, 2010), entre outros. Na perspectiva educacional complexa e transformadora, compreendemos a pedagogia como arte e ciência da educação que contribui para a inter-relação das demais ciências e saberes, justamente para a superação da mera transmissão “bancária” do conhecimento ou de uma qualidade da educação que resulte apenas na formação cognitiva e/ou tecnológica dos/as alunos/ as. Trabalhamos por aprendizagens significativas, curiosas, aprendentes e transformadoras, que permitam avaliações destes processos com bases em critérios de avaliação e indicadores de aprendizagem construídos por meio destes referenciais e práticas. Pensando na concretização deste currículo no âmbito de uma rede de ensi- “Fala-se em ‘foco na aprendizagem’ e na ‘qualidade do ensino’. Mas nada se explicita: de que qualidade e aprendizagem estão falando? O que ensinar? Como? Com quem? Quando, para quem e para que tipo de sociedade e de mundo?” Direcional Educador, Maio 13 Paulo Freire: -la e de transformá-la. Paulo Freire foi um grande problematizador. E as reflexões que aqui apresento serão também guiadas por perguntas. Muitas delas venho escutando nos debates de que participo em torno dos temas centrais aqui discutidos. São problematizações que também me faço, por meio das quais procuro manter vivo e atual o significado, o sentido e o compromisso da educação que realizamos. Compartilho algumas destas perguntas iniciais: qual é o nosso projeto de mundo e de sociedade? Quais sonhos e utopias nos movem? Qual concepção de política pública educacional guia as nossas ações? Ao iniciarmos nossas atividades sobre currículo, por exemplo, e antes de investirmos tempo, energia e recursos em novas ou velhas tecnologias, até porque algumas já nos chegam obsoletas, como grandes novidades, mesmo tendo fracassado em outros países, cabem-nos outras perguntas: que crianças queremos deixar para o nosso mundo e que mundo queremos deixar para as nossas crianças? Como está a vida das nossas crianças nas escolas e comunidades onde vivemos, convivemos e trabalhamos? Elas moram dignamente? Têm condições de estudos? Têm acesso à cultura, ao esporte, ao lazer? Elas possuem espaços para brincar, para estudar, para ler? Elas se alimentam satisfatoriamente dentro dos padrões mínimos, pelo menos, da Organização Mundial de Saúde (OMS)? Elas são respeitadas e valorizadas em suas infâncias? Elas já exercem as suas cidadanias desde a infância? Como entendemos as relações entre cultura, educação, política, economia, direitos humanos, e como vemos e enfrentamos o desafio da injustiça social, de todo tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso, geracional, de gênero, etc.), da exclusão cultural, da degradação do meio ambiente, da globalização capitalista e de sua relação com a nossa (falta de) qualidade de vida? Como trabalhar o currículo da/ na escola, no nosso planejamento e na nossa educação integral, a partir destes e de outros problemas contemporâneos e emergentes? Como incorporarmos e contarmos com as 15 CAPA CAPA perdiçar as oportunidades históricas que temos em nossas vidas, de encarar os problemas e desafios com a radicalidade da qual nos fala Paulo Freire, para que a educação integral seja, de fato, uma concepção de educação que eduque as nossas Direcional Educador, Maio 13 crianças.” 16 ajudando a proteger a vida das pessoas, de todas as espécies e do próprio planeta? Minha própria vida, de meu coletivo mais próximo e mais distante? Estou consciente de que por minha ação, ou por minha omissão, sou corresponsável – qualquer que seja a situação, para a manutenção da presente realidade ou pela transformação dela, com efeitos evidentemente diretos para minha própria vida e, principalmente, para a vida da sociedade em que vivo, para o grupo social ao qual pertenço, para a minha comunidade, minha família, meu planeta? Sei exatamente o que está por detrás e das entrelinhas de tudo aquilo que se passa à minha volta? Tenho clareza de onde chegaremos ao escolher determinados caminhos e itinerários? Tenho clareza da ideologia, dos interesses políticos, dos interesses e das influências econômicas presentes em determinado projeto educacional, proposta pedagógica, metodologia didática, material pedagógico e tecnologia que pretendo utilizar? Quais os valores que regem a minha/nossa vida? Qual é, afinal, o meu/nosso projeto de sociedade? Tenho clareza dos fundamentos, das bases teóricas e da visão de natureza humana presentes em determinado projeto educacional? Aonde ele nos levará? Quais os porquês desta proposta? Ela está a favor ou contra os esfarrapados do mundo? Ela é sectária (fundamentalista) ou radical (profunda, indo às raízes das questões, dos problemas, para buscar resolvê-los de forma democrática, criativa e ativa?). Não podemos desperdiçar as oportunidades históricas que temos em nossas vidas, de encarar os problemas e desafios com a radicalidade da qual nos fala Paulo Freire, para que a educação integral, com ou sem tempo integral – porque, a priori, toda educação deveria ser integral –, seja, de fato, uma concepção de educação que eduque as nossas crianças, jovens, adultos e idosos, de forma a torná-las pessoas emancipadas, efetivamente cidadãs, capazes de exercerem plenamente as suas cidadanias, as suas autonomias e, por conseguinte, os seus direitos, as suas dignidades. O currículo praticado na escola, numa perspectiva emancipadora e transformadora, propõe a formação humana a partir das relações culturais e intertransculturais entre todos os sujeitos que participam do processo de ensino e aprendizagem. Valoriza a convivência ética e estética entre os diversos segmentos escolares, respeitando a diversidade cultural, as diferentes etnias, gêneros, sexualidades, religiosidades, suas respectivas semelhanças. Considera e trabalha a democracia como meio e fim, estabelecendo relações dialógicas – portanto críticas e criativas – entre as diferentes ciências, os diferentes conhecimentos e saberes, de forma que a escolha dos conteúdos programáticos e as metodologias de ensino e aprendizagem – incluindo-se aí a avaliação – sejam fruto do esforço coletivo de professores, alunos e comunidade. Pessoa educada integralmente é pessoa emancipada, que respeita direitos, seus e de outras pessoas. É pessoa capaz de viver em solidariedade, em paz, sem violência, lutando contra toda forma de preconceito, de maneira digna e em defesa da educação como direito fundamental. Nessa direção é que se faz necessário um planejamento educacional que chamamos dialógico. Para Freire, o diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgo- tando, portanto, na relação eu-tu (…) Se é dizendo a palavra com que, ‘pronunciando’ o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens’. (FREIRE, 1987, p. 78-79). E reforçando a necessidade de também sermos radicais quando falamos em planejamento, em seu primeiro livro, Educação e atualidade brasileira (1959), Paulo Freire diz que Todo planejamento educacional, para qualquer sociedade, tem que responder às marcas e aos valores dessa sociedade. Só assim é que pode funcionar o processo educativo, ora como força estabilizadora, ora como fator de mudança. (…) para ser autêntico, é necessário ao processo educativo que se ponha em relação de organicidade com a contextura da sociedade a que se aplica. (FREIRE, 2001, pg. 10). Paulo Freire muito contribuiu e continua contribuindo com sua práxis – entendida como ação transformadora – tanto em sua obra, como em suas experiências como gestor público da educação2, para que possamos construir processos e experiências de educação integral com efetiva mobilização e participação social, popular e comunitária, adentrando o currículo da escola e fazendo parte de seu projeto eco-político-pedagógico. Isso nos ajuda a termos mais clareza de qual projeto de educação pública queremos para nós e para os nossos alunos. Que sejamos educadores/as e não simplesmente “facilitadores” de aprendizagem. Que exercitemos em nossas práticas a efetiva gestão sociocultural do conhecimento, que ao mesmo tempo inclui o fato de sermos lideranças democráticas e cidadãos/cidadãs ativos/ as no nosso fazer ético-estético-eco-político e pedagógico. E que sigamos estudiosos da educação integral, do currículo e do planejamento em educação, pois disso depende a continuidade de nossa luta em favor e ao lado dos esfarrapados do mundo, por uma sociedade mais liberta das amarras do opressor denunciado por Paulo Freire e pelo fortalecimento da educação cidadã, transformadora e libertadora, como queria Paulo Freire. Referências bibliográficas ANTUNES, Ângela & PADILHA, Paulo Roberto. Educação integral, educação cidadã. São Paulo, ED,L., 2010. BASARAB, Nicolescu et al. Educação e transdisciplinaridade. Brasília: Unesco, 2000. BATESON, Gregory. Mente e natureza: a unidade necessária. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1986. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987. FREIRE, Paulo. A educação na cidade. 3ed., São Paulo, Cortez, 1999. FREIRE, Paulo. Educação e atualidade brasileira. São Paulo, IPF, Ed. Cortez, 2001. GADOTTI, Moacir. (Org.). Paulo Freire: uma biobibliografia. São Paulo, IPF/ Cortez, 1996. GADOTTI, Moacir. Educação integral no Brasil: inovações em processo. São Paulo, ED,L., 2009. MATURANA, Humberto & VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano: do patriarcado à democracia. São Paulo, Palas Athenas, 2004. p. 114. MORIN, Edgard. Complexidade e transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 1999. O’ SULLIVAN, Edmund. Aprendizagem transformadora: uma visão educacional para o século XXI. São Paulo, Cortez/IPF, 2004. PADILHA, Paulo Roberto. Currículo Intertranscultural: novos itinerários para a educação. São Paulo, Cortez/IPF, 2004. PADILHA, Paulo Roberto. Educar em todos os cantos: por uma educação intertranscultural. São Paulo, ED,L., 2012. (Cortez, 2007). STOER, Steven & CORTESÃO, Luiza. Levantando a pedra: da pedagogia inter/multicultural às políticas educativas numa época de transnacionalização. Porto. Afrontamento, 1999. 1. Para não me repetir neste artigo no que concerne à base teórica destas reflexões, sugiro a leitura das obras relacionadas nas referências bibliográficas, onde aprofundamos a nossa discussão. 2. Sugiro a leitura, a este respeito, do livro “Educar na Cidade” (Freire, 3 ed., 1999). Para mais informações sobre a obra e o pensamento de Paulo Freire, sugiro acessar: www.acervopaulofreire.org e www.paulofreire.org Paulo Roberto Padilha é doutor e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP. Pedagogo, músico e bacharel em ciências contábeis. Diretor de desenvolvimento institucional do Instituto Paulo Freire, Diretor associado da Sociedade da Terra – Centro de Estudos e Vivências para a Vida Sustentável e coordenador estadual, em São Paulo, da ABONG. É autor de vários livros, entre eles: Educar em todos os cantos (2007; 2012), Educação Integral, Educação cidadã (2010), Município que Educa (2009), Currículo Intertranscultural (2004), Planejamento Dialógico (2001). E-mail: [email protected] www.paulofreire.org Direcional Educador, Maio 13 “Não podemos des- no e de uma unidade educacional, trata-se de realizarmos processos de reorientação curricular (da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, da EJA, do Ensino Médio, etc.), com a participação de professores/ as e de representações da comunidade escolar, devidamente contextualizados e a partir da cultura local, num processo participativo e democrático. Processualmente constroem-se os fundamentos deste currículo e a proposta curricular nascida da “experiência feita” dos educadores e educandos, em diálogo com os parâmetros e diretrizes curriculares vigentes mas, sem a eles se restringirem. Podemos então falar em organizar a nossa proposta curricular, estabelecendo objetivos, metas e indicadores de qualidade sociocultural e socioambiental das aprendizagens, que contribuirão para a avaliação de processos e de resultados. É por isso que destaquei a epígrafe de Paulo Freire, falando de radicalidade. A este respeito, no seu livro Pedagogia do Oprimido, ele também escreveu: É que a sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre. A radicalização, pelo contrário, é sempre criadora, pela criticidade que a alimenta. Enquanto a sectarização é mítica, por isto alienante, a radicalização é crítica, por isto libertadora. Libertadora porque, implicando o enraizamento que os homens fazem na opção que fizeram, os engaja cada vez mais no esforço de transformação da realidade concreta, objetiva. (FREIRE, 1987, 23). Como vimos, Paulo Freire em muito contribui para as nossas reflexões e práticas relacionadas à educação integral, ao currículo e ao planejamento.1 E eu convido você, leitora e leitor, quando se encontrar diante de uma situação-problema educacional ou, até mesmo, de outra situação existencial pela qual passar, que possa continuar se perguntando: minha resposta a este problema estará contribuindo para a transformação da realidade concreta e objetiva na qual vivo? O que já conheci desta realidade, ou deste problema, para propor soluções? As respostas que já temos são suficientes? O que ainda falta conhecer? Estarei eu contribuindo, efetivamente, para a vida de qualidade das pessoas envolvidas nesta determinada situação? Estou 17 CAPA O que distingue Freire da maioria dos outros educadores de esquerda nestes tempos de razão cínica é a sua insistência, sem a mínima vergonha de fazê-lo, na importância do poder do amor (McLaren, 2001: 194). Direcional Educador, Maio 13 sta é uma edição comemorativa dos 100 números da Revista Direcional Educador, e também dos 50 anos de Angicos, uma das primeiras aplicações em escala maior do Método de Alfabetização de Paulo Freire. Dentro desse contexto de celebração, tratar da temática Paulo Freire e o Amor parece-nos bastante pertinente já que, de um lado, o Amor é um dos maiores valores, uma das maiores buscas do ser humano: No princípio era... o Amor! (Vasconcellos, 2012: 60). De outro, Paulo Freire é um dos maiores educadores contemporâneos, e patrono da educação brasileira. Além disto, é uma oportunidade de expressar um dos fundamentos da prática de Angicos. No entanto, o tema é espinhoso, delicado, de difícil aproximação. Não seria freireano, nos parece, fazer uma abordagem adocicada do Amor, um pouco como anda acontecendo ultimamente em alguns meios, nessa espécie de “pedagogia da autoajuda”. Depois do falecimento do Prof. Paulo Freire, no dia 2 de maio de 1997, sua segunda esposa, Nita, organizou seus escritos, e surgiram, então, várias Pedagogias: da Indignação, dos Sonhos Possíveis, da Tolerância, do Compromisso. Por toda a produção de Freire neste campo, seria perfeitamente possível organizar uma obra com o título Pedagogia do Amor, mas seria muito complicado porque já existem pelo menos duas ou três obras publicadas com esse título e numa perspectiva bastante diferente, na linha da autoajuda, melosa, piegas. Talvez, até por isso mesmo, fosse interessante lançar para propiciar um rico contraponto. Nesse artigo, vamos nos aproximar, ainda que rapidamente, dessa complexa temática privilegiando um aspecto que é o reflexo da dimensão do Amor em Freire para a identidade docente. 18 A Opção Preferencial de Paulo Freire Um aspecto que marca a experiência de Angicos, e que está presente em toda a prática de Paulo Freire, é justamente esse ponto de partida: o Amor pelos esfarrapados, como expressa a dedicatória que faz na Pedagogia do Oprimido, ou, em outros termos, esse Amor pelos oprimidos. Essa prática, essa compreensão, essa vivência vai caracterizar toda a sua obra. A experiência de Angicos explicita a maneira como Paulo Freire compreende e vive esse Amor. Primeiro, o grupo a que se dedica: não vai se dirigir a alunos re- gularmente matriculados na escola elementar, com seu direito adquirido (pelo menos formalmente). Pelo contrário, vai olhar exatamente para aqueles que estão à margem do processo educacional, que são os adultos analfabetos que, na perversa lógica do sistema, são aqueles excluídos, os pobres, ou melhor, os empobrecidos. Portanto, já começa por essa opção, já tem o olhar preferencial para esse grupo que é, precisamente, o dos esfarrapados, dos oprimidos. Considerando que este é um grupo que não frequentou a escola no período que era esperado, marcado pela exclusão, é previsível encontrar certas dificuldades na aprendizagem, que a formação pedagógica usual na academia não dá conta. Aliás, muito pelo contrário: Freire costumava dizer que uma das piores coisas que a academia ensina ao futuro professor é detestar o cheiro do pobre. A partir disso, o que faz? Coerente com essa visão humanista, progressista, com essa opção de amor radical, ao invés de ficar eternamente apontando os problemas, buscando “culpados” ou justificativas para não fazer, vai buscar alternativas. De um lado, sistematiza uma teoria do conhecimento (ver, por exemplo, o Capítulo III de sua obra Extensão ou Comunicação?, que é um verdadeiro tratado de Teoria Dialética do Conhecimento). Ao mesmo tempo, propõe um método de ensino, o Método Paulo Freire de Alfabetização, que se tornou clássico, sendo que, a rigor, não é só um método de alfabetização, mas um método de formação, de conscientização, de educação num sentido mais amplo. Olhar Amoroso sobre o Professor Esse núcleo radical do trabalho de Paulo Freire se contrapõe fortemente, e é um elemento extremamente questionador a muitas práticas atuais na escola. Antes de tudo, numa abordagem da situação do professor marcada pela amorosidade e pelo rigor, é preciso reconhecer que há um quadro bastante delicado do magistério: salários avilta- dos, condições precárias de trabalho, desvalorização do professor, falta de apoio da família. Esta é uma cruel realidade que está perdurando há algumas décadas em nosso país. Ao mesmo tempo, entendemos que é preciso também aí um certo choque de realidade, para que o professor não entre nas armadilhas ideológicas, para que não caia no processo de infantilização, colocando-se como “vítima”. No livro Para Onde vai o Professor? Resgate do Professor como Sujeito de Transformação, trabalho essa ideia: professor nem vítima nem vilão, sujeito de transformação. É um grande equívoco colocar o professor como vilão da história, como o grande culpado ou, no pólo oposto, como vítima, como coitadinho. Para não entrar no engodo da infantilização, é preciso lembrar que o professor é o adulto da relação. E, antes disso, há uma questão básica: ninguém o obriga a ser professor! Trata-se de uma colocação muito dura, porém tem por objetivo remeter o professor para o seu papel no contexto concreto que atua. O que o Amor de Paulo Freire nos inspira é justamente isto: diante dessa realidade que estamos vivendo, diante dessa complexidade, que é o trabalho da escola hoje (toda a questão do desmonte social, da crise de valoração, da desorientação dos pais, da transferência de responsabilidade, do apelo consumista da mídia, da quebra de limites comportamentais em função do consumo, da crise de sentido, da própria crise do papel da escola), e que coloca um quadro realmente bastante difícil para o trabalho do professor, qual vai ser a nossa postura? A grande questão é sempre aquela: como saímos dessa dura situação? Uma saída equivocada é, certamente, aquela em que os pequenos ficam se devorando, enquanto os poderosos “deitam e rolam”, o velho e atual dividir para governar de “Para não entrar no engodo da infantilização, é preciso lembrar que o professor é o adulto da relação. E, antes disso, há uma questão básica: ninguém o obriga a ser professor!” Direcional Educador, Maio 13 Por Celso dos Santos Vasconcellos CAPA 19 CAPA CAPA numa abordagem adocicada do amor, alienada e alienante, temos que tomar consciência: é preciso um amor radical, um amor Direcional Educador, Maio 13 crítico!” 20 Identidade Docente em Questão Aqui emerge uma questão essencial que é a da identidade docente. A reflexão sobre o Amor nos coloca diante de um apelo radical, de uma definição: afinal de contas, o que é ser professor? O professor é aquele que transmite e verifica quem aprendeu ou não (a clássica denúncia que Freire faz da educação bancária: o professor faz o “depósito” e depois verifica “se o cheque tem fundo”) e, a partir disso, seleciona os que são “capazes”, os que “merecem”, “os que podem continuar”, “os que não podem continuar”? Ou professor é aquele que vai mediar a aprendizagem, o desenvolvimento humano, a alegria crítica, que não sossega, pessoal e coletivamente, enquanto os alunos de fato não aprenderem? Esse é um ponto nuclear. E a posição de Paulo Freire é claríssima. Para não ficar numa abordagem adocicada do amor, alienada e alienante, temos que tomar consciência: é preciso um amor radical, um amor crítico! De um modo geral, o professor tem uma formação e vai para a sala de aula; começa a desenvolver o trabalho, e dificuldades vão surgindo. Diante dessas dificuldades, qual vai ser a sua postura? Se está marcado por esse amor equivocado, pode perfeitamente entrar na lógica do sistema, que é a da seleção, chegando à frase clássica, que sintetiza toda uma concepção de educação (e de sociedade): “Eu estou te reprovando, mas é para o teu bem? Um dia você vai me agradecer”... Queremos deixar claro que com a mesma ênfase que criticamos a reprovação criticamos também a aprovação. Defendemos a qualificação, o ensino efetivo, a mediação. O aluno, especialmente dos anos iniciais da escolarização, não vai, não deve ir para a escola para ser classificado, e sim qualificado. Se o docente adota a postura seletiva, está participando da armadilha que a burguesia montou, no final do século XVIII, no começo do século XIX, quando ofereceu escola para o povo, porque a rigor ela ofereceu com uma mão e tirou com a outra: “A escola é para todos, porém, aprende quem pode, e nem todos podem”. O papel do professor passa a ser identificar quem pode e quem não pode. É muito forte em alguns professores a ideia de que a escola vai desenvolver “a base que a família deu”. Ora, se a família não deu, “Sinto muito, mas a escola nada pode fazer”. Essa é uma posição ext r em a m en t e conservadora, embora comumente marcada por uma grande ingenuidade, por parte daqueles que assim pensam. Tal postura tem como consequência, justamente, manter o sistema da forma como está dado. Essa é, nitidamente, uma questão política, qual seja, a tomada de posição em relação aos coeficientes de poder presentes na Polis. É o amor que se manifesta na política, para o bem ou para o mal... O pressuposto da escola democrática, que Paulo Freire leva às últimas consequências, é totalmente diferente: todo ser humano é capaz de aprender, e se não está sendo capaz tem de ser ajudado e não excluído. Para ter esta posição ativa, dialógica, problematizadora, mediadora, que se compromete com a superação das dificuldades de todos, e especialmente daqueles que mais precisam, é necessário esse Amor. Por isso a questão do amor em Paulo Freire nos remete diretamente à definição da identidade docente: é possível ser professor sem um profundo amor pela humanidade? E para que isso não fi- que como uma questão genérica, para que esse amor não caia nas armadilhas ideológicas que estão colocadas, para que não seja equivocado, ainda que sem a menor consciência disso, inspirados por Paulo Freire avançamos no questionamento: é possível ser professor, no autêntico sentido, sem o amor pelos oprimidos, pelos esfarrapados? Esfarrapado aqui não só no sentido material, mas também moral, afetivo e/ou cognitivo. Há esfarrapados também dentro de uma escola de classe alta. Trata-se de superar o amor ingênuo em direção a esse amor crítico, radical (radical é o que vai à raiz), que se revela no compromisso efetivo com a aprendizagem de cada um e de todos (“Ou você aprende, ou... você aprende!”), a partir de um projeto libertador. É impossível ensinar sem esta coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes de uma desistência. (...) É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão anti-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional. É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições que conhecemos, mal pagos, desrespeitados e resistindo ao risco de cair vencidos pelo cinismo. É preciso ousar, aprender a ousar, para dizer não à burocratização da mente a que nos expomos diariamente. É preciso ousar para continuar quando às vezes se pode deixar de fazê-lo, com vantagens materiais” (Freire,1994:10). “Defendemos a qualificação, o ensino efetivo, a mediação. O aluno, especialmente dos anos iniciais da escolarização, não vai, não deve ir para a escola para ser classificado, e sim qualificado.” Direcional Educador, Maio 13 “Para não ficar Maquiavel. Na linguagem freireana, temos o oprimido, que hospeda em si o opressor (por ter sofrido a opressão por tanto tempo), oprimindo o oprimido, mantendo a situação de dominação sem que o dominador precise “mostrar sua cara”. Ficar numa linha pseudo-crítica de acusação de tudo e de todos, numa postura de exclusão e seleção, vai levar a quê? Como dizia Pio XII, quantos e quantos ainda são maus porque não são suficientemente amados. Sim, há um desamor por parte de muitos em relação ao professor; mas não vai ser com desamor ao aluno que irá resolver esta situação; pelo contrário, o inferno da sala de aula ficará ainda maior. Se está difícil ser professor, vamos discutir isto abertamente, e não descarregar, mais ou menos conscientemente, nossas angústias, frustrações, ressentimentos sobre os alunos. O caminho que Paulo Freire percorreu foi procurar alternativas, fundamentação epistemológica, um método de ensino (e de pesquisa), a criação de círculos de cultura, a organização política. Segundo Freire, o fato de o oprimido tomar consciência de sua situação, organizar-se e lutar contra a opressão é, inclusive, uma forma de amor pelo opressor, pois significa negar as condições para que ele continue oprimindo, e assim poder libertar-se também. 21 CAPA 22 Se nada ficar destas páginas, algo, pelo menos, esperamos que permaneça: nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens, na criação de um novo mundo em que seja menos difícil amar. Referências bibliográficas FREIRE, Ana M. Araújo. Nita e Paulo: crônicas de amor. São Paulo: Olho d’Água, 1998. FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade, 14a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. __________ Extensão ou Comunicação, 4a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. __________ Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 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In: GADOTTI, Moacir (org.). 40 Olhares sobre os 40 anos da Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008. __________ Para onde vai o Professor? Resgate do Professor como Sujeito de Transformação, 13a ed. São Paulo: Libertad, 2013. Celso dos Santos Vasconcellos, doutor em Educação pela USP, dirige o Libertad - Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica. Ao responder a pergunta “Menino, quem foi teu mestre?”, tem orgulho de dizer que foi aluno de Paulo Freire. E-mail: [email protected] Implicações da teoria de Paulo Freire na Educação Infantil: breves reflexões de uma educadora Por Silvana Canônico aulo Freire não escreveu especificamente, em suas obras, sobre a Educação Infantil. Mas, é possível afirmar que seu pensamento político-pedagógico se faz presente quando refletimos sobre a educação das crianças pequenas. Ele ficou conhecido como filósofo e teórico da educação como prática da Liberdade. Paulo Freire foi secretário municipal da educação, no Município de São Paulo, na administração de Luiza Erundina, entre 1989 e 1991. Neste período foi elaborado na rede municipal o documento de Reorientação Curricular das EMEIs (Escola Municipal de Educação Infantil). A trajetória da Educação Infantil foi marcada por suas ideias e ideais. Ele acreditava que as escolas deveriam se transformar em centros de criatividade, em que ensinar e aprender fosse um momento alegre. Para ele, além de “mudar a cara da escola”, era preciso demonstrar o respeito pelas crianças, por suas professoras, sua escola, seus pais, sua comunidade e, para isso, era necessário ouvir e, mais do que isso, escutar todos eles, todas elas. O respeito a que Paulo Freire se referia era o de entender as crianças como parte ativa e constituinte da escola. Partilhar os primeiros anos de vida das crianças é uma vivência afetiva muito rica e plena de descobertas. As crianças trazem consigo desejos, saberes, medos, indagações, que precisam ser respeitados pelos educadores. “Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho - a de ensinar e não a de transferir conhecimento” (1). Ensinar impõe a apropriação da realidade, clareza na minha prática educativa, bom senso, autonomia, curiosidade. Exige aventurar-se, alegria, esperança, competência profissional, saber escutar, querer bem as crianças, predisposição à mudança. Paulo Freire aponta para nós, educadores da infância, a importância da escuta, do acolhimento, da generosidade, da tolerância. Quando escutamos as nossas crianças amorosamente e criticamente aprendemos a falar com elas e não para elas. Desta maneira estaremos praticando a pedagogia do diálogo. Este diálogo deverá abarcar as famílias, conhecendo melhor os hábitos, os valores e suas realidades. Assim, educadores e escola, aprenderemos sobre os saberes construídos pelas famílias, saberes que também deverão constituir o currículo. As situações cotidianas vividas nas escolas de Educação Infantil devem ampliar as possibilidades das crianças a aprender, a conviver, brincar e desenvolver projetos em grupo, expressar-se, comunicar-se, criar e reconhecer novas linguagens. Uma atividade muito presente nas salas de aula é a roda de conversa, um espaço de partilha. As crianças experimentam a construção do diálogo, falando e escutando. Por meio do diálogo é possível a construção de conhecimento de forma coletiva e colaborativa. “É a escola que estimula o aluno a perguntar, a criticar, a criar; onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências no mundo.” (2). Da sua práxis pedagógica podemos ressaltar variados conceitos que se apresentam como importantes contribuições para a formulação de um conceito de infância onde é possível conceber as crianças como sujeitos culturais e históricos. A Educação Infantil é entendida como tempo e espaço em que a criança deverá ter acesso a conhecimentos construídos historicamente, a elementos da cultura universal, mesmo tempo em que participará como sujeito sócio histórico, produtor dessa cultura. Por meio de sua interação com o outro, seja ele o professor ou o colega, a criança irá descobrir-se, descobrir o outro, descobrir o mundo, experimentando, ressignificando a todo o momento sua compreensão e intervenção nesse mundo. Ao compreendemos a Educação Infantil dessa forma tornamos presente o pensamento deste inesquecível educador. (1) Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 2008 (2) ________, A Educação na Cidade. 2001 Silvana Canônico é licenciada em Pedagogia, coordenadora pedagógica da rede municipal de São Paulo e assessora de assuntos educacionais do Vereador Paulo Batista dos Reis na Câmara Municipal de São Paulo. E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 Direcional Educador, Maio 13 Voltando para a Sala de Aula Um possível desdobramento desta compreensão do Amor na sala de aula é aquela postura do professor que afirma “Nunca te vi, sempre te amei”, e propõe “Nenhum a menos”, aproveitando os títulos de dois filmes. “Nunca te vi, sempre te amei”: eu não me fiz professor para ser professor de A ou de B, eu me fiz professor para ser professor de todos. Os gregos antigos tinham, pelo menos, três nomes para o amor: Eros, Philia e Ágape. Eros é o amor vida, disposição, energia, fluxo, movimento. Philia é o amor dos amigos, o amor dos irmãos. E Ágape é o amor maior, o amor gratuito, sem interesse, o amor compromisso. É desse amor Ágape que estamos falando quando dizemos “Nunca te vi, sempre te amei”. A escola é um instrumento da Res Pública, da Coisa Pública. Não temos o direito de fazer discriminação de alunos. Temos um projeto libertador, temos clareza do nosso papel enquanto professores. “Nenhum a menos”: no sentido do amor que se traduz em compromisso, em cuidado, de tal forma que não percamos nenhum dos que são nossos alunos na sala de aula; que cada um e todos alcancem a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno e a alegria crítica (docta gaudium). Paulo Freire tem clareza que o Amor tem que ser construído, tem que ser cultivado, não é uma coisa espontânea: É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem cuidada de amar (Freire,1994:10). Certa feita, numa entrevista, Edney Silvestre indaga Paulo Freire sobre como quer ser lembrado. Depois de expressar a surpresa em relação à pergunta, afirma: Eu gostaria de ser lembrado como um sujeito que amou profundamente o mundo e as pessoas, os bichos, as árvores, as águas, a vida (Freire, 2004: 329). Cremos que realmente seu desejo está se cumprindo, porque através da sua obra, no sentido amplo, da sua vivência, dos seus escritos, deixou essa marca que está hoje, aqui e agora, nos questionando para que possamos também amar no sentido mais autêntico. Concluímos reproduzindo o manuscrito, datado como “Primavera 68”, de sua grande obra Pedagogia do Oprimido, em que, mais uma vez expressa sua profunda crença nos homens e no amor: CAPA 23 PÁGINA DO PSICOPEDAGOGO Família, sociedade e escola de qualidade Direcional Educador, Maio 13 "Todo futuro é a criação que se faz pela transformação do presente." (Paulo Freire) 24 uando refletimos sobre os processos e os problemas no aprender das crianças, naturalmente nos vem à mente a família, a escola, as oportunidades que o meio social e cultural onde vivem lhes proporcionou, e suas próprias condições físicas, psicológicas e mentais. E temos em mente, como educadores e especialistas em aprendizagem, que antes mesmo de pensar no que e como a criança deve aprender em nossas salas de aula, precisamos nos deter em tais fatores essenciais. Sabemos que há algo fundamental que não pode ser esquecido: a importância da dinâmica das relações que cada criança vivenciou durante a vida, especialmente no seio da sua família e que ao se estender à escola lhe confere o seu perfil singular como pessoa e amplia suas possibilidades de aprender e se tornar autônoma no futuro. Em termos de configuração familiar, um fato sem dúvida marcante na vida e na formação das crianças é a participação cada vez maior da mulher no mercado de trabalho e a decorrente ausência da mãe no lar, fato inegável e que traz muitos benefícios em termos até de exemplo e segurança material às crianças, mas que também tem outros aspectos, que preocupam os pais e educadores. Hoje, independentemente da classe social, do tipo de formação acadêmica e da função desenvolvida, boa parte das mulheres, seja ou não chefe de família, compartilha com os homens no mercado de trabalho. Para se ter ideia de grandeza, entre 1991 e 2011, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a participação das mulheres nos postos de trabalho na América Latina e no Caribe cresceu de 39,6% para 42,7%, o que em números é um valor ainda mais representativo. No Brasil, o percentual de famílias chefiadas por mulheres passou de 22,2% para 37,3%, entre 2000 e 2010 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE). Ainda segundo o próprio IBGE, esse aumento se deve a uma “mudança de valores relativos ao papel da mulher na sociedade e a fatores como o ingresso maciço no mercado de trabalho e o aumento da escolaridade em nível superior, combinados com a redução da fecundidade”. Os desafios enfrentados por mães que se ausentam do lar durante dez, 12 horas por dia, além de outros, consiste em encontrar creches e escolas que ofertem uma educação de qualidade, com jornada em período integral e que tenham um custo mensal que caiba dentro de suas possibilidades financeiras. Da servente à presidente de qualquer empresa, esse é um problema que não esbarra apenas na questão da disponibilidade de recursos para pagar, de meios para levar e buscar a criança nos horários, da proximidade do lar ou do tra- balho da mãe (ou do pai), mas da confiança na qualidade dos serviços prestados, na formação dos profissionais envolvidos, na existência de vagas, no horário de atendimento, etc. Evidentemente é um problema que assume proporções maiores, quando a mãe é chefe de família e a criança apresenta algum problema de aprendizagem. Crianças precisam de um lar com normas, regras e onde encontrem apoio afetivo e cuidados materiais para se desenvolverem de modo saudável. Ainda que o tempo que a mãe passa com o filho seja menos significativo na sua formação do que a qualidade dos momentos vivenciados nessa relação, as crianças não prescindem de serem olhadas por adultos em período integral. A dinâmica da família em termos de cuidados à criança é fundamental para desenvolver o aluno com totais condições de aprendizagem e dar suporte a eventuais dificuldades que surgem pelo caminho. Mas como não há como e nem porque pensar em retroceder no avanço da ocupação e sucesso da mulher no mercado de trabalho, cabe a nós, como educadores e pais, procurar soluções para vencer tantos desafios que a atualidade nos oferece. Acreditamos que um desses caminhos consista em repensar a escola como parte da dinâmica educativa da criança junto com a família, com as escolas abrindo as portas aos pais, incentivando-os a participarem do processo ali desenvolvido, dividindo com respeito as responsabilidades e as assumindo parte a parte. E entre outras medidas, multiplicar socialmente os esforços para que nossas autoridades atentem que a educação é a base do progresso de uma Nação, como comprovam exemplos de outros países onde a escola e os seus profissionais (sejam professores ou pedagogos e especialistas em Psicopedagogia), são o alvo de grandes investimentos financeiros e onde todas as crianças passam a maior parte do dia, aprendendo com qualidade. Maria Irene Maluf é Pedagoga Especialista em Psicopedagogia e Educação Especial, editora da revista Psicopedagogia da ABPp, Coordenadora do Núcleo Sul e Sudeste do Grupo Saber e coordenadora SP do Curso de Especialização em Neuroaprendizagem - Instituto Saber/FACEPD. Site: www.irenemaluf.com.br E-mail: [email protected] CAPA CAPA Direcional Educador, Maio 13 Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire Por Emilia Cipriano 26 alar de Paulo Freire é resgatar a fonte da minha inspiração como educadora. Sinto-me profundamente privilegiada em ter convivido com o Mestre. Um ser humano humilde, sincero, profundamente comprometido e apaixonado pela educação. Nossa convivência, sempre que possível, era contemplada pelo exercício coerente entre o discurso e a prática. Como aluna do Curso de Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, percebia constantemente a relevância da sua capacidade de escuta, prática cotidiana em suas aulas, per- “Alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” Paulo Freire do assassinato do índio Pataxó, em Brasília, pois não se conformava com um ser humano ser tão desumano a ponto de atear fogo em um outro humano, quando este descansava em um banco de rua, sem nunca ter tido com ele qualquer momento de convivência, de diálogo ou de conflito. Nas suas reflexões, trazia para nós a necessidade da educação investir no trabalho de valores, construindo espaços para o exercício da liberdade, pautada no respeitar e ser respeitado. Todos esses flashes apontam que Paulo Freire materializava suas ideias na cotidianidade de sua trajetória de vida. Minha admiração por sua capacidade de denunciar, de anunciar, enfrentando contradições e conflitos, numa perspectiva crítica, ética, estética e política me propiciou pensar a minha trajetória como educadora da infância. Para nós, educadores da infância, ele se posicionou com uma obra ousada frente ao contexto atual, Professora sim, tia não!, marco de indignação ao entendimento que o profissional de crianças pequenas não pode ser confundido como prática afetiva de tios e tias. Suas obras perpassaram as minhas ações como professora formadora de futuros educadores, porque representam a sabedoria e a coragem de denunciar e anunciar. No livro Pedagogia do Oprimido, denuncia as injustiças sociais; em Pedagogia da Esperança, anuncia o acreditar na possibilidade de transformação; em Pedagogia da Autonomia anuncia caminhos e deixa em seus rascunhos o desafio da Pedagogia da Indignação, o desafio de nunca se conformar. Essas obras são leituras fundamentais para o educador que tem em suas ações a indignação com a discriminação, com o preconceito, com a exclusão, com a prática política pedagógica autoritária e com a necessidade de respeitar os contextos de mundos permeados pelas injustiças. Em sua poesia Canção Óbvia, revela a sua boniteza com o afeto. Em todos os parágrafos encontramos sentimentos que nos iluminam a pensar no sentido da espera da esperança, onde revela “...enquanto te espero trabalharei os campos e conversarei com os homens [...] Não te esperarei na pura espera porque o meu tempo de espera é um tempo de que fazer [...] Estarei preparando a tua chegada como o jardineiro prepara o jardim para a rosa que se abrirá na primavera”. Ele abriu na minha vida muitas primaveras e a crença que ser educador é um ato de coragem. Emilia Cipriano é mestre e doutora em Educação (Currículo) pela PUC/SP, professora titular da PUC/SP e coordenadora do Instituto Aprender a Ser – Pesquisa e formação na área educacional. www.aprenderaser.com.br Direcional Educador, Maio 13 Meu Mestre, Amigo e Parceiro meada pelo respeito ao outro na postura de acolhimento. Convivendo com ele fora da universidade, admirava seus gestos espontâneos de afeto para com a sua companheira Ana Maria, a quem carinhosamente chamava de Nita. Nos seus atos valorizava a importância da parceira na sua vida, assim como das pessoas com quem convivia, sem medo de ser julgado pelas suas falas, gestos e expressões de amor. A naturalidade era uma marca nas relações pessoais, era um ser vivendo as reflexões sempre presentes nas suas ações profissionais. Algumas cenas são inesquecíveis na minha convivência com Paulo Freire. Quando Claudio, meu filho, nasceu, recebi sua afetiva visita, falou sobre a experiência de ser pai, contou vários casos e quando o levei ao quarto para ver o cantinho do meu querido bebê ele se ateve aos detalhes do berço que havia sido construído pelo pai, e com seu brilho de sempre para expor seu sentimento disse: “enquanto a mãe gestava o filho, o pai gestava o “ninho” para o acolhimento da chegada do filho”. Outra prova da sua naturalidade foi quando após o jantar, Paulo observou uma manga na fruteira e carinhosamente revelou que era uma das suas frutas prediletas. Então ofereci a ele que saboreou com muito prazer e simplicidade, característica peculiar do seu jeito de ser. Um momento significativo para mim foi quando ele recebeu o Prêmio Moinho Santista, no Palácio do Governo do Estado de São Paulo, e dedicou a premiação a um anônimo, que no seu período de exílio conseguiu criar uma estratégia para que ele pudesse sobreviver frente às dificuldades do contexto da prisão. Em relação a sua positividade frente à vida presenciei um momento de profunda tristeza e indignação, na época 27 CAPA CAPA democrática Por Ângela Antunes s princípios filosófico-político-pedagógicos de Paulo Freire se referenciam no desejo de liberdade, justiça, ética e autonomia do ser humano. Desde seus primeiros escritos, ele nos chama a atenção para a necessidade de uma educação emancipadora, dialógica, participativa, democrática. Do primeiro (1959) ao seu último livro (1997), Paulo Freire reflete sobre a importância de conhecer, por meio da educação, a maneira como mulheres e homens interpretam o mundo e agem sobre ele para transformá-lo. O seu trabalho partia sempre dos níveis e das formas como os educandos compreendiam a realidade. Estava preocupado em elaborar uma pedagogia comprometida com a melhoria das condições de existência das populações oprimidas. E essa pedagogia não seria construída ignorando a realidade em que estavam inseridos os educandos a quem ela se dirigia e tão pouco seria construída sem a intensa participação de todos que dela faziam parte. Interessou-nos sempre, e desde logo, a experiência democrática através da educação. Educação da criança e do adulto. Educação democrática que fosse, portanto, um trabalho do homem com o homem e nunca um trabalho verticalmente do homem sobre o homem ou assistencialistamente do homem para o homem, sem ele. (FREIRE, 2001: 70) Paulo Freire buscava novas relações no processo pedagógico. Criticava o formato da educação bancária: Direcional Educador, Maio 13 Ditamos ideias. Não trocamos ideias. Discursamos aulas. Não debatemos ou discutimos temas. Trabalhamos sobre o educando. Não trabalhamos com ele. Impomos-lhe uma ordem a que ele não adere, mas se acomoda. Não lhe propiciamos meios para o pensar autêntico, porque recebendo as fórmulas que lhe damos, simplesmente as guarda. Não as incorpora porque a incorporação é o resultado de busca de algo que exige, de quem o tenta, esforço de recriação e de procura. Exige reinvenção (FREIRE, 1999:104). 28 Toda sua trajetória, profissional e intelectual, é marcada pela luta por uma educação pública, democrática e popular. Atravessam toda a sua obra as críticas à escola burocrática, à educação bancária, à ausência de uma relação de organicidade entre o currículo e a escola deve ser um local tanto de elaboração e construção do conhecimento e organização política das classes populares, quanto da solidariedade de classe; um espaço onde se incentive a participação do povo na criação do saber, que é instrumento de luta na transformação da história; um centro irradiador de cultura, para que a comunidade não só se aproprie dela mas também a recrie. (SÃO PAULO, 1990:4). Essa concepção pressupõe uma visão ampla e historicizada de homem, mundo, escola e sociedade e uma construção em processo, fundamentada na participação de todos os segmentos escolares. Ela exige mudanças: a) em relação ao educador: ser autor da educação que realiza, superar o individualismo e aprender a trabalhar coletivamente, entendendo o aluno como sujeito da sua aprendizagem, su- perando, portanto, o estigma da educação bancária; b) em relação ao educando: ser partícipe do processo de construção do seu saber; c) em relação à concepção do conhecimento: entendê-lo como resultado das múltiplas relações do homem com o mundo e consigo mesmo, como construção coletiva e não como descoberta individual, com uma função social, que é a de contribuir para que homens e mulheres compreendam seu “estar sendo no mundo” e sejam capazes de agir sobre ele, transformando-o para melhor e se transformando também, humanizando-se; d) em relação aos conteúdos da aprendizagem: a realidade deve ser o objeto de estudo, buscando os conteúdos mais significativos para a aproximação crítica do contexto em que os educandos estão inseridos (a escola deve estar em “relação de organicidade” com o projeto de vida daqueles que dela fazem parte, daí a necessidade da Leitura do Mundo); e) em relação ao currículo: entendê-lo como instrumento básico de que a escola dispõe para organizar sua ação transformadora; f) em relação ao papel da escola: local privilegiado de receber e considerar a cultura da comunidade e de irradiar outras formas e manifestações culturais, local de reflexão, espaço de participação, de construção individual e coletiva de uma nova realidade; g) em relação à gestão: construir novas relações humanas no interior da escola e com a comunidade, exercitar, no cotidiano educacional, a vivência da democracia, da participação, da cidadania, da solidariedade, dando visibilidade aos sonhos, às vozes historicamente silenciadas, construindo uma escola com todos e para todos. Para viabilizar a construção democrática do currículo e da gestão alterou as relações de poder no interior da escola e também nas instâncias superiores da administração. No âmbito da democratização da gestão, Paulo Freire “Para Paulo Freire, seja na gestão da escola como um todo, seja na sala de aula, na interação professor-aluno, era preciso superar as relações autoritárias, que não reconheciam o educando como sujeito do processo educativo.” Direcional Educador, Maio 13 Paulo Freire e a gestão a realidade do educando, à ausência do diálogo e de práticas democráticas no interior da escola. Para Paulo Freire, seja na gestão da escola como um todo, seja na sala de aula, na interação professor-aluno, era preciso superar as relações autoritárias, que não reconheciam o educando como sujeito do processo educativo e nem reconheciam a importância de todos os segmentos escolares na construção do projeto da educação. Coerente com seu discurso, na administração popular do Município de São Paulo (1989-1992), quando esteve à frente da Secretaria de Educação (1989-1991), substituído, em seguida, por Mário Sérgio Cortella (1991-1992), baseou sua política educacional em três princípios básicos: participação, descentralização e autonomia, desenvolvidos no âmbito de quatro grandes prioridades: Democratização da Gestão, Democratização do Acesso, Nova Qualidade de Ensino e Política de Educação de Jovens e Adultos. A política educacional, através de seus documentos e ações desencadeadas, assumiu o compromisso político de realizar uma escola voltada para a transformação social. Para ele 29 CAPA Direcional Educador, Maio 13 promoveu uma reestruturação técnico-administrativa da Secretaria Municipal de Educação, criou e desenvolveu instâncias colegiadas (Colegiado Central, Colegiado Intermediário, Colegiado dos NAEs e Conselho de Escola), incentivando e fortalecendo a participação e a decisão coletiva. Substituiu as Delegacias Regionais de Educação Municipal (DREMs) pelos Núcleos de Ação Educativa (NAEs). Aquelas tinham uma função mais fiscalizadora e seu contato com as escolas se caracterizava mais pelo controle burocrático: documentação, cumprimento de determinações legais, etc. Os NAEs possuíam uma estrutura mais democrática e desenvolviam um trabalho voltado para os aspectos administrativos, financeiros e, principalmente, de apoio pedagógico. No nível das unidades escolares, ampliou a autonomia, estimulou a formação dos Grêmios Estudantis, deu destaque aos Conselhos de Escolas, investindo na sua reorganização e na formação dos diferentes segmentos para a participação. Além disso, discutiu e elaborou novo Regimento Comum das Escolas Municipais, discutiu e criou o Estatuto do Magistério. Em relação à “Nova Qualidade de Ensino”, entre outras iniciativas, instituiu o “Movimento de Reorientação Curricular” (MRC) e a “Formação Permanente do Pessoal de Ensino”. 30 Uma Escola Pública popular não é apenas a que garante acesso a todos, mas também aquela de cuja construção todos podem participar, aquela que realmente corresponde aos interesses populares, que são os interesses da maioria; é, portanto, uma escola com uma nova qualidade, baseada no empenho, numa postura de solidariedade, formando a consciência social e democrática. [...] O primeiro passo é conquistar a escola velha e convertê-la num centro de investigação, reflexão pedagógica e experimentação com novas alternativas dum ponto de vista popular (SÃO PAULO, 1989:10). O Conselho de Escola constituiu-se na base da proposta de gestão democrática de Paulo Freire à frente da Secretaria de Educação. Consolidou-o como órgão deliberativo, ampliando seu poder de decisão sobre as questões estruturais e pedagógicas das escolas para que pudessem interferir organizadamente nos destinos do ensino municipal (Doc. “Construindo a Educação Pública Popular” - Caderno 22 meses, SME, 1990:9). Em relação à gestão democrática, em termos de proposta de governo, a administração de Luíza Erundina, tendo Paulo Freire como Secretário da Educação, avançou significativamente se comparada com as experiências anteriores, pois ampliou a participação através da reorganização administrativa e da aprovação do Regimento Comum e responsabilizou-se pela formação dos segmentos, principalmente pais e alunos, incentivando-os e preparando-os à participação através de inúmeras atividades: realizou campanhas, criou vídeos, cartilhas, organizou atos públicos, plenárias, reuniões e visitas às escolas, bem como grupos de formação nas escolas e NAEs e instituiu, em cada NAE, uma equipe responsável pela implantação e acompanhamento dos Conselhos de Escola nas unidades escolares. Paulo Freire, como professor ou como gestor, desde a direção do Setor de Educação do SESI (1947 a 1954), passando por cargos em Pernambuco, sob o governo de Miguel Arraes, ou em âmbito nacional, coordenando o Programa Nacional de Alfabetização, pelo MEC, até quando Secretário de Educação, em São Paulo, em toda a sua trajetória, mantendo coerência entre discurso e prática, trabalhou para minar as bases do autoritarismo, do elitismo, da opressão, criando condições para exercícios de liberdade, democracia e participação. Referências bibliográficas ANTUNES, Ângela (2002). Aceita um conselho: como organizar os colegiados escolares. São Paulo, Ed. Cortez. BEISIEGEL, Celso de Rui (1982). Política e educação popular: a teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil. São Paulo, Ática. CORTELLA, Mário Sérgio (1992). “A reconstrução da escola: a educação municipal em São Paulo de 1989 a 1991”. Brasília, INEP, Em Aberto, ano 11, n. 53, pp. 54-63, jan./mar. FREIRE, Paulo (1959). Educação e atualidade brasileira. Recife, Universidade do Recife (Tese de concurso para a Cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes de Pernambuco). __________ (1999). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra. __________ (2001). Educação e atualidade brasileira. São Paulo, Cortez. GADOTTI, Moacir (1993). Escola Cidadã. São Paulo: Cortez. __________ e ROMÃO, José Eustáquio (orgs.) (1997). Autonomia da escola: princípios e propostas. São Paulo: Cortez. SÃO PAULO (1989). Secretaria Municipal de Educação. Construindo a Educação Pública Popular. São Paulo, Diário Oficial do Município, 01/02/89 (Suplemento). __________ (1989a). Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O Movimento de Reorientação Curricular na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo – Documento 3. Problematização da escola: a visão dos educandos. __________ (1990). Secretaria Municipal de Educação. Construindo a Educação Pública Popular - Caderno 22 meses. __________ (1990b). Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O Movimento de Reorientação Curricular na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo – Documento 2 – Documento dirigido aos educadores da Rede Municipal de Ensino. __________ (1991a). Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Construindo a Educação Pública Popular – Ano 3. Ângela Antunes é doutora e mestre em Educação pela FE-USP, pedagoga e diretora de gestão do conhecimento do Instituto Paulo Freire. Doutorou-se com a tese “Leitura do mundo no contexto da planetarização: por uma pedagogia da sustentabilidade”. É autora, dentre outros, do livro Aceita um Conselho? Como organizar o colegiado escolar (São Paulo, Cortez/IPF, 2002). E-mail: [email protected] www.paulofreire.org Direcional Educador, Maio 13 Direcional Educador, Maio 13 32 33 CURSO CURSO MÓDULO IV PARA DESENVOLVER A IMAGINAÇÃO FANTASIAS E FAZ DE CONTA Uma vez, uma de nós, ao entrevistar uma mãe, percebeu que ela estava preocupada que seu filho, de quase cinco anos, tivesse algum problema mental, pois ele falava com alguns objetos como se tivessem vida e inventava histórias muito fantasiosas. Ficamos pensando por que algo que foi tão aceito até alguns anos atrás – como o animismo, no estudo do desenvolvimento infantil; o faz de conta, nos estudos de Piaget; a capacidade de combinar dados da realidade vivida para criar o ainda não vivido, nos estudos de Vygotski –, hoje ameaça as famílias e as escolas? Por que fazer de conta pode ser entendido como loucura? Por que loucura, desequilíbrio são entendidos como um mal? Por que o “normal”, a perfeição e a fixação no mundo concreto são desejados no mundo de hoje? E as nossas diferenças? E a tão propagada diversidade? As coisas parecem tão cruas e nuas que acabamos por esquecer que existe o simbólico, elemento que ocupa o lugar do outro e, por isso, em nossa evolução humana, possibilitou a invenção da linguagem, da arte, da brincadeira, do jogo, das negociações financeiras e de tantas outras construções que interagem conosco o tempo todo. As crianças, desde muito cedo, independente do nível socioeconômico em que vivem, aprendem a realidade do mundo tal como ele é, com possibilidades ou faltas, entendimentos ou brigas, paz ou guerras, simplicidade ou ambições, verdades ou enganações e muito mais. Isso é bom, pois a criança angelical criada em outro momento histórico, que não tinha vez nem voz, mudou. Porém, isso não lhe tira o direito de fazer de conta, de brincar, de imaginar e de expressar o produto de sua imaginação; inclusive para entender. É a escola de Educação Infantil um dos espaços no qual ela poderá fazer de conta e brincar. Caixas de Jogo Simbólico podem fazer parte do material infantil. Contendo objetos utilizados no cotidiano, elas possibilitam às crianças imitar a vida dos adultos e entender algumas coisas por um canal lúdico. Por exemplo, uma caixa com acessórios, como bolsas, perucas, sapatos de gente grande, gravatas, frascos de cremes e perfumes, colares, pulseiras, relógios, pode provocar, no grupo de crianças, brincadeiras nas quais elas podem fazer de conta que são adultos e arrumam-se para passear, trabalhar ou qualquer outra coisa que presenciem no dia a dia. Caixas com sucatas de computadores (como teclado, mouse), pastas com papéis, canetas, blocos, telefones, máquinas de calcular e outros elementos podem incentivar um faz de conta a respeito do trabalho, da profissão; outras, contendo panelas, talheres, pratos, xícaras e sucatas de caixas de produtos alimentícios, promovem um faz de conta na cozinha, no qual as crianças podem inventar uma situação em que estão autorizadas a ligar o fogão, lavar a louça e fazer outras ações proibidas em sua casa no dia a dia. Cada escola pode criar suas Caixas de Jogo Simbólico, tendo como parâmetro a cultura das famílias de seus alunos; dessa forma, as caixas têm mais significado para elas e possibilitam a compreensão de ações dos adultos que convivem com elas. A montagem com objetos do cotidiano deixa um espaço interessante para o faz de conta e a fantasia. Os objetos utilizados no mundo adulto transportam as crianças para um cenário conhecido de experiências, do qual ela deseja participar diariamente e nem sempre pode. Poder fazer 14 parte desse cenário, fazendo de conta que aqueles objetos funcionam tal como em sua casa, é uma fantasia que lhe dá a possibilidade de experimentar a potência. Isso não quer dizer que as crianças não possam brincar com brinquedos, nem que objetos perigosos tenham que fazer parte dessa caixa para que tudo fique mais próximo da realidade cotidiana e possível. O que queremos dizer é que objetos descartáveis, que não ofereçam risco para as crianças, podem ser utilizados pela escola para compor caixas simbólicas que contribuam para o desenvolvimento da imaginação e do conhecimento do mundo no qual as crianças se encontram inseridas. Outro jeito de oportunizar o faz de conta são as caixas de miniaturas, as quais permitem a representação de mundos conhecidos, mas não possíveis de serem vivenciados “de verdade”. Caixas que trazem miniaturas de animais, árvores, réplicas de montanhas permitirão aventuras na selva; caixas com miniaturas de pessoas, móveis, utensílios, transportarão a um faz de conta de “casinha”; e assim por diante. Os objetos em miniaturas, classificados para compor uma caixa de miniatura, levam as crianças para vários cenários, e a oferta do espaço onde brincar com a caixa pode dar mais ou menos plasticidade à brincadeira. Por exemplo, se as crianças podem brincar no chão, com alguns blocos e retalhos de pano para compor o cenário, a plasticidade da brincadeira aumenta; como também se puderem brincar com as miniaturas na areia, onde podem fazer as montanhas, os rios e, inclusive, colocar água dentro. Utilizar o espaço da mesa de trabalho da sala de aula para que as crianças brinquem com as caixas de miniaturas é possível; porém, apesar de ser um bom espaço, propõe menos possibilidades à brincadeira. AS HISTÓRIAS Contar histórias é uma arte. Não é suficiente apenas ler uma história escrita ou dizê-la de memória; é preciso situar-se no tempo e no espaço em que a história se desenrola, sentir as características dos personagens, apropriar-se delas; envolver-se na atmosfera da história, sentir o tom da trama e deixar-se conduzir pela emoção. Se pensarmos que as histórias são formas de as crianças aprenderem o mundo e desenvolverem suas capacidades imaginativas, podemos, também, pensar que não basta ser professor ou educador da infância; é preciso saber contar histórias. Um dia, em uma viagem, encontramos um livro chamado A Arte de Contar Histórias, de Nancy Mellon, uma norteamericana, contadora de histórias, psicoterapeuta; além de ter criado uma forma de fazer psicoterapia por meio da contação de histórias, ela escreveu um livro que nos mobiliza a aperfeiçoar nossas capacidades imaginativas tanto para escrever, quanto para contar histórias. Segundo Mellon (2006), cada um de nós possui poderes imaginativos dentro de si, e o contato com as histórias faz aflorar, acordar imagens que se encontram adormecidas em nós e possibilita o encontro de sentimentos que há muito não sentíamos, sabedorias que foram descartadas, esperanças que se perderam. O ato de contar histórias dá ao contador a oportunidade de coletar e organizar imagens internas e vitais, para poder contá-las aos outros com autenticidade. Por essas e por outras, é que o professor e/ou o educador da infância precisam se preparar para contar histórias. Lê-las antes, imaginar o cenário, a voz dos personagens, seu jeito de andar, de sentar, de gesticular... Sentir na pele as emoções que a história conta para, aí sim, contá-las aos seus alunos. Para que essa tarefa seja prazerosa e educativa, recomenda-se a todos os profissionais da Educação Infantil que façam, em suas salas de aula, um cantinho da história, com livros, tecidos, instrumentos sonoros, lanternas e tudo mais que sua imaginação possa indicar, a fim de organizar um espaço aconchegante para contar e ouvir histórias. A contação de histórias deve ser um momento esperado pelas crianças, mágico e acolhedor; sobretudo, deve inspirar os ouvintes e interessá-los. Histórias não devem virar exercícios de interpretação, nem de memória e, muito menos, de compreensão. Histórias são tramas que devem envolver o ouvinte, emocioná-lo e despertá-lo para sua força, seus medos, suas alegrias, ideias, vontades e tudo mais que alguém pode ter no momento em que se deixa tocar por uma história – verdadeira ou não, longa ou não, temerosa ou não, leve ou não... Uma história... Uma narrativa... Algo que faça a criança pensar e sentir ao mesmo tempo, lidar com o que existe em seu mundo interno e com os impasses que fazem parte do mundo externo. Se você trabalha com crianças muito pequenas, com idade anterior aos três anos, lembre-se de que elas se encontram no iní- 1 5 CURSO cio do período simbólico, ainda tentando entender para que servem as coisas do mundo em que vivem, aprendendo a utilizar a linguagem com significado. Nesse período, histórias curtas, relacionadas aos objetos, aos animais que a criança conhece são mais pertinentes. A questão do bem e do mal surge mais tarde, como elemento a ser simbolizado. Para crianças do berçário, até mais ou menos dois anos, o ideal são histórias que envolvem o corpo e terminam em cócegas e risadas. Por exemplo, “a formiguinha foi subindo por aqui, por aqui...”; enquanto o contador vai contando, vai fazendo seus dedos caminharem bem perto da criança, vão subindo por sua mão, seu braço... até terminar com uma sessão de cócegas e risadas. A IMAGINAÇÃO DO ADULTO – UMA REVISITA À INFÂNCIA Para que o faz de conta e a história possam ser os carros chefes de sua sala de aula, é importante que você revisite sua infância. Mergulhe nas experiências que teve nesse sentido ou dê-se conta do que poderia ter vivido e não viveu, pois é essa revisita que o ajudará no autoconhecimento, para que seja possível corrigir as possíveis falhas que podem ocorrer. Feche os olhos, lembre-se de uma roupa que gostava de usar, da sua cor, da estampa, da textura; aproxime a imagem com uma lupa; desligue-a de sua roupa antiga e desenhe em uma folha de papel branco; lembre-se das histórias que ouvia, de quem as contava, das situações; lembre-se dos personagens prediletos, esquematize-os em sua mente, abra os olhos e transforme-os em um boneco. 1 6 Junte muitas miniaturas e imagine-se fazendo de conta, muito tempo atrás! Faça de conta que está num mundo de fantasia e fantasie um faz de conta de hoje. O que gostaria de ser se não fosse profissional da infância? O que gostaria de fazer se não fosse lidar com crianças em desenvolvimento? Como pensaria se tivesse sofrido outras influências, se falasse outra língua e morasse num outro país? Imagine-se um profissional de outra área. Pense sobre o que isso mudaria a forma de você pensar a infância, a educação e a sua visão de ser humano. Agora, sente-se, com lápis e papel na mão, e escreva uma história para os seus aprendizes. Se não tiver ideia, parta do que Vladimir Propp (citado por FRIEDMANN, 2005, p. 98-105), um folclorista russo, chamou de protoconto, que nada mais é que um conto que pode gerar infinitos outros, uma estrutura que aparece na maioria dos contos de fadas e nos mitos que conhecemos. Seguindo esse pensamento, imagine uma situação existencial, na qual o personagem principal possa se apresentar: quem é, o que faz, o que tem e qual a consciência que possui de si e do mundo no qual está mergulhado. Essa situação traz, normalmente, cenários detalhados e uma situação de felicidade. Depois disso, pense em uma cena específica, na qual o mal entra para questionar tão grande felicidade. É a experiência da transgressão tomando forma, o questionamento à tradição. É uma cena em que o desejo inconsciente aparece em forma de monstro ou de qualquer outra figura estranha. O mal, agressor do personagem principal, tenta obter informações para enganar a vítima e pode se utilizar da astúcia (engano intelectual), de meios mágicos (engano afetivo) ou ações violentas e mentirosas (engano psíquico). O agressor prejudica alguém da família do personagem principal, ou a ele mesmo, em busca do que lhe falta. Surge, então, o herói, que se movimenta entre o reino do bem e o reino do mal, para viver ou morrer, mas combater o mal. Encontra-se com o malvado, atinge os seus objetivos e, quando tenta voltar às suas origens, chega ao seu contexto como um desconhecido que é posto à prova. O herói, assim, enfrenta uma tarefa muito difícil e, somente depois disso, é reconhecido; no final, muda sua aparência inicial. Escreveu sua história? Treinou sua capacidade imaginativa? Se, por acaso, não conseguiu, tente encontrar esses momentos nos contos que vai contar aos seus aprendizes; isso ajudará você a desenvolver-se nesse sentido. Agora, você está preparado para dizer aos pais por que é importante que as crianças imaginem, criem personagens, brinquem de faz de conta. Tudo isso vai deixá-las mais preparadas para aprender a ler e escrever e a ter ideias sobre o que escrever. Referências bibliográficas MELLON, N. A arte de contar histórias. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. FRIEDMANN, A. O universo simbólico da criança: olhares sensíveis para a infância. Petrópolis: Vozes, 2005. CAPA CAPA Direcional Educador, Maio 13 Por Francisca Pini 38 o refletir sobre a relação entre Paulo Freire e a educação em direitos humanos, recorremos aos seus trabalhos como educador nos anos 1960 e percebemos que é possível afirmar que Paulo Freire foi o teórico brasileiro que formulou os primeiros fundamentos para a construção de uma educação em direitos humanos. Tal afirmativa encontra sustentação em toda sua experiência como intelectual comprometido com a causa dos oprimidos, na construção de uma participação engajada e comprometida com um projeto de sociedade e de mundo que se contrapõe à ordem capitalista. Esta clareza de princípios demarca o posicionamento teórico e político de Paulo Freire em relação à concepção de educação tradicional quando, na experiência de Alfabetização de Jovens e Adultos, vivenciada em Angicos (RN) há 50 anos, ele e uma equipe de educadores(as) formulam processos metodológicos que asseguram a cultura, a história de vida dos sujeitos e do lugar em que vivem, a democracia com participação popular, o diálogo, o respeito aos saberes dos educandos e a pesquisa para trabalharem os conhecimentos socialmente construídos pela humanidade com os(as) educandos(as). Este ponto de partida fez toda a diferença para questionar a educação tradicional e apontar para a sociedade que, para além de dominar os códigos de leitura e escrita, o ensino precisa valorizar o conhecimento já adquirido pelos(as) educandos(as) no decorrer de suas vidas, porque o sentido do ensino e da aprendizagem na perspectiva da educação emancipadora pressupõe despertar o sentido do quê, para quê e a serviço de quem está o conhecimento. A dimensão politizadora em Paulo Freire educa o modo de ser na sociedade, pois exige que os(as) educandos(as) sejam sujeitos ativos de sua aprendizagem e percebam o quanto podem contribuir com a mudança do seu local de mora- dia, seu bairro, sua cidade, seu país e o planeta. Esta forma de ensinar e aprender transforma o ser humano em sua dimensão ontológica e o coloca diante do mundo como capaz de refletir, questionar, indignar-se e construir possibilidades diante da realidade que, por vezes, apresenta-se como pronta e acabada, como se não houvesse as determinações sociais, econômicas, políticas, culturais e ambientais que são modificadas por homens e mulheres, de acordo com os tempos histórico e social. Considerando que a concepção de educação em Paulo Freire tem um ponto de partida (que é a Leitura do Mundo, a qual possibilita identificar os problemas e possibilidades da realidade que está em nós e que nos circunda), posteriormente problematizar – para construir estratégias coletivas que possam superar tais problemas e formular pautas que promovam uma intervenção efetiva na realidade – significa que a educação conseguiu articular conteúdo e forma, que dialetica- a) apreensão de conhecimento historicamente construído sobre direitos humanos e a sua relação com os contextos internacional, nacional e local; b) afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos direitos humanos e a sua relação com os contextos internacional, nacional e local; c) formação de uma consciência cidadã capaz de se fazer presente em níveis cognitivo, social, ético e político; d) desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva, utilizando linguagens e materiais didáticos contextualizados; e) fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem ações e instrumentos em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das violações (PNEDH, p. 76). Ao refletirmos as dimensões formuladas pelo PNEDH, percebemos a estreita relação com a teoria do conhecimento formulada por Paulo Freire. O próprio texto do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos aponta que “a educação é um meio privilegiado na promoção dos direitos humanos. Cabe priorizar a formação dos agentes públicos e sociais para atuar no campo formal e não formal, abrangendo os sistemas de educação, saúde, comunicação e informação, justiça e segurança, mídia, entre outros”. (PNEDH, p. 76). No sentido de pensar a formação dos trabalhadores da educação, Paulo Freire orienta, em seu livro Pedagogia da Autonomia (1996), que ensinar exige reflexão crítica sobre a prática. “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática. O seu ‘distanciamento epistemológico’ da prática enquanto objeto de sua análise deve dela ‘aproximá-lo’ ao máximo. Quanto melhor faça esta operação tanto mais inteligência ganha da prática em análise e maior comunicabilidade exerce em torno da superação da ingenuidade pela rigorosidade.” (FREIRE, 1996, p. 39). A formação continuada dos trabalhadores(as) da educação tem se apresentado como um importante momento de recender o entusiasmo pelo ato de educar; momento de “O sentido do ensino e da aprendizagem na perspectiva da educação emancipadora pressupõe despertar o sentido do quê, para quê e a serviço de quem está o conhecimento.” Direcional Educador, Maio 13 Paulo Freire e a educação em direitos humanos mente se inter-relacionam no processo de ensino e aprendizagem. Este pensamento emancipador, socialmente referenciado, encontrou interlocutores em diversas áreas do conhecimento: pedagogia, psicologia, geografia, história, serviço social, arquitetura, medicina, enfermagem, direito, filosofia, matemática, comunicação, economia, química, ciências sociais, física e tantas outras. Ou seja, os princípios filosóficos de Paulo Freire dão sustentação aos processos interventivos para diversas profissões, o que significa que disputamos este projeto de educação cotidianamente, no chão da escola, do bairro, do posto de saúde, na mídia, na construção de espaços arquitetônicos e na vida pública em geral. Conforme o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), aprovado em 2006, a educação em direitos humanos é compreendida como um processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos, articulando as seguintes dimensões: 39 40 atividade política organizativa, de socialização das angústias do cotidiano e de construir agendas coletivas para impulsionar a educação a um patamar de qualidade que assegure aos(às) educandos(as) o direito de aprender e ensinar no processo pedagógico. A gramática dos direitos humanos é pouco discutida entre os trabalhadores da Educação, como também pouco trabalhada em sala de aula e na sociedade. Por isso, a necessidade de criação de espaços fomentadores de educação em direitos humanos, bem como a ampliação de formação em direitos humanos nos centros de formação dos trabalhadores(as) para o diálogo com as diferentes áreas do conhecimento. Para promover a educação em direitos humanos, o Ministério da Educação aprovou, em 30 de maio de 2012, as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos para as instituições da Educação Básica e Ensino Superior. Um dos principais objetivos da defesa dos Direitos Humanos é a construção de sociedades que valorizem e desenvolvam condições para a garantia da dignidade humana. Nesse marco legal, o objetivo da educação em direitos humanos (EDH) é que a pessoa e/ou grupo social se reconheça como sujeito de direitos e seja capaz de exercê-los e promovê-los ao mesmo tempo em que identifique e respeite os direitos do outro. A EDH busca, também, desenvolver a sensibilidade ética nas relações interpessoais. (MEC/CNE, 2012). Este conjunto de planos, leis e diretrizes são instrumentos que orientam uma nova perspectiva de educação. Os princípios filosóficos de Paulo Freire são alicerces que fundamentam a educação em direitos humanos. CAPA Finalizo com o poema Canção Óbvia, escrito por Paulo Freire , em Genebra, durante exílio, no período da ditadura militar brasileira, para afirmamos que a mudança é possível – mesmo em contextos totalmente adversos. Referências bibliográficas FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. 41. ed. São Paulo: Cortez, 2001. ____________. Ação Cultural para a Liberdade. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. ____________. Educação como Prática da Liberdade. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1983. ____________. Pedagogia da Autonomia. Sa- Escolhi a sombra desta árvore para repousar do muito que farei, enquanto esperarei por ti. Quem espera na pura espera vive um tempo de espera vã. Por isto, enquanto te espero trabalharei os campos e conversarei com os homens. Suarei meu corpo, que o sol queimará; minhas mãos ficarão calejadas; meus pés aprenderão o mistério dos caminhos; meus ouvidos ouvirão mais, meus olhos verão o que antes não viam, enquanto esperarei por ti. Não te esperarei na pura espera porque o meu tempo de espera é um tempo de quefazer. Desconfiarei daqueles que virão dizer-me, em voz baixa e precavidos: É perigoso agir É perigoso falar É perigoso andar É perigoso, esperar, na forma em que esperas, porquê êsses recusam a alegria de tua chegada. Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me, com palavras fáceis, que já chegaste, porque êsses, ao anunciar-te ingenuamente , antes te denunciam. Estarei preparando a tua chegada como o jardineiro prepara o jardim para a rosa que se abrirá na primavera. (Paulo Freire, Genève, março de 1971). beres Necessários à Prática Pedagógica . 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997. ____________. Pedagogia da Esperança. 1 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992. ____________. Pedagogia do Oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Plano nacional de educação em direitos humanos. Brasília, DF: MEC/SEDH, 2009. COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histó- Paulo Freire e a educação socioambiental Por Sheila Ceccon rica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 1999. PINI, Francisca Rodrigues de Oliveira; MORAES, Célio Vanderlei (Orgs.). Educação, Participação Política e Direitos Humanos. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2011. SCLILLING. Flávia. Direitos Humanos e Educação. São Paulo: Cortez, 2005. VIOLA, Solon. Políticas de educação em direitos humanos. In: SILVA, Aida Maria Monteiro; TAVARES, Celma. Políticas e fundamentos da educação em direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2010. p. 15-40. Francisca Pini é Assistente Social, mestre e doutora. Coordenadora licenciada do Curso de Serviço Social da Faculdade de Mauá. Diretora Pedagógica do Instituto Paulo Freire. Vice-presidente da ABEPSS Regional Sul II, Gestão 2011-2012. E-mail: [email protected] www.paulofreire.org evisitar a obra de Paulo Freire sob a perspectiva da sustentabilidade é um exercício instigante, que possibilita tecer novos olhares sobre determinados textos, desvelando sentidos cuja atualidade impressiona. Compreendo educação socioambiental como aquela que forma sujeitos comprometidos com a valorização da vida, em todas as suas formas, que respeitam a si mesmos, aos outros e ao mundo. Sujeitos cujas práticas diárias são intencionais, impregnadas de sentido. Percebem a inter-relação existente entre as atitudes individuais e os impactos socioambientais locais, regionais e planetários. Cidadãos que não se contentam em agir individualmente de forma responsável, mas ocupam os espaços de participação social buscando contribuir para a transformação de atitudes de tantos outros sujeitos. Homens e mulheres que exercem ativamente suas cidadanias, acreditando na possibilidade de transformar a realidade, tornando-a mais justa e mais feliz. A importância da formação desses sujeitos, que se posicionam frente à realidade, não se deixando enredar pela massificação de comportamentos tão comum em nossa sociedade, que nos faz abrir mão do direito a decidir o que queremos ser ou fazer, foi explicitada por Paulo Freire já na década de 1960, em seu livro Educação como Prática da Liberdade. Nele, Freire dizia que uma das grandes, se não a maior, tragédia do homem moderno, está em que é hoje dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez mais, sem o saber, à sua capacidade de decidir. (FREIRE, 1967 p. 51) Quase quatro décadas depois, seguimos esgotando elementos da natureza e contribuindo para o aviltamento das relações trabalhistas por meio da competição acirrada Direcional Educador, Maio 13 Direcional Educador, Maio 13 CAPA 41 CAPA 42 entre produtos com origens geográficas das mais variadas, e contextos políticos e socioeconômicos absolutamente diferentes. Consumir é o lema. A obsolescência programada é um fato com o qual convivemos passivamente, ou seja, produtos têm sua vida útil intencionalmente curta, para que novos modelos sejam adquiridos. Como resultado, temos o esgotamento de recursos naturais sendo acelerado, solos, água e ar sendo contaminados mais rapidamente, depósitos de rejeitos se multiplicam, uma grande parcela da população se endivida e, em contrapartida, uma minoria torna-se cada vez mais rica. Temos renunciado à nossa capacidade de decidir, embalados pela força dos mitos e comandados pela publicidade organizada, sem que nos perguntemos a favor de que e de quem estão esses valores. Temos nos deixado “expulsar da órbita das decisões”, como escreveu Paulo Freire no mesmo livro. Segundo ele, “as tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma elite que as interpreta e lhas entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. E quando julga que se salva seguindo prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e sem fé, domesticado e acomodado: já não é sujeito”. (FREIRE, 1967 p. 51) Problematizar a realidade buscando compreendê-la, posicionar-se em relação a ela e repensar valores e atitudes, é uma ação educativa de fundamental importância, dentro e fora do ambiente escolar. É uma prática que forma “sujeitos”. Não é possível ensinar por ensinar, como se o mundo fosse algo distante dos conteúdos previstos nas disciplinas, alheio ao conhecimento encontrado nos livros. Compreender a realidade e construir possibilidades de nela intervir, torna vivo o conhecimento escolar e mobiliza, engaja, constrói o hábito de buscar construir novas realidades frente aos desafios encontrados. Na década de 1970, em seu livro Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire escreveu que quanto mais os educandos problematizam a realidade, como seres no mundo e com o mundo, tanto mais se sentem desafiados. E quanto mais desafiados, mais se sentem obrigados a responder ao desafio. Afirma que “desafiados, compreendem o desafio na própria ação de captá-lo. Mas, precisamente porque captam o desafio como um problema em suas conexões com outros, num plano de totalidade e não como algo petrificado, a compreensão resultante tende a tornar-se crescentemente crítica, por isto, cada vez mais desalienada.” (FREIRE, 1970, pg. 70) Formar sujeitos comprometidos com a preservação da vida, que percebem a humanidade como uma grande família integrada ao planeta Terra e sentem-se responsáveis por agir no sentido de tornar o mundo um lugar melhor, não é algo simples, possível de ser conquistado seguindo o “passo a passo” de livros elaborados sem que as especificidades de territórios e comunidades sejam consideradas. É preciso ler o mundo mais próximo, identificar potencialidades e desafios, compreendê-los e, em uma estreita relação entre escola e vida, livros e mundo, construir coletivamente possibilidades de intervenção. Segundo Freire, a educação como prática da liberdade, ao contrário daquela que é prática da dominação, implica a negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado do mundo, assim como também a negação do mundo como uma realidade ausente de homens. A reflexão que esta educação propõe é sobre os homens e sua relação com o mundo. (FREIRE, 1970, pg. 70) Na década de 1980, em seu livro A importância do ato de ler, Freire descreve sua relação com o quintal da casa em que morava, seu mundo imediato, cheio de cores, cheiros, poesia e desafios. A reflexão que faz sobre a densidade da relação existente entre o menino e seu mundo, é, sem dúvida, um sonho para todos/as os/as educadores/as ambientais. Provocar o desligamento do “piloto automático” em que vivemos e aguçar a percepção em relação à vida e às coisas que nos envolvem cotidianamente é um dos grandes objetivos da educação socioambiental e em especial da ecopedagogia. Nessa publicação, Freire descreve a casa em que nasceu, no Recife, “rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós - à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores”. (FREIRE, 1989) Conta que os “textos”, as “palavras” e as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros - o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; as águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Segundo ele, os “textos”, as “palavras” e as “letras” daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores - das rosas, dos jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada; o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. (FREIRE, 1989) Ao descrever o quintal onde morava desvela uma profunda relação com a terra, com plantas e animais, uma profunda integração à natureza. Percebe, sente, observa, toca. Vive, intensamente, sua relação com o mundo. Com o seu mundo imediato de menino. Que por ser tão sensivelmente percebido e vivido, torna-se imenso, intenso, emocionante. Mas o seu mundo de menino não era só feito de terra, plantas, bichos, vento e cores. No mesmo texto ele fala também das pessoas que dele compartilhavam. “Daquele contexto - o do meu mundo imediato - fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores”. (FREIRE, 1989, p.10) Fala das pessoas a partir do que sentiam e acreditavam. Essa forte relação com o mundo e com a humanidade, esse sentimento de pertencimento e de responsabilidade, é a base da educação socioambiental. Freire não só teorizava, vivia. Enquanto menino, vivia intensamente a relação com seu quintal e tudo o que nele existia. Quando adulto, fez história ampliando seu universo de ação. Por meio da educação, contribuiu com a construção de autonomia e formação política dos “excluídos” de diferentes países. Sensibilidade e engajamento, percepção do mundo e compromisso em transformá-lo. Características marcantes do legado freiriano e aspectos fundamentais da educação socioambiental. A sensibilidade de Paulo Freire em relação à vida de diferentes espécies foi relatada recentemente por seu filho caçula, Lutgardes Costa Freire. Ele relembrou o carinho do pai por animais, o encantamento quando foi para a Amazônia e visitou comunidades indígenas, a satisfação quando conseguiu parar de fumar e passou a sentir-se mais coerente com o que escrevia. “Eu não sei como eu podia dizer e escrever tudo isso e fumar ao mesmo tempo!”, dizia Paulo Freire. Escritos que promoviam a libertação não eram condizentes com algo que aprisiona o poder de decidir e compromete a vida. A educação socioambiental tem como característica maior a promoção da vida. Não é uma educação que incentiva a contemplação, mas, ao contrário, que promove o engajamento, a ação política em defesa da vida e de seus direitos. As injustiças sociais e os crimes ambientais praticados recorrentemente não podem ser motivo de desânimo, mas de desafio. Desafiados devemos seguir, juntos/as, construindo estratégias para transformar a realidade. Nesse sentido, especialmente nós, educadores e educadoras, temos um importante papel. Na década de 1990, no livro Pedagogia da Autonomia, Freire escreveu que não é possível existir sem assumir o direito e o dever de optar, de decidir, de lutar, de fazer política. Segundo ele isso nos remete à imperiosidade da prática formadora, de natureza eminentemente ética. Leva-nos à radicalidade da esperança. Afirma que a realidade não é inexoravelmente essa. Está sendo essa, mas poderia ser outra e é para que seja outra que precisamos, os progressistas, lutar. (FREIRE, 1996) Existem muitas lutas pela frente no campo da educação. Em livro, publicado após a sua morte, Freire faz um apelo com o qual concluo esse artigo: Urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas. Não creio na amorosidade entre homens e mulheres, se não nos tornamos capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância fundamental neste fim de século. Ela tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou libertador. (FREIRE, 2000, p 67) Que possamos, juntos/as, construir e socializar processos educativos que efetivamente tornem o mundo mais próximo do que sonhamos. Referências bibliográficas FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 14 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. ____________Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. ___________A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 37. ed. São Paulo: Cortez, 1999. ___________Pedagogia do Oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro: Petrópolis/Paz e Terra, 1987. ___________Pedagogia da Indignação: Cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000. GADOTTI, Moacir. Educar para a Sustentabilidade. São Paulo: EdL, 2008. Sheila Ceccon é engenheira a g r ô n o m a , especialista em Horticultura pela Universidade de Pisa-Itália, mestre em Ensino e História de Ciências da Terra, pelo Instituto de Geociências da UNICAMP. Atua na área de meio ambiente e educação. No Instituto Paulo Freire, coordena a Casa da Cidadania Planetária, instituição responsável por diferentes projetos na área de educação socioambiental, entre eles o Programa Educação para Cidadania Planetária e o Programa Município que Educa. É autora de Educação Ambiental Crítica e a Prática de Projetos (2012), pela Editora e Livraria Paulo Freire. E-mail: [email protected] www.paulofreire.org Direcional Educador, Maio 13 Direcional Educador, Maio 13 CAPA 43 CAPA Por Anderson Fernandes de Alencar e Sonia Couto Feitosa Direcional Educador, Maio 13 experiência de alfabetização realizada em Angicos não foi apenas revolucionária por ter alfabetizado politicamente e funcionalmente em 40 horas. Naquele contexto, ela foi inovadora, pela técnica de alfabetização utilizada e pelo uso de tecnologia da comunicação na educação. Paulo Freire, que coordenou as atividades em Angicos, enquanto diretor do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife (SEC), ousou trabalhar com tecnologias inovadoras no processo educacional. Essas vivências de Freire certamente definiram a forma como veio a enxergar a tecnologia nos tempos vindouros, seja como uma das “grandes expressões da criatividade humana” (Freire, 1975, p. 98) ou “a expressão natural do processo criador em que os seres humanos se engajam no momento em que forjam o seu primeiro instrumento com que melhor transformam o mundo” (Freire, 1975, p. 98). O educador entende que a tecnologia faz “parte do natural desenvolvimento dos seres humanos” (Freire, 1975, p. 98), e é elemento para a afirmação de uma sociedade (Freire, 1993, p. 53). E avança: “o avanço da ciência e da tecnologia não é tarefa de demônios, mas sim a expressão da criatividade humana” (Freire, 1984, p. 1). Nos tópicos a seguir, apresentaremos elementos para a reflexão sobre a leitura de Paulo Freire acerca da tecnologia e do seu uso, a técnica inovadora de alfabetização e a de tecnologia da comunicação na educação. 44 Paulo Freire e os projetores de slides No episódio de Angicos, Paulo Freire foi pioneiro no que se refere ao uso de tecnologias da informação e comunicação em processos educacionais. Em 1963, o educador inaugura a experiência utilizando-se de um projetor de slides, importado da Polônia, que custava, naquela época Cr$ 7.800,00, o equivalente, sem correções, a R$ 15,74, e o filme, Cr$ 4.000,00, equivalente a R$ 8,07, operando em 220, 110 e 6 volts (Freire, Educação e Mudança, p. 112); até projetor de querosene veio a ser utilizado, onde não havia eletricidade. Um valor inimaginável para um equipamento desta natureza. Utilizando-se destes projetores, os alfabetizadores apresentavam as codificações (conversão da situação existencial em desenhos, slides, etc.) que viria a subsidiar a problematização da realidade e a alfabetização em si. Luiz Lobo, em matéria produzida para o Jornal Tribuna do Norte, de Natal, dia 17 fevereiro de 1963, faz um relato sobre o uso dos projetores, no texto “A hora e a vez de Angicos”, que reproduzimos a seguir: EM ANGICOS a noite é uma beleza. Já era, sempre foi. Mas agora a noite em Angicos está muito mais bonita. Os projetores de slides iluminam a parede da casa pobre. - Belota, salina, voto, povo, sa, se, si, só, su, la, le, li, lo, lu, na, ne, ni, no, nu, tá, te, ti, to, tu, va, ve, vi, vo, vu. Viva. Onde não há eletricidade, projetor de querosene. O Carlos inventou um, com uma lâmpada cheia d'água e uma caixa de sapatos” […] Eles aprendem muito mais depressa com a palavra projetada no escuro do que escrevendo no quadro. A partir do êxito da experiência de Angicos, em 21 de janeiro de 1964, institui-se pelo Decreto 53.465 o Programa Nacional de Alfabetização. Segundo Moacir Gadotti (2013), “o programa previa a criação de 60.870 círculos de cultura, cada um com a duração de três meses, em todas as unidades da federação”. Nesta altura, o Ministério da Educação importou 35 mil projetores para utilização nos círculos de cultura. Paulo Freire, segundo explica em seu livro Educação e Mudança, chegou a preparar formadores em quase todas as capitais brasileiras, chegando ao número de mais de 20 mil círculos de cultura, e ensaia, em contato com D. José Távora, bispo de Aracaju, utilizar o rádio no processo de alfabetização. Contudo, após o golpe militar em 1º de abril de 1964, uma das primeiras ações da ditadura tratou da extinção, em 14 de abril, do Programa Nacional de Alfabetização. Freire afirma que, depois da “revolução”, os projetores foram apresentados em programas de TV, como altamente “subversivos”. Paulo Freire e o Sistema Paulo Freire No contexto da experiência de Angicos, a utilização do Sistema Paulo Freire (ou Método Paulo Freire, como é conhecido) foi um divisor de águas na Educação de Adultos, pois marcou a ruptura do paradigma compensatório e possibilitou uma compreensão da EJA que a caracteriza, politicamente, como campo de direitos e, metodologicamente, como modalidade com especificidades. Paulo Freire ressignificou conceitos, criou categorias e consolidou uma nova visão da Educação, em especial a Educação de Jovens e Adultos. As inovações metodológicas no contexto da experiência de alfabetização realizada em Angicos foram muitas, destacamos duas que ilustram o ineditismo do educador: 1 - Concepção de sala de aula - Freire criou e trabalhou o conceito e a metodologia do Círculo de Cultura. Segundo o educador, não se consegue um espaço criativo, de liberdade e alegria com salas de aula em que alunos não se olham, em que o educador ou educadora fica à frente da sala, muitas vezes, em um patamar mais alto para que possa olhar seus alunos de cima. Nele, a organização do espaço é determinante para a promoção da interação, da conectividade entre os participantes e da horizontalidade nas relações. A disposição espacial deve promover o debate e o trabalho coletivo. Mas não basta mudar a posição das carteiras. É preciso mudar a concepção de aula. 2 - Concepção metodológica – A metodologia freiriana parte dos seguintes momentos: Investigação temática – Pesquisa sociológica: trata-se da investigação do universo vocabular e estudo dos modos de vida na localidade (estudo da realidade); Tematização – Seleção dos temas geradores e das palavras geradoras. “Tematizar” é transformar o observado em temas, para que se possa estudar, minuciosamente, seus componentes; Problematização – Busca da superação da primeira visão ingênua por uma visão crítica. Esta visão crítica objetivava transformar o contexto vivido. A abordagem metodológica privilegiava, como elemento presente em todos os momentos e fases do Sistema Paulo Freire, a Leitura do Mundo como instrumento de análise crítica da realidade. Por tudo isso, podemos dizer que o Sistema Paulo Freire foi inovador, pois agregou a dimensão política ao ato educativo, possibilitando a construção de um novo paradigma educacional, que, passados 50 anos, permanece até os dias atuais. Considerações finais A experiência de Angicos foi um marco, não somente por evidenciar a politicidade do ato educativo, mas pelas inovações técnicas e tecnológicas, que hoje entendemos por tecnologias sociais. O uso dos projetores de slides, e do que veio a ser conhecido por método Paulo Freire, reforçou ainda mais o caráter inédito do processo, nas mais diversas dimensões. Freire, depois do experimento de Angicos e do PNA, tornou a tecnologia uma presença recorrente em sua vida, em sua prática pedagógica e no discurso, recomendando o uso criterioso, ético e crítico. Ele, apesar de nunca ter usado pessoalmente um computador, mesmo possuindo um, utilizou-se do rádio, da televisão, do gravador de voz, do videocassete e do fax para comunicar-se, e para compartilhar o seu pensamento com o mundo. A própria impressão dos livros demandou o uso de tecnologias disponíveis na época. Freire conclui: “hoje, com a tecnologia de que dispomos, fico a pensar no que poderíamos ter feito com o fax, com o vídeo e com os computadores no aprofundamento do conhecimento mútuo dos clubes e dos núcleos sociais, no ritmo de incrível rapidez com que se distribuiriam as informações, nas possibilidades de pesquisa, no esforço formador” (Freire, 1994, p. 139). Referências bibliográficas ALENCAR, Anderson Fernandes de. A pedagogia da migração do software proprietário para o livre: uma perspectiva freiriana. Disponível em: <http:// www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/ tde-08112007-150130/pt-br.php>. Acesso em: 11 Mar. 2013. FEITOSA, Sonia Couto Souza. Método Paulo Freire: a reinvenção de um legado. Brasília: Liber Livro Editora, 2008. FREIRE, Paulo. A máquina está a serviço de quem? Revista BITS, [S.l.], p. 6, maio 1984. FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Buenos Aires: Tierra Nueva, 1975. FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. FREIRE, Paulo. Política e Educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 1993. GADOTTI, Moacir. Cronologia da experiência de Angicos. Disponível em: <http://angicos50anos. paulofreire.org/cronologia>. Acesso em: 11 mar. 2013. LOBO, Luiz. A hora e a vez de Angicos. Tribuna do Norte, Natal, 17 fev. 1963. Anderson Alencar é graduado em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba, possui mestrado em Educação, pela Universidade de São Paulo, e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. Coordenou, durante cinco anos (2005-2010), o setor de Tecnologia da Informação do Instituto Paulo Freire (IPF) e, atualmente (20112013), coordena a Universitas Paulo Freire (UniFreire), entidade mantida pelo IPF e o Projeto “Paulo Freire Memória e Presença: preservação e democratização do acesso ao patrimônio cultural brasileiro”. E-mail: [email protected] Sonia Couto Souza Feitosa é mestre e doutora em Educação, pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). É autora de Método Paulo Freire, a reinvenção de um legado Brasília (Liber livros, 2008) e de livros didáticos para Educação de Jovens e Adultos (EJA) na perspectiva freiriana. Coordena o Centro de Referência Paulo Freire (CRPF), entidade mantida pelo Instituto Paulo Freire (IPF), que tem como missão socializar e dar continuidade ao legado de Paulo Freire. E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire CAPA 45 Direcional Educador, Maio 13 Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire Por Olgair Gomes Garcia 46 a teoria de educação de Paulo Freire, a comunicação com o outro através do diálogo é uma questão fundamental já que o outro é que nos constitui como sujeitos. No entanto, o diálogo só é verdadeiro se considero este outro como alguém com quem posso compartilhar igualmente a fala, o saber e o não saber, a dúvida, o questionamento, a discordância, o sentimento. Pode-se dizer então que a condição de igualdade no modo de ser sujeito, ao mesmo tempo que se constitui num requisito essencial para se viver uma relação dialógica, em se tratando da relação com as crianças no processo educacional, representa, sem dúvida, um foco de grande dificuldade e, muitas vezes, de oportunidade para a prática do silenciamento do outro, da opressão. O garotinho Bernardo, no livro Agora não, Bernardo (Mckee, 2010), tenta de várias formas se comunicar com a mãe e o que ouve todas as vezes é exatamente, “agora não, Bernardo”. Ao final da trama, de tanto não ser ouvido, Bernardo é co- mido pelo monstro e vira monstro. Uma história simples mas eficiente para ilustrar as consequências da falta de disponibilidade do adulto para ouvir as crianças, para conversar com elas sobre os assuntos aparentemente banais que querem trazer para a comunicação, para ouvir com atenção as perguntas aparentemente “bobas” que elas insistem em dizer e repetir, para não se irritarem com os palpites e intervenções que os inúmeros “Bernardos” estão sempre prontos a por para fora. O não ouvir a criança / o não querer ouvi-la / o fingir ouvi-la, como bem ilustrado no livro em questão, tem sempre alguma consequência no processo de desenvolvimento da criança. Por isso, não adianta se lamentar depois que “virou um monstro” porque, provavelmente, o “monstro” foi sendo alimentado pela incompreensão, pela indiferença, pelo isolamento, pelo abandono, pela falta de interesse em procurar entender porque aquela criança que era tão curiosa, falante, alegre, foi ficando calada, arredia, triste, distante do convívio com os adultos. O resultado Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire Paulo Freire na Educação Infantil: uma reflexão a partir de alguns personagens da literatura infantil da opressão de que nos fala Paulo Freire se apresenta sempre de diferentes formas e matizes e o oprimido não age e reage como se fosse um mero objeto nas mãos do opressor. O oprimido é um sujeito que está sendo subjugado mas não é passivo eternamente, um dia vai explodir de alguma forma, destrutiva ou libertadora. A comunicação através do diálogo, com e pelo diálogo, resgata para a educação a esperança de que é possível, como adultos, termos uma ação mais significativa na formação de nossas crianças já que, segundo Paulo Freire (1983), “o diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o ‘pronunciam’, isto é, o transformam e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos”. O diálogo é uma conquista, é uma aprendizagem e, para tanto, requer do adulto - pai, mãe, professor, professora, adultos em geral - humildade, simplicidade, respeito, escuta atenta, transparência, confiança, paciência, tolerância, criticidade, seriedade, rigorosidade (FREIRE, 1997). Um ambiente dialógico exige, de qualquer educador ou educadora, a criação e uso de situações e materiais que desafiem os sujeitos a buscar, a se sentirem curiosos, a renovarem o desejo de ver, de expressarem o que pensam, de aprenderem com a própria fala e a fala dos outros, de ouvirem e valorizarem as falas dos outros, de inventarem, de serem mais; de ousarem pensar e discutir sobre o que ainda não é prática mas pode ser. Um ambiente dialógico deixa os sujeitos inquietos, em permanente busca de si mesmos na relação com o outro. Glorinha, personagem central do livro Curiosidade Premiada (ALMEIDA, 2011), movida pelo desejo de aprender, faz da curiosidade o seu instrumento principal para provocar a comunicação, o diálogo com as pessoas a seu redor. E todos os que convivem com as crianças sabem e conhecem muito bem o quanto muitas vezes os pequenos se tornam até irritantes com os “por quês?” que nunca terminam. O segredo para uma comunicação eficiente e para a descoberta de formas de intervenção adequadas para ajudar a criança no seu processo de desenvolvimento bem pode ser a sensibilidade e a perspicácia de um educador ou educadora igualmente curiosos. Neste sentido, aprender a ouvir o que as crianças dizem e perguntam, podem se constituir numa verdadeira arte para desocultar e ressignificar os saberes e práticas constitutivos da vida cotidiana. Isto porque, o exercício da curiosidade, por parte de educandos e educadores, é um movimento processual. Segundo Paulo Freire (1995), “a curiosidade é uma espécie de abertura à compreensão do que se acha na órbita da sensibilidade do ser desafiado. Essa disposição do ser humano de espantar-se diante das pessoas, do que elas fazem, dizem, parecem, diante dos fatos e fenômenos, da boniteza e feiúra, esta incontida necessidade de compreender para explicar, de buscar a razão de ser dos fatos”. Acompanhando o movimento de Glorinha, na trama criada pela autora, no livro já mencionado, percebe-se nitidamente como, no movimento de perguntar continuamente, as perguntas vão diminuindo em quantidade mas aumentando em complexidade, isto porque, no processo, o exercício de perguntar por perguntar é uma manifestação espontânea, ingênua. Na medida em que, em muitas dessas questões o sujeito percebe que, pela aprendizagem de algumas respostas feitas anteriormente, pode responder por si mesmo via pensamento, reflexão, suas perguntas dirigidas a um interlocutor externo vão se tornando mais concisas e carregadas já de uma certa depuração em função da apropriação da criticidade. “Na cotidianeidade, nossa curiosidade é desarmada, espontânea, sem rigorosidade metódica... É preciso que minha curiosidade se faça epistemológica e o contexto apropriado para o exercício da curiosidade epistemológica é o teórico. Mas o que torna teórico um contexto não é seu espaço e sim a postura da mente. Daí que possamos converter um momento do contexto concreto em momento teórico.” (FREIRE, 1995) E é o que nos mostra Glorinha que antes não deixava a cozinheira em paz com tantas perguntas mas, com o tempo, as coisas mudam e a cozinheira diz, ‘olha, ela já sabe fazer feijão’. Uma questão que paira no ar e permanece quase sempre sem uma resposta satisfatória na prática, diz respeito justamente ao que está sendo exposto neste texto, ou seja, as crianças pequenas, ao virem para a escola, vêm carregadas de curiosidade e movidas por um desejo enorme de aprender e conhecer. Mas, logo, logo, isso vai cedendo lugar ao desinteresse e apatia, à manifestação de atitudes que não combinam muito bem com o que se espera de um estudante nas séries mais avançadas da vida escolar. Por quê? O que aconteceu? Quem é o sujeito da educação escolar? A trajetória de Bernardo e Glorinha nos dão algumas pistas interessantes e tanto um como o outro colocam como cenário para reflexão e análise a questão conflituosa e, por vezes abafada ou camuflada, da relação criança e adulto. O livro O que é uma criança? (ALEMAGNA, 2010), começa assim: “uma criança é uma pessoa pequena. Ela só é pequena por pouco tempo, depois se torna grande. Cresce sem perceber. Devagarinho e em silêncio, seu corpo encomprida. Uma criança não é pequena para sempre. Ela se transforma.” Ou seja, a criança muda e se transforma, não por um desejo do adulto, mas por uma necessidade e uma força que jorram de dentro dela mesma e que por ser forte / pungente / incontrolável / rápida / exuberante / carregada de surpresas / espontânea / livre / desordenada mas sensí- Direcional Educador, Maio 13 CAPA CAPA 47 CAPA nas, ao virem para a escola, vêm carregadas de curiosidade e movidas por um desejo enorme de aprender e conhecer. Mas, logo, logo, isso vai cedendo lugar ao desinte- Direcional Educador, Maio 13 resse e apatia.” 48 mas corremos o risco de não garantir um encaminhamento correto a uma situação. Ou seja, o sim subjetivo não é verdadeiro e pode levar a consequências indesejáveis no relacionamento interpessoal seja com as crianças seja com os adultos. É sempre mais salutar, especialmente em se tratando de crianças, que o não enérgico, dito com firmeza pelo educador ou educadora refere-se à não aceitação da ação indesejada e não tem nada a ver pessoalmente com a criança, com a relação afetiva do professor ou professora com ela. O não foi dito com todas as letras, mas já foi resolvido e o momento agora é outro, a atividade é outra, sem rusgas, caras feias, etc. E esta é uma atitude que qualquer professor ou professora pode experimentar / aprender / aperfeiçoar no exercício de se constituir autoridade para seus alunos e alunas: as relações interpessoais não podem misturar os sujeitos e suas ações, não podem carregar os efeitos das situações de mal estar para a continuidade dos trabalhos e querer impor os próprios caprichos; e outra coisa, é o sujeito em processo de formação que não pode ser confundido com o que faz, exatamente porque está em processo de aprendizagem e formação. Como nos ensina Paulo Freire (1997) “minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também”, de quem luta para aprender a ser gente com os outros. Neste sentido, “uma das tarefas pe- dagógicas dos educadores é deixar óbvio aos educandos que sua participação no processo de tomada de decisão deles, não é uma intromissão, mas um dever até, desde que não pretendam assumir a missão de decidir por eles mesmos. A participação dos educadores deve se dar sobretudo na análise, com os educandos, das consequências possíveis da decisão a ser tomada... A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões que vão sendo tomadas.” (FREIRE, 1997) - Querida, imagine como eu estou mal da vista: estou vendo uma chuva de todas as cores. Clara Luz riu: - Sua vista é ótima, mamãe. Está chovendo colorido mesmo. Fui eu que fiz. - Clara Luz! Você coloriu a chuva? - Colorí . - Mas com ordem de quem? - De ninguém mamãe. Para colorir chuva não precisa ordem, não. Basta a gente ter ideia. - Mas menina, quem manda aqui no céu não é você, é a Rainha. - Eu sei mamãe, então não sei disso? Mas por que a Rainha iria ser contra uma chuva tão bonita? Só se ela for muito boba. (ALMEIDA, 1981) A análise de que nos fala Paulo Freire se ajusta bem ao exemplo da situação vivida por Clara Luz e sua mãe. Ou seja, repreender ou castigar não surte efeito se o que se pretende é que a criança aprenda que não pode fazer tudo o que quer e nem pode decidir tudo sozinha porque o resultado “é bonito”. Os limites de contenção normalmente são os mais utilizados, no entanto, com as crianças pequenas é muito bom fazer uso do limite da excelência, ou seja, trabalhar com as crianças no sentido de que percebam que podem ter uma ação melhor porque são capazes disso. Para isso, a análise da situação inadequada, com a criança, apontando para uma ação melhor vai lhe fornecer elementos para refletir e gradativamente compreender que a autonomia se constrói na relação com os outros, se respeitando mutuamente. Mas Clara Luz, na trama do livro A fada que tinha ideias (ALMEIDA, 1981), viva e entusiasmada, continua aprendendo e “aprontando” alguns probleminhas para sua mãe, porém a admiração pela mãe cresce a cada dia porque encontra na figura materna a firmeza para que corrija suas ações mas, também, encontra nela a atenção e apoio que precisa para sair de algumas situações desastradas. Até que um dia é apresentada à professora de Horizontologia e, tão logo vai começar a aula, imediatamente ela intervém e diz à professora que para aprender sobre “os horizontes” elas tinham que ir até lá e não ficar sentadas naquela sala. A professora reluta ante a ideia mas ao final fica convencida e partem para os “horizontes” que Clara Luz continuava contestando a professora afirmando que eram vários. Entusiasmada com a aula no horizonte, à certa altura, enquanto que Clara Luz só conseguia vislumbrar alguns horizontes, a professora viu vários. E Clara Luz não deixou de dar a grande lição para a professora: “então a senhora é formidável em horizontologia. Eu só estou vendo sete.” (ALMEIDA, 1981) A disposição para aprender tem que ser sempre do educador ou educadora e dos educandos, “daí que seja tão fundamental conhecer o conhecimento existente quanto saber que estamos abertos e aptos à produção do conhecimento não existente... Como professor crítico, preciso ser um aventureiro responsável, predisposto à mudança, à aceitação do diferente.” (FREIRE, 1997) Ou seja, especialmente com as crianças que estão vindo pela primeira vez à escola é impossível, e mesmo uma heresia pedagógica, traçar de antemão um plano de ensino organizado em torno de conteúdos definidos pelos adultos para ser desenvolvido e cumprido num determinado prazo e querer impô-lo às crianças. A entrada na escola, para a quase totalidade das crianças, é um momento de grande expectativa porque traz embutida nela a vontade de aprender, um desejo muito grande de ir até “os horizontes”. E a escola equivocadamente emoldurada pela cultura do “adultocentrismo” (FERREIRA, 2008), libertando-se para efetivar no centro da tarefa educativa a criança como sujeito do processo educacional, não pode perder a grande oportunidade “A entrada na escola, para a quase totalidade das crianças, é um momento de grande expectativa porque traz embutida nela a vontade de aprender.” Direcional Educador, Maio 13 “As crianças peque- vel, mexe e desequilibra o adulto em suas certezas e convicções. Especialmente em relação às crianças pequenas, os adultos, educadores e educadoras, pelo fato de acumularem, às vezes, bastante experiência no trabalho escolar com crianças na faixa da Educação Infantil, têm uma forte tendência em olhar todas como se fossem iguais ou pelo menos muito semelhantes umas com as outras em seus gestos, maneiras de ser e se relacionar com os outros, nas fases do crescimento, desenvolvimento intelectual, interesses, manifestações emocionais e por isso é tão corriqueiro que se ouça a frase “as crianças são todas iguais”. Se por um lado, ter experiência com crianças tenha também o seu aspecto positivo, por outro lado, a confiança excessiva em relação ao acúmulo de conhecimento sobre as crianças é, de certa forma, uma confiança enganosa e fonte de muitos equívocos na relação com as crianças em geral, pois, provoca uma certa cegueira. “As crianças têm mãos pequenas, pés pequenos e orelhas pequenas, mas nem por isso têm ideias pequenas” (ALEMAGNA, 2010) e, na vida cotidiana, a todo o momento nos surpreendem com suas ideias grandes, com suas intervenções e perguntas inusitadas, com suas desobediências e explosão de braveza, como a dizer aos adultos “acordem, escutem, olhem, você estão parados no tempo”. Quando muitos dizem, “não é fácil lidar com as crianças pequenas, é preciso ter muita paciência porque são muito teimosas, briguentas, egoístas, agitadas, falantes, bagunceiras...”, a questão crucial que se coloca é: como não ser autoritário, bravo, firme e rígido e tratá-las com respeito e carinho sem que com isso o educador ou educadora se transforme num boneco nas mãos delas? Talvez a questão mais difícil seja esta mesma, como um adulto se constitui autoridade para as crianças? Contardo Calligaris, num artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo (2009), intitulado A dificuldade de dizer não (ou sim), coloca de forma muito clara o grande dilema vivido por todos nós na relação de uns com os outros: com o não arriscamos a perder a estima do outro; com o sim, garantimos o afeto Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire CAPA 49 GESTÃO DA APRENDIZAGEM NA SALA DE AULA CAPA O SIGNIFICADO DE NECESSIDADES EDUCACIONAIS NO CONTEXTO DA ESCOLA E DA SALA DE AULA 50 de um trabalho sério e criativo com todas as crianças, focado principalmente no desenvolvimento e formação de atitudes e habilidades que irão se constituir nos fundamentos sólidos de uma postura de estudante, base imprescindível para um desenvolvimento satisfatório e prazeroso para o prosseguimento dos estudos em outros níveis de escolaridade. E, no movimento da Educação Infantil em busca de sua identidade, o que se tem observado atualmente é o grande número de crianças que saem das escolas de Educação Infantil lendo e muito interessadas pela leitura. E muitas dessas crianças têm se apropriado da leitura não porque a escola propiciou isso diretamente. A apropriação da leitura, como mostra um grande número de relatos, se deu exatamente porque o trabalho da escola em geral, criando um ambiente rico e versátil, enfocando um rol imenso de atividades, indiretamente, criou as bases para o interesse e o desafio de aprender a ler. As atitudes na relação com os outros, no cuidado com o ambiente e os materiais, na aceitação dos desafios para exercitar a curiosidade e a criatividade, as habilidades de observação, de escuta, de expressão plástica, motora e oral, de organização pessoal e tantas outras foram se constituindo no alicerce seguro para a aprendizagem e sistematização do conhecimento em outros níveis de complexidade. Disso de deduz que, como no livro A Bolinha Curiosa (Garcia,1983) a experiência vivida por muitas crianças em algumas escolas de Educação Infantil tem feito com que, ao saírem para uma outra escola, não conseguem mais permanecer num “cami- nho estreito e curto”. E isto não porque cresceram, mas fundamentalmente porque se tornaram grandes, criativas e diferentes em vários outros aspectos, “prontas para conhecer o mundo”. Por outro lado, certamente por trás dessas crianças estão educadores e educadoras que, de tanto experimentar “sempre o mesmo caminho estreito e curto, sempre as mesmas alegrias poucas, sempre as mesmas tristezas medidas e as mesmas brincadeiras”, ousaram aceitar o desafio de recriar a escola como a Bolinha Curiosa que, “aos poucos entendeu-se e pôs-se a pensar numa nova vida, sem caminhos estreitos e curtos. E imaginou-se vestida com todas as cores. E pensou-se grande e vazia, pronta para conhecer o mundo”. (GARCIA, 1983) Um movimento que, de acordo com Paulo Freire (1986), se explica porque “o educador libertador tem que estar atento para o fato de que a transformação não é só uma questão de métodos e técnicas. Se a educação libertadora fosse somente uma questão de métodos, então o problema seria mudar algumas metodologias tradicionais por outras mais modernas. A questão é o estabelecimento de uma relação diferente com o conhecimento e com a sociedade... A educação libertadora é fundamentalmente uma situação na qual tanto os professores como os alunos devem ser os que aprendem; devem ser os sujeitos cognitivos, apesar de serem diferentes”. Por tudo isso, a questão crucial realmente é efetivar a crença de que a criança é o sujeito da educação e é, sem dúvida, o que faz toda a diferença. Referências bibliográficas ALEMAGNA, Beatrice. O que é uma criança? São Paulo, Martins Fontes, 2010 ALMEIDA, Fernanda L. A curiosidade premiada, São Paulo, Saraiva, 2011 ___________________ A fada que tinha ideias, São Paulo, 1981 FERREIRA, M. Manuela M. “Branco demasiado” ou Reflexões epistemológicas, metodológicas e éticas acerca da pesquisa com crianças. In SARMENTO, M. e GOUVEA, M. Cristina S. (orgs). Estudos da Infância. Petrópolis, Vozes, 2008 FREIRE, Paulo. Medo e Ousadia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986 ____________ Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997 ____________ Professora sim, tia não. São Paulo, Olho D’Água, 1993 GARCIA, Edson Gabriel. A história da Bolinha Curiosa. São Paulo, Loyola, 1983 GONZALEZ REY, Fernando. O sujeito que aprende, in TACCA, M. Carmen V. R. (org.) Aprendizagem e trabalho pedagógico. Campinas, Alínea, 2008 MCKEE, David. Agora, não Bernardo. São Paulo, Martins Fontes, 2010 Olgair Gomes Garcia é Pedagoga, doutora em Psicologia da Educação pela PUC de São Paulo, professora universitária, foi Coordenadora pedagógica da EMEF Mauro Faccio Gonçalves – Zacaria. Tem participado de projetos de formação do educador em redes públicas de ensino. E-mail: [email protected] odo ser humano é fadado ao desenvolvimento, à autoexpressão e inserção no contexto social como condição para expressão e desenvolvimento de sua personalidade. Quanto mais plenamente essas condições se efetivam, mais realizadas e felizes serão as pessoas. As deficiências a esse atendimento resultam em frustrações, inadequações e prejuízos sociais e pessoais e, portanto, em desperdício de seu talento e seu potencial, além de grande sofrimento, com repercussões as mais diversas. No âmbito das escolas, essas condições se expressam por necessidades educacionais que, apesar de sua importância no processo de aprendizagem e formação dos educandos, são muito comumente esquecidas em prol de uma aprendizagem meramente centrada nos elementos cognitivos e aprendizagens formais simplificadas, reduzidas e descontextualizadas. Cabe pois, destacar esta questão, de modo a resgatar no processo educacional uma faceta importantíssima de sua contribuição. Necessidades educacionais correspondem à diferença entre as condições observadas e as condições mais avançadas de desenvolvimento humano decorrentes de aprendizagem e formação. Isto é, correspondem a condições em perspectiva de desenvolvimento e realização face à natureza humana dos alunos, constituída de forma intimamente entrelaçada de processos cognitivos, afetivos e psicomotores e de dimensões psicológicas, sociais e biológicas. A observação dessas dimensões, dessas características e dessa diferença corresponde ao âmbito e desafio da ação educacional promotora da formação e aprendizagem dos alunos. O desconhecimento e a desconsideração desses aspectos no trabalho educacional resultam em se trabalhar de modo aleatório em relação àquilo para que a educação se deva voltar: a formação do aluno. Consequentemente, é imprescindível que em todas as dimensões e áreas do trabalho escolar e do sistema de ensino se tenha clareza sobre essas necessidades, a fim de nortear a definição de políticas educacionais, do projeto político pedagógico da escola e as ações da sala de aula. Pensar em necessidades educacionais representa pensar sob a perspectiva de desenvolvimento humano, assim como em ter como foco principal no processo educacional, o aluno e não o programa de ensino, que é um meio e não um fim. Este deve ser construído e implementado tendo em vista as necessidades de desenvolvimento dos alunos, em vez de as áreas de conhecimento, os programas de ensino, as normas e regulamentos educacionais aos quais os alunos sejam ajustados. O que se pretende em educação não é simplesmente o cumprimento destes aspectos, mas sim, por meio deles, atender as necessidades de desenvolvimento dos alunos. A atenção pelo professor aos alunos como pessoas Toda criança, jovem ou adulto tem necessidades educacionais correspondentes ao estágio de desenvolvimento em que se encontre, bem como aos desafios culturais do seu contexto sócio-econômico-cultural e produtivo, tanto próximo como remoto. Essas necessidades variam, portanto, em decorrência da alteração dos desafios da vivência dessas pessoas, sua história pessoal e familiar e suas expectativas e perspectivas de vida. Em decorrência de condições culturais, contextuais e até mesmo pessoais, essas necessidades variam de pessoa para pessoa, não se podendo proceder o seu atendimento apenas por programas formais produzidos para todos. Não cabe, pois, ao professor, ao preparar uma aula, julgar que todos os alunos serão influenciados da mesma forma, que todos reagirão com o mesmo ímpeto. Ao professor compete estar atento a todos e a cada aluno, durante o desenvolvimento de sua aula, a fim de observar suas reações ou possível inércia, de modo a ajustar sua maneira de interagir com os Direcional Educador, Maio 13 Direcional Educador, Maio 13 Por Heloísa Lück 7 51 GESTÃO DA APRENDIZAGEM NA SALA DE AULA mesmos e indicar a eles a sua importância pessoal e procurar mantê-los atentos e ligados ao processo de aprendizagem. Mediante a compreensão de suas necessidades educacionais básicas e atenção a elas essa atuação será efetiva. Direcional Educador, Maio 13 A natureza das necessidades educacionais 52 Todos os alunos têm necessidades educacionais básicas, que podem variar em sua expressão e intensidade, mas que no fundo possuem características comuns. É possível observar que todos apresentam necessidades básicas comuns, naturais de todos os seres humanos, e que são identificadas em inúmeros estudos da psicologia humana e social, como contribuintes do processo educacional. Por conseguinte, os processos educacionais dependem, para sua qualidade, que seus profissionais conheçam e entendam as características das necessidades educacionais de seus alunos. Por seu caráter desenvolvimentista, essas necessidades devem ser compreendidas de forma dinâmica, na perspectiva de um continuum e em sentido de avanços subsequentes que se promovem a partir da devida orientação baseada nessa compreensão. Quer dizer: as necessidades estão presentes em todos os alunos, desde a criança na creche e na Educação Infantil, até o adulto, seja em programas de educação de jovens e adultos, seja em programas de pós-graduação. Resulta que estabelecimento de ensino de qualidade é aquele onde se dá atendimento às necessidades educacionais básicas e comuns a todos os seus alunos, assim como às diferenciadas, de diversos grupos de alunos, bem como de alunos de um mesmo grupo, individualmente considerados. Mediante esse atendimento, poderão desenvolver as competências pessoais necessárias ao enfrentamento dos desafios de sua vida, conforme compete à escola promover, enquanto aprendem de forma mais participativa e com maior motivação. Logo, cabe aos estabelecimentos de ensino, para orientar os seus alunos no processo de formação e aprendizagem, manter mapeados, de um lado, as necessidades básicas de desenvolvimento que os alunos devem enfrentar e de outro, as variações pessoais que ocorrem dentre os alunos, no enfrentamento dessas tarefas. Tem-se observado que as privações que o aluno sofre em relação a esse atendimento correspondem à criação de obstáculos para sua aprendizagem e desenvolvimento de competências humanas e sociais importantes. Também se observa que a maioria dos alunos apresentam alguma carência que lhe atrapalham o desenvolvimento, sendo portanto importante e necessário que o professor esteja atento às dificuldades que seus alunos apresentam, de modo a promover os estímulos e orientações necessários para que possam avançar com sucesso em sua empreitada educacional. Aprendizagem é um processo pessoal orientado pelo professor Sabe-se que a aprendizagem é uma experiência pessoal intimamente relacionada com um conjunto muito grande de fatores relacionados à vivência pessoal do aluno, dentre os quais suas características e necessidades pessoais das mais variadas ordens, envolvendo as físicas, emocionais e sociais, de grande repercussão no processo de formação e aprendizagem. Portanto, promover essa aprendizagem e formação envolve que o professor considere os alunos como pessoas e adote essa consideração como ponto de partida do trabalho educacional, assim como assuma o seu desenvolvimento como diretriz. Nessa perspectiva, se situam as necessidades educacionais dos alunos, que assumem dois eixos: um envolvendo as condições biológicas, emocionais e sociais dos alunos, e outro, as tarefas desenvolvimentistas que devem enfrentar e que demandam deles competências das mais variadas ordens. Competências do desenvolvimento pessoal dos alunos Faz parte dessas tarefas desenvolvimentistas, que se apresentam em níveis cada vez mais complexos, em cada nível de desenvolvimento e do papel social assumido, um conjunto de competências básicas, dentre as quais se destacam: • Resolver problemas com iniciativa e criatividade; • Manipular e interpretar informações; • Analisar a realidade de forma crítica; • Atuar de forma empreendedora e proativa; • Trabalhar cooperativamente, em equipe; • Dominar conhecimentos técnicos; • Usar de forma produtiva, os bens culturais e tecnológicos apresentados pela sociedade; • Atuar de forma autônoma e responsável; • Mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar desafios e situações-problema; • Zelar pelo próprio bem estar e integridade física, social e de saúde; • Enfrentar desafios com perspectiva de aprendizagem, empreendedorismo e visão de futuro. Cabe destacar que o domínio dessas competências constitui-se em um processo contínuo e demanda muito mais do que a interpretação restrita e formal dos objetos comumente trabalhados em programas de ensino; envolve muito mais do que as práticas meramente operativas de Ler, Escrever, Falar, Ouvir e Calcular em que os professores envolvem seus alunos. Trata-se sim, de envolvê-los nessas atividades em processos abertos em que aprendem a conhecer o mundo e a conhecer-se no mundo, em que desenvolvem competências mentais e as competências básicas anteriormente enumeradas, com as quais as pessoas enfrentam os desafios de vida em seu dia a dia, posicionando-se de forma positiva diante das situações vivenciadas. Daí porque a Unesco ter definido como pilares da educação de qualidade levar o aluno a saber aprender, saber fazer, saber conviver e saber ser (Delors, 1996). As necessidades educacionais Para o desenvolvimento daquelas competências é importante considerar as necessidades educacionais dos educandos, que se assentam sobre suas necessidades humanas e com elas se mesclam, cujo atendimento é fundamental para sua aprendizagem, formação e seu desenvolvimento pessoal. Essas necessidades se constituem em: i) necessidade fisiológica e de segurança, ii) necessidade de pertencer, iii) necessidade de ser estimado e valorizado, iv) necessidade de ser bem sucedido, v) necessidade de bem-estar e ordem, vi) necessidade de tomar decisões, vii) necessidade de resolver problemas, viii) necessidade de autorrealização. Todas essas necessidades, embora possam ser observadas, estudadas e comentadas separadamente, são de fato intimamente relacionadas, de modo que, na realidade, se interpenetram e se complementam, sendo em alguns casos difusas as áreas de interligação entre uma e outra. Por exemplo, a necessidade de segurança, embora na base tenha sido estudada por Maslow (1962) em sua expressão física e material, é analisada em seu componente psicológico e social, como muito forte na atualidade. Haja vista que atualmente a necessidade de segurança psicológica é considerada como fundamental e básica para o atendimento de outras necessidades, o que coloca o bem-estar e ordem como um direito da criança. Os alunos querem ser ouvidos e respeitados como seres humanos com necessidades, desejos, medos e emoções, assim como serem atendidos em seus direitos e devidamente orientados no cumprimento de seus deveres. Atender a essas necessidades demanda dos gestores e educadores atenção específica aos processos educacionais. Ao longo dos anos escolares, os alunos precisam desenvolver um forte sentido de segurança, não apenas como condição para sua aprendizagem e formação, como também para sua saúde e higiene mental. Para tanto, é importante que tenham a oportunidade de desenvolver uma relação de confiança pessoal com professores e colegas. Nos próximos artigos desta série serão descritas e comentadas as necessidades educacionais e seu atendimento pelo professor e pela escola. Referências bibliográficas DELORS, Jacques (Coord.). Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 1996. MASLOW, A. Introdução à psicologia do ser. Rio de Janeiro: Eldorado, 1962. Heloísa Lück é doutora em Educação pela Columbia University, em Nova York, com pós-doutorado em Pesquisa e Ensino Superior pela George Washington University, em Washington D.C. É Diretora Educacional do CEDHAP – Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado, conferencista e docente em cursos de capacitação de profissionais da educação. E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 GESTÃO DA APRENDIZAGEM NA SALA DE AULA 53 ARTE ARTE Arte na Educação: uma iniciativa para entender e trabalhar arte 6. Formas geométricas figurativas e produção artística de Beatriz Milhazes - Aula dialogada (destacar as formas geométricas utilizadas): mostrar que na obra Jamaica é predominante a figura do círculo (o formato de uma moeda), e a junção dos círculos passa a representar uma flor, mais especificamente uma “dália”. Assim como Beatriz utilizou o círculo para representar uma flor, os alunos serão convidados a utilizar a mesma forma geométrica, para representar outras qualidades de flores. Para que os alunos tenham uma referência será propiciada uma pesquisa visual de vários tipos de flores por meio de reproduções coloridas, ou uma exposição natural, ou ainda desenho ao ar livre (caso seja possível levá-los a um jardim). Uma vez escolhida a flor os alunos irão desenhar, utilizando a moeda como molde. Por Flávia Simões Vidal, Greyce Kelly Contaifer Chaves dos Santos, Lúcia Helena Silva Pereira, Renato Monteiro Ramos, Sandra Regina do Amaral e Tatiana de Andrade Recursos: cópias coloridas das obras de Milhazes; fotos de flores; papel A5; lápis de cor; giz de cera; canetinha; moeda (duração média: 1 aula). Conteúdo: Formas geométricas Objetivo: Construir composições geométricas Metodologia: - Aula expositiva: ampliar o repertório de formas geométricas, acrescentando, além do círculo, o triângulo, o quadrado, o retângulo, o losango, o trapézio e o hexágono. As formas geométricas serão apresentadas devidamente identificadas com seus nomes. Conteúdo: Forma geométrica e vida/obra de Beatriz Milhazes Objetivo: Produzir releitura geométrica de flores Direcional Educador, Maio 13 Metodologia: - Aula expositiva: vida e obra da artista Beatriz Milhazes 54 Beatriz Milhazes: gravadora, ilustradora, professora. Formada em Comunicação Social no Rio de Janeiro em 1981, inicia-se em artes plásticas ao ingressar na escola de artes visuais em 1980. Dedicou-se à pintura, gravura e ilustração. A artista está inserida nas exposições que caracterizam a Geração 80, que tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais. A cor é um elemento estrutural em sua obra. - Mostrar que através da repetição de uma forma, no caso o triângulo, é possível construir outras figuras geométricas. Os alunos receberão moldes de triângulos (assim como no círculo usamos a moeda de molde, para esta forma serão preparados moldes em chapa de radiografia), para que possam riscar, recortar e montar as formas geométricas utilizando apenas triângulos, como quem brinca de quebra-cabeça. Recursos: moldes de triângulos equiláteros; cola; papel lustroso; tesoura; cartolina; lápis (duração média: 1 aula). BARBOSA, A. M. T. Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002. DUARTE JR, J. F. Fundamentos estéticos da educação. São Paulo: Papirus, 1988. GOELDI, Oswaldo. O que é o tangram? http://www.centrovirtualgoeldi.com/paginas.aspx?Menu=areaedu_ atividades&opcao=Tangram. Acesso em: 22/10/2010. LDB. Lei Federal nº 9394/96. Estatuto da Criança e do Adolescente & Legislação Congênere. Espírito Santo: Ministério Público, 2005. VENTORIM, Larissa. Beatriz Milhazes. Banco Cultural: personalidades. http://www.bancocultural.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=5960 &Itemid=588. Acesso em: 22/10/2010. Direcional Educador, Maio 13 m 1996, de acordo com a LDB (2005, p. 135), lei nº. 9394, artigo 26, parágrafo segundo, fica estabelecido que “o ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. Deixa então de ser denominada Educação Artística e de ser considerada atividade. De acordo com Martins (apud BARBOSA, 2002, p. 52), é adequada a mudança na nomenclatura, uma vez que na Espanha o termo Educação Artística ganha uma roupagem inovadora, frente ao ensino da Arte, mas “utilizá-lo aqui no Brasil seria ver no espelho a roupa velha e surrada de um ensino polivalente e superficial”. Percebe-se então mudança no nome, de Educação Artística para Arte; na proposta, de atividade obrigatória para componente curricular obrigatório; mas no que diz respeito à postura dos profissionais, pouco mudou. Os professores mais uma vez não foram preparados para essa mudança, provocando novamente uma mudança aparente, o que se tornou uma constante nas contradições que regem o sistema capitalista, o mesmo que em outros tempos investiu esforços para nos fazer ver a arte como atividade supérflua. Hoje, tendo como princípio que se busca desenvolver uma educação para todos e por toda a vida, que ressalte as possibilidades e não as diferenças, a arte é necessária, segundo Duarte Jr. (1988, p. 105) “(...) justamente por negar a supremacia do conhecimento exato, quantificável, em favor da lógica do coração. Por guardar em si um convite para que a imaginação atue, em favor da vida, dos sentimentos (…)”. A proposta aqui apresentada busca misturar o mensurável e o imensurável, o rigor das formas geométricas e a lógica do coração. Fica então o convite de viajar conosco na expressividade das formas geométricas e das obras de Beatriz Milhazes. 55 ARTE Conteúdo: Formas geométricas figurativas Objetivo: Construir uma composição figurativa geométrica Metodologia: - Os alunos receberão os moldes e vão riscar/recortar quantas vezes acharem necessário os triângulos (molde em radiografia) e/ou os círculos (moedas) em papel lustroso ou cartolina colorida. Eles vão compor uma paisagem utilizando as formas recortadas sobre a cartolina (o trabalho pode ser em grupo), construindo assim uma composição geométrica figurativa. Recursos: moldes das formas; cola; papel lustroso; tesoura; cartolina; lápis (duração média: 1 aula). Conteúdo: Formas geométricas figurativas Objetivo: Produzir imagens figurativas utilizando o jogo Tangram Metodologia: - Aula expositiva: será contada a história do Tangram e apresentado a eles o jogo num formato grande, bem como algumas das possibilidades existentes. Tangram: é o nome de um jogo. Não se sabe ao certo sua origem, mas, segundo as lendas, ele surgiu há milhares de anos. Um filósofo chinês teria derrubado um ladrilho quadrado que se partiu em sete pedaços; ao reuni-los, o filósofo percebeu que havia formado um triângulo, logo depois um retângulo, e com mais algumas mexidas acabou montando um velho, um barco, uma vela, uma casa, e assim por diante. O tangram foi amplamente difundido e aperfeiçoado em vários lugares do mundo, tendo como objetivo o desenvolvimento do pensamento e a criatividade do indivíduo. Formado por apenas 7 peças, esse jogo pode originar mais de 1700 figuras de animais, plantas, pessoas, objetos, flores e muitas outras. Cada figura montada deve ter sempre 7 peças, não sendo permitido sobrepor peças ou parte delas. - Cada aluno receberá 5 jogos de tangram, para produzir 5 figuras diferentes, podendo escolher dentre as possibilidades apresentadas ou criar uma nova figura, desde que respeitadas as regras do jogo. Recursos: exemplos de figuras; cola; tesoura; jogos tangram (duração média: 1 aula). Considerações Na expectativa de desenvolver um bom trabalho buscou-se rever o planejamento, separar todos os recursos e materiais necessários, mas por algum motivo, parecia que a turma não se envolveria e que a atividade não iria despertar interesse. Percebeu-se depois que essa sensação era resultante do fato de se trabalhar a teoria; parecia que a aula que normalmente é prazerosa justamente pela liberdade, se tornaria muito direcionada. E realmente, quando foi falado que a aula era sobre a vida e obra da artista Beatriz Milhazes, eles não mostraram muito interesse, mas ao perceber a ludicidade do tema o envolvimento foi outro. Pode-se perceber que não é o que se faz, mas como se faz. Enfim, a aula de arte pode ser enfadonha ou divertida, como qualquer outra aula, o que não depende do conteúdo, mas da forma como esse conteúdo é apresentado e trabalhado. Destacou-se ainda que ao aplicar a aula de tangram com o grupo de seis anos, em uma aula só foi possível fazer dois desenhos, e não cinco, como previsto no planejamento. Foi interessante perceber que apesar de achar difícil, algumas vezes fazer diferente, eles se envolveram e não desistiram, pois se sentiram desafiados. Enfim, não é fácil explicar o que é Arte depois dessa experiência, mas o termo que melhor explicaria seria “um divisor”, antes e depois. O conteúdo é muito mais sério do que muitos pensam, vai além do superficial, é algo mais profundo, mas descobrir isto foi assustador, imperou o medo do novo, o receio de quebrar o paradigma. Na maioria das vezes, quem desconhece os conteúdos a serem trabalhados, atrela a aula de arte a algo entregue pronto para pintar ou aplicação de técnicas, quando é bem diferente disso. Direcional Educador, Maio 13 Sandra Regina do Amaral é Arte-Educadora. Doutora em Ciências da Educação, Mestre em Ciências da Educação, Especialista em Educação Especial Inclusiva e Psicopedagogia. Graduada em Artes Visuais, Artes Plásticas e Pedagogia. Atua como pedagoga na Prefeitura Municipal de Vila Velha (ES), professora de Arte na Prefeitura Municipal de Vitória (ES) e professora e pesquisadora na FDE. É a idealizadora e responsável do projeto de extensão e pesquisa “Arte na educação: uma iniciação para entender e trabalhar arte”. E-mail: [email protected] 56 Tatiana de Andrade, Greyce Kelly Contaifer Chaves dos Santos, Lúcia Helena Silva Pereira, Flávia Simões Vidal e Renato Monteiro Ramos (da esquerda para a direita) são alunos de Pedagogia da FDE (Faculdade de Educação – Vitória/ES) e participantes do projeto de extensão e pesquisa “Arte na educação: uma iniciação para entender e trabalhar arte”. Maconha Direcional Educador, Maio 13 Por Gustavo Teixeira 58 Nossos alunos e as drogas ambém chamada de baseado, erva, beck ou marijuana, a maconha é atualmente uma das drogas mais consumidas entre os jovens e merece toda a atenção de pais e educadores. Trata-se de uma planta cujo nome científico é Cannabis sativa, um arbusto conhecido como cânhamo e que apresenta mais de 60 substâncias denominadas canabinóides, sendo o Delta-9-tetrahidrocanabinol a substância com maior efeito psicoativo. Outras formas da substância podem ser encontradas no chamado Skunk, maconha modificada geneticamente e que apresenta altas quantidades de Delta-9-tetrahidrocanabinol, sendo portanto mais potente que a maconha comum, assim como o haxixe, uma resina retirada dos caules, folhas e flores da planta Cannabis sativa. Seu preparo consiste na coleta dos brotos oleosos, com posterior maceração desses até formarem bolas ou tabletes endurecidos de aspecto verde-escuro. Os tabletes são misturados à maconha e fumados na forma de cigarros. No Brasil os estudos mais recentes revelam que o uso de maconha entre estudantes do Ensino Médio tem aumentado assustadoramente. De uma maneira geral, grande parcela dos jovens serão expostos à maconha, seja na escola, no condomínio ou nas festas com os amigos da vizinhança. Essa importante droga de abuso está associada a consequências físicas e psicológicas relevantes e é considerada também por muitos centros de pesquisa como uma “porta de entrada” para outras drogas. Receptores canabinóides existentes no cérebro são responsáveis pelas ações das substâncias psicoativas da maconha e um suposto neurotransmissor específico para os receptores canabinóides chamado anandamida parece exercer uma ação no organismo também. Entretanto, a maneira exata como a maconha age no organismo ainda não foi completamente esclarecida. Sabemos que existe uma grande quantidade de receptores da substância no cérebro, principalmente no córtex cerebral, no hipocampo, cerebelo e gânglios basais. As substâncias psicoativas da maconha consumida pelo usuário se ligam aos seus receptores localizados nas diferentes regiões do cérebro e essa ligação irá estimular neurônios dopaminérgicos do sistema límbico, o que provoca uma maior liberação de dopamina no cérebro, fato este responsável pela sensação de euforia e prazer relacionados com o uso da droga. Os efeitos no usuário de maconha ocorrem minutos após o uso e são caracterizados por cansaço, sonolência, letargia, risos imotivados, diminuição da atenção, relaxamento, sensações de bem-estar, aumento da percepção de sons, cores e paladar. Déficit cognitivo, como perda da memória de curto prazo e déficit motores, como prejuízos para dirigir um carro, por exemplo, também ocorrem com frequência. Uma das razões para esses prejuízos cognitivos está relacionada ao hipocampo, região do cérebro envolvida com a memória e rica em receptores canabinóides. Quando a maconha se liga aos seus receptores no hipocampo, há um prejuízo da memória, novas informações podem não ser armazenadas e informações antigas contidas no nosso cérebro podem ser perdidas. O conjunto de sintomas físicos característico pode ser facilmente identificado por pais, familiares e professores atentos, como: hiperemia das conjuntivas (olhos avermelhados), tosse, aumento do apetite, boca seca, aumento dos batimentos cardíacos, incoordenação motora, retardo e lentificação dos movimentos corporais e piora generalizada do desempenho em atividades intelectuais e motoras. A maconha é capaz de causar efeitos no sistema nervoso central e em áreas periféricas do organismo. Algumas pessoas podem apresentar a chamada bad trip ou viagem ruim, sensações desagradáveis de medo, pânico, desconforto, náuseas, tonturas, ansiedade, angústia, prejuízos de memória recente e de atenção. Devido a sua solubilidade em gorduras, seus efeitos podem durar por até 24 horas, pois ocorre liberação lenta da substância que se encontra nos tecidos gordurosos do organismo. As principais consequências da utilização da maconha na saúde dos jovens estão relacionadas a prejuízos na memó- ria e prejuízos causados pela síndrome amotivacional, além de comprometimentos na imunidade e doenças respiratórias. A síndrome amotivacional frequentemente associada ao consumo de maconha consiste na perda de energia, cansaço, apatia, falta de motivação, desinteresse, inabilidade de realizar planos para o futuro, falta de ambição, prejuízo na memória, diminuição na assertividade, queda do rendimento escolar e no trabalho. Desta forma, surge uma dificuldade progressiva para realizar qualquer coisa que não seja fumar maconha. O usuário pode abandonar os estudos, trabalho, não realizar seus afazeres domésticos, sentindo-se sempre cansado e desinteressado por tudo, podendo haver procrastinação (adiamento de atitudes), retraimento social e embotamento afetivo. A psicose canábica é uma manifestação de sintomas psicóticos devido a agressões diretas da droga no cérebro humano. Há a presença de delírios, alucinações, desagregação de pensamento e alterações comportamentais. Naqueles usuários em que existe uma predisposição genética para esquizofrenia, o uso da maconha pode funcionar como um “gatilho” para o desencadeamento desses surtos psicóticos. Em muitos casos, nos indivíduos predispostos geneticamente, esses surtos psicóticos induzidos pela maconha podem resultar no surgimento do transtorno esquizofrênico, uma condição grave, crônica e sem cura até o momento, sendo caracterizada principalmente pela presença dessas distorções perceptivas e do pensamento. Em longo prazo, o uso continuado da droga pode levar a efeitos devastadores. A exposição dos pulmões à fumaça da maconha pode causar câncer de pulmão, bronquite e irritação das vias aéreas. Pode haver uma diminuição em 60% da produção do hormônio testosterona e também ocorrer oligospermia (redução da produção de espermatozóides), podendo até provocar esterilidade masculina. Pode haver redução da capacidade de aprender e de memorizar, baixa autoestima, esquecimento de fatos recentes, problemas de relacionamento familiar e conjugal. Pessoas que fazem uso diário de maconha durante longos períodos e cessam sua utilização repentinamente podem experimentar efeitos da síndrome de abstinência como irritabilidade, nervosismo, inquietação, insônia, sintomas depressivos, dores de cabeça, redução do apetite, tremores e craving (desejo pela droga). A dependência da maconha está relacionada com uma inabilidade de reduzir ou interromper o consumo da droga, apesar dos prejuízos na saúde ou consequências legais envolvidas com o uso. Gustavo Teixeira é Médico Psiquiatra Infantil, Professor Visitante do Department of Special Education - Bridgewater State University e Mestre em Educação - Framingham State University Contato: www.comportamentoinfantil.com Direcional Educador, Maio 13 Nossos alunos e as drogas 59 EDUCAÇÃO INTEGRAL Desafios e Perspectivas da Educação Integral: O Aluno Integral o abordar o tema aqui proposto, vou me valer dos sonhos experimentados nos caminhos que as décadas já me renderam. Falar de sonhos por mim mesma, certamente seria possível, quem sabe bom, mas falar de sonhos apoiada no conhecimento freireano pode tornar tudo melhor, e por isso, me valerei dele1. Os sonhos são projetos pelos quais se luta. Sua realização não se verifica facilmente, sem obstáculos. Implica, pelo contrário, avanços, recuos, marchas às vezes demoradas. Implica luta. Na verdade, a transformação do mundo a que o sonho aspira é um ato político e seria uma ingenuidade não reconhecer que os sonhos têm seus contra sonhos (FREIRE, 2000, p.54) Direcional Educador, Maio 13 Vou então relacionar essa ideia de sonho e de luta com a proposta de discutir esse termo: ‘aluno integral’. Para falar do aluno integral procurei me munir de um sentimento que desejo que esteja no DNA brasileiro e precisa estar tatuado na alma de quem se comprometeu com a Educação: refiro-me à CORAGEM. Coragem de construir sonhos e de abraçar as lutas que vêm implicada neles. Sempre que releio Paulo Freire me fortaleço desse sentimento que foi tão presente na caminhada teimosa deste Educador que nos deu mostras de sensibilidade 60 ao reconhecer que “não há ensino-aprendizagem fora da procura da boniteza e da alegria2” e todos esses ingredientes merecem ganhar espaço e força em cada vida presente na escola e quando fora dela, ganhando ruas, praças, clubes, salões de igreja, associações de moradores, na bagagem, leve de preferência, seja forte o desejo da expressão dessa alegria e boniteza, renovando as buscas – quem sabe os encontros - pelos sentidos que a vida pode e precisa ter. Ainda sobre a coragem a que me referi antes, reforço que ela precisa existir para objetivar sonhos, utopias, transformações do mundo sem o temor do pessimismo, do rótulo de piegas, ou rigor racional que não acolhe a ousadia do riso frouxo; o contra sonho mora ao lado, às vezes, mora dentro. Usar a expressão educação integral, aluno integral, escola integral, soa mal aos ouvidos, quase um pleonasmo, no entanto, se estou evocando a coragem para falar de sonhos e de lutas, me valendo das reflexões freireanas, preciso me imbuir da mesma coragem para reconhecer que solapamos o que poderia ser integral para ceder espaço à eficiência da fragmentação, das disciplinas, das grades, dos pedaços, dos curtos espaços de tempo para acomodar uma imensidão de coisas que eu poderia enumerar, mas todo aquele que está na Educação sabe bem do que estou falando, entre essas tantas coisas, eu gostaria de contar com a boniteza e a alegria, não como bônus, mas como base. O ideal, no melhor dos mundos, é que não houvesse complemento para a palavra Educação, ela por si só, seria inteira, inclusiva, integral, completa, forte, viçosa, potente, garantindo a todos os humanos o direito de sonhar e perseguir causas, reconhecendo ainda que “a força da educação está na sua fraqueza, não podendo tudo, pode alguma coisa3” e alguma coisa, pode ser tanto, pode fazer uma enorme diferença para as vidas, singularmente falando. Se a Educação em sua fraqueza então não pode tudo, teremos que reunir esforços que já estão sendo pensados nas políticas públicas integradas. Compartilhar responsabilidades demanda compromisso político, o reconhecimento de que é preciso muitos corações e mentes alinhados para tornar esse novo mundo tão corajosamente tratado por Freire, algo possível e para isso, os exercícios da indagação e da escuta precisarão ser mais presentes em nossas rotinas. Pensar a escola e o aluno como sujeito integral é pouco, queremos e precisamos mais. Será necessário olhar respeitosamente o que fizemos com a Educação na história, reconhecer o sentido marcante de nossa colonização, fortemente predatória, à base de exploração econômica do grande domínio, em que o “poder do senhor” se alongava “das terras às gentes também4” (Freire, 2001 - apud Gadotti, 2007) e de que forma essas escolhas impactaram em cada um de nós, as gentes?! Compreender, degustar, observar, registrar as etapas vencidas é necessário. Isso dá bons elementos para qualificarmos o labor da construção das novas possibilidades. A identificação de culpados – se é que eles existem - não nos têm ajudado há algum tempo e faz com que nos distraiamos do foco e com isso todos perdemos, em especial aqueles meninos e meninas, jovens e adultos, que desejamos profundamente que encontrem contextos – em especial escolas -, que os concebam como seres plenos, desejantes pela riqueza das experiências e que têm pela frente um mundo complexo e desafiador em que precisarão produzir conhecimentos, ampliar possibilidades planetárias de vida e especialmente, ser felizes, e para isso quero reforçar o papel dos sonhos e das lutas aqui lembrados insistentemente, nessa teimosia tão freireana... 1.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Segunda carta: ‘Do direito e do dever de mudar o mundo’. São Paulo, Ed. UNESP, 2000. 2.GADOTTI, Moacir. A escola e o Professor. Paulo Freire e a paixão de ensinar. São Paulo. Publisher Brasil, 2007. 3.FREIRE, Paulo e FREIRE, Ana Maria Araújo. Pedagogia dos Sonhos Possíveis. São Paulo: editora UNESP, 2001 4.Idem 2. Maria Helena Negreiros é Mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo. Mestranda em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Possui graduação em Pedagogia, com especialização em Psicopedagogia, Educação Especial e Gestão Pública. Professora nos cursos de graduação e pós-graduação . Autora do livro Leitura e Lazer: uma alquimia possível, foi eleita personalidade do ano 2011, pelo Prêmio João Ferrador, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Inclusiva, Diversidade e Gestão de Políticas Públicas. E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 EDUCAÇÃO INTEGRAL 61 E agora, Professor? livros Por Luiza Oliva EU NÃO GOSTO DE VOCÊ! BONS HÁBITOS ÀS CRIANÇAS Texto e ilustrações: Raquel Matsushita Texto: Eduard Estivill e Yolanda Sáenz de Tejada 32 páginas 216 páginas R$ 33,00 R$ 34,00 Editora Jujuba Editora WMF Martins Fontes www.jujubaeditora.com.br www.wmfmartinsfontes.com.br Raquel Matsushita é designer gráfica e conta a O livro traz muitas sugestões de atividades em que história de uma menina que vivencia os vários sentimentos contraditórios – amor, se faz uso da brincadeira como ferramenta para criar ciúmes, confiança, raiva – que surgem quando nasce o irmão. Raquel escreveu, fez bons hábitos nas crianças, em aspectos como alimentação, sono, desenvolvimento as ilustrações, o projeto gráfico e desenhou o livro, inclusive as letras do texto, ma- emocional, integração social e valores humanos. Eduard Estivill é pediatra e neuro- nuscritas com a mão direita (a autora é canhota). fisiologista em Barcelona e Yolanda Sáenz é escritora e pesquisa o comportamento infantil. CORPO, ATIVIDADES CRIADORAS E LETRAMENTO Autoras: Marina Teixeira de Souza Costa, Daniele Nunes Henrique Silva e Flavia Fais- A CASA NA ÁRVORE sal de Souza Autores: Ronald Tolman e Marije Tolman 104 páginas 32 páginas R$ 32,20 R$ 27,80 Editora Summus Editorial Editora Brinque-Book www.summus.com.br www.brinquebook.com.br O livro mostra a importância de valorizar o gesto, o faz Toda criança já quis ter uma casa na árvore. Um de conta e o desenho antes de a criança se apropriar cantinho só delas em que as regras são feitas pelas da escrita. O corpo não é mero espectador, mas prota- próprias crianças, possibilitando milhares de descobertas. É em meio a esse imagi- gonista. Para as autoras, brincar, narrar, desenhar são nário que a história se passa. Uma casa na árvore. Um urso-polar e um urso pardo experiências essenciais para o desenvolvimento infantil e, portanto, não podem ser descobrem que esse é o lugar perfeito para viver. O encanto pela casa na árvore atrai vistos de forma subalterna às ações de escrever e ler, como tradicionalmente tratou muitos outros animais como flamingos e rinocerontes, que lotam o lugar. A casa na a escola. árvore é um livro-imagem que não precisa de palavras para contar uma boa história, ou, talvez, muitas histórias. PAULINA Direcional Educador, Maio 13 Texto e ilustrações: Maria Eugênia 62 GENTE PEQUENA TAMBÉM TEM DIREITOS 32 páginas Texto: Malô Carvalho R$ 28,00 Ilustrações: Suzete Armani Editora Peirópolis 32 páginas www.editorapeiropolis.com.br R$ 29,00 A autora e ilustradora Maria Eugênia usa uma Editora Autêntica combinação criativa entre texto e imagem para www.autenticaeditora.com.br retratar os conflitos sensíveis entre a criança e o O livro, colorido e alegre, mostra aos pequenos leitores seus direitos de cidadãos. mundo dos adultos. No sofrimento pela separação Suzete modela figuras tridimensionais em massa plástica, montadas em pequenos dos pais ou pela perda do cachorro, a pequena Paulina mostra como superar seus cenários e fotografadas. A proposta é envolver as crianças na reflexão e descoberta problemas. A autora explica que a ideia do livro surgiu a partir de uma ilustração que de que todos são iguais em direitos e deveres, independente de idade, classe social, fez de uma menina cercada de coisas que toda criança gosta – cachorro, doces e gênero, raça, religião ou condição física e mental. bola. “A história fala sobre o otimismo e a felicidade”, diz a autora. Paulo Freire, referência na cultura digital Por Cassiano Zeferino de Carvalho Neto A leitura do mundo precede a leitura da palavra e a situa no contexto das ideias. É no contato humano e deste com o mundo que são construídas formas simbólicas no seio das culturas, esboços de singularidade, até chegarem a se construir, por tempo sem fim, em significados compartilhados socialmente. Antes de ler a palavra, o adulto já vivenciou diversas leituras do mundo em que se situa. Na concepção de Paulo Freire, o processo de alfabetização deve permitir ao estudante a compreensão do ato de ler, ajudando-o a pensar a partir da realidade social que o cerca, estimulando, assim, a prática de um diálogo que conscientiza e se propõe a gerar uma reflexão crítica e libertadora. Seu método parte do princípio de que é necessária uma aproximação à cultura e vocabulário dos alunos, desvelando-se a realidade subjacente às palavras geradoras em debates. Dos debates e da força das palavras geradoras chega-se ao domínio do código escrito. Não é suficiente às pessoas se reunirem em diálogo a fim de obter conhecimento de sua realidade social. Elas devem agir em conjunto sobre o seu ambiente para refletir sobre sua realidade e assim transformá-lo através da ação e reflexão crítica. (IPF, 2013) As possibilidades de interação humana por tecnologias e mídias digitais de informação e comunicação ampliam de modo notável as premissas de desenvolvimento e aplicação das concepções freireanas, à medida que coloca pessoas em contato, não somente pela palavra escrita ou falada, mas também através de imagens, sons, audiovisuais e interação face a face. O ser humano, antes do advento das tecnologias da informação e comunicação digital, situado em um contexto espaço-temporal restrito tem hoje suas possibilidades ampliadas de forma a por em contato diferentes culturas. Esta possibilidade, ao menos na frequência e amplitude em que ocorre na atualidade e que aponta para o futuro, pode ser considerada um fato novo e singular. O núcleo da teoria freireana se mantém coeso, mas as interfaces culturais que se multiplicam diante das possiblidades oferecidas pelo âmbito das redes sociais e de comunicação de base digital são largamente ampliadas e, inclusive, existem evidências a respeito de como estes novos contextos afetam o modo como o cérebro busca e trata a informação. Direcional Educador, Maio 13 VAMOS BRINCAR! – ATIVIDADES PARA ENSINAR Foto: Arquivo Instituto Paulo Freire Confira nossas boas dicas de livros para alunos e professores. 63 E agora, Professor? “Paulo Freire nos convida a vivenciar a cultura digital, oportunizando uma abordagem crítica da realidade.” Um dos estudos mais completos sobre as mudanças influenciadas pela internet na forma como assimilamos e processamos conhecimento foi coordenado pela psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade Columbia. O estudo evidencia que a memória processada pelo cérebro está se adaptando rapidamente à era da informação imediata. Atualmente nos preocupamos menos em reter informações porque sabemos que elas estarão disponíveis na internet, possíveis de serem localizadas através de motores de busca como os do Google. Em lugar de guardar conhecimentos, preferimos guardar o local na rede onde eles estão disponíveis. A internet se tornou uma memória externa, o que faz com que as informações sejam armazenadas não menos em nosso cérebro, mas coletivamente, "desenvolvemos uma relação de simbiose com as ferramentas de nosso computador, da mesma forma que com as pessoas de nossa família", disse Betsy Sparrow [...]. Quando observamos a forma como crianças e jovens interagem, notamos que muitas vezes estão conectados à mídia digital, adentrando as redes sociais, blogando, trocando torpedos pelo celular e viabilizando outras formas de realizarem a conexão entre seus pares. O cenário da comunicação do século XXI afeta significativamente não só as relações sociais, mas também a educação. Direcional Educador, Maio 13 No artigo “Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age”, George Siemens apresenta uma alternativa à aprendizagem, voltada à compreensão e intervenção na sociedade tecnológica e da mídia digital distribuída em rede. 64 O Conectivismo defende que o conhecimento se constrói através de uma rede de conexões, sendo a aprendizagem a capacidade de construir conhecimento em conexão. Nesta acepção o conhecimento está disponível através de redes e o ato de aprender está associado à capacidade de construir conexões em rede. Já em 1958, Paulo Freire discutia o ciclo de miséria gerado pelo analfabetismo. Defendia, então, o uso de meios audiovisuais para alfabetizar adultos. Palavra e imagem se complementavam a seu ver, num processo que partia da própria palavra situada no próprio contexto do educando. Numa primeira aproximação podemos perceber como a Teoria do Conectivismo e os pressupostos e visão freireana se aproxima e se torna atual, ajudando na compreensão dos processos de ensino-aprendizagem a partir de uma perspectiva que inclui um perfil digital. É evidente que vivemos em uma sociedade conectada por redes sociais variadas e que interagem entre si, ampliando os horizontes de produção de cultura do local para o global. Nesta perspectiva o mais importante ativo financeiro é o conhecimento, e esta questão estabelece novos marcos e paradigmas, inclusive para a educação. Siemens (2004) apresenta a Teoria do Conectivismo como uma alternativa para a era digital e considera que: Todas as teorias existentes da aprendizagem partem da noção de que o conhecimento é um objetivo (ou um estado) de que é possível apropriar-se quer através de raciocínio ou experiências. Estas teorias estão focadas no próprio processo de aprendizagem, e não no valor do que está a ser aprendido. Num mundo em rede, vale a pena explorar a própria forma de adquirir informações. A necessidade de avaliar o valor de aprender alguma coisa é uma meta-competência que é aplicada antes mesmo da aprendizagem propriamente dita ter início. Nesta perspectiva apresentada por Siemens, a capacidade de sintetizar e de reconhecer conexões e padrões é uma competência valiosa no processo de aquisição de conhecimento conectivo. A im- plicação disso é que a aprendizagem pode residir também fora de nós mesmos, na rede! Os sistemas que armazenam informações estão, dessa forma, intimamente ligados ao conhecimento conectivo do qual também somos parte viva, ativa e também passiva (no sentido de que outros se apropriam das formas simbólicas que produzimos), a partir da rede conectiva. A conexão é mais importante do que o conteúdo dentro da conexão. Nossa capacidade de aprender o que precisamos para amanhã é mais importante do que o que nós conhecemos hoje. Um verdadeiro desafio para qualquer teoria de aprendizagem é o conhecimento para atuar com conhecimento no ponto de aplicação (meta-conhecimento). Quando o conhecimento é necessário e ainda não é conhecido, a capacidade para ligar as fontes (nós da rede) e satisfazer os requisitos torna-se uma habilidade vital. Como o conhecimento continua a crescer e evoluir, o acesso ao que é necessário é mais importante do que o que o aprendiz possui atualmente. (SIEMENS, 2004) A base da pedagogia de Paulo Freire é a busca de um diálogo libertador e não o monólogo opressivo do educador sobre o educando. Na relação dialógica estabelecida entre o educador e o educando faz-se com que este aprenda a aprender, não o excluindo da sua cultura, fazendo-o de mero depositário de uma dada cultura dominante. Como entender no contexto da atualidade o significado de um diálogo libertador de Freire no âmbito da cultura digital? Esta é uma questão importante e que merece um aprofundamento maior, uma vez que envolve aspectos não triviais em termos de informação e produção de conhecimento. Consideramos que a aprendizagem e o conhecimento se fundamentam na diversidade de pareceres. Neste âmbito a competência para conhecer mais é mais importante do que aquilo que é conhecido, estritamente, em um dado momento. Fomentar e manter conexões são uma necessidade para facilitar a aprendizagem contínua relacionada ao conhecimento conectivo. Por outro lado, a competência para identificar conexões entre áreas, ideias e conceitos é uma competência essencial na contemporaneidade e a cultura digital pode favorecer estes processos, já que aproxima pessoas por mídias diversas. Na atualidade a História, a Cultura e a Sociedade se interligam de um modo inusitado pela base de comunicação digital, o que nos desafia a repensar os processos educacionais que promovemos e realizamos a gestão diariamente. A filosofia e a sociologia que expressa a obra de Paulo Freire aponta para uma educação como prática política. Sua pedagogia tem sido conhecida como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Liberdade, Pedagogia da Esperança. Respeitando-se a linguagem, a cultura e a história de vida dos alunos pode-se levá-los a tomar consciência da realidade que os cerca, discutindo-a criticamente. Redes sociais, como o Facebook e o Twitter, documentam história de cada um dos inscritos e de seus contextos. Ali se expressam expectativas, visões de mundo, valores e tudo mais. As culturas se entrelaçam e se difundem, modificadas por cada novo toque de uma tecla ou pelo movimento do mouse. Paulo Freire nos convida a vivenciar a cultura digital, oportunizando uma abordagem crítica da realidade. Se a profundidade e a relevância do que se compartilha nas redes sociais digitais é discutível, ainda mais discutível pode ser a análise e o entendimento do que ali está expresso por imagens, palavras e mídias variadas. Eis a cultura, eis Paulo Freire, eis a sociedade digital. Referências bibliográficas CARVALHO NETO, C. Z. Educação Digital. Laborciencia editora. São Paulo, 2012. (IPF) INSTITUTO PAULO FREIRE. Disponível em: <http://www.freire.org/praxis-action-reflection/>. Acesso em: 13/03/ mar. 2013. FREIRE, PAULO. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967. ___________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970. ___________. Educação e mudança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1979. SIEMENS, GEORGE (2004). Conectivismo: Uma teoria de Aprendizagem para a era idade digital. Disponível em: <http://wiki.papagallis.com.br/George_Siemens_e_o_conectivismo>. Acesso em: 15/10/2010. WEGNER, D.M., & SPARROW, B. (2004). Authorship processing. In M.S. Gazzaniga (ed.), The New Cognitive Neurosciences, Third Edition. Cambridge, MA: MIT Press. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto tem Pós-doutorado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); Doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC/UFSC); Mestrado em Educação Científica e Tecnológica (ECT/ UFSC); Especialidade em Qualidade na Educação Básica (INEAM/OEA/ USA) e Licenciatura em Pedagogia, com complementação em Física (PUCSP). Fundador da Laborciencia Editora, do Instituto para a Formação Continuada em Educação (IFCE) e do Instituto Galileo Galilei para a Educação (IGGE). www.carvalhonetocz.com E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 PSICOPEDAGOGIA E agora, Professor? 65 AGENDA EVENTOS XI CONGRESSO INTERDISCIPLINAR - SAÚDE - EDUCAÇÃO TRABALHO XI CONGRESSO DE NEUROPSICOLOGIA E APRENDIZAGEM VI CONGRESSO DE DESENVOLVIMENTO INFANTO-JUVENIL V CONGRESSO DE PSICOLOGIA SOCIAL E ORGANIZACIONAL IV CONGRESSO DO ENVELHECIMENTO I SIMPÓSIO DE PSICOLOGIA NO ESPORTE Data: 9 a 11 de maio de 2013 Local: Espaço Cultural da URCA - Poços de Caldas - MG Realização: Interclínica Ribeiro do Valle Informações: (35) 3722-5102 Site: http://www.ribeirodovalle.com.br/congresso E-mail: [email protected] SIMPÓSIO DE TRANSTORNOS E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM Tema: “Entendendo melhor os alunos com necessidades educativas especiais”-. Data: 17 e 18 de maio de 2013 Local: Colégio Pedro II - Auditório Mário Lago - Campo de São Cristóvão, 177 - São Cristóvão - RJ Realização: WAK Projetos Culturuais Informações: (21) 3208-6113 – 3208-6095 Site: http://www.wakeditora.com.br E-mail: [email protected] 5º SBECE - SEMINÁRIO BRASILEIRO DE ESTUDOS CULTURAIS E EDUCAÇÃO 2º SIECE - SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS CULTURAIS E EDUCAÇÃO Data: 20 a 22 de maio de 2013 Local: Universidade Luterana do Brasil - Ulbra - Campus Canoas - RS Av Farroupilha, 8.001 - São José - Canoas - RS Realização: ULBRA e UFRGS Site: http://www.sbece.com.br E-mail: [email protected] Direcional Educador, Maio 13 20ª EDUCAR / EDUCADOR Tema: Educação 3.0 – A escola do futuro chegou? 20ª EDUCAR – Feira Internacional de Produtos e Serviços para Educação 20º EDUCADOR – Congresso Internacional de Educação Data: 22 a 25 de maio de 2013 Local: Centro de Exposições Imigrantes - SP Realização: Futuro Eventos Informações: (41) 3033-8100 Site: http://www.futuroeventos.com.br/educar/evento-2013/ E-mail: [email protected] 66 II CONGRESSO BRASILEIRO DE RECURSOS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO Data: 23 a 25 de maio de 2013 Local: Mackenzie – Campus Higienópolis – SP Realização: Coordenadoria de Ensino a Distância - Universidade Presbiteriana Mackenzie Site: http://ead.mackenzie.br/eventos/course/view.php?id=6 E-mail: [email protected] I ENCONTRO NACIONAL DE EDUCAÇÃO ESPECIAL Tema: “Viva a diferença” Data: 24 e 25 de maio de 2013 Local: Hotel Nacional Americana - Americana - SP Realização: OPEM Eventos Informações: (41) 3296-1238 Site: http://www.opemeventos.com.br E-mail: [email protected] III SEMINÁRIO DE EDUCAÇÃO Tema: Diálogo entre a educação e a neurociência; tecendo caminhos para a saúde e aprendizagem. Data: 25 de maio de 2013 Local: CEC - Barra da Tijuca - RJ Av Ayrton Senna, 2.541 A Realização: ASFOE - Associação Fluminense de Orientadores Educacionais Informações: (24) 9252-8734 Site: http://www.asfoe.com.br E-mail: [email protected] I SEMINÁRIO PAULISTA SOBRE TRANSTORNOS E DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM Data: 25 de maio de 2013 Local: Av Nossa Senhora de Sabará, 765 - Chácara Flora - SP Realização: Creative Ideias Informações: (21) 2577-8691 Site: http://www.creativeideias.com.br E-mail: [email protected] XXVII ENCONTRO ESTADUAL DE SUPERVISORES DE ENSINO APASE Tema: “Vida e Conhecimento: currículo e herança civilizatória - os desafios aos trabalhadores da educação escolar” Data: 4 a 7 de junho de 2013 Local: Hotel Vacance - Aguas de Lindóia - SP Realização: APASE - Sindicato dos Supervisores de Ensino do Magistério Oficial no Estado de São Paulo Informações: (11) 3337-6895 Site: http://www.sindicatoapase.org.br E-mail: [email protected] III JORNADA SOBRE NEUROEDUCAÇÃO - NEUROCIÊNCIAS APRENDIZAGEM E TECNOLOGIA Data: 8 e 15 de junho de 2013 Local: Colégio Pedro II - Auditório Mário Lago Rua Campo de São Cristóvão, 177 - São Cristóvão - RJ Realização: Creative Ideias Informações: (21) 2577-8691 – (21) 3246-2904 Site: http://www.creativeideias.com.br E-mail: [email protected] 12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO DA LBV Tema: “A arte na arte de educar: uma visão além do intelecto” Data: 26 a 28 de junho de 2013 Local: Instituto de Educação José de Paiva Netto Av Rudge, 700 - Bom Retiro - SP Realização: LBV Legião da Boa Vontade e AEBV Associação Educacional da Boa Vontade Informações: (11) 3255-4590 – 3361-6078 Site: http://www.lbv.org/congressoeducacao E-mail: [email protected] - [email protected]