O PROGRAMA “SOJA NA MESA” Vera de Toledo Benassi, Embrapa Soja, Londrina/PR, Brasil, [email protected] Domesticada pelos chineses há mais de cinco mil anos, a soja é um dos alimentos mais completos e versáteis que o homem conhece. Além de suas propriedades nutricionais, a soja apresenta grande potencial para atuar na manutenção da saúde e na redução de riscos de diversas doenças crônicas. Portanto, seria desejável que a soja fizesse parte da dieta da população em geral e, mais especificamente, da população brasileira, uma vez que o Brasil é o segundo produtor mundial. No entanto, este grão ainda não faz parte do hábito alimentar do brasileiro, devido ao desconhecimento de técnicas adequadas para o preparo da soja in natura e às restrições com relação ao seu sabor característico. O programa de Soja na Alimentação Humana da Embrapa Soja teve início em 1987, tendo como objetivo principal a difusão de informações, visando o aumento do consumo da soja e seus derivados pela população brasileira. A partir de 1995, o programa passou a se chamar “Soja na Mesa” e, além de difundir o uso da soja como alimento, procurou dar ênfase aos seus benefícios para a saúde. O programa de Melhoramento Genético se iniciou em 1975 e, a partir dos anos 80, em conformidade com os objetivos do programa Soja na Mesa, começou a se ocupar também da obtenção de cultivares de soja mais apropriadas ao consumo humano, buscando características mais adequadas ao processamento de alimentos, como boa aparência (tegumento e hilo claros) e sabor suave, entre outras. Neste contexto, foram lançadas seis variedades: 1) BRS 155, que apresenta como diferencial o baixo teor de inibidor de tripsina - cerca de um terço do valor normalmente encontrado - sendo especialmente interessante para compor rações animais ou produtos alimentícios que não podem sofrer tratamento térmico intenso; 2) BRS 213, que não contém as enzimas lipoxigenases, responsáveis pela formação de sabor indesejável nos produtos de soja, quando não tratados termicamente de maneira adequada; 3) BRS 216, que apresenta grãos de tamanho pequeno, apropriados para a produção de brotos e de natto (produto fermentado, tradicional da culinária japonesa), podendo ter bom potencial para exportação; 4) BRS 257, que não contém lipoxigenases; 5) BRS 267, que é resultado de cruzamento com cultivar de soja hortaliça, apresentando maior teor de açúcares; e 6) BRS 258, que é semelhante à cultivar BR 36 - bastante cultivada no sistema orgânico - com melhores características agronômicas. As atividades que vem sendo continuamente desenvolvidas no programa de Soja na Alimentação são: desenvolvimento e publicação de receitas à base de soja e seus derivados; promoção de cursos e treinamentos em culinária de soja; divulgação da soja como alternativa alimentar, por meio de palestras e matérias veiculadas nos diferentes meios de comunicação e também por meio de unidades de degustação, que criam oportunidade para que o público conheça e experimente os produtos de soja. Em quase 20 anos do programa, foram desenvolvidas, testadas e publicadas pela Embrapa Soja mais de 450 receitas de pratos salgados e doces da culinária brasileira, publicados na forma de 12 livros de receitas, nas quais a soja e seus derivados foram incluídos como ingredientes. Além destes, a Embrapa Soja publicou outras 12 publicações técnicas e 16 folderes promocionais do programa. Os cursos de culinária de soja ministrados pela Embrapa Soja visam ensinar, para o público em geral, as técnicas adequadas para o preparo do grãos. Procura-se também evidenciar a versatilidade de uso dos diferentes derivados industrializados da soja, tais como: a farinha, o extrato solúvel ou “leite” de soja, o tofu ou “queijo” de soja, a proteína texturizada de soja (PTS ou “carne” de soja), entre outros produtos. Desde 1987 até o final de 2005, foram ministrados 393 cursos de culinária de soja, com um total aproximado de 7.800 pessoas treinadas. Devido à demanda crescente por informação e treinamento, em 2003, a Embrapa Soja envolveu-se na formação de uma rede de multiplicadores no Paraná, da qual participam extensionistas e membros de cooperativas, que tinham por - 224 Foros objetivo melhorar a alimentação, a saúde e a renda da comunidade atendida em todo o Estado. Em 2005, foram também treinados cerca de 20 multiplicadores do SENAR/PR, que realizam treinamentos voltados para os produtores rurais. Produtos à base de soja são elaborados na Cozinha Experimental da Embrapa Soja, para realizar as chamadas unidades de degustação, que visam divulgar o trabalho realizado em relação ao uso da soja na alimentação humana e difundir a soja como uma nova alternativa alimentar. O público são os participantes de diferentes eventos, dentro e fora da Embrapa Soja (palestras, dias de campo, visitas, eventos científicos, etc). De 2000 a 2005, foram realizadas 244 unidades de degustação de produtos à base de soja. As palestras sobre a utilização da soja na alimentação humana e sobre os seus benefícios para a saúde podem atender ao público em geral ou ser voltadas para públicos específicos (médicos, estudantes, associados de uma determinada instituição, grupos de terceira idade, líderes comunitários, extensionistas, técnicos de cooperativas e empresas, etc). Apenas para dar uma idéia da demanda, entre 2000 e 2005, foram ministradas 120 palestras. Informações sobre a utilização da soja na alimentação humana e sobre os seus benefícios para a saúde são também divulgados por meio de matérias veiculadas na mídia. De 2000 a 2005, foram 210 matérias veiculadas nos diferentes meios de comunicação, como jornais, revistas, redes de rádio e televisão. O programa também inclui ações de assessoria ou parceria com prefeituras, entidades filantrópicas, cooperativas agrícolas, empresas de extensão rural, organizações não governamentais e empresas privadas que produzem ou querem produzir derivados de soja. Ao longo dos últimos anos, foram celebrados convênios com universidades de Londrina para realização de estágios de alunos na Embrapa Soja, voltados para a área de soja na alimentação humana. Foram também realizados trabalhos em parceria com universidades, seja de co-orientação de alunos de pós-graduação como de colaboração em estudos sobre aspectos químicos ou clínicos da soja e seus derivados. Embora não existam estatísticas no Brasil sobre o consumo de soja na alimentação direta, reconhece-se atualmente que parte do preconceito existente contra a soja foi superado. Acredita-se que os esforços da Embrapa, juntamente com o crescimento da divulgação pela mídia dos benefícios da soja para a saúde, tenham exercido influência considerável nesta mudança de cenário. Produtos à base de soja no mercado brasileiro Além do óleo de soja e seus derivados, que constituem um segmento relevante no mercado de alimentos, existem os produtos integrais ou protéicos da soja, que são o segmento de interesse nesta abordagem. O primeiro produto de soja no mercado brasileiro foi o extrato (ou “leite”) de soja em pó. Sua industrialização se iniciou nos anos 60, porém não existia, na época, um mercado consumidor consistente. Nos anos 70, houve uma série de programas governamentais visando a introdução do extrato de soja líquido na merenda escolar, porém este produto não teve boa aceitação devido ao seu sabor desagradável, que era resultado de uma tecnologia inadequada de processamento. Quase todos os programas foram desativados e o uso de soja para o consumo humano ficou reduzido, por um longo período. Entretanto, o extrato em pó sempre esteve disponível no mercado, seja na forma pura como formulado com diferentes sabores, vitaminas e outros nutrientes. Estes produtos são predominantemente encontrado nas lojas especializadas em alimentos “naturais”, mas também nas prateleiras de supermercados. Outro produto antigo no mercado brasileiro é a proteína texturizada de soja (PTS), conhecida popularmente como “carne” de soja. Seu consumo era mais restrito aos vegetarianos, além da utilização industrial, como ingrediente para a fabricação de - 225 Foros embutidos de carne. Mais recentemente, a proteína texturizada têm sido também encontrada na forma de aperitivo salgado, ofertado em diversos sabores ou como topping crocante para saladas e sopas, constituindo uma opção aos crôutons. Mais comum como aperitivo ou snack é a soja frita ou torrada (em inglês, soynuts), que apresenta aparência e sabor semelhantes ao do amendoim torrado. Assim como o amendoim, a soja aperitivo pode ser consumida como tal ou ser adicionada na preparação de pratos salgados ou doces. A farinha de soja industrial é comercializada como matéria-prima para elaboração de outros alimentos. Para uso doméstico, geralmente é encontrada em lojas de produtos naturais, onde é reembalada em quantidades menores. As farinhas industriais estão disponíveis nas versões: ativa (não tratada termicamente, utilizada em panificação) ou inativada, em diferentes graus (mais ou menos torrada). Geralmente, apresentam cor clara, sabor e aroma suaves, podendo substituir até 20% da farinha de trigo em pães, bolos, biscoitos e massas. Existem também diversas marcas de farinha de soja integral torrada, conhecida pelo nome japonês kinako. Geralmente são fabricadas por micro ou pequenas empresas, com distribuição local ou regional. Esta farinha apresenta sabor um pouco semelhante a amendoim torrado, agradável para ser consumida com granola, em mingaus, em vitaminas de frutas, etc. O concentrado e o isolado protéico de soja são produzidos e utilizados no Brasil há bastante tempo, porém não para o consumo doméstico e sim como ingredientes para a indústria de alimentos, que os utiliza em uma grande diversidade de produtos. No entanto, até alguns anos, a indústria não chamava a atenção sobre a presença destes ingredientes (assim como da PTS) de soja em seus produtos, uma vez que isto não parecia agradar ao consumidor. Com a descoberta das propriedades funcionais da soja e dos seus benefícios à saúde humana, nos últimos 15 anos, o panorama mudou e a soja como alimento vem ganhando destaque e aceitação crescentes entre os consumidores brasileiros. A quantidade de produtos à base de soja tem aumentado consideravelmente nos últimos anos e os rótulos exibem, com destaque, a informação de que o produto contém soja, mesmo que não contenha nenhuma alegação funcional. Também a qualidade dos alimentos de soja têm crescido. A preocupação com a qualidade destes produtos não diz respeito apenas à segurança alimentar dos consumidores, mas também tem por objetivo manter a reputação alcançada pela soja, que foi duramente conquistada. Por não fazer parte do hábito alimentar dos brasileiros, a soja encontrou muita resistência devido ao sabor que apresenta quando preparada pelos procedimentos tradicionais. Sua imagem, por muitos anos, esteve associada à de um alimento para animais ou como fonte protéica barata, para alimentação de populações desnutridas e/ou de baixa renda. Atualmente, o consumidor associa a soja à idéia de alimento um alimento funcional, nutritivo e saudável, além de versátil e saboroso. Hoje em dia, como em todo o mundo, o segmento de alimentos de soja no Brasil está em forte crescimento. O varejo do segmento tem apresentado crescimento recorde, estimando-se que, desde 1999, o setor tenha aumentado a participação em 900% no País, conforme dados repassados por uma grande empresa de alimentos. Pesquisa realizada por conhecido instituto brasileiro, sobre os produtos negociados no varejo alimentício, identificou que este mercado está em forte crescimento e que, em 2005, o consumo de bebidas à base de soja cresceu 60%. Vem aumentando significativamente o número de marcas disponíveis no mercado, a maioria delas ofertando produtos que contém apenas o extrato de soja (sabor “original”, com cerca de 2,5 % de proteína) ou o extrato misturados a sucos de diferentes frutas (geralmente 0,5% de proteína). Entre estes fabricantes ou distribuidores, estão várias empresas do ramo de laticínios. Também têm sido lançados, mais recentemente, sorvetes e iogurtes à base de soja. Estes últimos - 226 Foros podem ser produtos convencionais enriquecidos com proteína de soja ou produtos exclusivamente vegetais, obtidos pela fermentação do extrato de soja. Outros produtos novos têm surgido no mercado, como o creme de soja e o condensado de soja, para serem utilizados nas preparações caseiras em substituição ao creme de leite e ao leite condensado. Têm ainda aumentado os produtos de conveniência, como congelados à base de soja (hambúrguer, salsichas e nuggets de soja) e mesmo pratos prontos congelados (lasanha e ravióli de queijo com molho à bolonhesa de soja). A busca por alimentos mais saudáveis é uma tendência mundial e tem sido sentida no Brasil. Por isso, as grandes empresas têm investido no desenvolvimento de alimentos à base de soja, que sejam saborosos e de fácil preparo. No entanto, o preço praticado é, em geral, elevado, não permitindo que a população como um todo se beneficie do consumo destes produtos, que ficam restritos a uma parcela de poder aquisitivo mais alto. Em janeiro de 2005, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atualizou sua lista de produtos com alegações funcionais e/ou de saúde. Em relação à soja, a alegação envolve apenas a proteína: “O consumo diário de no mínimo 25 g de proteína de soja pode ajudar a reduzir o colesterol. Seu consumo deve estar associado a uma dieta equilibrada e hábitos de vida saudáveis". Referências 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. ALIMENTOS com alegações de propriedades funcionais e ou de saúde, novos alimentos/ingredientes, substâncias bioativas e probióticos. Disponível em <http://www.anvisa.gov.br/alimentos/comissoes/tecno_lista_alega.htm>. Acesso em: 24 abr. 2006. CARRÃO-PANIZZI, M.C.; ALMEIDA, L. A.; MIRANDA, L.C. KIIHL,R.A.S.; KIKUCHI, A.; MANDARINO, J.M.G; BORDIGNON, J.R.; ARIAS, C.A.A.; YORINORI, J.T.; ALMEIDA, A.M.R. Desenvolvimento de germoplasma de soja com características adequadas para o consumo humano in natura e para a indústria de alimentos. In: EMBRAPA SOJA. Resultados de pesquisa da Embrapa Soja 2000. Londrina, 2001, p.24-29. (Embrapa Soja. Documentos,156). MANDARINO, J.M.G. 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