Macro Brasil sexta-feira, 11 de dezembro de 2009 O preço do seguro Opinião Macroeconômica Saiu de moda criticar a acumulação de reservas internacionais. Afinal, ficou claro o seu benefício na crise do ano passado, quando o Banco Central teve que intervir intensamente no mercado cambial. Assim, a idéia de que vale a pena pagar o seguro representado pelas reservas internacionais parece ter encontrado sólidas evidências na realidade dos fatos. O objetivo deste texto é conferir quanto custa para o Brasil, nos dias de hoje, se prevenir contra os solavancos da economia global. Verificar, na verdade, o preço da apólice desse seguro. Afinal, tudo tem o seu preço. O termo sofisticado para o preço desse seguro é: “custo de carregamento das reservas internacionais”. Procurei essa informação no último balanço do Banco Central, porém os resultados apresentados não incluem esse detalhe. Não precisou de muito esforço para encontrar a seguinte explicação: "(...) tendo como objetivos principais dar maior transparência aos resultados das operações da autoridade monetária (...) o custo de carregamento das reservas internacionais e o resultado das operações de swap cambial efetuados no mercado doméstico são transferidos à União, por intermédio do Tesouro Nacional. (...).” Nota explicativa do Balanço do Banco Central de 2008 (fl. 41). Sendo assim, busquei o preço da apólice nas aberturas das contas do Tesouro Nacional disponíveis ao público. Mas não tive sucesso. Restou a alternativa de calcular por conta própria essa fatura. Ilan Goldfajn – Economista-Chefe Agustina De Marotte Adriano Lopes Aurélio Bicalho Darwin Dib Fernando Avalos Giovanna Siniscalchi Guilherme da Nóbrega João Pedro Bumachar Resende Laura Haralyi Luiz G. Cherman Murilo Cavalcanti Mauricio Oreng Roberto Prado Tomás Málaga [email protected] Calcular esse custo não é exatamente uma obra científica basta saber onde encontrar os ingredientes. Basicamente, precisamos do quanto rendem as reservas adquiridas pelo Banco Central e o custo de mantê-las. O Banco Central do Brasil divulga mensalmente o quanto recebe em dólares correntes de juros sobre as reservas. Esse valor dividido pelo estoque das reservas no período anterior fornece a remuneração em dólares numa taxa mensal. Essa taxa é multiplicada a cada mês pelo estoque de divisas que se acumularam, resultante das compras líquidas de dólar pelo Banco Central (desde jan-04, quando começaram as intervenções). Esse valor em dólares é transformado em reais, acumulado em 12 meses, e dividido pelo PIB. Pronto, temos uma série da remuneração da reserva como proporção do PIB. A última página deste relatório contém informações importantes sobre o seu conteúdo. Os investidores não devem considerar este relatório como fator único ao tomarem suas decisões de investimento. Macro Brasil – sexta-feira, 11 de dezembro de Há, também, uma forma alternativa de calcular o retorno sobre as reservas usando o dado anual de rentabilidade gerencial das reservas que o BC recentemente começou a divulgar. Essa metodologia leva em consideração a flutuação dos preços dos ativos que compõem as reservas. Transformei essa rentabilidade anual em mensal e segui os mesmos passos acima. A diferença de retorno entre esses dois conceitos pode ser vista no gráfico 1, abaixo. Gráfico 1 – Conceitos de rentabilidade das reservas internacionais (%) 9.6 9.4 9.3 8.3 6.0 5.0 4.5 4.4 3.6 4.8 3.7 3.6 2.2 Remuneração das reservas Rentabilidade gerencial 2002 2003 2004 (3.6) 2005 2006 2007 2008 Fonte: BCB e Itaú Unibanco Já o custo de manutenção das reservas foi calculado multiplicando a taxa Selic pelo estoque de divisas (adquiridas no mercado) convertido em reais. Isto porque o Banco Central na verdade intervém no mercado comprando dólares com os reais que adquire vendendo títulos ao público (que pagam a taxa Selic). No gráfico 2, vocês podem ver a trajetória mensal da remuneração e do custo das reservas que foram adquiridas nos leilões desde janeiro de 04. Assim, por exemplo, em outubro, o custo foi de R$ 2 bilhões contra uma remuneração de R$ 0,4 bilhões. Já o gráfico 3 mostra o custo líquido mensal em reais (barras) e o acumulado em 12 meses (linha). O resultado é o seguinte: nos últimos doze meses, findos em outubro, o custo de carregamento das reservas foi de R$ 25 bilhões. Vejam que o custo mensal recuou em 2009, o que produziu uma reversão da trajetória do custo acumulado nos últimos 12 meses. Essa tendência refletiu o processo de queda da taxa Selic no período. A queda da taxa Selic compensou, inclusive, a tendência declinante da remuneração das reservas, pois as taxas de juros globais sofreram forte recuo na esteira da crise. No futuro próximo, o custo de manutenção tende a subir diante da perspectiva de um novo ciclo de elevação da taxa básica de juro. Itaú Unibanco -2- Macro Brasil – sexta-feira, 11 de dezembro de Esse custo tem que ser contrabalançado com o benefício de proteger o país de choques externos, haja vista o que aconteceu há um ano atrás. Mas a questão é a magnitude. Há que se perguntar: qual é o limite para a acumulação de reservas dado o seu custo de carregamento? Gráfico 2 - Remuneração e custo das reservas internacionais obtidas via intervenção desde jan-04 (R$ bilhões correntes) 4.0 3.5 Remuneração Custo 3.0 2.5 2.0 1.5 1.0 0.5 ago/09 mai/09 fev/09 nov/08 ago/08 mai/08 fev/08 nov/07 ago/07 fev/07 mai/07 nov/06 ago/06 mai/06 fev/06 nov/05 ago/05 fev/05 mai/05 nov/04 ago/04 mai/04 fev/04 - Fonte: Itaú Unibanco Gráfico 3 - Custo líquido de carregamento das reservas internacionais obtidas via intervenções desde jan-04 (R$ bilhões correntes) 3.0 30.0 2.5 25.0 2.0 20.0 Mensal Acumulado últimos 12 m (direita) 15.0 1.0 10.0 0.5 5.0 - jan/05 fev/05 mar/05 abr/05 mai/05 jun/05 jul/05 ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 mai/06 jun/06 jul/06 ago/06 set/06 out/06 nov/06 dez/06 jan/07 fev/07 mar/07 abr/07 mai/07 jun/07 jul/07 ago/07 set/07 out/07 nov/07 dez/07 jan/08 fev/08 mar/08 abr/08 mai/08 jun/08 jul/08 ago/08 set/08 out/08 nov/08 dez/08 jan/09 fev/09 mar/09 abr/09 mai/09 jun/09 jul/09 ago/09 set/09 out/09 1.5 Fonte: Itaú Unibanco Itaú Unibanco -3- Macro Brasil – sexta-feira, 11 de dezembro de Gráfico 4 - Custo de carregamento das reservas internacionais obtidas via intervenções desde jan-04 (12 meses acumulado como % do PIB) 1.0% 0.9% 0.8% 0.7% Considerando apenas a remuneração das reservas Considerando o resultado gerencial 0.6% 0.5% 0.4% 0.3% 0.2% 0.1% out/09 jul/09 abr/09 jan/09 out/08 jul/08 abr/08 jan/08 out/07 jul/07 abr/07 jan/07 out/06 jul/06 abr/06 jan/06 out/05 jul/05 abr/05 jan/05 0.0% Fonte: Itaú Unibanco Darwin Dib Economista Informações Relevantes As informações contidas neste relatório foram produzidas pelo Itaú Unibanco Holding, dentro das condições atuais de mercado e conjuntura econômica, com base em informações e dados obtidos de fontes públicas. Tais informações não constituem, tampouco devem ser interpretadas como sendo uma oferta ou solicitação de compra ou venda de um instrumento financeiro, ou de participação em uma determinada estratégia de negócios em qualquer jurisdição. Todas as recomendações e estimativas aqui apresentadas derivam de nosso julgamento e podem ser alteradas a qualquer momento sem aviso prévio. O Itaú Unibanco Holding não se responsabiliza por quaisquer decisões de investimento tomadas com base nos dados aqui divulgados. Este material é para uso exclusivo de seus receptores e seu conteúdo não pode ser reproduzido, redistribuído publicado ou copiado de qualquer forma, parcialmente, sem a expressa autorização prévia do Itaú Unibanco Holding. Itaú Unibanco -4- integral ou