Anais
do II Encontro de
Iniciação Científica
Universidade de Cabo Verde
Novembro 2010
Edições
Anais do
I Congresso de
Iniciação Científica
da Universidade de Cabo Verde
Praia, Novembro 2009
Edições
NOVEMBRO DE 2010
FICHA TÉCNICA
Título
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Organizador
Marcelo Quintino Galvão Baptista
Copyright©
Universidade de Cabo Verde, organizador e autores dos textos
Apoio à organização
Carlos Jorge Spínola
Revisão
Maria Leonete Mota Sales
Coordenação Editorial
Gláucia Nogueira
Layout e paginação
Bernardo Lopes
Foto da capa
Helder Paz Monteiro
Tiragem
500 exemplares
Impressão
Imprensa Nacional de Cabo Vede, Praia, Novembro de 2010
Índice
Apresentação - António Correia e Silva, Reitor da Universidade de Cabo Verde .........
Parte I – Estrutura do Congresso ................................................................................
I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Universidade de Cabo Verde:
os passos iniciais, os objectivos e a organização
............................................................... Enquadramento do Programa de Iniciação Científica . ....................................................... Regimento do I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV ............................................
Órgãos do I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV ................................................
Temas de pesquisa, congressistas e orientadores..............................................................
Documento final................................................................................................................
Parte II – Discursos no acto de abertura . ..................................................................
Discurso do Presidente da República..............................................................................
Discurso do Secretário de Estado da Educação .............................................................
Discurso do Reitor da Universidade de Cabo Verde........................................................
Discurso do Presidente do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Uni-CV
Discurso da Delegada do Departamento de Ciências Sociais
e Humanas da Uni-CV em São Vicente...........................................................................
Parte III – Artigos de trabalhos premiados ................................................................
A ideia de alteridade em Emmanuel Lévinas
Admiro Alexandre Tavares ..............................................................................................
A concordância nominal interna ao do sujeito e a concordância verbal
no crioulo cabo-verdiano: uma análise morfossintáctica
Ideneida Moreno Monteiro............................................................................................... A articulação entre o pré-escolar e o ensino básico integrado
Nilton César Santos Soares............................................................................................. O campo das ondas oceânicas na região do arquipélago de Cabo Verde
Nereida Simone Rodrigues Évora.................................................................................... Espectroscopia de absorção atómica em forno de grafite com amostragem directa
de sólidos e sua aplicação em amostras ambientais de solos e fertilizantes
Neusa Sanches................................................................................................................ Cultivo de milheto (pennísetum glaucum) sob condições diferenciadas
de fontes e doses de nitrogênio
Jaquelino Lopes Varela....................................................................................................
Parte IV – Balanço..........................................................................................................
I CIC: uma avaliação sintética..........................................................................................
Apresentação
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Parte I
– Estrutura do Congresso
I CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA (CIC)
DA UNIVERSIDADE DE CABO VERDE:
OS PASSOS INICIAIS, OS OBJECTIVOS
E A ORGANIZAÇÃO
1. Introdução
Um protocolo assinado entre a Universidade de Cabo Verde e a CAPES –
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – foi o primeiro
passo para a inserção de um grupo de alunos da Uni-CV em sete universidades
federais do Brasil, no período de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, com
o apoio desse órgão do Governo brasileiro, responsável pela melhoria da pósgraduação. Nessas instituições, os alunos desenvolveram actividades no âmbito
do chamado Programa de Iniciação Científica.
O Programa de Iniciação Cientifica constitui um meio através do qual os alunos de cursos de graduação entram em contacto com o mundo da Ciência e da
pesquisa, acompanhados por um investigador orientador com larga experiência
no domínio.
Do processo conducente à produção de conhecimentos emerge o compromisso básico de exercitar uma aprendizagem para objectivos alavancados na
execução de actividades científicas que visam não apenas o envolvimento dos
profissionais da área, mas igualmente o de estimular os estudantes com valores
positivos, portanto, susceptíveis de dinamizar a aprendizagem e o crescimento
interior para objectivos mais nobres e mais perenes.
Foi expectativa da Uni-CV, com este I Congresso, dar a conhecer à comunidade universitária e à sociedade em geral, as experiências adquiridas no âmbito da
Iniciação Científica realizada no Brasil. Também, com isso, conseguir e acumular
ganhos que potenciem a investigação científica e a pesquisa aplicada, colocando
ambas ao serviço do desenvolvimento universitário e também dos esforços requeridos pelo desenvolvimento do país. Tanto assim é que, noutras Universidades com uma longa tradição de realização de actividades de Iniciação Científica
e de sua divulgação, o caso de muitas universidades brasileiras, constata-se que
os alunos que passaram por essa experiência não apenas têm, em geral, apresentado um desempenho de destaque em relação a seus pares, mas também
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
obtido os melhores resultados em processos de selecção para a pós-graduação
(mestrado e doutoramento).
Porém, foi justamente a certeza de consecução gradual desses propósitos
que tornou este desafio, simultaneamente, a última e a primeira razão de ser da
realização deste I Congresso de Iniciação Científica que perfilhámos sem tibiezas
e que augurámos promissor, na justa medida em que pretendíamos que fosse
capaz, tanto quanto possível, de conferir um enfoque que reflectisse as preocupações próprias das diferentes áreas disciplinares e, igualmente, identificar e
inventariar as preocupações da sociedade em geral e da comunidade científica
em especial quanto à evolução e progresso da ciência, sempre com o fito de
promover a sua divulgação, na perspectiva também de contribuir para influenciar
positivamente as políticas públicas e, deste modo, assegurar melhores condições
de vida às populações.
Actualmente, reforça-se consideravelmente a tendência para que os investigadores se organizem em redes de pesquisa científica, envolvendo institutos,
universidades e empresas, procurando assim responder à enorme e crescente
demanda em torno de questões preocupantes da época em que vivemos, ou seja,
questões atinentes ao trabalho, ao meio ambiente, às tecnologias, ao aumento da
pobreza e suas sequelas.
Nesse sentido, o incentivo à Iniciação Científica na Uni-CV afigurou-se e afigura-se não apenas como um processo pedagógico e estratégico para a qualificação
em termos de formação profissional, mas igualmente contribui significativamente
para uma gradual inversão das tendências actuais da nossa época, para além ainda de abrir novos horizontes aos nossos graduandos. Portanto, este Congresso,
que esperámos fosse o primeiro de outros tantos, teve e terá a responsabilidade de
se inserir no contexto sócio-histórico actual de Cabo Verde e nas perspectivas que
se anunciam ao longo dos novos tempos.
Durante o CIC, além da apresentação de trabalhos, houve a realização de actividades artístico-culturais complementares. Procurou-se proporcionar também
aos participantes um momento de confraternização e de lazer no intuito de reforçar os laços pessoais e de camaradagem, indispensáveis a uma eficaz e eficiente
colaboração científica.
2. Objectivos
O Congresso teve por finalidade:
• Iniciar os alunos de graduação nas lides da planificação do seu processo
profissional, isto é, inculcando neles hábitos de pensar e a necessidade
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
•
•
•
•
•
de elegerem a pesquisa como excelente meio de produção de conhecimentos;
Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos da
ciência e da tecnologia em alunos de graduação, por meio de participação
em projectos de pesquisa;
Estimular os docentes-investigadores a integrar os estudantes de graduação no processo de investigação científica;
Divulgar os trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica em diversas Universidades brasileiras, proporcionando-lhes a troca de informações e experiências em
ambiente propício;
Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos
programas de pós-graduação;
Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos diversos sectores da sociedade.
3. Apresentação dos trabalhos
Previu-se para a realização do I CIC um período de dois dias, tendo sido as
actividades repartidas em actividades científicas e artístico-culturais. Programouse a apresentação do trabalho de cada aluno durante 10 minutos, sob forma
de comunicação oral, com base no Relatório das actividades desenvolvidas no
Brasil. Esperou-se que essas actividades apoiassem os alunos na preparação da
sua monografia de fim de curso, os incentivassem a ingressarem em programa
de pós-graduação e aliciassem os seus pares no sentido de se interessarem pela
investigação científica.
Os trabalhos deveriam obedecer às seguintes normas: ter um máximo de 25
páginas; ter apresentação no formato de letra tipo Times New Roman tamanho
12 e constar do texto:
• Título do trabalho desenvolvido no âmbito do Programa de Iniciação Científica;
• Nome do discente e do docente tutor, com a informação das instituições
de ambos (Uni-CV e a universidade de acolhimento, bem como da CAPES
como entidade patrocinadora);
• Resumo (de até 500 palavras), com até 5 palavras-chave, com o texto correspondente em inglês ou francês (sempre que possível);
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
• Introdução, abarcando:
a. Racional do problema
b. Justificativa
c. Objectivo e/ou objectivos do estudo
• Método, incluindo:
a. Participantes,
b. Ambiente e Aparato,
c. Procedimento
• Resultados, tendo inseridos:
a. Gráficos
b. Tabelas
c. Quadros
• Discussão/Conclusão;
• Referências bibliográficas;
• Avaliação da experiência, contendo:
a. Considerações sobre a acolhida na universidade brasileira;
b. Inserção no Programa coordenado pelo professor-orientador;
c. Interacção com discentes brasileiros;
d. Interacção com o tutor;
e. Aspectos positivos e negativos;
f. Sugestões.
As sessões plenárias desenvolver-se-iam por painéis temáticos correspondentes às áreas disciplinares.
A intermediação e a moderação dos trabalhos foram asseguradas por uma equipa da área disciplinar correspondente ao Painel temático em apresentação.
Seguiu um período em que os participantes podiam debater, comentar ou dirigir perguntas aos alunos que apresentaram trabalhos.
A apresentação e a avaliação dos trabalhos regeu-se pelos seguintes dispositivos: até ao dia 14 de Outubro, inclusive, todos os trabalhos que seriam
apresentados deviam, mediante a entrega de comprovativo, ser depositados, em
versão impressa, junto do Secretariado do CIC (Secretárias do DCSH e C&T) e
enviados, em versão electrónica, para o Coordenador do Comité Científico, Prof.
Dr. Carlos Jorge Spínola (e-mail: [email protected]).
Na apresentação dos trabalhos, os alunos deviam apenas cingir-se ao essencial,
fazendo assim a demonstração de sua capacidade de síntese, um elemento chave
que, para efeitos de avaliação, o Comité Cientifico deveria levar em devida conta.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A avaliação dos trabalhos compôs-se de dois elementos fundamentais: o trabalho (sua valia científica) e a apresentação respectiva no CIC.
• Para além destes dois critérios, coube ao Comité Cientifico o estabelecimento de outros critérios complementares, nomeadamente, os procedimentos e processos de avaliação, pelo que se afigurou altamente recomendável que o Comité Cientifico realizasse uma reunião antes do início
do CIC e uma outra no decorrer do mesmo;
• Para efeitos de uma avaliação preliminar, o Coordenador do Comité Científico deveria remeter aos membros deste, os respectivos trabalhos recepcionados, devendo cada um desses membros, por seu turno, comunicar ao
Comité o resultado da avaliação preliminar, de conformidade com os procedimentos estabelecidos pelo mesmo e pela Comissão Organizadora.
Os alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica no Brasil
tinham o dever de apresentar o seu trabalho no CIC, conforme orientação fornecida, nesse sentido, pela Comissão constituída anteriormente. Assim, cada aluno
usufruiu do estatuto de congressista e gozou, como tal, dos direitos e assumiu
os deveres previstos no Regimento do CIC. Os demais alunos, bem como os
professores e os quadros da Uni-CV que não integraram a Organização do CIC,
assumiram a condição de participantes.
4. Organização
• Superintendência
- Reitor: Prof. Doutor António Correia e Silva.
- Pró-Reitora para a Graduação, Inovações Pedagógicas, Ensino à Distância
e Assuntos Académicos: Me. Arlinda dos Santos Cabral.
• Comissão Organizadora
- Co-Presidentes: Prof. Doutor Marcelo Galvão Baptista - Presidente do CD do
DCSH, Prof. Doutor António Querido - Presidente do CD do DCT e Prof. Doutor
Paulino Monteiro - Presidente do CD do DECM.
- Prof. Doutor Leopoldo Amado - Coordenador do Curso de História.
- Prof. Doutor Edwin Pile - Docente do Departamento de Ciência e Tecnologia.
- Dra. Arminda Barros - Directora de Gabinete de Comunicação & Imagem da
Uni-CV
- Profa. Me. Carmelita Silva - Docente do Curso de Ciências Sociais.
- Eng. Odair Monteiro - Responsável pelo Património da Uni-CV.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
• Comité Científico
- Prof. Doutor Lourenço Gomes - em representação da Coordenação de História.
- Prof. Doutor Carlos Jorge Spínola - Coordenador do Curso de Ciências de
Educação.
- Prof. Daniel Medina - Coordenador do Curso de Estudos Cabo-verdianos e
Portugueses.
- Prof. Doutor Alcides Moura - Coordenador do Curso de Ciências Sociais.
- Profa. Me. Lionilde Sá Nogueira - Coordenadora do Curso Educação de Infância.
- Profa. Me. Cândida Gonçalves - Coordenadora do Curso de Estudos Ingleses.
- Prof. Paul Mendes - Coordenador do Curso de Estudos Franceses.
- Prof. Dr. Sidónio Monteiro - Coordenador do Curso de Biologia.
- Profa. Dra. Elcelina Silva - Coordenadora do Curso de Informática.
- Prof. Eng. Hipólito Gonçalves - Coordenador do Curso de Engenharia Civil.
- Profa. Me. Ivanilda Cabral - Coordenadora do Curso de Matemática.
- Prof. Eng. Tomás Tavares - Coordenador do Curso de Química.
• Staff de Apoio
- Supervisão: Profa. Me. Carmelita Silva
- Comissão de Redacção: Dra. Arminda Barros
Profa. Me. Fátima Fernandes
Prof. Eng. Hipólito Gonçalves
- Património, Segurança e Recursos: Eng. Odair Monteiro
- Recepção, Protocolo, Restauração e Secretariado: Sra. Manuela Furtado e
Sra. Mónica Brito
O CIC será realizado no Campus de Palmarejo, durante os dias 22 e 23 de
Outubro de 2009.
5. Premiação dos trabalhos
O I Congresso de Iniciação Científica premiou o melhor trabalho de cada uma
das diferentes áreas disciplinares, mediante a atribuição de um Diploma de Mérito de Investigação Científica. Os trabalhos distinguidos seriam publicados no
portal da Uni-CV ou numa das suas revistas e são, agora, objecto de publicação
na forma impressa.
6. Certificação
Os congressistas receberam um certificado de participação no Congresso.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
ENQUADRAMENTO DO PROGRAMA
DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
A CAPES é uma agência brasileira voltada para o fomento à pós-graduação
nas universidades do Brasil. A Agência aposta nas actividades do programa de
iniciação científica enquanto um empreendimento que, sendo incentivado na graduação, nas mais diversas áreas do conhecimento, constitui uma forma seguramente poderosa de alimentar a pesquisa na pós-graduação. A experiência ao
longo de anos tem atestado isso.
O programa funciona com pouca burocracia. Cada docente engajado em pesquisa e responsável por uma dada disciplina, na qual os alunos já tenham vencido
um certo percurso académico (por exemplo, os dois primeiros semestres lectivos), após constatar aquele ou aqueles discentes que se destacam pelo interesse, dedicação e excelente desempenho, faz-lhes um convite para a participação
em seu projecto particular, conforme disponibilidade de vaga. Caso haja vários
alunos interessados e com perfil de pesquisadores em potencial, o professor então realiza uma selecção autonomamente, podendo consistir de um teste/prova
de conhecimentos na área específica do seu projecto e um teste/prova de proficiência em uma língua estrangeira (pertinente para a área).
Ao ingressar no programa, o aluno recebe uma bolsa e assina um contrato
de um ano, mediante o qual se compromete a dedicar-se à pesquisa, a apresentar os resultados obtidos num evento científico especialmente preparado
para esse fim, num formato próprio, a apresentar um relatório parcial, decorridos seis meses, e um relatório final, após um ano. A experiência de professores tutores de alunos, no âmbito desse programa, tem-se mostrado funcional.
Aliás, os resultados indicam que os alunos que passaram pela iniciação científica não apenas têm, em geral, apresentado um desempenho de destaque
em relação aos seus pares, como também têm desenvolvido habilidades em
pesquisa e obtido resultados superiores aos demais nas selecções para mestrado e doutoramento.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A Universidade de Cabo Verde assinou com a CAPES, no início deste ano1,
um protocolo de cooperação que prevê, dentre outros aspectos, a inserção de
40 alunos, de diversas áreas, em actividades de iniciação científica em universidades brasileiras, nos meses de Agosto e Setembro2 . Para dar andamento a
esse processo, a Uni-CV elaborou uma proposta de critérios relativos à selecção
dos candidatos à iniciação científica no Brasil, à inserção dos mesmos em universidades de acolhida e aos procedimentos a adoptar, após a realização das
actividades do programa.
Vários foram os critérios trabalhados para a escolha dos alunos que beneficiaram desta primeira experiência de iniciação científica, destacando-se,
dentre outros, a necessidade de um contrato entre a Uni-CV e o discente seleccionado para participar na iniciação científica em que este expressamente
se compromete a dispor de 20 horas semanais para a pesquisa desenvolvida
pelo docente da universidade de acolhida (no Brasil), bem como de idêntica
carga horária para actividades complementares. O aluno deve, igualmente,
apresentar ao coordenador do curso, após o retorno à Uni-CV, um relatório
descritivo do desempenho durante a realização das actividades, num formato
próprio, criado pela instituição, com a avaliação do docente tutor e apresentar
os resultados obtidos num evento científico formatado para esse fim 3, após o
retorno à Uni-CV.
Paralelamente, tem de submeter à apreciação do docente tutor, a proposta
de elaboração de um artigo para publicação em revista científica cabo-verdiana,
brasileira ou estrangeira, como resultado da pesquisa desenvolvida. Aprovada a
proposta e, para materializá-la, o Reitor constituiu uma comissão, formada por
docentes das unidades orgânicas na Praia e em Mindelo.
Com apoio imprescindível dos coordenadores e dos presidentes, a comissão
procedeu à selecção dos candidatos, tendo obtido uma lista inicial de mais de
cinquenta discentes e uma lista final de quarenta, que foi então submetida pelo
Reitor à CAPES, no início de Abril passado. Após isso, essa Agência sinalizou
a aceitação desses candidatos por diversas universidades do Brasil, o que ficou
confirmado no dia 25 de Maio, com o envio à Uni-CV da relação dessas universidades, bem como a identificação dos orientadores disponíveis, consoante as
áreas de interesse demandadas.
A segunda etapa do processo caracterizou-se pelos procedimentos de inscrição dos discentes contemplados, para conhecimento dos orientadores e universidades acolhedoras, bem como pelos devidos acertos em termos dos cuidados
1 Ano de 2009
2 Meses de férias na Uni-CV e de actividades lectivas em universidadedes brasileiras.
3 Evento que passou a configurar-se como um congresso científico, tendo o I CIC como arranque.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
a observar durante o desenvolvimento das actividades de pesquisa e após o
retorno ao país.
Foi grande a expectativa da Uni-CV quanto ao êxito do desempenho dos
discentes no Brasil, honrando, assim, o protocolo assinado com a CAPES, o
que poderá aumentar a probabilidade de outros estudantes virem a ser premiados da mesma forma, num futuro breve, e dignificando, cada vez mais, a nossa
instituição.
Esse acordo com a CAPES constitui mais um passo rumo à consolidação da
Uni-CV como uma instituição pública que aposta no facto de que o ensino de
qualidade necessariamente deve ter a pesquisa científica como sua fiel parceira.
Marcelo Galvão Baptista*
*
Presidente do CD do DCSH em 2009/2010 e presidente da Comissão Organizadora do I Congresso de Iniciação Científica
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
INSTITUIÇÕES PARCEIRAS
CAPES
O I Congresso de Iniciação Científica, CIC, da Uni-CV foi realizado graças ao
apoio fundamental de duas instituições: a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior), do Brasil, e o Escritório dos Fundos e Programas das
Nações Unidas em Cabo Verde. A CAPES é uma agência brasileira que desempenha um papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação (mestrado
e doutorado) em todos os estados brasileiros e também além fronteiras, graças aos
acordos de cooperação com outros países, designadamente lusófonos.
No caso do nosso país, os acordos estabelecidos entre o Brasil e Cabo Verde
envolvem a CAPES em matéria de capacitação dos recursos humanos e de implementação do ensino superior em Cabo Verde. Ao abrigo de um Protocolo de Parceria assinado entre a CAPES e a Uni-CV, em Janeiro de 2009, a Agência brasileira
comprometeu-se a apoiar a Universidade pública no desenvolvimento da formação
de recursos humanos ao nível da pós-graduação e aperfeiçoamento de docentes e
pesquisadores em sectores altamente especializados.
Paralelamente, a CAPES vai ajudar na criação de um sistema de mobilidade
de docentes (especialmente de jovens doutores), tendo em vista o reforço do staff
docente da Uni-CV, bem como em projectos de investigação em que docentes e
pesquisadores brasileiros e cabo-verdianos trabalham linhas de investigação afins
com o envolvimento das Universidades e instituições científicas dos dois países.
O apoio à criação de um programa de iniciação científica de alunos de nível
de graduação, com particular incidência nas áreas de ciências biológicas e de
engenharias constitui outro objectivo do Protocolo entre a CAPES e a Uni-CV,
que resultou na frequência, em sete universidades brasileiras, de 31 alunos da
Uni-CV, no período de 2 de Agosto a 5 de Outubro de 2009. As universidades
acolhedoras foram:
• Universidade Federal de Alagoas - UFAL
• Universidade Federal de Goiás - UFG
• Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS
21
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
• Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
• Universidade Federal de São Carlos - UFSCar
• Universidade Federal de Uberlândia - UFU
• Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM
No regresso, foi realizado, nos dias 22 e 23 de Outubro de 2009, o I Congresso
de Iniciação Científica da Uni-CV, que teve como propósito fundamental a apresentação dos resultados do trabalho realizado no Brasil (mais informações: http://www.
capes.gov.br).
ESCRITÓRIO DOS FUNDOS E PROGRAMAS
DAS NAÇÕES UNIDAS EM CABO VERDE
Para a realização do I Congresso de Iniciação Científica, a Uni-CV contou com o
financiamento do Escritório dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo
Verde, a par de um engajamento importante da Sra. Petra Lantz-de Bernardis, coordenadora residente do Sistema das Nações Unidas e Representante dos Fundos
e Programas das Nações Unidas no nosso país.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
REGIMENTO DO I CONGRESSO
DE INICIAÇÃO CIENTIFICA DA UNI-CV
Capítulo I
Do Congresso e seus objectivos
Artigo 1º
O I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Uni-CV realiza-se, na cidade da
Praia, nos dias 22 e 23 de Outubro de 2009.
Artigo 2º
Constituem objectivos do I CIC:
• Proceder à divulgação de trabalhos de pesquisa realizados por alunos
de graduação que desenvolveram actividades de iniciação científica em
diversas Universidades brasileiras, proporcionando­lhes a troca de informações e de experiências em ambiente propício;
• Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos
da ciência e tecnologia em alunos de graduação, por meio de participação em projectos de pesquisa;
• Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos
programas de pós-graduação;
• Estimular os docentes-investigadores a integrarem os estudantes de
graduação no processo de investigação científica;
• Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos
diversos sectores da sociedade.
Capítulo II
Dos Congressistas e Participantes
Artigo 3º
Serão considerados congressistas:
•
Todos os estudantes que participaram no Programa de Iniciação Científica, no Brasil.
23
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Artigo 4º
Serão considerados participantes do I CIC:
•
•
•
•
•
Coordenadores dos cursos contemplados pelo Programa;
Professores das disciplinas que vão ser objecto de avaliação no CIC;
Dirigentes das Unidades Orgânicas;
Alunos da Uni-CV que não tenham estado no Brasil no quadro da cooperação com a CAPES;
Outros.
Artigo 5º
Serão entidades convidadas do I CIC:
•
•
•
•
Entidades oficiais;
Convidados;
Parceiros;
Patrocinadores.
Artigo 6º
A condição de congressista será comprovada pelo uso de crachá de identificação.
Capítulo III
Direitos dos Congressistas e dos Participantes
Artigo 7º
1. Aos congressistas é assegurado o direito de:
•
•
•
•
Participar em todas as sessões do CIC;
Apresentar comunicações;
Apresentar propostas e/ou interpelações (por escrito) à presidência
das sessões;
Eleger e ser eleito para desempenhar funções no âmbito do CIC.
1. Todo o congressista tem direito à palavra e ao voto;
2. Nos espaços destinados a perguntas/respostas e/ou debate, os congressistas não podem, em caso nenhum, entrar em diálogo nem intervir mais do que
uma vez sobre o mesmo assunto.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Artigo 8º
Deveres dos Congressistas e dos Participantes
São deveres do Congressistas:
•
•
•
•
•
•
•
•
Colaborar activamente para o sucesso integral do evento;
Assistir a todas as sessões do Congresso, nomeadamente a de outras
áreas disciplinares a que o (a) congressista não esteja vinculado(a);
Fazer uso da palavra no quadro da apresentação dos trabalhos e nos
espaços destinados a perguntas/respostas e/ou debate;
As intervenções apenas ocorrem após a inscrição junto da Presidência
da Mesa e com a devida autorização desta;
No caso da apresentação dos trabalhos, cumprir com rigor, os limites
de tempo previamente estabelecidos no Programa;
Zelar pela pontualidade, assiduidade e participação dinâmica nos trabalhos do Congresso;
Evitar conversas paralelas com os colegas em plena sessão do Congresso;
Não circular pelo auditório durante as sessões de trabalho.
Artigo 9º
1. Os alunos participantes que não tenham estado no Brasil, no quadro da
cooperação Uni-CV/CAPES, não têm direito à palavra e nem ao voto.
2. Os docentes da Uni-CV, assim como os membros do Comité Científico
do I CIC têm direito de assistirem às sessões, podendo, todavia, intervir em situações em que seja necessário melhor situar ou centrar os debates ou quando
solicitados pela presidência da Mesa da sessão.
Capítulo IV
Da organização e funcionamento do Congresso
Artigo 10º
Organização do Congresso
São actividades do Congresso:
a) Sessão de abertura; b) Conferências para apresentação dos trabalhos; c)
Relatos de experiência; d) Workshops por áreas disciplinares e) Sessões plená-
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
rias de trabalho; f) Avaliação do melhor trabalho; g) Atribuição do Diploma de Mérito
de Investigação Científica aos autores dos melhores trabalhos; h) Noite cultural; i)
Sessão de encerramento.
Artigo 11º
Funcionamento do Congresso
1. Os trabalhos desenvolvem-se em sessões plenárias e workshops por áreas disciplinares.
2. Cada sessão plenária destina-se a um painel.
3. Cada sessão plenária será dirigida por uma Mesa, que será liderada por
um presidente, coadjuvado por um secretário e por um gestor do tempo.
4. O apoio logístico será assegurado por um secretariado.
5. A comissão de redacção assegura a recolha dos documentos do Congresso, nos termos dos quais produzirá uma brochura contendo os resumos das apresentações, os três melhores trabalhos e as recomendações do I CIC.
Artigo 12º
Apresentação dos trabalhos
1. A apresentação de cada aluno terá a duração de 10 minutos.
2. Os congressistas podem optar pela utilização de recursos tecnológicos
e outros que entenderem ser convenientes para a apresentação dos respectivos
trabalhos;
3. As sessões de perguntas e respostas e/ou debate não podem exceder os
30 minutos em cada painel.
Capítulo V
Disposições finais
1. Os casos omissos nesse Regimento serão resolvidos pela Comissão Organizadora do Congresso.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
PROGRAMA
Dia 22 – Quinta-feira
Sessão solene de Abertura
Hora: 09:00 h - 11:00 h
Local: Auditório da Reitoria da Uni-CV
Maitre de cérémonie: Profa. Maria dos Anjos Santos
- Alocução de Boas Vindas do Presidente do DCSH, Prof. Doutor Marcelo
Galvão Baptista
- Alocução da Delegada do Pólo de São Vicente da Uni-CV,
Profa. Dora Pires
- Alocução do Magnífico Reitor da Uni-CV, Prof. Doutor António Leão
Correia e Silva
- Alocução do Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares
- Alocução de S. Excelência o Senhor Presidente da República
de Cabo Verde, Comandante de Brigada Pedro Pires
Pausa Café: 11:00 h - 11:30 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus)
Painel I – Educação, Educação de Infância e Nutrição
Hora: 11:30 h - 13:30 h
Local: Auditório do Campus de Palmarejo
Composição da Mesa: Prof. Carlos Spínola - Presidente, Profa. Lionilda Sá
Nogueira e Profa. Fernandina Fernandes
→11:30 h - 13:00 h - Romina Cibele Inocêncio dos Reis / UFVJM,
Efeitos da desnutrição.
→11:40 h - 11:50 h - Nilton César Santos Soares / UFVJM, A articulação
entre o pré-escolar e o ensino básico integrado.
→11:50 h - 12:00 h - Cátia Helena Ramos Delgado / UFVJM, Gestão de
instituições educativas.
→12:00 h - 12:10 h - Uiliana de Fátima Fortes Monteiro / UFVJM, Inclusão de
crianças com deficiência.
→12:10 h - 12:20 h - Simonídio Viana / UFSC, Planificação no ensino
na sala de aula.
→12:20 h - 12:30 h - Fredson da Luz / UFSC, Relação professor-aluno.
27
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
→12:30 h - 12:40 h - Michel Ramos / UFU, As novas tecnologias e a prática
de Tandem (Estudos Ingleses).
→12:40 h - 13:00 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate
Almoço - 13:00 h - 15:00 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus)
Painel III – Engenharia e Matemática
Hora: 15:00 h -17:00 h
Local: Auditório do Campus de Palmarejo
Composição da Mesa: Profa. Eliana Dias - Presidente, Prof. Wilson Monteiro e
Profa. Ivanilda Cabral
→15:00 h - 15:10 h - Nereida Simone Rodrigues Évora / UFRGS, O campo das
ondas oceânicas na região do arquipélago de Cabo Verde .
→15:10 h - 15:20 h - Sidney Fortes Neves / UFRGS, Engenharia mecânica.
→15:20 h - 15:30 h - Stephanie Rocha Alves / UFSC, Planeamento e
administração dos transportes marítimos.
→15:30 h - 15:40 h - Ernesto Silva Fortes / UFSCar, Engenharia civil.
→16:40 h - 17:00 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate.
Jantar Livre - 17:00 h – 20:00 h
Noite Cultural
Hora: 20:30 h – 22:30 h
Local: Terraço do Edifício do Campus de Palmarejo
Animação: Gil Moreira
Dia 23 – Sexta-feira
Painel IV – Biologia
Hora: 09:30 h – 11:30 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Composição da Mesa: Prof. Edwin Pile - Presidente, Prof. Carlos Spínola
e Profa. Elga Carvalho
→09:30 h - 09:40 h - Helder Maikon Rodrigues Pires / UFSC, Biologia marinha.
→09:40 h - 09:50 h - Sílvio Moreno Delgado Nascimento / UFRGS, Microbiologia.
→09:50 h - 10:00 h - Madonna Aline Dias Ramos / UFU, Microbiologia.
→10:00 h - 10:10 h - Hélder Evangelista da Pereira Oliveira / UFSC, Microbiologia.
→10:10 h - 10:20 h - Evelyne Sofia Monteiro Pereira / UFU, Biologia Molecular.
Pausa Café – 10:20 h – 10:40 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus).
→10:40 h - 10:50 h - Aurísia do Livramento David Lopes / UFU, Biologia Molecular.
→10:50 h - 11:00 h - Jaelsa Mira Gonçalves Moreira / UFSCar, Biologia Animal.
→11:00 h - 11:10 h - Elves Heleno Gomes Duarte / UFRGS, Bioinformática.
28
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
→11:10 h - 11:20 h - Jaquelino Lopes Varela / UFAL, Cultivo de milheto
(Pennísetum glaucum) sob condições diferenciadas de
fontes e doses de nitrogénio.
→11:20 h -11:40 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate.
Almoço – 12:30 H - 14:30 H (a servir nas instalações da Cantina do Campus)
Painel II - Língua, Literatura e Cultura - ECVP e Estudos
Caboverdianos e Portugueses
Hora: 14:30 h – 15:30 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Composição da Mesa: Prof. Daniel Medina - Presidente,
Profa. Fátima Fernandes e Profa. Flávia Bá
→14:30 h -14:40 h - Ideneida Moreno Monteiro / UFU, Linguística.
→14:40 h - 14:50 h - Maria do Céu dos Santos Baptista / UFG, Linguística.
→14:50 h - 15:00 h - Mónica Raquel Gonçalves Andrade / UFRGS, Didáctica.
→15:00 h - 15:10 h - Cesária Janine Dias Gomes Leite / UFU, Literatura
Comparada.
→15:10 h -15:30 h -Sessão de perguntas e respostas e/ou debate.
Painel VI – História e Filosofia
Hora: 16:00 h – 17:40 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Composição da Mesa: Prof. Lourenço Gomes - Presidente, Prof. Carlos Belino Sacadura e Profa. Nélida Brito
→16:00 h - 16:10 h - Admiro Alexandre Tavares / UFU, Ética e filosofia política.
→16:10 h - 16:20 h - Adilson Dias Ramos / UFRGS, História, Ramo Património.
→16:20 h - 16:30 h - Euclides Jorge Varela da Silva / UFRGS, Ramo Património.
Pausa Café – 16:30 h -17:00 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus)
→17:00 h – 17:10 h - Tomásia Semedo Afonso / UFSC, Ramo Património.
→17:10 h -17:20 h - Josefino Quedi Barbosa Brandão / UFU, Ramo Património.
→17:20 h -17:40 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate.
Painel VIII – Química
Hora: 17:40 h -18:20 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Composição da Mesa: Prof. Tomas Tavares - Presidente, Profa. Maria dos
Anjos Lopes e Prof. Arlindo Monteiro
→17:40 h - 17:50 h - Neusa Sanches / UFRGS, Química Ambiente (Estudo de metais pesados nos solos agrícolas.)
29
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
→18:00 h - 18:10 h - Maria Filipa Pereira / UFRGS, Segurança química
e normalização / Química Alimentar.
→18:10 h - 18:20 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate.
Workshops e Plenária do Congresso
Hora: 18:20 h - 19:00 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
-18:20 h - 18:45 h -Workshops por áreas disciplinares para produção de Conclusões e Recomendações (com o apoio dos Coordenadores de Curso respectivos).
-18:45 h - 19:00 h - Plenária do Congresso para a Aprovação do Documento Final
dos Congressistas.
Sessão solene de Encerramento
Hora: 19:00 h - 20:00 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Maitre de conférences: Profa. Maria dos Anjos Lopes
- Alocução do Presidente do Departamento de C & T.
- Alocução do Presidente do Departamento de ECM.
- Alocução de Encerramento do Prof. Doutor António Correia e Silva,
Magnifico Reitor da Uni-CV
Jantar-buffet oferecido pela Uni-CV aos congressistas
Hora: 20:00 h - 22:30 h
Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV
Música ambiente / Música ao vivo
30
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
TEMAS DE PESQUISA,
CONGRESSISTAS E ORIENTADORES
Painel I: Educação, Educação de Infância e Nutrição
1. Romina Cibele Inocêncio dos Reis / UFVJM
Tema: EFEITOS DA DESNUTRIÇÃO E DO ALOJAMENTO NO PESO
CORPORAL, CONSUMO DE ALIMENTOS E ANSIEDADE EM RATOS
WISTAR
Orientadora: Profa.Tânia R. Riul
Colaboradoras: Nathália M. Ribeiro; Sophia Coelho
2. Nilton César Santos Soares / UFVJM
Tema: ARTICULAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO INFANTIL E O ENSINO
FUNDAMENTAL
Contexto: ESCOLA DORALICE ARRUDA
Orientador: Prof. Leonardo Neves
3. Cátia Helena Ramos Delgado / UFVJM
Tema: A GESTÃO DAS INSTITUIÇÕES INFANTIS: O CASO PARTICULAR DA “ESCOLA MUNICIPAL DORALICE ARRUDA”
Orientador: Prof. Leonardo dos Santos Neves
4. Uiliana de Fátima Fortes Monteiro / UFVJM
Tema: INCLUSÃO DE CRIANÇAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA
MENTAL NA CLASSE REGULAR
Orientador: Profa. Santusia Nunes Rabelo
5. Simonídio Viana / UFSC
Tema: INSTRUCTIONAL PLANING: A PRELIMINARY COMPARATIVE
STUDY BETWEEN THE BRAZILIAN AND CAPEVERDEAN EDUCATIONAL CONTEXTS
Orientadora: Profa. Mailce Mota (UFSC-DLLE)
6. Fredson da Luz / UFSC
Tema: RELACIONAMENTO PROFESSOR/ALUNO
Orientadora: Profa. Viviane M. Heberle
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
7. Michel Ramos / UFU
Tema: AS NOVAS TECNOLOGIAS E A PRÁTICA DE TANDEM
Orientadora: Profa. Dilma Maria de Mello
Painel II: Engenharias e Matemática
8. Nereida Simone Rodrigues Évora / UFRGS
Tema: CAMPOS DE ONDAS OCEÂNICAS NA REGIÃO DE CABO VERDE
Orientador: Professor Lenadro Farina
9. Sidney Fortes Neves / UFRGS
Tema: MODELAGEM DE ESTRUTURAS/MECÂNICA DA FRACTURA E
NAVAL
Orientador: Prof. Ignacio Iturrioz
10. Stephanie Rocha Alves / UFSC
Tema: O COMÉRCIO EXTERIOR ENTRE BRASIL E CABO VERDE
11. Ernesto Silva Fortes / UFSCar
Tema: ESTUDO DAS MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS NAS EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS DE ESTUDANTES NUMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR PÚBLICO
Orientador: Profa. Maria Aridenise Macena Fontenelle
Painel III: Biologia
12. Helder Maikon Rodrigues Pires / UFSC
Tema: RESPOSTA DAS MACROALGAS PERANTE VARIAÇÕES DE
TEMPERATURA E SALINIDADE (Ulva fasciata e Sargassum stenophylum)
Orientador: Prof. Paulo Horta
13. Sílvio Moreno Delgado Nascimento / UFRGS
Tema: AVALIAÇÃO HIGIÉNICO-SANITÁRIA E ANÁLISE GENOTÍPICA
DE Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Listeria monocytogenes ISOLADOS EM UNIDADES DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO
Orientador: Prof. Marisa da Costa
14. Madonna Aline Dias Ramos / UFU
Tema: CARACTERIZAÇÃO BIOQUÍMICA E MORFOLÓGICA DOS ISOLADOS DE BACTÉRIAS ENDOFÍTICAS E DO RIZOPLANO NA CULTURA DO MILHO (Zea mays L.)
Orientador: Prof. Adão de Sequeira Ferreira
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
15. Hélder Evangelista da Pereira Oliveira / UFSC
Tema: CONCENTRAÇÃO E DETECÇÃO DE ANDENOVÍRUS, POLIOMAVÍRUS, NOROVÍRUS E VÍRUS DA HEPATITE A EM AMOSTRA DE
ÁGUA DO MAR
Orientadora: Profa. Célia Regina Monte Barardi
Co-orientadora: Vanessa Moresco
16. Evelyne Sofia Monteiro Pereira / UFU
Tema: TÉCNICAS BIOQUÍMICAS
Orientador: Prof. Foued Salmen Espindola
Co- orientador: Prof.. Renato Oliveira
17. Aurísia do Livramento David Lopes / UFU
Tema: ACTIVIDADE ANTITUMORAL DO ALIMENTO LARVAL DE ABELHA SEM FERRÃO BRASILEIRA
Co-autoria: Robson José de Oliveira Júnior e Carlos U. (Laboratório de
Genética, Instituto de Genética e Bioquímica. Universidade Federal de
Uberlândia. Uberlândia - MG)
Orintador/a: Não especificado/a pela aluna.
18. Jaelsa Mira Gonçalves Moreira/UFSCar
Tema: FERRAMENTAS USADAS NA GENÉTICA MOLECULAR
Orientadores: Profs. Marco António Dela Lama e Sílvia Nassif Del Lama
19. Elves Heleno Gomes Duarte / UFRGS
Tema: APLICAÇÃO DE RECURSOS IDRISI PARA DETERMINAR O PERÍODO DE FLORAÇÃO DA ESPÉCIE Euterpe edulis Martius
Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno.
20. Jaquelino Lopes Varela / UFAL
Tema: CULTINO DE MILHETO (Pennsisetum glaucum) A DIFERENTES
FONTES E DOSES DE NITROGÉNIO
Orientador: Prof. José Teodorico
Painel IV: Língua, Literatura e Cultura
21. Ideneida Moreno Monteiro / UFU
Tema: A CONCORDÂNCIA NOMINAL INTERNA AO DP SUJEITO E A
CONCORDÂNCIA VERBAL NO CRIOULO CABO-VERDIANO: uma análise morfossintáctica
Orientadora: Profa .Simone Floripi
33
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
22. Maria do Céu dos Santos Baptista / UFG
Tema: REPRESENTAÇÃO DO FEMININO NA POESIA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA: Uma leitura de “Bagagem”, de Adélia Prado
23. Mónica Raquel Gonçalves Andrade / UFRGS
Orintador/a: Não especificado/a pela aluna.
Tema: AVALIAÇÃO DE PROFICIÊNCIA EM LÍNGUA PORTUGUESA
Participantes: Margarete Schlatter, Juliana Roquele Schoffen, Gabriela
Bulla, Michele Saraiva Carilo e Camila Dilli Nunes
24. Cesária Janine Dias Gomes Leite / UFU
Tema: O PERCURSO HISTÓRICO DA LITERATURA COMPARADA
Orientadora: Profa .Maria Suzana do Carmo
Painel V: História e Filosofia
25. Admiro Alexandre Tavares / UFU
Tema: ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA
Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno.
26. Adilson Dias Ramos / UFRGS
Tema: PATRIMÓNIO CULTURAL E IDENTIDADES: PRESERVAÇÃO
DA MEMÓRIA DE COMUNIDADES E DE ACERVOS PARA PESQUISA Porto Alegre num contexto pluriétnico
Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno.
27. Euclides Jorge Varela da Silva / UFRGS
Tema: PATRIMÓNIO CULTURAL E IDENTIDADES: PRESERVAÇÃO DA
MEMÓRIA DE COMUNIDADES E DE ACERVOS PARA PESQUISA
Orientadora: Profa. Doutora Regina Weber
28. Tomásia Semedo Afonso / UFSC
Tema: PROPOSTA DE DIAGNÓSTICO DO ACERVO PERMANENTE DO
MUSEU ETNOGRÁFICO DA PRAIA - Projecto de documentação museológica para Museu Etnográfico da Praia
Orintador/a: Não especificado/a pela aluna.
29. Josefino Quedi Barbosa Brandão / UFU
Tema: HISTÓRIA, PRESERVAÇÃO DE PATRIMÓNIO E RESTAURO
Orientador: Prof. Paulo Roberto de Almeida
34
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Painel VI: Química
30. Neusa Sanches / UFRGS
Tema: DESENVOLVIMENTO DE MÉTODOS ANALÍTICOS PARA A DETERMINAÇÃO DE ELEMENTOS TRAÇO EM AMOSTRAS DE FERTILIZANTES, SOLOS E PLANTAS UTILIZANDO ESPECTROMETRIA DE
ABSORÇÃO ATÓMICA COM AMOSTRAGEM DIRECTA DE SÓLIDOS
Orientadora: Profa. Maria Goreti R. Vale
Co-orientadora: Emilene Becker
31. Maria Filipa Pereira / UFRGS
Tema: SÍNTESE MULTICOMPONENTE DE 2,4,5 TRIARILIMIZÓIS PROMOVIDA POR COMPÓSITOS METAL/SÍLICA COMO CATALIZADORES
DE LEWIS HETEROGÉNEOS
Orientador: Prof. Dennis Russowsky
33
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
DOCUMENTO FINAL
Cidade da Praia, Campus de Palmarejo, 22 e 23 de Outubro de 2009
1. Âmbito
Durante os dias 22 e 23 de Outubro de 2009, realizou-se, na Cidade da Praia,
Campus de Palmarejo, o I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Uni-CV,
que contou com a presença dos 31 alunos que, de 3 de Agosto a 5 de Outubro
de 2009, participaram no Programa de Iniciação Científica em sete Universidades
do Brasil, com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior - CAPES, para além de coordenadores, professores e alunos.
Fruto de um protocolo assinado entre a Universidade de Cabo Verde e a CAPES, este primeiro Programa de Iniciação Científica permitiu a alunos da Uni-CV
entrar em contacto com o mundo da ciência e da pesquisa, acompanhados por
um investigador-orientador com larga experiência no domínio.
Com este I Congresso, a Uni-CV pretendeu dar a conhecer à comunidade
universitária e à sociedade cabo-verdiana, em geral, as experiências adquiridas
no âmbito da iniciação científica realizada no Brasil, de modo a socializar os ganhos acumulados durante os dois últimos meses e que potenciem a investigação
científica e a pesquisa aplicada, colocando ambas ao serviço do desenvolvimento
universitário e também dos esforços do desenvolvimento do país.
Os trabalhos do CIC consistiram na apresentação dos resultados dos trabalhos
de investigação realizados, workshops por áreas disciplinares e actividades artístico-culturais complementares, que proporcionaram aos participantes momentos
de confraternização, de troca de informação e experiência, bem como de lazer e
reforço dos laços de camaradagem entre os “jovens” investigadores da Uni-CV.
O I CIC teve por finalidade:
•
•
Iniciar os alunos de graduação nas lides da planificação do seu processo
profissional, isto é, inculcando neles hábitos de pensar e a necessidade de
elegerem a pesquisa como excelente meio de produção de conhecimentos;
Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos da
ciência e da tecnologia em alunos de graduação, por meio da participação
em projectos de pesquisa;
35
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
•
•
•
•
Estimular os docentes-investigadores a integrar os estudantes de graduação no processo de investigação científica;
Divulgar os trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica em diversas Universidades brasileiras, proporcionando-lhes a troca de informações e experiências em
ambiente propício;
Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos
programas de pós-graduação;
Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos diversos sectores da sociedade.
A sessão de abertura do I CIC foi presidida pelo Chefe de Estado, Comandante de Brigada Pedro Pires, e contou com a presença do Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares, para além de representantes do Corpo
Diplomático acreditados na Praia e de organizações internacionais, entre outras
entidades.
Foram congressistas os 31 alunos da Uni-CV que, de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, frequentaram as seguintes Universidades brasileiras:
•
•
•
•
•
•
•
•
UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFG – Universidade Federal de Goiás
UFSCar – Universidade Federal de São Carlos (interior do Estado de São
Paulo)
UFU – Universidade Federal de Uberlândia (interior do Estado de Minas
Gerais)
UFAL – Universidade Federal de Alagoas
UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (interior do Estado de Minas Gerais) e
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.
Os alunos escolhidos para essa experiência têm, em geral, apresentado um
desempenho de destaque e também têm obtido os melhores resultados em
processos de selecção para a pós-graduação (mestrado e doutoramento).
Em termos de expectativas, os participantes quiseram socializar os resultados
do trabalho realizado, partilhar as experiências e conhecimentos obtidos e fazer
o balanço dessa jornada de investigação no Brasil.
Em termos de perspectivas, manifestaram o desejo de ver reforçados os laços
com as universidades de acolhimento e respectivos orientadores, a par da criação de condições para consolidar os laços ora iniciados com a intensificação da
troca entre a Uni-CV e as sete Universidades brasileiras.
36
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A Uni-CV deve pensar, igualmente, na vinda de professores e alunos do Brasil
para Cabo Verde, e também na co-orientação dos alunos por parte de professores cabo-verdianos.
2. Apreciação crítica
2.1. De um modo geral, os resultados traçados para o I CIC foram alcançados,
bem como os propósitos para o I CIC, e que podem sempre ser aperfeiçoados.
Em relação à CAPES, propõe-se uma melhor planificação da segunda edição do
Programa de Iniciação Científica, a criação de um modelo comum Uni-CV/CAPES
de iniciação científica e evitar que o aluno tenha que mudar de tema no Brasil.
2.2. A organização do Congresso mereceu avaliação positiva dos participantes, mas os 10 minutos destinados à apresentação foram considerados insuficientes para apresentar uma investigação que durou dois meses. Todavia, imperou o consenso de que a capacidade de síntese constitui um dos indicadores de
avaliação do investigador.
A versão apresentada dos resumos distribuídos foi objecto de crítica por parte
dos alunos, que quiseram entender as correcções introduzidas e os critérios utilizados, tendo o Comité Científico elucidado sobre o seu mandato e a legitimidade
em introduzir as correcções que achou necessárias.
3. Aferição científica
3.1. Quanto à prestação e desempenho dos alunos, estes ultrapassaram as
expectativas iniciais, uma vez que os trabalhos apresentados foram de excelente
qualidade, e os alunos foram encorajados a continuar nos seus esforços de investigação. Além disso, as informações que têm sido recebidas das Universidades
de acolhimento são muito satisfatórias.
As sugestões vão no sentido de investir na capacidade de comunicar-se e
bem, o que significa apropriar-se muito bem do conteúdo das apresentações e ter
boa capacidade de resumir.
3.2. Os trabalhos do I CIC da Uni-CV desenvolveram-se em seis painéis:
Painel I: Educação, Educação de Infância e Nutrição
Painel II: Engenharia e Matemática
Painel III: Biologia
Painel IV: Língua, Literatura e Cultura – ECVP e Estudos Cabo-verdianos e
Portugueses
Painel V: História e Filosofia
Painel VI: Química
37
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Ao avaliar as conquistas alcançadas por esta primeira edição do Programa
de Iniciação Científica, os congressistas expressaram o seu regozijo pela oportunidade dada pela Uni-CV no sentido de participarem em projectos de Iniciação
Científica da CAPES no Brasil, ao mesmo tempo que manifestaram o seu apoio
à iniciativa de realização deste I CIC, porquanto permitiu a partilha dos saberes
proporcionados pela investigação realizada num país e contexto diferentes.
3.3. Quanto aos pontos fortes, destacaram:
• A excelente organização do Congresso e condições para os participantes vindos de São Vicente;
• Os objectivos propostos foram atingidos;
• A necessidade de dar continuidade ao Programa de Iniciação Científica
incluindo outras áreas disciplinares da Uni-CV;
• A grande oportunidade de conviver com alunos e professores de outras
áreas durante os trabalhos;
• A possibilidade de os alunos iniciados prosseguirem com os seus trabalhos de investigação;
• O rigoroso cumprimento do Programa do CIC.
3.4. Como pontos fracos, os congressistas registaram:
• A mudança de tema e de área da investigação no Brasil;
• O atraso (de um mês, sensivelmente) verificado, em alguns casos, no
encontro com orientadores;
• O pouco tempo de preparação para a apresentação dos resultados do
trabalho;
• A fraca adesão dos alunos da Uni-CV, concretamente do Campus de
Palmarejo;
• A metodologia utilizada, com apresentações seguidas, não permite
uma maior interactividade;
• As perguntas deveriam ser em bloco de três, após cada apresentação.
4. Conclusões/Recomendações
Os congressistas foram unânimes em reconhecer que o convénio da Uni-CV
com a CAPES foi muito proveitoso, tendo resultado em interessantes trabalhos
de pesquisa que podem e devem ser concluídos.
É consenso que o Programa de Iniciação Científica foi uma experiência inédita, bastante enriquecedora para todos quantos nele participaram e que puderam
38
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
apreender outras realidades e consolidar as suas capacidades em diversos ramos de pesquisa científica.
Por se tratar de uma grande abertura ao mundo da pesquisa, defendem que a
participação neste Programa permitiu desenvolver habilidades de pesquisa numa
perspectiva de implementação de projectos pessoais futuros, em conformidade
com as demandas do mercado de trabalho e as necessidades de desenvolvimento do nosso país.
Ao reconhecer o mérito do trabalho que cada aluno apresentou no I CIC, os
congressistas mostraram-se orgulhosos por pertencerem à Uni-CV e por terem
participado nessa grande oportunidade que foi o projecto de iniciação científica
em Universidades brasileiras.
Como forma de capitalizar e rentabilizar os ganhos até agora conseguidos, os
congressistas recomendam:
• A Uni-CV deve prosseguir o convénio com a CAPES, no sentido da sua
consolidação e alargamento a outras áreas disciplinares;
• A Universidade de Cabo Verde deve criar um Comité Científico que
tenha por mandato analisar os temas propostos pelo Brasil e escolher
o estudante com o melhor perfil para a pesquisa;
• Os estudantes que vão para o Brasil devem ser acompanhados por um
professor da área na Uni-CV, que deverá, também, acertar com a CAPES a possibilidade de co-orientação de alunos cabo-verdianos;
• Todo o aluno deve encaminhar as informações e propostas que tiver
trazido das Universidades de acolhimento para a Reitoria da Uni-CV,
de modo a dar continuidade às oportunidades abertas por esta primeira
edição do CIC;
• Cada aluno beneficiado nesta primeira edição deve manter e desenvolver a sua ligação com a sua Universidade de acolhimento, tendo em
vista a continuidade da investigação nos níveis de mestrado e doutoramento;
• Mais alunos devem ser beneficiados pelo Programa;
• A Uni-CV deve envolver os seus professores no Programa com a CAPES de modo a promover a participação de estudantes brasileiros, na
investigação, em Cabo Verde;
• Há que pensar na inclusão dos estudantes dos cursos de Engenharia
Informática e de Computadores no Programa de Iniciação Científica;
• As próximas edições devem prever um tempo maior de pesquisa, ao
mesmo tempo que se deve dar mais tempo para a preparação dos resultados e respectiva apresentação;
• Cada apresentação deveria ser de 15 minutos e mais 5 minutos para
perguntas.
39
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Parte II
– Discursos no acto de abertura
DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Senhor Secretário de Estado da Educação,
Senhor Reitor da Universidade de Cabo Verde,
Senhoras e Senhores Embaixadores,
Senhoras e Senhores Professores, brasileiros e cabo-verdianos,
Estimadas e estimados Congressistas e Participantes,
Amigas e Amigos,
Apraz-me bastante estar aqui convosco e presidir ao acto de abertura deste
que é o Primeiro Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV, seja pela novidade
que é, seja pelas enormes potencialidades e esperanças de que é portador. Ora,
as razões deste meu sentimento de confiança são várias e gostaria de as partilhar convosco. [A sua comunicação, Senhor Reitor, dá-me mais uma razão para
continuar optimista quanto ao futuro de Cabo Verde e acreditar nas capacidades
da sua Juventude].
Em primeiro lugar, estou cada vez mais convicto de que não possuindo Cabo
Verde grandes recursos naturais, ou mesmo que os tivesse, o que a prazo permitirá a este país dar o salto de qualidade que almeja dar é, sem dúvida, a sua
capacidade de absorver a ciência e de instituir a investigação ligada ao sector
produtivo e dos serviços, como prática corrente, a fim de progredir em competitividade e superar o seu deficit tecnológico. Com isso, reconheço que a ciência que
se faz em Cabo Verde, fruto de louváveis esforços, ainda é incipiente e falta-lhe
o devido enquadramento institucional.
Em segundo lugar, porque a ciência e a investigação, sendo apostas só susceptíveis de serem ganhas a prazo, é importante, por isso, envolver os jovens
licenciados num efectivo movimento catalisador em favor da ciência. Ora, sem
um programa de sensibilização, mobilização e inclusão dos jovens em activi-
43
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
dades de investigação, as portas do futuro nesta matéria estariam dificultadas.
Afinal de contas, quem não semeia nem arroteia o campo não pode esperar por
uma boa colheita.
Tendo este entendimento como pano de fundo, gostaria, desde já, de felicitar
os organizadores deste evento e de lhes agradecer o convite que me formularam
para tomar a palavra neste acto. A iniciativa é, sem dúvida, fecunda e plena de
virtualidades no seu propósito. Diria que, de certo modo, é o começo de algo
novo. Contudo, para que se reverta, como se espera, em sucesso efectivo é
preciso que seja objecto de uma genuína e interessada adesão dos jovens que
nela participam. Ao dizer genuína, quero sublinhar a dimensão de vontade e de
persistência que deve acompanhar tal adesão. Só deste modo, eles, os jovens,
suportarão a dureza do trabalho científico, que reclama organização, rigor, autoconfiança, perseverança e espírito de sacrifício.
De contrário, um programa desta natureza contaria, apesar de suas boas intenções, com inúmeras deserções, retirando-lhe o efeito positivo e incentivador
que potencialmente contém. Quer-me parecer que a ciência é uma boa actividade
para a socialização da juventude, uma vez que ela implica determinação, ousadia, cooperação e talento, qualidades que eu resumiria em paixão pelo saber e
curiosidade pela descoberta. Logo, permitam-me que, deste fórum, faça apelo
aos candidatos ao estatuto de jovens cientistas, inscritos no programa de Iniciação Científica da Uni-CV, à responsabilidade que lhes incumbe na construção de
uma autêntica comunidade científica nacional.
Um terceiro motivo que me faz agradado em estar aqui a presidir este acto é
que este programa de iniciação científica irmana a nossa universidade pública,
ainda jovem, com as suas congéneres estrangeiras, neste caso, brasileiras. Assim, saúdo a presença dos professores e investigadores brasileiros, com entusiasmo e muita esperança na cooperação científica com as universidades do Brasil. Estou certo de que a experiência que os contemplados do programa tiveram
em diversas universidades brasileiras, durante os meses de Agosto e Setembro,
foi de extrema importância, não apenas para os próprios como também para a
própria Uni-CV.
Pois, são universidades que, através dos seus estudantes, se põem em contacto, iniciando ou aprofundando os laços de cooperação. De resto, no mundo
actual, investigação científica e cooperação científica são realidades cada vez
mais interdependentes e imprescindíveis. A meu ver, é preciso agir e perseverar
no sentido de facilitar o acesso e a partilha dos saberes científicos modernos. Só
assim será possível vencer os deficits científicos e tecnológicos existentes em
vários países e em vários campos, como é caso cabo-verdiano, e abrir novos
horizontes para os povos a que digam respeito.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Caros Amigos e Amigas,
Cabo Verde é, para todos nós, um desafio permanente: desafio à imaginação e criatividade, na busca de soluções para os problemas fundamentais e
para os problemas do dia-a-dia, com que nos confrontamos. Para materializar
esta ambição, precisamos de dispor de uma comunidade académica e científica
determinada a assumir o desafio que conduz à criatividade e à inovação. Enfim,
desafio à aquisição e apropriação do conhecimento e dos saberes teóricos e
práticos, modernos. Cabe-nos dar resposta à pergunta: como superar o défice
tecnológico e científico de que Cabo Verde é portador? Esta é, creio eu, a ambição que nos move a todos.
Certamente será pela criação de uma competência científica endógena, capaz de pensar o país e de assumir o seu desenvolvimento e modernização.
Desenvolvimento, compreendido nas suas várias vertentes: económica, cultural, institucional, científica e tecnológica. Como vencer as diversas dependências de Cabo Verde, em que outros pensam por nós? [Afinal, “os discursos de
segunda mão”]. Certamente, como se tem feito, apostando na Educação, na
Formação e na Investigação, enfim, na aquisição de conhecimentos pertinentes
e de utilidade social.
Outrossim, não se pode reclamar da modernidade sem dispor de uma comunidade académica e científica, capacitada, comprometida e empenhada. Neste
aspecto, urge mudar de atitude face à necessidade do pleno domínio do conhecimento, da ciência e da tecnologia e, simultaneamente, estimular a geração
de uma massa crítica capaz de desenvolver sinergias entre os seus membros
e instituições. O segredo poderá passar por aí. Tudo isto requer um ambiente
social que estimula, valoriza e confere prestígio e atractividade à vida académica e à investigação científica, acompanhado, é certo, de políticas apropriadas
e incentivadoras.
Porém, nada substitui o empenho pessoal e o sentido de responsabilidade
de cada um de nós. Impõe-se dar igual atenção à afirmação de uma cultura de
responsabilidade, individual e colectiva, no seio da sociedade cabo-verdiana.
Devo dizer-vos que me aflige a preponderância nos países subdesenvolvidos,
em que vejo Cabo Verde, de uma atitude de consumidor despreocupado, consumidor de bens, de ideias e de opiniões, por parte dos seus cidadãos. Ora, é
essa atitude de abdicação que é preciso combater e substituir por uma atitude
proactiva, de criador, de produtor, e de inovador, em busca de novidades e de
conhecimentos e técnicas que permitem saber mais, produzir mais e melhor,
melhorar as condições e a qualidade de vida dos cabo-verdianos e assegurar o
progresso contínuo do país.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Nesta perspectiva, a Universidade Pública constitui o núcleo central e o arranque determinante, no caminho certo. Estou convencido de que, com empenho
e determinação, vamos ganhar o desafio do conhecimento, da inovação e da
criatividade. Por todas essas razões, saúdo o vosso Primeiro Congresso de Iniciação Científica e auguro a todos quantos nele participam um trabalho profícuo
e repleto de resultados estimulantes.
Muito obrigado!
Somos chamados a uma maior maturidade, empenhamento e audácia. Diz-se que, na história do desenvolvimento das Nações, têm
ganhados os países ou sociedades que conseguem juntar capital, educação e inovação. Vamos ter que continuar a apostar na poupança de
recursos e na formação e valorização do capital humano.
- Pedro de Verona Rodrigues Pires
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
DISCURSO DO SECRETÁRIO
DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
Sua Excelência, Senhor Presidente da República de Cabo Verde,
Magnífico Reitor da Uni-CV,
Exm.º Sr. Representante da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (CAPES),
Exm.ª Senhora Pró-Reitora para a Graduação da Uni-CV,
Presidente do Departamento das Ciências Sociais e Humanas ,
Ilustres congressistas e participantes,
Caros Convidados,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
É para nós, motivo de grande satisfação, participar nesta Sessão Solene
de Abertura do I Congresso de Iniciação Científica, que constitui um avanço
extraordinário da Uni-CV na edificação de um dos pilares básicos de qualquer
Instituição de Ensino Superior, a investigação científica e a pesquisa aplicada,
ao serviço do desenvolvimento do país em geral e da comunidade universitária,
em particular.
Com o apoio crucial de Universidades Federais do Brasil, a Uni-CV deu, pois,
mais um passo seguro e ousado na construção progressiva de uma Universidade
de Investigação, de uma Universidade que promove e garante um ensino superior
de qualidade.
Cabo Verde possui, na verdade, um recurso precioso e inesgotável em que
o Governo vem investindo fortemente na sua valorização - são as nossas crianças, os nossos adolescentes, os nossos jovens, os adultos, enfim, os seus recursos humanos.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
O Homem cabo-verdiano constitui, pois, o principal capital de que dispomos
para o desenvolvimento sustentável do país, pelo que é responsabilidade de todos nós que fazemos parte desta grande família – A Educação - conjugar esforços, reforçar os laços de solidariedade institucional, e mobilizar recursos para a
formação de quadros altamente qualificados e preparados para darem continuidade ao processo de desenvolvimento de Cabo Verde, a todos os níveis.
A evolução científica e tecnológica e a globalização da economia têm exigido
que o cidadão seja cada vez mais competente e versátil, de forma a se adaptar às
mudanças constantes e ser ele o agente principal dessas transformações.
O ensino superior pode e deve contribuir de forma decisiva para a procura de
soluções para os problemas causados pelas grandes e rápidas mudanças que se
operam no mundo moderno, e cumprir a sua elevada missão de educar, formar
e promover a investigação, oferecendo serviços de qualidade às comunidades e
possibilitando o desenvolvimento de todo o sistema educativo.
Senhor Presidente da República, Excelência,
Caros Congressistas e participantes,
A inclusão da iniciação científica nos cursos de nível superior deverá ser uma
forte aposta das Universidades e dos Institutos do Ensino Superior como factor indutor de motivação acrescida para a pesquisa e a investigação científica.
É igualmente factor de produção do conhecimento, razão por que a iniciação
científica deve ser alargada não apenas aos alunos que se tenham distinguido
nos primeiros anos da sua formação académica, mas alargada a todos os alunos, criando oportunidade de investigação, para que a ciência possa estar, como
deve, ao alcance de todos.
O nosso país, rico que é em recursos a descobrir e a explorar, como sejam
as suas características geológicas, o ambiente, o mar, a pesca, a agricultura, a
saúde, a alimentação, etc., já demanda um novo paradigma do ensino superior,
no sentido de estimular projectos de iniciação cientifica que despertem interesse
de estudantes e professores a prosseguirem o caminho da investigação para
a produção de novos conhecimentos e respostas adequadas aos desafios dos
novos tempos.
A IC é também um factor que prestigia e projecta a Universidade que a promove junto da comunidade que a integra, do mesmo passo que a própria comunidade fortalece e enriquece a Universidade que lhe dá lhe o contexto económico
e sociocultural, gerando-se uma relação de pertença entre a COMUNIDADE e a
UNIVERSIDADE.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Os estudantes que durante cerca de dois meses tiveram a grande oportunidade de entrar em contacto com o mundo da Ciência e da pesquisa, sob orientação
de investigadores com um longo e reconhecido percurso de investigação, têm
agora a nobre missão de partilhar com os colegas e professores presentes neste
I Congresso de Iniciação Científica, os resultados do trabalho realizado.
É mesmo assim, é essa a verdadeira postura científica, produzir e divulgar o
saber científico, visando sempre contribuir para a melhoria das políticas públicas
e, consequentemente, a melhoria das condições de vida das populações.
Aos Congressistas e participantes, queria dizer-vos que:
É fundamental o domínio profundo dos temas que investigam. Procurem desenvolver, cada vez mais, o pensamento crítico, defendam os vossos pontos de
vista e convicções com toda a firmeza, no entanto, abertos às posições contrárias.
Renovem e enriqueçam permanentemente os vossos conhecimentos, procurando aplicar todo o vosso saber na transformação da realidade social, económica e
cultural de Cabo Verde, rumo ao progresso.
Aos ilustres professores queria também alertar-vos que hoje, mais do que
nunca, torna-se imperativo que o professor de qualquer nível de ensino e, fundamentalmente, o docente universitário, investigue e desenvolva nos seus alunos
o gosto pela investigação, e utilize estratégias e métodos que levem os alunos a
questionar, a resolver problemas, a desenvolver hábitos de pensar, a criar, e a
partilhar conhecimentos e experiências.
É nessa linha que se define o Governo através do Plano Estratégico para a
Educação, no tocante ao Ensino Superior, estabelecendo desafios como:
•
•
A integração das actividades de investigação científica nas práticas
correntes de actuação dos institutos e escolas de nível superior; e
O desenvolvimento da investigação aplicada em articulação com as
políticas de desenvolvimento do país.
Frequentemente surgem no vosso trabalho diário, situações que poderão originar um trabalho científico prático, como, por exemplo, o baixo rendimento numa determinada disciplina, a mudança de comportamentos de determinados estudantes.
Igualmente, da análise e intercâmbio de opiniões e experiências entre os colegas
professores, poderá surgir a ideia de se realizar uma investigação conjunta, visando aprofundar um determinado problema e encontrar vias para a sua solução.
49
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Por isso, caros professores, exorto-vos a engajarem-se cada vez mais nesta
caminhada investigativa. Agarrem com afinco este projecto de integração dos
estudantes de graduação no processo de investigação científica. Promovam cada
vez mais jornadas científicas e pedagógicas.
Sejam professores Ousados, Criativos, Inovadores e Competentes a nível
científico e a nível pedagógico.
Às Universidades Brasileiras que acolheram os nossos estudantes, hoje Congressistas, o Governo de Cabo Verde agradece essa cooperação e solidariedade
e formula votos de cada vez mais sucessos nessa parceria.
Bom trabalho a todos e tenham um bom ano académico.
Obrigado
Octávio Tavares
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
DISCURSO DO REITOR
DA UNIVERSIDADE DE CABO VERDE
Senhor Presidente da República,
Senhor Secretário de Estado da Educação,
Senhores Membros do Corpo Diplomático,
Senhores Dirigentes, docentes e discentes da Uni-CV,
Minhas senhoras e meus senhores,
Mesmo que em prejuízo do protocolo, permitam que me dirija, em primeiro
lugar, aos congressistas e dentre eles, aos que vieram ontem da Ilha de São
Vicente, para os saudar efusivamente, fazendo votos de que – assim como foi o
estágio científico que durante dois meses fizeram em sete universidades federais
brasileiras – este congresso seja também uma experiência inolvidável, porque
despoletadora de uma nova carreira: a de jovem cientista.
A eles, desejo um congresso cientificamente fecundo e humanamente gratificante.
Gostaria também, nesta curta alocução, de agradecer a S. Excia. o Senhor
Presidente da República, por se ter dignado, mesmo perante uma agenda apertada de compromissos, vir esta amanhã à Reitoria da Universidade de Cabo Verde
presidir este acto.
Quer isto dizer, Senhor Presidente (permita-me interpretar deste modo) que
V. Excia. enquanto o mais alto magistrado da Nação, é um patrocinador moral da
investigação científica.
Do mesmo modo apraz-me realçar aqui, nesta tribuna, a presença engajada e
comprometida do Governo, na pessoa do Senhor Secretário de Estado da Educação. Com a sua presença, V. Excia. transmite a todos a firme determinação do
executivo cabo-verdiano em instituir nas universidades, mas sobretudo na Universidade Pública, a investigação como dimensão constitutiva das mesmas.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Seja-me permitido saudar igualmente, e é com destaque que o faço, a senhora
representante da Embaixadora do Brasil, país sem o concurso do qual este programa e alguns outros não seriam possíveis na Uni-CV.
Aliás, ao falar do Brasil não posso deixar de mencionar a CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior, instituição parceira da Universidade
de Cabo Verde, patrocinadora imediata da Iniciação Científica na nossa Universidade.
Do nosso lado, no interior da Uni-CV, sou a realçar como tendo sido fundamental, para a viabilização deste evento, o trabalho abnegado da Comissão
Organizadora, tendo à frente a liderança activa e esclarecida do Prof. Marcelo
Galvão Baptista.
Minhas senhoras e meus senhores,
Atrevo-me a dizer que este congresso, ao preparar a institucionalização da
iniciação científica na Uni-CV, ambiciona ter um carácter histórico, uma vez que
põe em marcha um movimento que propõe romper com o status quo vigente na
Uni-CV, mas também em muitas universidades já consolidadas.
No nosso caso, é a primeira vez que se realiza um congresso de jovens sobre
a prática da investigação científica.
Entendemos ser de máxima importância, se quisermos almejar o futuro, tornar
a ciência uma experiência vivida e praticada.
Digo isso porque muitos países do chamado Terceiro Mundo, não podendo os
seus intelectuais fazer ciência, por faltarem as condições, recorrem à importação
do discurso sobre a ciência.
Neste sentido, tais intelectuais desenvolvem uma prática meramente discursiva e de carácter normativo relativamente às ciências, que não obstante lhes
trazer prestígio social, se revela, como é lógico, incapaz de compreender e transformar a realidade na qual estão imersos.
Por conseguinte, nestas circunstâncias, a ciência tem muito pouco de investigativo e não é senão um discurso de segunda mão.
Outra ruptura a que é preciso proceder é sem dúvida a de enquadramento
social. Muitas vezes nos nossos países fazem-se investimentos relativamente
avultados na formação de alguns poucos cientistas estrela, altamente qualificados, descurando-se, no entanto, de outra componente igualmente importante que
é a formação de comunidades de cientistas.
Na verdade, só com estas é possível de facto instituir dinâmicas de estimulação recíproca. E, se tal não acontece, estes poucos cientistas sem entourage interna são candidatos ao conhecido fenómeno denominado de “fuga de cérebros”.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Daí a importância de programas como este que visam criar vocações e gerar
massas críticas, centrando-se mais numa perspectiva de geração de comunidades de cientistas do que na da criação de valores individuais.
Senhor Presidente da República,
Senhor Secretário de Estado,
Minhas senhoras e meus senhores,
É comum nas universidades haver uma clara separação entre a graduação
e a pós-graduação, sendo aquela acolhedora da grande maioria estatística dos
estudantes e professores e lugar onde predomina o ensino. A investigação, articulada ao ensino, essa localiza-se tradicionalmente apenas na pós-graduação. O
programa de iniciação científica, se não apaga, ao menos esbate, esta dicotomia
tão arraigada. O programa de iniciação científica, tal como foi concebido no Brasil, com o apoio do qual vamos criar o nosso próprio programa, é um viveiro de
preparação e recrutamento de estudantes para a pós-graduação. Deste modo, a
investigação torna-se presente em diversos níveis da Universidade.
Senhor Presidente, nós sempre dissemos que o que qualificará a Uni-CV, o
que a tornará verdadeiramente a Universidade de Cabo Verde, e não meramente
uma universidade em Cabo Verde, é a capacidade que ela terá de instituir no seu
seio a investigação científica aplicada ou aplicável à realidade cabo-verdiana. Ao
lançarmos este programa, aproximamo-nos um pouco mais do nosso ideal de
Universidade. É por isso que ele constitui para nós algo de transcendente importância. E mais não digo.
Muito Obrigado.
António Correia e Silva
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
DISCURSO DO PRESIDENTE DO DEPARTAMENTO
DE CIÊNCIAS SOCIAS E HUMANAS
Exmo. Senhor Presidente da República, Comandante Pedro Pires,
Exmo. Senhor Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares,
Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde, Prof. Dr. António Leão Correia e Silva,
Exmos. Senhores Membros do Corpo Diplomático,
Exmos. Senhores Representantes de Organizações Internacionais,
Magnífico Reitor da Universidade Jean Piaget,
Magnífico Reitor da Universidade de Santiago,
Magnífico Reitor da Universidade Intercontinental,
Magnífico Reitor do Instituto Superior de Ciências Económicas e Empresariais,
Exmos. Senhores Dirigentes da Uni-CV,
Senhoras e Senhores Professores,
Prezados Congressistas,
Prezados Alunos,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
O primeiro passo para a realização do evento de hoje, ou seja, a abertura do I
Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde, foi a assinatura, no início deste ano, de um protocolo, pela Uni-CV e pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do Brasil.
Explicitamente nesse protocolo, a CAPES comprometeu-se formal e oficialmente a apoiar a Uni-CV no sentido de diligenciar a inserção de alunos, de diferentes áreas científicas, em sete universidades federais brasileiras, por dois
meses, isto é, de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, custeando as despesas de
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
transporte, de alimentação, de alojamento e outras, para que eles desenvolvessem actividades no âmbito do chamado Programa de Iniciação Científica, na área
de interesse desses alunos e sob a orientação de professores pesquisadores experientes. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal
de Santa Catarina, a Universidade Federal de Goiás, a Universidade Federal de
Uberlândia, a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal de Alagoas receberam
os alunos de braços abertos e deram o apoio solicitado, para além das nossas
expectativas.
A colaboração dos presidentes dos Departamentos, dos coordenadores e professores dos diferentes Cursos da Uni-CV foi imprescindível para a selecção dos
alunos com o perfil desejado, para o desenvolvimento das actividades previstas.
A colaboração da Embaixada do Brasil em Cabo Verde e da CAPES foi extremamente dedicada, competente, criteriosa, paciente e – sem exagero algum,
podemos dizer – de uma deferência especial, em todas as etapas do processo
que culminou com a inserção desses alunos no Brasil, no seu engajamento na
investigação científica nas universidades referidas, e no seu retorno a Cabo Verde, com entusiasmo, repletos de sonhos e muito desejosos de, neste Congresso,
compartilharem connosco a experiência adquirida.
Também, não poderíamos deixar de fazer referência aqui ao apoio fundamental que tivemos para a materialização deste Congresso, por parte do Escritório
dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo Verde.
A assinatura do mencionado protocolo (pela Uni-CV e pela CAPES) produziu
os seus efeitos, como demonstração clara de que a promessa foi cumprida. E
sabíamos, tínhamos certeza de que a promessa seria cumprida.
Na sequência, o Magnífico Reitor da Uni-CV incumbiu-nos a missão de elaborarmos um projecto orientador voltado para a iniciação científica que contemplasse os acertos tidos com a CAPES e que, ao mesmo tempo, tivesse como horizonte a sua implementação pela própria Uni-CV no futuro. O projecto foi aprovado e
uma Comissão tratou das tarefas para a sua realização, tendo sido a última delas,
a monitorização dos alunos de iniciação científica que se deslocaram ao Brasil,
até que se efectivasse o seu retorno ao país.
Posto isso, uma segunda Comissão foi nomeada para encarregar-se dos preparativos para a publicização, na Uni-CV, da experiência adquirida por esses alunos. A Comissão elaborou os documentos pertinentes e tomou todas as medidas
necessárias para a execução das acções programadas para o evento.
Este I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV é um processo pedagógico
e estratégico para uma formação profissional de qualidade dos nossos graduandos, assente na ciência como norteadora do saber pensar e do saber fazer; é
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
também um processo em que a formação deve ter, como preocupação, a relevância social da produção do conhecimento.
Planificámos este Congresso na expectativa de que, através dele, seja possível a divulgação dos trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de iniciação científica no Brasil, havendo, assim, a troca de
informações e de experiências.
Esperamos mais. Esperamos que o Congresso venha a gerar a continuidade
desse empreendimento e nos desafie no sentido de buscarmos as condições que
consolidem o Programa de Iniciação Científica na Uni-CV. Vislumbramos com
este Congresso a possibilidade de que nossos alunos de graduação sejam estimulados pelos docentes-investigadores a participarem em projectos de pesquisa
que os conduzam aos programas de pós-graduação existentes na Uni-CV e aos
programas que venham a ser criados.
A presença de todos vós nos é extremamente honrosa, ao mesmo tempo que
constitui um atestado de quão significativo é este Congresso; e o tamanho do
seu significado é também um indicador da grandeza das responsabilidades que
o evento implica.
Obrigado pela presença de todos e sejam muito bem-vindos.
Marcelo Galvão Baptista
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
DISCURSO DA DELEGADA DO DEPARTAMENTO
DE CIÊNCIAS SOCIAIS
E HUMANAS EM SÃO VICENTE
Exmo. Senhor Presidente da República de Cabo Verde, Excelência,
Exmo. Senhor Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde,
Exmo. Senhor Secretário de Estado do MEES,
Exmos. Senhores e Senhoras do Corpo Diplomático,
Exmo. Senhor Presidente do DCSH,
Exmos. Senhores Dirigentes da Uni-CV,
Exmos. Senhores e Senhoras convidados,
Exmos. Senhores e Exmas. Senhoras docentes da Uni-CV,
Caros estudantes da Uni-CV,
Caros congressistas da Iniciação Científica,
Gostaria de saudar esta iniciativa, marco importante para a Uni-CV e desejar
a todos os envolvidos na educação um excelente ano lectivo e excelente trabalho
também aos congressistas.
É com orgulho e satisfação que cá estou, orgulho porque, da Delegação do
DCSH – S. Vicente, sete estudantes finalistas fizeram parte dos que foram ao
Brasil, três de estudos Ingleses e quatro de Educação de Infância, e durante o
tempo que lá permaneceram acompanhei-os, graças às novas tecnologias, e as
notícias eram sempre boas. Regressaram felizes e satisfeitos com a experiência,
trazendo assim mais conhecimento e informação na área.
A Universidade é uma instituição cultural e científica por excelência que garante a liberdade de ensinar e de aprender.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A investigação académica/científica compreende a verdadeira natureza completa da ciência e da tecnologia. Enfatizando a dimensão social da ciência e da
tecnologia, tem desenvolvido em direcções investigativas fundamentais como o
estudo dos factores sociais que condicionam a elaboração e mudança/troca de
conhecimento científico, e o estudo das consequências sociais e ambientais do
desenvolvimento científico-tecnológico.
A investigação nas ciências deve ser um instrumento útil para aperfeiçoar o
processo de elaboração das políticas sociais e em particular a política educativa.
Criar novos marcos teóricos para a investigação nas ciências e novas bases para
os modelos de aplicação de investigação cujo objectivo consista em potenciar a
eficácia das políticas que respondam aos problemas sociais.
A formulação científica de um problema não pode ser descartada do contexto
político, económico e social em que se insere, em particular do contexto cultural
e educativo.
Os juízos de valor dos investigadores das ciências reflectem-se tanto na formulação do problema como nas recomendações de soluções sociais relacionadas com a investigação.
Não se pode ignorar que a construção social da realidade está constantemente mudando e está inscrita na divulgação social e cultural (…).
Os investigadores modelam o mundo que estudam em consonância com seus
valores e atitudes, suas percepções, suposições, teorias, selecção de variáveis e
metodologias, assim como as circunstâncias sociais em que vivem e interagem.
Existem quatro motivações básicas para os cientistas se comprometerem com
a investigação:
•
•
•
•
Ser um esperto: Isto implica manter-se em dia com as novas teorias
relevantes e nos últimos métodos, assim como obter o respeito dos colegas, dos superiores e daqueles que se encarregam da investigação.
Estabelecer diferença entre querer e estar presentes no processo da
investigação, e poder contribuir, dar a uma causa a solução dos problemas.
Actuar em favor de uma tomada de decisão com bases analíticas, aportando uma clarificação no planeamento do problema, entendendo o alcance dos problemas, e avaliando sistematicamente os custos sociais
e económicos das políticas alternativas.
Compartilhar uma posição política e um compromisso concreto.
Fora da universidade também se faz investigação aplicada relevante e há disparidades entre a investigação académica e a que se pratica em outros lugares.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Mas é visível a falta sistemática de interacção, cooperação e comunicação
inoperante entre os ministérios responsáveis do desenvolvimento sectorial das
investigações e as instituições académicas de investigações, daí que é necessário estabelecer um diálogo e uma cooperação entre essas instituições e partir
para uma investigação científica que poderá ajudar a resolver os problemas.
Existem vários modelos de universidade mas o que me cativou foi o modelo de
universidade alemã, é a universidade do conhecimento, a qual dá grande importância à ciência, que é um factor decisivo para o desenvolvimento da sociedade.
Estabelece uma estreita relação entre a docência e a investigação. A universidade é uma comunidade de investigadores que se propõe aprender e tem como
finalidade que o estudante logra, mediante a investigação e domina o seu campo
de saber, e que acaba também por ser o ideal da nossa universidade; a prova
disso é a cooperação com a CAPES, do Brasil de onde os nossos estudantes
acabam de regressar da Iniciação Científica na qual os docentes também serão
abrangidos.
Concluindo, diria que:
Na educação superior há que privilegiar a construção do conhecimento dos
universitários, incluir a gestão na formação do corpo docente para que estes respondam às exigências da contemporaneidade e aí a prática do humanismo científico, que permite a capacidade de reflexão crítica, permitindo também aceder à
projecção social, à actividade científica, tecnológica e cultural.
Enfim, a missão da universidade moderna, dos nossos dias, consiste em preservar, desenvolver e promover, através de vínculos com a sociedade, a cultura
e a humanidade.
Não quer dizer que a universidade é a única instituição que preserva o desenvolvimento, desenvolve e promove a cultura mas sim, cabe a ela um papel
privilegiado de ser uma instituição social e científica.
Muito obrigado.
Dora Oriana Gomes Pires
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Parte III
– Artigos de trabalhos premiados
A IDEIA DE ALTERIDADE
EM EMMANUEL LÉVINAS1
Admiro Alexandre Tavares
Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Campus de Palmarejo)
Universidade de Cabo Verde
RESUMO
O presente trabalho discorre sobre a ideia de Alteridade em Emmanuel Lévinas.
Os problemas a serem analisados serão a questão da ideia do Infinito, o Rosto (“visage”) do Outro, e a Responsabilidade por Outrem. Lévinas parte da leitura da ideia
de Infinito cartesiano para a formulação desta problemática. O Infinito descobre-se
na relação do Mesmo com o Outro. Essa descoberta dá-se na subjectividade, o
lugar do acolhimento do Outro. O Rosto do Outro é-me apresentado como exterioridade e transcendência. A relação com o Rosto é, num primeiro momento, ética.
O Rosto é significação sem contexto. Não é uma personagem nem pode ser visto.
É, pois, aquilo que o pensamento não pode abarcar totalmente. É o Infinito que nos
leva ao além. Há no Rosto uma pobreza essencial. Ele está, com efeito, exposto,
despido, ameaçado, mas ao mesmo tempo, é o que nos proíbe de matar, porque
possui uma primeira fala que nos ordena a não matar. O Outro é ao mesmo tempo
aquele contra quem eu posso tudo e a quem devo tudo, isto porque, no acesso ao
seu rosto, tenho o acesso à ideia de Deus, que é a própria ideia do Infinito, fundamento ético, que me faz responsabilizar-me por Outrem, uma responsabilidade
desmedida que antecede a minha própria liberdade.
Palavras-chave: Alteridade; ideia de Infinito; Rosto; responsabilidade por Outrem.
1
Este trabalho foi orientado pelo Professor Dr. Alexandre Guimarães Tadeu de Soares da Universidade Federal de
Uberlândia e teve o apoio da CAPES.
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Introdução
Compreender a sua noção de Rosto
do Outro e a de Responsabilidade por
Outrem; (3) Compreender como a ideia
de Infinito fundamenta a alteridade.
A alteridade é hoje um problema.
No mundo actual em que vivemos, um
mundo transformado pelo individualismo, relativismo, materialismo, hedonismo, permissivismo, há que pensar
no outro. Nunca é demais falar da dignidade humana e da responsabilidade
que temos uns para com os outros.
Dizem que todo o homem é fruto
do seu tempo. O tempo vai passando,
os valores vão mudando, mas existem
valores que são perenes, isto é, utilizando a linguagem de Kant, absolutos
e universais. A alteridade é um deles.
A “Ideia de Alteridade em Emmanuel Lévinas” é o que constitui o tema
deste trabalho e tal se justifica pelo facto de este ser o mesmo tema sob o qual
pretende-se desenvolver um trabalho
de final de curso e esta será uma oportunidade para iniciar as investigações.
Partiremos da seguinte questão:
Como a ideia de Infinito em Lévinas
fundamenta a alteridade? Tentaremos
dar resposta a essa questão no final
deste trabalho.
Metodologia
Utilizou-se como metodologia para
elaboração deste trabalho, leitura, análise, interpretação de algumas obras de
Lévinas, Meditações sobre a Filosofia
Primeira de Descartes, Ética de Alteridade em Emmanuel Lévinas de Nelio
Vieira de Melo, obra de metodologia de
investigação científica de Umberto Eco
e discussão com o professor orientador para esclarecimentos.
I –Leitura Levinasiana da ideia de Infinito cartesiano
Segundo Emmanuel Lévinas, Heidegger fez uma filosofia destruindo a
metafísica e constituindo uma “ontologia auto-sustentada e auto-suficiente,
extraindo o ser do esquecimento em
que se encontrava na filosofia ocidental”. Lévinas, por sua vez comprometese num novo desafio: distanciar-se do
apego da ontologia para “libertar o homem e construir a ética como filosofia
primeira” por meio da alteridade2.
O assunto fundamental de Lévinas, contrapondo inteiramente a Heidegger, certifica que na nossa relação
com o Outro temos a pretensão de
querer compreendê-lo, mas a relação
(de alteridade) ultrapassa essa com-
Objectivos
Objectivo geral
O trabalho, objectivou, em geral,
compreender a ideia da Alteridade em
Emmanuel Lévinas.
Objectivos específicos
Os objetctivos específicos foram:
(1) Entender a leitura que Lévinas
faz da ideia de Infinito cartesiano; (2)
2 Cf. Lévinas (2005, pp. 12-13).
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Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
preensão. Isto denota que o Outrem
não é, anteriormente matéria de compreensão e, seguidamente interlocutor. O Outro é em si mesmo designação da palavra ética3.
Lévinas parte da leitura da ideia de
Infinito cartesiano para a formulação da
sua ética: “Parto da ideia cartesiana do
infinito onde o ideatum desta ideia, isto
é, o que esta ideia visa, é infinitamente
maior do que o próprio acto pelo qual
eu penso. Há desproporção entre o
acto e aquilo que o acto dá acesso”4.
Descartes na sua meditação faz a
trajectória do pensamento até chegar
a ideia de Deus. Ao pensar Deus, pensa-o como ser eminente5.
No itinerário da sua dúvida após a
descoberta do cogito, a primeira certeza ou a primeira verdade clara e distinta, ele chega a uma conclusão:
nita, independente, eterna, imutável,
sumamente inteligível e sumamente
poderosa” pela qual ele mesmo foi
criado e todas as outras realidades, se
existem7.
Ele conclui que só pelo facto de ele
existir e de encontrar-se nele determinada ideia de um ente perfeitíssimo, a
existência de é uma evidência, e que
não é espantoso que, ao criá-lo, esse
mesmo Deus lhe tenha imposto essa
ideia, assim como o artífice coloca a
marca em sua obra. Diz ele que a ideia
de Deus está nele e que, este é portador de todas as perfeições que ele
não consegue apreender, mas que de
certa forma ele pode alcançar através
do pensamento8.
Lévinas considera que aqui está
uma das provas de existência de
Deus:
(…), se a realidade de alguma das minhas
ideias for tanta que eu fique certa de que
ela não está em mim, nem formal, nem eminentemente e de que, por conseguinte, não
posso ser eu mesmo a sua causa, disto seguirá necessariamente que não estou só no
mundo, mas que alguma outra coisa, que é
a causa dessa ideia, também existe6.
Para Descartes, reside aqui uma das provas da existência de Deus: o pensamento
não pode ter produzido algo que o ultrapassa; era necessário que este algo tivesse
sido posto em nós. Logo há que admitir a
existência de um Deus que pôs em nós a
ideia do Infinito9.
Em Descartes, na relação entre o
eu e o Infinito estando eles separados,
não há uma apreensão do Infinito por
parte do eu que pensa porque o pensamento não pode abarcar o Infinito, uma
vez que está separado dele. A ideia de
Infinito tem de excepcional o facto de o
A causa da ideia existente em Descarte é Deus. A ideia de Deus é excepcionalmente aquela que não derivou
dele. Desta forma ele percebe pelo
nome de Deus “certa substância infi3 Cf. idem.
4 Lévinas. Ética e Infinito, p. 83.
7 Cf. Descartes (2004, p. 91).
5 Cf. Lévinas (2002, p. 94).
8 Cf. idem, pp. 103-105.
6 Descartes (2004, p. 85).
9 Cf. Lévinas. Ética e infinito, p. 83.
67
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
seu ideatum ultrapassar a sua ideia. A
ideia e o ideatum encontram-se numa
relação desproporcional.
Desta forma, ele vai a Malebrache
para dizer que ele soube medir melhor
o alcance de tal acontecimento: não
há ideia de Deus, ou seja, Deus é a
sua própria ideia. “A ideia de Deus é
Deus em mim, mas Deus já rompendo
a consciência que visa as ideias, diferente de todo o conteúdo”13.
A distância entre ideia e ideatum não equivale, para a ideia de Infinito, à distância que
separa nas outras representações o acto do
seu objecto. A intencionalidade que anima
a ideia de Infinito não se compara a nenhuma outra; ela visa aquilo que não se pode
abarcar e neste sentido, precisamente, o
Infinito10.
II – A noção de Rosto
e de Outrem
A alteridade do Infinito não se
anula, não amortece no pensamento
que o pensa. Ao pensar o Infinito, o
eu imediatamente pensa mais do que
pensa. O Infinito não entra na ideia de
Infinito, não é apreendido; essa ideia
não é um conceito. O Infinito é radicalmente, absolutamente Outro11.
Caracterizando ainda a ideia do Infinito na obra Transcendência e Inteligibilidade ele afirma:
“Penso antes que o acesso ao rosto
é num primeiro momento, ético. Quando se vê um nariz, os olhos, uma testa,
um queixo e se podem descrever, é
que nós voltamos para o outro como
objecto”14.
Podemos ver aqui, que o Rosto não
é, pois, a cor dos olhos, a forma do nariz, o frescor das faces, isto é, objecto
de contemplação.
Segundo Lévinas, a melhor maneira de encontrar o Outro é nem sequer
atentar na cor dos olhos, isto porque
quando se observa a cor dos olhos
não se está em relação social com o
Outrem. “A relação com o Rosto pode,
sem dúvida, ser dominada pela percepção, mas o que é especificamente
o Rosto é o que não se reduz a ele”15.
O Rosto apresenta-se como algo indefeso, a sua pele é a que permanece
mais nua, mais despida. A mais nua,
se bem que de uma nudez decente. Há
A ideia de Infinito é a ideia excepcional,
ideia única e para Descartes, o pensar em
Deus. É o pensamento desligado da consciência, não segundo o conceito negativo do
inconsciente, mas segundo o pensamento,
talvez mais profundamente pensado, o da
libertação a respeito de ser o de des-interesse que é relação sem tomada de posse
do ser e sem sujeição ao conatus essendi,
contrariamente ao saber e à percepção, o
que não se transforma concretamente em
qualquer modificação, em pura negação
abstracta da visão, mas que se realiza eticamente com relação ao Outro12.
10 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e
Heidegger, p. 209.
13 Cf. Lévinas (2002, p. 95)
11 Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e
Heidegger, p. 209.
14 Lévinas. Ética e Infinito, p. 77.
12 Lévinas. Transcendência e Inteligibilidade, pp. 21-22.
15 Cf. Lévinas. Ética e Infinito, p. 77.
68
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
nele uma pobreza essencial. Ele está
exposto, ameaçado, como se nos convidasse a um acto de violência, mas
ao mesmo tempo nos proíbe de matar.
O Rosto é significação sem contexto,
isto é, não é personagem num contexto. “Tu és tu”. Neste sentido, pode-se
dizer que o Rosto não é visto. Ele é
o que não pode ser transformado em
conteúdo, porque pensamento algum
o abarcaria. Ele é, pois, o que nos conduz ao além16. A relação com o Rosto é num primeiro momento ético. O Rosto é o que
não se pode matar ou, pelo menos,
aquilo cujo sentido consiste em dizer:
“Tu não matarás”. A proibição do homicídio não torna impossível o homicídio.
O Outrem é Rosto, mas, certamente,
o Rosto e o discurso estão ligados. O
Rosto fala. O discurso e, mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que determina a relação autêntica com o Outrem17.
O “Tu não matarás” é a primeira
palavra do Rosto, uma ordem, um
mandamento, no seu aparecer. O
Rosto de Outrem está nu; é o pobre
por quem posso tudo e por quem devo
tudo. Enquanto “primeira pessoa”, sou
aquele que encontra processos para
responder ao apelo. Se estou sozinho
perante o Outro, devo-lhe tudo; mas
há o terceiro. A relação interpessoal
que estabeleço com o Outrem, também devo estabelecer com os outros
homens; daí a justiça, que deve ser
sempre controlada pela relação interpessoal inicial18.
No acesso ao Rosto há também
o acesso à ideia de Deus, manifestada como desejo, mas tal desejo não
pode ser satisfeito. Este é como um
pensamento que pensa mais do que
pensa19.
16 Cf. idem, pp. 78-79.
21 Cf. Melo (2003, p. 11).
17 Cf. idem, pp. 79
22 Cf. idem.
Fora a fome que saciamos, a sede que
aplacamos e os sentidos que apaziguamos,
existe o Outro, absolutamente outro que desejamos para lá das satisfações, sem que o
corpo conheça qualquer gesto para apaziguar o desejo, sem que seja possível inventar qualquer nova carícia. Desejo insaciável,
não porque responda a uma forma infinita,
mas porque não requer alimentos. Desejo
sem satisfação que, dessa forma, constata
a alteridade de Outrem20.
Aquilo que Lévinas pretende deixar
claro aqui é que o Infinito não é um objecto de contemplação, isto é, não está
à medida do pensar que pensa. A ideia
de Infinito consiste num pensamento que pensa em todos os momentos
mais do que pensa. Este é Desejo.
O Rosto é o caminho, mas caminho sem
retorno. Aquele que entrar por ele é definitivamente capturado como refém21. O Outro
enquanto pessoa é terra santa, sacralidade
absoluta. Para aproximar-se dele é necessário tirar sandálias, despojar-se de si mesmo, escutá-lo e fazer-se responsável pela
sua existência22.
18 Cf. idem, pp. 80-81.
19 Cf. idem, pp. 83-84.
20 Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e
Heidegger, p. 212.
69
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
O para-o-Outro é completa abertura ao mistério do Outro como totalmente Outro. Somente neste contexto de
abertura ao mistério do Outro, o Outro
que me liberta, torna-se possível uma
relação social; somente neste contexto é possível entender a relação ética
como anterioridade metafísica, pois ela
é a primeira relação social e o primeiro
mandamento a ser observado23.
Segundo Melo, tudo no corpo humano fala e se põe em relação. A pessoa
é enquanto se põe relação: ninguém
existe por si, para si e consigo mesmo. Minha existência é manifestação,
desvelamento e velamento de si e do
outro. Mas, dentre todas as partes do
corpo o rosto é o mais exposto, tanto
ao perigo quanto à carícia; nu e transparente, o rosto é completa exterioridade, inteira relação e comunicação,
sinceridade e abertura. O rosto fala por
si e é, para o outro, a única identidade
re-conhecida pelo outro como realidade que se revela sem ser dominado. O
rosto é mais do que uma centelha do
Infinito. É o Infinito nele mesmo. Ele é
a expressão que significa e dá significação ética de alteridade pensado por
Lévinas. O outro é um outro modo de
ser do sujeito, é uma manifestação do
desejo, é diálogo, significação. É protótipo de um humanismo libertador que
tem no outro a sua libertação24.
Pode-se dizer que a maior contribuição filosófica de Lévinas está nessa
análise da relação interpessoal, carac-
terizada pela manifestação do rosto. O
rosto é aqui entendido como relação
ética não como parte do corpo humano
privilegiado25.
No que concerne à visibilidade e
acessibilidade do rosto, o autor considera que como visibilidade, o rosto não
é canal de relações mas sim pura relação, isto porque nele se presentifica
uma estrutura que ultrapassa a dimensão perceptiva26.
Quanto à nudez do rosto, não sendo da ordem sensível nem da ordem
perceptiva, esta pertence à ordem metafísica. Essa nudez não é desvelada,
pois o rosto é por si mesmo, não necessita de um sistema referencial. A
nudez é abertura à transcendência27.
Há uma relação entre a nudez do
rosto do outro, que é estrangeiro e a
nudez do meu rosto. A minha nudez e
a do outro nos põem em relação com
o Infinito, pois somente esse é capaz
de resistir aos poderes da morte, e de
maneira honrosa28
III – A ideia de Infinito
e o Rosto de Outrem
Para Lévinas, a ideia do Infinito é
a relação social. Esta relação consiste em abordar um ser absolutamente
exterior. A exterioridade do ser Infinito
manifesta-se na resistência absoluta
que, pelo seu aparecimento opõe a to25 Cf. Melo (2003, p.11).
26 Cf. idem, p. 91.
23 Cf. idem, p. 84.
27 Cf. idem, p. 92.
24 Cf. idem, pp. 89-90.
28 Cf. idem, p. 94.
70
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
dos os meus poderes através do seu
logos (discurso), como tivemos a oportunidade de ver anteriormente29.
Esse Outrem oferece a todos os
meus poderes, sucumbe a todos os
meus estratagemas, a todos os meus
crimes ou então resiste-me com toda a
sua força e com todos os recursos imprevisíveis da sua liberdade. Posso até
medir forças com ele, mas ele também
pode me opor, apresentando a sua
face, pondo à descoberta a total nudez
dos seus olhos indefesos, por meio da
integridade, pela fraqueza absoluta do
seu olhar. A verdadeira exterioridade
está nesse olhar que me proíbe qualquer conquista, porque já não posso
poder, uma vez que se estabelece
uma relação, não com uma resistência
muito grande, mas com absolutamente
outro, com a resistência ética. A resistência ética é a presença do Infinito30.
prio subjectivo. Esta responsabilidade,
é responsabilidade por aquilo que não
me diz respeito. Desde que o Outro me
olha, sou responsável por ele, mesmo
sem ter que assumir responsabilidade
a seu respeito; a sua responsabilidade
me incumbe e vai além do que faço.
Ela não é um simples atributo da subjectividade, como se existisse já em si
mesma, antes da relação ética32.
A subjectividade é inicialmente para
o Outrem. O Outrem não se encontra
simplesmente próximo de mim no espaço, mas que se aproxima de mim
enquanto sou responsável por ele. O
laço com o Outrem só se aperta como
responsabilidade. Ser responsável manifesta-se no dizer “eis-me aqui”, fazer
alguma coisa por outrem, dar, ser espírito humano. O Rosto, na sua significância, pede-me, ordena-me. A minha
relação com ele não é simétrica, por
isso sou responsável por ele sem esperar a recíproca, ainda que isso me
viesse a custar a vida. É pelo facto de
nossa relação não ser recíproca, é que
sou sujeição dele. Tudo está sob meu
encargo. A minha responsabilidade
por ser total, responde por tudo o que
é dos outros, mesmo pela responsabilidade deles. Tenho sempre maior responsabilidade de que os outros33.
A minha responsabilidade para com
o Outro vai até a substituição por Outrem, assumindo a condição de refém
expiando por eles. Essa responsabilidade não cessa e, ninguém pode subs-
IV – A responsabilidade
por Outrem
“Somos todos culpados de tudo e
de todos perante todos e eu mais do
que os outros”31.
Lévinas fala da responsabilidade
como estrutura essencial, primeira, e
fundamental da subjectividade. A subjectividade é descrita por ele em termos éticos. A ética é entendida por ele
como responsabilidade que dá no pró29 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e
Heidegger, p. 210.
30 Cf. idem, pp. 210-211.
32 Cf. Lévinas. Ética e Infinito, pp. 87-88.
31 Dostoievsky apud Lévinas. Ética e Infinito, p. 90.
33 Cf. idem, pp. 88-91.
71
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
tituir-me. Ela é o que exclusivamente
me incumbe e que, humanamente, não
posso recusar. Desta forma podemos
ver que tal responsabilidade não é intercambiável. Posso substituir a todos,
mas ninguém pode substituir-me. É
precisamente por causa disto que Lévinas, citando Dostoievsky, afirma que
“somos todos culpados de tudo e de
todos perante todos, e eu mais do que
os outros”34.
A responsabilidade por Outrem é-se,
em última análise, responsabilidade
pela morte do Outro, isto porque o Rosto na sua verticalidade é o que é visado
à queima-roupa pela morte. Na significância do Rosto está um dito, um apelo
ao dar e servir, isto é, um mandamento,
acima de tudo, a ordem de não deixar o
Outro sozinho, o que é provavelmente o
fundamento da sociabilidade35.
O temor da morte do Outro está na
base da responsabilidade por Outrem.
Tal temor, não é a mesma coisa que
o medo se entendermos o medo como
medo do que é assustador e medo por
nós. O temor aqui é o temor pelo Outro
e não por nós mesmo36.
A morte do outro homem me põe
em causa e questiona como se desta morte que eu me tornasse o cúmplice por minha indiferença, e como
se antes mesmo de lhe ser devotado
eu próprio tivesse que responder por
essa morte do outro, não deixá-lo na
solidão. O Rosto do outro é ao mesmo
tempo, minha tentação de matar, mas
o “tu não matarás” que já me acusa,
me suplica, me reclama como se eu
fosse já devedor37.
A morte significa o abandono de Outrem à sua solidão. A responsabilidade
pelo outro homem, a impossibilidade
de deixá-lo entregue só ao mistério da
morte, é concretamente a suscepção
do dom último de morrer por Outrem.
A responsabilidade é aqui toda a gravidade do amor do próximo, o amor sem
concupiscência38.
Essa responsabilidade que me incumbe, responsabilidade pelo próximo,
é anterior à minha própria liberdade,
vem de um passado imemorável não
representável e que nunca foi presente,
mais “antigo” que toda a consciência,
mas o engajamento desse profundo
passado do imemorial me diz respeito
como ordem e súplica, como mandamento no rosto de outro homem39.
Enquanto refém, a minha responsabilidade vai até à substituição ao outro
homem, o que se traduz numa infinita
sujeição. Tenho que responsabilizar
pela morte dos outros antes de ter de
ser. A questão do meu direito de ser
é inseparável do para-o-outro. Neste
sentido podemos entender a responsabilidade da morte do outro como direito do meu ser40. Lévinas diz que o não-deixar-ooutro-homem só não consiste senão
34 Cf. idem, pp. 92-93.
38 Cf. idem, pp. 216-217.
35 Lévinas. Ética e Infinito, pp. 112-113.
39 Cf. idem, p. 219.
36 Cf. idem, pp. 113-114.
40 Cf. idem, pp. 224-225.
37 Cf. Lévinas, (2002, pp. 215-216)
72
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
em responder “eis-me aqui” à súplica
que me interpela. É isso o segredo da
sociabilidade, o amor sem concupiscência41. Este amor só é possível pela
ideia de Infinito introduzida em mim,
que me leva a ser eternamente refém
do outro, fazendo com que o meu primeiro e último direito de ser seja responsabilizar por outro, isto é, eu existo
enquanto ser que responsabiliza por
outro. É nisto que se baseia a fundamentação ética da alteridade.
Chegando ao fim deste trabalho
podemos ver que Lévinas tenta mostrar como é que a transcendência do
Infinito se converte em relação com o
Outro, fazendo-me responsabilizar por
ele, e como esta responsabilidade é
sem escapatória, incessável que vai
até à condição de refém, fazendo-me
responsabilizar até pela sua morte. A
questão do Rosto se converte em responsabilidade para com o Outro.
Sou responsável pela responsabilidade, liberdade, erros, miséria e até
pela morte de outrem.
Desta forma podemos ver que o
sujeito Lévinasiano é para-outrem na
medida em que se caracteriza por uma
responsabilidade desmedida, da qual
ninguém pode livrá-lo.
A responsabilidade por Outrem é
uma responsabilidade ética. A ética
dá-se no evento da transcendência,
isto é, na evasão do ser para o outro
assumindo a condição de refém. O
amor que temos em relação ao nosso
próximo é traduzido na nossa condição
de refém, a partir da resposta “eis-me
aqui”. Nesta resposta, estaremos a assumir o primeiro direito do nosso ser
que é responsabilizar pelo outro.
Respondendo agora à questão
inicial, podemos dizer que a ideia de
Infinito é o que fundamenta a própria
alteridade, porque enquanto Deus que
se oferece na sua abertura, mas que
também permanece absolutamente
distinto e transcendente, ela se traduz
no amor do próximo que é a própria alteridade, amor este traduzido na nossa
condição de refém a partir do enfrentamento, onde a presença do rosto reclama a impossibilidade de ser morto
a partir do mandamento que significa
ordem irrecusável.
A alteridade do outro manifestada
no rosto é então o fundamento da sua
ética e esta ética é a própria responsabilidade pelo Outrem.
Perguntamos agora: não será que
o sujeito Levinasiano se torna escravo
do outro, uma vez que se constitui o
eterno refém deste, chegando a perder
a sua própria liberdade perante este na
medida em que a responsabilidade por
ele nega a própria liberdade?
Para Lévinas só posso aproximarme do Infinito, isto é, realizar a ética
esquecendo-me em favor do outro que
me observa. O sacrifício é o critério da
realização ética. Sacrifico-me em favor
do outro42.
41 Lévinas (2002, p. 231).
42 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e
Heidegger, p. 262.
Conclusões
73
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Ele acaba redefinindo a subjectividade descrevendo-a em termos éticos,
isto é, enquanto aquilo que se dá na
relação com o Outro: Podemos entender a relação pré-originária com o Outro como relação interpessoal?
Está claro que seria utópico pensarmos a responsabilidade por outro assim como Lévinas o pensou,
mas de algum modo a sua doutrina
de responsabilidade constitui um
ideal que nos faz pensar até que
ponto este mundo estaria melhor se
cada um de nós, nas nossas acções
levássemos em consideração os
outros, e fizéssemos tudo para que
o outro se desenvolva plenamente
tendo a sua dignidade de pessoa
humana que é.
De certa forma Lévinas propõe a
restauração de uma ética digna do homem, onde eu só existo como sujeito
em virtude de um outro que vela por
mim e pelo qual eu devo velar. Assim,
cada um é apenas enquanto responsável por outrem.
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Castilho), Ed. bilíngüe em latim e português, Campinas, SP: Editora da UNICAMP,
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Souza, revisão e produção de Plínio Martins Filho), Ed. Perspectiva S.A., 1985.
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MELO, Nelio Vieira de. A Ética de Alteridade em Emmanuel Lévinas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
74
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A CONCORDÂNCIA NOMINAL INTERNA
AO DP SUJEITO E A CONCORDÂNCIA VERBAL
NO CRIOULO CABO-VERDIANO:
UMA ANÁLISE MORFOSSINTÁCTICA1
Ideneida Moreno Monteiro
Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Campus de Palmarejo)
Universidade Cabo Verde
RESUMO
O artigo é o estudo inicial do fenómeno da concordância de número e género
no crioulo cabo-verdiano, especificamente a interna ao DP e a entre o sujeito e o
verbo. O objectivo do trabalho é tecer algumas reflexões sobre o assunto. Para
isso, tomou-se como referenciais as teorias linguísticas aplicadas por alguns autores em estudos desenvolvidos com o português brasileiro, de forma a ter recursos para a análise pretendida, uma vez que ainda estão sendo realizados estudos
para a normalização da língua. Serão analisadas frases através do julgamento de
introspecção e de aceitabilidade junto a quatro falantes da língua nativa (crioulo
cabo-verdiano) e, acompanhadas destas, frases em português europeu e português brasileiro como exemplos de comparação. Das duas partes que compõem
o trabalho, uma se encarregará da morfologia, para dar conta do comportamento
flexional de algumas palavras cabo-verdianas e a outra da sintaxe, para verificar
como reagem enquanto constituintes co-relacionados.
Palavras-chave: morfologia; sintaxe; concordância nominal; concordância
verbal.
1
Este trabalho foi orientado pela Professora Dra. Simone Floripi da Universidade Federal de Uberlândia e teve o apoio
da CAPES.
75
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Introdução
Um dos princípios é o de que toda
a língua natural possui uma forma
de expressar a visão de quantidade
e distinção de sexos, quer dizer, de
uma forma de referir-se a uma ou várias coisas que gramaticalmente correspondem aos nomes singular ou
plural, respectivamente, e à forma de
se distinguir o feminino do masculino.
A maneira como se manifesta esta demarcação de quantidade pode variar
de língua para outra, a isso se chama
de parâmetro.
Neste trabalho o interesse é esta
visão gerativista mais delimitada e
precisa: a análise sintáctica em termos de quantidade, ou seja, concordância (AGR) enquanto expressão
das marcas do singular e do plural
em frases do CCV, comparadas com
frases do PBNP. Propõe-se descrever como acontece o AGR interno ao
DP Sujeito e o AGR sujeito verbo especificamente na variante S do CCV
(variante de Sotavento) cujas características serão apresentadas na parte da morfologia.
Atente-se ao caso do português
europeu (PE) que geralmente faz demarcação do AGR pela presença ou
ausência dos chamados morfemas de
número, pessoa, género, modo, tempo e aspecto em todos os elementos
que por natureza o permitem (KHEDI,
2000, COSTA e FIGUEIREDO SILVA
(2006), mas o contrário também se
verifica, como no caso do crioulo cabo-verdiano (CCV) que não demarca
obrigatoriamente o AGR em a todos
os elementos mesmo que a natureza
O programa gerativista defende
que a faculdade da linguagem é um
fenómeno que resulta do código genético humano e que é esse código
que leva à existência das línguas, ou
seja, defende que as línguas surgem
de um processo natural resultante de
predisposições biológicas do homem.
Posto isto, toma como objecto de estudo as línguas naturais enquanto manifestações de uma gramática intuitiva, de regras formuladas por falantes
nativos possuidores de competências
linguísticas e de performances (conhecimento e utilização da língua).
Os gerativistas defendem que todas as línguas naturais são compostas por princípios, isto é, leis gerais
iguais, e por parâmetros, propriedades
específicas que levam à sua diferenciação. Considera-se que há violação
de princípios quando o funcionamento
da mente, neste caso do falante nativo, não tolera uma determinada lei
natural aplicada, constituindo assim a
chamada “evidência negativa”, frases
ou propriedades não possíveis na estrutura sintáctica da língua. Mas, em
termos de parâmetros, uma propriedade pode ser possível numa língua
e não ser noutra. “As línguas basicamente regem-se pelos mesmos
princípios, mas não pelos mesmos
parâmetros, o que é aceitável numa
língua pode não ser noutra”2 (MIOTO, 2005, p. 26).
2 O negrito é acréscimo nosso.
76
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
destes o permita (CARDOSO, 2005).
Veja-se o caso das frases (1) do PE e
(2) do CCV:
ticos, o que justifica a sua divisão em
duas partes:
1 - A morfológica, que ocupar-se-á
das flexões dos vocábulos formais
nome e verbo, tradicionalmente conhecidos por categorias gramaticais,
as mais importantes segundo Câmara JR (1980), com incisão no nome
substantivo e no verbo regular, mas
com referência superficial a adjectivos e determinantes. É uma parte importante porque não faz sentido falar
acerca de concordância sem saber
como os vocábulos se flexionam e
se o CCV permite ou não a flexão do
nome e do verbo;
2 - A partir daí passa-se a aspectos sintácticos, abordando especificamente a concordância de número
interna ao DP Sujeito e entre sujeitoverbo. Nesta parte, far-se-á uma comparação gramatical de frases do CCV
com PBNP e/ou PE.
(1) a. O [determ. sing.] pássaro [subst. sing.]
canta [verbo presente sing.] na [prep. + determ. sing.]
primavera [subst. sing.]
b. Os [determ. plur.] pássaros [subst. plur.]
cantam [verbo presente plur.] nas [prep. determ. +
primaveras [subst. plur.]
plur.]
Conforme o afirmado, verifica-se
que nas frases todos os elementos
da frase (1) que correspondem ao PE
mostraram a marca de quantidade
(singular e plural) em todos os elementos que por natureza permitem.
ta
(2) a. (-) Pásaru [subst. sing.] ta kanna [prep.] primavera [subst.
[verbo presente]
sing.]
b. ?? (-)3 Pásarus [subst. plur.] ta kanta [verbo presente] na [prep.] primavera [subst.
sing.]
O crioulo cabo-verdiano (CCV)
As frases do CCV, para além de
não demonstrarem o artigo definido,
que é um comportamento típico a ser
visto adiante, não apresentaram diferenças quanto à flexão verbal, ao contrário dos substantivos pásaru/pásarus. Apesar disso, não foi demarcado
em primavera, que manteve a mesma
forma no singular e no plural, o que
não aconteceu com as frases do PE.
Este artigo procura descrever como
acontece a concordância no CCV baseando-se em aspectos morfossintác-
O crioulo cabo-verdiano, até ao momento, é a designação da língua que
se fala em Cabo Verde, país arquipelágico situado na costa ocidental africana, formado por dez ilhas das quais
apenas nove são habitadas, cada uma
com uma variante diferente do crioulo.
As variantes estão agrupadas em duas
grandes variedades, tendo em conta
a posição geográfica das ilhas habitadas: as de Barlavento a norte e as de
Sotavento a sul do País.
Os estudos relacionados com o
CCV vêm desde muito no sentido de
3 (-) significará zona vazia e será colocado na frase (ou
segmento) para substituir morfemas não expressas.
77
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
institucionalizá-lo como língua de ensino e administração, para que junto
do português se torne a segunda língua oficial em Cabo Verde4.
Cardoso (2005, pp. 3-10) faz uma
breve abordagem da gramática da
língua cabo-verdiana em aspectos
morfo-sintácticos (morfologia flexional – género e número, derivacional
– sufixação e justaposição), semânticos e fonológicos (alterações e evoluções fonéticas, fonológicas) segundo conhecimentos prévios de alguns
estudiosos da área. Uma das características apontadas por Cardoso é o
princípio da não redundância, a não
demarcação obrigatória e categórica
da marca de AGR em todos os elementos co-relacionados, como exemplifica a frase (3b).
O princípio da não redundância deve-se ao facto do CCV apresentar um
tipo específico de morfologia flexional
como, por exemplo, o caso dos nomes e os adjectivos que não apresentam flexão obrigatória e o dos verbos
flexionam somente quanto ao tempo,
modo e aspecto.
O português brasileiro
não padrão (PBNP)
Numa perspectiva diacrónica, o
PBNP considera-se que o português
brasileiro vem demonstrando uma
significativa redução quanto ao seu
sistema de flexão. Uma teoria defendida por muitos como Duarte (1996) e
Galves (1996) reforçam.
Duarte (1996) sintetiza a flexão
verbal do PB da seguinte forma, como
mostra a Tabela 1:
(3) a. ?? Kes mininus bai prasa bistidu di branku (CCV)5
b. Kes mininu(-) bai prasa bistidu di
branku (CCV)
Tabela 1 – Evolução dos
paradigmas flexionais do português.
Verbo cantar.
Na frase (3a) todos os elementos
apresentam o morfema de número
plural, diferente do que acontece na
frase (3b) em que apenas kes demarca o plural. Apesar do mininu estar no
singular percebe-se a enunciação do
plural na flexão do kes. O AGR esta
presente pelo contexto de fala.
Pessoa
4 Até ao momento Cabo Verde apresenta uma situação
linguística de diglossia, onde a língua oficial é o português e o cabo-verdiano é a língua das comunicações
informais.
Número
Paradigma 1
1ª
Singular Cant – o
2ª direta
Singular Canta – s
Paradigma 2
Cant – o
Paradigma 3
Cant – o
----------
----------
2ª indireta Singular Canta – Ø
Canta – Ø
Canta – Ø
Canta – Ø
Canta – Ø
3ª
Singular Canta – Ø
1ª
Plural
2ª direta
Canta – mos Canta – mos Canta – Ø
Plural
Canta – is
------------
---------
2ª indireta Plural
Canta – m
Canta – m
Canta – m
3ª
Canta – m
Canta – m
Canta – m
Plural
Pode-se verificar que, numa perspectiva diacrónica, há uma simplificação quanto à flexão do verbo e
mais acentuado no Paradigma 3 que
apresenta apenas três formas (canto,
5 Em PE “Aqueles meninos foram à praça vestidos de
branco”.
78
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
canta e cantam) para as pessoas gramaticais com exclusão das formas tu
e nós, desde o Paradigma 2.
tam aquilo que Scherre e Naro (1998)
chamam de variação flexional, ou seja,
uma palavra pode ser usada tanto na
forma singular quanto na plural, sem demarcar necessariamente uma distinção
numeral de singular ou plural. Veja-se o
conjunto de frases a seguir:
Morfologia
A morfologia é a área de estudo
que se ocupa dos morfemas, unidades mínimas significativas6 e dos processos da formação da palavra (derivação e flexão).
Nesta parte do trabalho irá ser
demonstrada a flexão de número e
género dos substantivos, adjectivos,
determinantes e dos verbos do CCV.
Serão mencionados, em breves linhas, alguns casos do PBNP a propósito de comprá-los com a morfologia do CCV.
As abordagens serão feitas com
base na versão Web da gramática do
crioulo cabo-verdiano e em alguns artigos sobre o português brasileiro7.
(4) Kel mininu kumi dósi.
A frase (4) representa a forma singular da enunciação, pois todos os
elementos encontram-se no singular
(o deíctico e o nome);
(5) ?? Kes mininus kumi dósi.
A frase (5) também representa uma
forma da enunciação, desta vez, a do
plural, porque o deíctico e o nome estão flexionados no plural;
(6) Kes mininu kumi dósi.
Atente-se agora à frase (6). Verifica-se que apresenta um dos elementos no plural (o deíctico) e o outro no
singular (o nome). Mesmo sendo a
demarcação do plural apenas no elemento kes remete-se a frase para o
plural. O substantivo mininu usado na
forma de singular não altera a significação de plural da frase. Esta palavra
não constitui uma distinção entre singular e plural, está adaptado ao contexto do enunciado8.
Câmara JR (1980) fala em morfema gramatical zero (ø) que define
como, num vocábulo determinado, a
ausência de um morfema, que está
• A flexão substantiva no crioulo
cabo-verdiano: número e género
Flexão de número
O substantivo cabo-verdiano, ape­
sar de ser flexionável quanto ao número,
não apresenta flexão obrigatória (CARDOSO, 2005). Nas situações em que
é acompanhado de um especificador
plural, pode ou não apresentar também
a mesma marca. Este comportamento
leva a crer que os substantivos apresen6 Exemplo do morfema m que indica a pessoa e o número de tempo e modo verbal (amam, movem, pedem,
põem).
8 Será visto a posteriori, na segunda parte do trabalho,
a questão da concordância tendo em conta o comportamento da flexão das palavras.
7 Consultar as referências bibliográficas.
79
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
presente noutro vocábulo, estabelece
com o primeiro uma oposição significativa. O morfema zero refere-se à
marcação do singular dos nomes em
comparação com o morfema /S/ o de
marcação do plural.
A identificação e a classificação dos
tipos de morfemas são feitas com a apresentação de pares de palavras, a ver:
A parte mininus/mininu da frase
(5) mostra a marca de número do
substantivo demarcando o plural, ao
passo que mininu da frase (6) não
apresenta o morfema de plural: mininus é o morfema /S/ e mininu é o
morfema ø (zero).
aos de singular. Não são palavras
inflexionáveis.
No português brasileiro não padrão
encontram-se também frases cujos
substantivos não apresentam a flexão
de plural num contexto enunciativo
de plural, apresentam somente morfema ø quanto à sua flexão, tal como
acontece no crioulo. Isto deve-se ao
facto de o PBNP apresentar a referida
simplificação no processo flexional. A
mesma frase no PBNP seria:
(7) Os menino comeu o doce.
Como acontece no CCV, a demarcação do plural é feita somente na
flexão do determinante (os) e não no
nome (menino), todavia a frase é um
enunciado plural.
A Tabela 2, a seguir, apresenta,
como ilustração, morfemas substantivais de número do CCV.
Tabela 2 – Morfemas substantivais de número
Marcas
CCV
PE
-s para palavras terminadas em vogais;
Kaza di riku e senpri bunitu
Kazas di riku e senpri bunitu
Casa de rico sempre é bonita
As casas dos ricos são sempre bonitas
Mudjer e intilijenti
Mudjeris e intilijenti
A mulher é inteligente
As mulheres são inteligentes
- is para palavras terminadas em
consoantes;
- s/sis para palavras terminadas em sons
nasais.
Contexto
Armun di Intóni dja forma;
Armuns di Intóni dja forma;
Armunsis di Intóni dja forma
Kaza di riku e senpri bunitu
O irmão do António já se formou.
Os irmãos do António já se formaram.
Casa de rico sempre é bonita
As casas dos ricos são sempre bonitas
Flexão de Género
Mesmo que não seja obrigatória a flexão do substantivo, a
tabela ilustra muito bem que os
substantivos do CCV apresentam
morfemas de plural em oposição
Tal como a flexão de número, não
acontece obrigatoriamente a flexão
nominal de género. Nas situações em
80
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
que acontece, este é marcado pelas
terminações –u ou ø para masculino
e -a para o feminino, porém há situações em que o género é marcado
através da justaposição matxu (masculino) e fémia (feminino)9.
As frases (8b) e (9b) são praticamente uma única frase, porque
dependendo do contexto significam
minhas filhas ou meus filhos. Ambas as frases não apresentaram a
flexão de género na palavra fidju e
nem por isso é agramatical, o que
demonstra a não obrigatoriedade
de flexão dos substantivos.
Já as frases (8c) e (9c) apresentam a flexão de género por acréscimo
de fémia e matxu, palavras justapostas sobre as quais recai toda a informação de género. Isto acontece porque o falante optou por discriminar
a quem se refere (neste caso quem
foi à escola). A frase (8d) é marcada
como agramatical, não é aceitável,
pois não é hábito do falante realizar a
flexão de número da palavra fidja10.
Os morfemas substantivais de
género no CCV podem ser resumidos na Tabela 3, a seguir.
(8) a. As minha filha foi à escola
(PBNP)
b. (-) Nhas fidju bai (-) skola (CCV)
c. (-) Nhas fidju fémia (-) bai skola
(CCV)
d * (-) Nhas fidjas (-) bai skola
(CCV)
(9) a. Os meu filho foi à escola
(PBNP)
b. (-) Nhas fidju bai (-) skola (CCV)
c. (-) Nhas fidju matxu (-) bai skola
(CCV)
d . ?? (-) Nhas fidjus (-) bai skola
(CCV)
Tabela 3 – Morfemas substantivais de género
Morfema de género
CCV
PE\PB
-u/ ø (zero) para masculino
Arminda tevi un mininu
Sinhor djon bai kampu
A Arminda teve um menino
O senhor João foi ao campo
Justaposição matxu
Arminda tevi un mininu matxu
A Arminda teve um menino
-a para o feminino
Arminda tevi un minina
Sinhora Juana bai kampu
A Arminda teve uma menina
A senhora Joana foi ao campo
Justaposição fémia
Arminda tevi un minina fémia
A Arminda teve uma menina
9 Em situações diversas as palavras matxu e fémia
acabam por fazer a redundância (mininu matxu, minina
femia)
10 Parece ser uma das excepções entre os substantivos da língua, pois permite a flexão de makáku/makáka
(macaco/macaca).
81
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
• A flexão adjectival no crioulo
cabo-verdiano: número e género
Flexão adjectival de número
Os substantivos do CCV flexionam quanto ao género e fazem-no
de duas formas: através de morfemas –u , ø ou justaposição de mátxu
para a classe do masculino e através de -a e da justaposição de fémia
para o feminino. Perante esta situação pode-se questionar o motivo da
necessidade do substantivo ter justaposição para apresentar o género.
Esta indagação permite uma pesquisa adicional que pode ser desenvolvida em um outro momento.
De qualquer modo interessa, neste momento, notar que os substantivos não usam os mofemas de género
em todos os casos; não é obrigatória
a flexão destes para a percepção do
sentido enunciado. Por vezes adopta apenas o morfema do masculino
-u para os dois géneros como se viu
nas frases (8b) e (9b), sendo que por
vezes opta por pela justaposição:
frases (8c) e (9c). Os substantivos
cabo-verdianos apresentam uma flexão de número e género muito reduzidas, apesar de ser uma palavra
flexionável.
Em comparação com o CCV, o
género do PBNP é demarcado pelos
morfemas -o, ø e –a, igual ao CCV,
mas não há a necessidade da justaposição. O género é sempre marcado, distinguindo feminino e masculino através dos morfemas, frases
(8a) e (9a), mesmo que não haja flexão de número (As minha filha/ Os
meu filho).
Os adjectivos no CCV geralmente não apresentam flexão de número
como se pode verificar nas frases a
seguir:
(10) a. As árvores são bonitas (PE)
b. Kes arvri e bunitu (CCV)
c * Kes arvri e bunituS (CCV)
O adjectivo flexionado bunitus é
uma forma não aceitável no CCV, pois
o adjectivo não é flexionado quanto ao
número, mantém sempre a forma singular para todos os contextos.
(11) a. Os cavalos negros correm
muito rápido (PE)
b. kabálus pretu ta córi rápidu
(CCV)
c * kabálus pretuS ta córi rápidu
(CCV)
O mesmo que se passou com bunitus das frases (10c) vai acontecer
com pretus das frases (11c). O adjectivo apenas apresenta a flexão de
número no singular, mesmo estando
num enunciado plural.
Neste contexto também se verifica que o adjectivo bunitus não flexionou quanto ao género e, tal como
a classe do substantivo, usou a forma masculina sem demarcar a natureza feminina do nome que acompanha arvri. Isto acontece pelo facto
de não ser obrigatória a sua flexão
82
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Determinantes
de género mesmo tendo essa natureza flexional, como se vai verificar
a seguir.
O CCV apresenta basicamente
um único tipo de determinante, o indefinido (Cardoso, 2005). No entanto, quando necessária a expressão
de determinação do nome, recorrese a deícticos, pronome demonstrativo12, mais especificamente às formas Kel/Kes. 13
Flexão adjectival de género
Os adjectivos apresentam flexão
de género apenas de nomes animados11, os inanimados adoptam a
forma masculina dos adjectivos (ver
Tabela 4).
Tabela 4 – Morfemas adjectivais de género
Morfema de género
CCV
PE
-a/-era para feminino
Juana e bunita
Juana batukadera1 bai badja na festa.
A Joana é bonita
A Joana “batucadeira” foi à festa dançar.
-u/-or para masculino
Djon e bunitu
Djon Batukador bai toka na festa
Camiza branku di Djon
Bistidu nóbu di Juana
O João é bonito
O João “batucador” foi à festa tocar.
A camisa branca do João
O vestido novo da Joana
Os adjectivos cabo-verdianos apresentam quatro formas para o género,
-a/-era para o feminino e -u/-or para
o masculino. As formas mais usadas
são -a e -u, mas nem sempre são usadas obrigatoriamente, o que inevitavelmente leva a uma concordância no
plano contextual com o elemento que
caracteriza, como exemplifica a frase
da Tabela 3 Camiza branku di Djon (A
camisa branca do João) em que camisa sendo uma palavra feminina tem o
adjectivo flexionado no masculino.
O artigo indefinido cabo-verdiano
apresenta as mesmas formas -un e
-uns para o feminino e masculino singular e plural. Não apresenta flexão
de género, mas apenas de número,
como ilustra a Tabela 5, a seguir.
12 Pereira, Dulce et alli apresentam de forma bem estruturada os Pronomes Demonstrativos cabo-verdianos
em: Diversidade Linguística: Crioulo de Cabo Verde in
Projecto Diversidade Linguística na Escola Portuguesa (ILTEC). Alexandre e Soares (2004) apresentam
controvérisas quanto à existência do determinante definido (pp. 3-5).
A referência a Pereira, Dulce et alli não foi completada
pela autora (Nota do Organizador).
13 Gramática do crioulo cabo-verdiano in <http://
pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano>. Acesso em: 26.08.09.
11
Gramática do crioulo cabo-verdiano: <http://
pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano> . Acesso em: 26.08.09.
83
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Tabela 5 – Deícticos e determinantes
Os determinantes
Frases exemplos
Kel/kes
Deíctico demonstrativo
O carro pequeno é mais bonito (Português)2
Kel karu pikinoti e más bunitu (CCV) - uso do sing. Kel
Os carros pequenos são mais bonitos
Kes karu pikinoti e más bunitu – uso do sing. Kes
Un
Uns
Artigo Indefinido
Uma flor brotou hoje (Português)
Un flor brota oji (CCV)
Um mosquito picou-me
Muskitu/ un muskitu pika-n
Umas flores brotaram hoje (Português)
Uns flor brota oji (CCV)
Uns mosquitos picaram-me
Muskitu/ uns muskitu pika-n
A classe dos determinantes caboverdianos é muito reduzida; apresenta
basicamente apenas a flexão de número (un e uns). Os deícticos são por muitos considerados como pronomes demonstrativos. Em ambos os casos não
se apresenta a flexão quanto ao género,
ao contrário do PBNP que possui determinantes definidos e indefinidos nas
formas masculina, feminina, singular e
plural. É a classe que sempre apresenta a flexão obrigatória nas frases caboverdianas e brasileiras, pois toda a informação numeral concentra-se muitas
vezes apenas neste constituinte.
cais que suportam toda a informação
de tempo, modo e aspecto. Por isso o
sujeito no CCV é expresso obrigatoriamente, a língua não aceita sujeito
subentendido (CARDOSO, 2005); a
realização de sujeito nulo ou inversão
de sujeito verbo, como ficará demonstrado mais adiante (SILVA, 2009).
O tempo verbal no CCV é expresso
basicamente em presente, que corresponde à manifestação dos verbos idênticos ao infinito português exceptuando
o morfema r final, e o passado que se
constrói com um acréscimo do morfema
-ba/va à forma do presente crioulo.14
A Tabela 6 apresenta os morfemas
de tempo, modo e aspecto do CCV e
algumas frases do seu contexto de realização15.
• A flexão verbal
no crioulo cabo-verdiano
No CCV os verbos não apresentam
flexão de pessoa ou número, apenas
expressam tempo, modo e aspecto
através do uso de morfemas predicativos, afixos verbais, junto dos radi-
14 < http://pt.wikipedia.org/wiki/Crioulo_cabo-verdiano_% E2%80%94_sistema_verbal>. Acesso em:
08.09.09.
15 Idem Cardoso (2005). Os exemplos não sofreram alterações, mantêm a forma original do artigo donde foi retirado.
84
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Tabela 6 – Morfemas predicativos
Morfemas Predicativas
Tempo, Modo e Aspecto
Frases exemplos
ta
Aspecto imperfectivo (actualizador imperfectivo)
– corresponde ao presente do indicativo em
português.
suj. + ta + V
Es ta bai. /ez tɐ baj/
Eles vão
sta3, sa ta, ta ta, ti ta.
Aspecto progressivo (actualizador progressivo)
variantes de Brava, Fogo e Maio - suj. + stâ + V.
M’ stâ Kumê. /ƞ stɐ kuˈme/
«Eu estou a comer. / Eu estou
comendo.» Eu estou a comer
Presente
variante de Santiago - suj. + sâ + tâ + V
variantes de Boa Vista, Sal e São Nicolau - suj. +
tâ + tâ + V
variantes de São Vicente e Santo Antão - suj. + tí
+ tâ + V
al (apenas em
perífrases)
Não existe uma forma específica para o Futuro
do Indicativo no CCV, mas esse tempo pode ser
expresso:
a) como imperfectivo do presente com a
função de futuro;
b) com o uso do verbo auxiliar «ir»;
c) Através de perífrases a indicar uma
eventualidade.
M’ sâ tâ cúme. /ƞ sɐ tɐ ˈkume/
«Eu estou a comer. / Eu estou
comendo.»
M’ tâ tâ c’mê. /m tɐ tɐ kme/
«Eu estou a comer. / Eu estou
comendo.»
M’ tí tâ c’mê. /m ti tɐ kme/ «Eu
estou a comer. / Eu estou
comendo.»
a) Ex.: M’ tâ tchigâ manhã. /m
tɐ ʧiˈɡɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegarei
amanhã.»
b) Ex.: M’ tâ bái tchigâ. /m tɐ baj
ʧiˈɡɐ/ «Eu vou chegar.»
c) Ex.: M’ ál tchigâ. /m al ʧiˈɡɐ/
«Eu hei de chegar.»
Passado
ba
Aspecto perfectivo - situações passadas e já
terminadas - pretérito mais que perfeito do
indicativo
Variante Sotavento - suj. + V+ba
Variante Barlavento – não tem a mesma forma do
CCV, mas a mesma do português.
Sotavento - M’ mexêba. /m
meˈʃebɐ/ «Eu mexera. / Eu tinha
mexido.»
Barlavento - M’ tínha mixíd’. /m
ˈtiɲɐ miˈʃid/ «Eu mexera. / Eu
tinha mexido.»
85
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
tâ seguido da forma
base para o passado
do verbo–ba/va
-
-
Aspecto imperfectivo - situações passadas, mas
ainda não terminadas, ainda a decorrer
Variante Sotavento - suj. + tâ + V+ba.
Variante Barlavento – suj. + tâ+va + V
Sotavento - M’ tâ corrêba. /n tɐ
koˈʀebɐ/ «Eu corria.»
Aspecto progressivo - situações passadas, que
estavam a acontecer de uma forma contínua,
ininterrupta - perífrase durativa do pretérito
variantes de Brava e Fogo - M’
stába tâ compô. /ƞ ˈstabɐ tɐ
kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. /
Barlavento - M’ táva corrê. /m
ˈtavɐ koˈʀe/ «Eu corria.»
imperfeito do indicativo.
variantes de Brava e Fogo - suj. + stâ+ba + tâ + V
variantes de Santiago e Maio - suj. + sâ + tâ +
V+ba.
variantes de Barlavento - suj. + tâ+va + tâ + V.
Eu estava arranjando.»
variantes de Santiago e Maio
- M’ sâ tâ compôba. /ƞ sɐ tɐ
kõˈpobɐ/ «Eu estava a arranjar. /
Eu estava arranjando.»
M’ táva tâ compô. /m ˈtavɐ tɐ
kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. /
Eu estava arranjando.»
Não existe uma forma específica para o Futuro do
Passado no CCV, mas esse tempo pode ser expresso:
d) a) imperfectivo do passado com a
função de futuro.
e) b) verbo auxiliar «ir».
f) c) Através de uma perífrase a indicar
uma eventualidade.
a) Ex.: M’ tâ tchigába manhã. /m
tɐ ʧiˈɡabɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegaria
amanhã.»
b) Ex.: M’ tâ bába tchigâ. /m tɐ
ˈbabɐ ʧiˈɡɐ/ «Eu ia chegar.»
c) Ex.: M’ ál tchigába. /m al
ʧiˈɡabɐ/ «Eu havia de chegar.»
Em nenhuma das variantes apresentadas na Tabela 6 se verificou o
uso do verbo flexionado quanto ao número e pessoa. Sempre se manteve a
flexão apenas temporal, de modo e aspecto, ao contrario do PBNP, que teve
apenas uma redução da flexão nas paradigmas verbais (Duarte, 1996).
te gramatical responsável pelo estudo
das combinações de elementos agrupados numa sequência frásica.
Segundo a visão aristotélica, a língua apresenta duas categorias: o sujeito e o predicado. No entanto, é possível verificar-se com a sintaxe moderna que uma frase pode apresentar
várias outras categorias, mas considera-se que as básicas são realmente
as apresentadas pelos gregos17. Cada
um desses elementos tem um conjunto de propriedades comuns e desempenha uma função dentro da frase, ou
seja, desempenha a chamada função
Sintaxe
Define-se a sintaxe como uma das
áreas núcleo da linguística16 que tradicionalmente é a representante da par16 As outras principais áreas da linguística são a Fonologia, a Morfologia e a Semântica, juntamente com a
Sintaxe.
17 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sintaxe 11 set 16:06.
86
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
sintáctica que corresponde ao seu papel na frase. Uma das ordens básicas
de apresentação desses elementos
enquanto sua função sintáctica é sujeito-verbo-objecto.
Nesta parte de análise sintáctica
trabalham-se apenas as categorias de
sujeito e verbo quanto às suas relações de concordância. Ver-se-á como
acontece a correspondência de flexão
dos termos que compõem o sujeito, e
também como é a relação entre o sujeito e o verbo numa frase.
Foi dito anteriormente que o CCV
não é uma língua de sujeito subentendido. Cardoso (2005)18 não aceita
a realização de sujeito nulo nem a inversão de sujeito verbo como reforça
Silva (2009), mas que também levanta a possibilidade do CCV ser uma língua semi-pro-drop. Todas essas informações devem-se ao comportamento
dos verbos do CCV, à sua flexão19,
como se pôde verificar nas flexões
apresentadas anteriormente. Mas são
comportamentos do crioulo que não
se discutem neste trabalho e, que,
entretanto, podem orientar na possível justificação da não concordância
sujeito-verbo.
Neste momento, o propósito não
é teorizar sobre esses comportamen-
tos, mas sim trabalhar frases com sujeitos expressos visivelmente. Algumas serão assinaladas com asterisco
(*) para demonstrar a não aceitabilidade da mesma, como exemplifica a
frase (12d)20.
(12) a. Nós comemos o bolo todo
(PE)
b. Comemos o bolo todo (PE)
c. Nu kume kel bolu fepu (CCV)
d. *Kume kel bolu fépu (CCV)
A frase (12d) é apontada como
agramatical, pois ao subentender o
sujeito fica-se sem perceber quem
praticou a acção de comer o bolo
todo, o que não acontece com a frase
(12c) por ter o sujeito expresso visivelmente. Isto se deve ao facto de o
verbo do CCV não apresentar flexão
de pessoa e número e por isso não
consegue dar conta de identificar o
sujeito, como acontece com o português, através dos morfemas verbais
de pessoa e número.
Dois conceitos a serem muito
usados durante a análise das frases são os de concordância visível
e não concordância visível (COSTA
e FIGUEIREDO SILVA, 2006). O primeiro referir-se-á a situações em que
existem todos os elementos relacionados a mostrarem o mesmo tipo de
morfemas flexionados (singular ou
plural) e o segundo a situações em
que nem todos os elementos que se
relacionam demarcam a sua flexão
18 Idem; Cardoso (2005). Os exemplos não sofreram
alterações, mantêm a forma original do artigo donde foi
retirado.
19 Alexandre e Soares (2004) consideram que os crioulos não possuam riqueza flexional e são morfologicamente “pobres”, por quase não possuirem morfologia
verbal, nem marcas de género e número, apesar de eles
considerarem que o substantivo cabo-verdiano tem um
sistema de flexão regulado.
20 De acordo com a notação utilizada na área da sintaxe
gerativista.
87
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
te do português brasileiro não padrão
(PBNP), denominado por Costa e Figueiredo Silva como PB2.
Costa e Figueiredo Silva (2006)
caracterizam o português europeu
(PE) como uma variante da língua
que apresenta a concordância (marca
de número) em todas as categorias
lexicais flexionáveis, como se pode
verificar na frase (13) e referem a uma
das variantes do Português Brasileiro
como variante PB2, aquela que não
apresenta nenhum tipo de concordância (marca de número), nem interna
ao DP nem entre este e o predicado,
como exemplificado na frase (15). Interessa neste estudo essa variante
denominada por PB2 que se chama
de português brasileiro não padrão
(PBNP)21 pelo seu comportamento similar ao do CCV22.
morfológica de concordância, deixando o sentido frásico para o contexto a
que se referem (uns no plural outros
no singular).
• A concordância de número
interna no DP sujeito
do crioulo cabo-verdiano
Como já foi dito, a concordância
é a correspondência entre os elementos que se relacionam. A concordância nominal acontece quando os
elementos relacionados com o nome,
dispostos num mesmo sintagma,
apresentam o mesmo tipo de flexão
de número e género de forma a se
combinarem entre si.
Já se verificou que o CCV apresenta categorias gramaticais flexionáveis,
mas também que cada uma tem suas
características próprias. Há aqueles
que, mesmo tendo todas as formas
flexionadas, não as expressam obrigatoriamente (nome) ou sem flexão
de número, mas com flexão quanto
ao género apresentando excepções
(adjectivos), e outros que têm somente flexão de tempo, modo e aspecto
dispensando a de pessoa e número
(verbo).
Veja-se como os elementos do
CCV se relacionam numa estrutura
específica que é a DP Sujeito. As investigações apresentadas por Scherre e Naro (1998) e Costa e Figueiredo
Silva (2006) serão retomadas como
embasamento para as análises que
se seguirão principalmente quando
se fazem comparações com a varian-
(13) Os carros são lindos (PE)
(14) Os carro é lindo (PBNP)
Scherre e Naro (1998) baseiam-se
na teoria da variação linguística para
analisarem o português brasileiro de
21 Entende-se por não padrão pelo facto de a variante
não apresentar a redundância na marcação do plural,
ou seja, os constituintes de uma mesma sentença não
apresentam as mesmas flexões. Com isso, essa variante
afasta-se das normas padronizadas que a escrita ainda
preserva. Essa variante não representa apenas a classe
menos escolarizada, pois todos e quaisquer falantes a
usam (cf. SHERRE e NARO, 1998; COSTA FIGUEIREDO e SILVA, 2006).
22 Não se refere aqui ao facto do CCV estar ou não de
acordo com as normas gramáticas porque os estudos
gramaticais do crioulo não efectivaram normas como as
da gramática do português, pois ainda se está a estudar
a língua.
88
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
uma forma ampla. Falam de variação
sistemática23 para justificar o facto de
a língua apresentar dois tipos de variantes, a explícita com apresentação
dos morfemas de plural e a variante zero, aquela sem demarcação do
morfema de plural em que a palavra
é flexionada no singular. A referida
variação sistémica também se aplica
ao CCV, como se pode verificar nas
frases a seguir:
cam o plural apenas no elemento D
(aquelas/kes), as palavras pessoa e
genti não apresentam a marca flexionada do plural. Nestas pode-se perceber que não há uma concordância
visível, mas apenas uma contextual
por apresentarem uma coexistência
de uma variante explícita (kes) e uma
zero (genti), ou seja, demarcam uma
não concordância visível entre os
elementos que compõem o mesmo
sintagma (COSTA e FIGUEIREDO
SILVA, 2006).
A seguir, estende-se um pouco o
DP sujeito com o acréscimo de adjectivos em frases da variante europeia
e brasileira ao padrão e no CCV, tendo em consideração que essa categoria gramatical no CCV é realizada
geralmente na posição pós-nominal.25
Veja-se:
(15) a. AquelaS pessoaS vieram
de Pernambuco (PBNP) - variantes
explícita24
b. AquelaS pessoa0 vieram de Pernambuco (PBNP) - variante explícita e
variante zero
c. KeS gentiS ben di Pernanbuku
(CCV) - variantes explícita
d. KeS genti0 ben di Pernanbuku
(CCV) - variante explícita e variante
zero
D+N+A – determinante,
nome e adjectivo.
Concentre-se apenas no DP sujeito das frases acima transcritas.
Vê-se que há concordância visível
de número interno ao DP apenas nas
frases (15a) e (15b) porque todas as
palavras deste segmento estão flexionadas da mesma forma, demarcando
o plural. As frases (15c) e (15d) mar-
(16) a. OS carroS pretoS (PE) variantes explícitas
b. OS carru0 preto0 (PBNP) - variante explícita e variantes zero
c. KeS karu0 pretu0 (CCV) - variante explícita e variantes zero
d. KaruS pretu0 (CCV) - variante
explícita e variante zero
e. Karu0 pretu0 (CCV) - variantes
zero
23 Os falantes têm ou podem usar mais do que uma
forma da língua; com isso, esta nunca se realiza da mesma forma. Realiza-se segundo alguns aspectos como os
sociolinguísticos (factores diatópico, diastrático e difásicos), psicolinguísticos (estágio de desenvolvimento mental), por exemplo (cf. BRESCANCINI, Cláudia Regina in
A teoria da variação lingüística, s/d).
25 Gramática do crioulo cabo-verdiano: < http://
pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano>. Acesso em: 26.08.09.
24 Variante explicita e zero são nomenclaturas retiradas
de Sherre e Naro (1998).
89
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
• D+N+A+A – determinante,
nome, adjectivo e adjectivo.
As frases (16e) e (17e) parecem
ser as únicas a demarcarem a concordância entre os seus elementos.
Pois bem, essa concordância não corresponde à realidade da enunciação,
mas é uma realização típica do CCV e
não se verifica em nenhuma das outras variantes aqui apresentadas. Na
verdade, apresenta uma “falsa” concordância tendo em conta a mensagem que se quer transmitir. Respeita
sim concordância da expressão dos
morfemas zeros em todos os seus
elementos e por isso de forma isolada não se percebe se é um ou mais
carros pretos, ou seja, está presa ao
contexto da enunciação.
Experimente-se com adjectivos na
posição pré-nominal:
(17) a. Os carros pretos e vermelhos (PE) - variantes explícitas
b. OS carru0 preto0 e vermelho0
(PBNP) - variante explícita e variantes
zero
c. KeS karu0 pretu0 i brumedju0
(CCV) - variante explícita e variantes
zero
d. KaruS pretu0 i brumedju0 (CCV)
- variante explícita e variantes zero
e. Karu0 pretu0 i brumedju0 (CCV)
- variantes zero
Verifica-se que o fenómeno da variação linguística (SHERRE e NARO,
1998) se repete tanto nos DP’s simples quanto nos compostos do PBNP
e CCV. Já o PE apresenta concordância de número em todos os elementos
de forma estável, como afirmara Costa e Figueiredo Silva (2006).
O PBNP e o CCV apresentam a
marca de plural em apenas um dos
elementos, mesmo sendo os outros
flexionáveis, ao contrário do PE que
demarca em todos os elementos. As
frases (16b), (16c), (17b) e (17c) apresentam o morfema de plural apenas
no D (oS/ keS), não apresentam nenhum tipo de concordância de número
visível interna ao DP Sujeito; as (16d)
e (17d) também marcam o morfema
de plural apenas num elemento e,
na ausência de um Spec, é o N que
flexionou. Em todas essas frases, a
flexão de número está marcada em
apenas um dos elementos.
D+A+N+A+A – determinante,
adjectivo, nome,
adjectivo e adjectivo.
(18) a. OS novoS carroS pretoS e
vermelhoS da Toyota (PE) - variantes
explícitas
b. Os novo0 carro0 preto0 e vermelho0 da Toyota (PBNP) - variante
explícita e variantes zero
c. *KeS nóbu0 karu0 pretu0 i brumedju0 di Toyota (CCV) - variante explícita e variantes zero
d. KeS karu0 nóbu0 pretu0 i brumedju0 di Toyota (CCV) - variante explícita e variantes zero
Na maior parte das vezes, o adjectivo, na posição pré-nominal, torna
a frase agramatical como aconteceu
90
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
com a frase (18c) ao contrário da frase (18d) que, por o adjectivo estar na
pós-nominal, é aceitável mesmo tendo os adjectivos valores semânticos
diferentes: Karu nóbu em CCV pode
significar tanto novos carros ou carros
novos26
Em suma, verifica-se que quanto
à concordância de número interna
ao DP sujeito, tanto o CCV quanto
o PBNP não manifestam nenhuma
marca de concordância, pois no mesmo sintagma apenas um dos elementos apresenta o morfema de plural (o mais à esquerda) e os outros
elementos apresentam morfemas de
singular. Diferenciam-se quanto ao
posicionamento de adjectivos pré-nominais: o PBNP permite a realização
e o CCV não.
Verifiquemos as frases a seguir:
(19) a. OS carroS pretoS são lindos (PE)
b. OS carru0 preto0 é lindo
(PBNP)
c. KeS karu0 pretu0 e bunitu
(CCV)
A (19a), correspondente ao PE,
apresenta a concordância chamada
de tradicional pelas gramáticas normativas, por apresentar todas as flexões harmoniosamente combinadas
em todos os elementos que fazem
parte da frase. As frases (19b) e (19c)
já revelam um tipo de concordância
diferente, pois vê-se que nem todos
os elementos evidenciam a mesma
flexão; neste casos, flexão de número
na categoria dos nomes (determinante, nome e adjectivo) e a de número
e pessoa nos verbos. Em ambas as
frases quase todos os elementos se
flexionam no singular, no entanto,
verifica-se um elemento com a marca
de plural, o determinante. Com isso
intuitivamente consegue-se perceber
que as frases dizem respeito a um referente plural.
Scherre e Naro (1998) no estudo
sobre a concordância de número no
português brasileiro afirmam que há
uma variação sistemática nos processos de concordância de número
e uma variação da flexão numeral de
uma mesma frase. Posto isto, algumas palavras podem exibir variantes
explícitas e outras variantes zero (ø),
como ilustram as seguintes frases:
• A concordância sujeito-verbo
no crioulo cabo-verdiano
Pelo facto de não haver flexão
verbal, se o verbo cabo-verdiano não
apresenta flexão de pessoa e género,
até que ponto podemos afirmar se há
ou não concordância sujeito-verbo?
Realmente fala-se de concordância verbal quando o verbo por natureza apresenta flexão para concordar
com o sujeito. Todavia há situações
em que a noção de concordância fica
contida apenas a nível contextual. Um
enunciado pode transmitir a noção de
concordância mesmo que o nome e o
verbo não estejam em conformidade.
26 Karu nobu – carro das novas marcas lançadas no
mercado ou carros de 0 km, conforme o contexto.
91
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
te do PBNP, a marca morfológica de
plural de concordância é feita apenas
na posição de determinante optando,
assim, pelo enunciado, como exemplifica a frase (21b), sem flexão do verbo
a “concordar” com o sujeito.
Pode-se notar que a concordância
sujeito-verbo acontece de forma idêntica entre o CCV e o PBNP. Ambas
as línguas apresentam ao que Costa
e Figueiredo Silva (2006) chamam
de concordância não visível, porque
numa mesma frase há elementos corelacionados que apresentam morfemas /S/ e morfemas ø (Câmara Júnior, 1980).
(20) a. Eles GANHAM (variante explícita);
b. Eles GANHA0 (variante zero).
Em ganham/ganha o m de ganham mostra a marca de pessoa e
número do verbo concordando com o
seu sujeito, ao passo que ganha não
apresenta nenhum morfema que o
concorde com o sujeito que acompanha, apresenta sim um morfema que
o identifica como terceira pessoa do
singular, o verbo expressa pessoa e
número que não correspondem ao sujeito ao qual se relaciona. Neste caso,
a frase (20a) é uma variante explícita
porque mostra visivelmente as marcas
de concordância sujeito-verbo. O morfema m indica a pessoa e o número do
verbo que concorda com o sujeito que
apresenta. A frase (20b) apresenta a
variante zero pela ausência do morfema de concordância no verbo.
Costa e Figueiredo Silva (2006),
quando se referem ao PBNP, afirmam categoricamente que este não
apresenta nenhum tipo de concordância ente sujeito-verbo, seja qual
for a natureza do verbo. Os exemplos
mostram um dos comportamentos do
PBNP:
Conclusão
Com base na pesquisa desenvolvida, percebeu-se que o crioulo caboverdiano apresenta uma estrutura
morfossintáctica bastante própria, se
for tomado como exemplo a língua
base da qual originou, o português
europeu. Todavia exibe algumas semelhanças em relação à variante português brasileiro não padrão no que
concerne a questões de concordância
(AGR). Ambas as línguas não apresentam obrigatoriamente concordância interna ao DP sujeito nem entre o
sujeito e o verbo. No CCV, é opcional
a concordância de número interno ao
DP sujeito devido ao comportamento
de algumas das suas categorias gramaticais, como por exemplo, os nomes
que opcionalmente podem apresentar
marca de número e género. A concor-
(21) a. ?Os menino comeram o
doce
b. Os menino comeu o doce
Na frase (21a), nota-se que o verbo se flexiona indicando a pessoa e o
número que eventualmente concorda
com o sujeito os menino. Para o falan-
92
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
dância visível sujeito- verbo é inexistente, pois o verbo do crioulo caboverdiano apresenta uma única flexão
para todas as pessoas gramaticais.
Como se viu em algumas ocorrências
do português brasileiro não padrão,
dispensa-se totalmente a demarcação de concordância visível que não
acontece nem em relação à natureza
verbal. Basicamente um tempo verbal
apenas distingue a primeira pessoa
das outras.
A marcação do plural, em ambas
as línguas, é visível apenas num dos
elementos: no caso do sujeito é marcado somente no primeiro à esquerda,
os outros elementos mantém a forma
singular e na relação sujeito-verbo
apenas o sujeito demarca o plural.
Em todos esses casos, pode-se dizer
que a concordância apenas acontece
contextualmente.
Pode-se verificar, portanto, que
não há concordância de número plural
visível no crioulo cabo-verdiano e em
algumas variedades do português não
padrão, revelando, assim uma grande
semelhança entre a natureza sintáctica destas duas línguas.
Assim, esta investigação objectivou
uma descrição das características sintáctico-morfológicas no que se refere
aos padrões de concordância nominal
e verbal ao comparar a variedade não
padrão do português brasileiro com o
crioulo cabo-verdiano. Dessa maneira, este trabalho traz subsídios para
o desenvolvimento de pesquisas mais
aprofundadas que tratem das estruturas sintácticas dessas línguas, geradoras desse fenómeno de concordância sob uma abordagem comparativa
das línguas em estudo.
Considera-se que este trabalho foi
interessante na medida em que em
seu âmbito trabalhou-se um aspecto
gramatical pertinente nos estudos sobre o CCV, pelo menos a nível académico, pois trabalhos do tipo contribuem de certa forma, nesta fase de
valorização e padronização do crioulo
como língua oficial.
93
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Referências
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GALVES, Charlotte C. O Enfraquecimento da Concordância no Português Brasileiro. In Roberts, Ian e Kato, Mary A. (orgs.). Português Brasileiro: Uma viagem
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KEHDI, Valter. Morfemas do Português. S. Paulo: Editora Ática, 6ª edição,
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CARDOSO, Ana Josefa. O papel da língua materna na aquisição de uma segunda língua: o caso da língua cabo-verdiana (breve abordagem gramatical),
94
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
2005, pp. 3-10. Disponível em: <http://www.multiculturas.com/textos/lingua_caboverdiana_Ana-Josefa.pdf>. Acesso em: 20.08.2009. Referência não completada pela autora (Nota do Organizador).
COSTA, João e FIGUEIREDO SILVA e Maria Cristina (2006). ????Notas sobre
a concordância verbal e nominal em português. Disponível em: <http://www.gel.
org.br/estudoslinguisticos/edicoesanteriores/4publica-estudos- 2006/sistema06/
jc,mcfs.pdf>. Referência não foi completada pela autora (Nota do Organizador).
SCHERRE, M. M. P. & NARO, A. J (1998). Sobre a concordância de número no português falado do Brasil. In Ruffino, Giovanni (org.). Dialettologia, geolinguistica, sociolinguistica. (Atti del XXI Congresso Internazionale di Linguistica
e Filologia Romanza). Centro di Studi Filologici e Linguistici Siciliani, Universitá
di Palermo. Tübingen. Max Niemeyer Verlag. Disponível em: <http://www.ai.mit.
edu/projects/dm/bp/scherre-naro98.pdf>.
ATT
Onde é que vão entrar???
(Footnotes)
1 Batukador/batukadeira (batucador/batucadeira) relativo ao batuque, uma
das danças tradicionais de Cabo Verde.
2 A frase também pode ser enunciada sem nenhum uso de determinante Karu pikinoti e más bunitu.
3 Este morfema apresenta quatro outras realizações conforme ilustra a segunda coluna da Tabela 6. Cardoso (2005) refere-se apenas a sa ta.
95
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A ARTICULAÇÃO ENTRE O PRÉ-ESCOLAR
E O ENSINO BÁSICO INTEGRADO
1
Nilton César Santos Soares
Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Delegação de São Vicente)
Universidade de Cabo Verde
RESUMO
Ao abordar a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, na
escola Municipal Doralice de Arruda, este trabalho analisa o enquadramento legislativo e as potenciais práticas e procedimentos dos docentes, afectos a estes dois
níveis de ensino, na promoção desta articulação, bem como as práticas e atitudes
que têm colocado em causa a eficácia desta articulação. Evidencia, também, as semelhanças com a realidade de Cabo Verde em termos das intenções em promover
a articulação e aponta diferenças relacionadas com as práticas docentes.
Palavras-chave: transição; articulação; Educação infantil; Ensino Fundamental;
sucesso escolar.
Introdução
de forma processual e contínua. Por
isso, a transição da Educação Infantil
para o Ensino Fundamental deve ser
objecto de atenção da tutela da educação, sendo considerada uma condição
indispensável para aumentar a eficácia
e a qualidade de ensino, principalmente
nos primeiros anos de vida da criança.
Durante muitos anos não se deu a
importância merecida à articulação das
diversas etapas do sistema escolar no
sucesso educativo. Hoje, estudos apontam que a passagem do aluno de um
subsistema para outro deve ser feita
1 Este trabalho foi orientado pelo Professor Dr. Teófilo Otoni da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri, e teve o apoio da CAPES.
97
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
a criança demonstre capacidade de fazer amigos e de se fazer aceitar no grupo de colegas.
Deverá ser capaz de aceitar e
seguir regras de convivência e
de vida social, saber escutar e
esperar pela sua vez para falar,
compreender e seguir orientações e ordens. As crianças
que não são bem aceites entre
os seus pares desenvolvem dificuldades nas aprendizagens
formais com consequências no
sucesso escolar.
A mudança de ambientes educativos provoca sempre a necessidade de
adaptação por parte da criança, sendo
que o sucesso educativo refém desta
adaptação. Segundo Kramer (2006),
a pré-escola poderia antecipar-se, salvando a escola dos problemas relacionados com o fracasso académico.
Contudo, esta adaptação só poderá
ser facilitada se os professores de ambos os subsistemas, juntamente com a
família, estabelecerem pontos de equilíbrio para fomentar um clima mais favorável à transição entre os dois níveis
de ensino e proporcionando uma atenção individualizada a cada criança.
De acordo com Griebel e Niesel (2003), citados por Vasconcelos
(2007), para que a transição e a adaptação sejam de sucesso torna-se indispensável que a criança desenvolva
algumas capacidades essenciais, tais
como:
Capacidade de autoconfiança e
auto-estima. Crianças com baixa auto-estima dificilmente se
interessam pelos processos de
aprendizagem mais elaborados
que lhes são exigidos.
Capacidade de autocontrole,
que constitui uma competência básica para adaptação da
criança no ensino obrigatório. A
criança precisa de desenvolver a
capacidade de domínio pessoal,
de concentração, de fazer face
à frustração para pôr em prática
as suas interacções sociais e os
processos de gestão de actividades em sala de aula.
Capacidade de aprender a
aprender, pressupondo que a
criança tenha uma evolução no
domínio da compreensão e da
comunicação oral e tenha tomado consciência das diferentes
funções da escrita e da correspondência entre o código oral e
escrito, ou seja, que o que se diz
se pode escrever e ler.
Capacidade de resistência, face
a mudanças.
Capacidade de se inserir num
grupo de pares e com eles cooperar no desenvolvimento de tarefas comuns. Para atingir esse
desempenho é necessário que
O que se pretende com a articulação é cuidar dessas transições tornando-as educativas.
98
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Quanto mais os docentes se inteirarem das
especificidades e das similitudes entre a
Educação Infantil e o Ensino Fundamental,
mais se enriquece o universo pedagógico e
maiores serão as oportunidade de sucesso
para as crianças. (SERRA, 2004, p. 78).
A articulação entre as várias etapas
do percurso educativo implica uma sequencialidade progressiva, sendo que
cada etapa tem a função de completar,
aprofundar e alargar a etapa anterior,
garantindo a continuidade e a unidade
do processo de educação/ensino. Torna-se, então, imprescindível assegurar
que a aprendizagem não decorra de
forma fragmentária, mas sim de modo
contínuo, evolutivo e integrado.
A transição envolve estratégias de
articulação que passam não só pela
valorização das aquisições feitas pela
criança na Educação Infantil, como
pela familiarização com as aprendizagens escolares formais.
A classificação ou tipologia de articulação entre os subsistemas de Educação Infantil e Ensino Fundamental
obdece a parâmetros relacionados
com o grau de interacção entre os
agentes educativos ligados aos dois
subsistemas. Assim sendo, segundo
Serra (2004), a articulação pode ser
classificada em:
Embora educação infantil e ensino fundamental sejam frequentemente separados,
do ponto de vista da criança não há fragmentação. Os adultos e as instituições é
que muitas vezes opõem Educação Infantil
e Ensino Fundamental, deixando de fora o
que seria capaz de articulá-los. (KRAMER,
2006, p. 810).
Entende-se por articulação “a junção entre diversas peças de um aparelho” (TORRINHA s/d, p. 130).
 Espontânea, em consequência da
proximidade geográfica entre jardinsde-infância e escolas que proporcionam aproximação entre professores
e educadores de infância, originando
o contacto, a descoberta e o trabalho
que se desenvolve em cada etapa e
troca de experiências. Ocorre de forma natural e inconsciente.
 Regulamentada, quando se tem
uma consciência social e política da
sua importância e é referenciada legalmente nos documentos legislativos
que regulam o funcionamento dos dois
subsistemas.
 Efectiva, realizada por docentes e
alunos, de forma consciente, contínua
e independentemente da sua imposi-
Assim,
se se entender, então, o sistema
educativo como uma máquina/aparelho e
os diferentes niveis educativos como peças
dessa máquina, a articulação curricular poderia ser vista como os “pontos” de uma
união entre os ciclos, isto é, os mecanismos
encontrados pelos docentes para promover
a transição entre ciclos diferentes. (SERRA, 2004, p. 75).
Através da articulação, poder-se-á
estabelecer uma conexão entre as partes, de forma que a Educação Infantil e
o Ensino Fundamental se organizem em
função dos diferentes períodos da vida
das crianças, o que implica uma postura
docente que conduza a uma planificação
conjunta de actividades integradas.
99
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
ção legal. Acontece, essencialmente,
quando educadores e professores traçam estratégias e projectos comuns,
com o objectivo de facilitar a passagem do jardim de infância à escolaridade obrigatória. A articulação efectiva pode ser subdividida em três níveis,
de acordo com o empenhamento dos
docentes e o nível de conhecimento
dos dois subsistemas:
em Universidades Federais do Brasil e
neste caso concreto, na UFVJM – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Campus Avançado
do Mucuri, Cidade de Teófilo Otoni. O
citado programa tem como finalidade
proporcionar a aquisição de conhecimentos relacionados com a metodologia de investigação/pesquisa científica
e promover intercâmbios entre universitários dos dois países em acordo.
Traduz a extensão de um estudo
iniciado em Cabo Verde, no âmbito
de um trabalho de fim de curso de licenciatura em Educação Infantil, porém assumindo contornos de alguma
particularidade uma vez que, além da
realidade cabo-verdiana envolve a realidade de Teófilo Otoni, perspectivando
a promoção de um estudo comparativo
entre ambas e tendo em linha de conta
o tema em estudo.
Em termos académicos, estudar a
articulação entre a Educação Infantil e
o Ensino Fundamental revela-se particularmente importante, sobretudo porque em Cabo Verde existe a percepção
de que o subsistema Pré-escolar (Educação Infantil) é “um parente pobre da
educação”. É de algum modo pouco
valorizado, não possuindo carácter de
obrigatoriedade, a política educativa
específica não se encontra bem definida e grande parte dos profissionais
não detém formação no ramo. Agrava
ainda o desajustamento total de que
é alvo no Plano Nacional de Cargos,
Carreiras e Salários.
Assim, entende-se que as referidas
deficiências, aliadas ao défice de co-
Activa, esta caracterizada pelo conhecimento profundo dos dois níveis educativos,
quer pelos educadores, quer pelos professores, e pelas possibilidades de trabalharem em comum.
Reservada, caracterizada por uma atitude menos voluntária, mais expectante,
não se empenhando todos os recursos e
vontades, colocando-se numa posição de
expectativa, ou seja, esperando que algo
aconteça.
Passiva, quando os docentes demonstram
desinteresse e ausência de responsabilidades face à problemática. Pode existir
alguma articulação fruto da proximidade
geográfica entre os dois níveis de ensino,
possibilitando contactos esporádicos entre
as crianças, nos momentos de recreio e de
saída, por exemplo.
Não articulação, caracterizada pela ausência de qualquer tipo de articulação. Acontece sempre que não exista qualquer tipo de
contacto entre os docentes e crianças de
níveis educativos diferentes.
A pesquisa ora reportada enquadra-se, especificamente, no âmbito
do Programa promovida pela CAPES,
intitulado Implementação da Iniciação
Científica para alunos da UNI-CV (Universidade de Cabo Verde) e a decorrer
100
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Dados do Censo Escolar de 2008
revelam que 96% dos 28.419 alunos
matriculados nos primeiros anos do
Ensino Fundamental obtiveram aprovação. Dos restantes, 3% reprovaram
e 1% abandonou a escola. Os mesmos dados apontam para uma oscilação do aproveitamento dos alunos entre os 83 a 96%, o que pode ser considerado satisfatório tendo em conta
as dificuldades socioeconómicas do
município.
À luz destes dados relativos ao
aproveitamento dos alunos e tendo
em conta que a Secretaria Municipal
de Educação exige que “a proposta
pedagógica das instituições ligadas
à Educação Infantil deverá conter o
processo de articulação da educação
Infantil com o Ensino Fundamental”
(CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO, 2002 -Resolução Nº 001 do
CME de Teófilo Otoni, artigo 12, nº V),
a pesquisa foi concebida através da
análise do funcionamento das instituições ligadas às duas etapas do processo educativo, verificação de como
se dá a articulação, em que moldes se
processa e que instrumentos são usados (por exemplo, fichas de registo/
avaliação), extrapolando-se, comparativamente, com o que se passa na
realidade cabo-verdiana.
Exprime de uma abordagem qualitativa, baseada na análise dos currículos dos dois níveis de ensino e na
descrição de procedimentos dos vários intervenientes no correspondente processo educativo e das relações
que se estabelecem entre eles; isso
municação entre educadores e professores, constituem causas relevantes
do reconhecido desfasamento em termos da articulação entre os subsistemas em apreço.
Com o presente estudo pretendese reconhecer a existência de articulação entre a Educação Infantil (Préescolar) e o Ensino Fundamental e
relacionar as práticas de articulação
promovidas com os resultados escolares conseguidos.
A realização da pesquisa na Escola
Municipal Doralice de Arruda, baseouse no facto de esta albergar crianças
das duas modalidades de ensino. A
escola localiza-se na cidade de Teófilo Otoni (antes Philadélphia), Estado
de Minas Gerais, tendo sido fundada
em Setembro de 1853 por Teóphilo
Benedicto Ottoni, do qual recebeu o
nome. Com uma área de 3.247 km e
cerca de 129.076 habitantes, distando
468 km de Belo Horizonte, a cidade é
considerada o maior pólo de lapidação
e comercialização de pedras preciosas do Brasil, estimando-se que mais
de 20.000 pessoas vivem envolvidas
nesse segmento, entre exportadores,
garimpeiros, lapidários e corretores do
comércio de pedras preciosas e semipreciosas, razão porque é conhecida
como a “Capital Mundial das Pedras
Preciosas”.
No sector da educação, a cidade
possui actualmente 715 estabelecimentos de ensino cadastrados na Secretaria de Estado de Educação (SEE),
sendo 473 na dependência municipal,
165 estaduais e 77 privados.
101
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Procedimento
a partir de dados recolhidos em entrevistas aplicadas às coordenadoras
pedagógicas do Sistema Municipal de
Educação e às supervisoras (pedagogas) responsáveis pelos serviços
pedagógicos da Escola Municipal Doralice de Arruda.
Espera-se, por isso, que esta pesquisa constitua um contributo útil que
desperte em cada um a vontade de
reflectir sobre as vantagens de uma
boa articulação entre os diferentes
subsistemas de ensino e visando a
introdução de mudanças significativas na correspondente organização e
planificação, como forma de permitir
a definição de um modelo de transição com um dispositivo de registos de
informações que melhor sirva os interesses da criança e da comunidade
educativa em geral.
O trabalho foi realizado dentro da
Norma ABNT2. Constitui uma pesquisa
qualitativa, tendo em conta a abordagem do problema, e descritiva, porque
visou descrever o estabelecimento de
relações entre variáveis para responder à problemática da articulação entre
Educação Infantil (Pré-escolar) e a primeira etapa do Ensino Fundamental,
razão porque desemboca num conjunto de informações sistematizadas sobre a existência (ou não) de uma articulação entre os dois níveis de ensino,
o tipo de articulação, os instrumentos
de articulação e o impacto no sucesso
escolar da Municipal Doralice de Arruda, contexto do estudo.
A citada escola está situada na Avenida Luiz Boali, s/nº, Bairro Ipiranga,
cidade de Teófilo Otoni, Estado de Minas Gerais, tendo sido criada em 1997
como sendo o Núcleo de Educação Infantil para atender crianças do segundo
e terceiro períodos da Educação Infantil, então denominada de Pré-escolar
Municipal Vovó Carlotinha – CAIC. A
partir de 2002 passou a ser organizada
em regime de seriação, dando atendimento a duas modalidades de ensino, a
Educação Infantil (primeiro período) e o
Ensino Fundamental (primeiro ao quinto ano). É actualmente frequentada por
540 alunos, distribuídos por 26 turmas.
A escolha da instituição deveu-se
ao facto de albergar os dois níveis de
ensino em estudo e por possuir carac-
Método
Caracterização dos participantes
Os participantes do estudo são
constituídos por sete (N=7) professores o que, tendo em conta os oito
(N= 8) questionários distribuídos,
corresponde a uma taxa de retorno
de 87,5%.
Ambiente
Os dados a serem apresentados
adiante resultaram do questionário
aplicado na Escola Municipal Doralice
de Arruda, integrante do Sistema Municipal de Ensino de Teófilo Otoni.
2 Associação Brasileira de Normas Técnicas
102
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Dos instrumentos utilizados para a
recolha dos dados, de referir que embora o questionário dirigido aos professores de Educação Infantil (ver anexo), com 19 questões e o dirigido aos
professores do Ensino Básico, com
25 questões (ver anexo) mantenham
uma relação de estrutura e de conteúdos idêntica, cada um apresenta especificidades, de acordo as etapas do
sistema escolar em análise. Nas entrevistas dirigidas às Coordenadoras
Pedagógicas da Secretaria Municipal e
às Supervisoras da Escola Doralice de
Arruda foi utilizado o mesmo modelo
(guião), com 20 questões, no intuito de
analisar os procedimentos e práticas
relativos à articulação.
terísticas semelhantes às de instituições cabo-verdianas no tocante a condições socioeconómicas dos utentes.
A pesquisa foi realizada a partir de
um levantamento bibliográfico e de dados obtidos através de inquéritos por
questionário a professores de ambos
os subsistemas de ensino, além de entrevistas dirigidas a coordenadores pedagógicos da Secretaria Municipal de
Educação (SEE) para verificação de
opiniões acerca do tema e dos procedimentos para pôr em prática, ou não,
a articulação entre a Educação Infantil
(Pré-escolar) e o Ensino Fundamental.
A amostra, constituída por oito professores, sendo três da Educação Infantil (pré-escolar) e cinco do Ensino
Fundamental e representando 31%
do corpo docente da Escola palco, foi
intencionalmente escolhida, de acordo
com regras pré-definidas.
Resultados
Dos participantes da pesquisa,
três (N=3) trabalham com turmas de
Educação Infantil, correspondendo
este número a uma taxa de retorno de
100%, referenciando este valor percentual os três inquéritos distribuídos
(N=3) a docentes deste nível de ensino
e os quatro (N=4) que trabalham com
turmas do Ensino Fundamental, o que
corresponde a uma taxa de retorno de
80% dos cinco (N=5) inquéritos distribuídos aos docentes que leccionam
em turmas do primeiro ano do citado
nível de ensino.
No que diz respeito ao sexo, os dados obtidos revelam que todos, 100%
(N=7), são do sexo feminino.
A idade dos participantes é apresentada na Tabela 1, a seguir.
A escolha obedeceu aos seguintes
critérios:
• Professores do primeiro ano do
Ensino Fundamental;
• Professores da Educação Infantil (do pré-escolar);
• Coordenadores da Secretaria
Municipal.
A definição dos critérios deveu-se
ao facto de se pretender analisar a situação actual da articulação, entre a
Educação Infantil e o primeiro ano do
Ensino Fundamental, com docentes
intimamente ligados aos dois níveis de
ensino e mais concretamente, com relação ao ano lectivo último.
103
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Tabela 1- Frequência da população
estudada (N=7) segundo a idade -TO, 2009.
Idade
Frequência
Percentagem
32-38
2
28,6
39-45
2
28,6
46-52
2
28,6
60 e mais anos
1
14,3
Total
7
100,0
Tal como ilustra a Tabela 1, a idade dos inquiridos situa-se entre os 32 e mais
de 60 anos, sendo que os intervalos de 32-38, 39-45 e 46-52 correspondem a 28,6
(N=2) cada; 14,3 (N=1) tem mais de 60 anos.
O Gráfico 1 apresenta o nível académico dos participantes.
Gráfico 1 – Frequência da população estudada (N=7)
segundo o nível académico – TO, 2009.
Através do Gráfico 1 pode-se verificar que 72% (N=5) dos inquiridos possui
formação de nível superior.
104
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A Tabela 2 apresenta os anos de experiência na actividade docente dos participantes.
Tabela 2 – Frequência da população estudada (N=7) segundo os anos
de experiências na actividade docente – TO, 2009
Anos de experiência
Frequência
Percentagem
0-4 anos
1
14,3
5-10 anos
1
14,3
11-15 anos
1
14,3
16-20 anos
2
28,6
21-25 anos
2
28,6
Total
7
100,0
Preparação das crianças
da Educação Infantil para o
ingresso no Ensino Fundamental
Como mostra a Tabela 2, os inquiridos possuem entre 0 e 25 anos de experiência na actividade docente. Dos
inquiridos, 57,2% (N=4) dizem ter entre
16 e 25 anos de experiência, sendo que
metade destes (N=2) tem entre 16 e 20 e
a outra metade (N=2) entre 21 e 25 anos
de experiência na actividade docente.
Dos inquiridos (N=5) 100% são de
opinião que as crianças ao saírem da
Educação Infantil estão preparadas
para ingressar no Ensino Fundamental. Na justificação da sua opção 42%
(N=3), que corresponde ao número
de professores da Educação Infantil, disseram que as crianças são incentivadas a construir o seu próprio
conhecimento e 57,1% (N=4), que
corresponde ao de professores do
Ensino Fundamental, afirmaram que
as crianças adquirem habilidades básicas para ingressar no Ensino Fundamental.
Familiaridade com
o tema em estudo
Função da Educação Infantil
Questionados sobre o papel/função que as instituições de Educação
Infantil estão desempenhando, 42%
(N=3), e que corresponde ao número
de professores da Educação Infantil,
assinalaram educar e 57,1% (N=4),
que corresponde ao de professores
do Ensino Fundamental, disseram que
desempenham, simultaneamente, as
funções de cuidar e educar.
Preparação da transição
das crianças da Educação Infantil
para o Ensino Fundamental
105
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Tabela 3 – Frequência da opinião da população estudada (N=7)
sobre a preparação da transição das crianças da Educação Infantil
para o Ensino Fundamental – TO, 2009.
Transição tem sido feita
Frequência
Percentagem
Sim
4
57,1
Nem sempre
3
42,9
Total
7
100,0
Questionados se a transição da
criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental está sendo preparada, 57,1 (N=4) acharam que sim, justificando a sua opinião com o facto de que
o trabalho feito visa ampliar os conhecimentos em todas as áreas, enquanto
os restantes 42,9% (N=5) acharam que
nem sempre, sendo que destes 67%
(N=2) justificaram dizendo que poderia ser melhor e 33% (N=1) justificaram
dizendo que depende do trabalho do
educador.
factor as avaliações do trabalho feitas
nas reuniões pedagógicas.
A articulação como factor
importante para o sucesso escolar
A generalidade dos inquiridos, ou
seja, 100% (N=7), concordou que a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental é um factor de grande
importância para o sucesso escolar do
aluno. Questionados se essa articulação
tem sido feita, responderam afirmativamente. Desse, 51% (N=4) justificaram
a sua escolha apontando que é feita
através dos encontros promovidos pela
coordenação pedagógica e professores
e dos registos de acompanhamento do
desenvolvimento dos alunos.
A transição feita de forma
a promover a articulação
Dos inquiridos (N=7), 100% afirmaram que a transição tem sido feita de
forma a promover a articulação entre a
Educação Infantil e o Ensino Fundamental. Destes, 71% (N=5) argumentaram a
sua resposta enquanto que 29% (N=2)
não apresentaram argumento nenhum.
Dos inquiridos que argumentaram, 80%
(N=4) apontaram a comunicação entre
professores e os registos oficiais da escola como factores para promover a articulação e 20% (N=1) apontaram como
Modelo de organização vertical
da escola como factor facilitador
da articulação
Dos inquiridos, 86% (N=6) são de
opinião de que a organização escola
em regime de seriação atendendo a
duas modalidades de ensino, a Educação Infantil (segundo período) e En-
106
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
sino Fundamental (primeiro ao quinto
ano), é factor importante na promoção
da articulação. A justificativa apontada
por 28,6% (N=2) recaiu sobre a promoção da proximidade dos dois níveis,
enquanto que para 14,3% (N=1) a justificativa tinha a ver com facilitação da
sequência de trabalho. Igual percentagem preferiu como justificativa a facilitação do contacto entre os professores
dos dois níveis de ensino e 43% (n=3)
não justificaram a sua escolha.
o processo de transição da criança
da Educação Infantil para o Ensino
Fundamental, 28, 6% (N=2) enumeraram simultaneamente o registo do
diário do professor e a ficha de registo do desenvolvimento do aluno
no Pré-escolar, enquanto que 14,3%
(N=1) enumeraram o dossier do aluno, o diário do professor e a ficha de
registo. Não respondeu à questão
um inquirido (N=1), correspondendo
a 14,3%.
Questionados se estes instrumentos contêm as informações necessárias para facilitar a integração
da criança no Ensino Fundamental,
71,4% (N=5) responderam afirmativamente à questão, justificando que
fornecem os dados sobre o nível de
desenvolvimento do aluno, enquanto que 28% (N=2) negaram, justificando que contêm informações escassas.
Procedimentos para pôr em prática
a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental
Instrumentos de registo do desenvolvimento da criança utilizados no processo de transição
Pelo Gráfico 2 pode-se constatar
que 43% (N=3) dos sujeitos inquiridos enumeraram o registo do diário
do professor como o único documento utilizado para acompanhar
Contacto/ comunicação entre
docentes de níveis diferentes
Gráfico 2 – Frequência população em estudo (N=7) segundo os instrumentos
de registo de desenvolvimento do aluno utilizados – TO, 2009
107
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Gráfico 3 – Frequência da população estudada (N=7) segundo o
contacto/comunicação entre docentes de níveis diferentes – TO, 2009
De acordo com o Gráfico 3, 71%
(N=5) dos inquiridos afirmaram estabelecer contacto com o colega do outro nível de ensino (Educação Infantil
/ Ensino Fundamental e vice-versa)
e 29% negam estabelecer o referido
contacto.
tro subsistema de ensino (Educação
Infantil/Ensino Fundamental e viceversa) enquanto que 43% (N=3) afirmaram não ter conhecimento a esse
respeito.
Planificação de actividades/ projectos
em comum aos dois subsistemas
Conhecimento com programas
curriculares/conteúdos
do outro nível de ensino
Tabela 4 – Frequência da população estudada (N=7) segundo planificação de actividades/ projectos em
comum entre os dois subsistemas
Dos inquiridos, 71% disseram ter
conhecimento do programa curricular
do outro nível, sendo que 43% (N=3)
classificaram esse conhecimento de
profundo, 14% (N=1) de superficial e
igual percentagem de ligeiro. Os restantes 29% (N=2) não responderam à
questão.
Ainda sobre o mesmo propósito,
57% (N=4) afirmaram ter conhecimento dos conteúdos trabalhados no ou-
Realização de projectos/
actividades comuns
Frequência
Percentagem
Sim
2
28,6
Não
5
71,4
Total
7
100,0
108
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
classe somente alunos que frequentaram a Educação Infantil, enquanto
a outra metade afirmou que a turma
é composta por alunos que frequentaram, e não, a Educação Infantil, sendo que estes últimos apresentam, em
condições normais, maiores dificuldades de aprendizagem.
Questionados sobre a percentagem de aproveitamento escolar dos
alunos que frequentaram a Educação
Infantil, três inquiridos, correspondendo a 75% da população que lecciona
turmas do primeiro ano do Ensino
Fundamental (N=4), afirmaram que se
situa entre os 70 a 100%, enquanto
que 25% (N=1) afirmaram situar-se
entre 50 a 70%.
A Tabela 4 indica-nos que 71,4%
(N=5) dos inquiridos não planificam
actividades/projectos em comum envolvendo professores e respectivos
grupos de criança dos dois subsistemas. Porém, 28,6% afirmaram fazer a
planificação ao longo do ano lectivo.
Participação dos pais/encarregados
de educação no processo de transição
A totalidade dos inquiridos, 100%
(N=7), revelou que promove a participação dos pais/encarregados de
educação no processo de transição
da criança da Educação Infantil para o
Ensino Fundamental.
Questões dirigidas aos professores
de Ensino Fundamental
Resultados e Discussão
Importância do Primeiro ano do Ensino Fundamental como ano de transição da criança da Educação Infantil
para o Ensino Fundamental
Pretende-se, aqui, fazer uma síntese dos aspectos mais significativos detectados durante o tratamento e análise dos dados, no intuito de dar resposta ao objectivo geral do trabalho e que
consiste em reconhecer a existência
de articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental na Escola
Municipal Doralice de Arruda. Para o
efeito, pretende-se identificar os procedimentos e práticas de articulação
desenvolvidos pela escola, identificar
o tipo de articulação que é feita e verificar o seu impacto no sucesso escolar
dos alunos.
Assim sendo, começou-se por fazer
uma caracterização dos sujeitos inquiridos, tendo-se constatado serem todos
do sexo feminino, o que corresponde à
Todos os inquiridos, 100% (N=4),
que trabalham com o Ensino Fundamental concordam que o primeiro ano
desse nível de ensino funciona como
sendo o da transição da criança da
Educação Infantil para o Ensino Fundamental.
Impacto da articulação no
sucesso escolar dos alunos
Dos inquiridos que leccionam turmas do Ensino Fundamental (N=4)
metade, 50% (N=2), afirmou ter na
109
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
tendência nacional da predominância
feminina no corpo docente, principalmente na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. No que diz respeito
à idade, verificou-se que a maioria dos
inquiridos tem idade compreendida entre os 32 e 52 anos (cf.3 Tabela 1). Tal
facto pode ter repercussões nos anos
de experiência profissional dos inquiridos na medida em que a maioria acusa entre 16 a 25 anos de exercício (cf.
Tabela 2).
Relativamente ao nível de formação académica, constata-se que a
maioria dos inquiridos possui formação superior em áreas educacionais
(cf. Gráfico 1).
No que se refere à familiaridade
dos inquiridos com o tema, e ao serem
questionados sobre a função que as
instituições da Educação Infantil desempenham, a maioria indicou exercer simultaneamente as funções de
educar e cuidar, correspondendo isso
à posição dos professores do Ensino
Fundamental. Já os professores de
Educação Infantil indicaram somente
a função de educar, mostrando não
estar em sintonia com o Referencial
Curricular Nacional para a Educação
Infantil (BRASIL, 1998), que postula
que deve haver uma harmonia entre o
educar e o cuidar no intuito de evitar,
por um lado, a excessiva escolarização
do atendimento na educação infantil e,
por outro, o carácter assistencialista
que muitas vezes se atribui a este nível de ensino.
No que concerne à preparação das
crianças na Educação Infantil para o
ingresso no Ensino Fundamental, houve unanimidade nas respostas. Todos
são de opinião de que ao saírem da
Educação Infantil as crianças estão
preparadas para ingressar no Ensino
Fundamental. Parte significativa fundamentou a sua opção dizendo que
as crianças adquirem, na Educação
Infantil, as habilidades básicas para ingressar no Ensino Fundamental.
Esta posição coincide com a de
duas das coordenadoras pedagógicas
municipais, que defendem que a proposta pedagógica da educação Infantil
é construída com o intuito de assegurar a preparação para o ingresso no
ensino infantil.
Quanto à preparação da transição
das crianças da Educação Infantil para
o Ensino Fundamental, parte significativa dos inquiridos defende que ela
tem vindo a ser feita, embora mostrem
algumas reservas (cf. Tabela 3) justificando que o trabalho visa ampliar os
conhecimentos em todas as áreas,
mas poderia ser melhor, dependendo
do professor.
Questionados se a transição tem
sido feita de forma a promover a articulação, todos responderam positivamente. A maioria argumentou a sua
resposta apontando a comunicação
entre professores e os registos oficiais da escola como factores para
promover a articulação e mostrando
estar em sintonia com a coordenação
pedagógica da Secretaria Municipal
de Educação, que defende que o pro-
3 Conferir
110
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
se trata de um factor facilitador da articulação entre os dois subsistemas. E
justificou a sua posição dizendo que
promove a proximidade entre os dois
níveis de ensino e facilita a sequência
de trabalho.
cesso de transição deve ser acompanhado pelo supervisor das escolas
através de observações registadas no
diário da classe e através da avaliação diagnostica do desenvolvimento
da criança, de forma a promover a desejada articulação.
No que toca à importância da articulação para o sucesso escolar da
criança, todos os inquiridos responderam afirmativamente à questão. Afirmaram, também, que tem vindo ser
feita na escola, sendo que a maioria
justificou a sua opinião apontando os
encontros promovidos pela coordenação pedagógica, a comunicação entre
professores para troca de informações
sobre os alunos e os registos de acompanhamento do desenvolvimento.
Por não haver uma legislação a
regular, explicitamente, o processo
de articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, exceptuando a menção na referida Resolução 001/2002 (art.12, inciso V)
do Conselho Municipal de Educação,
a articulação fica refém do grau de
consciencialização dos profissionais
da educação quanto a promover acções para uma transição harmoniosa
do aluno e levando em conta as habilidades necessárias para o Ensino
Fundamental, pois são capacitados
para tal.
No que respeita ao modelo de organização vertical da escola em regime de seriação, atendendo a crianças
da educação Infantil e primeiras séries
do Ensino Fundamental, a maioria dos
inquiridos compartilha da ideia de que
Assim,
o facto de existirem espaços partilhados por
docentes de diferentes níveis e os respectivos alunos é facilmente entendido como
podendo ser um factor facilitador do aparecimento de projectos educativos comuns. A
partilha dos espaços físicos ocasiona conversas informais que, muitas vezes, levam a
reunir dois grupos de crianças em torno de
uma actividade. (SERRA, 2004, p. 96).
Neste sentido, pode-se concluir que
a forma como a escola se encontra organizada já é meio caminho andado
para a promoção de uma articulação
efectiva.
Analisando os procedimentos dos
professores da Educação Infantil e
do Ensino Fundamental para pôr em
prática a articulação entre dois subsistemas, constatou-se que no tocante
a instrumentos de registo do desempenho/desenvolvimento do aluno utilizados no processo de transição da
Educação Infantil para o Ensino Fundamental, existe uma certa discrepância na opinião dos inquiridos relativamente aos que vêm sendo utilizados,
não obstante a maioria referir o diário
do professor. No entanto, houve quem
tenha feito referência a outros instrumentos.
A discrepância verificada levou a
concluir que pode haver falta de uniformidade de critérios no que toca aos
111
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
legas do outro subsistema. No entanto,
sempre existe a minoria que nega estabelecer esta comunicação.
Tal facto pode pôr em causa a eficácia da articulação, tendo em conta
que a relação entre professores, a
compreensão do que se realiza na
Educação Infantil e no Ensino Fundamental e também a análise e debate
em comum das propostas curriculares
para cada uma das etapas, serão facilitadoras da transição e imprescindíveis para a articulação entre os dois
subsistemas.
Relativamente ao conhecimento
dos programas curriculares/conteúdos trabalhados no outro subsistema
(Educação Infantil/Ensino Fundamental e vice-versa), a maioria disse dispor
desse conhecimento, classificando-o
de profundo.
Quanto à planificação de actividades/projectos comuns envolvendo
professores e alunos dos dois subsistemas, a maioria aponta que a mesma
não é feita (cf. Tabela 4).
Pode-se concluir que a situação
atrás expressa pode pôr em causa a
existência de uma articulação efectiva,
visto que sendo uma escola organizada
em regime de seriação envolvendo os
dois subsistemas, torna-se importante
a existência de projectos comuns para
que cada etapa não funcione como
compartimento estanque. Deve-se assumir o compromisso de um trabalho
conjunto, que possibilite uma aproximação e que minimize as descontinuidades educativas entre os dois níveis
de ensino (SERRA, 2004, p. 90).
instrumentos de registo do desempenho/desenvolvimento do aluno e que
o acompanham no processo de transição para o Ensino Fundamental, já
que as coordenadoras pedagógicas da
Secretaria Municipal referem somente
o diário da classe (do professor), um
documento comum e obrigatório a todas as instituições a preencher pelo
professor e controlado pelo supervisor
da escola.
À questão se os instrumentos contêm informações necessárias para facilitar a integração da criança no Ensino
Fundamental, a maioria dos inquiridos
disse que sim, justificando que inclui
os dados necessários sobre o nível de
desenvolvimento do aluno. No entanto,
há inquiridos com opinião contrária e
que justificam dizendo que as informações contidas são escassas. Isto pode
deixar transparecer que nem sempre
os instrumentos são preenchidos devidamente e que as informações neles
contidas não são tratadas convenientemente, o que pode minimizar a sua
importância.
No conjunto, os factores apresentados poderão levar a inferir que os
professores do Ensino Fundamental
não organizem o processo de construção das aprendizagens dos alunos de
uma forma sistematizada e científica e
levando em conta todo o manancial de
conhecimentos que as crianças adquirem na Educação Infantil.
No que toca à comunicação entre
docentes dos dois níveis de ensino, a
maioria dos inquiridos afirma estabelecer contacto/comunicação com os co-
112
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Ao se questionar os inquiridos
que leccionam em turmas do Ensino
Fundamental sobre a percentagem
de aproveitamento dos alunos que
frequentaram a Educação Infantil, a
maioria aponta que se situa entre os
70 a 100%. Este valor apresenta-se de
acordo com a tendência regional no
Município de Teófilo Otoni, em que a
taxa de aproveitamento nos primeiros
anos do Ensino Fundamental tem oscilado entre os 83 a 96%, segundo o
Censo de 2008 da SEE, facto que se
tem verificado nos últimos quatro anos
(de 2005 à presente data).
Todos os inquiridos que trabalham
com o Ensino Fundamental concordam que o primeiro ano funciona como
sendo de transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, sendo alicerce para os anos
subsequentes.
Assim sendo, pode-se concluir que
a articulação entre a Educação infantil
e o Ensino Fundamental influencia o
sucesso escolar.
disponível que não permitiu fazer um
estudo mais aprofundado, questionários preenchidos de forma colectiva e
que não espelham a verdadeira percepção individual acerca do assunto
em estudo, algum equívoco na interpretação das questões por parte dos
sujeitos inquiridos, tendo em conta
que não tiveram um contacto directo
com o pesquisador.
Os dados assim conseguidos
constituíram a base da análise já que
o interesse científico deste trabalho
é o de esclarecer se, de facto, existe
articulação, qual o tipo de articulação
eventualmente existente, em que moldes é feita, se os instrumentos facilitam a sua implementação e o impacto
no sucesso escolar.
Assim, pode-se concluir que existe articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, na
medida em que a forma como a escola se encontra organizada já pressupõe articulação e o quadro legislativo define, claramente, uma articulação curricular tendo em conta os
objectivos e os conteúdos de um e
de outro subsistema.
Ao assumir a articulação como
um objectivo da escola, torna-se
fácil ao nível das intenções. No entanto, ao nível das práticas existem
alguns aspectos que a condicionam,
de que se destacam a não uniformidade de instrumentos de registo da
evolução dos alunos que os acompanham no processo de transição
e que, para alguns docentes, não
possuem todas as informações ne-
Conclusões
Após a análise e discussão dos
dados, torna-se importante apontar
algumas conclusões, tendo como
pressupostos básicos as hipóteses levantadas no início do estudo e pese
embora as limitações a que esta pesquisa foi sujeita e que se prendem,
essencialmente, com o défice de conhecimento da realidade educativa do
Município de Teófilo Otoni, o tempo
113
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
cessárias para facilitar o processo,
alguma falta de comunicação entre
docentes de níveis docentes, visto
que existem alguns que negam qualquer contacto ou comunicação com
colegas do nível de ensino antecedente ou subsequente, agravado
pelo desconhecimento do programa
curricular do nível diferente (E. Infantil/ E. Fundamental e vice-versa)
por alguns docentes.
Outrossim, resultados demonstram
que não são planificados projectos/actividades comuns envolvendo professores dos dois níveis de ensino e dos
respectivos grupos de alunos. Havendo algumas actividades comuns, são
realizadas esporadicamente, embora
na elaboração do horário possa ter
havido a preocupação em promover
momentos de intercâmbio entre alunos e professores dos dois subsistemas, particularmente nos momentos
de intervalo.
Esse conjunto de factores, aliado
a alguma renitência dos professores e
que limita a articulação com sucesso
entre os dois níveis de ensino, leva a
concluir que se trata de uma articulação efectiva reservada,
Os dados obtidos não permitem tirar conclusões assertivas relativamente
ao impacto da articulação entre a Educação Infantil (Pré-escolar) e o Ensino
Fundamental no sucesso escolar dos
alunos do primeiro ano. Contudo, segundo os dados recolhidos, os alunos
que frequentam a Educação Infantil
apresentam resultados escolares superiores aos que não a frequentaram, com
taxa de aproveitamento situada entre os
70 a 100%. De qualquer modo, são visíveis os benefícios da articulação para o
sucesso escolar dos alunos.
Pode-se concluir também que, com
a implementação do primeiro ano do
Ensino Fundamental como sendo de
transição da Educação Infantil para o
Ensino Fundamental, a taxa de aproveitamento nas primeiras séries do
Ensino Fundamental aumentou significativamente nos últimos anos. Na opinião dos profissionais, o primeiro ano
do Ensino Fundamental tem a função
de articular os dois subsistemas, no
intuito de diminuir as diferenças entre
as duas etapas, sendo a base para o
sucesso escolar.
Estabelecendo uma correlação com
a realidade cabo-verdiana, com particular incidência na Ilha de São Vicente, pode-se concluir que existem semelhanças e diferenças entre as duas
realidades no que toca à Educação
Infantil, em particular a sua articulação
com o Ensino Fundamental.
De um modo geral, destacam-se os
seguintes aspectos da realidade caboverdiana com semelhanças com a realidade de Teófilo Otoni:
caracterizada por uma atitude menos
voluntária, mais expectante, não se empenhando todos os recursos e vontades,
colocando-se numa posição de expectativa, ou seja, esperando que algo aconteça. Admite-se que, pontualmente sejam
tomadas decisões conjuntas entre docentes dos dois níveis, quando razões
muito fortes assim o obriguem. (SERRA,
2004, p. 89).
114
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
É na década de 90 que a Educação Infantil aparece expressa na Lei de Directrizes e Bases (Lei de Base do Sistema
Educativo) em Cabo Verde, especificando os seus objectivos;
Se no âmbito das intenções podem
ser encontrados pontos em comum, no
que diz à prática docente isto já não
acontece. São vários os aspectos que
colocam em causa esta articulação,
dos quais destacamos:
É definida como a primeira etapa da
educação básica e devendo ser da tutela dos municípios;
A falta de colaboração entre
professores responsáveis pelos
dois níveis de ensino;
Não tem carácter obrigatório;
Tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos
físico, psicológico, intelectual e social,
completando a acção da família e da comunidade.
O não funcionamento das escolas em regime de seriação
(Educação Infantil e Ensino Fun­
damental desenvolvidos den­tro
do mesmo estabelecimento escolar);
No que toca às diferenças, destacam-se:
Em Cabo Verde (São Vicente) a maior
parte das instituições ligadas à Educação Infantil pertence a privados;
O funcionamento isolado das
coordenações pedagógicas;
Apesar de nos últimos anos se assistir,
no país, à abertura de cursos de educadores de infância de nível médio e
superior, em Cabo Verde ainda existe
um número significativo de docentes
sem formação a trabalhar nessas instituições e os que a têm continuam a
auferir salários precários devido ao não
enquadramento profissional estabelecido no Estatuto do Pessoal Docente do
Ministério da Educação;
O desconhecimento mútuo das
respectivas práticas educativas;
A inexistência de uniformização
de critérios para a elaboração
de fichas de registo do percurso
das crianças do Pré-escolar;
A desvalorização e os preconceitos relativamente ao trabalho
de cada um dos dois níveis;
No que toca ao processo de articulação, o único aspecto que se pode
considerar semelhante é na vertente
legislativa, em que se define claramente uma articulação curricular tendo em
conta os objectivos e os conteúdos de
um e de outro subsistema.
O baixo rendimento escolar nos
primeiros anos do Ensino Básico (E. Fundamental).
115
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Educação e Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação de Infância: Introdução.
Brasília: MEC/SEF, 1998, pp. 23-24.
CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Resolução nº 001 de 1 de Fevereiro
de 2002. Regulamenta a Educação Infantil no Sistema Municipal de Teófilo Otoni.
KRAMER, Sónia. As crianças de 0 a 6 anos nas políticas educacionais no
Brasil: educação infantil e fundamental. Educação e Sociedade, 96-Especial,
vol. 27, Out. 2006, pp. 797-818. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000300009&lng=pt&nrm=iso>.
Acesso
em: 18.08.2009.
SERRA, Célia. Currículo na Educação Pré-escolar e articulação curricular com
o 1º ciclo do Ensino Básico. Porto: Porto Editora, 2004.
TORRINHA, Francisco. Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Editorial Notícias, s/d.
VASCONCELOS, Tereza. Transição Jardim-de-Infância - 1º ciclo: Um campo
de possibilidades. Caderno de Educação, 81, Ago. 2007, pp. 44-46. Disponível em:
<http://www.portaldacrianca.com.pt/artigosa.php?id=89>. Acesso em: 18.11.2008.
116
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
O CAMPO DAS ONDAS OCEÂNICAS NA REGIÃO
DO ARQUIPÉLAGO DE CABO VERDE 1
Nereida Simone Rodrigues Évora
Departamento de Engenharias e Ciências do Mar
Universidade de Cabo Verde
RESUMO
A modelagem de fenómenos naturais é uma das tarefas mais desafiadoras da
computação científica, sendo partde deste desafio a simulação de ondas oceânicas. O presente trabalho inicia uma linha de pesquisa de modelagem e previsão
de um fenómeno natural, buscando simular o comportamento das ondas oceânicas, processando todo o cálculo geométrico e renderização no MatLab. Com o
processamento do MatLab é possível utilizar técnicas avançadas de renderização
que fornecem imagens em tempo real e com grande realismo. Uma breve revisão
dos tipos de modelos de ondas existentes na literatura é efectuada, bem como o
procedimento formal para a execução de um sistema de previsão de ondas por
ensemble (SPOE), usando perturbações dos ventos de superfície e do espectro
de ondas. O modelo utilizado, WAM, foi a primeira tentativa de implementação
de um modelo de terceira geração e inclui advecção, empinamento, geração de
onda por vento, dissipação por quebra de onda e interacções não lineares, todas
elas parametrizadas por uma forma preestabelecida de distribuição espectral de
energia de ondas. Os resultados mostraram que o modelo é capaz de reproduzir
as situações estudadas, pois trabalhos do tipo já foram outrora desenvolvidos em
outras coordenadas e mostrou-se sempre a mesma confiabilidade na concepção
dos resultados.
Palavras-chave: ondas oceânicas; modelos de ondas gerados pelo vento;
previsão de ondas por ensemble; WAM.
1 Este trabalho foi orientado pelo Professor Doutor Leandro Farina, no Laboratório Integração de Computação Científica
do Instituto de Matemática, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e teve o apoio da CAPES.
117
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Introdução
das de uma região e a capacidade de
previsão do estado de agitação marítima é de fundamental importância
para todas as actividades ligadas ao
oceano.
As ondas presentes num determinado local, próximo à costa ou em
mar aberto, podem ser classificadas
em vagas e marulho (ou ondulações).
Vagas são ondas que ainda se encontram na zona de geração sendo capazes de receber energia do vento. Já o
marulho é constituído por ondas que,
ou se propagam para fora da zona de
geração original e/ou não são mais
capazes de receber energia do vento. Em inglês, os termos para vaga e
marulho são wind-sea ou sea e swell,
respectivamente, e são sobejamente
conhecidos e utilizados.
Nas últimas décadas as previsões
atmosféricas e oceanográficas obtiveram grandes benefícios devido a
avanços provenientes da tecnologia
computacional, sensoriamento remoto e ao aparecimento de modelos matemáticos mais sofisticados. Apesar
disso, os correspondentes avanços
não foram tão significantes como esperados no que se refere à habilidade de prever os comportamentos do
tempo e dos oceanos. Isso acontece,
devido à não linearidade de modelos
atmosféricos capazes de produzir resultados de curto e médio prazo que
são qualitativamente distintos, se
existirem pequenos erros nas condições iniciais.
A previsão numérica por ensemble é um método utilizado visando
Ondas são definidas como perturbações na interface entre dois meios
de densidades distintos. As ondas
oceânicas de superfície, por sua vez,
são perturbações na camada superficial dos oceanos causadas pelo vento oriundo das variações de pressão
atmosférica. Na interface atmosferaoceano o vento transfere energia
para a superfície do oceano através
do atrito entre as camadas, movimentando as partículas de água, as quais
assumem trajectórias circulares em
águas profundas e elípticas em águas
rasas, nestas últimas devido ao atrito
com o fundo.
Uma vez geradas, as ondulações
adquirem vida própria, sendo capazes
de propagar-se por grandes distâncias
da zona de geração com pouca diminuição de gravidade, podendo percorrer distâncias comparáveis à metade
da circunferência da Terra.
Entre os diferentes tipos de ondas
que acontecem no oceano encontram-se as superficiais de gravidade
que são geradas pelo vento, as quais
possuem como força restauradora a
gravidade. São as principais e mais
constantes formas de transporte de
energia no mar, desempenhando um
papel predominante na determinação
das feições costeiras e constituindose na mais efectiva ameaça às obras
costeiras, à segurança da navegação
e às operações navais. Pode-se dizer
que o conhecimento do clima de on-
118
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Objectivos
melhorar o desempenho de modelos
físico-matemáticos que são capazes
de prever o tempo e o clima. Partindo
do pressuposto de que sempre existem erros nas observações que são
utilizadas e munidas a um modelo, a
ideia de uma única e determinística
previsão se torna questionável. Porém, ao se utilizar um conjunto (ou
ensemble) de condições iniciais ou
até de modelos perturbados contendo erros ou parâmetros que representam as incertezas das medições,
é possível obter informações sobre
o comportamento das soluções do
modelo, a geração de possíveis
eventos diferentes e probabilidades
associadas a eles fornecendo-nos
uma maior confiabilidade da previsão final.
O objectivo deste trabalho é estudar alguns casos de estado do mar
na região próxima ao arquipélago de
Cabo Verde, utilizando para isso um
modelo de ondas de terceira geração desenvolvido por K. Hasselmann
e outros pesquisadores no Instituto
Max-Plank para Meteorologia (MaxPlank-Institut fur Meteorologie) em
Hamburgo, na Alemanha.
A seguir, serão apresentados os
objectivos gerais e específicos, os
conceitos teóricos sobre modelagem
de ondas e os diferentes tipos de modelos de ondas gerados pelo vento
existentes na literatura. Logo após,
será paresentada a metodologia utilizada para a realização deste trabalho,
bem como os resultados e a discussão dos mesmos.
Objectivo geral
Em termos gerais, pretendeu-se
com este trabalho desenvolver a capacidade profissional da estagiária
(autora deste trabalho) tanto a nível
relacional como científico-profissional;
vincular os conhecimentos teóricos
com a prática; adquirir novos conhecimentos e socializá-los com a comunidade científica, além de aprender a
conviver em uma cultura diferente da
cabo-verdiana.
Objectivos específicos
Os objectivos específicos foram:
(1) incentivar e preparar a estagiária a usar o aplicativo MatLab como
ferramenta para visualização e análise de dados atmosféricos e oceanográficos; (2) calcular e analisar a
distribuição de médias das variáveis
altura significativa de ondas, período de pico e altura de marulho na
região próxima ao arquipélago de
Cabo Verde no período de um ano,
através de dados gerados pelo modelo de onda WAM.
Método
Nesta sessão serão apresentados
conceitos sobre o modelo WAM bem
como a metodologia usada para a
rea­lização do trabalho.
119
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Procedimento
de vento faz com que a maioria dos
modelos de onda sejam operados por
agências meteorológicas. Na verdade, a qualidade dos dados meteorológicos é crucial para que os resultados
sejam significativos.
Para forçar o modelo de ondas,
deve-se obter campos de vento cronologicamente sucessivos em toda a
malha. Como na prática tais campos
não podem ser medidos directamente, pois dessa forma somente seriam
obtidas as condições instantâneas,
torna-se necessária a utilização de
modelos atmosféricos para esse fim.
Porém, nesse caso, as medições
também são importantes, sendo utilizadas tanto na calibração, quanto na
verificação dos resultados.
As aplicações de um modelo de
ondas, no entanto, não estão restritas apenas à prognose. Forçados por
dados pretéritos de vento, colectados
por períodos suficientemente longos,
os modelos podem auxiliar nos estudos relacionados à erosão costeira e
transporte de sedimentos, estimativa
da energia, projectos de portos e estruturas costeiras e oceânicas como
plataformas de exploração de petróleo. Tal técnica é denominada hindcast. Outra utilização dessa técnica é
a reconstituição de eventos extremos,
como furacões ou tempestades, ou
peculiares, como no presente estudo.
Revisão de modelagem
de ondas
A problemática dos estudos de
ondas vem despertando interesse de
estudiosos desde a antiguidade, tais
como Aristóteles, Leonardo da Vinci
e Benjamin Franklin. Até aproximadamente o início da década de 40, a única forma que os navegantes tinham
para descrever o estado do mar era
a escala Beaufort criada pelo almirante inglês Francis Beaufort em 1805
e adoptada pela Marinha inglesa em
1834. A escala relaciona a intensidade de vento com a força do mar através da fórmula:
U=1,87. B3/2;
onde U é a intensidade do vento
em milhas marítimas por hora (nós) e
B é o factor Beaufort que caracteriza
o estado do mar. Tal escala é até hoje
aceita internacionalmente.
Logo depois, durante a Segunda
Guerra Mundial, Sverdrup e Munk desenvolveram o Método da Onda Significativa e realizaram as primeiras
previsões de ondas em 1943, sendo
os resultados divulgados em 1947.
Desde então, modelos de previsão
de ondas vêm sendo desenvolvidos
e utilizados operacionalmente por
diversas instituições de pesquisa e
organismos internacionais, em especial na Europa, nos Estados Unidos e
no Japão. A dependência dos dados
Tipos de modelos
A primeira tentativa de desenvolvimento de um modelo de previsão de
120
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
mento das ondas, pois, além de superestimar a entrada de energia pelo
vento também subestima a interacção
não linear entre as ondas na região de
alta frequência.
Já nos modelos de segunda geração, a interacção não linear é representada através de parametrizações,
o que impede o crescimento independente dos diversos componentes do
espectro. Os modelos dessa classe,
chamados acoplados, podem ser subdivididos em híbridos e discretos.
Nos modelos híbridos, utiliza-se a
característica de que a forma do espectro da região das vagas é quase
constante para uma grande variedade
de situações de geração, com diferenças apenas nas escalas de frequência
e energia. Com isso, pode-se representar a evolução das vagas através
de um ou mais parâmetros adimensionalizados em função da aceleração
da gravidade e intensidade de vento.
Por exemplo, a energia pode ser adimensionalizada como
ondas baseado na equação diferencial de transporte de escalares, nesse
caso, energia, foi realizada por Gelci, em 1957, que utilizou expressões
empíricas para a determinação da
evolução espectral, devido à falta de
teorias adequadas. A partir dos trabalhos de Phillips (1957) e Miles (1957)
sobre a transferência de energia entre
a atmosfera e o oceano, e o estudo
de Hasselmann (1962) sobre a função
de transferência não linear de energia
entre ondas foi possível estabelecer
uma formulação como a actualmente
utilizada. Modelos de ondas podem
diferir em vários aspectos, como a representação do espectro ou a representação das fontes e sumidouros de
energia.
Nos modelos desacoplados ou de
primeira geração, cada componente
do espectro de energia se propaga
com sua própria velocidade de grupo,
desenvolvendo-se independentemente das demais, até um nível individual
de saturação. Tal nível pode ser representado pela energia do espectro
de um mar plenamente desenvolvido,
usualmente
o espectro de Pierson-Moscowitz.
A interacção não linear é desprezada
ou, se parametrizada é pouco significativa, sendo representada de uma
forma simples.
Modelos dessa classe foram utilizados com sucesso ao longo de diversos anos por diversas instituições, incluindo a Marinha americana. A principal fonte de erros desses modelos
parece ser a subestimação do cresci-
ε=
ou ε =
/
/
onde
é a energia total, g a aceleração da gravidade,
a velocidade do vento a 10 m e
é a velocidade de fricção.
Caso outros parâmetros sejam
acrescentados, como, por exemplo,
a energia total ( ), a frequência de
pico ( ) ou o parâmetro de Phillips
121
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
ção não linear em relação ao espectro
de ondas pode, inclusive, induzir formas irreais do espectro.
Alguns modelos discretos utilizam
como parametrização da interacção
não linear uma redistribuição de energia baseada em um espectro de forma
já determinada. Outra modalidade de
parametrização é uma combinação
entre um espectro de desenvolvimento em pista limitada e um espectro exponencial tipo Miles.
As principais deficiências dos modelos de segunda geração residem na
dificuldade de representação de mares complexos gerados por rápidas
alterações na direcção do vento.
Seguindo a proposta do grupo
SWAMP (Sea Wave Modelling Project), a evolução dos modelos, isto
é, a terceira geração, deveria ser o
desenvolvimento de um modelo em
que a integração da equação básica
de transporte pudesse ser realizada
sem restrições quanto à forma do espectro.
O modelo Exact-NL calcula a integral tridimensional com base em
técnicas computacionais bastante
eficientes. No entanto, está restrito
a situações simples, em apenas um
ponto, não sendo operacionalmente
viável devido à grande demanda de
tempo computacional.
O modelo WAM (Wave Model),
criado pelo grupo WAMDI (Wave Model Development and Implementation
Group), foi a primeira tentativa de
implementação de um modelo de ondas operacional de terceira geração,
(α), o desenvolvimento das vagas
será dado por um sistema de equações, uma para cada parâmetro.
Os principais problemas neste tipo
de modelo surgem na interacção entre
vagas e marulho, quando a interacção
não linear não é desprezível, nem
dominante. Isso acontece quando há
uma diminuição na intensidade do
vento ou uma alteração brusca de sua
direcção, fazendo com que as vagas
evoluam para marulhos. Ou no caso
oposto, quando o marulho atinge uma
região em que a intensidade do vento é suficientemente alta, tornando-se
vagas abruptamente. Portanto, um
modelo híbrido poderia ser descrito
como a combinação entre um modelo paramétrico de vagas e um modelo
desacoplado para o marulho, tendo
como vantagem o baixo custo computacional para operação.
Nos modelos discretos, todo o espectro é representado em frequências discretas, o que, ao menos teoricamente, eliminaria os problemas
de interface vagas-marulho, além de
mais claro, conceptualmente, é de
mais simples implementação, devido
à maior flexibilidade de representação
do espectro das vagas e da uniformidade da representação da região de
transição entre os domínios das vagas e do marulho.
Embora essa representação discreta do espectro seja a principal diferença para os modelos híbridos, ela
pode não ser tão evidente ou vantajosa. O menor número de variáveis utilizadas na parametrização da interac-
122
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
e dissipação de energia. O primeiro,
baseado em estudos de Chalikov e
Belevich, pode, inclusive, tornar-se
negativo, isto é, tornar-se sumidouro,
em situações de ângulos grandes entre as direcções da onda e do vento
ou em caso da onda tornar-se mais
rápida que o vento. A dissipação,
que, segundo os mesmos autores, é
o termo sobre o qual menos se conhece, é dividida em dois constituintes. Uma para frequências próximas
e abaixo da frequência de pico, descrita de forma análoga à perda de
energia por turbulência, e outra, diagnóstica, para a região de equilíbrio,
onde é assumido um balanço quase
constante entre as fontes para o regime correspondente. Os resultados
indicam que o desempenho do modelo é excelente em pequenas pistas,
onde o WAM subestima a energia,
e comparável ao do WAM em pistas
médias e longas, tendo a vantagem
adicional de ser menos susceptível a
erros numéricos.
no qual basicamente eram utilizadas
duas condições: a parametrização
exacta da fonte de transferência não
linear de energia com o mesmo número de graus de liberdade do espectro
e a especificação de uma função representativa da dissipação que feche
o balanço de energia.
A interacção não linear, como acima mencionado, é parametrizada, de
forma a reduzir o esforço computacional, permitindo sua operacionalização.
A versão para água rasa, como
no modelo WAM, inclui ainda, entre
outras implicações, termo de fricção
com o fundo, alteração da expressão
da velocidade de grupo, alteração
na parametrização do fornecimento
de energia pelo vento e efeitos de
refracção pela variação da profundidade.
Estudos recentes mostraram ainda
que as principais fontes de erro dos
modelos em geral, incluindo o WAM,
residem na parametrização dos termos de fonte e dissipação de energia.
O WAM é utilizado operacionalmente,
entre outros, pelo ECMWF (European
Centre for Medium-Range Weather
Forecasts) e tem obtido sucesso na
predição de alturas significativas e
períodos.
Um outro modelo que utiliza a
mesma forma de cálculo de interacção onda-onda proposta por Hasselmann, podendo, por isso, ser classificado como de terceira geração, é o
WAVEWATCH. As diferenças principais entre este e o WAM residem nas
parametrizações dos termos de fonte
Descrição do modelo utilizado
Foram utilizados os dados gerados
pelo modelo de ondas Wave Model
(WAM). Este modelo tem sido difundido em diversas instituições mundiais
e utilizado tanto para pesquisa quanto
para aplicações operacionais. O modelo resolve a evolução do espectro
bidimensional de ondas superficiais
através da integração da equação
do transporte de energia. Pode ser
usado em grade regional ou global,
123
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
para águas rasas ou profundas, com
a inclusão do efeito da refracção ou
sem ela, e permite a utilização de um
conjunto de dados batimétricos previamente estabelecidos. Os termos
relativos à fonte e à propagação são
computados com diferentes métodos
e intervalos de tempo. Subgrades podem ser utilizadas em um modo aninhado, ou seja, as informações do
espectro geradas pela rodada de uma
grade de maior escala são incorporadas como condições de contorno para
a grade de menor escala.
WAM é governado pela equação
do balanço que descreve a evolução
da densidade de energia das ondas,
ou o espectro de ondas. Esta equação pode ser representada da seguinte forma:
=
+
+
Para resolver a equação, o espectro F em um tempo inicial e o campo
de vento para todo o tempo devem
ser prescritos. Um dos parâmetros
mais analisados obtidos da solução
do problema modelado é a altura sig, definida como
nificativa de ondas
a altura média do um terço das ondas
mais altas. Pode-se mostrar que
=
onde E representa a energia total
de ondas em uma posição x e para
um tempo t, e é dada pela integral
E
.
+
.
,
sobre as frequências f e direcções
θ de ondas.
Com o objectivo de integrar-se no
tema da pesquisa, primeiramente realizou-se um levantamento bibliográfico, onde a estagiária pôde ter conhecimento de alguns projectos outrora
desenvolvidos pelo orientador no que
toca a modelagem e previsão de ondas oceânicas.
Basicamente, o mês de Agosto foi
disponibilizado para análise bibliográfica, através de leitura e secções
de esclarecimento realizadas pelo
orientador.
O tratamento e a análise dos dados foram realizados no software
MatLab, devido a habilidade do pro-
Aqui,
=
,
,
onde F é o espectro de ondas e
é velocidade de grupo. O lado direito da equação do balanço contém
os termos fonte onde:
descreve a
geração e crescimento de ondas devido ao vento,
representa as interacções não-lineares entre conjuntos
de quatro ondas ressonantes e
fornece a parametrização da dissipação
de ondas causada por fricção com o
fundo e por quebra de ondas e águas
profundas.
124
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Resultados
grama no tratamento com vectores e
matrizes.
Primeiramente houve algumas aulas de esclarecimento referentes ao
programa, para que a estagiária pudesse assimilar algumas rotinas básicas indispensáveis para a realização
desse trabalho.
Com a ajuda do orientador e da
orientanda de mestrado em Geociências, Cláudia Klose Parise, começaram as sessões de tratamento de
dados e posterior visualização das
figuras no MatLab. Os dados de saída do modelo de onda WAM foram
fornecidos pela aluna Cláudia que os
gerou como parte da sua dissertação
de mestrado na UFRGS.
Os arquivos de saída do modelo
WAM compreenderam 1 ano de dados, de Junho de 2006 a Julho de
2007, e foram apresentados em formato binário (. bin e. ctl) os quais foram importados para o MatLab com a
ajuda da rotina ‘read_grads.m’.
Posto isso, calcularam-se as médias das variáveis estabelecidas inicialmente nos objectivos, bem como
a análise e discussão dos resultados
espaciais gerados pelo modelo WAM
a partir de campos de tensão do vento localizados entre as latitudes 40°N
e 20°S e as longitudes de 10°E à
60°W, respectivamente.
Após analisar o comportamento
médio das ondas na região próxima
a Cabo Verde, repetiu-se o mesmo
procedimento de tratamento dos dados para o domínio de todo o Oceano
Atlântico.
Este trabalho centralizou-se em dois
estudos; primeiramente, estudou-se o
estado do mar nos arredores do arquipélago de Cabo Verde e, em seguida,
no domínio do Oceano Atlântico para
o mesmo período compreendido entre
Junho de 2006, às 03:00 horas GMT, e
Julho de 2007, às 03:00 horas GMT.
Na Figura 1 são visualizados os
campos de altura significativa de ondas, altura de marulho e de vagas,
período de pico, bem como a direcção e intensidade do vento a 10 metros de altura na região próxima a
Cabo Verde.
A altura significativa de onda e o
swell apresentaram um comportamento médio similar, com as maiores
ondas atingindo 3 metros, em águas
mais profundas, decrescendo em direcção a águas mais rasas.
As wind-sea apresentaram os
maiores valores em três centros, dois
no Atlântico Norte e um no Atlântico
Sul, atingindo a altura máxima de 1
metro. Nota-se com bastante clareza
a quase ausência de ondas geradas
por vento no local próximo ao Equador. Esse comportamento é explicado
pela baixa intensidade do vento nessa
mesma região, como pode ser observado na figura do vento a 10 metros.
Inclusive, não somente nessa região,
mas em toda a grade, o comportamento das ondas sea e do vento foram
bastante idênticos mostrando, dessa
maneira, que os dados são coerentes
e as variáveis interligadas.
125
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Figura 1 – Médias anuais das variáveis analisadas entre Junho de 2006 a Julho
de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde
126
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Na Figura 2 percebe-se que, excepto próximo da África e ao norte de 30°N
onde ocorreram ventos de sul, sudeste e sudoeste, houve uma predominância de
ventos do quadrante norte, ou seja, de 0 a 120° sob quase todo o domínio.
Figura 2 – Altura significativa de ondas e direcção do vento para Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde.
127
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Claramente constata-se pela Figura 3, que devido aos correspondentes ventos de baixa intensidade sobre o arquipélago, as vagas atingem intensidades
muito baixas que não ultrapassam 0.5 metro.
Figura 3 – Altura significativa das vagas e intensidade do vento a 10 metros
de altura para Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo
ao arquipélago de Cabo Verde.
128
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Há uma grande presença de marulhos com períodos de pico de grandes intensidades na região, oriundos de tempestades longínquas: conforme mostra a
Figura 4.
Figura 4 – Altura significativa de marulho e período de pico para Junho 2006
a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo
Verde.
Concluindo esta sessão, a Figura 5 demonstra que houve uma predominância
de grandes períodos de pico provenientes do Atlântico Sul, o que não causa espanto, visto que Cabo Verde localiza-se na região de divisa entre os dois hemisférios, recebendo, assim, influências de ambos, bem como do clima local, como
exemplo os ventos secos da África que provocam chuvas irregulares e escassas,
apesar de o clima ser ameno.
129
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Figura 5 – Médias anuais das variáveis entre Junho 2006 a Julho de 2007
(03:00 horas GMT), ocorridas no domínio do Oceano Atlântico.
130
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Conclusões
minadas, possibilitando uma melhor
representação de situações de mudanças bruscas de direcção de vento,
bem como a interacção entre vagas e
marulhos.
Aprimoramento em diferentes aspectos da modelagem encontram-se
em progresso, particularmente no que
se refere ao processo de assimilação
de dados, ou seja, na inclusão de dados de ondógrafos e de satélites na
execução de modelos. Assim como
a previsão de ondas, a interacção bidireccional entre modelos de ondas
e outros tipos de modelos, entre os
quais os de previsão de tempo, é outro tópico de investigação muito promissor.
Sugere-se para trabalhos futuros,
um estudo mais aprofundado do tema
desenvolvido neste relatório pois,
apesar de no arquipélago não se verificarem ocorrências desses eventos
extremos, isso ajudaria a prever as
ressacas oriundas de vários continentes vizinhos, bem como nos estudos
relacionados com projectos dos vários
portos e estruturas costeiras existentes no país.
O trabalho baseou-se em dados do
modelo WAM gerados num período de
um ano, mais precisamente de Junho
de 2006 a Julho de 2007. Concluiu-se
que as aplicações de modelos de ondas não se restringem apenas a previsões de situações futuras, forçando
os modelos com condições previstas
por análises e previsões. Baseando
em dados pretéritos de ventos que
são colectados por períodos suficientemente longos, os modelos auxiliam
nos estudos relacionados com a estimativa da energia, em projectos de
portos e estruturas costeiras e oceânicas, para além de possibilitar a
reconstituição de eventos extremos,
dentre os quais destacam-se os furacões e as tempestades.
A grande evolução dos modelos de
terceira geração, como o utilizado no
trabalho, deveu-se às trocas de energia entre atmosfera e oceano e entre
as próprias ondas, estas parametrizadas sem qualquer tipo de restrição
quanto às formas espectrais predeter-
131
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Referências
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Vitória, 2006.
132
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Anexos
Scripts do MatLab utilizados para o cálculo das variáveis e médias anuais.
A – Linha de código utilizado para o cálculo de todas as variáveis temporais,
desde Junho 2006 à Julho de 2007.
********************************************************************** clear;clc;
%% Le ctl e bin e coloca ‘data’ embaixo de ‘data’, domínio: ATLANTIC
for dia=1:30 % número de dias
if dia<10
[data, header]=read grads([‘WAM2006’ ‘06’ ‘0’ num2str(dia) ‘030000.
ctl’],’swh’);
else
[data, header]=read grads([‘WAM2006’ ‘06’ num2str(dia) ‘030000.
ctl’],’swh’);
end
for t=1:8; % cada dia tem 8 medidas de ondas p cd pto da grade q são colectadas de 3 em 3 horas;
%A partir daqui se faz o recorte
ts(:,:,t)=data(312:382,70:130,:,t);%lon=
end
%Redimensiona o ts de 3D Para 2D
M=reshape(ts,4331,8);%linhas=lon*lat;
Ms(dia,:,:)=M’;
end
%% Coloca um dia debaixo do outro dia
Mfinal(:,:)=Ms(1,:,:);
for dia=2:30
Mb(:,:)=Ms(dia,:,:);
Mfinal=[Mfinal;Mb];
end
clear M Mb Ms data dia header t ts
B – Linha de código que faz a média anual da swh (altura significativa de ondas) em cada ponto da grade, e apresenta a sua imagem.
for j=1:4331;
mediaswh(:,j)=nanmean(swh_ano(:,j));
end
133
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Mapa_mediaswh=reshape(mediaswh,71,61);
clear j mediaswh
contourf(Mapa_mediaswh’);
grid;
colorbar;
xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
title(‘Média temporal da Altura Significativa de ondas (swh)’,’fontsize’,10);
% Coloca * na imagem, como forma de identificar Cabo Verde
hold on
plot (54.73,87.82,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.80,90.77,’*w’,’markersize’,8)
C – Linha de código que faz a apresentação de todas as imagens das médias
anuais, numa só figura.
%% Plota as figuras das médias
load médias_anuais
%
subplot 321
contourf(Mapa_mediaswh’);
grid;
colorbar;
ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
title(‘Média temporal da Altura Significativa (swh)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
%
subplot 322
contourf(Mapa_mediahsswell’);
grid;
colorbar;
title(‘Média temporal da Altura de Marulho (hsswell)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
%
134
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
subplot 323
contourf(Mapa_mediahssea’);
grid;
colorbar;
ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
title(‘Média temporal da Altura de Vagas (hssea)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
%
subplot 324
contourf(Mapa_mediapper’);
grid;
colorbar;
title(‘Média temporal do Periodo de Pico (pper)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
%
subplot 325
contourf(Mapa_mediaudir’);
grid;
colorbar;
xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
title(‘Média temporal da Direcção do vento (udir)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
%
subplot 326
contourf(Mapa_mediau10’);
grid;
colorbar;
xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14);
title(‘Média temporal da Velocidade do vento a 10m (u10)’,’fontsize’,10);
hold on
plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8)
plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8)
135
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Avaliação da experiência pela autora
“Falar da minha participação no programa de formação científica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul é a grande oportunidade de agradecer como também destacar o papel imprescindível desse estágio, tanto a
nível pessoal como profissional, para mim.
Em relação à acolhida, só tenho de agradecer a hospitalidade, simpatia e a
grande disponibilidade de todas as pessoas com quem tive a oportunidade de conviver durante esses dois meses. Tanto o pessoal da Reitoria e do Relinter como o
da residencial desde a chegada ao Brasil mostraram-se preocupados connosco;
prontamente dispuseram-se em nos ajudar em tudo que fosse preciso.
No que diz respeito à inserção no programa, devo dizer que inicialmente
quando me foi entregue o tema de pesquisa fiquei um pouco preocupada,
pois achava que era algo que não estava muito relacionado com o meu curso.
Porém, à medida que o projecto se desenvolvia pude constatar que envolvia
muito as disciplinas de cálculo e de computação estudadas durante o curso.
Mas nada se compara ao imenso apoio que recebi do meu orientador e da
aluna Cláudia Klose Parise para superar todas as dificuldades surgidas na
elaboração do projecto.
Desde o primeiro momento o meu orientador sempre disponibilizou tempo
para esclarecer todas as minhas dúvidas, referentes tanto à análise bibliográfica e à concepção do trabalho, bem como na melhor forma de elaborar o
relatório final. Por isso, só tenho de agradecer o facto de me ter aceite para
orientar-me na pesquisa e por toda a dedicação e apoio que me transmitiu.
Tive também a oportunidade de conviver de perto com os alunos brasileiros, pois durante todo o estágio assisti às aulas de Cálculo e Geometria Analítica II leccionadas pela docente Ada Maria Boering. A relação com os alunos
foi muito boa e guardo para sempre boas recordações dessa experiência. O
pessoal do Laboratório de Integração de Computação Científica (LICC), onde
foi realizado o estágio, sempre me ajudou e agradeço muito a alegria e a simpatia que sempre reinaram no local.
Iniciativas desse tipo são de louvar, e as minhas únicas sugestões, que
no fundo não passam de meros pedidos, é que continuem sempre a existir esses intercâmbios entre universidades brasileiras e cabo-verdianas para
que outros alunos possam beneficiar do programa e também que, caso haja
possibilidade, atender ao pedido de vários alunos brasileiros com quem tive a
oportunidade de conviver nesses meses, de os mesmos poderem frequentar
estágios nas universidades cabo-verdianas”.
136
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
ESPECTROSCOPIA DE ABSORÇÃO ATÓMICA EM
FORNO DE GRAFITE COM AMOSTRAGEM DIRECTA
DE SÓLIDOS E SUA APLICAÇÃO EM AMOSTRAS
AMBIENTAIS DE SOLOS E FERTILIZANTES1
Neusa Sanches
Departamento de Engenharias e Ciências do Mar
Universidade de Cabo Verde
RESUMO
Este trabalho expõe como a diversidade de fertilizantes disponíveis, resultantes das várias combinações que se podem fazer, variando as proporções de
azoto, fósforo e potássio, torna necessário avaliar qualitativa e quantitativamente
a presença de alguns elementos químicos tóxicos, tais como chumbo (Pb), arsénio (As) e cádmio (Cd), entre outros, introduzidos por eles no ambiente. Dentre
as diversas técnicas para determinação de elementos traços destaca-se a espectrometria de absorção atómica em forno de grafite (GF AAS). Nesse âmbito,
no presente trabalho, primeiramente faz-se uma introdução à referida técnica e
posteriormente a descrição experimental do desenvolvimento de método analítico
para determinação de Pb em amostras de fertilizantes por GF AAS, utilizando a
amostragem directa por suspensão.
Palavras-chave: fertilizantes; modificadores químicos; amostragem directa;
forno de grafite; chumbo.
1 Este trabalho foi orientado pela Professora Dra. Maria Goreti Rodrigues Vale e co-orientado pela Dra. Emilene Becker
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e teve o apoio da CAPES.
137
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Introdução
quantitativa desses elementos, como
é o caso do As, Bi, Pb, Sb, Se, Sn e
Te e Hg (KRUG et al., 2001) de forma
a ter uma ideia a nível da sua extensão e, quem sabe assim despertar a
atenção das pessoas em relação aos
impactos negativos a ele associados que afectam não só os humanos
como também os outros elementos da
natureza.
Apesar de por vezes se apresentarem em concentrações tão baixas que
exigem muito rigor na determinação,
é possível fazer as determinações
destes elementos traço utilizando
técnicas analíticas como a espectrometria de absorção atómica com
chama (F AAS), a espectrometria de
absorção atómica com forno de grafite
(GF AAS) ou outras acopladas como
o ICP-MS (espectrometria de massas
com plasma indutivamente acoplado) ou o ICP-OES (espectrometria de
emissão óptica com plasma indutivamente acoplado) fornecendo resultados com elevados índices de sensibilidade, precisão e exactidão (CADORE
et al., 2008).
No presente relatório, cujo objectivo é expor os resultados conseguidos
durante os dois meses nos quais decorreu o estágio de iniciação científica,
tem-se primeiramente uma abordagem teórica, introduzindo alguns conceitos associados à espectrometria de
absorção atómica e posteriormente
os resultados práticos conseguidos.
Dessa forma, o mesmo se encontra
subdivido basicamente em duas partes, sendo que na primeira se faz uma
Actualmente, a nossa sociedade
vem enfrentando diversos problemas,
um dos quais o da poluição ambiental,
causada principalmente pelos produtos químicos que muitas vezes são
descartados na natureza sem um mínimo de preocupação acerca dos efeitos que possam causar, tanto por si
só quanto por conjunção com outros,
com os quais eventualmente terão
contacto.
Dentre os poluentes químicos que
têm chamado bastante atenção ultimamente estão os metais pesados e
outros elementos como os metalóides. Os primeiros são definidos como
grupo de elementos que ocorrem em
sistemas naturais em pequenas concentrações e apresentam densidade
igual ou superior a 5 gcm-3 (DUARTE
e PASQUAL, 2000), abarcando neste caso os elementos como Cu, Fe,
Mn, Mo, Zn, Co, Ni, V, Ag, Cd, Cr,
Hg e Pb (JUNIOR et al., 1999). Segundo os mesmos autores, as fontes
mais comuns destes elementos tóxicos no ambiente são os fertilizantes,
os pesticidas, a combustão de carvão
e óleo, as emissões veiculares e outros processos incluindo a mineração,
fundição, refinamento e incineração
de resíduos urbanos e industriais, a
partir dos quais são libertados gases
e particulados, contendo, como exemplo, cerca de 33% de Pb.
Nas últimas décadas houve uma
crescente demanda na determinação
138
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
breve abordagem teórica sobre os
conceitos relacionados à técnica de
espectrometria de absorção atómica
e ao forno de grafite com amostragem directa. Na segunda, têm-se os
resultados obtidos experimentalmente
no laboratório. Por último, faz-se uma
breve conclusão com base nos resultados preliminares disponíveis, obtidos no período de estágio e se referenciam as bibliografias que serviram
de base à elaboração do relatório.
traços, principalmente no que
tange aos cuidados especiais
de manuseio, descontaminação de material e preparação
dos reagentes empregados
na determinação dos metais
traços;
4. Colaboração na execução
dos sub-projectos integrantes
do projecto de “Desenvolvimento de Métodos Analíticos
para determinação de metais
pesados por GF AAS utilizando análise directa de sólidos
em amostras de solos e fertilizantes do Rio Grande do Sul”,
particularmente a preparação
das curvas de pirólise, atomização e calibração, a determinação das figuras de mérito,
o uso de modificadores químicos e as medidas quantitativas;
5. Elaboração do relatório de
Estágio.
Objectivos
Tendo em conta o limite de tempo disponibilizado para a execução
do projecto, este teve como principal
objectivo a iniciação na técnica de
espectroscopia de absorção atómica
em forno de grafite com amostragem
directa de sólidos e sua aplicação em
amostras ambientais de solos e fertilizantes. Para tal, foram estabelecidas
algumas metas que são citadas a seguir:
Espectrometria
de absorção atómica
1. Pesquisa bibliográfica visando actualizar os conhecimentos a nível das técnicas de
Espectrometria de Absorção
Atómica;
2. Introdução às técnicas instrumentais de análise, conseguida a partir da assistência às
aulas teóricas e práticas da
disciplina de Química Analítica Instrumental Aplicada;
3. Familiarização em trabalhos
de laboratório de análise de
Fundamentação teórica
A espectrometria de absorção atómica (AAS), uma das técnicas mais
utilizadas na determinação de elementos em baixas concentrações,
fundamenta-se no princípio básico de
que átomos livres no estado gasoso,
gerados num atomizador, são capazes de absorver radiação electromagnética de frequência específica, emi-
139
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
tida por uma fonte espectral (WELZ e
SPERLING, 2005). A concentração de
átomos no estado fundamental é relacionada directamente com a absorção
de radiação electromagnética monocromática a partir da combinação das
leis de Beer e Lambert, dada por
2005; KRUG et al., 2001). Ele constitui uma parte crucial no instrumento
e, consequentemente na técnica, uma
vez que da sua eficiência depende a
quantidade de átomos no estado fundamental que podem absorver radiação e ser determinada. Os dois tipos
de atomizadores mais são usados na
espectrometria de absorção atómica
são a chama (F AAS), cuja técnica daí
resultante é a mais utilizada para análises elementares em níveis de mg/L
e o forno de grafite (GF AAS), onde
a atomização é electrotérmica (ET
AAS), fornecendo vantagens significativas para determinações de baixas
concentrações (µg/L) (WELZ, 2005).
O monocromador é utilizado para
seleccionar uma faixa estreita de comprimentos de onda do feixe incidente,
emitida pela fonte de radiação, dentro da qual se situa o comprimento de
onda de interesse (HARRIS, 2001).
Para evitar que as radiações emitidas
pelo atomizador interfiram na quantificação, a radiação da lâmpada de cátodo oco é modulada mecanicamente
por um interceptor rotatório (Chopper).
Uma válvula ou tubo fotomultiplicador (Figura 1) é usada como detector para detectar a energia radiante
(KRUG et al., 2001; HARRIS, 1999)
e transformá-la num sinal eléctrico
capaz de ser quantificado pelo processador de sinal. Nos equipamentos
disponíveis no mercado, este processamento é feito num computador,
acoplado ao equipamento, que é equipado com um software que controla o
funcionamento do mesmo.
,
onde A corresponde à absorvância, ε
a absortividade molar, b ao caminho óptico e c a concentração do analito que
se quer determinar (HARRIS, 1999).
Instrumentação
Para essa técnica, são comummente utilizados instrumentos designados
espectrómetros, cujos componentes
básicos incluem uma fonte de radiação, geralmente monocromática, um
sistema de atomização, um selector
de comprimento de onda, geralmente
um monocromador, um detector e um
processador de sinal.
As três principais fontes mais comuns utilizadas para a espectrometria
de absorção atómica nas regiões correspondentes ao ultravioleta e visível do
espectro electromagnético são as lâmpadas de cátodo oco (HCL - do inglês
Hollow Cathode Lamp, Figura 1), fontes
de espectros contínuos (lâmpadas de
deutério) e lâmpadas de descarga sem
eléctrodos (EDL - do inglês Electrodless
Discharge Lamp) (KRUG et al., 2001).
O atomizador é um dispositivo
onde são gerados os átomos gasosos no estado fundamental (WELZ,
140
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
biente. A dissolução da amostra pode
ser feita por via húmida e a temperaturas elevadas, para amostras orgânicas
e inorgânicas. Procedimentos por via
seca podem ser utilizados para amostras orgânicas e, por fusão para materiais inorgânicos refractários (DAMIN,
GORETI et al., 2008).
No entanto, técnicas de amostragem directa são também utilizadas,
podendo ser empregues amostras sólidas, ou na forma de suspensão. Estas
técnicas de amostragem apresentam
grande faixa de aplicações abrangendo diversos tipos de amostras, como
por exemplo as ambientais, geológicas, biológicas, industriais e géneros
alimentícios, oferecendo uma excelente sensibilidade e simplicidade a um
custo relativamente moderado (VALE,
2006; ARAÚJO, OLESZCZUK, RAMPAZZO e VALE, 2008; BIANCHIN e
VALLE, 2006; DAMIN, 2005; MAGALHÃES e ARRUDA, 1998).
Figura 1 – Esquemas ilustrativos de componentes do espectrofotómetro de absorção
atómica (da direita para a esquerda) uma
lâmpada de cátodo oco e um tubo fotomultiplicador (fonte: KRUG et al., 2001);
Espectrometria de absorção
atómica em forno de grafite
(GF AAS ou ET AAS)
Preparação da amostra
A preparação de amostras para
análise geralmente requer uma etapa
de pré-tratamento da amostra onde
se faz a homogeneização, dissolução,
separação de interferentes e pré-concentracção de analitos. Usualmente as
amostras são convertidas em soluções
aquosas por meios de procedimentos
clássicos, que demandam o uso de reagentes com elevado grau de pureza e
alto custo, além de serem laboriosos e
por vezes serem nocivos ao meio am-
Fundamentação teórica
Nesta técnica, um pequeno volume de amostra, geralmente na faixa
dos 10 a 50 µL (WELZ, 2005; WELZ
e VALE, 2004), é injectado no interior
de um tubo de grafite (3 mm d.i. x 5
mm comprimento), ou uma pequena
massa (mg) é pesada directamente
sobre a plataforma e, então, introduzida no forno. Após a introdução da
141
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
aquecimento a serem aplicados para
etapa são características que variam
consideravelmente com o tipo de matriz e de analito. Geralmente, matrizes
complexas requerem aquecimentos
lentos durante intervalos de tempo
maiores e as temperaturas devem ser
obtidas a valores próximos de 1.000
°C. A etapa de atomização é marcada basicamente pela passagem do
analito ao estado de vapor atómico,
contudo sem ionizá-lo. A etapa de limpeza tem a finalidade de remover os
resíduos da matriz e eliminar qualquer
efeito de memória do analito em análise. Para essa etapa, geralmente são
empregues faixas de temperatura por
volta de 2.600 ºC, num tempo mínimo
para que não ponha em risco o tempo de vida útil do tubo (WELZ, 2005;
WELZ e VALE, 2004).
Tendo em vista o apuramento das
melhores condições para a realização
das etapas de pirólise e atomização,
são traçadas, então, curvas de pirólise
e atomização, nas quais se procuram
obter as temperaturas susceptíveis de
conferir melhores valores de absorvância, com reduzido sinal de fundo
ou background. Uma curva de pirólise corresponde a um gráfico no qual
a absorvância integrada é plotada em
função da temperatura de pirólise, a
uma temperatura de atomização conhecida e constante. Contrariamente, no caso da curva de atomização,
a absorvância integrada é medida em
função da temperatura de atomização, para uma temperatura de pirólise
considerada óptima.
amostra (liquida, sólida ou gasosa), o
tubo será submetido a um programa
de aquecimento no qual o analito presente na amostra é dissociado em átomos gasosos no estado fundamental,
que absorverão radiação proveniente
de uma linha espectral de comprimento de onda específico.
O programa de temperatura permite o pré-tratamento térmico da
amostra, sobretudo durante a etapa
de pirólise, facilitando a remoção de
parte dos concomitantes susceptíveis
de provocar interferências durante a
atomização. Garante ainda boa selectividade e sensibilidade, além do
facto de os problemas relacionados
ao sistema de transporte serem praticamente inexistentes, uma vez que
o transporte da amostra é feito por
amostragem discreta (não depende
de nebulizadores para formação de
aerossol, como no caso da técnica de
F AAS), ou seja, toda a amostra será
convertida em átomos gasosos no estado fundamental.
Este programa é composto por quatro etapas principais (secagem, pirólise, atomização e limpeza). A primeira
etapa consiste na dessolvatação da
amostra, ou eliminação do solvente.
Para esta etapa, utiliza-se uma temperatura em torno da temperatura de
ebulição do solvente, por um intervalo
de tempo entre 20 a 40 s, de acordo
com o volume injectado. A etapa de pirólise é caracterizada pela destruição
e eliminação da matriz, contudo, sem
comprometer o analito de interesse.
A faixa de temperatura e o tempo de
142
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Além do atomizador de grafite, outros componentes adicionais são os
eléctrodos, o sistema de refrigeração
e o gás de purga. O tubo de grafite
é aquecido transversalmente2 pelos
eléctrodos de grafite que, quando sujeitos a um potencial eléctrico geram
um fluxo de corrente através do tubo.
O sistema de refrigeração, anexado
ao suporte onde fica o tubo de grafite,
promove o resfriamento do forno entre
os ciclos de aquecimento. Um fluxo
de gás inerte, normalmente árgon, circunda externa e internamente o tubo
durante as etapas de aquecimento.
Externamente tem a função de proteger o tubo de grafite do contacto com o
ar, para que não ocorra a combustão.
Internamente, ele funciona como gás
de purga para remover rapidamente
os concomitantes da amostra que são
volatilizados durante as etapas de secagem e pirólise. O fluxo do gás de
protecção é contínuo durante o tempo
de uso do forno, enquanto o fluxo do
gás de purga é normalmente interrompido durante a etapa de atomização,
ajudando a maximizar o tempo de residência dos átomos do analito no volume de absorção (WELZ e VALE, 2004;
BEATY e KERBER, 1993). Todo o funcionamento do equipamento é controlado por um software específico.
Os erros mais frequentes associados à GF AAS são basicamente devido à contaminação ou perdas por
volatilização que podem afectar direc-
tamente a exactidão e precisão dos
resultados analíticos. Entretanto, por
se tratar de uma técnica destinada à
determinação de elementos traço e
ultratraço, esses erros podem ser minimizados manipulando de forma mínima possível a amostra e utilizando
modificadores químicos para o controlo da volatilização (NOMURA et al.;
2008, WELZ, 2005).
Modificadores
Inicialmente proposto por Ediger
em 1975 (MAGALHÃES e ARRUDA,
1998), os modificadores são definidos segundo a IUPAC como reagentes cuja finalidade é influenciar
os processos que cuja ocorrência se
dá no atomizador, e que quando adicionados ajudam a reter o analito a
temperaturas mais elevadas durante
a pirólise. Isso, com a finalidade de
remover os concomitantes indesejáveis que ficam presentes na matriz
ou melhorar a eficiência na atomização (OLESZCZUK, 2008).
De acordo com a forma como são
empregues, os modificadores químicos são classificados em modificadores químicos convencionais e modificadores químicos permanentes. Os
modificadores químicos convencionais são adicionados à amostra, como
é o caso da mistura de paládio e magnésio. Por outro lado, os modificadores químicos permanentes são introduzidos no tubo de grafite e sofrem
um tratamento térmico adequado ou
uma electrodeposição, promovendo
2 O aquecimento transversal permite uma melhor distribuição da temperatura no forno, garantindo uma isotermicidade ao longo das etapas de aquecimento.
143
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
de sólidos quando comparada com a
análise de soluções. Já o uso de suspensões, no entanto, reúne as vantagens da análise directa de sólidos
com a análise de soluções e permite,
por exemplo, o uso de amostrador de
líquidos convencional, como o autosampler do GF AAS. As suspensões
podem também ser diluídas da mesma forma que as soluções, o que na
amostragem directa de sólidos é um
problema crítico.
a modificação da superfície grafítica
e criando um depósito de modificador
na plataforma que persiste nela por
até 300 ciclos (OLESZCZUK, 2008).
São exemplos os chamados metais
do grupo de platina, como é o caso
do irídio, do ródio e do ruténio (WELZ
e VALE, 2004). A escolha e o emprego do modificador devem atender às
características específicas de cada
amostra e para cada analito.
Amostragem directa
Calibração
A GF AAS apresenta características
que a elegem como uma das técnicas
mais adequadas para análise directa
(SS) (VALE, 2006; NOMURA et al.,
2008). Welz e Vale (2004) Apontaram
algumas razões para a análise directa
de amostras sólidas sem o recurso à
digestão ou dissolução prévia da amostra. Entre essas características podese destacar a maior sensibilidade que
esta técnica proporciona quando se
pretende determinar elementos traço,
uma vez que o processo de solubilização causa diluições substanciais que
induzem a erros. Também, os autores
reportam a redução significativa de
tempo do preparo das amostras, aliada
à minimização dos eventuais riscos de
contaminação inerentes aos reagentes
tóxicos utilizados nos processos de
preparação das amostras como a digestão ácida e a solubilização.
Contudo, alguns problemas são
associados a essa técnica como é o
caso da baixa repetitibilidade das análises por parte da amostragem directa
A calibração constitui uma das etapas críticas de qualquer procedimento
analítico, principalmente para a GF
AAS, quando se usa a amostragem
directa, onde se têm por vezes matrizes bastante complexas e se deseja
que os resultados tenham a máxima
qualidade possível.
Assim sendo, o analista deve usufruir de um método que seja adequado
para a construção da curva analítica
de calibração, de forma que esta tenha
o máximo de linearidade possível nas
regiões onde se presume que seja a
faixa de concentração ou de absorvância do analito. A escolha do material
a ser utilizado para a calibração deve
ser o mais próximo possível da composição da matriz na qual o analito
está presente, para que se possa ter
uma quantidade mínima de interferências daí resultantes. Normalmente são
utilizadas soluções de referência ou
padrões aquosos. Essa via constitui a
forma mais comum, simples e barata
144
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
inferior a 5% (OLESZCZUK, 2008).
Ambos são obtidos com base nas medidas do branco analítico. Idealmente,
a resposta do branco analítico pode ser
conseguida a partir de materiais que
possuem composição matricial similar
à amostra que está sendo analisada,
porém, isento do analito de interesse.
Devido às dificuldades na preparação do branco para amostras sólidas
analisadas directamente, tendo em
conta a complexidade da matriz, a obtenção das medidas do branco é conseguida através da realização de medidas
com a plataforma de grafite vazia. Nessas condições, o sinal de absorvância
obtido refere-se à “massa zero” e o desvio padrão é o proveniente do “ruído”
instrumental (NOMURA et al., 2008).
No caso de amostras líquidas ou em
forma de suspensão, os limites podem
ser calculados de forma similar às soluções, com os brancos analíticos.
Conhecendo-se o valor do desvio padrão de 20 medidas do branco
analítico (σ), pode-se calcular o limite
de detecção do método (LOD) pela
equação 3σ/S, e o da quantificação
por 10σ/S, na qual S é a inclinação da
curva analítica de calibração. Os limites de detecção da GFAAS situam-se
na ordem de µg L-1 ou ng g-1 para o
caso de amostragem sólida (CADORE et al., 2008).
para construir a curva analítica de calibração. Podem ser utilizados materiais
de referência certificados (CRM), produzidos por diversas instituições, entre
as quais a BCR (“Community Bureau
of Reference”, IRMM, Geel, Bélgica)
e a NRC (“National Research Council
Canada, Institute for Environmental
Research and Technology”, Otawa,
Ontário, Canadá) (OLESZCZUK, 2008;
NOMURA et al., 2008). Entretanto, devem considerar-se algumas limitações
inerentes ao seu uso, entre as quais
se podem destacar que muitos materiais não são certificados para alguns
elementos de interesse e na prática é
muito difícil encontrar CRM com composição semelhante à da amostra.
Além disso, a maioria dos CRMs comercialmente disponíveis apresenta
homogeneidade garantida somente
para massas de amostra muito superior àquela praticada em análise directa de sólidos (SS ET AAS).
Limites de detecção
e quantificação
De acordo com a definição da IUPAC, o limite de detecção (LOD),
expresso em termos de quantidade
de analito, está relacionado à menor
resposta que pode ser detectada com
razoável certeza por um dado método
analítico (NOMURA et al., 2008; DESSUY et al., 2008). O limite de quantificação (LOQ) é definido como a menor
massa ou concentração do analito que
pode ser determinada quantitativamente, com uma percentagem de erro
Massa característica
A magnitude do sinal observado para o forno de grafite depende
da massa de analito introduzido em
145
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Parte experimental
Equipamentos
vez da concentração do mesmo na
amostra. Como tal, utiliza-se o termo
“massa característica”, definido como
a massa do analito, em picogramas,
requerido para produzir um sinal cuja
área do pico seja igual a 0,0044s, valor correspondente a 1% da absorvância integrada (WELZ, 2005; BEATY
e KERBER, 1993). Este parâmetro
pode ser utilizado como indicador de
optimização do instrumento e é dado
pela equação
As determinações foram efectuadas no Espectrómetro Zeenit 650
P (Analytik Jena, Jena, Alemanha),
equipado com um atomizador de tubo
de grafite aquecido transversalmente
e um corrector de fundo baseado no
efeito Zeeman. Este equipamento,
possui amostradores tanto para sólidos como para líquidos, possibilitando
a análise de líquidos, amostragem di-
Método Participantes
recta de sólidos e amostragem directa
em suspensão. Lâmpadas de cátodo
oco de chumbo como fonte de linhas.
Os parâmetros instrumentais utilizados estão apresentados na Tabela 1.
Participaram do trabalho a autora,
como bolsista de Iniciação científica, a
orientadora e a co-orientadora, mencionadas acima, além de Aline Borges, doutoranda, executora do projecto “Desenvolvimento de métodos para
a determinação de elementos traços
em amostras de fertilizantes, solos e
plantas utilizando espectrometria de
absorção atómica com amostragem
directa de sólidos”.
Tabela 1 – Parâmetros instrumentais
para determinação de Pb.
PARÂMETRO
Comprimento de onda (nm)
Corrente de lâmpada (mA)
Largura da fenda (nm)
Campo magnético aplicado (T)
Pb
283,3
4,0
0,8
0,8
O forno de grafite utilizado foi com
plataforma integrada (forno PIN).
Como gás de purga, empregou-se o
árgon, com grau de pureza de 99,996%
(White Martins, Brasil). A vazão do gás
foi de 2,0 L min-1, durante todas as
etapas, excetuando a de atomização,
onde o fluxo de gás foi interrompido. O
programa de aquecimento, mostrado
Ambiente e aparato
O desenvolvimento do projecto
decorreu na Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, na Central Analítica, incluindo as salas CA104, sala de
preparo das amostras para análise e
CA 106, laboratório de análise de traços por GF AAS.
146
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Limpeza e descontaminação
do material
na Tabela 2, foi obtido com a amostra
de fertilizante N:P:K 4:14:8. A técnica
de calibração com padrões aquosos foi
usada em todo o trabalho.
Os materiais de análise e vidrarias,
foram lavados primeiramente com
água e detergente, enxaguadas com
água destilada para a remoção dos
resíduos mais grosseiros, e posteriormente com água milli-Q (água ultra
pura) para a remoção dos resíduos
que ainda persistiam mesmo após a
lavagem com água destilada. Posteriormente, foram mergulhadas em um
banho com solução de ácido nítrico
bi-destilado3 10% (v/v) por um período
de 48 horas, enxaguadas novamente
com água milli-Q e colocadas para secar a temperatura ambiente.
Tabela 2 – Programa de aquecimento
para a determinação de chumbo em
amostras de fertilizantes por GF AAS.
GF AAS
Etapaa
Temp /
°C
Rampa /
°C s-1
Patamar
/s
Secagem
90
5
20
Secagem
120
5
10
Secagem
150
5
20
Pirólise
900
500
30
Atomização
2000
FPb
4
Limpeza
2300
1000
4
Reagentes
a
Gás de Purga: Argônio (2 L.min-1)
b
FP = Potência máxima (do inglês: full power).
As soluções utilizadas foram preparadas a partir de reagentes de elevado grau analítico. A água foi purificada por um sistema Milliq-Plus (Millipore, Bedford, MA) acoplado a um
destilador de água de vidro modelo
534 (Fisatom, Brasil), sendo utilizada tanto para preparo de reagentes
como limpeza e descontaminação do
mateiral. O ácido nítrico concentrado
(Merck, Alemanha) foi bi-destilado
em um destilador de quartzo (Kürner
Analysesentechnik, Rosenheim, Alemanha). Utilizou-se para o preparo
das soluções analíticas (em 0,014 M
HNO3) uma solução estoque de 1.000
ppm de Pb (SpecSol).
Foram usados ainda, um moinho vibratório modelo Pulverisette 0 (Fritsch,
Alemanha) equipado com bolas de aço
para a moagem das amostras, uma
peneira de 45 µm para a homogeneização da mesma, um banho de ultrasom
(Unique, SP, Brasil) e uma microbalança M2P (Startorius, Göttingen, Alemanha), com precisão de 0,001 mg.
Um destilador de água de vidro,
modelo 534 Fisatom (Brasil), um sistema MilliQ-Plus (Millipore, Bedford,
MA) para destilação de água e um
destilador de quartzo Kürner Analysentechnik (Rosenheim, Alemanha)
para destilação de ácidos também foram utilizados.
3 A bidestilação tem como função básica aumentar o
grau de pureza do ácido.
147
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
O modificador nitrato de amónia
(NH4NO3) e paládio (Pd) foi obtido,
preparando-se uma solução de 5%
(m/v) de NH4NO3, 0,1% (m/v) Pd em
Triton X-100 0,05% (v/v), enquanto
o modificador Pd/Mg foi preparado
em solução com 0,1% (m/v) de Pd e
0,06% (m/v) de Mg. A solução do diluente para o preparo da suspensão
foi a mistura de soluções de ácido nítrico 5% (v/v), etanol 10% (v/v) e Triton X-100 0,05% (v/v).
As amostras utilizadas foram o fertilizante (composição N:P:K 4:14:8), a
ureia e o calcário.
na forma de suspensão, foi transferida
para o banho de ultra-som. Após um
período de 30 minutos, a determinação de Pb é realizada por GF AAS.
Resultados e discussão
Estudo da determinação de Pd
por GF AAS utilizando os modificadores químicos Pd/Mg e NH4NO3/Pd
Curvas de pirólise e atomização
A obtenção dos valores de temperatura óptima para a pirólise e para a
atomização na determinação de elementos geralmente é feita a partir da
literatura ou de dados experimentais.
Para a determinação da curva de pirólise do chumbo, fixou-se a temperatura de atomização em 2.000ºC e fez-se
a medição dos valores da absorvância
integrada, variando as temperaturas
de pirólise entre 300 a 1.250ºC, para
o padrão de chumbo e, entre 300 e
1.300ºC para a amostra de fertilizante
4:14:8, utilizando ambos modificadores investigados neste trabalho, PdMg e NH4NO3-Pd.
Pelas curvas de pirólise obtidas
para ambos os modificadores (Figuras 2 e 3), pode-se ver que a temperatura de pirólise que confere um valor
de absorvância maior para o Pb utilizando como modificador químico a
mistura de paládio e magnésio (fig. 2)
corresponde a 1.050°C para o padrão
e 900°C para a mostra. Entretanto, a
temperatura de pirólise adoptada para
Preparação da amostra
O “preparo”4 das amostras de fertilizantes incluiu apenas uma etapa
inicial de moagem que compreende
três ciclos de vinte minutos cada, num
moinho vibratório de bolas. Após, a
amostra moída é passada por uma
peneira de 45µm e, de seguida é levada à estufa (por uma hora) para o
processo de secagem. Terminado o
processo de secagem na estufa, a
amostra é conservada num dessecador para a remoção da humidade, que
poderá afectar a precisão da análise.
Uma porção de 20 mg de amostra
foi pesada, em balança de precisão
0,001 mg, em um vial (recipiente para
utilização no amostrador automático
do GF AAS). Adicionou-se 1 mL de solução do diluente e, então, a amostra
4 A amostragem directa não requer o preparo da amostra. Caso for necessário algum preparo prévio, ele deverá ser mínimo.
148
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Absorvância Integrada (s)
o estudo da massa do modificador e a
quantificação foi de 900°C, uma vez
que, apesar de ser o segundo valor de
temperatura que apresentou melhores
valores de absorvância, possui o melhor perfil de pico tanto para o padrão
como para a amostra de fertilizante
usada como teste. A temperatura de
1.000°C não foi escolhida por causa
da preservação do forno com menores temperaturas.
No caso do modificador nitrato de
amónio-paládio (Figura 3), observase que a temperatura de pirólise que
apresenta maiores valores de absorvância, assim como o modificador PdMg é 900°C. Optou-se por utilizar esta
temperatura pelos mesmos motivos
anteriores: aumento de sensibilidade,
diminuição do background e um adequado formato de pico. Também para
preservar o forno. Além do mais, podese ver que a partir desse de 1.000°C,
os valores de absorvância começam
a diminuir.
Em relação à curva de atomização,
quando se utilizou o modificador PdMg, verifica-se que a temperatura de
2.000°C é a que apresenta melhores
resultados tanto para o padrão como
para a amostra, no sentido de aumento de sinal de absorvância do Pb. Nessa temperatura, também os picos tem
um formato mais gaussiano.
Com o modificador NH4NO3-Pd observa-se comportamento semelhante
a estabilização do sinal de absorvância do Pb para a amostra e padrão.
Melhores resultados foram obtidos
com a temperatura de 2.000°C.
0,25
Padrão
0,20
0,15
0,10
200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000
Temperatura (°C)
Absorvância Integrada (s)
0,15
4:14:8
0,10
0,05
0,00
400
800
1200
1600
2000
Temperatura (ºC)
Figura 2 – Curvas de pirólise e
atomização utilizando 1 ng do padrão
aquoso de Pb e 0,6 mg de amostra de
fertilizante (4:14:8) na forma de suspensão e 10 µg de Pd + 6 µg de Mg na
presença de Triton X-100 como modificador químico: ■ – curva de pirólise;
● – curva de atomização. Tp: 900°C;
Ta 2.000°C.
149
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Estudo da massa
do modificador
Padrão
Absorvância Integrada (s)
0,3
0,2
0,1
0,0
300
600
900 1200 1500 1800 2100
Temperatura (ºC)
0,20
Absorvância Integrada (s)
4:14:8
0,15
0,10
0,05
0,00
300
600
900
1200
1500
1800
Temperatura (ºC)
Figura 3 – Curvas de pirólise e
atomização utilizando 1 ng do padrão
aquoso de Pb e 0,6 mg de amostra de
fertilizante (4:14:8) na forma de suspensão e 500 µg de NH4NO3 + 10 µg
Pd na presença de Triton X-100 como
modificador químico: ■ – curva de pirólise; ● – curva de atomização. Tp:
1.000°C; Ta 2.000°C.
Tendo estabelecidas as temperaturas de pirólise e atomização, fizeram-se
diversas medições de absorvância da
amostra e do padrão, utilizando diferentes massas de modificadores, como forma de definir a quantidade de modificador que fornece melhores resultados. A
selecção da quantidade do modificador
foi feita com base no aumento de sensibilidade (aumento de sinal de absorvância) e também com base nos perfis dos
picos obtidos para o padrão e a amostra
de fertilizante. Variou-se a massa de modificador levando em consideração também o volume de solução adicionado à
amostra e que o volume final máximo
fosse 40 µL dentro do tubo de grafite. Os
resultados podem ser observados para
ambos modificadores na Figura 4 (a e
b). A quantidade do modificador Pd-Mg
escolhida para o prosseguimento das
medidas foi de 10 µL de modificador,
correspondente à proporção em massa
de 10 µg de Pd e 6 µ de Mg. Isto porque
foi esta proporção deste modificador
que propiciou maiores valores de absorvância, com correspondentes valores de
desvio menores, além de melhores perfis de picos (Figura 4a).
Para o modificador NH4NO3-Pd, a
quantidade de modificador escolhida foi
também 10 μL, correspondente a uma
proporção, em massa de nitrato de magnésio e a do paládio, de 500 por 10 μg. A
escolha foi realizada levando em consideração os mesmos parâmetros usados
para o modificador Pd-Mg.
150
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
0,20
0,20
Absorvância Integrada (s)
Absorvância Integrada (s)
0,25
0,15
0,10
0,05
0,00
5:3
10:6
20:12
0,15
0,10
0,05
0,00
Massa de Pd:Mg (µg)
a
250;5
b
500;10
100;20
Massa de Modificador (ug)
Figura 4 – Estudo da massa de modificador para (■) 1 ng Pb aquoso e (●) 30 µL de
amostra de fertilizante 4:14:8 em suspensão utilizando plataforma PIN e: a) Pd-Mg;
b) NH4NO3-Pd ambos na presença de Triton X-100. Tp = 900 ºC e Ta = 2.000ºC.
Os perfis de pico, obtidos na determinação do Pb, referentes ao modificador
Pd-Mg são mostrados na tabela a seguir (Figura 5):
0,6
Padrão 1 ng de Pb
0,30
4:14:8
0,5
0,4
0,20
Absorvância
Absorvância
0,25
0,15
0,10
0,05
0,00
0,3
0,2
0,1
0
1
2
3
4
5
0,0
0,0
6
tempo (s)
1,0
1,5
2,0
2,5
3,0
Tempo (s)
0,05
Calcário
Uréia
0,15
0,04
Absorvância
Absorvância
0,5
0,10
0,05
0,03
0,02
0,01
0,00
0,0
0,5
1,0
1,5
2,0
2,5
0,00
3,0
Tempo (s)
0
1
2
3
4
Tempo (s)
Figura 5 – Perfis de pico do Pb, para o padrão e as diferentes amostras testadas, utilizando como modificador químico 10 µg de Pd + 6 µg de Mg na presença
de Triton X-100: — espectro de absorção do Pb; — Background
151
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Os perfis de pico obtidos na determinação do chumbo quando se usou como
modificador químico a mistura de NH4NO3-Pd são mostrados na Figura 6.
0,8
Padrão 1 ng de Pb
0,20
4:14:8
0,6
Absorvância
Absorvância
0,15
0,10
0,2
0,05
0,00
0,4
0
1
2
3
0,0
0,0
4
0,5
1,0
Tempo (s)
1,5
2,0
2,5
3,0
Tempo (s)
0,030
Uréia
Calcário
0,025
0,45
Absorvância
Absorvância
0,020
0,30
0,15
0,015
0,010
0,005
0,00
0,0
0,5
1,0
1,5
2,0
2,5
0,000
0,0
3,0
Tempo (s)
0,5
1,0
1,5
2,0
2,5
3,0
Tempo (s)
Figura 6 – Perfis de pico do Pb, para o padrão e as diferentes amostras testadas, utilizando como modificador químico 500 µg de NH4NO3 + 10 µg Pd na
presença de Triton X-100; — espectro de absorção do Pb; — Background
152
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A partir das duas tabelas correspondentes aos perfis de pico do Pb, utilizando os dois tipos de modificadores,
pode-se constatar que o modificador
Pd-Mg revela melhores perfis de pico
(forma mais gaussiana) que a mistura
de NH4NO3-Pd, como já era de se esperar uma vez que este é considerado
como sendo um “modificador universal”
devido ao seu grande desempenho para
um grande número de elementos determinados por GF AAS (OLESZCZUK,
2008). Contudo, quando se fez a determinação na amostra de ureia, os picos
não foram tão perfeitos, apresentando
alguns outros picos menores antes do
pico principal, além de um sinal de background bastante significativo.
traçaram-se duas curvas de calibração (Figura 7), um para cada modificador, utilizando padrões aquosos
de Pb. A curva analítica foi obtida
fazendo medições do padrão com
massa de Pb variando entre 0 e 2
ng, utilizando as condições de temperatura estabelecidas nas curvas
de pirólise e atomização e também
após o estudo da massa de modificador adequada. A relação entre a
absorvância integrada e a massa
dos padrões de chumbo foi linear
na faixa investigada uma vez que o
coeficiente de correlação obtido foi
0,9997 para o modificador Pd-Mg e
0,9989 para NH 4NO 3-Pd. As equações das rectas, que fornecem a relação entre a absorvância e a massa
de Pb para cada modificador químico utilizado, podem ser observadas
na tabela III.
Determinação dos
parâmetros de mérito
Para a determinação de Pb nas
amostras anteriormente referidas,
0,45
Absorvância Integrada (s)
Absorvância Integrada (s)
0,4
0,3
0,2
0,1
0,0
0,0
0,5
1,0
1,5
0,30
0,15
0,00
0,0
2,0
Massa de Chumbo (ng)
0,5
1,0
1,5
2,0
Massa de Pb (ng)
Figura 7 – Curva de calibração de Pb em solução aquosa por GF AAS, utilizando forno PIN com os modificadores químicos: a) 10 μg de Pd + 6 μg de Mg;
b) 500 μg de NH4NO3 + 10 μg de Pd, ambos na presença de Triton X-100. Tp =
900ºC e Ta = 2.000ºC.
153
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
A determinação do LOD e do LOQ
foi obtida fazendo-se 10 leituras do
branco analítico. Os valores encontrados para ambos modificadores investigados neste trabalho estão listados
na Tabela 3. Pode-se salientar que
utilizando o modificador NH4NO3-Pd
melhores limites de detecção são
obtidos. A sensibilidade, porém, obtida com a massa característica (m0),
apresentou uma diferença restrita
quando se compara os dois modificadores, sendo maior com o modificador Pd-Mg. Entretanto ambos estão
abaixo do valor reportado na literatura
(WELZ, 2005).
Os limites de detecção e quantificação calculados foram melhores
quando se utilizou o modificador PdMg do que o NH4NO3-Pd.
amostras foram analisadas em triplicata. Os resultados encontrados de
Pb nas amostras foram similares para
ambos os modificadores (tabela IV),
embora ainda não tenha sido aplicado o teste estatístico. A concentração
variou aproximadamente de 0,5 a 0,7
µg de Pb por grama de amostra analisada.
O desvio padrão relativo (RSD)
para cada amostra variou entre 4
e 13 % com o modificador Pd-Mg
e entre 7 e 44% com o modificador
NH 4NO 3-Pd. Valores acima de 10%
de RSD são considerados elevados
(como os obtidos para o calcário),
porém aceitáveis, uma vez que segundo alguns autores um RSD de
10% de um resultado exacto é preferível a um valor de RSD de 1%
Tabela 3 – Parâmetros de mérito para o Pb por GF AAS,
utilizando os modificadores Pd-Mg e NH4NO3-Pd
Modificador
Equação
Pd-Mg
A = 0,0125 + 0,1886 m
NH4NO3-Pd
A = 0,19287m + 0,02038
R
LOD (µg.g-1)
LOQ (µg.g-1)
mo (pg)*
0,9997
0,13
0,44
21
0,02
0,06
0,9989
24
* Literatura: m0 = 30 pg, com forno aquecido transversalmente, utilizando o
modificador Pd-Mg (WELZ, 2005).
Quantificação
de Chumbo nas amostras
de um resultado que é afectado por
erros sistemáticos devido à perda
do analito e contaminação durante
o preparo da amostra (VALE et al.,
2006). Considerando a complexidade da matriz e a amostragem directa na forma de suspensão, tal RSD
pode ser considerado aceitável.
Estabelecidos os parâmetros de
mérito, foram analisadas as amostras de fertilizante (4:14:8), calcário
e uréia, todos na forma de suspensão, como anteriormente descrito. As
154
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Tabela 4 – Resultados da quantificação de Pb nas amostras
Modificador
Pd-Mg
NH4NO3-Pd
Amostra
Concentração Pb (µg/g)
RSD (%)
Concentração Pb (µg/g)
RSD (%)
Fertilizante 4:14:8
0,68
4
0,75
7
Calcário
0,59
13
0,53
44
Ureia
< LOD
-
< LOD
-
espectrometria de absorção atómica em forno de grafite constitui um
método confiável e eficaz, tendo em
conta os limites de sensibilidade obtidos, podendo ser aplicado nas investigações rotineiras de outras amostras similares. No entanto, estudos
posteriores deverão ser realizados
no sentido de avaliar a dispersão do
analito na suspensão e o controlo da
homogeneidade da amostra variando
o tamanho de partícula para diminuir
o RSD da análise. Salienta-se ainda
o facto de, apesar de algumas amostras apresentarem teores de Pb acima
do LOQ, as suas concentrações estarem abaixo dos valores admitidos pela
norma Brasileira.
Apesar de algumas amostras apresentarem teores de Pb possívies de
ser determinados, as suas concentrações encontraram-se abaixo dos valores admitidos pela norma Brasileira
que estipula100 ppm (100 miligramas
de Pb por cada kilograma da massa
total do fertilizante) como limite máximo de Pb em fertilizantes minerais
com nitrogénio e potássio (Instrução
Normativa nº 24, 2007; Decreto 4.954,
2004 – BRASIL, 2007).
Conclusões preliminares
A partir dos resultados obtidos
provisoriamente, a análise directa de
chumbo na forma de suspensão, por
155
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Referências bibliográficas (*)
(*) Algumas referências não foram completadas pela autora (Nota do Organizador)
ARAÚJO, R. G. O.; OLESZCZUK, N.; RAMPAZZO, R. T.; VALE, M. G. R. et
al.. Comparison of direct solid sampling and slurry sampling for the determination
of cadmium in wheat flour by electrothermal atomic absorption spectrometry. Talanta, 77, 400–406, 2008. Esta referência não foi completada pela autora. (Nota
do Organizador),
BEATY, R. D. e KERBER, J. D., Concepts, Instrumentation and Techniques in
Atomic Absorption Spectrometry, The Perkin-Elmer Corporation, Norwalk, USA, 1993.
BIANCHIN, L.; VALE, GORETI, M. R. et al. Feasibility of employing permanent
chemical modifiers for the determination of cadmium in coal using slurry sampling electrothermal atomic absorption spectrometry. Microchemical Journal, 82,
174–182, 2006.
CADORE, S. et al., A espectrometria atómica e a determinação de elementos
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156
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WELZ, B. e VALE, M. G. R. Atomic Absorption Spectrometry and related
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Dekker, New York, 2004.
157
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Avaliação da experiência pela autora
“A experiência de realizar um estágio nos laboratórios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mesmo que por um período de tempo
relativamente curto, significou para mim a aproximação desta disciplina
muito abstracta que é a química à realidade. Foi uma experiência encantadora e fascinante, pois tive a oportunidade de conhecer e testar na
prática os meus conhecimentos teóricos além da possibilidade de ter o
contacto com os equipamentos, nomeadamente o espectrofotómetro de
absorção atómica com forno de grafite, do qual só conhecia as imagens
extraídas da Internet.
A nível da acolhida, devo dizer que fiquei bastante surpreendida,
pois não esperava tanta hospitalidade e disponibilidade. Tanto o pessoal do Laboratório quanto o da pensão sempre se mostravam preocupados com as condições em que estávamos, a nossa integridade física e
emocional e se disponibilizavam para ajudar naquilo que fosse preciso.
Em relação à inserção no programa, não tive muitas dificuldades,
uma vez que o projecto para o qual estava indicada tinha por base a
disciplina de Química Analítica, uma disciplina que eu já havia estudado
anteriormente mas que também pude acompanhar de novo, na versão
aplicada, a fim de conhecer a parte prática.
Igualmente, a superação das dificuldades deveu-se aos imensos
apoios que recebi por parte dos meus colegas do laboratório nas primeiras duas semanas, tempo em que tive a oportunidade de acompanhar
com eles todos os procedimentos inerentes a cada etapa, mesmo nos
processos mais simples.
No que concerne à interacção com a minha tutora, devo agradecer
bastante o facto de apesar de ser uma pessoa bastante ocupada, mulher de muitas responsabilidades, sempre teve tempo para me atender,
esclarecer as minhas dúvidas em relação ao trabalho e sugerir-me algumas opções de actividades para os fins de semana.
Devo salientar tambémque tive boas relações com os colegas, dos
quais guardo boas lembranças.
Durante a preparação e o decurso do estágio, não encontrei qualquer aspecto que para mim fosse tão relevante a ponto de considerá-lo
como um aspecto negativo. Entretanto, penso que alguns outros pontos
poderiam ser melhorados para que no futuro os resultados sejam sejam
158
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
melhores. São exemplos o atraso da entrega dos projectos, por parte dos
nossos coordenadores de curso e alguns constrangimentos verificados
durante o processo de obtenção do visto e bilhete de passagem. Para
este último sugiro que, caso houver uma reedição deste programa, uma
pessoa seja delegada para se responsabilizar pelos processos de pedido
de visto e entrega dos bilhetes de viagem, de forma a evitar constrangimentos, tanto por parte dos estudantes como do pessoal da Embaixada
que, desta forma, poderá executar da melhor forma as suas tarefas. Um
outro aspecto que também sugiro que fosse revisto, caso possível, é o
tempo de estágio. Penso que um aumento de pelo menos mais um mês
traria ganhos significativos tanto para os alunos como para a comissão
organizadora, pois no nosso caso o término de tempo de estágio coincidiu
com o tempo em que já estava mais integrada no projecto e poderia ter
resultados mais satisfatórios”.
159
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
CULTIVO DE MILHETO (PENNÍSETUM GLAUCUM)
SOB CONDIÇÕES DIFERENCIADAS DE FONTES
E DOSES DE NITROGÊNIO1
Jaquelino Lopes Varela
Departamento de Ciência e Tecnologia
Universidade de Cabo Verde - Campus de Palmarejo
RESUMO
Com o objectivo de avaliar a resposta do milheto e indicar a melhor fonte e
dose de nitrogénio, foi conduzido um experimento em área de unidade académica
da Universidade Federal de Alagoas. Os melhores tratamentos foram determinados a partir da morfometria, matéria verde, proteína bruta, macro e micronutrientes. Para a realização do experimento adoptou-se o delineamento experimental
inteiramente casualizado com cinco repetições. As fontes utilizadas foram ureia
e sulfato de amónia e as doses de 0kg = hectar, 40kg = hectar, 80kg = hectar
e 120kg = hectar. As mensurações e as colectas de amostras foram realizadas
após a emissão das primeiras panículas. Os resultados permitem concluir que há
diferenças significativas nas quantificações do zinco e do cálcio, quando avaliadas a fonte e a dose/fonte, respectivamente.
Palavras-chave: cultive de milheto; morfometria; matéria verde; proteína
bruta; macro e micronutrientes.
1 Este trabalho foi orientado pelo Professor José Teodorico Araújo da Universidade Federal de Alagoas - Centro de
Ciências Agrárias, e teve o apoio da CAPES.
161
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Introdução
O milheto (Pennisetum glaucum)
é uma gramínea tropical oriunda de
África ocidental, onde foi domesticada
há aproximadamente 5.000 mil anos.
É uma planta anual, de hábito erecto,
porte alto (até 220 cm) com desenvolvimento uniforme, inflorescência em
forma de panícula compacta, com tamanho de 40 a 60 cm, alta capacidade de perfilhamento, boa capacidade
de rebrota e produção de sementes
entre 500kg/hectare a 1.500kg/hectare. Apresenta excelente valor nutritivo
(até 24% de proteína bruta quando em
pastejo), boa palatabilidade e digestibilidade e produz 6 a 13 toneladas de
matéria seca/hectare2.
É uma planta que se adapta bem
a vários tipos de solos, apresentando
boa persistên­cia em solo de baixa fertilidade e défice hídrico devido à presença de sistema radicular profundo que
lhe permite obter nutrientes a grande
profundidade. Também apresenta alta
eficiência no uso da água, embora responda com óptimas produtividades em
solo de média a boa fertilidade e adubação. Não resiste a geadas e solos
encharcados, mas apresenta alta resistência as pragas e doenças3
O milheto é uma planta adaptada
a baixa fertilidade de solos, sendo capaz de pro­duzir, razoavelmente, mes2 AITA, V. (1995).
3 HERINGER, I. (1995)
mo em solos relativamente pobres.
Entretanto, apresenta alta resposta
de produção em solos mais férteis
ou adubados. Devido às suas carac­
terísticas de alta produção e qualidade, e por sua excelente adaptação à
diversidade de condições ambientais,
é cultivado como forrageira na pecuária de corte ou de leite4
No Brasil, não só é cultivado para
uso como forrageira, mas também
para produção de sementes para fabricação de ração e como planta de
cobertura do solo para o sis­tema de
plantio directo. Comparativamente à
maioria das forrageiras tropicais perenes, o milheto é uma excelente alternativa para melhorar a qualidade
alimentar dos bovinos. Por apresentar alta produtividade e precocidade
durante períodos de escassez das
for­rageiras perenes, abre espaço
para o uso estratégico nas fases de
cria, recria e engorda, repercutindo
em sistemas mais precoces da pecuária de corte1.
As pastagens anuais de milheto
podem funcionar como um suplemento proteico/energético, principalmente
durante a seca. A intercalação desta
forrageira com as pastagens perenes
resulta numa melhoria considerável
na dieta dos animais. Em função do
alto potencial produtivo da espécie, há
também grande demanda por nitrogénio (N), nutriente cuja disponibilidade
no solo é geralmente baixa. O nitrogénio é um dos principais nutrientes res4 MAKERI , E.E. e UGHERUGHE, P.O. (1992)
•
•
•
•
•
ponsável pelo rápido crescimento e
rendimento da planta como forrageira
e o seu défice inibe o crescimento do
vegetal, mas também o excesso pode
alterar o metabolismo vegetal e limitar
o seu crescimento5 6.
Sendo assim, a aplicação do nitrogénio ao solo proporciona maior rendimento da forragem, no entanto deve
ser adicionado em doses e fontes
adequadas, razão pela que o presente trabalho teve como objectivo, avaliar a resposta qualitativa de milheto,
quando cultivado a diferentes fontes e
doses de nitrogénio, e indicar as melhores fontes e doses de nitrogénio a
serem aplicadas ao solo de modo a
aumentar a produtividade.
Morfometria;
Matéria Verde;
Matéria Seca;
Proteína Bruta;
Micro e Macronutrientes.
A semeadura foi realizada em 22/
Junho/2009 e a extensão do experimento compreendeu uma área de
2
285,6 m . As fontes de nitrogénio foram a Ureia e o Sulfato de amónia. O
desenho experimental utilizou quatro
tratamentos:
• Tratamento A f­oi a testemunha/
controlo, em que não foi incorporado nitrogénio;
• Tratamento B ­em que foram
incorporados 40Kg/ha de nitrogénio;
• Tratamento C e
­ m que foram
incorporados 80Kg/ha de nitrogénio;
• Tratamento D e
­ m que foram
incorporados 120Kg/ha de nitrogénio.
Método
Ambiente
~~O experimento foi conduzido em
área de Unidade Académica de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas, localizada no Campus
Delza Gitaí, BR 104N, km 87, Zona
Rural do Município de Rio Largo/Alagoas, Brasil.
O experimento foi realizado utilizando cinco repetições em blocos
inteiramente casualizados. Cada bloco teve um espaço de 1 metro, entre
eles e comprimento de 3 metros, totalizando 21 metros de comprimento. O
espaço utilizado entre as linhas foi de
0,6 metros, cada tratamento foi dividido em dois, onde em quatro linhas era
aplicada a ureia e em outras quatro,
o sulfato de amónia, totalizando oito
linhas. Sendo assim, cada tratamento tinha 3,2 metros de largura, o que
Procedimento
Para a avaliação das fontes e doses foram utilizados os seguintes parâmetros:
5 NIRVAL, B.G., CHAVAN, A.A., SHINDE, J.S. e GORE,
S.B. (1995).
6 OJI, C.K. e UGHERUGHE, P.O. (1992).
163
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
constituía uma largura total de 19,2
metros. Cada tratamento possuía uma
fileira de cada lado, a bordadura. Em
cada tratamento, das quatro linhas
plantadas só foram utilizadas as duas
do meio para evitar erros.
A adubação foi realizada 16 dias
após a semeadura. Por ocasião da
colheita, após a emissão das primeiras panículas, foi avaliada a morfometria com apoio de uma fita métrica e
paquímetro, que consistiu na medida
da altura, diâmetro da planta, compri­
mento e largura das folhas de oito
plantas escolhidas aleatoriamente em
cada parcela. Ainda, por ocasião da
colheita, foi avaliada a matéria verde
1
da forragem. Deste mate­rial, foi colectado 0,5Kg para determinação de
2
matéria seca e cinza. Após uma se3
mana, o material era triturado com
peneiras de 1 mm de diâmetro e acondicionados em sacos plásticos, devidamente etiquetados, para determinação da composição química. Du­rante
esta determinação foram avaliados o
4
nitrogénio total, proteína bruta e macro e micronutrientes.
1. Digestão da amostra em acido sulfúrico com um catalisador, que resulta em conversão do nitrogénio em amónia;
2. Destilação da amónia em
uma solução receptora;
3. Quantificação da amónia por
titulação com ácido clorídrico.
Na digestão, 0,5 g de cada amostra é misturada com 5 ml de ácido
sulfúrico com um catalisador, sulfato
de cobre, num tubo de ensaio e, posteriormente, submetida a tem­peratura
o
de 400 C num bloco digestor, dentro
de uma capela, até a digestão completa e ­o caldeamento das amostras.
Terminada a digestão, as amostras
são diluídas em 25 ml de água e levadas ao destilador. No destilador, cada
amostra é mis­turada com 50 ml de
soda cáustica (NaoH), formando sulfato de amónia (NH4)2So4). A amónia é puxada através de um compartimento do destilador e misturada com
ácido bórico. O ácido bórico, antes da
chegada da amónia, apresenta cor
avermel­hada, tornando-se esverdeado com a reacção. A mistura de ácido
bórico e amónia é titulada, com ácido clorídrico, até a mistura retornar à
cor original, avermelhada. Este valor
é então registado. O nitrogénio total e
a proteína bruta foram determinados
no laboratório de Química da Universidade, enquanto os macronutrientes
(K e P) e micronutrientes (Mg, Ca, Mn
e Zn) foram determinados num laboratório privado.
_______________
1
Mensurando o peso total da forragem das duas fileiras do meio de cada
parcela.
2
Processo realizado com estufa de
o
ventilação forcada a 65 C, até o peso
se tornar constante, e mufa para cálculo de cinza.
3
Moinho tipo Willey.
4
Método Kjeldahl.
Descrição do Método Kjeldahl:
164
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Resultados
Já em relação ao zinco, os resultados registaram diferenças em relação à
fonte, indicando-se valores superiores
para o sulfato de amónia (tabela 1).
Os resultados demonstraram haver diferenças não significativas para
a maioria dos parâmetros avaliados,
identificando que, quando comparados dose/fonte, os valores de Cálcio
e Proteína bruta foram superiores nas
parcelas controle. Contudo, apesar
deste registo para o Cálcio, diferenças significativas foram registadas,
entre o sulfato de amónia e a ureia,
quando aplicadas doses de 80kg/ha
(Tabela 1).
Conclusão
Estes resultados permitem concluir
que há diferenças significativas nas
quantificações do zinco e do cálcio,
quando avaliadas a fonte e a dose/
fonte, respectivamente, em plantas
de milheto adubadas com sulfato de
amónia e ureia.
Tabela 1 – Resultados das dosagens de Cálcio, Zinco
e Proteína Bruta nas amostras obtidas
Cálcio
Doses
Zinco
Proteína Bruta
Sulf. de amónia
Ureia
Sulf. de amónia*
Ureia
Sulf. de amónia
Ureia
Controle
3.38
5.79*
0.42
0.39
6.32*
7.58
40
3.84
3.53
0.56
0.21
6.91
6.32
80
2.77
7.43*
0.44
0.33
7.59
6.10
120
5.17
2.88
0.58
0.35
7.53
7.31
*ANOVA - p<O.O5
165
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
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170-174.
OJI, C.K. e UGHERUGHE, P.O. Effects of nitrogen fertilization and cutting
height on forage yield and quality of Maiwa pearl millet. Tropical Agriculture,
St. Augustine, 1, vol. 69, 1992, pp.11-14. ATT.:
Neste último texto do Sr. Jaquillino Varela, há algumas
notas de rodapé que parecem não estarem bem colocadas
porque estão muito confusos. É preciso indicar quais é
que são notas e os que não são.
BLopes
166
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Parte IV
– Balanço
167
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
I CIC: UMA AVALIAÇÃO SINTÉTICA
As pesquisas dos 31 alunos da Uni-CV (Praia e São Vicente) que
estagiaram em 7 universidades federais brasileiras, acompanhados por
professores orientadores dessas instituições, no âmbito do Programa
de Iniciação Científica apoiado pela CAPES, incidiram sobre temáticas
ligadas à história, nutrição, língua inglesa, matemática, engenharia,
biologia, linguística, didáctica, literatura, filosofia e química.
Os alunos tinham-se comprometido de, retornando ao país, socializar
com a comunidade académica universitária a experiência adquirida no
Brasil. Além dessa socialização, em si, comunicar cientificamente os
trabalhos, num período curto de tempo, com a máxima objectividade
possível e sem a omissão das informações pertinentes. A comunicação
científica é uma habilidade exigida, dentre as muitas que a caracterizam
como um momento do processo de investigar; é pertinente, tendo em
conta a necessidade de se basear na objectividade e daí ser algo
cobrado com rigor. Essa exigência já tinha sido dada a conhecer aos
nossos alunos mesmo antes de seu mergulho no estágio no Brasil.
Esse foi um aspecto que se somou a outros como algo apreendido e
que a organização do I CIC frisou e levou muito a sério, extensivo a
todos, sem excepção.
A organização do evento valorizou também, como outro aspecto de
aprendizagem, a prática de redacção segundo os cânones da ciência.
O saber escrever, além do saber expor, já referido. O codificar e o
descodificar (ou decodificar) sem os vícios da linguagem comum: um
desafio que todos tivemos que enfrentar na nossa qualificação científica
ao longo do percurso académico e que, igualmente, precisamos
instituir na Uni-CV. Escrever (descrevendo) também com a mesma
objectividade requerida para a comunicação oral.
O I CIC contou com a participação dos alunos do Programa e a
participação activa de colegas e de docentes, especialmente daqueles
que constituíram as comissões de trabalho.
169
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
O evento foi avaliado como tendo sido positivo, tanto pelos
alunos congressistas, como por seus pares e pelos professores
participantes. A avaliação teve em conta a performance dos alunos
e dos organizadores. Dentre os vários aspectos, eis os principais que
foram apontados:
O desempenho dos congressistas, visto como tendo
ultrapassado as expectativas iniciais, dada a excelente
qualidade dos trabalhos, o que foi objecto de encorajamento
para os alunos continuarem seus esforços de investigação;
O facto de a Uni-CV ter recebido informações muito positivas
acerca da conduta dos alunos pesquisadores no Brasil,
tendo sido alguns deles convidados a prosseguirem lá a sua
qualificação;
 A grande oportunidade de convívio entre alunos e professores
de outras áreas durante os trabalhos, propiciada pelo evento;
 O cumprimento rigoroso da programação, nos dois dias,
possibilitando o alcance dos objectivos propostos.
Cabe mencionar, ainda quanto à avaliação, as insuficiências e as
lacunas, bem como as oportunidades de melhoria do Programa na
eventualidade de ter continuação. Assim, apontou-se, em resumo,
que deveria ter sido evitada a forma como ocorreu a planificação, pela
CAPES, da distribuição dos temas de pesquisa; esses temas, embora
sintonizados inicialmente com as aspirações apresentadas pela UniCV, deram, em alguns casos, lugar a outros, sem que a Instituição
pudesse acompanhar essas mudanças, após a inserção dos alunos
no Brasil. Apontou-se, ainda, o atraso do início da pesquisa, no Brasil,
prejudicando alguns alunos.
As sugestões de melhoria diziam respeito à comunicação dos
trabalhos, numa próxima edição do Programa e, consequentemente, no
próximo Congresso (programado para Novembro deste ano). Frisouse o conteúdo, que deverá ser, no futuro, devidamente apropriado
pelos estudantes, sendo estes ser treinados adequadamente para
uma boa capacidade de síntese, e a programação de um tempo maior
para as exposições.
Esperando haver a continuidade do Programa no Brasil (e houve,
de facto, pois neste ano mais 31 alunos foram contemplados),
recomendou-se incluir outras áreas disciplinares e a pertinência de se
elaborar um modelo comum Uni-CV/CAPES de Iniciação Científica.
170
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
Com essa continuidade, a Uni-CV deverá preparar-se para desenvolver
o seu próprio programa no futuro.
O Comité Científico avaliou os trabalhos (parte escrita e parte
expositiva) e concluiu pelo destino do Prêmio Jovem Investigador da
Uni-CV – 2009-2010 aos estudantes, mencionados adiante e cujos
trabalhos, transformados em artigos, temos a satisfação e a honra de
publicar. Parabéns aos premiados.
Já é altura de reunirmos as condições existentes para a consolidação
do Programa de Iniciação Científica na Uni-CV, aproveitando o apoio
da CAPES. Há que tomarmos medidas nesse sentido. Uma comissão
permanente ou um comtê gestor do Programa poderia ser um começo,
para dar continuidade, com plena dedicação e com o estusiasmo
necessário, às tarefas requeridas para essa consolidação. Mais do que
seleccionar alunos e envolvê-los na prática da investigação, há que
motivá-los a permanecerem investigando, a ponto de prosseguirem
o mestrado e o doutoramento; a entenderem os ganhos de inserção
em grupos de pesquisa e em temáticas comuns, “contagiando” outros
alunos numa eliciação sadia; a serem motivos de regozijo para seus
professores que neles apostaram e apostam, e exemplos também
para professores ainda não engajados. Sem investigação científica, o
ensino não passará de transmissão do conhecimento; a extensão não
alimentará a produção do saber e não se nutrirá dela também.
O apoio da CAPES, da Embaixada do Brasil e das Universidades
que acolheram os estudantes, bem como do Escritório dos Fundos e
Programas das Nações Unidas em Cabo Verde foi valiosíssimo para a
realização da Iniciação Científica e, com base nesta, a materialização do
Congresso. Foi também muito importante a colaboração prestada pelos
alunos congressistas e pelos professores e funcionários da Instituição
que integraram as equipas de trabalho (Comissão Organizadora,
Comité Científico e Staff de Apoio). Toda essa colaboração somou-se
aos préstimos da Reitoria para o sucesso do evento.
A todos, muito obrigado!
Marcelo Galvão Baptista
171
Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde
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Anais do II Encontro de Iniciação Científica