Anais do II Encontro de Iniciação Científica Universidade de Cabo Verde Novembro 2010 Edições Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Praia, Novembro 2009 Edições NOVEMBRO DE 2010 FICHA TÉCNICA Título Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Organizador Marcelo Quintino Galvão Baptista Copyright© Universidade de Cabo Verde, organizador e autores dos textos Apoio à organização Carlos Jorge Spínola Revisão Maria Leonete Mota Sales Coordenação Editorial Gláucia Nogueira Layout e paginação Bernardo Lopes Foto da capa Helder Paz Monteiro Tiragem 500 exemplares Impressão Imprensa Nacional de Cabo Vede, Praia, Novembro de 2010 Índice Apresentação - António Correia e Silva, Reitor da Universidade de Cabo Verde ......... Parte I – Estrutura do Congresso ................................................................................ I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Universidade de Cabo Verde: os passos iniciais, os objectivos e a organização ............................................................... Enquadramento do Programa de Iniciação Científica . ....................................................... Regimento do I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV ............................................ Órgãos do I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV ................................................ Temas de pesquisa, congressistas e orientadores.............................................................. Documento final................................................................................................................ Parte II – Discursos no acto de abertura . .................................................................. Discurso do Presidente da República.............................................................................. Discurso do Secretário de Estado da Educação ............................................................. Discurso do Reitor da Universidade de Cabo Verde........................................................ Discurso do Presidente do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Uni-CV Discurso da Delegada do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Uni-CV em São Vicente........................................................................... Parte III – Artigos de trabalhos premiados ................................................................ A ideia de alteridade em Emmanuel Lévinas Admiro Alexandre Tavares .............................................................................................. A concordância nominal interna ao do sujeito e a concordância verbal no crioulo cabo-verdiano: uma análise morfossintáctica Ideneida Moreno Monteiro............................................................................................... A articulação entre o pré-escolar e o ensino básico integrado Nilton César Santos Soares............................................................................................. O campo das ondas oceânicas na região do arquipélago de Cabo Verde Nereida Simone Rodrigues Évora.................................................................................... Espectroscopia de absorção atómica em forno de grafite com amostragem directa de sólidos e sua aplicação em amostras ambientais de solos e fertilizantes Neusa Sanches................................................................................................................ Cultivo de milheto (pennísetum glaucum) sob condições diferenciadas de fontes e doses de nitrogênio Jaquelino Lopes Varela.................................................................................................... Parte IV – Balanço.......................................................................................................... I CIC: uma avaliação sintética.......................................................................................... Apresentação 9 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Parte I – Estrutura do Congresso I CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA (CIC) DA UNIVERSIDADE DE CABO VERDE: OS PASSOS INICIAIS, OS OBJECTIVOS E A ORGANIZAÇÃO 1. Introdução Um protocolo assinado entre a Universidade de Cabo Verde e a CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – foi o primeiro passo para a inserção de um grupo de alunos da Uni-CV em sete universidades federais do Brasil, no período de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, com o apoio desse órgão do Governo brasileiro, responsável pela melhoria da pósgraduação. Nessas instituições, os alunos desenvolveram actividades no âmbito do chamado Programa de Iniciação Científica. O Programa de Iniciação Cientifica constitui um meio através do qual os alunos de cursos de graduação entram em contacto com o mundo da Ciência e da pesquisa, acompanhados por um investigador orientador com larga experiência no domínio. Do processo conducente à produção de conhecimentos emerge o compromisso básico de exercitar uma aprendizagem para objectivos alavancados na execução de actividades científicas que visam não apenas o envolvimento dos profissionais da área, mas igualmente o de estimular os estudantes com valores positivos, portanto, susceptíveis de dinamizar a aprendizagem e o crescimento interior para objectivos mais nobres e mais perenes. Foi expectativa da Uni-CV, com este I Congresso, dar a conhecer à comunidade universitária e à sociedade em geral, as experiências adquiridas no âmbito da Iniciação Científica realizada no Brasil. Também, com isso, conseguir e acumular ganhos que potenciem a investigação científica e a pesquisa aplicada, colocando ambas ao serviço do desenvolvimento universitário e também dos esforços requeridos pelo desenvolvimento do país. Tanto assim é que, noutras Universidades com uma longa tradição de realização de actividades de Iniciação Científica e de sua divulgação, o caso de muitas universidades brasileiras, constata-se que os alunos que passaram por essa experiência não apenas têm, em geral, apresentado um desempenho de destaque em relação a seus pares, mas também 13 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde obtido os melhores resultados em processos de selecção para a pós-graduação (mestrado e doutoramento). Porém, foi justamente a certeza de consecução gradual desses propósitos que tornou este desafio, simultaneamente, a última e a primeira razão de ser da realização deste I Congresso de Iniciação Científica que perfilhámos sem tibiezas e que augurámos promissor, na justa medida em que pretendíamos que fosse capaz, tanto quanto possível, de conferir um enfoque que reflectisse as preocupações próprias das diferentes áreas disciplinares e, igualmente, identificar e inventariar as preocupações da sociedade em geral e da comunidade científica em especial quanto à evolução e progresso da ciência, sempre com o fito de promover a sua divulgação, na perspectiva também de contribuir para influenciar positivamente as políticas públicas e, deste modo, assegurar melhores condições de vida às populações. Actualmente, reforça-se consideravelmente a tendência para que os investigadores se organizem em redes de pesquisa científica, envolvendo institutos, universidades e empresas, procurando assim responder à enorme e crescente demanda em torno de questões preocupantes da época em que vivemos, ou seja, questões atinentes ao trabalho, ao meio ambiente, às tecnologias, ao aumento da pobreza e suas sequelas. Nesse sentido, o incentivo à Iniciação Científica na Uni-CV afigurou-se e afigura-se não apenas como um processo pedagógico e estratégico para a qualificação em termos de formação profissional, mas igualmente contribui significativamente para uma gradual inversão das tendências actuais da nossa época, para além ainda de abrir novos horizontes aos nossos graduandos. Portanto, este Congresso, que esperámos fosse o primeiro de outros tantos, teve e terá a responsabilidade de se inserir no contexto sócio-histórico actual de Cabo Verde e nas perspectivas que se anunciam ao longo dos novos tempos. Durante o CIC, além da apresentação de trabalhos, houve a realização de actividades artístico-culturais complementares. Procurou-se proporcionar também aos participantes um momento de confraternização e de lazer no intuito de reforçar os laços pessoais e de camaradagem, indispensáveis a uma eficaz e eficiente colaboração científica. 2. Objectivos O Congresso teve por finalidade: • Iniciar os alunos de graduação nas lides da planificação do seu processo profissional, isto é, inculcando neles hábitos de pensar e a necessidade 12 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • • • • • de elegerem a pesquisa como excelente meio de produção de conhecimentos; Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos da ciência e da tecnologia em alunos de graduação, por meio de participação em projectos de pesquisa; Estimular os docentes-investigadores a integrar os estudantes de graduação no processo de investigação científica; Divulgar os trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica em diversas Universidades brasileiras, proporcionando-lhes a troca de informações e experiências em ambiente propício; Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos programas de pós-graduação; Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos diversos sectores da sociedade. 3. Apresentação dos trabalhos Previu-se para a realização do I CIC um período de dois dias, tendo sido as actividades repartidas em actividades científicas e artístico-culturais. Programouse a apresentação do trabalho de cada aluno durante 10 minutos, sob forma de comunicação oral, com base no Relatório das actividades desenvolvidas no Brasil. Esperou-se que essas actividades apoiassem os alunos na preparação da sua monografia de fim de curso, os incentivassem a ingressarem em programa de pós-graduação e aliciassem os seus pares no sentido de se interessarem pela investigação científica. Os trabalhos deveriam obedecer às seguintes normas: ter um máximo de 25 páginas; ter apresentação no formato de letra tipo Times New Roman tamanho 12 e constar do texto: • Título do trabalho desenvolvido no âmbito do Programa de Iniciação Científica; • Nome do discente e do docente tutor, com a informação das instituições de ambos (Uni-CV e a universidade de acolhimento, bem como da CAPES como entidade patrocinadora); • Resumo (de até 500 palavras), com até 5 palavras-chave, com o texto correspondente em inglês ou francês (sempre que possível); 13 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • Introdução, abarcando: a. Racional do problema b. Justificativa c. Objectivo e/ou objectivos do estudo • Método, incluindo: a. Participantes, b. Ambiente e Aparato, c. Procedimento • Resultados, tendo inseridos: a. Gráficos b. Tabelas c. Quadros • Discussão/Conclusão; • Referências bibliográficas; • Avaliação da experiência, contendo: a. Considerações sobre a acolhida na universidade brasileira; b. Inserção no Programa coordenado pelo professor-orientador; c. Interacção com discentes brasileiros; d. Interacção com o tutor; e. Aspectos positivos e negativos; f. Sugestões. As sessões plenárias desenvolver-se-iam por painéis temáticos correspondentes às áreas disciplinares. A intermediação e a moderação dos trabalhos foram asseguradas por uma equipa da área disciplinar correspondente ao Painel temático em apresentação. Seguiu um período em que os participantes podiam debater, comentar ou dirigir perguntas aos alunos que apresentaram trabalhos. A apresentação e a avaliação dos trabalhos regeu-se pelos seguintes dispositivos: até ao dia 14 de Outubro, inclusive, todos os trabalhos que seriam apresentados deviam, mediante a entrega de comprovativo, ser depositados, em versão impressa, junto do Secretariado do CIC (Secretárias do DCSH e C&T) e enviados, em versão electrónica, para o Coordenador do Comité Científico, Prof. Dr. Carlos Jorge Spínola (e-mail: [email protected]). Na apresentação dos trabalhos, os alunos deviam apenas cingir-se ao essencial, fazendo assim a demonstração de sua capacidade de síntese, um elemento chave que, para efeitos de avaliação, o Comité Cientifico deveria levar em devida conta. 14 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A avaliação dos trabalhos compôs-se de dois elementos fundamentais: o trabalho (sua valia científica) e a apresentação respectiva no CIC. • Para além destes dois critérios, coube ao Comité Cientifico o estabelecimento de outros critérios complementares, nomeadamente, os procedimentos e processos de avaliação, pelo que se afigurou altamente recomendável que o Comité Cientifico realizasse uma reunião antes do início do CIC e uma outra no decorrer do mesmo; • Para efeitos de uma avaliação preliminar, o Coordenador do Comité Científico deveria remeter aos membros deste, os respectivos trabalhos recepcionados, devendo cada um desses membros, por seu turno, comunicar ao Comité o resultado da avaliação preliminar, de conformidade com os procedimentos estabelecidos pelo mesmo e pela Comissão Organizadora. Os alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica no Brasil tinham o dever de apresentar o seu trabalho no CIC, conforme orientação fornecida, nesse sentido, pela Comissão constituída anteriormente. Assim, cada aluno usufruiu do estatuto de congressista e gozou, como tal, dos direitos e assumiu os deveres previstos no Regimento do CIC. Os demais alunos, bem como os professores e os quadros da Uni-CV que não integraram a Organização do CIC, assumiram a condição de participantes. 4. Organização • Superintendência - Reitor: Prof. Doutor António Correia e Silva. - Pró-Reitora para a Graduação, Inovações Pedagógicas, Ensino à Distância e Assuntos Académicos: Me. Arlinda dos Santos Cabral. • Comissão Organizadora - Co-Presidentes: Prof. Doutor Marcelo Galvão Baptista - Presidente do CD do DCSH, Prof. Doutor António Querido - Presidente do CD do DCT e Prof. Doutor Paulino Monteiro - Presidente do CD do DECM. - Prof. Doutor Leopoldo Amado - Coordenador do Curso de História. - Prof. Doutor Edwin Pile - Docente do Departamento de Ciência e Tecnologia. - Dra. Arminda Barros - Directora de Gabinete de Comunicação & Imagem da Uni-CV - Profa. Me. Carmelita Silva - Docente do Curso de Ciências Sociais. - Eng. Odair Monteiro - Responsável pelo Património da Uni-CV. 15 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • Comité Científico - Prof. Doutor Lourenço Gomes - em representação da Coordenação de História. - Prof. Doutor Carlos Jorge Spínola - Coordenador do Curso de Ciências de Educação. - Prof. Daniel Medina - Coordenador do Curso de Estudos Cabo-verdianos e Portugueses. - Prof. Doutor Alcides Moura - Coordenador do Curso de Ciências Sociais. - Profa. Me. Lionilde Sá Nogueira - Coordenadora do Curso Educação de Infância. - Profa. Me. Cândida Gonçalves - Coordenadora do Curso de Estudos Ingleses. - Prof. Paul Mendes - Coordenador do Curso de Estudos Franceses. - Prof. Dr. Sidónio Monteiro - Coordenador do Curso de Biologia. - Profa. Dra. Elcelina Silva - Coordenadora do Curso de Informática. - Prof. Eng. Hipólito Gonçalves - Coordenador do Curso de Engenharia Civil. - Profa. Me. Ivanilda Cabral - Coordenadora do Curso de Matemática. - Prof. Eng. Tomás Tavares - Coordenador do Curso de Química. • Staff de Apoio - Supervisão: Profa. Me. Carmelita Silva - Comissão de Redacção: Dra. Arminda Barros Profa. Me. Fátima Fernandes Prof. Eng. Hipólito Gonçalves - Património, Segurança e Recursos: Eng. Odair Monteiro - Recepção, Protocolo, Restauração e Secretariado: Sra. Manuela Furtado e Sra. Mónica Brito O CIC será realizado no Campus de Palmarejo, durante os dias 22 e 23 de Outubro de 2009. 5. Premiação dos trabalhos O I Congresso de Iniciação Científica premiou o melhor trabalho de cada uma das diferentes áreas disciplinares, mediante a atribuição de um Diploma de Mérito de Investigação Científica. Os trabalhos distinguidos seriam publicados no portal da Uni-CV ou numa das suas revistas e são, agora, objecto de publicação na forma impressa. 6. Certificação Os congressistas receberam um certificado de participação no Congresso. 16 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde ENQUADRAMENTO DO PROGRAMA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA A CAPES é uma agência brasileira voltada para o fomento à pós-graduação nas universidades do Brasil. A Agência aposta nas actividades do programa de iniciação científica enquanto um empreendimento que, sendo incentivado na graduação, nas mais diversas áreas do conhecimento, constitui uma forma seguramente poderosa de alimentar a pesquisa na pós-graduação. A experiência ao longo de anos tem atestado isso. O programa funciona com pouca burocracia. Cada docente engajado em pesquisa e responsável por uma dada disciplina, na qual os alunos já tenham vencido um certo percurso académico (por exemplo, os dois primeiros semestres lectivos), após constatar aquele ou aqueles discentes que se destacam pelo interesse, dedicação e excelente desempenho, faz-lhes um convite para a participação em seu projecto particular, conforme disponibilidade de vaga. Caso haja vários alunos interessados e com perfil de pesquisadores em potencial, o professor então realiza uma selecção autonomamente, podendo consistir de um teste/prova de conhecimentos na área específica do seu projecto e um teste/prova de proficiência em uma língua estrangeira (pertinente para a área). Ao ingressar no programa, o aluno recebe uma bolsa e assina um contrato de um ano, mediante o qual se compromete a dedicar-se à pesquisa, a apresentar os resultados obtidos num evento científico especialmente preparado para esse fim, num formato próprio, a apresentar um relatório parcial, decorridos seis meses, e um relatório final, após um ano. A experiência de professores tutores de alunos, no âmbito desse programa, tem-se mostrado funcional. Aliás, os resultados indicam que os alunos que passaram pela iniciação científica não apenas têm, em geral, apresentado um desempenho de destaque em relação aos seus pares, como também têm desenvolvido habilidades em pesquisa e obtido resultados superiores aos demais nas selecções para mestrado e doutoramento. 17 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A Universidade de Cabo Verde assinou com a CAPES, no início deste ano1, um protocolo de cooperação que prevê, dentre outros aspectos, a inserção de 40 alunos, de diversas áreas, em actividades de iniciação científica em universidades brasileiras, nos meses de Agosto e Setembro2 . Para dar andamento a esse processo, a Uni-CV elaborou uma proposta de critérios relativos à selecção dos candidatos à iniciação científica no Brasil, à inserção dos mesmos em universidades de acolhida e aos procedimentos a adoptar, após a realização das actividades do programa. Vários foram os critérios trabalhados para a escolha dos alunos que beneficiaram desta primeira experiência de iniciação científica, destacando-se, dentre outros, a necessidade de um contrato entre a Uni-CV e o discente seleccionado para participar na iniciação científica em que este expressamente se compromete a dispor de 20 horas semanais para a pesquisa desenvolvida pelo docente da universidade de acolhida (no Brasil), bem como de idêntica carga horária para actividades complementares. O aluno deve, igualmente, apresentar ao coordenador do curso, após o retorno à Uni-CV, um relatório descritivo do desempenho durante a realização das actividades, num formato próprio, criado pela instituição, com a avaliação do docente tutor e apresentar os resultados obtidos num evento científico formatado para esse fim 3, após o retorno à Uni-CV. Paralelamente, tem de submeter à apreciação do docente tutor, a proposta de elaboração de um artigo para publicação em revista científica cabo-verdiana, brasileira ou estrangeira, como resultado da pesquisa desenvolvida. Aprovada a proposta e, para materializá-la, o Reitor constituiu uma comissão, formada por docentes das unidades orgânicas na Praia e em Mindelo. Com apoio imprescindível dos coordenadores e dos presidentes, a comissão procedeu à selecção dos candidatos, tendo obtido uma lista inicial de mais de cinquenta discentes e uma lista final de quarenta, que foi então submetida pelo Reitor à CAPES, no início de Abril passado. Após isso, essa Agência sinalizou a aceitação desses candidatos por diversas universidades do Brasil, o que ficou confirmado no dia 25 de Maio, com o envio à Uni-CV da relação dessas universidades, bem como a identificação dos orientadores disponíveis, consoante as áreas de interesse demandadas. A segunda etapa do processo caracterizou-se pelos procedimentos de inscrição dos discentes contemplados, para conhecimento dos orientadores e universidades acolhedoras, bem como pelos devidos acertos em termos dos cuidados 1 Ano de 2009 2 Meses de férias na Uni-CV e de actividades lectivas em universidadedes brasileiras. 3 Evento que passou a configurar-se como um congresso científico, tendo o I CIC como arranque. 18 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde a observar durante o desenvolvimento das actividades de pesquisa e após o retorno ao país. Foi grande a expectativa da Uni-CV quanto ao êxito do desempenho dos discentes no Brasil, honrando, assim, o protocolo assinado com a CAPES, o que poderá aumentar a probabilidade de outros estudantes virem a ser premiados da mesma forma, num futuro breve, e dignificando, cada vez mais, a nossa instituição. Esse acordo com a CAPES constitui mais um passo rumo à consolidação da Uni-CV como uma instituição pública que aposta no facto de que o ensino de qualidade necessariamente deve ter a pesquisa científica como sua fiel parceira. Marcelo Galvão Baptista* * Presidente do CD do DCSH em 2009/2010 e presidente da Comissão Organizadora do I Congresso de Iniciação Científica 19 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde INSTITUIÇÕES PARCEIRAS CAPES O I Congresso de Iniciação Científica, CIC, da Uni-CV foi realizado graças ao apoio fundamental de duas instituições: a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Brasil, e o Escritório dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo Verde. A CAPES é uma agência brasileira que desempenha um papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação (mestrado e doutorado) em todos os estados brasileiros e também além fronteiras, graças aos acordos de cooperação com outros países, designadamente lusófonos. No caso do nosso país, os acordos estabelecidos entre o Brasil e Cabo Verde envolvem a CAPES em matéria de capacitação dos recursos humanos e de implementação do ensino superior em Cabo Verde. Ao abrigo de um Protocolo de Parceria assinado entre a CAPES e a Uni-CV, em Janeiro de 2009, a Agência brasileira comprometeu-se a apoiar a Universidade pública no desenvolvimento da formação de recursos humanos ao nível da pós-graduação e aperfeiçoamento de docentes e pesquisadores em sectores altamente especializados. Paralelamente, a CAPES vai ajudar na criação de um sistema de mobilidade de docentes (especialmente de jovens doutores), tendo em vista o reforço do staff docente da Uni-CV, bem como em projectos de investigação em que docentes e pesquisadores brasileiros e cabo-verdianos trabalham linhas de investigação afins com o envolvimento das Universidades e instituições científicas dos dois países. O apoio à criação de um programa de iniciação científica de alunos de nível de graduação, com particular incidência nas áreas de ciências biológicas e de engenharias constitui outro objectivo do Protocolo entre a CAPES e a Uni-CV, que resultou na frequência, em sete universidades brasileiras, de 31 alunos da Uni-CV, no período de 2 de Agosto a 5 de Outubro de 2009. As universidades acolhedoras foram: • Universidade Federal de Alagoas - UFAL • Universidade Federal de Goiás - UFG • Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS 21 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC • Universidade Federal de São Carlos - UFSCar • Universidade Federal de Uberlândia - UFU • Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM No regresso, foi realizado, nos dias 22 e 23 de Outubro de 2009, o I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV, que teve como propósito fundamental a apresentação dos resultados do trabalho realizado no Brasil (mais informações: http://www. capes.gov.br). ESCRITÓRIO DOS FUNDOS E PROGRAMAS DAS NAÇÕES UNIDAS EM CABO VERDE Para a realização do I Congresso de Iniciação Científica, a Uni-CV contou com o financiamento do Escritório dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo Verde, a par de um engajamento importante da Sra. Petra Lantz-de Bernardis, coordenadora residente do Sistema das Nações Unidas e Representante dos Fundos e Programas das Nações Unidas no nosso país. 22 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde REGIMENTO DO I CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTIFICA DA UNI-CV Capítulo I Do Congresso e seus objectivos Artigo 1º O I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Uni-CV realiza-se, na cidade da Praia, nos dias 22 e 23 de Outubro de 2009. Artigo 2º Constituem objectivos do I CIC: • Proceder à divulgação de trabalhos de pesquisa realizados por alunos de graduação que desenvolveram actividades de iniciação científica em diversas Universidades brasileiras, proporcionandolhes a troca de informações e de experiências em ambiente propício; • Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos da ciência e tecnologia em alunos de graduação, por meio de participação em projectos de pesquisa; • Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos programas de pós-graduação; • Estimular os docentes-investigadores a integrarem os estudantes de graduação no processo de investigação científica; • Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos diversos sectores da sociedade. Capítulo II Dos Congressistas e Participantes Artigo 3º Serão considerados congressistas: • Todos os estudantes que participaram no Programa de Iniciação Científica, no Brasil. 23 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Artigo 4º Serão considerados participantes do I CIC: • • • • • Coordenadores dos cursos contemplados pelo Programa; Professores das disciplinas que vão ser objecto de avaliação no CIC; Dirigentes das Unidades Orgânicas; Alunos da Uni-CV que não tenham estado no Brasil no quadro da cooperação com a CAPES; Outros. Artigo 5º Serão entidades convidadas do I CIC: • • • • Entidades oficiais; Convidados; Parceiros; Patrocinadores. Artigo 6º A condição de congressista será comprovada pelo uso de crachá de identificação. Capítulo III Direitos dos Congressistas e dos Participantes Artigo 7º 1. Aos congressistas é assegurado o direito de: • • • • Participar em todas as sessões do CIC; Apresentar comunicações; Apresentar propostas e/ou interpelações (por escrito) à presidência das sessões; Eleger e ser eleito para desempenhar funções no âmbito do CIC. 1. Todo o congressista tem direito à palavra e ao voto; 2. Nos espaços destinados a perguntas/respostas e/ou debate, os congressistas não podem, em caso nenhum, entrar em diálogo nem intervir mais do que uma vez sobre o mesmo assunto. 24 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Artigo 8º Deveres dos Congressistas e dos Participantes São deveres do Congressistas: • • • • • • • • Colaborar activamente para o sucesso integral do evento; Assistir a todas as sessões do Congresso, nomeadamente a de outras áreas disciplinares a que o (a) congressista não esteja vinculado(a); Fazer uso da palavra no quadro da apresentação dos trabalhos e nos espaços destinados a perguntas/respostas e/ou debate; As intervenções apenas ocorrem após a inscrição junto da Presidência da Mesa e com a devida autorização desta; No caso da apresentação dos trabalhos, cumprir com rigor, os limites de tempo previamente estabelecidos no Programa; Zelar pela pontualidade, assiduidade e participação dinâmica nos trabalhos do Congresso; Evitar conversas paralelas com os colegas em plena sessão do Congresso; Não circular pelo auditório durante as sessões de trabalho. Artigo 9º 1. Os alunos participantes que não tenham estado no Brasil, no quadro da cooperação Uni-CV/CAPES, não têm direito à palavra e nem ao voto. 2. Os docentes da Uni-CV, assim como os membros do Comité Científico do I CIC têm direito de assistirem às sessões, podendo, todavia, intervir em situações em que seja necessário melhor situar ou centrar os debates ou quando solicitados pela presidência da Mesa da sessão. Capítulo IV Da organização e funcionamento do Congresso Artigo 10º Organização do Congresso São actividades do Congresso: a) Sessão de abertura; b) Conferências para apresentação dos trabalhos; c) Relatos de experiência; d) Workshops por áreas disciplinares e) Sessões plená- 25 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde rias de trabalho; f) Avaliação do melhor trabalho; g) Atribuição do Diploma de Mérito de Investigação Científica aos autores dos melhores trabalhos; h) Noite cultural; i) Sessão de encerramento. Artigo 11º Funcionamento do Congresso 1. Os trabalhos desenvolvem-se em sessões plenárias e workshops por áreas disciplinares. 2. Cada sessão plenária destina-se a um painel. 3. Cada sessão plenária será dirigida por uma Mesa, que será liderada por um presidente, coadjuvado por um secretário e por um gestor do tempo. 4. O apoio logístico será assegurado por um secretariado. 5. A comissão de redacção assegura a recolha dos documentos do Congresso, nos termos dos quais produzirá uma brochura contendo os resumos das apresentações, os três melhores trabalhos e as recomendações do I CIC. Artigo 12º Apresentação dos trabalhos 1. A apresentação de cada aluno terá a duração de 10 minutos. 2. Os congressistas podem optar pela utilização de recursos tecnológicos e outros que entenderem ser convenientes para a apresentação dos respectivos trabalhos; 3. As sessões de perguntas e respostas e/ou debate não podem exceder os 30 minutos em cada painel. Capítulo V Disposições finais 1. Os casos omissos nesse Regimento serão resolvidos pela Comissão Organizadora do Congresso. 26 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde PROGRAMA Dia 22 – Quinta-feira Sessão solene de Abertura Hora: 09:00 h - 11:00 h Local: Auditório da Reitoria da Uni-CV Maitre de cérémonie: Profa. Maria dos Anjos Santos - Alocução de Boas Vindas do Presidente do DCSH, Prof. Doutor Marcelo Galvão Baptista - Alocução da Delegada do Pólo de São Vicente da Uni-CV, Profa. Dora Pires - Alocução do Magnífico Reitor da Uni-CV, Prof. Doutor António Leão Correia e Silva - Alocução do Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares - Alocução de S. Excelência o Senhor Presidente da República de Cabo Verde, Comandante de Brigada Pedro Pires Pausa Café: 11:00 h - 11:30 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus) Painel I – Educação, Educação de Infância e Nutrição Hora: 11:30 h - 13:30 h Local: Auditório do Campus de Palmarejo Composição da Mesa: Prof. Carlos Spínola - Presidente, Profa. Lionilda Sá Nogueira e Profa. Fernandina Fernandes →11:30 h - 13:00 h - Romina Cibele Inocêncio dos Reis / UFVJM, Efeitos da desnutrição. →11:40 h - 11:50 h - Nilton César Santos Soares / UFVJM, A articulação entre o pré-escolar e o ensino básico integrado. →11:50 h - 12:00 h - Cátia Helena Ramos Delgado / UFVJM, Gestão de instituições educativas. →12:00 h - 12:10 h - Uiliana de Fátima Fortes Monteiro / UFVJM, Inclusão de crianças com deficiência. →12:10 h - 12:20 h - Simonídio Viana / UFSC, Planificação no ensino na sala de aula. →12:20 h - 12:30 h - Fredson da Luz / UFSC, Relação professor-aluno. 27 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde →12:30 h - 12:40 h - Michel Ramos / UFU, As novas tecnologias e a prática de Tandem (Estudos Ingleses). →12:40 h - 13:00 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate Almoço - 13:00 h - 15:00 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus) Painel III – Engenharia e Matemática Hora: 15:00 h -17:00 h Local: Auditório do Campus de Palmarejo Composição da Mesa: Profa. Eliana Dias - Presidente, Prof. Wilson Monteiro e Profa. Ivanilda Cabral →15:00 h - 15:10 h - Nereida Simone Rodrigues Évora / UFRGS, O campo das ondas oceânicas na região do arquipélago de Cabo Verde . →15:10 h - 15:20 h - Sidney Fortes Neves / UFRGS, Engenharia mecânica. →15:20 h - 15:30 h - Stephanie Rocha Alves / UFSC, Planeamento e administração dos transportes marítimos. →15:30 h - 15:40 h - Ernesto Silva Fortes / UFSCar, Engenharia civil. →16:40 h - 17:00 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate. Jantar Livre - 17:00 h – 20:00 h Noite Cultural Hora: 20:30 h – 22:30 h Local: Terraço do Edifício do Campus de Palmarejo Animação: Gil Moreira Dia 23 – Sexta-feira Painel IV – Biologia Hora: 09:30 h – 11:30 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Composição da Mesa: Prof. Edwin Pile - Presidente, Prof. Carlos Spínola e Profa. Elga Carvalho →09:30 h - 09:40 h - Helder Maikon Rodrigues Pires / UFSC, Biologia marinha. →09:40 h - 09:50 h - Sílvio Moreno Delgado Nascimento / UFRGS, Microbiologia. →09:50 h - 10:00 h - Madonna Aline Dias Ramos / UFU, Microbiologia. →10:00 h - 10:10 h - Hélder Evangelista da Pereira Oliveira / UFSC, Microbiologia. →10:10 h - 10:20 h - Evelyne Sofia Monteiro Pereira / UFU, Biologia Molecular. Pausa Café – 10:20 h – 10:40 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus). →10:40 h - 10:50 h - Aurísia do Livramento David Lopes / UFU, Biologia Molecular. →10:50 h - 11:00 h - Jaelsa Mira Gonçalves Moreira / UFSCar, Biologia Animal. →11:00 h - 11:10 h - Elves Heleno Gomes Duarte / UFRGS, Bioinformática. 28 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde →11:10 h - 11:20 h - Jaquelino Lopes Varela / UFAL, Cultivo de milheto (Pennísetum glaucum) sob condições diferenciadas de fontes e doses de nitrogénio. →11:20 h -11:40 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate. Almoço – 12:30 H - 14:30 H (a servir nas instalações da Cantina do Campus) Painel II - Língua, Literatura e Cultura - ECVP e Estudos Caboverdianos e Portugueses Hora: 14:30 h – 15:30 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Composição da Mesa: Prof. Daniel Medina - Presidente, Profa. Fátima Fernandes e Profa. Flávia Bá →14:30 h -14:40 h - Ideneida Moreno Monteiro / UFU, Linguística. →14:40 h - 14:50 h - Maria do Céu dos Santos Baptista / UFG, Linguística. →14:50 h - 15:00 h - Mónica Raquel Gonçalves Andrade / UFRGS, Didáctica. →15:00 h - 15:10 h - Cesária Janine Dias Gomes Leite / UFU, Literatura Comparada. →15:10 h -15:30 h -Sessão de perguntas e respostas e/ou debate. Painel VI – História e Filosofia Hora: 16:00 h – 17:40 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Composição da Mesa: Prof. Lourenço Gomes - Presidente, Prof. Carlos Belino Sacadura e Profa. Nélida Brito →16:00 h - 16:10 h - Admiro Alexandre Tavares / UFU, Ética e filosofia política. →16:10 h - 16:20 h - Adilson Dias Ramos / UFRGS, História, Ramo Património. →16:20 h - 16:30 h - Euclides Jorge Varela da Silva / UFRGS, Ramo Património. Pausa Café – 16:30 h -17:00 h (a servir nas instalações da Cantina do Campus) →17:00 h – 17:10 h - Tomásia Semedo Afonso / UFSC, Ramo Património. →17:10 h -17:20 h - Josefino Quedi Barbosa Brandão / UFU, Ramo Património. →17:20 h -17:40 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate. Painel VIII – Química Hora: 17:40 h -18:20 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Composição da Mesa: Prof. Tomas Tavares - Presidente, Profa. Maria dos Anjos Lopes e Prof. Arlindo Monteiro →17:40 h - 17:50 h - Neusa Sanches / UFRGS, Química Ambiente (Estudo de metais pesados nos solos agrícolas.) 29 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde →18:00 h - 18:10 h - Maria Filipa Pereira / UFRGS, Segurança química e normalização / Química Alimentar. →18:10 h - 18:20 h - Sessão de perguntas e respostas e/ou debate. Workshops e Plenária do Congresso Hora: 18:20 h - 19:00 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV -18:20 h - 18:45 h -Workshops por áreas disciplinares para produção de Conclusões e Recomendações (com o apoio dos Coordenadores de Curso respectivos). -18:45 h - 19:00 h - Plenária do Congresso para a Aprovação do Documento Final dos Congressistas. Sessão solene de Encerramento Hora: 19:00 h - 20:00 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Maitre de conférences: Profa. Maria dos Anjos Lopes - Alocução do Presidente do Departamento de C & T. - Alocução do Presidente do Departamento de ECM. - Alocução de Encerramento do Prof. Doutor António Correia e Silva, Magnifico Reitor da Uni-CV Jantar-buffet oferecido pela Uni-CV aos congressistas Hora: 20:00 h - 22:30 h Local: Campus de Palmarejo da Uni-CV Música ambiente / Música ao vivo 30 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde TEMAS DE PESQUISA, CONGRESSISTAS E ORIENTADORES Painel I: Educação, Educação de Infância e Nutrição 1. Romina Cibele Inocêncio dos Reis / UFVJM Tema: EFEITOS DA DESNUTRIÇÃO E DO ALOJAMENTO NO PESO CORPORAL, CONSUMO DE ALIMENTOS E ANSIEDADE EM RATOS WISTAR Orientadora: Profa.Tânia R. Riul Colaboradoras: Nathália M. Ribeiro; Sophia Coelho 2. Nilton César Santos Soares / UFVJM Tema: ARTICULAÇÃO ENTRE A EDUCAÇÃO INFANTIL E O ENSINO FUNDAMENTAL Contexto: ESCOLA DORALICE ARRUDA Orientador: Prof. Leonardo Neves 3. Cátia Helena Ramos Delgado / UFVJM Tema: A GESTÃO DAS INSTITUIÇÕES INFANTIS: O CASO PARTICULAR DA “ESCOLA MUNICIPAL DORALICE ARRUDA” Orientador: Prof. Leonardo dos Santos Neves 4. Uiliana de Fátima Fortes Monteiro / UFVJM Tema: INCLUSÃO DE CRIANÇAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA MENTAL NA CLASSE REGULAR Orientador: Profa. Santusia Nunes Rabelo 5. Simonídio Viana / UFSC Tema: INSTRUCTIONAL PLANING: A PRELIMINARY COMPARATIVE STUDY BETWEEN THE BRAZILIAN AND CAPEVERDEAN EDUCATIONAL CONTEXTS Orientadora: Profa. Mailce Mota (UFSC-DLLE) 6. Fredson da Luz / UFSC Tema: RELACIONAMENTO PROFESSOR/ALUNO Orientadora: Profa. Viviane M. Heberle 31 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde 7. Michel Ramos / UFU Tema: AS NOVAS TECNOLOGIAS E A PRÁTICA DE TANDEM Orientadora: Profa. Dilma Maria de Mello Painel II: Engenharias e Matemática 8. Nereida Simone Rodrigues Évora / UFRGS Tema: CAMPOS DE ONDAS OCEÂNICAS NA REGIÃO DE CABO VERDE Orientador: Professor Lenadro Farina 9. Sidney Fortes Neves / UFRGS Tema: MODELAGEM DE ESTRUTURAS/MECÂNICA DA FRACTURA E NAVAL Orientador: Prof. Ignacio Iturrioz 10. Stephanie Rocha Alves / UFSC Tema: O COMÉRCIO EXTERIOR ENTRE BRASIL E CABO VERDE 11. Ernesto Silva Fortes / UFSCar Tema: ESTUDO DAS MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS NAS EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS DE ESTUDANTES NUMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR PÚBLICO Orientador: Profa. Maria Aridenise Macena Fontenelle Painel III: Biologia 12. Helder Maikon Rodrigues Pires / UFSC Tema: RESPOSTA DAS MACROALGAS PERANTE VARIAÇÕES DE TEMPERATURA E SALINIDADE (Ulva fasciata e Sargassum stenophylum) Orientador: Prof. Paulo Horta 13. Sílvio Moreno Delgado Nascimento / UFRGS Tema: AVALIAÇÃO HIGIÉNICO-SANITÁRIA E ANÁLISE GENOTÍPICA DE Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Listeria monocytogenes ISOLADOS EM UNIDADES DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO Orientador: Prof. Marisa da Costa 14. Madonna Aline Dias Ramos / UFU Tema: CARACTERIZAÇÃO BIOQUÍMICA E MORFOLÓGICA DOS ISOLADOS DE BACTÉRIAS ENDOFÍTICAS E DO RIZOPLANO NA CULTURA DO MILHO (Zea mays L.) Orientador: Prof. Adão de Sequeira Ferreira 32 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde 15. Hélder Evangelista da Pereira Oliveira / UFSC Tema: CONCENTRAÇÃO E DETECÇÃO DE ANDENOVÍRUS, POLIOMAVÍRUS, NOROVÍRUS E VÍRUS DA HEPATITE A EM AMOSTRA DE ÁGUA DO MAR Orientadora: Profa. Célia Regina Monte Barardi Co-orientadora: Vanessa Moresco 16. Evelyne Sofia Monteiro Pereira / UFU Tema: TÉCNICAS BIOQUÍMICAS Orientador: Prof. Foued Salmen Espindola Co- orientador: Prof.. Renato Oliveira 17. Aurísia do Livramento David Lopes / UFU Tema: ACTIVIDADE ANTITUMORAL DO ALIMENTO LARVAL DE ABELHA SEM FERRÃO BRASILEIRA Co-autoria: Robson José de Oliveira Júnior e Carlos U. (Laboratório de Genética, Instituto de Genética e Bioquímica. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia - MG) Orintador/a: Não especificado/a pela aluna. 18. Jaelsa Mira Gonçalves Moreira/UFSCar Tema: FERRAMENTAS USADAS NA GENÉTICA MOLECULAR Orientadores: Profs. Marco António Dela Lama e Sílvia Nassif Del Lama 19. Elves Heleno Gomes Duarte / UFRGS Tema: APLICAÇÃO DE RECURSOS IDRISI PARA DETERMINAR O PERÍODO DE FLORAÇÃO DA ESPÉCIE Euterpe edulis Martius Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno. 20. Jaquelino Lopes Varela / UFAL Tema: CULTINO DE MILHETO (Pennsisetum glaucum) A DIFERENTES FONTES E DOSES DE NITROGÉNIO Orientador: Prof. José Teodorico Painel IV: Língua, Literatura e Cultura 21. Ideneida Moreno Monteiro / UFU Tema: A CONCORDÂNCIA NOMINAL INTERNA AO DP SUJEITO E A CONCORDÂNCIA VERBAL NO CRIOULO CABO-VERDIANO: uma análise morfossintáctica Orientadora: Profa .Simone Floripi 33 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde 22. Maria do Céu dos Santos Baptista / UFG Tema: REPRESENTAÇÃO DO FEMININO NA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: Uma leitura de “Bagagem”, de Adélia Prado 23. Mónica Raquel Gonçalves Andrade / UFRGS Orintador/a: Não especificado/a pela aluna. Tema: AVALIAÇÃO DE PROFICIÊNCIA EM LÍNGUA PORTUGUESA Participantes: Margarete Schlatter, Juliana Roquele Schoffen, Gabriela Bulla, Michele Saraiva Carilo e Camila Dilli Nunes 24. Cesária Janine Dias Gomes Leite / UFU Tema: O PERCURSO HISTÓRICO DA LITERATURA COMPARADA Orientadora: Profa .Maria Suzana do Carmo Painel V: História e Filosofia 25. Admiro Alexandre Tavares / UFU Tema: ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno. 26. Adilson Dias Ramos / UFRGS Tema: PATRIMÓNIO CULTURAL E IDENTIDADES: PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA DE COMUNIDADES E DE ACERVOS PARA PESQUISA Porto Alegre num contexto pluriétnico Orintador/a: Não especificado/a pelo aluno. 27. Euclides Jorge Varela da Silva / UFRGS Tema: PATRIMÓNIO CULTURAL E IDENTIDADES: PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA DE COMUNIDADES E DE ACERVOS PARA PESQUISA Orientadora: Profa. Doutora Regina Weber 28. Tomásia Semedo Afonso / UFSC Tema: PROPOSTA DE DIAGNÓSTICO DO ACERVO PERMANENTE DO MUSEU ETNOGRÁFICO DA PRAIA - Projecto de documentação museológica para Museu Etnográfico da Praia Orintador/a: Não especificado/a pela aluna. 29. Josefino Quedi Barbosa Brandão / UFU Tema: HISTÓRIA, PRESERVAÇÃO DE PATRIMÓNIO E RESTAURO Orientador: Prof. Paulo Roberto de Almeida 34 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Painel VI: Química 30. Neusa Sanches / UFRGS Tema: DESENVOLVIMENTO DE MÉTODOS ANALÍTICOS PARA A DETERMINAÇÃO DE ELEMENTOS TRAÇO EM AMOSTRAS DE FERTILIZANTES, SOLOS E PLANTAS UTILIZANDO ESPECTROMETRIA DE ABSORÇÃO ATÓMICA COM AMOSTRAGEM DIRECTA DE SÓLIDOS Orientadora: Profa. Maria Goreti R. Vale Co-orientadora: Emilene Becker 31. Maria Filipa Pereira / UFRGS Tema: SÍNTESE MULTICOMPONENTE DE 2,4,5 TRIARILIMIZÓIS PROMOVIDA POR COMPÓSITOS METAL/SÍLICA COMO CATALIZADORES DE LEWIS HETEROGÉNEOS Orientador: Prof. Dennis Russowsky 33 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde DOCUMENTO FINAL Cidade da Praia, Campus de Palmarejo, 22 e 23 de Outubro de 2009 1. Âmbito Durante os dias 22 e 23 de Outubro de 2009, realizou-se, na Cidade da Praia, Campus de Palmarejo, o I Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Uni-CV, que contou com a presença dos 31 alunos que, de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, participaram no Programa de Iniciação Científica em sete Universidades do Brasil, com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, para além de coordenadores, professores e alunos. Fruto de um protocolo assinado entre a Universidade de Cabo Verde e a CAPES, este primeiro Programa de Iniciação Científica permitiu a alunos da Uni-CV entrar em contacto com o mundo da ciência e da pesquisa, acompanhados por um investigador-orientador com larga experiência no domínio. Com este I Congresso, a Uni-CV pretendeu dar a conhecer à comunidade universitária e à sociedade cabo-verdiana, em geral, as experiências adquiridas no âmbito da iniciação científica realizada no Brasil, de modo a socializar os ganhos acumulados durante os dois últimos meses e que potenciem a investigação científica e a pesquisa aplicada, colocando ambas ao serviço do desenvolvimento universitário e também dos esforços do desenvolvimento do país. Os trabalhos do CIC consistiram na apresentação dos resultados dos trabalhos de investigação realizados, workshops por áreas disciplinares e actividades artístico-culturais complementares, que proporcionaram aos participantes momentos de confraternização, de troca de informação e experiência, bem como de lazer e reforço dos laços de camaradagem entre os “jovens” investigadores da Uni-CV. O I CIC teve por finalidade: • • Iniciar os alunos de graduação nas lides da planificação do seu processo profissional, isto é, inculcando neles hábitos de pensar e a necessidade de elegerem a pesquisa como excelente meio de produção de conhecimentos; Incentivar e estimular o desenvolvimento da vocação para os campos da ciência e da tecnologia em alunos de graduação, por meio da participação em projectos de pesquisa; 35 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • • • • Estimular os docentes-investigadores a integrar os estudantes de graduação no processo de investigação científica; Divulgar os trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de Iniciação Científica em diversas Universidades brasileiras, proporcionando-lhes a troca de informações e experiências em ambiente propício; Qualificar o corpo discente de graduação para o seu futuro ingresso nos programas de pós-graduação; Aprimorar o processo de formação de profissionais para actuação nos diversos sectores da sociedade. A sessão de abertura do I CIC foi presidida pelo Chefe de Estado, Comandante de Brigada Pedro Pires, e contou com a presença do Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares, para além de representantes do Corpo Diplomático acreditados na Praia e de organizações internacionais, entre outras entidades. Foram congressistas os 31 alunos da Uni-CV que, de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, frequentaram as seguintes Universidades brasileiras: • • • • • • • • UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFG – Universidade Federal de Goiás UFSCar – Universidade Federal de São Carlos (interior do Estado de São Paulo) UFU – Universidade Federal de Uberlândia (interior do Estado de Minas Gerais) UFAL – Universidade Federal de Alagoas UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (interior do Estado de Minas Gerais) e UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina. Os alunos escolhidos para essa experiência têm, em geral, apresentado um desempenho de destaque e também têm obtido os melhores resultados em processos de selecção para a pós-graduação (mestrado e doutoramento). Em termos de expectativas, os participantes quiseram socializar os resultados do trabalho realizado, partilhar as experiências e conhecimentos obtidos e fazer o balanço dessa jornada de investigação no Brasil. Em termos de perspectivas, manifestaram o desejo de ver reforçados os laços com as universidades de acolhimento e respectivos orientadores, a par da criação de condições para consolidar os laços ora iniciados com a intensificação da troca entre a Uni-CV e as sete Universidades brasileiras. 36 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A Uni-CV deve pensar, igualmente, na vinda de professores e alunos do Brasil para Cabo Verde, e também na co-orientação dos alunos por parte de professores cabo-verdianos. 2. Apreciação crítica 2.1. De um modo geral, os resultados traçados para o I CIC foram alcançados, bem como os propósitos para o I CIC, e que podem sempre ser aperfeiçoados. Em relação à CAPES, propõe-se uma melhor planificação da segunda edição do Programa de Iniciação Científica, a criação de um modelo comum Uni-CV/CAPES de iniciação científica e evitar que o aluno tenha que mudar de tema no Brasil. 2.2. A organização do Congresso mereceu avaliação positiva dos participantes, mas os 10 minutos destinados à apresentação foram considerados insuficientes para apresentar uma investigação que durou dois meses. Todavia, imperou o consenso de que a capacidade de síntese constitui um dos indicadores de avaliação do investigador. A versão apresentada dos resumos distribuídos foi objecto de crítica por parte dos alunos, que quiseram entender as correcções introduzidas e os critérios utilizados, tendo o Comité Científico elucidado sobre o seu mandato e a legitimidade em introduzir as correcções que achou necessárias. 3. Aferição científica 3.1. Quanto à prestação e desempenho dos alunos, estes ultrapassaram as expectativas iniciais, uma vez que os trabalhos apresentados foram de excelente qualidade, e os alunos foram encorajados a continuar nos seus esforços de investigação. Além disso, as informações que têm sido recebidas das Universidades de acolhimento são muito satisfatórias. As sugestões vão no sentido de investir na capacidade de comunicar-se e bem, o que significa apropriar-se muito bem do conteúdo das apresentações e ter boa capacidade de resumir. 3.2. Os trabalhos do I CIC da Uni-CV desenvolveram-se em seis painéis: Painel I: Educação, Educação de Infância e Nutrição Painel II: Engenharia e Matemática Painel III: Biologia Painel IV: Língua, Literatura e Cultura – ECVP e Estudos Cabo-verdianos e Portugueses Painel V: História e Filosofia Painel VI: Química 37 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Ao avaliar as conquistas alcançadas por esta primeira edição do Programa de Iniciação Científica, os congressistas expressaram o seu regozijo pela oportunidade dada pela Uni-CV no sentido de participarem em projectos de Iniciação Científica da CAPES no Brasil, ao mesmo tempo que manifestaram o seu apoio à iniciativa de realização deste I CIC, porquanto permitiu a partilha dos saberes proporcionados pela investigação realizada num país e contexto diferentes. 3.3. Quanto aos pontos fortes, destacaram: • A excelente organização do Congresso e condições para os participantes vindos de São Vicente; • Os objectivos propostos foram atingidos; • A necessidade de dar continuidade ao Programa de Iniciação Científica incluindo outras áreas disciplinares da Uni-CV; • A grande oportunidade de conviver com alunos e professores de outras áreas durante os trabalhos; • A possibilidade de os alunos iniciados prosseguirem com os seus trabalhos de investigação; • O rigoroso cumprimento do Programa do CIC. 3.4. Como pontos fracos, os congressistas registaram: • A mudança de tema e de área da investigação no Brasil; • O atraso (de um mês, sensivelmente) verificado, em alguns casos, no encontro com orientadores; • O pouco tempo de preparação para a apresentação dos resultados do trabalho; • A fraca adesão dos alunos da Uni-CV, concretamente do Campus de Palmarejo; • A metodologia utilizada, com apresentações seguidas, não permite uma maior interactividade; • As perguntas deveriam ser em bloco de três, após cada apresentação. 4. Conclusões/Recomendações Os congressistas foram unânimes em reconhecer que o convénio da Uni-CV com a CAPES foi muito proveitoso, tendo resultado em interessantes trabalhos de pesquisa que podem e devem ser concluídos. É consenso que o Programa de Iniciação Científica foi uma experiência inédita, bastante enriquecedora para todos quantos nele participaram e que puderam 38 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde apreender outras realidades e consolidar as suas capacidades em diversos ramos de pesquisa científica. Por se tratar de uma grande abertura ao mundo da pesquisa, defendem que a participação neste Programa permitiu desenvolver habilidades de pesquisa numa perspectiva de implementação de projectos pessoais futuros, em conformidade com as demandas do mercado de trabalho e as necessidades de desenvolvimento do nosso país. Ao reconhecer o mérito do trabalho que cada aluno apresentou no I CIC, os congressistas mostraram-se orgulhosos por pertencerem à Uni-CV e por terem participado nessa grande oportunidade que foi o projecto de iniciação científica em Universidades brasileiras. Como forma de capitalizar e rentabilizar os ganhos até agora conseguidos, os congressistas recomendam: • A Uni-CV deve prosseguir o convénio com a CAPES, no sentido da sua consolidação e alargamento a outras áreas disciplinares; • A Universidade de Cabo Verde deve criar um Comité Científico que tenha por mandato analisar os temas propostos pelo Brasil e escolher o estudante com o melhor perfil para a pesquisa; • Os estudantes que vão para o Brasil devem ser acompanhados por um professor da área na Uni-CV, que deverá, também, acertar com a CAPES a possibilidade de co-orientação de alunos cabo-verdianos; • Todo o aluno deve encaminhar as informações e propostas que tiver trazido das Universidades de acolhimento para a Reitoria da Uni-CV, de modo a dar continuidade às oportunidades abertas por esta primeira edição do CIC; • Cada aluno beneficiado nesta primeira edição deve manter e desenvolver a sua ligação com a sua Universidade de acolhimento, tendo em vista a continuidade da investigação nos níveis de mestrado e doutoramento; • Mais alunos devem ser beneficiados pelo Programa; • A Uni-CV deve envolver os seus professores no Programa com a CAPES de modo a promover a participação de estudantes brasileiros, na investigação, em Cabo Verde; • Há que pensar na inclusão dos estudantes dos cursos de Engenharia Informática e de Computadores no Programa de Iniciação Científica; • As próximas edições devem prever um tempo maior de pesquisa, ao mesmo tempo que se deve dar mais tempo para a preparação dos resultados e respectiva apresentação; • Cada apresentação deveria ser de 15 minutos e mais 5 minutos para perguntas. 39 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Parte II – Discursos no acto de abertura DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA Senhor Secretário de Estado da Educação, Senhor Reitor da Universidade de Cabo Verde, Senhoras e Senhores Embaixadores, Senhoras e Senhores Professores, brasileiros e cabo-verdianos, Estimadas e estimados Congressistas e Participantes, Amigas e Amigos, Apraz-me bastante estar aqui convosco e presidir ao acto de abertura deste que é o Primeiro Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV, seja pela novidade que é, seja pelas enormes potencialidades e esperanças de que é portador. Ora, as razões deste meu sentimento de confiança são várias e gostaria de as partilhar convosco. [A sua comunicação, Senhor Reitor, dá-me mais uma razão para continuar optimista quanto ao futuro de Cabo Verde e acreditar nas capacidades da sua Juventude]. Em primeiro lugar, estou cada vez mais convicto de que não possuindo Cabo Verde grandes recursos naturais, ou mesmo que os tivesse, o que a prazo permitirá a este país dar o salto de qualidade que almeja dar é, sem dúvida, a sua capacidade de absorver a ciência e de instituir a investigação ligada ao sector produtivo e dos serviços, como prática corrente, a fim de progredir em competitividade e superar o seu deficit tecnológico. Com isso, reconheço que a ciência que se faz em Cabo Verde, fruto de louváveis esforços, ainda é incipiente e falta-lhe o devido enquadramento institucional. Em segundo lugar, porque a ciência e a investigação, sendo apostas só susceptíveis de serem ganhas a prazo, é importante, por isso, envolver os jovens licenciados num efectivo movimento catalisador em favor da ciência. Ora, sem um programa de sensibilização, mobilização e inclusão dos jovens em activi- 43 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde dades de investigação, as portas do futuro nesta matéria estariam dificultadas. Afinal de contas, quem não semeia nem arroteia o campo não pode esperar por uma boa colheita. Tendo este entendimento como pano de fundo, gostaria, desde já, de felicitar os organizadores deste evento e de lhes agradecer o convite que me formularam para tomar a palavra neste acto. A iniciativa é, sem dúvida, fecunda e plena de virtualidades no seu propósito. Diria que, de certo modo, é o começo de algo novo. Contudo, para que se reverta, como se espera, em sucesso efectivo é preciso que seja objecto de uma genuína e interessada adesão dos jovens que nela participam. Ao dizer genuína, quero sublinhar a dimensão de vontade e de persistência que deve acompanhar tal adesão. Só deste modo, eles, os jovens, suportarão a dureza do trabalho científico, que reclama organização, rigor, autoconfiança, perseverança e espírito de sacrifício. De contrário, um programa desta natureza contaria, apesar de suas boas intenções, com inúmeras deserções, retirando-lhe o efeito positivo e incentivador que potencialmente contém. Quer-me parecer que a ciência é uma boa actividade para a socialização da juventude, uma vez que ela implica determinação, ousadia, cooperação e talento, qualidades que eu resumiria em paixão pelo saber e curiosidade pela descoberta. Logo, permitam-me que, deste fórum, faça apelo aos candidatos ao estatuto de jovens cientistas, inscritos no programa de Iniciação Científica da Uni-CV, à responsabilidade que lhes incumbe na construção de uma autêntica comunidade científica nacional. Um terceiro motivo que me faz agradado em estar aqui a presidir este acto é que este programa de iniciação científica irmana a nossa universidade pública, ainda jovem, com as suas congéneres estrangeiras, neste caso, brasileiras. Assim, saúdo a presença dos professores e investigadores brasileiros, com entusiasmo e muita esperança na cooperação científica com as universidades do Brasil. Estou certo de que a experiência que os contemplados do programa tiveram em diversas universidades brasileiras, durante os meses de Agosto e Setembro, foi de extrema importância, não apenas para os próprios como também para a própria Uni-CV. Pois, são universidades que, através dos seus estudantes, se põem em contacto, iniciando ou aprofundando os laços de cooperação. De resto, no mundo actual, investigação científica e cooperação científica são realidades cada vez mais interdependentes e imprescindíveis. A meu ver, é preciso agir e perseverar no sentido de facilitar o acesso e a partilha dos saberes científicos modernos. Só assim será possível vencer os deficits científicos e tecnológicos existentes em vários países e em vários campos, como é caso cabo-verdiano, e abrir novos horizontes para os povos a que digam respeito. 44 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Caros Amigos e Amigas, Cabo Verde é, para todos nós, um desafio permanente: desafio à imaginação e criatividade, na busca de soluções para os problemas fundamentais e para os problemas do dia-a-dia, com que nos confrontamos. Para materializar esta ambição, precisamos de dispor de uma comunidade académica e científica determinada a assumir o desafio que conduz à criatividade e à inovação. Enfim, desafio à aquisição e apropriação do conhecimento e dos saberes teóricos e práticos, modernos. Cabe-nos dar resposta à pergunta: como superar o défice tecnológico e científico de que Cabo Verde é portador? Esta é, creio eu, a ambição que nos move a todos. Certamente será pela criação de uma competência científica endógena, capaz de pensar o país e de assumir o seu desenvolvimento e modernização. Desenvolvimento, compreendido nas suas várias vertentes: económica, cultural, institucional, científica e tecnológica. Como vencer as diversas dependências de Cabo Verde, em que outros pensam por nós? [Afinal, “os discursos de segunda mão”]. Certamente, como se tem feito, apostando na Educação, na Formação e na Investigação, enfim, na aquisição de conhecimentos pertinentes e de utilidade social. Outrossim, não se pode reclamar da modernidade sem dispor de uma comunidade académica e científica, capacitada, comprometida e empenhada. Neste aspecto, urge mudar de atitude face à necessidade do pleno domínio do conhecimento, da ciência e da tecnologia e, simultaneamente, estimular a geração de uma massa crítica capaz de desenvolver sinergias entre os seus membros e instituições. O segredo poderá passar por aí. Tudo isto requer um ambiente social que estimula, valoriza e confere prestígio e atractividade à vida académica e à investigação científica, acompanhado, é certo, de políticas apropriadas e incentivadoras. Porém, nada substitui o empenho pessoal e o sentido de responsabilidade de cada um de nós. Impõe-se dar igual atenção à afirmação de uma cultura de responsabilidade, individual e colectiva, no seio da sociedade cabo-verdiana. Devo dizer-vos que me aflige a preponderância nos países subdesenvolvidos, em que vejo Cabo Verde, de uma atitude de consumidor despreocupado, consumidor de bens, de ideias e de opiniões, por parte dos seus cidadãos. Ora, é essa atitude de abdicação que é preciso combater e substituir por uma atitude proactiva, de criador, de produtor, e de inovador, em busca de novidades e de conhecimentos e técnicas que permitem saber mais, produzir mais e melhor, melhorar as condições e a qualidade de vida dos cabo-verdianos e assegurar o progresso contínuo do país. 45 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Nesta perspectiva, a Universidade Pública constitui o núcleo central e o arranque determinante, no caminho certo. Estou convencido de que, com empenho e determinação, vamos ganhar o desafio do conhecimento, da inovação e da criatividade. Por todas essas razões, saúdo o vosso Primeiro Congresso de Iniciação Científica e auguro a todos quantos nele participam um trabalho profícuo e repleto de resultados estimulantes. Muito obrigado! Somos chamados a uma maior maturidade, empenhamento e audácia. Diz-se que, na história do desenvolvimento das Nações, têm ganhados os países ou sociedades que conseguem juntar capital, educação e inovação. Vamos ter que continuar a apostar na poupança de recursos e na formação e valorização do capital humano. - Pedro de Verona Rodrigues Pires 46 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde DISCURSO DO SECRETÁRIO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO Sua Excelência, Senhor Presidente da República de Cabo Verde, Magnífico Reitor da Uni-CV, Exm.º Sr. Representante da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Exm.ª Senhora Pró-Reitora para a Graduação da Uni-CV, Presidente do Departamento das Ciências Sociais e Humanas , Ilustres congressistas e participantes, Caros Convidados, Minhas Senhoras e Meus Senhores, É para nós, motivo de grande satisfação, participar nesta Sessão Solene de Abertura do I Congresso de Iniciação Científica, que constitui um avanço extraordinário da Uni-CV na edificação de um dos pilares básicos de qualquer Instituição de Ensino Superior, a investigação científica e a pesquisa aplicada, ao serviço do desenvolvimento do país em geral e da comunidade universitária, em particular. Com o apoio crucial de Universidades Federais do Brasil, a Uni-CV deu, pois, mais um passo seguro e ousado na construção progressiva de uma Universidade de Investigação, de uma Universidade que promove e garante um ensino superior de qualidade. Cabo Verde possui, na verdade, um recurso precioso e inesgotável em que o Governo vem investindo fortemente na sua valorização - são as nossas crianças, os nossos adolescentes, os nossos jovens, os adultos, enfim, os seus recursos humanos. 47 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde O Homem cabo-verdiano constitui, pois, o principal capital de que dispomos para o desenvolvimento sustentável do país, pelo que é responsabilidade de todos nós que fazemos parte desta grande família – A Educação - conjugar esforços, reforçar os laços de solidariedade institucional, e mobilizar recursos para a formação de quadros altamente qualificados e preparados para darem continuidade ao processo de desenvolvimento de Cabo Verde, a todos os níveis. A evolução científica e tecnológica e a globalização da economia têm exigido que o cidadão seja cada vez mais competente e versátil, de forma a se adaptar às mudanças constantes e ser ele o agente principal dessas transformações. O ensino superior pode e deve contribuir de forma decisiva para a procura de soluções para os problemas causados pelas grandes e rápidas mudanças que se operam no mundo moderno, e cumprir a sua elevada missão de educar, formar e promover a investigação, oferecendo serviços de qualidade às comunidades e possibilitando o desenvolvimento de todo o sistema educativo. Senhor Presidente da República, Excelência, Caros Congressistas e participantes, A inclusão da iniciação científica nos cursos de nível superior deverá ser uma forte aposta das Universidades e dos Institutos do Ensino Superior como factor indutor de motivação acrescida para a pesquisa e a investigação científica. É igualmente factor de produção do conhecimento, razão por que a iniciação científica deve ser alargada não apenas aos alunos que se tenham distinguido nos primeiros anos da sua formação académica, mas alargada a todos os alunos, criando oportunidade de investigação, para que a ciência possa estar, como deve, ao alcance de todos. O nosso país, rico que é em recursos a descobrir e a explorar, como sejam as suas características geológicas, o ambiente, o mar, a pesca, a agricultura, a saúde, a alimentação, etc., já demanda um novo paradigma do ensino superior, no sentido de estimular projectos de iniciação cientifica que despertem interesse de estudantes e professores a prosseguirem o caminho da investigação para a produção de novos conhecimentos e respostas adequadas aos desafios dos novos tempos. A IC é também um factor que prestigia e projecta a Universidade que a promove junto da comunidade que a integra, do mesmo passo que a própria comunidade fortalece e enriquece a Universidade que lhe dá lhe o contexto económico e sociocultural, gerando-se uma relação de pertença entre a COMUNIDADE e a UNIVERSIDADE. 48 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Minhas Senhoras e Meus Senhores, Os estudantes que durante cerca de dois meses tiveram a grande oportunidade de entrar em contacto com o mundo da Ciência e da pesquisa, sob orientação de investigadores com um longo e reconhecido percurso de investigação, têm agora a nobre missão de partilhar com os colegas e professores presentes neste I Congresso de Iniciação Científica, os resultados do trabalho realizado. É mesmo assim, é essa a verdadeira postura científica, produzir e divulgar o saber científico, visando sempre contribuir para a melhoria das políticas públicas e, consequentemente, a melhoria das condições de vida das populações. Aos Congressistas e participantes, queria dizer-vos que: É fundamental o domínio profundo dos temas que investigam. Procurem desenvolver, cada vez mais, o pensamento crítico, defendam os vossos pontos de vista e convicções com toda a firmeza, no entanto, abertos às posições contrárias. Renovem e enriqueçam permanentemente os vossos conhecimentos, procurando aplicar todo o vosso saber na transformação da realidade social, económica e cultural de Cabo Verde, rumo ao progresso. Aos ilustres professores queria também alertar-vos que hoje, mais do que nunca, torna-se imperativo que o professor de qualquer nível de ensino e, fundamentalmente, o docente universitário, investigue e desenvolva nos seus alunos o gosto pela investigação, e utilize estratégias e métodos que levem os alunos a questionar, a resolver problemas, a desenvolver hábitos de pensar, a criar, e a partilhar conhecimentos e experiências. É nessa linha que se define o Governo através do Plano Estratégico para a Educação, no tocante ao Ensino Superior, estabelecendo desafios como: • • A integração das actividades de investigação científica nas práticas correntes de actuação dos institutos e escolas de nível superior; e O desenvolvimento da investigação aplicada em articulação com as políticas de desenvolvimento do país. Frequentemente surgem no vosso trabalho diário, situações que poderão originar um trabalho científico prático, como, por exemplo, o baixo rendimento numa determinada disciplina, a mudança de comportamentos de determinados estudantes. Igualmente, da análise e intercâmbio de opiniões e experiências entre os colegas professores, poderá surgir a ideia de se realizar uma investigação conjunta, visando aprofundar um determinado problema e encontrar vias para a sua solução. 49 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Por isso, caros professores, exorto-vos a engajarem-se cada vez mais nesta caminhada investigativa. Agarrem com afinco este projecto de integração dos estudantes de graduação no processo de investigação científica. Promovam cada vez mais jornadas científicas e pedagógicas. Sejam professores Ousados, Criativos, Inovadores e Competentes a nível científico e a nível pedagógico. Às Universidades Brasileiras que acolheram os nossos estudantes, hoje Congressistas, o Governo de Cabo Verde agradece essa cooperação e solidariedade e formula votos de cada vez mais sucessos nessa parceria. Bom trabalho a todos e tenham um bom ano académico. Obrigado Octávio Tavares 50 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde DISCURSO DO REITOR DA UNIVERSIDADE DE CABO VERDE Senhor Presidente da República, Senhor Secretário de Estado da Educação, Senhores Membros do Corpo Diplomático, Senhores Dirigentes, docentes e discentes da Uni-CV, Minhas senhoras e meus senhores, Mesmo que em prejuízo do protocolo, permitam que me dirija, em primeiro lugar, aos congressistas e dentre eles, aos que vieram ontem da Ilha de São Vicente, para os saudar efusivamente, fazendo votos de que – assim como foi o estágio científico que durante dois meses fizeram em sete universidades federais brasileiras – este congresso seja também uma experiência inolvidável, porque despoletadora de uma nova carreira: a de jovem cientista. A eles, desejo um congresso cientificamente fecundo e humanamente gratificante. Gostaria também, nesta curta alocução, de agradecer a S. Excia. o Senhor Presidente da República, por se ter dignado, mesmo perante uma agenda apertada de compromissos, vir esta amanhã à Reitoria da Universidade de Cabo Verde presidir este acto. Quer isto dizer, Senhor Presidente (permita-me interpretar deste modo) que V. Excia. enquanto o mais alto magistrado da Nação, é um patrocinador moral da investigação científica. Do mesmo modo apraz-me realçar aqui, nesta tribuna, a presença engajada e comprometida do Governo, na pessoa do Senhor Secretário de Estado da Educação. Com a sua presença, V. Excia. transmite a todos a firme determinação do executivo cabo-verdiano em instituir nas universidades, mas sobretudo na Universidade Pública, a investigação como dimensão constitutiva das mesmas. 51 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Seja-me permitido saudar igualmente, e é com destaque que o faço, a senhora representante da Embaixadora do Brasil, país sem o concurso do qual este programa e alguns outros não seriam possíveis na Uni-CV. Aliás, ao falar do Brasil não posso deixar de mencionar a CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior, instituição parceira da Universidade de Cabo Verde, patrocinadora imediata da Iniciação Científica na nossa Universidade. Do nosso lado, no interior da Uni-CV, sou a realçar como tendo sido fundamental, para a viabilização deste evento, o trabalho abnegado da Comissão Organizadora, tendo à frente a liderança activa e esclarecida do Prof. Marcelo Galvão Baptista. Minhas senhoras e meus senhores, Atrevo-me a dizer que este congresso, ao preparar a institucionalização da iniciação científica na Uni-CV, ambiciona ter um carácter histórico, uma vez que põe em marcha um movimento que propõe romper com o status quo vigente na Uni-CV, mas também em muitas universidades já consolidadas. No nosso caso, é a primeira vez que se realiza um congresso de jovens sobre a prática da investigação científica. Entendemos ser de máxima importância, se quisermos almejar o futuro, tornar a ciência uma experiência vivida e praticada. Digo isso porque muitos países do chamado Terceiro Mundo, não podendo os seus intelectuais fazer ciência, por faltarem as condições, recorrem à importação do discurso sobre a ciência. Neste sentido, tais intelectuais desenvolvem uma prática meramente discursiva e de carácter normativo relativamente às ciências, que não obstante lhes trazer prestígio social, se revela, como é lógico, incapaz de compreender e transformar a realidade na qual estão imersos. Por conseguinte, nestas circunstâncias, a ciência tem muito pouco de investigativo e não é senão um discurso de segunda mão. Outra ruptura a que é preciso proceder é sem dúvida a de enquadramento social. Muitas vezes nos nossos países fazem-se investimentos relativamente avultados na formação de alguns poucos cientistas estrela, altamente qualificados, descurando-se, no entanto, de outra componente igualmente importante que é a formação de comunidades de cientistas. Na verdade, só com estas é possível de facto instituir dinâmicas de estimulação recíproca. E, se tal não acontece, estes poucos cientistas sem entourage interna são candidatos ao conhecido fenómeno denominado de “fuga de cérebros”. 52 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Daí a importância de programas como este que visam criar vocações e gerar massas críticas, centrando-se mais numa perspectiva de geração de comunidades de cientistas do que na da criação de valores individuais. Senhor Presidente da República, Senhor Secretário de Estado, Minhas senhoras e meus senhores, É comum nas universidades haver uma clara separação entre a graduação e a pós-graduação, sendo aquela acolhedora da grande maioria estatística dos estudantes e professores e lugar onde predomina o ensino. A investigação, articulada ao ensino, essa localiza-se tradicionalmente apenas na pós-graduação. O programa de iniciação científica, se não apaga, ao menos esbate, esta dicotomia tão arraigada. O programa de iniciação científica, tal como foi concebido no Brasil, com o apoio do qual vamos criar o nosso próprio programa, é um viveiro de preparação e recrutamento de estudantes para a pós-graduação. Deste modo, a investigação torna-se presente em diversos níveis da Universidade. Senhor Presidente, nós sempre dissemos que o que qualificará a Uni-CV, o que a tornará verdadeiramente a Universidade de Cabo Verde, e não meramente uma universidade em Cabo Verde, é a capacidade que ela terá de instituir no seu seio a investigação científica aplicada ou aplicável à realidade cabo-verdiana. Ao lançarmos este programa, aproximamo-nos um pouco mais do nosso ideal de Universidade. É por isso que ele constitui para nós algo de transcendente importância. E mais não digo. Muito Obrigado. António Correia e Silva 53 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde DISCURSO DO PRESIDENTE DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAS E HUMANAS Exmo. Senhor Presidente da República, Comandante Pedro Pires, Exmo. Senhor Secretário de Estado da Educação, Dr. Octávio Tavares, Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde, Prof. Dr. António Leão Correia e Silva, Exmos. Senhores Membros do Corpo Diplomático, Exmos. Senhores Representantes de Organizações Internacionais, Magnífico Reitor da Universidade Jean Piaget, Magnífico Reitor da Universidade de Santiago, Magnífico Reitor da Universidade Intercontinental, Magnífico Reitor do Instituto Superior de Ciências Económicas e Empresariais, Exmos. Senhores Dirigentes da Uni-CV, Senhoras e Senhores Professores, Prezados Congressistas, Prezados Alunos, Minhas Senhoras e Meus Senhores, O primeiro passo para a realização do evento de hoje, ou seja, a abertura do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde, foi a assinatura, no início deste ano, de um protocolo, pela Uni-CV e pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do Brasil. Explicitamente nesse protocolo, a CAPES comprometeu-se formal e oficialmente a apoiar a Uni-CV no sentido de diligenciar a inserção de alunos, de diferentes áreas científicas, em sete universidades federais brasileiras, por dois meses, isto é, de 3 de Agosto a 5 de Outubro de 2009, custeando as despesas de 55 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde transporte, de alimentação, de alojamento e outras, para que eles desenvolvessem actividades no âmbito do chamado Programa de Iniciação Científica, na área de interesse desses alunos e sob a orientação de professores pesquisadores experientes. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal de Goiás, a Universidade Federal de Uberlândia, a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal de Alagoas receberam os alunos de braços abertos e deram o apoio solicitado, para além das nossas expectativas. A colaboração dos presidentes dos Departamentos, dos coordenadores e professores dos diferentes Cursos da Uni-CV foi imprescindível para a selecção dos alunos com o perfil desejado, para o desenvolvimento das actividades previstas. A colaboração da Embaixada do Brasil em Cabo Verde e da CAPES foi extremamente dedicada, competente, criteriosa, paciente e – sem exagero algum, podemos dizer – de uma deferência especial, em todas as etapas do processo que culminou com a inserção desses alunos no Brasil, no seu engajamento na investigação científica nas universidades referidas, e no seu retorno a Cabo Verde, com entusiasmo, repletos de sonhos e muito desejosos de, neste Congresso, compartilharem connosco a experiência adquirida. Também, não poderíamos deixar de fazer referência aqui ao apoio fundamental que tivemos para a materialização deste Congresso, por parte do Escritório dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo Verde. A assinatura do mencionado protocolo (pela Uni-CV e pela CAPES) produziu os seus efeitos, como demonstração clara de que a promessa foi cumprida. E sabíamos, tínhamos certeza de que a promessa seria cumprida. Na sequência, o Magnífico Reitor da Uni-CV incumbiu-nos a missão de elaborarmos um projecto orientador voltado para a iniciação científica que contemplasse os acertos tidos com a CAPES e que, ao mesmo tempo, tivesse como horizonte a sua implementação pela própria Uni-CV no futuro. O projecto foi aprovado e uma Comissão tratou das tarefas para a sua realização, tendo sido a última delas, a monitorização dos alunos de iniciação científica que se deslocaram ao Brasil, até que se efectivasse o seu retorno ao país. Posto isso, uma segunda Comissão foi nomeada para encarregar-se dos preparativos para a publicização, na Uni-CV, da experiência adquirida por esses alunos. A Comissão elaborou os documentos pertinentes e tomou todas as medidas necessárias para a execução das acções programadas para o evento. Este I Congresso de Iniciação Científica da Uni-CV é um processo pedagógico e estratégico para uma formação profissional de qualidade dos nossos graduandos, assente na ciência como norteadora do saber pensar e do saber fazer; é 56 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde também um processo em que a formação deve ter, como preocupação, a relevância social da produção do conhecimento. Planificámos este Congresso na expectativa de que, através dele, seja possível a divulgação dos trabalhos de pesquisa realizados pelos alunos que desenvolveram actividades de iniciação científica no Brasil, havendo, assim, a troca de informações e de experiências. Esperamos mais. Esperamos que o Congresso venha a gerar a continuidade desse empreendimento e nos desafie no sentido de buscarmos as condições que consolidem o Programa de Iniciação Científica na Uni-CV. Vislumbramos com este Congresso a possibilidade de que nossos alunos de graduação sejam estimulados pelos docentes-investigadores a participarem em projectos de pesquisa que os conduzam aos programas de pós-graduação existentes na Uni-CV e aos programas que venham a ser criados. A presença de todos vós nos é extremamente honrosa, ao mesmo tempo que constitui um atestado de quão significativo é este Congresso; e o tamanho do seu significado é também um indicador da grandeza das responsabilidades que o evento implica. Obrigado pela presença de todos e sejam muito bem-vindos. Marcelo Galvão Baptista 57 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde DISCURSO DA DELEGADA DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS EM SÃO VICENTE Exmo. Senhor Presidente da República de Cabo Verde, Excelência, Exmo. Senhor Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde, Exmo. Senhor Secretário de Estado do MEES, Exmos. Senhores e Senhoras do Corpo Diplomático, Exmo. Senhor Presidente do DCSH, Exmos. Senhores Dirigentes da Uni-CV, Exmos. Senhores e Senhoras convidados, Exmos. Senhores e Exmas. Senhoras docentes da Uni-CV, Caros estudantes da Uni-CV, Caros congressistas da Iniciação Científica, Gostaria de saudar esta iniciativa, marco importante para a Uni-CV e desejar a todos os envolvidos na educação um excelente ano lectivo e excelente trabalho também aos congressistas. É com orgulho e satisfação que cá estou, orgulho porque, da Delegação do DCSH – S. Vicente, sete estudantes finalistas fizeram parte dos que foram ao Brasil, três de estudos Ingleses e quatro de Educação de Infância, e durante o tempo que lá permaneceram acompanhei-os, graças às novas tecnologias, e as notícias eram sempre boas. Regressaram felizes e satisfeitos com a experiência, trazendo assim mais conhecimento e informação na área. A Universidade é uma instituição cultural e científica por excelência que garante a liberdade de ensinar e de aprender. 59 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A investigação académica/científica compreende a verdadeira natureza completa da ciência e da tecnologia. Enfatizando a dimensão social da ciência e da tecnologia, tem desenvolvido em direcções investigativas fundamentais como o estudo dos factores sociais que condicionam a elaboração e mudança/troca de conhecimento científico, e o estudo das consequências sociais e ambientais do desenvolvimento científico-tecnológico. A investigação nas ciências deve ser um instrumento útil para aperfeiçoar o processo de elaboração das políticas sociais e em particular a política educativa. Criar novos marcos teóricos para a investigação nas ciências e novas bases para os modelos de aplicação de investigação cujo objectivo consista em potenciar a eficácia das políticas que respondam aos problemas sociais. A formulação científica de um problema não pode ser descartada do contexto político, económico e social em que se insere, em particular do contexto cultural e educativo. Os juízos de valor dos investigadores das ciências reflectem-se tanto na formulação do problema como nas recomendações de soluções sociais relacionadas com a investigação. Não se pode ignorar que a construção social da realidade está constantemente mudando e está inscrita na divulgação social e cultural (…). Os investigadores modelam o mundo que estudam em consonância com seus valores e atitudes, suas percepções, suposições, teorias, selecção de variáveis e metodologias, assim como as circunstâncias sociais em que vivem e interagem. Existem quatro motivações básicas para os cientistas se comprometerem com a investigação: • • • • Ser um esperto: Isto implica manter-se em dia com as novas teorias relevantes e nos últimos métodos, assim como obter o respeito dos colegas, dos superiores e daqueles que se encarregam da investigação. Estabelecer diferença entre querer e estar presentes no processo da investigação, e poder contribuir, dar a uma causa a solução dos problemas. Actuar em favor de uma tomada de decisão com bases analíticas, aportando uma clarificação no planeamento do problema, entendendo o alcance dos problemas, e avaliando sistematicamente os custos sociais e económicos das políticas alternativas. Compartilhar uma posição política e um compromisso concreto. Fora da universidade também se faz investigação aplicada relevante e há disparidades entre a investigação académica e a que se pratica em outros lugares. 60 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Mas é visível a falta sistemática de interacção, cooperação e comunicação inoperante entre os ministérios responsáveis do desenvolvimento sectorial das investigações e as instituições académicas de investigações, daí que é necessário estabelecer um diálogo e uma cooperação entre essas instituições e partir para uma investigação científica que poderá ajudar a resolver os problemas. Existem vários modelos de universidade mas o que me cativou foi o modelo de universidade alemã, é a universidade do conhecimento, a qual dá grande importância à ciência, que é um factor decisivo para o desenvolvimento da sociedade. Estabelece uma estreita relação entre a docência e a investigação. A universidade é uma comunidade de investigadores que se propõe aprender e tem como finalidade que o estudante logra, mediante a investigação e domina o seu campo de saber, e que acaba também por ser o ideal da nossa universidade; a prova disso é a cooperação com a CAPES, do Brasil de onde os nossos estudantes acabam de regressar da Iniciação Científica na qual os docentes também serão abrangidos. Concluindo, diria que: Na educação superior há que privilegiar a construção do conhecimento dos universitários, incluir a gestão na formação do corpo docente para que estes respondam às exigências da contemporaneidade e aí a prática do humanismo científico, que permite a capacidade de reflexão crítica, permitindo também aceder à projecção social, à actividade científica, tecnológica e cultural. Enfim, a missão da universidade moderna, dos nossos dias, consiste em preservar, desenvolver e promover, através de vínculos com a sociedade, a cultura e a humanidade. Não quer dizer que a universidade é a única instituição que preserva o desenvolvimento, desenvolve e promove a cultura mas sim, cabe a ela um papel privilegiado de ser uma instituição social e científica. Muito obrigado. Dora Oriana Gomes Pires 61 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Parte III – Artigos de trabalhos premiados A IDEIA DE ALTERIDADE EM EMMANUEL LÉVINAS1 Admiro Alexandre Tavares Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Campus de Palmarejo) Universidade de Cabo Verde RESUMO O presente trabalho discorre sobre a ideia de Alteridade em Emmanuel Lévinas. Os problemas a serem analisados serão a questão da ideia do Infinito, o Rosto (“visage”) do Outro, e a Responsabilidade por Outrem. Lévinas parte da leitura da ideia de Infinito cartesiano para a formulação desta problemática. O Infinito descobre-se na relação do Mesmo com o Outro. Essa descoberta dá-se na subjectividade, o lugar do acolhimento do Outro. O Rosto do Outro é-me apresentado como exterioridade e transcendência. A relação com o Rosto é, num primeiro momento, ética. O Rosto é significação sem contexto. Não é uma personagem nem pode ser visto. É, pois, aquilo que o pensamento não pode abarcar totalmente. É o Infinito que nos leva ao além. Há no Rosto uma pobreza essencial. Ele está, com efeito, exposto, despido, ameaçado, mas ao mesmo tempo, é o que nos proíbe de matar, porque possui uma primeira fala que nos ordena a não matar. O Outro é ao mesmo tempo aquele contra quem eu posso tudo e a quem devo tudo, isto porque, no acesso ao seu rosto, tenho o acesso à ideia de Deus, que é a própria ideia do Infinito, fundamento ético, que me faz responsabilizar-me por Outrem, uma responsabilidade desmedida que antecede a minha própria liberdade. Palavras-chave: Alteridade; ideia de Infinito; Rosto; responsabilidade por Outrem. 1 Este trabalho foi orientado pelo Professor Dr. Alexandre Guimarães Tadeu de Soares da Universidade Federal de Uberlândia e teve o apoio da CAPES. 65 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Introdução Compreender a sua noção de Rosto do Outro e a de Responsabilidade por Outrem; (3) Compreender como a ideia de Infinito fundamenta a alteridade. A alteridade é hoje um problema. No mundo actual em que vivemos, um mundo transformado pelo individualismo, relativismo, materialismo, hedonismo, permissivismo, há que pensar no outro. Nunca é demais falar da dignidade humana e da responsabilidade que temos uns para com os outros. Dizem que todo o homem é fruto do seu tempo. O tempo vai passando, os valores vão mudando, mas existem valores que são perenes, isto é, utilizando a linguagem de Kant, absolutos e universais. A alteridade é um deles. A “Ideia de Alteridade em Emmanuel Lévinas” é o que constitui o tema deste trabalho e tal se justifica pelo facto de este ser o mesmo tema sob o qual pretende-se desenvolver um trabalho de final de curso e esta será uma oportunidade para iniciar as investigações. Partiremos da seguinte questão: Como a ideia de Infinito em Lévinas fundamenta a alteridade? Tentaremos dar resposta a essa questão no final deste trabalho. Metodologia Utilizou-se como metodologia para elaboração deste trabalho, leitura, análise, interpretação de algumas obras de Lévinas, Meditações sobre a Filosofia Primeira de Descartes, Ética de Alteridade em Emmanuel Lévinas de Nelio Vieira de Melo, obra de metodologia de investigação científica de Umberto Eco e discussão com o professor orientador para esclarecimentos. I –Leitura Levinasiana da ideia de Infinito cartesiano Segundo Emmanuel Lévinas, Heidegger fez uma filosofia destruindo a metafísica e constituindo uma “ontologia auto-sustentada e auto-suficiente, extraindo o ser do esquecimento em que se encontrava na filosofia ocidental”. Lévinas, por sua vez comprometese num novo desafio: distanciar-se do apego da ontologia para “libertar o homem e construir a ética como filosofia primeira” por meio da alteridade2. O assunto fundamental de Lévinas, contrapondo inteiramente a Heidegger, certifica que na nossa relação com o Outro temos a pretensão de querer compreendê-lo, mas a relação (de alteridade) ultrapassa essa com- Objectivos Objectivo geral O trabalho, objectivou, em geral, compreender a ideia da Alteridade em Emmanuel Lévinas. Objectivos específicos Os objetctivos específicos foram: (1) Entender a leitura que Lévinas faz da ideia de Infinito cartesiano; (2) 2 Cf. Lévinas (2005, pp. 12-13). 66 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde preensão. Isto denota que o Outrem não é, anteriormente matéria de compreensão e, seguidamente interlocutor. O Outro é em si mesmo designação da palavra ética3. Lévinas parte da leitura da ideia de Infinito cartesiano para a formulação da sua ética: “Parto da ideia cartesiana do infinito onde o ideatum desta ideia, isto é, o que esta ideia visa, é infinitamente maior do que o próprio acto pelo qual eu penso. Há desproporção entre o acto e aquilo que o acto dá acesso”4. Descartes na sua meditação faz a trajectória do pensamento até chegar a ideia de Deus. Ao pensar Deus, pensa-o como ser eminente5. No itinerário da sua dúvida após a descoberta do cogito, a primeira certeza ou a primeira verdade clara e distinta, ele chega a uma conclusão: nita, independente, eterna, imutável, sumamente inteligível e sumamente poderosa” pela qual ele mesmo foi criado e todas as outras realidades, se existem7. Ele conclui que só pelo facto de ele existir e de encontrar-se nele determinada ideia de um ente perfeitíssimo, a existência de é uma evidência, e que não é espantoso que, ao criá-lo, esse mesmo Deus lhe tenha imposto essa ideia, assim como o artífice coloca a marca em sua obra. Diz ele que a ideia de Deus está nele e que, este é portador de todas as perfeições que ele não consegue apreender, mas que de certa forma ele pode alcançar através do pensamento8. Lévinas considera que aqui está uma das provas de existência de Deus: (…), se a realidade de alguma das minhas ideias for tanta que eu fique certa de que ela não está em mim, nem formal, nem eminentemente e de que, por conseguinte, não posso ser eu mesmo a sua causa, disto seguirá necessariamente que não estou só no mundo, mas que alguma outra coisa, que é a causa dessa ideia, também existe6. Para Descartes, reside aqui uma das provas da existência de Deus: o pensamento não pode ter produzido algo que o ultrapassa; era necessário que este algo tivesse sido posto em nós. Logo há que admitir a existência de um Deus que pôs em nós a ideia do Infinito9. Em Descartes, na relação entre o eu e o Infinito estando eles separados, não há uma apreensão do Infinito por parte do eu que pensa porque o pensamento não pode abarcar o Infinito, uma vez que está separado dele. A ideia de Infinito tem de excepcional o facto de o A causa da ideia existente em Descarte é Deus. A ideia de Deus é excepcionalmente aquela que não derivou dele. Desta forma ele percebe pelo nome de Deus “certa substância infi3 Cf. idem. 4 Lévinas. Ética e Infinito, p. 83. 7 Cf. Descartes (2004, p. 91). 5 Cf. Lévinas (2002, p. 94). 8 Cf. idem, pp. 103-105. 6 Descartes (2004, p. 85). 9 Cf. Lévinas. Ética e infinito, p. 83. 67 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde seu ideatum ultrapassar a sua ideia. A ideia e o ideatum encontram-se numa relação desproporcional. Desta forma, ele vai a Malebrache para dizer que ele soube medir melhor o alcance de tal acontecimento: não há ideia de Deus, ou seja, Deus é a sua própria ideia. “A ideia de Deus é Deus em mim, mas Deus já rompendo a consciência que visa as ideias, diferente de todo o conteúdo”13. A distância entre ideia e ideatum não equivale, para a ideia de Infinito, à distância que separa nas outras representações o acto do seu objecto. A intencionalidade que anima a ideia de Infinito não se compara a nenhuma outra; ela visa aquilo que não se pode abarcar e neste sentido, precisamente, o Infinito10. II – A noção de Rosto e de Outrem A alteridade do Infinito não se anula, não amortece no pensamento que o pensa. Ao pensar o Infinito, o eu imediatamente pensa mais do que pensa. O Infinito não entra na ideia de Infinito, não é apreendido; essa ideia não é um conceito. O Infinito é radicalmente, absolutamente Outro11. Caracterizando ainda a ideia do Infinito na obra Transcendência e Inteligibilidade ele afirma: “Penso antes que o acesso ao rosto é num primeiro momento, ético. Quando se vê um nariz, os olhos, uma testa, um queixo e se podem descrever, é que nós voltamos para o outro como objecto”14. Podemos ver aqui, que o Rosto não é, pois, a cor dos olhos, a forma do nariz, o frescor das faces, isto é, objecto de contemplação. Segundo Lévinas, a melhor maneira de encontrar o Outro é nem sequer atentar na cor dos olhos, isto porque quando se observa a cor dos olhos não se está em relação social com o Outrem. “A relação com o Rosto pode, sem dúvida, ser dominada pela percepção, mas o que é especificamente o Rosto é o que não se reduz a ele”15. O Rosto apresenta-se como algo indefeso, a sua pele é a que permanece mais nua, mais despida. A mais nua, se bem que de uma nudez decente. Há A ideia de Infinito é a ideia excepcional, ideia única e para Descartes, o pensar em Deus. É o pensamento desligado da consciência, não segundo o conceito negativo do inconsciente, mas segundo o pensamento, talvez mais profundamente pensado, o da libertação a respeito de ser o de des-interesse que é relação sem tomada de posse do ser e sem sujeição ao conatus essendi, contrariamente ao saber e à percepção, o que não se transforma concretamente em qualquer modificação, em pura negação abstracta da visão, mas que se realiza eticamente com relação ao Outro12. 10 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, p. 209. 13 Cf. Lévinas (2002, p. 95) 11 Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, p. 209. 14 Lévinas. Ética e Infinito, p. 77. 12 Lévinas. Transcendência e Inteligibilidade, pp. 21-22. 15 Cf. Lévinas. Ética e Infinito, p. 77. 68 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde nele uma pobreza essencial. Ele está exposto, ameaçado, como se nos convidasse a um acto de violência, mas ao mesmo tempo nos proíbe de matar. O Rosto é significação sem contexto, isto é, não é personagem num contexto. “Tu és tu”. Neste sentido, pode-se dizer que o Rosto não é visto. Ele é o que não pode ser transformado em conteúdo, porque pensamento algum o abarcaria. Ele é, pois, o que nos conduz ao além16. A relação com o Rosto é num primeiro momento ético. O Rosto é o que não se pode matar ou, pelo menos, aquilo cujo sentido consiste em dizer: “Tu não matarás”. A proibição do homicídio não torna impossível o homicídio. O Outrem é Rosto, mas, certamente, o Rosto e o discurso estão ligados. O Rosto fala. O discurso e, mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que determina a relação autêntica com o Outrem17. O “Tu não matarás” é a primeira palavra do Rosto, uma ordem, um mandamento, no seu aparecer. O Rosto de Outrem está nu; é o pobre por quem posso tudo e por quem devo tudo. Enquanto “primeira pessoa”, sou aquele que encontra processos para responder ao apelo. Se estou sozinho perante o Outro, devo-lhe tudo; mas há o terceiro. A relação interpessoal que estabeleço com o Outrem, também devo estabelecer com os outros homens; daí a justiça, que deve ser sempre controlada pela relação interpessoal inicial18. No acesso ao Rosto há também o acesso à ideia de Deus, manifestada como desejo, mas tal desejo não pode ser satisfeito. Este é como um pensamento que pensa mais do que pensa19. 16 Cf. idem, pp. 78-79. 21 Cf. Melo (2003, p. 11). 17 Cf. idem, pp. 79 22 Cf. idem. Fora a fome que saciamos, a sede que aplacamos e os sentidos que apaziguamos, existe o Outro, absolutamente outro que desejamos para lá das satisfações, sem que o corpo conheça qualquer gesto para apaziguar o desejo, sem que seja possível inventar qualquer nova carícia. Desejo insaciável, não porque responda a uma forma infinita, mas porque não requer alimentos. Desejo sem satisfação que, dessa forma, constata a alteridade de Outrem20. Aquilo que Lévinas pretende deixar claro aqui é que o Infinito não é um objecto de contemplação, isto é, não está à medida do pensar que pensa. A ideia de Infinito consiste num pensamento que pensa em todos os momentos mais do que pensa. Este é Desejo. O Rosto é o caminho, mas caminho sem retorno. Aquele que entrar por ele é definitivamente capturado como refém21. O Outro enquanto pessoa é terra santa, sacralidade absoluta. Para aproximar-se dele é necessário tirar sandálias, despojar-se de si mesmo, escutá-lo e fazer-se responsável pela sua existência22. 18 Cf. idem, pp. 80-81. 19 Cf. idem, pp. 83-84. 20 Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, p. 212. 69 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde O para-o-Outro é completa abertura ao mistério do Outro como totalmente Outro. Somente neste contexto de abertura ao mistério do Outro, o Outro que me liberta, torna-se possível uma relação social; somente neste contexto é possível entender a relação ética como anterioridade metafísica, pois ela é a primeira relação social e o primeiro mandamento a ser observado23. Segundo Melo, tudo no corpo humano fala e se põe em relação. A pessoa é enquanto se põe relação: ninguém existe por si, para si e consigo mesmo. Minha existência é manifestação, desvelamento e velamento de si e do outro. Mas, dentre todas as partes do corpo o rosto é o mais exposto, tanto ao perigo quanto à carícia; nu e transparente, o rosto é completa exterioridade, inteira relação e comunicação, sinceridade e abertura. O rosto fala por si e é, para o outro, a única identidade re-conhecida pelo outro como realidade que se revela sem ser dominado. O rosto é mais do que uma centelha do Infinito. É o Infinito nele mesmo. Ele é a expressão que significa e dá significação ética de alteridade pensado por Lévinas. O outro é um outro modo de ser do sujeito, é uma manifestação do desejo, é diálogo, significação. É protótipo de um humanismo libertador que tem no outro a sua libertação24. Pode-se dizer que a maior contribuição filosófica de Lévinas está nessa análise da relação interpessoal, carac- terizada pela manifestação do rosto. O rosto é aqui entendido como relação ética não como parte do corpo humano privilegiado25. No que concerne à visibilidade e acessibilidade do rosto, o autor considera que como visibilidade, o rosto não é canal de relações mas sim pura relação, isto porque nele se presentifica uma estrutura que ultrapassa a dimensão perceptiva26. Quanto à nudez do rosto, não sendo da ordem sensível nem da ordem perceptiva, esta pertence à ordem metafísica. Essa nudez não é desvelada, pois o rosto é por si mesmo, não necessita de um sistema referencial. A nudez é abertura à transcendência27. Há uma relação entre a nudez do rosto do outro, que é estrangeiro e a nudez do meu rosto. A minha nudez e a do outro nos põem em relação com o Infinito, pois somente esse é capaz de resistir aos poderes da morte, e de maneira honrosa28 III – A ideia de Infinito e o Rosto de Outrem Para Lévinas, a ideia do Infinito é a relação social. Esta relação consiste em abordar um ser absolutamente exterior. A exterioridade do ser Infinito manifesta-se na resistência absoluta que, pelo seu aparecimento opõe a to25 Cf. Melo (2003, p.11). 26 Cf. idem, p. 91. 23 Cf. idem, p. 84. 27 Cf. idem, p. 92. 24 Cf. idem, pp. 89-90. 28 Cf. idem, p. 94. 70 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde dos os meus poderes através do seu logos (discurso), como tivemos a oportunidade de ver anteriormente29. Esse Outrem oferece a todos os meus poderes, sucumbe a todos os meus estratagemas, a todos os meus crimes ou então resiste-me com toda a sua força e com todos os recursos imprevisíveis da sua liberdade. Posso até medir forças com ele, mas ele também pode me opor, apresentando a sua face, pondo à descoberta a total nudez dos seus olhos indefesos, por meio da integridade, pela fraqueza absoluta do seu olhar. A verdadeira exterioridade está nesse olhar que me proíbe qualquer conquista, porque já não posso poder, uma vez que se estabelece uma relação, não com uma resistência muito grande, mas com absolutamente outro, com a resistência ética. A resistência ética é a presença do Infinito30. prio subjectivo. Esta responsabilidade, é responsabilidade por aquilo que não me diz respeito. Desde que o Outro me olha, sou responsável por ele, mesmo sem ter que assumir responsabilidade a seu respeito; a sua responsabilidade me incumbe e vai além do que faço. Ela não é um simples atributo da subjectividade, como se existisse já em si mesma, antes da relação ética32. A subjectividade é inicialmente para o Outrem. O Outrem não se encontra simplesmente próximo de mim no espaço, mas que se aproxima de mim enquanto sou responsável por ele. O laço com o Outrem só se aperta como responsabilidade. Ser responsável manifesta-se no dizer “eis-me aqui”, fazer alguma coisa por outrem, dar, ser espírito humano. O Rosto, na sua significância, pede-me, ordena-me. A minha relação com ele não é simétrica, por isso sou responsável por ele sem esperar a recíproca, ainda que isso me viesse a custar a vida. É pelo facto de nossa relação não ser recíproca, é que sou sujeição dele. Tudo está sob meu encargo. A minha responsabilidade por ser total, responde por tudo o que é dos outros, mesmo pela responsabilidade deles. Tenho sempre maior responsabilidade de que os outros33. A minha responsabilidade para com o Outro vai até a substituição por Outrem, assumindo a condição de refém expiando por eles. Essa responsabilidade não cessa e, ninguém pode subs- IV – A responsabilidade por Outrem “Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos e eu mais do que os outros”31. Lévinas fala da responsabilidade como estrutura essencial, primeira, e fundamental da subjectividade. A subjectividade é descrita por ele em termos éticos. A ética é entendida por ele como responsabilidade que dá no pró29 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, p. 210. 30 Cf. idem, pp. 210-211. 32 Cf. Lévinas. Ética e Infinito, pp. 87-88. 31 Dostoievsky apud Lévinas. Ética e Infinito, p. 90. 33 Cf. idem, pp. 88-91. 71 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde tituir-me. Ela é o que exclusivamente me incumbe e que, humanamente, não posso recusar. Desta forma podemos ver que tal responsabilidade não é intercambiável. Posso substituir a todos, mas ninguém pode substituir-me. É precisamente por causa disto que Lévinas, citando Dostoievsky, afirma que “somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros”34. A responsabilidade por Outrem é-se, em última análise, responsabilidade pela morte do Outro, isto porque o Rosto na sua verticalidade é o que é visado à queima-roupa pela morte. Na significância do Rosto está um dito, um apelo ao dar e servir, isto é, um mandamento, acima de tudo, a ordem de não deixar o Outro sozinho, o que é provavelmente o fundamento da sociabilidade35. O temor da morte do Outro está na base da responsabilidade por Outrem. Tal temor, não é a mesma coisa que o medo se entendermos o medo como medo do que é assustador e medo por nós. O temor aqui é o temor pelo Outro e não por nós mesmo36. A morte do outro homem me põe em causa e questiona como se desta morte que eu me tornasse o cúmplice por minha indiferença, e como se antes mesmo de lhe ser devotado eu próprio tivesse que responder por essa morte do outro, não deixá-lo na solidão. O Rosto do outro é ao mesmo tempo, minha tentação de matar, mas o “tu não matarás” que já me acusa, me suplica, me reclama como se eu fosse já devedor37. A morte significa o abandono de Outrem à sua solidão. A responsabilidade pelo outro homem, a impossibilidade de deixá-lo entregue só ao mistério da morte, é concretamente a suscepção do dom último de morrer por Outrem. A responsabilidade é aqui toda a gravidade do amor do próximo, o amor sem concupiscência38. Essa responsabilidade que me incumbe, responsabilidade pelo próximo, é anterior à minha própria liberdade, vem de um passado imemorável não representável e que nunca foi presente, mais “antigo” que toda a consciência, mas o engajamento desse profundo passado do imemorial me diz respeito como ordem e súplica, como mandamento no rosto de outro homem39. Enquanto refém, a minha responsabilidade vai até à substituição ao outro homem, o que se traduz numa infinita sujeição. Tenho que responsabilizar pela morte dos outros antes de ter de ser. A questão do meu direito de ser é inseparável do para-o-outro. Neste sentido podemos entender a responsabilidade da morte do outro como direito do meu ser40. Lévinas diz que o não-deixar-ooutro-homem só não consiste senão 34 Cf. idem, pp. 92-93. 38 Cf. idem, pp. 216-217. 35 Lévinas. Ética e Infinito, pp. 112-113. 39 Cf. idem, p. 219. 36 Cf. idem, pp. 113-114. 40 Cf. idem, pp. 224-225. 37 Cf. Lévinas, (2002, pp. 215-216) 72 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde em responder “eis-me aqui” à súplica que me interpela. É isso o segredo da sociabilidade, o amor sem concupiscência41. Este amor só é possível pela ideia de Infinito introduzida em mim, que me leva a ser eternamente refém do outro, fazendo com que o meu primeiro e último direito de ser seja responsabilizar por outro, isto é, eu existo enquanto ser que responsabiliza por outro. É nisto que se baseia a fundamentação ética da alteridade. Chegando ao fim deste trabalho podemos ver que Lévinas tenta mostrar como é que a transcendência do Infinito se converte em relação com o Outro, fazendo-me responsabilizar por ele, e como esta responsabilidade é sem escapatória, incessável que vai até à condição de refém, fazendo-me responsabilizar até pela sua morte. A questão do Rosto se converte em responsabilidade para com o Outro. Sou responsável pela responsabilidade, liberdade, erros, miséria e até pela morte de outrem. Desta forma podemos ver que o sujeito Lévinasiano é para-outrem na medida em que se caracteriza por uma responsabilidade desmedida, da qual ninguém pode livrá-lo. A responsabilidade por Outrem é uma responsabilidade ética. A ética dá-se no evento da transcendência, isto é, na evasão do ser para o outro assumindo a condição de refém. O amor que temos em relação ao nosso próximo é traduzido na nossa condição de refém, a partir da resposta “eis-me aqui”. Nesta resposta, estaremos a assumir o primeiro direito do nosso ser que é responsabilizar pelo outro. Respondendo agora à questão inicial, podemos dizer que a ideia de Infinito é o que fundamenta a própria alteridade, porque enquanto Deus que se oferece na sua abertura, mas que também permanece absolutamente distinto e transcendente, ela se traduz no amor do próximo que é a própria alteridade, amor este traduzido na nossa condição de refém a partir do enfrentamento, onde a presença do rosto reclama a impossibilidade de ser morto a partir do mandamento que significa ordem irrecusável. A alteridade do outro manifestada no rosto é então o fundamento da sua ética e esta ética é a própria responsabilidade pelo Outrem. Perguntamos agora: não será que o sujeito Levinasiano se torna escravo do outro, uma vez que se constitui o eterno refém deste, chegando a perder a sua própria liberdade perante este na medida em que a responsabilidade por ele nega a própria liberdade? Para Lévinas só posso aproximarme do Infinito, isto é, realizar a ética esquecendo-me em favor do outro que me observa. O sacrifício é o critério da realização ética. Sacrifico-me em favor do outro42. 41 Lévinas (2002, p. 231). 42 Cf. Lévinas. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger, p. 262. Conclusões 73 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Ele acaba redefinindo a subjectividade descrevendo-a em termos éticos, isto é, enquanto aquilo que se dá na relação com o Outro: Podemos entender a relação pré-originária com o Outro como relação interpessoal? Está claro que seria utópico pensarmos a responsabilidade por outro assim como Lévinas o pensou, mas de algum modo a sua doutrina de responsabilidade constitui um ideal que nos faz pensar até que ponto este mundo estaria melhor se cada um de nós, nas nossas acções levássemos em consideração os outros, e fizéssemos tudo para que o outro se desenvolva plenamente tendo a sua dignidade de pessoa humana que é. De certa forma Lévinas propõe a restauração de uma ética digna do homem, onde eu só existo como sujeito em virtude de um outro que vela por mim e pelo qual eu devo velar. Assim, cada um é apenas enquanto responsável por outrem. Referências bibliográficas DESCARTES, René. Meditações sobre Filosofia Primeira. (Tradução: Fausto Castilho), Ed. bilíngüe em latim e português, Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004. ECO, Umberto. Como se faz uma tese. (tradução de Gilson César Cardoso de Souza, revisão e produção de Plínio Martins Filho), Ed. Perspectiva S.A., 1985. LÉVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. (Tradução de João Gama, Revista por Artur Morão), Lisboa, Portugal: Edições 70, 2010. LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós. (Tradução de Pergentino Stefano Pivatto, Coordenado por Evaldo Antônio Kuiava, José Nedel, Luiz Pedro Wagner, Marcelo Luiz Pelizolli), 2ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2005. LÉVINAS, Emmanuel. Descobrindo a Existência com Husserl e Heidegger. (Tradução de Fernanda Oliveira), Lisboa: Instituto Piaget, s.d. LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem a idéia. (Tradução: Marcelo Fabri, Marcelo Luiz Pelizzoli, Evaldo Antônio Kuiava, Coordenador e Revisor: Pergentino Stefano Pivatto), Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2002. LÉVINAS, Emmanuel. Transcendência e Inteligibilidade. (Tradução de José Freire Colaço, Revisão de tradução de Artur Morão, Revista tipográfica de Artur Lopes Cardoso), Lisboa, Portugal: Edições 70, 1991. MELO, Nelio Vieira de. A Ética de Alteridade em Emmanuel Lévinas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. 74 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A CONCORDÂNCIA NOMINAL INTERNA AO DP SUJEITO E A CONCORDÂNCIA VERBAL NO CRIOULO CABO-VERDIANO: UMA ANÁLISE MORFOSSINTÁCTICA1 Ideneida Moreno Monteiro Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Campus de Palmarejo) Universidade Cabo Verde RESUMO O artigo é o estudo inicial do fenómeno da concordância de número e género no crioulo cabo-verdiano, especificamente a interna ao DP e a entre o sujeito e o verbo. O objectivo do trabalho é tecer algumas reflexões sobre o assunto. Para isso, tomou-se como referenciais as teorias linguísticas aplicadas por alguns autores em estudos desenvolvidos com o português brasileiro, de forma a ter recursos para a análise pretendida, uma vez que ainda estão sendo realizados estudos para a normalização da língua. Serão analisadas frases através do julgamento de introspecção e de aceitabilidade junto a quatro falantes da língua nativa (crioulo cabo-verdiano) e, acompanhadas destas, frases em português europeu e português brasileiro como exemplos de comparação. Das duas partes que compõem o trabalho, uma se encarregará da morfologia, para dar conta do comportamento flexional de algumas palavras cabo-verdianas e a outra da sintaxe, para verificar como reagem enquanto constituintes co-relacionados. Palavras-chave: morfologia; sintaxe; concordância nominal; concordância verbal. 1 Este trabalho foi orientado pela Professora Dra. Simone Floripi da Universidade Federal de Uberlândia e teve o apoio da CAPES. 75 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Introdução Um dos princípios é o de que toda a língua natural possui uma forma de expressar a visão de quantidade e distinção de sexos, quer dizer, de uma forma de referir-se a uma ou várias coisas que gramaticalmente correspondem aos nomes singular ou plural, respectivamente, e à forma de se distinguir o feminino do masculino. A maneira como se manifesta esta demarcação de quantidade pode variar de língua para outra, a isso se chama de parâmetro. Neste trabalho o interesse é esta visão gerativista mais delimitada e precisa: a análise sintáctica em termos de quantidade, ou seja, concordância (AGR) enquanto expressão das marcas do singular e do plural em frases do CCV, comparadas com frases do PBNP. Propõe-se descrever como acontece o AGR interno ao DP Sujeito e o AGR sujeito verbo especificamente na variante S do CCV (variante de Sotavento) cujas características serão apresentadas na parte da morfologia. Atente-se ao caso do português europeu (PE) que geralmente faz demarcação do AGR pela presença ou ausência dos chamados morfemas de número, pessoa, género, modo, tempo e aspecto em todos os elementos que por natureza o permitem (KHEDI, 2000, COSTA e FIGUEIREDO SILVA (2006), mas o contrário também se verifica, como no caso do crioulo cabo-verdiano (CCV) que não demarca obrigatoriamente o AGR em a todos os elementos mesmo que a natureza O programa gerativista defende que a faculdade da linguagem é um fenómeno que resulta do código genético humano e que é esse código que leva à existência das línguas, ou seja, defende que as línguas surgem de um processo natural resultante de predisposições biológicas do homem. Posto isto, toma como objecto de estudo as línguas naturais enquanto manifestações de uma gramática intuitiva, de regras formuladas por falantes nativos possuidores de competências linguísticas e de performances (conhecimento e utilização da língua). Os gerativistas defendem que todas as línguas naturais são compostas por princípios, isto é, leis gerais iguais, e por parâmetros, propriedades específicas que levam à sua diferenciação. Considera-se que há violação de princípios quando o funcionamento da mente, neste caso do falante nativo, não tolera uma determinada lei natural aplicada, constituindo assim a chamada “evidência negativa”, frases ou propriedades não possíveis na estrutura sintáctica da língua. Mas, em termos de parâmetros, uma propriedade pode ser possível numa língua e não ser noutra. “As línguas basicamente regem-se pelos mesmos princípios, mas não pelos mesmos parâmetros, o que é aceitável numa língua pode não ser noutra”2 (MIOTO, 2005, p. 26). 2 O negrito é acréscimo nosso. 76 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde destes o permita (CARDOSO, 2005). Veja-se o caso das frases (1) do PE e (2) do CCV: ticos, o que justifica a sua divisão em duas partes: 1 - A morfológica, que ocupar-se-á das flexões dos vocábulos formais nome e verbo, tradicionalmente conhecidos por categorias gramaticais, as mais importantes segundo Câmara JR (1980), com incisão no nome substantivo e no verbo regular, mas com referência superficial a adjectivos e determinantes. É uma parte importante porque não faz sentido falar acerca de concordância sem saber como os vocábulos se flexionam e se o CCV permite ou não a flexão do nome e do verbo; 2 - A partir daí passa-se a aspectos sintácticos, abordando especificamente a concordância de número interna ao DP Sujeito e entre sujeitoverbo. Nesta parte, far-se-á uma comparação gramatical de frases do CCV com PBNP e/ou PE. (1) a. O [determ. sing.] pássaro [subst. sing.] canta [verbo presente sing.] na [prep. + determ. sing.] primavera [subst. sing.] b. Os [determ. plur.] pássaros [subst. plur.] cantam [verbo presente plur.] nas [prep. determ. + primaveras [subst. plur.] plur.] Conforme o afirmado, verifica-se que nas frases todos os elementos da frase (1) que correspondem ao PE mostraram a marca de quantidade (singular e plural) em todos os elementos que por natureza permitem. ta (2) a. (-) Pásaru [subst. sing.] ta kanna [prep.] primavera [subst. [verbo presente] sing.] b. ?? (-)3 Pásarus [subst. plur.] ta kanta [verbo presente] na [prep.] primavera [subst. sing.] O crioulo cabo-verdiano (CCV) As frases do CCV, para além de não demonstrarem o artigo definido, que é um comportamento típico a ser visto adiante, não apresentaram diferenças quanto à flexão verbal, ao contrário dos substantivos pásaru/pásarus. Apesar disso, não foi demarcado em primavera, que manteve a mesma forma no singular e no plural, o que não aconteceu com as frases do PE. Este artigo procura descrever como acontece a concordância no CCV baseando-se em aspectos morfossintác- O crioulo cabo-verdiano, até ao momento, é a designação da língua que se fala em Cabo Verde, país arquipelágico situado na costa ocidental africana, formado por dez ilhas das quais apenas nove são habitadas, cada uma com uma variante diferente do crioulo. As variantes estão agrupadas em duas grandes variedades, tendo em conta a posição geográfica das ilhas habitadas: as de Barlavento a norte e as de Sotavento a sul do País. Os estudos relacionados com o CCV vêm desde muito no sentido de 3 (-) significará zona vazia e será colocado na frase (ou segmento) para substituir morfemas não expressas. 77 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde institucionalizá-lo como língua de ensino e administração, para que junto do português se torne a segunda língua oficial em Cabo Verde4. Cardoso (2005, pp. 3-10) faz uma breve abordagem da gramática da língua cabo-verdiana em aspectos morfo-sintácticos (morfologia flexional – género e número, derivacional – sufixação e justaposição), semânticos e fonológicos (alterações e evoluções fonéticas, fonológicas) segundo conhecimentos prévios de alguns estudiosos da área. Uma das características apontadas por Cardoso é o princípio da não redundância, a não demarcação obrigatória e categórica da marca de AGR em todos os elementos co-relacionados, como exemplifica a frase (3b). O princípio da não redundância deve-se ao facto do CCV apresentar um tipo específico de morfologia flexional como, por exemplo, o caso dos nomes e os adjectivos que não apresentam flexão obrigatória e o dos verbos flexionam somente quanto ao tempo, modo e aspecto. O português brasileiro não padrão (PBNP) Numa perspectiva diacrónica, o PBNP considera-se que o português brasileiro vem demonstrando uma significativa redução quanto ao seu sistema de flexão. Uma teoria defendida por muitos como Duarte (1996) e Galves (1996) reforçam. Duarte (1996) sintetiza a flexão verbal do PB da seguinte forma, como mostra a Tabela 1: (3) a. ?? Kes mininus bai prasa bistidu di branku (CCV)5 b. Kes mininu(-) bai prasa bistidu di branku (CCV) Tabela 1 – Evolução dos paradigmas flexionais do português. Verbo cantar. Na frase (3a) todos os elementos apresentam o morfema de número plural, diferente do que acontece na frase (3b) em que apenas kes demarca o plural. Apesar do mininu estar no singular percebe-se a enunciação do plural na flexão do kes. O AGR esta presente pelo contexto de fala. Pessoa 4 Até ao momento Cabo Verde apresenta uma situação linguística de diglossia, onde a língua oficial é o português e o cabo-verdiano é a língua das comunicações informais. Número Paradigma 1 1ª Singular Cant – o 2ª direta Singular Canta – s Paradigma 2 Cant – o Paradigma 3 Cant – o ---------- ---------- 2ª indireta Singular Canta – Ø Canta – Ø Canta – Ø Canta – Ø Canta – Ø 3ª Singular Canta – Ø 1ª Plural 2ª direta Canta – mos Canta – mos Canta – Ø Plural Canta – is ------------ --------- 2ª indireta Plural Canta – m Canta – m Canta – m 3ª Canta – m Canta – m Canta – m Plural Pode-se verificar que, numa perspectiva diacrónica, há uma simplificação quanto à flexão do verbo e mais acentuado no Paradigma 3 que apresenta apenas três formas (canto, 5 Em PE “Aqueles meninos foram à praça vestidos de branco”. 78 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde canta e cantam) para as pessoas gramaticais com exclusão das formas tu e nós, desde o Paradigma 2. tam aquilo que Scherre e Naro (1998) chamam de variação flexional, ou seja, uma palavra pode ser usada tanto na forma singular quanto na plural, sem demarcar necessariamente uma distinção numeral de singular ou plural. Veja-se o conjunto de frases a seguir: Morfologia A morfologia é a área de estudo que se ocupa dos morfemas, unidades mínimas significativas6 e dos processos da formação da palavra (derivação e flexão). Nesta parte do trabalho irá ser demonstrada a flexão de número e género dos substantivos, adjectivos, determinantes e dos verbos do CCV. Serão mencionados, em breves linhas, alguns casos do PBNP a propósito de comprá-los com a morfologia do CCV. As abordagens serão feitas com base na versão Web da gramática do crioulo cabo-verdiano e em alguns artigos sobre o português brasileiro7. (4) Kel mininu kumi dósi. A frase (4) representa a forma singular da enunciação, pois todos os elementos encontram-se no singular (o deíctico e o nome); (5) ?? Kes mininus kumi dósi. A frase (5) também representa uma forma da enunciação, desta vez, a do plural, porque o deíctico e o nome estão flexionados no plural; (6) Kes mininu kumi dósi. Atente-se agora à frase (6). Verifica-se que apresenta um dos elementos no plural (o deíctico) e o outro no singular (o nome). Mesmo sendo a demarcação do plural apenas no elemento kes remete-se a frase para o plural. O substantivo mininu usado na forma de singular não altera a significação de plural da frase. Esta palavra não constitui uma distinção entre singular e plural, está adaptado ao contexto do enunciado8. Câmara JR (1980) fala em morfema gramatical zero (ø) que define como, num vocábulo determinado, a ausência de um morfema, que está • A flexão substantiva no crioulo cabo-verdiano: número e género Flexão de número O substantivo cabo-verdiano, ape sar de ser flexionável quanto ao número, não apresenta flexão obrigatória (CARDOSO, 2005). Nas situações em que é acompanhado de um especificador plural, pode ou não apresentar também a mesma marca. Este comportamento leva a crer que os substantivos apresen6 Exemplo do morfema m que indica a pessoa e o número de tempo e modo verbal (amam, movem, pedem, põem). 8 Será visto a posteriori, na segunda parte do trabalho, a questão da concordância tendo em conta o comportamento da flexão das palavras. 7 Consultar as referências bibliográficas. 79 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde presente noutro vocábulo, estabelece com o primeiro uma oposição significativa. O morfema zero refere-se à marcação do singular dos nomes em comparação com o morfema /S/ o de marcação do plural. A identificação e a classificação dos tipos de morfemas são feitas com a apresentação de pares de palavras, a ver: A parte mininus/mininu da frase (5) mostra a marca de número do substantivo demarcando o plural, ao passo que mininu da frase (6) não apresenta o morfema de plural: mininus é o morfema /S/ e mininu é o morfema ø (zero). aos de singular. Não são palavras inflexionáveis. No português brasileiro não padrão encontram-se também frases cujos substantivos não apresentam a flexão de plural num contexto enunciativo de plural, apresentam somente morfema ø quanto à sua flexão, tal como acontece no crioulo. Isto deve-se ao facto de o PBNP apresentar a referida simplificação no processo flexional. A mesma frase no PBNP seria: (7) Os menino comeu o doce. Como acontece no CCV, a demarcação do plural é feita somente na flexão do determinante (os) e não no nome (menino), todavia a frase é um enunciado plural. A Tabela 2, a seguir, apresenta, como ilustração, morfemas substantivais de número do CCV. Tabela 2 – Morfemas substantivais de número Marcas CCV PE -s para palavras terminadas em vogais; Kaza di riku e senpri bunitu Kazas di riku e senpri bunitu Casa de rico sempre é bonita As casas dos ricos são sempre bonitas Mudjer e intilijenti Mudjeris e intilijenti A mulher é inteligente As mulheres são inteligentes - is para palavras terminadas em consoantes; - s/sis para palavras terminadas em sons nasais. Contexto Armun di Intóni dja forma; Armuns di Intóni dja forma; Armunsis di Intóni dja forma Kaza di riku e senpri bunitu O irmão do António já se formou. Os irmãos do António já se formaram. Casa de rico sempre é bonita As casas dos ricos são sempre bonitas Flexão de Género Mesmo que não seja obrigatória a flexão do substantivo, a tabela ilustra muito bem que os substantivos do CCV apresentam morfemas de plural em oposição Tal como a flexão de número, não acontece obrigatoriamente a flexão nominal de género. Nas situações em 80 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde que acontece, este é marcado pelas terminações –u ou ø para masculino e -a para o feminino, porém há situações em que o género é marcado através da justaposição matxu (masculino) e fémia (feminino)9. As frases (8b) e (9b) são praticamente uma única frase, porque dependendo do contexto significam minhas filhas ou meus filhos. Ambas as frases não apresentaram a flexão de género na palavra fidju e nem por isso é agramatical, o que demonstra a não obrigatoriedade de flexão dos substantivos. Já as frases (8c) e (9c) apresentam a flexão de género por acréscimo de fémia e matxu, palavras justapostas sobre as quais recai toda a informação de género. Isto acontece porque o falante optou por discriminar a quem se refere (neste caso quem foi à escola). A frase (8d) é marcada como agramatical, não é aceitável, pois não é hábito do falante realizar a flexão de número da palavra fidja10. Os morfemas substantivais de género no CCV podem ser resumidos na Tabela 3, a seguir. (8) a. As minha filha foi à escola (PBNP) b. (-) Nhas fidju bai (-) skola (CCV) c. (-) Nhas fidju fémia (-) bai skola (CCV) d * (-) Nhas fidjas (-) bai skola (CCV) (9) a. Os meu filho foi à escola (PBNP) b. (-) Nhas fidju bai (-) skola (CCV) c. (-) Nhas fidju matxu (-) bai skola (CCV) d . ?? (-) Nhas fidjus (-) bai skola (CCV) Tabela 3 – Morfemas substantivais de género Morfema de género CCV PE\PB -u/ ø (zero) para masculino Arminda tevi un mininu Sinhor djon bai kampu A Arminda teve um menino O senhor João foi ao campo Justaposição matxu Arminda tevi un mininu matxu A Arminda teve um menino -a para o feminino Arminda tevi un minina Sinhora Juana bai kampu A Arminda teve uma menina A senhora Joana foi ao campo Justaposição fémia Arminda tevi un minina fémia A Arminda teve uma menina 9 Em situações diversas as palavras matxu e fémia acabam por fazer a redundância (mininu matxu, minina femia) 10 Parece ser uma das excepções entre os substantivos da língua, pois permite a flexão de makáku/makáka (macaco/macaca). 81 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • A flexão adjectival no crioulo cabo-verdiano: número e género Flexão adjectival de número Os substantivos do CCV flexionam quanto ao género e fazem-no de duas formas: através de morfemas –u , ø ou justaposição de mátxu para a classe do masculino e através de -a e da justaposição de fémia para o feminino. Perante esta situação pode-se questionar o motivo da necessidade do substantivo ter justaposição para apresentar o género. Esta indagação permite uma pesquisa adicional que pode ser desenvolvida em um outro momento. De qualquer modo interessa, neste momento, notar que os substantivos não usam os mofemas de género em todos os casos; não é obrigatória a flexão destes para a percepção do sentido enunciado. Por vezes adopta apenas o morfema do masculino -u para os dois géneros como se viu nas frases (8b) e (9b), sendo que por vezes opta por pela justaposição: frases (8c) e (9c). Os substantivos cabo-verdianos apresentam uma flexão de número e género muito reduzidas, apesar de ser uma palavra flexionável. Em comparação com o CCV, o género do PBNP é demarcado pelos morfemas -o, ø e –a, igual ao CCV, mas não há a necessidade da justaposição. O género é sempre marcado, distinguindo feminino e masculino através dos morfemas, frases (8a) e (9a), mesmo que não haja flexão de número (As minha filha/ Os meu filho). Os adjectivos no CCV geralmente não apresentam flexão de número como se pode verificar nas frases a seguir: (10) a. As árvores são bonitas (PE) b. Kes arvri e bunitu (CCV) c * Kes arvri e bunituS (CCV) O adjectivo flexionado bunitus é uma forma não aceitável no CCV, pois o adjectivo não é flexionado quanto ao número, mantém sempre a forma singular para todos os contextos. (11) a. Os cavalos negros correm muito rápido (PE) b. kabálus pretu ta córi rápidu (CCV) c * kabálus pretuS ta córi rápidu (CCV) O mesmo que se passou com bunitus das frases (10c) vai acontecer com pretus das frases (11c). O adjectivo apenas apresenta a flexão de número no singular, mesmo estando num enunciado plural. Neste contexto também se verifica que o adjectivo bunitus não flexionou quanto ao género e, tal como a classe do substantivo, usou a forma masculina sem demarcar a natureza feminina do nome que acompanha arvri. Isto acontece pelo facto de não ser obrigatória a sua flexão 82 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Determinantes de género mesmo tendo essa natureza flexional, como se vai verificar a seguir. O CCV apresenta basicamente um único tipo de determinante, o indefinido (Cardoso, 2005). No entanto, quando necessária a expressão de determinação do nome, recorrese a deícticos, pronome demonstrativo12, mais especificamente às formas Kel/Kes. 13 Flexão adjectival de género Os adjectivos apresentam flexão de género apenas de nomes animados11, os inanimados adoptam a forma masculina dos adjectivos (ver Tabela 4). Tabela 4 – Morfemas adjectivais de género Morfema de género CCV PE -a/-era para feminino Juana e bunita Juana batukadera1 bai badja na festa. A Joana é bonita A Joana “batucadeira” foi à festa dançar. -u/-or para masculino Djon e bunitu Djon Batukador bai toka na festa Camiza branku di Djon Bistidu nóbu di Juana O João é bonito O João “batucador” foi à festa tocar. A camisa branca do João O vestido novo da Joana Os adjectivos cabo-verdianos apresentam quatro formas para o género, -a/-era para o feminino e -u/-or para o masculino. As formas mais usadas são -a e -u, mas nem sempre são usadas obrigatoriamente, o que inevitavelmente leva a uma concordância no plano contextual com o elemento que caracteriza, como exemplifica a frase da Tabela 3 Camiza branku di Djon (A camisa branca do João) em que camisa sendo uma palavra feminina tem o adjectivo flexionado no masculino. O artigo indefinido cabo-verdiano apresenta as mesmas formas -un e -uns para o feminino e masculino singular e plural. Não apresenta flexão de género, mas apenas de número, como ilustra a Tabela 5, a seguir. 12 Pereira, Dulce et alli apresentam de forma bem estruturada os Pronomes Demonstrativos cabo-verdianos em: Diversidade Linguística: Crioulo de Cabo Verde in Projecto Diversidade Linguística na Escola Portuguesa (ILTEC). Alexandre e Soares (2004) apresentam controvérisas quanto à existência do determinante definido (pp. 3-5). A referência a Pereira, Dulce et alli não foi completada pela autora (Nota do Organizador). 13 Gramática do crioulo cabo-verdiano in <http:// pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano>. Acesso em: 26.08.09. 11 Gramática do crioulo cabo-verdiano: <http:// pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano> . Acesso em: 26.08.09. 83 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Tabela 5 – Deícticos e determinantes Os determinantes Frases exemplos Kel/kes Deíctico demonstrativo O carro pequeno é mais bonito (Português)2 Kel karu pikinoti e más bunitu (CCV) - uso do sing. Kel Os carros pequenos são mais bonitos Kes karu pikinoti e más bunitu – uso do sing. Kes Un Uns Artigo Indefinido Uma flor brotou hoje (Português) Un flor brota oji (CCV) Um mosquito picou-me Muskitu/ un muskitu pika-n Umas flores brotaram hoje (Português) Uns flor brota oji (CCV) Uns mosquitos picaram-me Muskitu/ uns muskitu pika-n A classe dos determinantes caboverdianos é muito reduzida; apresenta basicamente apenas a flexão de número (un e uns). Os deícticos são por muitos considerados como pronomes demonstrativos. Em ambos os casos não se apresenta a flexão quanto ao género, ao contrário do PBNP que possui determinantes definidos e indefinidos nas formas masculina, feminina, singular e plural. É a classe que sempre apresenta a flexão obrigatória nas frases caboverdianas e brasileiras, pois toda a informação numeral concentra-se muitas vezes apenas neste constituinte. cais que suportam toda a informação de tempo, modo e aspecto. Por isso o sujeito no CCV é expresso obrigatoriamente, a língua não aceita sujeito subentendido (CARDOSO, 2005); a realização de sujeito nulo ou inversão de sujeito verbo, como ficará demonstrado mais adiante (SILVA, 2009). O tempo verbal no CCV é expresso basicamente em presente, que corresponde à manifestação dos verbos idênticos ao infinito português exceptuando o morfema r final, e o passado que se constrói com um acréscimo do morfema -ba/va à forma do presente crioulo.14 A Tabela 6 apresenta os morfemas de tempo, modo e aspecto do CCV e algumas frases do seu contexto de realização15. • A flexão verbal no crioulo cabo-verdiano No CCV os verbos não apresentam flexão de pessoa ou número, apenas expressam tempo, modo e aspecto através do uso de morfemas predicativos, afixos verbais, junto dos radi- 14 < http://pt.wikipedia.org/wiki/Crioulo_cabo-verdiano_% E2%80%94_sistema_verbal>. Acesso em: 08.09.09. 15 Idem Cardoso (2005). Os exemplos não sofreram alterações, mantêm a forma original do artigo donde foi retirado. 84 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Tabela 6 – Morfemas predicativos Morfemas Predicativas Tempo, Modo e Aspecto Frases exemplos ta Aspecto imperfectivo (actualizador imperfectivo) – corresponde ao presente do indicativo em português. suj. + ta + V Es ta bai. /ez tɐ baj/ Eles vão sta3, sa ta, ta ta, ti ta. Aspecto progressivo (actualizador progressivo) variantes de Brava, Fogo e Maio - suj. + stâ + V. M’ stâ Kumê. /ƞ stɐ kuˈme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.» Eu estou a comer Presente variante de Santiago - suj. + sâ + tâ + V variantes de Boa Vista, Sal e São Nicolau - suj. + tâ + tâ + V variantes de São Vicente e Santo Antão - suj. + tí + tâ + V al (apenas em perífrases) Não existe uma forma específica para o Futuro do Indicativo no CCV, mas esse tempo pode ser expresso: a) como imperfectivo do presente com a função de futuro; b) com o uso do verbo auxiliar «ir»; c) Através de perífrases a indicar uma eventualidade. M’ sâ tâ cúme. /ƞ sɐ tɐ ˈkume/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.» M’ tâ tâ c’mê. /m tɐ tɐ kme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.» M’ tí tâ c’mê. /m ti tɐ kme/ «Eu estou a comer. / Eu estou comendo.» a) Ex.: M’ tâ tchigâ manhã. /m tɐ ʧiˈɡɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegarei amanhã.» b) Ex.: M’ tâ bái tchigâ. /m tɐ baj ʧiˈɡɐ/ «Eu vou chegar.» c) Ex.: M’ ál tchigâ. /m al ʧiˈɡɐ/ «Eu hei de chegar.» Passado ba Aspecto perfectivo - situações passadas e já terminadas - pretérito mais que perfeito do indicativo Variante Sotavento - suj. + V+ba Variante Barlavento – não tem a mesma forma do CCV, mas a mesma do português. Sotavento - M’ mexêba. /m meˈʃebɐ/ «Eu mexera. / Eu tinha mexido.» Barlavento - M’ tínha mixíd’. /m ˈtiɲɐ miˈʃid/ «Eu mexera. / Eu tinha mexido.» 85 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde tâ seguido da forma base para o passado do verbo–ba/va - - Aspecto imperfectivo - situações passadas, mas ainda não terminadas, ainda a decorrer Variante Sotavento - suj. + tâ + V+ba. Variante Barlavento – suj. + tâ+va + V Sotavento - M’ tâ corrêba. /n tɐ koˈʀebɐ/ «Eu corria.» Aspecto progressivo - situações passadas, que estavam a acontecer de uma forma contínua, ininterrupta - perífrase durativa do pretérito variantes de Brava e Fogo - M’ stába tâ compô. /ƞ ˈstabɐ tɐ kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. / Barlavento - M’ táva corrê. /m ˈtavɐ koˈʀe/ «Eu corria.» imperfeito do indicativo. variantes de Brava e Fogo - suj. + stâ+ba + tâ + V variantes de Santiago e Maio - suj. + sâ + tâ + V+ba. variantes de Barlavento - suj. + tâ+va + tâ + V. Eu estava arranjando.» variantes de Santiago e Maio - M’ sâ tâ compôba. /ƞ sɐ tɐ kõˈpobɐ/ «Eu estava a arranjar. / Eu estava arranjando.» M’ táva tâ compô. /m ˈtavɐ tɐ kõˈpo/ «Eu estava a arranjar. / Eu estava arranjando.» Não existe uma forma específica para o Futuro do Passado no CCV, mas esse tempo pode ser expresso: d) a) imperfectivo do passado com a função de futuro. e) b) verbo auxiliar «ir». f) c) Através de uma perífrase a indicar uma eventualidade. a) Ex.: M’ tâ tchigába manhã. /m tɐ ʧiˈɡabɐ mɐˈɲɐ̃/ «Eu chegaria amanhã.» b) Ex.: M’ tâ bába tchigâ. /m tɐ ˈbabɐ ʧiˈɡɐ/ «Eu ia chegar.» c) Ex.: M’ ál tchigába. /m al ʧiˈɡabɐ/ «Eu havia de chegar.» Em nenhuma das variantes apresentadas na Tabela 6 se verificou o uso do verbo flexionado quanto ao número e pessoa. Sempre se manteve a flexão apenas temporal, de modo e aspecto, ao contrario do PBNP, que teve apenas uma redução da flexão nas paradigmas verbais (Duarte, 1996). te gramatical responsável pelo estudo das combinações de elementos agrupados numa sequência frásica. Segundo a visão aristotélica, a língua apresenta duas categorias: o sujeito e o predicado. No entanto, é possível verificar-se com a sintaxe moderna que uma frase pode apresentar várias outras categorias, mas considera-se que as básicas são realmente as apresentadas pelos gregos17. Cada um desses elementos tem um conjunto de propriedades comuns e desempenha uma função dentro da frase, ou seja, desempenha a chamada função Sintaxe Define-se a sintaxe como uma das áreas núcleo da linguística16 que tradicionalmente é a representante da par16 As outras principais áreas da linguística são a Fonologia, a Morfologia e a Semântica, juntamente com a Sintaxe. 17 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sintaxe 11 set 16:06. 86 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde sintáctica que corresponde ao seu papel na frase. Uma das ordens básicas de apresentação desses elementos enquanto sua função sintáctica é sujeito-verbo-objecto. Nesta parte de análise sintáctica trabalham-se apenas as categorias de sujeito e verbo quanto às suas relações de concordância. Ver-se-á como acontece a correspondência de flexão dos termos que compõem o sujeito, e também como é a relação entre o sujeito e o verbo numa frase. Foi dito anteriormente que o CCV não é uma língua de sujeito subentendido. Cardoso (2005)18 não aceita a realização de sujeito nulo nem a inversão de sujeito verbo como reforça Silva (2009), mas que também levanta a possibilidade do CCV ser uma língua semi-pro-drop. Todas essas informações devem-se ao comportamento dos verbos do CCV, à sua flexão19, como se pôde verificar nas flexões apresentadas anteriormente. Mas são comportamentos do crioulo que não se discutem neste trabalho e, que, entretanto, podem orientar na possível justificação da não concordância sujeito-verbo. Neste momento, o propósito não é teorizar sobre esses comportamen- tos, mas sim trabalhar frases com sujeitos expressos visivelmente. Algumas serão assinaladas com asterisco (*) para demonstrar a não aceitabilidade da mesma, como exemplifica a frase (12d)20. (12) a. Nós comemos o bolo todo (PE) b. Comemos o bolo todo (PE) c. Nu kume kel bolu fepu (CCV) d. *Kume kel bolu fépu (CCV) A frase (12d) é apontada como agramatical, pois ao subentender o sujeito fica-se sem perceber quem praticou a acção de comer o bolo todo, o que não acontece com a frase (12c) por ter o sujeito expresso visivelmente. Isto se deve ao facto de o verbo do CCV não apresentar flexão de pessoa e número e por isso não consegue dar conta de identificar o sujeito, como acontece com o português, através dos morfemas verbais de pessoa e número. Dois conceitos a serem muito usados durante a análise das frases são os de concordância visível e não concordância visível (COSTA e FIGUEIREDO SILVA, 2006). O primeiro referir-se-á a situações em que existem todos os elementos relacionados a mostrarem o mesmo tipo de morfemas flexionados (singular ou plural) e o segundo a situações em que nem todos os elementos que se relacionam demarcam a sua flexão 18 Idem; Cardoso (2005). Os exemplos não sofreram alterações, mantêm a forma original do artigo donde foi retirado. 19 Alexandre e Soares (2004) consideram que os crioulos não possuam riqueza flexional e são morfologicamente “pobres”, por quase não possuirem morfologia verbal, nem marcas de género e número, apesar de eles considerarem que o substantivo cabo-verdiano tem um sistema de flexão regulado. 20 De acordo com a notação utilizada na área da sintaxe gerativista. 87 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde te do português brasileiro não padrão (PBNP), denominado por Costa e Figueiredo Silva como PB2. Costa e Figueiredo Silva (2006) caracterizam o português europeu (PE) como uma variante da língua que apresenta a concordância (marca de número) em todas as categorias lexicais flexionáveis, como se pode verificar na frase (13) e referem a uma das variantes do Português Brasileiro como variante PB2, aquela que não apresenta nenhum tipo de concordância (marca de número), nem interna ao DP nem entre este e o predicado, como exemplificado na frase (15). Interessa neste estudo essa variante denominada por PB2 que se chama de português brasileiro não padrão (PBNP)21 pelo seu comportamento similar ao do CCV22. morfológica de concordância, deixando o sentido frásico para o contexto a que se referem (uns no plural outros no singular). • A concordância de número interna no DP sujeito do crioulo cabo-verdiano Como já foi dito, a concordância é a correspondência entre os elementos que se relacionam. A concordância nominal acontece quando os elementos relacionados com o nome, dispostos num mesmo sintagma, apresentam o mesmo tipo de flexão de número e género de forma a se combinarem entre si. Já se verificou que o CCV apresenta categorias gramaticais flexionáveis, mas também que cada uma tem suas características próprias. Há aqueles que, mesmo tendo todas as formas flexionadas, não as expressam obrigatoriamente (nome) ou sem flexão de número, mas com flexão quanto ao género apresentando excepções (adjectivos), e outros que têm somente flexão de tempo, modo e aspecto dispensando a de pessoa e número (verbo). Veja-se como os elementos do CCV se relacionam numa estrutura específica que é a DP Sujeito. As investigações apresentadas por Scherre e Naro (1998) e Costa e Figueiredo Silva (2006) serão retomadas como embasamento para as análises que se seguirão principalmente quando se fazem comparações com a varian- (13) Os carros são lindos (PE) (14) Os carro é lindo (PBNP) Scherre e Naro (1998) baseiam-se na teoria da variação linguística para analisarem o português brasileiro de 21 Entende-se por não padrão pelo facto de a variante não apresentar a redundância na marcação do plural, ou seja, os constituintes de uma mesma sentença não apresentam as mesmas flexões. Com isso, essa variante afasta-se das normas padronizadas que a escrita ainda preserva. Essa variante não representa apenas a classe menos escolarizada, pois todos e quaisquer falantes a usam (cf. SHERRE e NARO, 1998; COSTA FIGUEIREDO e SILVA, 2006). 22 Não se refere aqui ao facto do CCV estar ou não de acordo com as normas gramáticas porque os estudos gramaticais do crioulo não efectivaram normas como as da gramática do português, pois ainda se está a estudar a língua. 88 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde uma forma ampla. Falam de variação sistemática23 para justificar o facto de a língua apresentar dois tipos de variantes, a explícita com apresentação dos morfemas de plural e a variante zero, aquela sem demarcação do morfema de plural em que a palavra é flexionada no singular. A referida variação sistémica também se aplica ao CCV, como se pode verificar nas frases a seguir: cam o plural apenas no elemento D (aquelas/kes), as palavras pessoa e genti não apresentam a marca flexionada do plural. Nestas pode-se perceber que não há uma concordância visível, mas apenas uma contextual por apresentarem uma coexistência de uma variante explícita (kes) e uma zero (genti), ou seja, demarcam uma não concordância visível entre os elementos que compõem o mesmo sintagma (COSTA e FIGUEIREDO SILVA, 2006). A seguir, estende-se um pouco o DP sujeito com o acréscimo de adjectivos em frases da variante europeia e brasileira ao padrão e no CCV, tendo em consideração que essa categoria gramatical no CCV é realizada geralmente na posição pós-nominal.25 Veja-se: (15) a. AquelaS pessoaS vieram de Pernambuco (PBNP) - variantes explícita24 b. AquelaS pessoa0 vieram de Pernambuco (PBNP) - variante explícita e variante zero c. KeS gentiS ben di Pernanbuku (CCV) - variantes explícita d. KeS genti0 ben di Pernanbuku (CCV) - variante explícita e variante zero D+N+A – determinante, nome e adjectivo. Concentre-se apenas no DP sujeito das frases acima transcritas. Vê-se que há concordância visível de número interno ao DP apenas nas frases (15a) e (15b) porque todas as palavras deste segmento estão flexionadas da mesma forma, demarcando o plural. As frases (15c) e (15d) mar- (16) a. OS carroS pretoS (PE) variantes explícitas b. OS carru0 preto0 (PBNP) - variante explícita e variantes zero c. KeS karu0 pretu0 (CCV) - variante explícita e variantes zero d. KaruS pretu0 (CCV) - variante explícita e variante zero e. Karu0 pretu0 (CCV) - variantes zero 23 Os falantes têm ou podem usar mais do que uma forma da língua; com isso, esta nunca se realiza da mesma forma. Realiza-se segundo alguns aspectos como os sociolinguísticos (factores diatópico, diastrático e difásicos), psicolinguísticos (estágio de desenvolvimento mental), por exemplo (cf. BRESCANCINI, Cláudia Regina in A teoria da variação lingüística, s/d). 25 Gramática do crioulo cabo-verdiano: < http:// pt.wikipedia.org/wiki/Gram%C3%A1tica_do_crioulo_cabo-verdiano>. Acesso em: 26.08.09. 24 Variante explicita e zero são nomenclaturas retiradas de Sherre e Naro (1998). 89 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde • D+N+A+A – determinante, nome, adjectivo e adjectivo. As frases (16e) e (17e) parecem ser as únicas a demarcarem a concordância entre os seus elementos. Pois bem, essa concordância não corresponde à realidade da enunciação, mas é uma realização típica do CCV e não se verifica em nenhuma das outras variantes aqui apresentadas. Na verdade, apresenta uma “falsa” concordância tendo em conta a mensagem que se quer transmitir. Respeita sim concordância da expressão dos morfemas zeros em todos os seus elementos e por isso de forma isolada não se percebe se é um ou mais carros pretos, ou seja, está presa ao contexto da enunciação. Experimente-se com adjectivos na posição pré-nominal: (17) a. Os carros pretos e vermelhos (PE) - variantes explícitas b. OS carru0 preto0 e vermelho0 (PBNP) - variante explícita e variantes zero c. KeS karu0 pretu0 i brumedju0 (CCV) - variante explícita e variantes zero d. KaruS pretu0 i brumedju0 (CCV) - variante explícita e variantes zero e. Karu0 pretu0 i brumedju0 (CCV) - variantes zero Verifica-se que o fenómeno da variação linguística (SHERRE e NARO, 1998) se repete tanto nos DP’s simples quanto nos compostos do PBNP e CCV. Já o PE apresenta concordância de número em todos os elementos de forma estável, como afirmara Costa e Figueiredo Silva (2006). O PBNP e o CCV apresentam a marca de plural em apenas um dos elementos, mesmo sendo os outros flexionáveis, ao contrário do PE que demarca em todos os elementos. As frases (16b), (16c), (17b) e (17c) apresentam o morfema de plural apenas no D (oS/ keS), não apresentam nenhum tipo de concordância de número visível interna ao DP Sujeito; as (16d) e (17d) também marcam o morfema de plural apenas num elemento e, na ausência de um Spec, é o N que flexionou. Em todas essas frases, a flexão de número está marcada em apenas um dos elementos. D+A+N+A+A – determinante, adjectivo, nome, adjectivo e adjectivo. (18) a. OS novoS carroS pretoS e vermelhoS da Toyota (PE) - variantes explícitas b. Os novo0 carro0 preto0 e vermelho0 da Toyota (PBNP) - variante explícita e variantes zero c. *KeS nóbu0 karu0 pretu0 i brumedju0 di Toyota (CCV) - variante explícita e variantes zero d. KeS karu0 nóbu0 pretu0 i brumedju0 di Toyota (CCV) - variante explícita e variantes zero Na maior parte das vezes, o adjectivo, na posição pré-nominal, torna a frase agramatical como aconteceu 90 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde com a frase (18c) ao contrário da frase (18d) que, por o adjectivo estar na pós-nominal, é aceitável mesmo tendo os adjectivos valores semânticos diferentes: Karu nóbu em CCV pode significar tanto novos carros ou carros novos26 Em suma, verifica-se que quanto à concordância de número interna ao DP sujeito, tanto o CCV quanto o PBNP não manifestam nenhuma marca de concordância, pois no mesmo sintagma apenas um dos elementos apresenta o morfema de plural (o mais à esquerda) e os outros elementos apresentam morfemas de singular. Diferenciam-se quanto ao posicionamento de adjectivos pré-nominais: o PBNP permite a realização e o CCV não. Verifiquemos as frases a seguir: (19) a. OS carroS pretoS são lindos (PE) b. OS carru0 preto0 é lindo (PBNP) c. KeS karu0 pretu0 e bunitu (CCV) A (19a), correspondente ao PE, apresenta a concordância chamada de tradicional pelas gramáticas normativas, por apresentar todas as flexões harmoniosamente combinadas em todos os elementos que fazem parte da frase. As frases (19b) e (19c) já revelam um tipo de concordância diferente, pois vê-se que nem todos os elementos evidenciam a mesma flexão; neste casos, flexão de número na categoria dos nomes (determinante, nome e adjectivo) e a de número e pessoa nos verbos. Em ambas as frases quase todos os elementos se flexionam no singular, no entanto, verifica-se um elemento com a marca de plural, o determinante. Com isso intuitivamente consegue-se perceber que as frases dizem respeito a um referente plural. Scherre e Naro (1998) no estudo sobre a concordância de número no português brasileiro afirmam que há uma variação sistemática nos processos de concordância de número e uma variação da flexão numeral de uma mesma frase. Posto isto, algumas palavras podem exibir variantes explícitas e outras variantes zero (ø), como ilustram as seguintes frases: • A concordância sujeito-verbo no crioulo cabo-verdiano Pelo facto de não haver flexão verbal, se o verbo cabo-verdiano não apresenta flexão de pessoa e género, até que ponto podemos afirmar se há ou não concordância sujeito-verbo? Realmente fala-se de concordância verbal quando o verbo por natureza apresenta flexão para concordar com o sujeito. Todavia há situações em que a noção de concordância fica contida apenas a nível contextual. Um enunciado pode transmitir a noção de concordância mesmo que o nome e o verbo não estejam em conformidade. 26 Karu nobu – carro das novas marcas lançadas no mercado ou carros de 0 km, conforme o contexto. 91 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde te do PBNP, a marca morfológica de plural de concordância é feita apenas na posição de determinante optando, assim, pelo enunciado, como exemplifica a frase (21b), sem flexão do verbo a “concordar” com o sujeito. Pode-se notar que a concordância sujeito-verbo acontece de forma idêntica entre o CCV e o PBNP. Ambas as línguas apresentam ao que Costa e Figueiredo Silva (2006) chamam de concordância não visível, porque numa mesma frase há elementos corelacionados que apresentam morfemas /S/ e morfemas ø (Câmara Júnior, 1980). (20) a. Eles GANHAM (variante explícita); b. Eles GANHA0 (variante zero). Em ganham/ganha o m de ganham mostra a marca de pessoa e número do verbo concordando com o seu sujeito, ao passo que ganha não apresenta nenhum morfema que o concorde com o sujeito que acompanha, apresenta sim um morfema que o identifica como terceira pessoa do singular, o verbo expressa pessoa e número que não correspondem ao sujeito ao qual se relaciona. Neste caso, a frase (20a) é uma variante explícita porque mostra visivelmente as marcas de concordância sujeito-verbo. O morfema m indica a pessoa e o número do verbo que concorda com o sujeito que apresenta. A frase (20b) apresenta a variante zero pela ausência do morfema de concordância no verbo. Costa e Figueiredo Silva (2006), quando se referem ao PBNP, afirmam categoricamente que este não apresenta nenhum tipo de concordância ente sujeito-verbo, seja qual for a natureza do verbo. Os exemplos mostram um dos comportamentos do PBNP: Conclusão Com base na pesquisa desenvolvida, percebeu-se que o crioulo caboverdiano apresenta uma estrutura morfossintáctica bastante própria, se for tomado como exemplo a língua base da qual originou, o português europeu. Todavia exibe algumas semelhanças em relação à variante português brasileiro não padrão no que concerne a questões de concordância (AGR). Ambas as línguas não apresentam obrigatoriamente concordância interna ao DP sujeito nem entre o sujeito e o verbo. No CCV, é opcional a concordância de número interno ao DP sujeito devido ao comportamento de algumas das suas categorias gramaticais, como por exemplo, os nomes que opcionalmente podem apresentar marca de número e género. A concor- (21) a. ?Os menino comeram o doce b. Os menino comeu o doce Na frase (21a), nota-se que o verbo se flexiona indicando a pessoa e o número que eventualmente concorda com o sujeito os menino. Para o falan- 92 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde dância visível sujeito- verbo é inexistente, pois o verbo do crioulo caboverdiano apresenta uma única flexão para todas as pessoas gramaticais. Como se viu em algumas ocorrências do português brasileiro não padrão, dispensa-se totalmente a demarcação de concordância visível que não acontece nem em relação à natureza verbal. Basicamente um tempo verbal apenas distingue a primeira pessoa das outras. A marcação do plural, em ambas as línguas, é visível apenas num dos elementos: no caso do sujeito é marcado somente no primeiro à esquerda, os outros elementos mantém a forma singular e na relação sujeito-verbo apenas o sujeito demarca o plural. Em todos esses casos, pode-se dizer que a concordância apenas acontece contextualmente. Pode-se verificar, portanto, que não há concordância de número plural visível no crioulo cabo-verdiano e em algumas variedades do português não padrão, revelando, assim uma grande semelhança entre a natureza sintáctica destas duas línguas. Assim, esta investigação objectivou uma descrição das características sintáctico-morfológicas no que se refere aos padrões de concordância nominal e verbal ao comparar a variedade não padrão do português brasileiro com o crioulo cabo-verdiano. Dessa maneira, este trabalho traz subsídios para o desenvolvimento de pesquisas mais aprofundadas que tratem das estruturas sintácticas dessas línguas, geradoras desse fenómeno de concordância sob uma abordagem comparativa das línguas em estudo. Considera-se que este trabalho foi interessante na medida em que em seu âmbito trabalhou-se um aspecto gramatical pertinente nos estudos sobre o CCV, pelo menos a nível académico, pois trabalhos do tipo contribuem de certa forma, nesta fase de valorização e padronização do crioulo como língua oficial. 93 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Referências CÂMARA JR, Joaquim Matoso. Estrutura da Língua Portuguesa, 10ª edição. Petrópolis: Editora Vozes Lda., 1980. DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia. Do pronome nulo ao pronome pleno: A tragetória do sujeito no português do Brasil. In Roberts, Ian e Kato, Mary A. (orgs.). Português Brasileiro: Uma viagem diacrónica, Campinas: Editora UNICAMP, 2ª edição, 1996, pp. 107-110. GALVES, Charlotte C. O Enfraquecimento da Concordância no Português Brasileiro. In Roberts, Ian e Kato, Mary A. (orgs.). Português Brasileiro: Uma viagem diacrónica, Campinas: Editora UNICAMP, 2ª edição, 1996, pp. 387-409). KEHDI, Valter. Morfemas do Português. S. Paulo: Editora Ática, 6ª edição, 2000. MIOTO, Carlos et al. Novo Manual de Sintaxe. Florianópolis. Insular. 2ª edição, 2005. SILVA, Fernanda Vaz da. Aspectos do parâmetro do sujeito nulo no caboverdiano – variante de santiago – e no português europeu: um esboço de análise sintáctica. Monografia. Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Cabo Verde, 2009. Web Grafia ALEXANDRE, Nélia & SOARES, Nuno Verdial (2004). O domínio nominal em Crioulo de Cabo Verde o puzzle dos bare nouns In XX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa. APL. Disponível em <http://www. clul.ul.pt/equipa/nalexandre/SLP08-MesaRedonda-GUI.pdf>. BRESCANCINI, Cláudia Regina. A Teoria da Variação Linguística. Disponível em: <http://www.pucrs.br/edipucrs/online/pesquisa/pesquisa/artigo9.html>. CARDOSO, Ana Josefa. O papel da língua materna na aquisição de uma segunda língua: o caso da língua cabo-verdiana (breve abordagem gramatical), 94 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde 2005, pp. 3-10. Disponível em: <http://www.multiculturas.com/textos/lingua_caboverdiana_Ana-Josefa.pdf>. Acesso em: 20.08.2009. Referência não completada pela autora (Nota do Organizador). COSTA, João e FIGUEIREDO SILVA e Maria Cristina (2006). ????Notas sobre a concordância verbal e nominal em português. Disponível em: <http://www.gel. org.br/estudoslinguisticos/edicoesanteriores/4publica-estudos- 2006/sistema06/ jc,mcfs.pdf>. Referência não foi completada pela autora (Nota do Organizador). SCHERRE, M. M. P. & NARO, A. J (1998). Sobre a concordância de número no português falado do Brasil. In Ruffino, Giovanni (org.). Dialettologia, geolinguistica, sociolinguistica. (Atti del XXI Congresso Internazionale di Linguistica e Filologia Romanza). Centro di Studi Filologici e Linguistici Siciliani, Universitá di Palermo. Tübingen. Max Niemeyer Verlag. Disponível em: <http://www.ai.mit. edu/projects/dm/bp/scherre-naro98.pdf>. ATT Onde é que vão entrar??? (Footnotes) 1 Batukador/batukadeira (batucador/batucadeira) relativo ao batuque, uma das danças tradicionais de Cabo Verde. 2 A frase também pode ser enunciada sem nenhum uso de determinante Karu pikinoti e más bunitu. 3 Este morfema apresenta quatro outras realizações conforme ilustra a segunda coluna da Tabela 6. Cardoso (2005) refere-se apenas a sa ta. 95 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A ARTICULAÇÃO ENTRE O PRÉ-ESCOLAR E O ENSINO BÁSICO INTEGRADO 1 Nilton César Santos Soares Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Delegação de São Vicente) Universidade de Cabo Verde RESUMO Ao abordar a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, na escola Municipal Doralice de Arruda, este trabalho analisa o enquadramento legislativo e as potenciais práticas e procedimentos dos docentes, afectos a estes dois níveis de ensino, na promoção desta articulação, bem como as práticas e atitudes que têm colocado em causa a eficácia desta articulação. Evidencia, também, as semelhanças com a realidade de Cabo Verde em termos das intenções em promover a articulação e aponta diferenças relacionadas com as práticas docentes. Palavras-chave: transição; articulação; Educação infantil; Ensino Fundamental; sucesso escolar. Introdução de forma processual e contínua. Por isso, a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental deve ser objecto de atenção da tutela da educação, sendo considerada uma condição indispensável para aumentar a eficácia e a qualidade de ensino, principalmente nos primeiros anos de vida da criança. Durante muitos anos não se deu a importância merecida à articulação das diversas etapas do sistema escolar no sucesso educativo. Hoje, estudos apontam que a passagem do aluno de um subsistema para outro deve ser feita 1 Este trabalho foi orientado pelo Professor Dr. Teófilo Otoni da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, e teve o apoio da CAPES. 97 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde a criança demonstre capacidade de fazer amigos e de se fazer aceitar no grupo de colegas. Deverá ser capaz de aceitar e seguir regras de convivência e de vida social, saber escutar e esperar pela sua vez para falar, compreender e seguir orientações e ordens. As crianças que não são bem aceites entre os seus pares desenvolvem dificuldades nas aprendizagens formais com consequências no sucesso escolar. A mudança de ambientes educativos provoca sempre a necessidade de adaptação por parte da criança, sendo que o sucesso educativo refém desta adaptação. Segundo Kramer (2006), a pré-escola poderia antecipar-se, salvando a escola dos problemas relacionados com o fracasso académico. Contudo, esta adaptação só poderá ser facilitada se os professores de ambos os subsistemas, juntamente com a família, estabelecerem pontos de equilíbrio para fomentar um clima mais favorável à transição entre os dois níveis de ensino e proporcionando uma atenção individualizada a cada criança. De acordo com Griebel e Niesel (2003), citados por Vasconcelos (2007), para que a transição e a adaptação sejam de sucesso torna-se indispensável que a criança desenvolva algumas capacidades essenciais, tais como: Capacidade de autoconfiança e auto-estima. Crianças com baixa auto-estima dificilmente se interessam pelos processos de aprendizagem mais elaborados que lhes são exigidos. Capacidade de autocontrole, que constitui uma competência básica para adaptação da criança no ensino obrigatório. A criança precisa de desenvolver a capacidade de domínio pessoal, de concentração, de fazer face à frustração para pôr em prática as suas interacções sociais e os processos de gestão de actividades em sala de aula. Capacidade de aprender a aprender, pressupondo que a criança tenha uma evolução no domínio da compreensão e da comunicação oral e tenha tomado consciência das diferentes funções da escrita e da correspondência entre o código oral e escrito, ou seja, que o que se diz se pode escrever e ler. Capacidade de resistência, face a mudanças. Capacidade de se inserir num grupo de pares e com eles cooperar no desenvolvimento de tarefas comuns. Para atingir esse desempenho é necessário que O que se pretende com a articulação é cuidar dessas transições tornando-as educativas. 98 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Quanto mais os docentes se inteirarem das especificidades e das similitudes entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, mais se enriquece o universo pedagógico e maiores serão as oportunidade de sucesso para as crianças. (SERRA, 2004, p. 78). A articulação entre as várias etapas do percurso educativo implica uma sequencialidade progressiva, sendo que cada etapa tem a função de completar, aprofundar e alargar a etapa anterior, garantindo a continuidade e a unidade do processo de educação/ensino. Torna-se, então, imprescindível assegurar que a aprendizagem não decorra de forma fragmentária, mas sim de modo contínuo, evolutivo e integrado. A transição envolve estratégias de articulação que passam não só pela valorização das aquisições feitas pela criança na Educação Infantil, como pela familiarização com as aprendizagens escolares formais. A classificação ou tipologia de articulação entre os subsistemas de Educação Infantil e Ensino Fundamental obdece a parâmetros relacionados com o grau de interacção entre os agentes educativos ligados aos dois subsistemas. Assim sendo, segundo Serra (2004), a articulação pode ser classificada em: Embora educação infantil e ensino fundamental sejam frequentemente separados, do ponto de vista da criança não há fragmentação. Os adultos e as instituições é que muitas vezes opõem Educação Infantil e Ensino Fundamental, deixando de fora o que seria capaz de articulá-los. (KRAMER, 2006, p. 810). Entende-se por articulação “a junção entre diversas peças de um aparelho” (TORRINHA s/d, p. 130). Espontânea, em consequência da proximidade geográfica entre jardinsde-infância e escolas que proporcionam aproximação entre professores e educadores de infância, originando o contacto, a descoberta e o trabalho que se desenvolve em cada etapa e troca de experiências. Ocorre de forma natural e inconsciente. Regulamentada, quando se tem uma consciência social e política da sua importância e é referenciada legalmente nos documentos legislativos que regulam o funcionamento dos dois subsistemas. Efectiva, realizada por docentes e alunos, de forma consciente, contínua e independentemente da sua imposi- Assim, se se entender, então, o sistema educativo como uma máquina/aparelho e os diferentes niveis educativos como peças dessa máquina, a articulação curricular poderia ser vista como os “pontos” de uma união entre os ciclos, isto é, os mecanismos encontrados pelos docentes para promover a transição entre ciclos diferentes. (SERRA, 2004, p. 75). Através da articulação, poder-se-á estabelecer uma conexão entre as partes, de forma que a Educação Infantil e o Ensino Fundamental se organizem em função dos diferentes períodos da vida das crianças, o que implica uma postura docente que conduza a uma planificação conjunta de actividades integradas. 99 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde ção legal. Acontece, essencialmente, quando educadores e professores traçam estratégias e projectos comuns, com o objectivo de facilitar a passagem do jardim de infância à escolaridade obrigatória. A articulação efectiva pode ser subdividida em três níveis, de acordo com o empenhamento dos docentes e o nível de conhecimento dos dois subsistemas: em Universidades Federais do Brasil e neste caso concreto, na UFVJM – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Campus Avançado do Mucuri, Cidade de Teófilo Otoni. O citado programa tem como finalidade proporcionar a aquisição de conhecimentos relacionados com a metodologia de investigação/pesquisa científica e promover intercâmbios entre universitários dos dois países em acordo. Traduz a extensão de um estudo iniciado em Cabo Verde, no âmbito de um trabalho de fim de curso de licenciatura em Educação Infantil, porém assumindo contornos de alguma particularidade uma vez que, além da realidade cabo-verdiana envolve a realidade de Teófilo Otoni, perspectivando a promoção de um estudo comparativo entre ambas e tendo em linha de conta o tema em estudo. Em termos académicos, estudar a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental revela-se particularmente importante, sobretudo porque em Cabo Verde existe a percepção de que o subsistema Pré-escolar (Educação Infantil) é “um parente pobre da educação”. É de algum modo pouco valorizado, não possuindo carácter de obrigatoriedade, a política educativa específica não se encontra bem definida e grande parte dos profissionais não detém formação no ramo. Agrava ainda o desajustamento total de que é alvo no Plano Nacional de Cargos, Carreiras e Salários. Assim, entende-se que as referidas deficiências, aliadas ao défice de co- Activa, esta caracterizada pelo conhecimento profundo dos dois níveis educativos, quer pelos educadores, quer pelos professores, e pelas possibilidades de trabalharem em comum. Reservada, caracterizada por uma atitude menos voluntária, mais expectante, não se empenhando todos os recursos e vontades, colocando-se numa posição de expectativa, ou seja, esperando que algo aconteça. Passiva, quando os docentes demonstram desinteresse e ausência de responsabilidades face à problemática. Pode existir alguma articulação fruto da proximidade geográfica entre os dois níveis de ensino, possibilitando contactos esporádicos entre as crianças, nos momentos de recreio e de saída, por exemplo. Não articulação, caracterizada pela ausência de qualquer tipo de articulação. Acontece sempre que não exista qualquer tipo de contacto entre os docentes e crianças de níveis educativos diferentes. A pesquisa ora reportada enquadra-se, especificamente, no âmbito do Programa promovida pela CAPES, intitulado Implementação da Iniciação Científica para alunos da UNI-CV (Universidade de Cabo Verde) e a decorrer 100 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Dados do Censo Escolar de 2008 revelam que 96% dos 28.419 alunos matriculados nos primeiros anos do Ensino Fundamental obtiveram aprovação. Dos restantes, 3% reprovaram e 1% abandonou a escola. Os mesmos dados apontam para uma oscilação do aproveitamento dos alunos entre os 83 a 96%, o que pode ser considerado satisfatório tendo em conta as dificuldades socioeconómicas do município. À luz destes dados relativos ao aproveitamento dos alunos e tendo em conta que a Secretaria Municipal de Educação exige que “a proposta pedagógica das instituições ligadas à Educação Infantil deverá conter o processo de articulação da educação Infantil com o Ensino Fundamental” (CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO, 2002 -Resolução Nº 001 do CME de Teófilo Otoni, artigo 12, nº V), a pesquisa foi concebida através da análise do funcionamento das instituições ligadas às duas etapas do processo educativo, verificação de como se dá a articulação, em que moldes se processa e que instrumentos são usados (por exemplo, fichas de registo/ avaliação), extrapolando-se, comparativamente, com o que se passa na realidade cabo-verdiana. Exprime de uma abordagem qualitativa, baseada na análise dos currículos dos dois níveis de ensino e na descrição de procedimentos dos vários intervenientes no correspondente processo educativo e das relações que se estabelecem entre eles; isso municação entre educadores e professores, constituem causas relevantes do reconhecido desfasamento em termos da articulação entre os subsistemas em apreço. Com o presente estudo pretendese reconhecer a existência de articulação entre a Educação Infantil (Préescolar) e o Ensino Fundamental e relacionar as práticas de articulação promovidas com os resultados escolares conseguidos. A realização da pesquisa na Escola Municipal Doralice de Arruda, baseouse no facto de esta albergar crianças das duas modalidades de ensino. A escola localiza-se na cidade de Teófilo Otoni (antes Philadélphia), Estado de Minas Gerais, tendo sido fundada em Setembro de 1853 por Teóphilo Benedicto Ottoni, do qual recebeu o nome. Com uma área de 3.247 km e cerca de 129.076 habitantes, distando 468 km de Belo Horizonte, a cidade é considerada o maior pólo de lapidação e comercialização de pedras preciosas do Brasil, estimando-se que mais de 20.000 pessoas vivem envolvidas nesse segmento, entre exportadores, garimpeiros, lapidários e corretores do comércio de pedras preciosas e semipreciosas, razão porque é conhecida como a “Capital Mundial das Pedras Preciosas”. No sector da educação, a cidade possui actualmente 715 estabelecimentos de ensino cadastrados na Secretaria de Estado de Educação (SEE), sendo 473 na dependência municipal, 165 estaduais e 77 privados. 101 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Procedimento a partir de dados recolhidos em entrevistas aplicadas às coordenadoras pedagógicas do Sistema Municipal de Educação e às supervisoras (pedagogas) responsáveis pelos serviços pedagógicos da Escola Municipal Doralice de Arruda. Espera-se, por isso, que esta pesquisa constitua um contributo útil que desperte em cada um a vontade de reflectir sobre as vantagens de uma boa articulação entre os diferentes subsistemas de ensino e visando a introdução de mudanças significativas na correspondente organização e planificação, como forma de permitir a definição de um modelo de transição com um dispositivo de registos de informações que melhor sirva os interesses da criança e da comunidade educativa em geral. O trabalho foi realizado dentro da Norma ABNT2. Constitui uma pesquisa qualitativa, tendo em conta a abordagem do problema, e descritiva, porque visou descrever o estabelecimento de relações entre variáveis para responder à problemática da articulação entre Educação Infantil (Pré-escolar) e a primeira etapa do Ensino Fundamental, razão porque desemboca num conjunto de informações sistematizadas sobre a existência (ou não) de uma articulação entre os dois níveis de ensino, o tipo de articulação, os instrumentos de articulação e o impacto no sucesso escolar da Municipal Doralice de Arruda, contexto do estudo. A citada escola está situada na Avenida Luiz Boali, s/nº, Bairro Ipiranga, cidade de Teófilo Otoni, Estado de Minas Gerais, tendo sido criada em 1997 como sendo o Núcleo de Educação Infantil para atender crianças do segundo e terceiro períodos da Educação Infantil, então denominada de Pré-escolar Municipal Vovó Carlotinha – CAIC. A partir de 2002 passou a ser organizada em regime de seriação, dando atendimento a duas modalidades de ensino, a Educação Infantil (primeiro período) e o Ensino Fundamental (primeiro ao quinto ano). É actualmente frequentada por 540 alunos, distribuídos por 26 turmas. A escolha da instituição deveu-se ao facto de albergar os dois níveis de ensino em estudo e por possuir carac- Método Caracterização dos participantes Os participantes do estudo são constituídos por sete (N=7) professores o que, tendo em conta os oito (N= 8) questionários distribuídos, corresponde a uma taxa de retorno de 87,5%. Ambiente Os dados a serem apresentados adiante resultaram do questionário aplicado na Escola Municipal Doralice de Arruda, integrante do Sistema Municipal de Ensino de Teófilo Otoni. 2 Associação Brasileira de Normas Técnicas 102 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Dos instrumentos utilizados para a recolha dos dados, de referir que embora o questionário dirigido aos professores de Educação Infantil (ver anexo), com 19 questões e o dirigido aos professores do Ensino Básico, com 25 questões (ver anexo) mantenham uma relação de estrutura e de conteúdos idêntica, cada um apresenta especificidades, de acordo as etapas do sistema escolar em análise. Nas entrevistas dirigidas às Coordenadoras Pedagógicas da Secretaria Municipal e às Supervisoras da Escola Doralice de Arruda foi utilizado o mesmo modelo (guião), com 20 questões, no intuito de analisar os procedimentos e práticas relativos à articulação. terísticas semelhantes às de instituições cabo-verdianas no tocante a condições socioeconómicas dos utentes. A pesquisa foi realizada a partir de um levantamento bibliográfico e de dados obtidos através de inquéritos por questionário a professores de ambos os subsistemas de ensino, além de entrevistas dirigidas a coordenadores pedagógicos da Secretaria Municipal de Educação (SEE) para verificação de opiniões acerca do tema e dos procedimentos para pôr em prática, ou não, a articulação entre a Educação Infantil (Pré-escolar) e o Ensino Fundamental. A amostra, constituída por oito professores, sendo três da Educação Infantil (pré-escolar) e cinco do Ensino Fundamental e representando 31% do corpo docente da Escola palco, foi intencionalmente escolhida, de acordo com regras pré-definidas. Resultados Dos participantes da pesquisa, três (N=3) trabalham com turmas de Educação Infantil, correspondendo este número a uma taxa de retorno de 100%, referenciando este valor percentual os três inquéritos distribuídos (N=3) a docentes deste nível de ensino e os quatro (N=4) que trabalham com turmas do Ensino Fundamental, o que corresponde a uma taxa de retorno de 80% dos cinco (N=5) inquéritos distribuídos aos docentes que leccionam em turmas do primeiro ano do citado nível de ensino. No que diz respeito ao sexo, os dados obtidos revelam que todos, 100% (N=7), são do sexo feminino. A idade dos participantes é apresentada na Tabela 1, a seguir. A escolha obedeceu aos seguintes critérios: • Professores do primeiro ano do Ensino Fundamental; • Professores da Educação Infantil (do pré-escolar); • Coordenadores da Secretaria Municipal. A definição dos critérios deveu-se ao facto de se pretender analisar a situação actual da articulação, entre a Educação Infantil e o primeiro ano do Ensino Fundamental, com docentes intimamente ligados aos dois níveis de ensino e mais concretamente, com relação ao ano lectivo último. 103 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Tabela 1- Frequência da população estudada (N=7) segundo a idade -TO, 2009. Idade Frequência Percentagem 32-38 2 28,6 39-45 2 28,6 46-52 2 28,6 60 e mais anos 1 14,3 Total 7 100,0 Tal como ilustra a Tabela 1, a idade dos inquiridos situa-se entre os 32 e mais de 60 anos, sendo que os intervalos de 32-38, 39-45 e 46-52 correspondem a 28,6 (N=2) cada; 14,3 (N=1) tem mais de 60 anos. O Gráfico 1 apresenta o nível académico dos participantes. Gráfico 1 – Frequência da população estudada (N=7) segundo o nível académico – TO, 2009. Através do Gráfico 1 pode-se verificar que 72% (N=5) dos inquiridos possui formação de nível superior. 104 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A Tabela 2 apresenta os anos de experiência na actividade docente dos participantes. Tabela 2 – Frequência da população estudada (N=7) segundo os anos de experiências na actividade docente – TO, 2009 Anos de experiência Frequência Percentagem 0-4 anos 1 14,3 5-10 anos 1 14,3 11-15 anos 1 14,3 16-20 anos 2 28,6 21-25 anos 2 28,6 Total 7 100,0 Preparação das crianças da Educação Infantil para o ingresso no Ensino Fundamental Como mostra a Tabela 2, os inquiridos possuem entre 0 e 25 anos de experiência na actividade docente. Dos inquiridos, 57,2% (N=4) dizem ter entre 16 e 25 anos de experiência, sendo que metade destes (N=2) tem entre 16 e 20 e a outra metade (N=2) entre 21 e 25 anos de experiência na actividade docente. Dos inquiridos (N=5) 100% são de opinião que as crianças ao saírem da Educação Infantil estão preparadas para ingressar no Ensino Fundamental. Na justificação da sua opção 42% (N=3), que corresponde ao número de professores da Educação Infantil, disseram que as crianças são incentivadas a construir o seu próprio conhecimento e 57,1% (N=4), que corresponde ao de professores do Ensino Fundamental, afirmaram que as crianças adquirem habilidades básicas para ingressar no Ensino Fundamental. Familiaridade com o tema em estudo Função da Educação Infantil Questionados sobre o papel/função que as instituições de Educação Infantil estão desempenhando, 42% (N=3), e que corresponde ao número de professores da Educação Infantil, assinalaram educar e 57,1% (N=4), que corresponde ao de professores do Ensino Fundamental, disseram que desempenham, simultaneamente, as funções de cuidar e educar. Preparação da transição das crianças da Educação Infantil para o Ensino Fundamental 105 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Tabela 3 – Frequência da opinião da população estudada (N=7) sobre a preparação da transição das crianças da Educação Infantil para o Ensino Fundamental – TO, 2009. Transição tem sido feita Frequência Percentagem Sim 4 57,1 Nem sempre 3 42,9 Total 7 100,0 Questionados se a transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental está sendo preparada, 57,1 (N=4) acharam que sim, justificando a sua opinião com o facto de que o trabalho feito visa ampliar os conhecimentos em todas as áreas, enquanto os restantes 42,9% (N=5) acharam que nem sempre, sendo que destes 67% (N=2) justificaram dizendo que poderia ser melhor e 33% (N=1) justificaram dizendo que depende do trabalho do educador. factor as avaliações do trabalho feitas nas reuniões pedagógicas. A articulação como factor importante para o sucesso escolar A generalidade dos inquiridos, ou seja, 100% (N=7), concordou que a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental é um factor de grande importância para o sucesso escolar do aluno. Questionados se essa articulação tem sido feita, responderam afirmativamente. Desse, 51% (N=4) justificaram a sua escolha apontando que é feita através dos encontros promovidos pela coordenação pedagógica e professores e dos registos de acompanhamento do desenvolvimento dos alunos. A transição feita de forma a promover a articulação Dos inquiridos (N=7), 100% afirmaram que a transição tem sido feita de forma a promover a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. Destes, 71% (N=5) argumentaram a sua resposta enquanto que 29% (N=2) não apresentaram argumento nenhum. Dos inquiridos que argumentaram, 80% (N=4) apontaram a comunicação entre professores e os registos oficiais da escola como factores para promover a articulação e 20% (N=1) apontaram como Modelo de organização vertical da escola como factor facilitador da articulação Dos inquiridos, 86% (N=6) são de opinião de que a organização escola em regime de seriação atendendo a duas modalidades de ensino, a Educação Infantil (segundo período) e En- 106 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde sino Fundamental (primeiro ao quinto ano), é factor importante na promoção da articulação. A justificativa apontada por 28,6% (N=2) recaiu sobre a promoção da proximidade dos dois níveis, enquanto que para 14,3% (N=1) a justificativa tinha a ver com facilitação da sequência de trabalho. Igual percentagem preferiu como justificativa a facilitação do contacto entre os professores dos dois níveis de ensino e 43% (n=3) não justificaram a sua escolha. o processo de transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, 28, 6% (N=2) enumeraram simultaneamente o registo do diário do professor e a ficha de registo do desenvolvimento do aluno no Pré-escolar, enquanto que 14,3% (N=1) enumeraram o dossier do aluno, o diário do professor e a ficha de registo. Não respondeu à questão um inquirido (N=1), correspondendo a 14,3%. Questionados se estes instrumentos contêm as informações necessárias para facilitar a integração da criança no Ensino Fundamental, 71,4% (N=5) responderam afirmativamente à questão, justificando que fornecem os dados sobre o nível de desenvolvimento do aluno, enquanto que 28% (N=2) negaram, justificando que contêm informações escassas. Procedimentos para pôr em prática a articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental Instrumentos de registo do desenvolvimento da criança utilizados no processo de transição Pelo Gráfico 2 pode-se constatar que 43% (N=3) dos sujeitos inquiridos enumeraram o registo do diário do professor como o único documento utilizado para acompanhar Contacto/ comunicação entre docentes de níveis diferentes Gráfico 2 – Frequência população em estudo (N=7) segundo os instrumentos de registo de desenvolvimento do aluno utilizados – TO, 2009 107 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Gráfico 3 – Frequência da população estudada (N=7) segundo o contacto/comunicação entre docentes de níveis diferentes – TO, 2009 De acordo com o Gráfico 3, 71% (N=5) dos inquiridos afirmaram estabelecer contacto com o colega do outro nível de ensino (Educação Infantil / Ensino Fundamental e vice-versa) e 29% negam estabelecer o referido contacto. tro subsistema de ensino (Educação Infantil/Ensino Fundamental e viceversa) enquanto que 43% (N=3) afirmaram não ter conhecimento a esse respeito. Planificação de actividades/ projectos em comum aos dois subsistemas Conhecimento com programas curriculares/conteúdos do outro nível de ensino Tabela 4 – Frequência da população estudada (N=7) segundo planificação de actividades/ projectos em comum entre os dois subsistemas Dos inquiridos, 71% disseram ter conhecimento do programa curricular do outro nível, sendo que 43% (N=3) classificaram esse conhecimento de profundo, 14% (N=1) de superficial e igual percentagem de ligeiro. Os restantes 29% (N=2) não responderam à questão. Ainda sobre o mesmo propósito, 57% (N=4) afirmaram ter conhecimento dos conteúdos trabalhados no ou- Realização de projectos/ actividades comuns Frequência Percentagem Sim 2 28,6 Não 5 71,4 Total 7 100,0 108 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde classe somente alunos que frequentaram a Educação Infantil, enquanto a outra metade afirmou que a turma é composta por alunos que frequentaram, e não, a Educação Infantil, sendo que estes últimos apresentam, em condições normais, maiores dificuldades de aprendizagem. Questionados sobre a percentagem de aproveitamento escolar dos alunos que frequentaram a Educação Infantil, três inquiridos, correspondendo a 75% da população que lecciona turmas do primeiro ano do Ensino Fundamental (N=4), afirmaram que se situa entre os 70 a 100%, enquanto que 25% (N=1) afirmaram situar-se entre 50 a 70%. A Tabela 4 indica-nos que 71,4% (N=5) dos inquiridos não planificam actividades/projectos em comum envolvendo professores e respectivos grupos de criança dos dois subsistemas. Porém, 28,6% afirmaram fazer a planificação ao longo do ano lectivo. Participação dos pais/encarregados de educação no processo de transição A totalidade dos inquiridos, 100% (N=7), revelou que promove a participação dos pais/encarregados de educação no processo de transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Questões dirigidas aos professores de Ensino Fundamental Resultados e Discussão Importância do Primeiro ano do Ensino Fundamental como ano de transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental Pretende-se, aqui, fazer uma síntese dos aspectos mais significativos detectados durante o tratamento e análise dos dados, no intuito de dar resposta ao objectivo geral do trabalho e que consiste em reconhecer a existência de articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental na Escola Municipal Doralice de Arruda. Para o efeito, pretende-se identificar os procedimentos e práticas de articulação desenvolvidos pela escola, identificar o tipo de articulação que é feita e verificar o seu impacto no sucesso escolar dos alunos. Assim sendo, começou-se por fazer uma caracterização dos sujeitos inquiridos, tendo-se constatado serem todos do sexo feminino, o que corresponde à Todos os inquiridos, 100% (N=4), que trabalham com o Ensino Fundamental concordam que o primeiro ano desse nível de ensino funciona como sendo o da transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Impacto da articulação no sucesso escolar dos alunos Dos inquiridos que leccionam turmas do Ensino Fundamental (N=4) metade, 50% (N=2), afirmou ter na 109 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde tendência nacional da predominância feminina no corpo docente, principalmente na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. No que diz respeito à idade, verificou-se que a maioria dos inquiridos tem idade compreendida entre os 32 e 52 anos (cf.3 Tabela 1). Tal facto pode ter repercussões nos anos de experiência profissional dos inquiridos na medida em que a maioria acusa entre 16 a 25 anos de exercício (cf. Tabela 2). Relativamente ao nível de formação académica, constata-se que a maioria dos inquiridos possui formação superior em áreas educacionais (cf. Gráfico 1). No que se refere à familiaridade dos inquiridos com o tema, e ao serem questionados sobre a função que as instituições da Educação Infantil desempenham, a maioria indicou exercer simultaneamente as funções de educar e cuidar, correspondendo isso à posição dos professores do Ensino Fundamental. Já os professores de Educação Infantil indicaram somente a função de educar, mostrando não estar em sintonia com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998), que postula que deve haver uma harmonia entre o educar e o cuidar no intuito de evitar, por um lado, a excessiva escolarização do atendimento na educação infantil e, por outro, o carácter assistencialista que muitas vezes se atribui a este nível de ensino. No que concerne à preparação das crianças na Educação Infantil para o ingresso no Ensino Fundamental, houve unanimidade nas respostas. Todos são de opinião de que ao saírem da Educação Infantil as crianças estão preparadas para ingressar no Ensino Fundamental. Parte significativa fundamentou a sua opção dizendo que as crianças adquirem, na Educação Infantil, as habilidades básicas para ingressar no Ensino Fundamental. Esta posição coincide com a de duas das coordenadoras pedagógicas municipais, que defendem que a proposta pedagógica da educação Infantil é construída com o intuito de assegurar a preparação para o ingresso no ensino infantil. Quanto à preparação da transição das crianças da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, parte significativa dos inquiridos defende que ela tem vindo a ser feita, embora mostrem algumas reservas (cf. Tabela 3) justificando que o trabalho visa ampliar os conhecimentos em todas as áreas, mas poderia ser melhor, dependendo do professor. Questionados se a transição tem sido feita de forma a promover a articulação, todos responderam positivamente. A maioria argumentou a sua resposta apontando a comunicação entre professores e os registos oficiais da escola como factores para promover a articulação e mostrando estar em sintonia com a coordenação pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, que defende que o pro- 3 Conferir 110 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde se trata de um factor facilitador da articulação entre os dois subsistemas. E justificou a sua posição dizendo que promove a proximidade entre os dois níveis de ensino e facilita a sequência de trabalho. cesso de transição deve ser acompanhado pelo supervisor das escolas através de observações registadas no diário da classe e através da avaliação diagnostica do desenvolvimento da criança, de forma a promover a desejada articulação. No que toca à importância da articulação para o sucesso escolar da criança, todos os inquiridos responderam afirmativamente à questão. Afirmaram, também, que tem vindo ser feita na escola, sendo que a maioria justificou a sua opinião apontando os encontros promovidos pela coordenação pedagógica, a comunicação entre professores para troca de informações sobre os alunos e os registos de acompanhamento do desenvolvimento. Por não haver uma legislação a regular, explicitamente, o processo de articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, exceptuando a menção na referida Resolução 001/2002 (art.12, inciso V) do Conselho Municipal de Educação, a articulação fica refém do grau de consciencialização dos profissionais da educação quanto a promover acções para uma transição harmoniosa do aluno e levando em conta as habilidades necessárias para o Ensino Fundamental, pois são capacitados para tal. No que respeita ao modelo de organização vertical da escola em regime de seriação, atendendo a crianças da educação Infantil e primeiras séries do Ensino Fundamental, a maioria dos inquiridos compartilha da ideia de que Assim, o facto de existirem espaços partilhados por docentes de diferentes níveis e os respectivos alunos é facilmente entendido como podendo ser um factor facilitador do aparecimento de projectos educativos comuns. A partilha dos espaços físicos ocasiona conversas informais que, muitas vezes, levam a reunir dois grupos de crianças em torno de uma actividade. (SERRA, 2004, p. 96). Neste sentido, pode-se concluir que a forma como a escola se encontra organizada já é meio caminho andado para a promoção de uma articulação efectiva. Analisando os procedimentos dos professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental para pôr em prática a articulação entre dois subsistemas, constatou-se que no tocante a instrumentos de registo do desempenho/desenvolvimento do aluno utilizados no processo de transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, existe uma certa discrepância na opinião dos inquiridos relativamente aos que vêm sendo utilizados, não obstante a maioria referir o diário do professor. No entanto, houve quem tenha feito referência a outros instrumentos. A discrepância verificada levou a concluir que pode haver falta de uniformidade de critérios no que toca aos 111 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde legas do outro subsistema. No entanto, sempre existe a minoria que nega estabelecer esta comunicação. Tal facto pode pôr em causa a eficácia da articulação, tendo em conta que a relação entre professores, a compreensão do que se realiza na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e também a análise e debate em comum das propostas curriculares para cada uma das etapas, serão facilitadoras da transição e imprescindíveis para a articulação entre os dois subsistemas. Relativamente ao conhecimento dos programas curriculares/conteúdos trabalhados no outro subsistema (Educação Infantil/Ensino Fundamental e vice-versa), a maioria disse dispor desse conhecimento, classificando-o de profundo. Quanto à planificação de actividades/projectos comuns envolvendo professores e alunos dos dois subsistemas, a maioria aponta que a mesma não é feita (cf. Tabela 4). Pode-se concluir que a situação atrás expressa pode pôr em causa a existência de uma articulação efectiva, visto que sendo uma escola organizada em regime de seriação envolvendo os dois subsistemas, torna-se importante a existência de projectos comuns para que cada etapa não funcione como compartimento estanque. Deve-se assumir o compromisso de um trabalho conjunto, que possibilite uma aproximação e que minimize as descontinuidades educativas entre os dois níveis de ensino (SERRA, 2004, p. 90). instrumentos de registo do desempenho/desenvolvimento do aluno e que o acompanham no processo de transição para o Ensino Fundamental, já que as coordenadoras pedagógicas da Secretaria Municipal referem somente o diário da classe (do professor), um documento comum e obrigatório a todas as instituições a preencher pelo professor e controlado pelo supervisor da escola. À questão se os instrumentos contêm informações necessárias para facilitar a integração da criança no Ensino Fundamental, a maioria dos inquiridos disse que sim, justificando que inclui os dados necessários sobre o nível de desenvolvimento do aluno. No entanto, há inquiridos com opinião contrária e que justificam dizendo que as informações contidas são escassas. Isto pode deixar transparecer que nem sempre os instrumentos são preenchidos devidamente e que as informações neles contidas não são tratadas convenientemente, o que pode minimizar a sua importância. No conjunto, os factores apresentados poderão levar a inferir que os professores do Ensino Fundamental não organizem o processo de construção das aprendizagens dos alunos de uma forma sistematizada e científica e levando em conta todo o manancial de conhecimentos que as crianças adquirem na Educação Infantil. No que toca à comunicação entre docentes dos dois níveis de ensino, a maioria dos inquiridos afirma estabelecer contacto/comunicação com os co- 112 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Ao se questionar os inquiridos que leccionam em turmas do Ensino Fundamental sobre a percentagem de aproveitamento dos alunos que frequentaram a Educação Infantil, a maioria aponta que se situa entre os 70 a 100%. Este valor apresenta-se de acordo com a tendência regional no Município de Teófilo Otoni, em que a taxa de aproveitamento nos primeiros anos do Ensino Fundamental tem oscilado entre os 83 a 96%, segundo o Censo de 2008 da SEE, facto que se tem verificado nos últimos quatro anos (de 2005 à presente data). Todos os inquiridos que trabalham com o Ensino Fundamental concordam que o primeiro ano funciona como sendo de transição da criança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, sendo alicerce para os anos subsequentes. Assim sendo, pode-se concluir que a articulação entre a Educação infantil e o Ensino Fundamental influencia o sucesso escolar. disponível que não permitiu fazer um estudo mais aprofundado, questionários preenchidos de forma colectiva e que não espelham a verdadeira percepção individual acerca do assunto em estudo, algum equívoco na interpretação das questões por parte dos sujeitos inquiridos, tendo em conta que não tiveram um contacto directo com o pesquisador. Os dados assim conseguidos constituíram a base da análise já que o interesse científico deste trabalho é o de esclarecer se, de facto, existe articulação, qual o tipo de articulação eventualmente existente, em que moldes é feita, se os instrumentos facilitam a sua implementação e o impacto no sucesso escolar. Assim, pode-se concluir que existe articulação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, na medida em que a forma como a escola se encontra organizada já pressupõe articulação e o quadro legislativo define, claramente, uma articulação curricular tendo em conta os objectivos e os conteúdos de um e de outro subsistema. Ao assumir a articulação como um objectivo da escola, torna-se fácil ao nível das intenções. No entanto, ao nível das práticas existem alguns aspectos que a condicionam, de que se destacam a não uniformidade de instrumentos de registo da evolução dos alunos que os acompanham no processo de transição e que, para alguns docentes, não possuem todas as informações ne- Conclusões Após a análise e discussão dos dados, torna-se importante apontar algumas conclusões, tendo como pressupostos básicos as hipóteses levantadas no início do estudo e pese embora as limitações a que esta pesquisa foi sujeita e que se prendem, essencialmente, com o défice de conhecimento da realidade educativa do Município de Teófilo Otoni, o tempo 113 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde cessárias para facilitar o processo, alguma falta de comunicação entre docentes de níveis docentes, visto que existem alguns que negam qualquer contacto ou comunicação com colegas do nível de ensino antecedente ou subsequente, agravado pelo desconhecimento do programa curricular do nível diferente (E. Infantil/ E. Fundamental e vice-versa) por alguns docentes. Outrossim, resultados demonstram que não são planificados projectos/actividades comuns envolvendo professores dos dois níveis de ensino e dos respectivos grupos de alunos. Havendo algumas actividades comuns, são realizadas esporadicamente, embora na elaboração do horário possa ter havido a preocupação em promover momentos de intercâmbio entre alunos e professores dos dois subsistemas, particularmente nos momentos de intervalo. Esse conjunto de factores, aliado a alguma renitência dos professores e que limita a articulação com sucesso entre os dois níveis de ensino, leva a concluir que se trata de uma articulação efectiva reservada, Os dados obtidos não permitem tirar conclusões assertivas relativamente ao impacto da articulação entre a Educação Infantil (Pré-escolar) e o Ensino Fundamental no sucesso escolar dos alunos do primeiro ano. Contudo, segundo os dados recolhidos, os alunos que frequentam a Educação Infantil apresentam resultados escolares superiores aos que não a frequentaram, com taxa de aproveitamento situada entre os 70 a 100%. De qualquer modo, são visíveis os benefícios da articulação para o sucesso escolar dos alunos. Pode-se concluir também que, com a implementação do primeiro ano do Ensino Fundamental como sendo de transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, a taxa de aproveitamento nas primeiras séries do Ensino Fundamental aumentou significativamente nos últimos anos. Na opinião dos profissionais, o primeiro ano do Ensino Fundamental tem a função de articular os dois subsistemas, no intuito de diminuir as diferenças entre as duas etapas, sendo a base para o sucesso escolar. Estabelecendo uma correlação com a realidade cabo-verdiana, com particular incidência na Ilha de São Vicente, pode-se concluir que existem semelhanças e diferenças entre as duas realidades no que toca à Educação Infantil, em particular a sua articulação com o Ensino Fundamental. De um modo geral, destacam-se os seguintes aspectos da realidade caboverdiana com semelhanças com a realidade de Teófilo Otoni: caracterizada por uma atitude menos voluntária, mais expectante, não se empenhando todos os recursos e vontades, colocando-se numa posição de expectativa, ou seja, esperando que algo aconteça. Admite-se que, pontualmente sejam tomadas decisões conjuntas entre docentes dos dois níveis, quando razões muito fortes assim o obriguem. (SERRA, 2004, p. 89). 114 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde É na década de 90 que a Educação Infantil aparece expressa na Lei de Directrizes e Bases (Lei de Base do Sistema Educativo) em Cabo Verde, especificando os seus objectivos; Se no âmbito das intenções podem ser encontrados pontos em comum, no que diz à prática docente isto já não acontece. São vários os aspectos que colocam em causa esta articulação, dos quais destacamos: É definida como a primeira etapa da educação básica e devendo ser da tutela dos municípios; A falta de colaboração entre professores responsáveis pelos dois níveis de ensino; Não tem carácter obrigatório; Tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, completando a acção da família e da comunidade. O não funcionamento das escolas em regime de seriação (Educação Infantil e Ensino Fun damental desenvolvidos dentro do mesmo estabelecimento escolar); No que toca às diferenças, destacam-se: Em Cabo Verde (São Vicente) a maior parte das instituições ligadas à Educação Infantil pertence a privados; O funcionamento isolado das coordenações pedagógicas; Apesar de nos últimos anos se assistir, no país, à abertura de cursos de educadores de infância de nível médio e superior, em Cabo Verde ainda existe um número significativo de docentes sem formação a trabalhar nessas instituições e os que a têm continuam a auferir salários precários devido ao não enquadramento profissional estabelecido no Estatuto do Pessoal Docente do Ministério da Educação; O desconhecimento mútuo das respectivas práticas educativas; A inexistência de uniformização de critérios para a elaboração de fichas de registo do percurso das crianças do Pré-escolar; A desvalorização e os preconceitos relativamente ao trabalho de cada um dos dois níveis; No que toca ao processo de articulação, o único aspecto que se pode considerar semelhante é na vertente legislativa, em que se define claramente uma articulação curricular tendo em conta os objectivos e os conteúdos de um e de outro subsistema. O baixo rendimento escolar nos primeiros anos do Ensino Básico (E. Fundamental). 115 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação e Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação de Infância: Introdução. Brasília: MEC/SEF, 1998, pp. 23-24. CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Resolução nº 001 de 1 de Fevereiro de 2002. Regulamenta a Educação Infantil no Sistema Municipal de Teófilo Otoni. KRAMER, Sónia. As crianças de 0 a 6 anos nas políticas educacionais no Brasil: educação infantil e fundamental. Educação e Sociedade, 96-Especial, vol. 27, Out. 2006, pp. 797-818. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000300009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 18.08.2009. SERRA, Célia. Currículo na Educação Pré-escolar e articulação curricular com o 1º ciclo do Ensino Básico. Porto: Porto Editora, 2004. TORRINHA, Francisco. Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Editorial Notícias, s/d. VASCONCELOS, Tereza. Transição Jardim-de-Infância - 1º ciclo: Um campo de possibilidades. Caderno de Educação, 81, Ago. 2007, pp. 44-46. Disponível em: <http://www.portaldacrianca.com.pt/artigosa.php?id=89>. Acesso em: 18.11.2008. 116 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde O CAMPO DAS ONDAS OCEÂNICAS NA REGIÃO DO ARQUIPÉLAGO DE CABO VERDE 1 Nereida Simone Rodrigues Évora Departamento de Engenharias e Ciências do Mar Universidade de Cabo Verde RESUMO A modelagem de fenómenos naturais é uma das tarefas mais desafiadoras da computação científica, sendo partde deste desafio a simulação de ondas oceânicas. O presente trabalho inicia uma linha de pesquisa de modelagem e previsão de um fenómeno natural, buscando simular o comportamento das ondas oceânicas, processando todo o cálculo geométrico e renderização no MatLab. Com o processamento do MatLab é possível utilizar técnicas avançadas de renderização que fornecem imagens em tempo real e com grande realismo. Uma breve revisão dos tipos de modelos de ondas existentes na literatura é efectuada, bem como o procedimento formal para a execução de um sistema de previsão de ondas por ensemble (SPOE), usando perturbações dos ventos de superfície e do espectro de ondas. O modelo utilizado, WAM, foi a primeira tentativa de implementação de um modelo de terceira geração e inclui advecção, empinamento, geração de onda por vento, dissipação por quebra de onda e interacções não lineares, todas elas parametrizadas por uma forma preestabelecida de distribuição espectral de energia de ondas. Os resultados mostraram que o modelo é capaz de reproduzir as situações estudadas, pois trabalhos do tipo já foram outrora desenvolvidos em outras coordenadas e mostrou-se sempre a mesma confiabilidade na concepção dos resultados. Palavras-chave: ondas oceânicas; modelos de ondas gerados pelo vento; previsão de ondas por ensemble; WAM. 1 Este trabalho foi orientado pelo Professor Doutor Leandro Farina, no Laboratório Integração de Computação Científica do Instituto de Matemática, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e teve o apoio da CAPES. 117 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Introdução das de uma região e a capacidade de previsão do estado de agitação marítima é de fundamental importância para todas as actividades ligadas ao oceano. As ondas presentes num determinado local, próximo à costa ou em mar aberto, podem ser classificadas em vagas e marulho (ou ondulações). Vagas são ondas que ainda se encontram na zona de geração sendo capazes de receber energia do vento. Já o marulho é constituído por ondas que, ou se propagam para fora da zona de geração original e/ou não são mais capazes de receber energia do vento. Em inglês, os termos para vaga e marulho são wind-sea ou sea e swell, respectivamente, e são sobejamente conhecidos e utilizados. Nas últimas décadas as previsões atmosféricas e oceanográficas obtiveram grandes benefícios devido a avanços provenientes da tecnologia computacional, sensoriamento remoto e ao aparecimento de modelos matemáticos mais sofisticados. Apesar disso, os correspondentes avanços não foram tão significantes como esperados no que se refere à habilidade de prever os comportamentos do tempo e dos oceanos. Isso acontece, devido à não linearidade de modelos atmosféricos capazes de produzir resultados de curto e médio prazo que são qualitativamente distintos, se existirem pequenos erros nas condições iniciais. A previsão numérica por ensemble é um método utilizado visando Ondas são definidas como perturbações na interface entre dois meios de densidades distintos. As ondas oceânicas de superfície, por sua vez, são perturbações na camada superficial dos oceanos causadas pelo vento oriundo das variações de pressão atmosférica. Na interface atmosferaoceano o vento transfere energia para a superfície do oceano através do atrito entre as camadas, movimentando as partículas de água, as quais assumem trajectórias circulares em águas profundas e elípticas em águas rasas, nestas últimas devido ao atrito com o fundo. Uma vez geradas, as ondulações adquirem vida própria, sendo capazes de propagar-se por grandes distâncias da zona de geração com pouca diminuição de gravidade, podendo percorrer distâncias comparáveis à metade da circunferência da Terra. Entre os diferentes tipos de ondas que acontecem no oceano encontram-se as superficiais de gravidade que são geradas pelo vento, as quais possuem como força restauradora a gravidade. São as principais e mais constantes formas de transporte de energia no mar, desempenhando um papel predominante na determinação das feições costeiras e constituindose na mais efectiva ameaça às obras costeiras, à segurança da navegação e às operações navais. Pode-se dizer que o conhecimento do clima de on- 118 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Objectivos melhorar o desempenho de modelos físico-matemáticos que são capazes de prever o tempo e o clima. Partindo do pressuposto de que sempre existem erros nas observações que são utilizadas e munidas a um modelo, a ideia de uma única e determinística previsão se torna questionável. Porém, ao se utilizar um conjunto (ou ensemble) de condições iniciais ou até de modelos perturbados contendo erros ou parâmetros que representam as incertezas das medições, é possível obter informações sobre o comportamento das soluções do modelo, a geração de possíveis eventos diferentes e probabilidades associadas a eles fornecendo-nos uma maior confiabilidade da previsão final. O objectivo deste trabalho é estudar alguns casos de estado do mar na região próxima ao arquipélago de Cabo Verde, utilizando para isso um modelo de ondas de terceira geração desenvolvido por K. Hasselmann e outros pesquisadores no Instituto Max-Plank para Meteorologia (MaxPlank-Institut fur Meteorologie) em Hamburgo, na Alemanha. A seguir, serão apresentados os objectivos gerais e específicos, os conceitos teóricos sobre modelagem de ondas e os diferentes tipos de modelos de ondas gerados pelo vento existentes na literatura. Logo após, será paresentada a metodologia utilizada para a realização deste trabalho, bem como os resultados e a discussão dos mesmos. Objectivo geral Em termos gerais, pretendeu-se com este trabalho desenvolver a capacidade profissional da estagiária (autora deste trabalho) tanto a nível relacional como científico-profissional; vincular os conhecimentos teóricos com a prática; adquirir novos conhecimentos e socializá-los com a comunidade científica, além de aprender a conviver em uma cultura diferente da cabo-verdiana. Objectivos específicos Os objectivos específicos foram: (1) incentivar e preparar a estagiária a usar o aplicativo MatLab como ferramenta para visualização e análise de dados atmosféricos e oceanográficos; (2) calcular e analisar a distribuição de médias das variáveis altura significativa de ondas, período de pico e altura de marulho na região próxima ao arquipélago de Cabo Verde no período de um ano, através de dados gerados pelo modelo de onda WAM. Método Nesta sessão serão apresentados conceitos sobre o modelo WAM bem como a metodologia usada para a realização do trabalho. 119 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Procedimento de vento faz com que a maioria dos modelos de onda sejam operados por agências meteorológicas. Na verdade, a qualidade dos dados meteorológicos é crucial para que os resultados sejam significativos. Para forçar o modelo de ondas, deve-se obter campos de vento cronologicamente sucessivos em toda a malha. Como na prática tais campos não podem ser medidos directamente, pois dessa forma somente seriam obtidas as condições instantâneas, torna-se necessária a utilização de modelos atmosféricos para esse fim. Porém, nesse caso, as medições também são importantes, sendo utilizadas tanto na calibração, quanto na verificação dos resultados. As aplicações de um modelo de ondas, no entanto, não estão restritas apenas à prognose. Forçados por dados pretéritos de vento, colectados por períodos suficientemente longos, os modelos podem auxiliar nos estudos relacionados à erosão costeira e transporte de sedimentos, estimativa da energia, projectos de portos e estruturas costeiras e oceânicas como plataformas de exploração de petróleo. Tal técnica é denominada hindcast. Outra utilização dessa técnica é a reconstituição de eventos extremos, como furacões ou tempestades, ou peculiares, como no presente estudo. Revisão de modelagem de ondas A problemática dos estudos de ondas vem despertando interesse de estudiosos desde a antiguidade, tais como Aristóteles, Leonardo da Vinci e Benjamin Franklin. Até aproximadamente o início da década de 40, a única forma que os navegantes tinham para descrever o estado do mar era a escala Beaufort criada pelo almirante inglês Francis Beaufort em 1805 e adoptada pela Marinha inglesa em 1834. A escala relaciona a intensidade de vento com a força do mar através da fórmula: U=1,87. B3/2; onde U é a intensidade do vento em milhas marítimas por hora (nós) e B é o factor Beaufort que caracteriza o estado do mar. Tal escala é até hoje aceita internacionalmente. Logo depois, durante a Segunda Guerra Mundial, Sverdrup e Munk desenvolveram o Método da Onda Significativa e realizaram as primeiras previsões de ondas em 1943, sendo os resultados divulgados em 1947. Desde então, modelos de previsão de ondas vêm sendo desenvolvidos e utilizados operacionalmente por diversas instituições de pesquisa e organismos internacionais, em especial na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. A dependência dos dados Tipos de modelos A primeira tentativa de desenvolvimento de um modelo de previsão de 120 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde mento das ondas, pois, além de superestimar a entrada de energia pelo vento também subestima a interacção não linear entre as ondas na região de alta frequência. Já nos modelos de segunda geração, a interacção não linear é representada através de parametrizações, o que impede o crescimento independente dos diversos componentes do espectro. Os modelos dessa classe, chamados acoplados, podem ser subdivididos em híbridos e discretos. Nos modelos híbridos, utiliza-se a característica de que a forma do espectro da região das vagas é quase constante para uma grande variedade de situações de geração, com diferenças apenas nas escalas de frequência e energia. Com isso, pode-se representar a evolução das vagas através de um ou mais parâmetros adimensionalizados em função da aceleração da gravidade e intensidade de vento. Por exemplo, a energia pode ser adimensionalizada como ondas baseado na equação diferencial de transporte de escalares, nesse caso, energia, foi realizada por Gelci, em 1957, que utilizou expressões empíricas para a determinação da evolução espectral, devido à falta de teorias adequadas. A partir dos trabalhos de Phillips (1957) e Miles (1957) sobre a transferência de energia entre a atmosfera e o oceano, e o estudo de Hasselmann (1962) sobre a função de transferência não linear de energia entre ondas foi possível estabelecer uma formulação como a actualmente utilizada. Modelos de ondas podem diferir em vários aspectos, como a representação do espectro ou a representação das fontes e sumidouros de energia. Nos modelos desacoplados ou de primeira geração, cada componente do espectro de energia se propaga com sua própria velocidade de grupo, desenvolvendo-se independentemente das demais, até um nível individual de saturação. Tal nível pode ser representado pela energia do espectro de um mar plenamente desenvolvido, usualmente o espectro de Pierson-Moscowitz. A interacção não linear é desprezada ou, se parametrizada é pouco significativa, sendo representada de uma forma simples. Modelos dessa classe foram utilizados com sucesso ao longo de diversos anos por diversas instituições, incluindo a Marinha americana. A principal fonte de erros desses modelos parece ser a subestimação do cresci- ε= ou ε = / / onde é a energia total, g a aceleração da gravidade, a velocidade do vento a 10 m e é a velocidade de fricção. Caso outros parâmetros sejam acrescentados, como, por exemplo, a energia total ( ), a frequência de pico ( ) ou o parâmetro de Phillips 121 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde ção não linear em relação ao espectro de ondas pode, inclusive, induzir formas irreais do espectro. Alguns modelos discretos utilizam como parametrização da interacção não linear uma redistribuição de energia baseada em um espectro de forma já determinada. Outra modalidade de parametrização é uma combinação entre um espectro de desenvolvimento em pista limitada e um espectro exponencial tipo Miles. As principais deficiências dos modelos de segunda geração residem na dificuldade de representação de mares complexos gerados por rápidas alterações na direcção do vento. Seguindo a proposta do grupo SWAMP (Sea Wave Modelling Project), a evolução dos modelos, isto é, a terceira geração, deveria ser o desenvolvimento de um modelo em que a integração da equação básica de transporte pudesse ser realizada sem restrições quanto à forma do espectro. O modelo Exact-NL calcula a integral tridimensional com base em técnicas computacionais bastante eficientes. No entanto, está restrito a situações simples, em apenas um ponto, não sendo operacionalmente viável devido à grande demanda de tempo computacional. O modelo WAM (Wave Model), criado pelo grupo WAMDI (Wave Model Development and Implementation Group), foi a primeira tentativa de implementação de um modelo de ondas operacional de terceira geração, (α), o desenvolvimento das vagas será dado por um sistema de equações, uma para cada parâmetro. Os principais problemas neste tipo de modelo surgem na interacção entre vagas e marulho, quando a interacção não linear não é desprezível, nem dominante. Isso acontece quando há uma diminuição na intensidade do vento ou uma alteração brusca de sua direcção, fazendo com que as vagas evoluam para marulhos. Ou no caso oposto, quando o marulho atinge uma região em que a intensidade do vento é suficientemente alta, tornando-se vagas abruptamente. Portanto, um modelo híbrido poderia ser descrito como a combinação entre um modelo paramétrico de vagas e um modelo desacoplado para o marulho, tendo como vantagem o baixo custo computacional para operação. Nos modelos discretos, todo o espectro é representado em frequências discretas, o que, ao menos teoricamente, eliminaria os problemas de interface vagas-marulho, além de mais claro, conceptualmente, é de mais simples implementação, devido à maior flexibilidade de representação do espectro das vagas e da uniformidade da representação da região de transição entre os domínios das vagas e do marulho. Embora essa representação discreta do espectro seja a principal diferença para os modelos híbridos, ela pode não ser tão evidente ou vantajosa. O menor número de variáveis utilizadas na parametrização da interac- 122 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde e dissipação de energia. O primeiro, baseado em estudos de Chalikov e Belevich, pode, inclusive, tornar-se negativo, isto é, tornar-se sumidouro, em situações de ângulos grandes entre as direcções da onda e do vento ou em caso da onda tornar-se mais rápida que o vento. A dissipação, que, segundo os mesmos autores, é o termo sobre o qual menos se conhece, é dividida em dois constituintes. Uma para frequências próximas e abaixo da frequência de pico, descrita de forma análoga à perda de energia por turbulência, e outra, diagnóstica, para a região de equilíbrio, onde é assumido um balanço quase constante entre as fontes para o regime correspondente. Os resultados indicam que o desempenho do modelo é excelente em pequenas pistas, onde o WAM subestima a energia, e comparável ao do WAM em pistas médias e longas, tendo a vantagem adicional de ser menos susceptível a erros numéricos. no qual basicamente eram utilizadas duas condições: a parametrização exacta da fonte de transferência não linear de energia com o mesmo número de graus de liberdade do espectro e a especificação de uma função representativa da dissipação que feche o balanço de energia. A interacção não linear, como acima mencionado, é parametrizada, de forma a reduzir o esforço computacional, permitindo sua operacionalização. A versão para água rasa, como no modelo WAM, inclui ainda, entre outras implicações, termo de fricção com o fundo, alteração da expressão da velocidade de grupo, alteração na parametrização do fornecimento de energia pelo vento e efeitos de refracção pela variação da profundidade. Estudos recentes mostraram ainda que as principais fontes de erro dos modelos em geral, incluindo o WAM, residem na parametrização dos termos de fonte e dissipação de energia. O WAM é utilizado operacionalmente, entre outros, pelo ECMWF (European Centre for Medium-Range Weather Forecasts) e tem obtido sucesso na predição de alturas significativas e períodos. Um outro modelo que utiliza a mesma forma de cálculo de interacção onda-onda proposta por Hasselmann, podendo, por isso, ser classificado como de terceira geração, é o WAVEWATCH. As diferenças principais entre este e o WAM residem nas parametrizações dos termos de fonte Descrição do modelo utilizado Foram utilizados os dados gerados pelo modelo de ondas Wave Model (WAM). Este modelo tem sido difundido em diversas instituições mundiais e utilizado tanto para pesquisa quanto para aplicações operacionais. O modelo resolve a evolução do espectro bidimensional de ondas superficiais através da integração da equação do transporte de energia. Pode ser usado em grade regional ou global, 123 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde para águas rasas ou profundas, com a inclusão do efeito da refracção ou sem ela, e permite a utilização de um conjunto de dados batimétricos previamente estabelecidos. Os termos relativos à fonte e à propagação são computados com diferentes métodos e intervalos de tempo. Subgrades podem ser utilizadas em um modo aninhado, ou seja, as informações do espectro geradas pela rodada de uma grade de maior escala são incorporadas como condições de contorno para a grade de menor escala. WAM é governado pela equação do balanço que descreve a evolução da densidade de energia das ondas, ou o espectro de ondas. Esta equação pode ser representada da seguinte forma: = + + Para resolver a equação, o espectro F em um tempo inicial e o campo de vento para todo o tempo devem ser prescritos. Um dos parâmetros mais analisados obtidos da solução do problema modelado é a altura sig, definida como nificativa de ondas a altura média do um terço das ondas mais altas. Pode-se mostrar que = onde E representa a energia total de ondas em uma posição x e para um tempo t, e é dada pela integral E . + . , sobre as frequências f e direcções θ de ondas. Com o objectivo de integrar-se no tema da pesquisa, primeiramente realizou-se um levantamento bibliográfico, onde a estagiária pôde ter conhecimento de alguns projectos outrora desenvolvidos pelo orientador no que toca a modelagem e previsão de ondas oceânicas. Basicamente, o mês de Agosto foi disponibilizado para análise bibliográfica, através de leitura e secções de esclarecimento realizadas pelo orientador. O tratamento e a análise dos dados foram realizados no software MatLab, devido a habilidade do pro- Aqui, = , , onde F é o espectro de ondas e é velocidade de grupo. O lado direito da equação do balanço contém os termos fonte onde: descreve a geração e crescimento de ondas devido ao vento, representa as interacções não-lineares entre conjuntos de quatro ondas ressonantes e fornece a parametrização da dissipação de ondas causada por fricção com o fundo e por quebra de ondas e águas profundas. 124 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Resultados grama no tratamento com vectores e matrizes. Primeiramente houve algumas aulas de esclarecimento referentes ao programa, para que a estagiária pudesse assimilar algumas rotinas básicas indispensáveis para a realização desse trabalho. Com a ajuda do orientador e da orientanda de mestrado em Geociências, Cláudia Klose Parise, começaram as sessões de tratamento de dados e posterior visualização das figuras no MatLab. Os dados de saída do modelo de onda WAM foram fornecidos pela aluna Cláudia que os gerou como parte da sua dissertação de mestrado na UFRGS. Os arquivos de saída do modelo WAM compreenderam 1 ano de dados, de Junho de 2006 a Julho de 2007, e foram apresentados em formato binário (. bin e. ctl) os quais foram importados para o MatLab com a ajuda da rotina ‘read_grads.m’. Posto isso, calcularam-se as médias das variáveis estabelecidas inicialmente nos objectivos, bem como a análise e discussão dos resultados espaciais gerados pelo modelo WAM a partir de campos de tensão do vento localizados entre as latitudes 40°N e 20°S e as longitudes de 10°E à 60°W, respectivamente. Após analisar o comportamento médio das ondas na região próxima a Cabo Verde, repetiu-se o mesmo procedimento de tratamento dos dados para o domínio de todo o Oceano Atlântico. Este trabalho centralizou-se em dois estudos; primeiramente, estudou-se o estado do mar nos arredores do arquipélago de Cabo Verde e, em seguida, no domínio do Oceano Atlântico para o mesmo período compreendido entre Junho de 2006, às 03:00 horas GMT, e Julho de 2007, às 03:00 horas GMT. Na Figura 1 são visualizados os campos de altura significativa de ondas, altura de marulho e de vagas, período de pico, bem como a direcção e intensidade do vento a 10 metros de altura na região próxima a Cabo Verde. A altura significativa de onda e o swell apresentaram um comportamento médio similar, com as maiores ondas atingindo 3 metros, em águas mais profundas, decrescendo em direcção a águas mais rasas. As wind-sea apresentaram os maiores valores em três centros, dois no Atlântico Norte e um no Atlântico Sul, atingindo a altura máxima de 1 metro. Nota-se com bastante clareza a quase ausência de ondas geradas por vento no local próximo ao Equador. Esse comportamento é explicado pela baixa intensidade do vento nessa mesma região, como pode ser observado na figura do vento a 10 metros. Inclusive, não somente nessa região, mas em toda a grade, o comportamento das ondas sea e do vento foram bastante idênticos mostrando, dessa maneira, que os dados são coerentes e as variáveis interligadas. 125 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Figura 1 – Médias anuais das variáveis analisadas entre Junho de 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde 126 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Na Figura 2 percebe-se que, excepto próximo da África e ao norte de 30°N onde ocorreram ventos de sul, sudeste e sudoeste, houve uma predominância de ventos do quadrante norte, ou seja, de 0 a 120° sob quase todo o domínio. Figura 2 – Altura significativa de ondas e direcção do vento para Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde. 127 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Claramente constata-se pela Figura 3, que devido aos correspondentes ventos de baixa intensidade sobre o arquipélago, as vagas atingem intensidades muito baixas que não ultrapassam 0.5 metro. Figura 3 – Altura significativa das vagas e intensidade do vento a 10 metros de altura para Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde. 128 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Há uma grande presença de marulhos com períodos de pico de grandes intensidades na região, oriundos de tempestades longínquas: conforme mostra a Figura 4. Figura 4 – Altura significativa de marulho e período de pico para Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas próximo ao arquipélago de Cabo Verde. Concluindo esta sessão, a Figura 5 demonstra que houve uma predominância de grandes períodos de pico provenientes do Atlântico Sul, o que não causa espanto, visto que Cabo Verde localiza-se na região de divisa entre os dois hemisférios, recebendo, assim, influências de ambos, bem como do clima local, como exemplo os ventos secos da África que provocam chuvas irregulares e escassas, apesar de o clima ser ameno. 129 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Figura 5 – Médias anuais das variáveis entre Junho 2006 a Julho de 2007 (03:00 horas GMT), ocorridas no domínio do Oceano Atlântico. 130 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Conclusões minadas, possibilitando uma melhor representação de situações de mudanças bruscas de direcção de vento, bem como a interacção entre vagas e marulhos. Aprimoramento em diferentes aspectos da modelagem encontram-se em progresso, particularmente no que se refere ao processo de assimilação de dados, ou seja, na inclusão de dados de ondógrafos e de satélites na execução de modelos. Assim como a previsão de ondas, a interacção bidireccional entre modelos de ondas e outros tipos de modelos, entre os quais os de previsão de tempo, é outro tópico de investigação muito promissor. Sugere-se para trabalhos futuros, um estudo mais aprofundado do tema desenvolvido neste relatório pois, apesar de no arquipélago não se verificarem ocorrências desses eventos extremos, isso ajudaria a prever as ressacas oriundas de vários continentes vizinhos, bem como nos estudos relacionados com projectos dos vários portos e estruturas costeiras existentes no país. O trabalho baseou-se em dados do modelo WAM gerados num período de um ano, mais precisamente de Junho de 2006 a Julho de 2007. Concluiu-se que as aplicações de modelos de ondas não se restringem apenas a previsões de situações futuras, forçando os modelos com condições previstas por análises e previsões. Baseando em dados pretéritos de ventos que são colectados por períodos suficientemente longos, os modelos auxiliam nos estudos relacionados com a estimativa da energia, em projectos de portos e estruturas costeiras e oceânicas, para além de possibilitar a reconstituição de eventos extremos, dentre os quais destacam-se os furacões e as tempestades. A grande evolução dos modelos de terceira geração, como o utilizado no trabalho, deveu-se às trocas de energia entre atmosfera e oceano e entre as próprias ondas, estas parametrizadas sem qualquer tipo de restrição quanto às formas espectrais predeter- 131 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Referências CENTER FOR OCEAN-LAND-ATMOSPHERE STUDIES (COLA). Grads users guide. 2008. Disponível em <http://www.iges.org/grads>. Acesso em 19.08.2009. DOCUMENTAÇÃO DO GRADS. Tutorial. Disponível em <http://www6.cptec. inpe.br/ManualGrADS/index.html.> Acesso em 19.08.2009. FARINA, L. Ondas oceânicas de superfície. SBMAC, 2006. FARINA, L. On ensemble prediction of ocean wave. Tellus 54A, vol. 2, 2002. GELCI, R., CAZAL, H. e VASSAL, J. Prévision de la houle. La m’ethode des densit’es spectroangulaires. Bulletin d’information du Comit’e d’Océanographie et d’Etude des Cotes, vol. 9, 1957, pp. 416-435. HASSELMANN. K. On the non- linear energy transfer in a gravity-wave sprectum. Part 1. General theory. J. Fluid Mech, vol, 12, 1962, pp. 481-500. KOMEN, G. J., CAVALERI, L., DONELAN, M., HASSELMANN, K., HASSELMANN, S. e JANSSEN, P. A. E. M. Dynamics and Modelling of Ocean Waves. Cambridge University Press, 1994. MEI, C. C., STIASSNIE, M. e YUE, D. K-P. Theory and Applications of Ocean Surface Waves. Word Scientific, 2005. MILES, J. On the generation of surface waves by shear ows. 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A – Linha de código utilizado para o cálculo de todas as variáveis temporais, desde Junho 2006 à Julho de 2007. ********************************************************************** clear;clc; %% Le ctl e bin e coloca ‘data’ embaixo de ‘data’, domínio: ATLANTIC for dia=1:30 % número de dias if dia<10 [data, header]=read grads([‘WAM2006’ ‘06’ ‘0’ num2str(dia) ‘030000. ctl’],’swh’); else [data, header]=read grads([‘WAM2006’ ‘06’ num2str(dia) ‘030000. ctl’],’swh’); end for t=1:8; % cada dia tem 8 medidas de ondas p cd pto da grade q são colectadas de 3 em 3 horas; %A partir daqui se faz o recorte ts(:,:,t)=data(312:382,70:130,:,t);%lon= end %Redimensiona o ts de 3D Para 2D M=reshape(ts,4331,8);%linhas=lon*lat; Ms(dia,:,:)=M’; end %% Coloca um dia debaixo do outro dia Mfinal(:,:)=Ms(1,:,:); for dia=2:30 Mb(:,:)=Ms(dia,:,:); Mfinal=[Mfinal;Mb]; end clear M Mb Ms data dia header t ts B – Linha de código que faz a média anual da swh (altura significativa de ondas) em cada ponto da grade, e apresenta a sua imagem. for j=1:4331; mediaswh(:,j)=nanmean(swh_ano(:,j)); end 133 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Mapa_mediaswh=reshape(mediaswh,71,61); clear j mediaswh contourf(Mapa_mediaswh’); grid; colorbar; xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14); ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14); title(‘Média temporal da Altura Significativa de ondas (swh)’,’fontsize’,10); % Coloca * na imagem, como forma de identificar Cabo Verde hold on plot (54.73,87.82,’*w’,’markersize’,8) plot (54.80,90.77,’*w’,’markersize’,8) C – Linha de código que faz a apresentação de todas as imagens das médias anuais, numa só figura. %% Plota as figuras das médias load médias_anuais % subplot 321 contourf(Mapa_mediaswh’); grid; colorbar; ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14); title(‘Média temporal da Altura Significativa (swh)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) % subplot 322 contourf(Mapa_mediahsswell’); grid; colorbar; title(‘Média temporal da Altura de Marulho (hsswell)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) % 134 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde subplot 323 contourf(Mapa_mediahssea’); grid; colorbar; ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14); title(‘Média temporal da Altura de Vagas (hssea)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) % subplot 324 contourf(Mapa_mediapper’); grid; colorbar; title(‘Média temporal do Periodo de Pico (pper)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) % subplot 325 contourf(Mapa_mediaudir’); grid; colorbar; xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14); ylabel(‘Latitude ( ^o )’,’fontsize’,14); title(‘Média temporal da Direcção do vento (udir)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) % subplot 326 contourf(Mapa_mediau10’); grid; colorbar; xlabel(‘Longitude ( ^o )’,’fontsize’,14); title(‘Média temporal da Velocidade do vento a 10m (u10)’,’fontsize’,10); hold on plot (54.5758,104.8711,’*w’,’markersize’,8) plot (54.5851,109.2184,’*w’,’markersize’,8) 135 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Avaliação da experiência pela autora “Falar da minha participação no programa de formação científica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul é a grande oportunidade de agradecer como também destacar o papel imprescindível desse estágio, tanto a nível pessoal como profissional, para mim. Em relação à acolhida, só tenho de agradecer a hospitalidade, simpatia e a grande disponibilidade de todas as pessoas com quem tive a oportunidade de conviver durante esses dois meses. Tanto o pessoal da Reitoria e do Relinter como o da residencial desde a chegada ao Brasil mostraram-se preocupados connosco; prontamente dispuseram-se em nos ajudar em tudo que fosse preciso. No que diz respeito à inserção no programa, devo dizer que inicialmente quando me foi entregue o tema de pesquisa fiquei um pouco preocupada, pois achava que era algo que não estava muito relacionado com o meu curso. Porém, à medida que o projecto se desenvolvia pude constatar que envolvia muito as disciplinas de cálculo e de computação estudadas durante o curso. Mas nada se compara ao imenso apoio que recebi do meu orientador e da aluna Cláudia Klose Parise para superar todas as dificuldades surgidas na elaboração do projecto. Desde o primeiro momento o meu orientador sempre disponibilizou tempo para esclarecer todas as minhas dúvidas, referentes tanto à análise bibliográfica e à concepção do trabalho, bem como na melhor forma de elaborar o relatório final. Por isso, só tenho de agradecer o facto de me ter aceite para orientar-me na pesquisa e por toda a dedicação e apoio que me transmitiu. Tive também a oportunidade de conviver de perto com os alunos brasileiros, pois durante todo o estágio assisti às aulas de Cálculo e Geometria Analítica II leccionadas pela docente Ada Maria Boering. A relação com os alunos foi muito boa e guardo para sempre boas recordações dessa experiência. O pessoal do Laboratório de Integração de Computação Científica (LICC), onde foi realizado o estágio, sempre me ajudou e agradeço muito a alegria e a simpatia que sempre reinaram no local. Iniciativas desse tipo são de louvar, e as minhas únicas sugestões, que no fundo não passam de meros pedidos, é que continuem sempre a existir esses intercâmbios entre universidades brasileiras e cabo-verdianas para que outros alunos possam beneficiar do programa e também que, caso haja possibilidade, atender ao pedido de vários alunos brasileiros com quem tive a oportunidade de conviver nesses meses, de os mesmos poderem frequentar estágios nas universidades cabo-verdianas”. 136 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde ESPECTROSCOPIA DE ABSORÇÃO ATÓMICA EM FORNO DE GRAFITE COM AMOSTRAGEM DIRECTA DE SÓLIDOS E SUA APLICAÇÃO EM AMOSTRAS AMBIENTAIS DE SOLOS E FERTILIZANTES1 Neusa Sanches Departamento de Engenharias e Ciências do Mar Universidade de Cabo Verde RESUMO Este trabalho expõe como a diversidade de fertilizantes disponíveis, resultantes das várias combinações que se podem fazer, variando as proporções de azoto, fósforo e potássio, torna necessário avaliar qualitativa e quantitativamente a presença de alguns elementos químicos tóxicos, tais como chumbo (Pb), arsénio (As) e cádmio (Cd), entre outros, introduzidos por eles no ambiente. Dentre as diversas técnicas para determinação de elementos traços destaca-se a espectrometria de absorção atómica em forno de grafite (GF AAS). Nesse âmbito, no presente trabalho, primeiramente faz-se uma introdução à referida técnica e posteriormente a descrição experimental do desenvolvimento de método analítico para determinação de Pb em amostras de fertilizantes por GF AAS, utilizando a amostragem directa por suspensão. Palavras-chave: fertilizantes; modificadores químicos; amostragem directa; forno de grafite; chumbo. 1 Este trabalho foi orientado pela Professora Dra. Maria Goreti Rodrigues Vale e co-orientado pela Dra. Emilene Becker da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e teve o apoio da CAPES. 137 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Introdução quantitativa desses elementos, como é o caso do As, Bi, Pb, Sb, Se, Sn e Te e Hg (KRUG et al., 2001) de forma a ter uma ideia a nível da sua extensão e, quem sabe assim despertar a atenção das pessoas em relação aos impactos negativos a ele associados que afectam não só os humanos como também os outros elementos da natureza. Apesar de por vezes se apresentarem em concentrações tão baixas que exigem muito rigor na determinação, é possível fazer as determinações destes elementos traço utilizando técnicas analíticas como a espectrometria de absorção atómica com chama (F AAS), a espectrometria de absorção atómica com forno de grafite (GF AAS) ou outras acopladas como o ICP-MS (espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado) ou o ICP-OES (espectrometria de emissão óptica com plasma indutivamente acoplado) fornecendo resultados com elevados índices de sensibilidade, precisão e exactidão (CADORE et al., 2008). No presente relatório, cujo objectivo é expor os resultados conseguidos durante os dois meses nos quais decorreu o estágio de iniciação científica, tem-se primeiramente uma abordagem teórica, introduzindo alguns conceitos associados à espectrometria de absorção atómica e posteriormente os resultados práticos conseguidos. Dessa forma, o mesmo se encontra subdivido basicamente em duas partes, sendo que na primeira se faz uma Actualmente, a nossa sociedade vem enfrentando diversos problemas, um dos quais o da poluição ambiental, causada principalmente pelos produtos químicos que muitas vezes são descartados na natureza sem um mínimo de preocupação acerca dos efeitos que possam causar, tanto por si só quanto por conjunção com outros, com os quais eventualmente terão contacto. Dentre os poluentes químicos que têm chamado bastante atenção ultimamente estão os metais pesados e outros elementos como os metalóides. Os primeiros são definidos como grupo de elementos que ocorrem em sistemas naturais em pequenas concentrações e apresentam densidade igual ou superior a 5 gcm-3 (DUARTE e PASQUAL, 2000), abarcando neste caso os elementos como Cu, Fe, Mn, Mo, Zn, Co, Ni, V, Ag, Cd, Cr, Hg e Pb (JUNIOR et al., 1999). Segundo os mesmos autores, as fontes mais comuns destes elementos tóxicos no ambiente são os fertilizantes, os pesticidas, a combustão de carvão e óleo, as emissões veiculares e outros processos incluindo a mineração, fundição, refinamento e incineração de resíduos urbanos e industriais, a partir dos quais são libertados gases e particulados, contendo, como exemplo, cerca de 33% de Pb. Nas últimas décadas houve uma crescente demanda na determinação 138 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde breve abordagem teórica sobre os conceitos relacionados à técnica de espectrometria de absorção atómica e ao forno de grafite com amostragem directa. Na segunda, têm-se os resultados obtidos experimentalmente no laboratório. Por último, faz-se uma breve conclusão com base nos resultados preliminares disponíveis, obtidos no período de estágio e se referenciam as bibliografias que serviram de base à elaboração do relatório. traços, principalmente no que tange aos cuidados especiais de manuseio, descontaminação de material e preparação dos reagentes empregados na determinação dos metais traços; 4. Colaboração na execução dos sub-projectos integrantes do projecto de “Desenvolvimento de Métodos Analíticos para determinação de metais pesados por GF AAS utilizando análise directa de sólidos em amostras de solos e fertilizantes do Rio Grande do Sul”, particularmente a preparação das curvas de pirólise, atomização e calibração, a determinação das figuras de mérito, o uso de modificadores químicos e as medidas quantitativas; 5. Elaboração do relatório de Estágio. Objectivos Tendo em conta o limite de tempo disponibilizado para a execução do projecto, este teve como principal objectivo a iniciação na técnica de espectroscopia de absorção atómica em forno de grafite com amostragem directa de sólidos e sua aplicação em amostras ambientais de solos e fertilizantes. Para tal, foram estabelecidas algumas metas que são citadas a seguir: Espectrometria de absorção atómica 1. Pesquisa bibliográfica visando actualizar os conhecimentos a nível das técnicas de Espectrometria de Absorção Atómica; 2. Introdução às técnicas instrumentais de análise, conseguida a partir da assistência às aulas teóricas e práticas da disciplina de Química Analítica Instrumental Aplicada; 3. Familiarização em trabalhos de laboratório de análise de Fundamentação teórica A espectrometria de absorção atómica (AAS), uma das técnicas mais utilizadas na determinação de elementos em baixas concentrações, fundamenta-se no princípio básico de que átomos livres no estado gasoso, gerados num atomizador, são capazes de absorver radiação electromagnética de frequência específica, emi- 139 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde tida por uma fonte espectral (WELZ e SPERLING, 2005). A concentração de átomos no estado fundamental é relacionada directamente com a absorção de radiação electromagnética monocromática a partir da combinação das leis de Beer e Lambert, dada por 2005; KRUG et al., 2001). Ele constitui uma parte crucial no instrumento e, consequentemente na técnica, uma vez que da sua eficiência depende a quantidade de átomos no estado fundamental que podem absorver radiação e ser determinada. Os dois tipos de atomizadores mais são usados na espectrometria de absorção atómica são a chama (F AAS), cuja técnica daí resultante é a mais utilizada para análises elementares em níveis de mg/L e o forno de grafite (GF AAS), onde a atomização é electrotérmica (ET AAS), fornecendo vantagens significativas para determinações de baixas concentrações (µg/L) (WELZ, 2005). O monocromador é utilizado para seleccionar uma faixa estreita de comprimentos de onda do feixe incidente, emitida pela fonte de radiação, dentro da qual se situa o comprimento de onda de interesse (HARRIS, 2001). Para evitar que as radiações emitidas pelo atomizador interfiram na quantificação, a radiação da lâmpada de cátodo oco é modulada mecanicamente por um interceptor rotatório (Chopper). Uma válvula ou tubo fotomultiplicador (Figura 1) é usada como detector para detectar a energia radiante (KRUG et al., 2001; HARRIS, 1999) e transformá-la num sinal eléctrico capaz de ser quantificado pelo processador de sinal. Nos equipamentos disponíveis no mercado, este processamento é feito num computador, acoplado ao equipamento, que é equipado com um software que controla o funcionamento do mesmo. , onde A corresponde à absorvância, ε a absortividade molar, b ao caminho óptico e c a concentração do analito que se quer determinar (HARRIS, 1999). Instrumentação Para essa técnica, são comummente utilizados instrumentos designados espectrómetros, cujos componentes básicos incluem uma fonte de radiação, geralmente monocromática, um sistema de atomização, um selector de comprimento de onda, geralmente um monocromador, um detector e um processador de sinal. As três principais fontes mais comuns utilizadas para a espectrometria de absorção atómica nas regiões correspondentes ao ultravioleta e visível do espectro electromagnético são as lâmpadas de cátodo oco (HCL - do inglês Hollow Cathode Lamp, Figura 1), fontes de espectros contínuos (lâmpadas de deutério) e lâmpadas de descarga sem eléctrodos (EDL - do inglês Electrodless Discharge Lamp) (KRUG et al., 2001). O atomizador é um dispositivo onde são gerados os átomos gasosos no estado fundamental (WELZ, 140 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde biente. A dissolução da amostra pode ser feita por via húmida e a temperaturas elevadas, para amostras orgânicas e inorgânicas. Procedimentos por via seca podem ser utilizados para amostras orgânicas e, por fusão para materiais inorgânicos refractários (DAMIN, GORETI et al., 2008). No entanto, técnicas de amostragem directa são também utilizadas, podendo ser empregues amostras sólidas, ou na forma de suspensão. Estas técnicas de amostragem apresentam grande faixa de aplicações abrangendo diversos tipos de amostras, como por exemplo as ambientais, geológicas, biológicas, industriais e géneros alimentícios, oferecendo uma excelente sensibilidade e simplicidade a um custo relativamente moderado (VALE, 2006; ARAÚJO, OLESZCZUK, RAMPAZZO e VALE, 2008; BIANCHIN e VALLE, 2006; DAMIN, 2005; MAGALHÃES e ARRUDA, 1998). Figura 1 – Esquemas ilustrativos de componentes do espectrofotómetro de absorção atómica (da direita para a esquerda) uma lâmpada de cátodo oco e um tubo fotomultiplicador (fonte: KRUG et al., 2001); Espectrometria de absorção atómica em forno de grafite (GF AAS ou ET AAS) Preparação da amostra A preparação de amostras para análise geralmente requer uma etapa de pré-tratamento da amostra onde se faz a homogeneização, dissolução, separação de interferentes e pré-concentracção de analitos. Usualmente as amostras são convertidas em soluções aquosas por meios de procedimentos clássicos, que demandam o uso de reagentes com elevado grau de pureza e alto custo, além de serem laboriosos e por vezes serem nocivos ao meio am- Fundamentação teórica Nesta técnica, um pequeno volume de amostra, geralmente na faixa dos 10 a 50 µL (WELZ, 2005; WELZ e VALE, 2004), é injectado no interior de um tubo de grafite (3 mm d.i. x 5 mm comprimento), ou uma pequena massa (mg) é pesada directamente sobre a plataforma e, então, introduzida no forno. Após a introdução da 141 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde aquecimento a serem aplicados para etapa são características que variam consideravelmente com o tipo de matriz e de analito. Geralmente, matrizes complexas requerem aquecimentos lentos durante intervalos de tempo maiores e as temperaturas devem ser obtidas a valores próximos de 1.000 °C. A etapa de atomização é marcada basicamente pela passagem do analito ao estado de vapor atómico, contudo sem ionizá-lo. A etapa de limpeza tem a finalidade de remover os resíduos da matriz e eliminar qualquer efeito de memória do analito em análise. Para essa etapa, geralmente são empregues faixas de temperatura por volta de 2.600 ºC, num tempo mínimo para que não ponha em risco o tempo de vida útil do tubo (WELZ, 2005; WELZ e VALE, 2004). Tendo em vista o apuramento das melhores condições para a realização das etapas de pirólise e atomização, são traçadas, então, curvas de pirólise e atomização, nas quais se procuram obter as temperaturas susceptíveis de conferir melhores valores de absorvância, com reduzido sinal de fundo ou background. Uma curva de pirólise corresponde a um gráfico no qual a absorvância integrada é plotada em função da temperatura de pirólise, a uma temperatura de atomização conhecida e constante. Contrariamente, no caso da curva de atomização, a absorvância integrada é medida em função da temperatura de atomização, para uma temperatura de pirólise considerada óptima. amostra (liquida, sólida ou gasosa), o tubo será submetido a um programa de aquecimento no qual o analito presente na amostra é dissociado em átomos gasosos no estado fundamental, que absorverão radiação proveniente de uma linha espectral de comprimento de onda específico. O programa de temperatura permite o pré-tratamento térmico da amostra, sobretudo durante a etapa de pirólise, facilitando a remoção de parte dos concomitantes susceptíveis de provocar interferências durante a atomização. Garante ainda boa selectividade e sensibilidade, além do facto de os problemas relacionados ao sistema de transporte serem praticamente inexistentes, uma vez que o transporte da amostra é feito por amostragem discreta (não depende de nebulizadores para formação de aerossol, como no caso da técnica de F AAS), ou seja, toda a amostra será convertida em átomos gasosos no estado fundamental. Este programa é composto por quatro etapas principais (secagem, pirólise, atomização e limpeza). A primeira etapa consiste na dessolvatação da amostra, ou eliminação do solvente. Para esta etapa, utiliza-se uma temperatura em torno da temperatura de ebulição do solvente, por um intervalo de tempo entre 20 a 40 s, de acordo com o volume injectado. A etapa de pirólise é caracterizada pela destruição e eliminação da matriz, contudo, sem comprometer o analito de interesse. A faixa de temperatura e o tempo de 142 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Além do atomizador de grafite, outros componentes adicionais são os eléctrodos, o sistema de refrigeração e o gás de purga. O tubo de grafite é aquecido transversalmente2 pelos eléctrodos de grafite que, quando sujeitos a um potencial eléctrico geram um fluxo de corrente através do tubo. O sistema de refrigeração, anexado ao suporte onde fica o tubo de grafite, promove o resfriamento do forno entre os ciclos de aquecimento. Um fluxo de gás inerte, normalmente árgon, circunda externa e internamente o tubo durante as etapas de aquecimento. Externamente tem a função de proteger o tubo de grafite do contacto com o ar, para que não ocorra a combustão. Internamente, ele funciona como gás de purga para remover rapidamente os concomitantes da amostra que são volatilizados durante as etapas de secagem e pirólise. O fluxo do gás de protecção é contínuo durante o tempo de uso do forno, enquanto o fluxo do gás de purga é normalmente interrompido durante a etapa de atomização, ajudando a maximizar o tempo de residência dos átomos do analito no volume de absorção (WELZ e VALE, 2004; BEATY e KERBER, 1993). Todo o funcionamento do equipamento é controlado por um software específico. Os erros mais frequentes associados à GF AAS são basicamente devido à contaminação ou perdas por volatilização que podem afectar direc- tamente a exactidão e precisão dos resultados analíticos. Entretanto, por se tratar de uma técnica destinada à determinação de elementos traço e ultratraço, esses erros podem ser minimizados manipulando de forma mínima possível a amostra e utilizando modificadores químicos para o controlo da volatilização (NOMURA et al.; 2008, WELZ, 2005). Modificadores Inicialmente proposto por Ediger em 1975 (MAGALHÃES e ARRUDA, 1998), os modificadores são definidos segundo a IUPAC como reagentes cuja finalidade é influenciar os processos que cuja ocorrência se dá no atomizador, e que quando adicionados ajudam a reter o analito a temperaturas mais elevadas durante a pirólise. Isso, com a finalidade de remover os concomitantes indesejáveis que ficam presentes na matriz ou melhorar a eficiência na atomização (OLESZCZUK, 2008). De acordo com a forma como são empregues, os modificadores químicos são classificados em modificadores químicos convencionais e modificadores químicos permanentes. Os modificadores químicos convencionais são adicionados à amostra, como é o caso da mistura de paládio e magnésio. Por outro lado, os modificadores químicos permanentes são introduzidos no tubo de grafite e sofrem um tratamento térmico adequado ou uma electrodeposição, promovendo 2 O aquecimento transversal permite uma melhor distribuição da temperatura no forno, garantindo uma isotermicidade ao longo das etapas de aquecimento. 143 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde de sólidos quando comparada com a análise de soluções. Já o uso de suspensões, no entanto, reúne as vantagens da análise directa de sólidos com a análise de soluções e permite, por exemplo, o uso de amostrador de líquidos convencional, como o autosampler do GF AAS. As suspensões podem também ser diluídas da mesma forma que as soluções, o que na amostragem directa de sólidos é um problema crítico. a modificação da superfície grafítica e criando um depósito de modificador na plataforma que persiste nela por até 300 ciclos (OLESZCZUK, 2008). São exemplos os chamados metais do grupo de platina, como é o caso do irídio, do ródio e do ruténio (WELZ e VALE, 2004). A escolha e o emprego do modificador devem atender às características específicas de cada amostra e para cada analito. Amostragem directa Calibração A GF AAS apresenta características que a elegem como uma das técnicas mais adequadas para análise directa (SS) (VALE, 2006; NOMURA et al., 2008). Welz e Vale (2004) Apontaram algumas razões para a análise directa de amostras sólidas sem o recurso à digestão ou dissolução prévia da amostra. Entre essas características podese destacar a maior sensibilidade que esta técnica proporciona quando se pretende determinar elementos traço, uma vez que o processo de solubilização causa diluições substanciais que induzem a erros. Também, os autores reportam a redução significativa de tempo do preparo das amostras, aliada à minimização dos eventuais riscos de contaminação inerentes aos reagentes tóxicos utilizados nos processos de preparação das amostras como a digestão ácida e a solubilização. Contudo, alguns problemas são associados a essa técnica como é o caso da baixa repetitibilidade das análises por parte da amostragem directa A calibração constitui uma das etapas críticas de qualquer procedimento analítico, principalmente para a GF AAS, quando se usa a amostragem directa, onde se têm por vezes matrizes bastante complexas e se deseja que os resultados tenham a máxima qualidade possível. Assim sendo, o analista deve usufruir de um método que seja adequado para a construção da curva analítica de calibração, de forma que esta tenha o máximo de linearidade possível nas regiões onde se presume que seja a faixa de concentração ou de absorvância do analito. A escolha do material a ser utilizado para a calibração deve ser o mais próximo possível da composição da matriz na qual o analito está presente, para que se possa ter uma quantidade mínima de interferências daí resultantes. Normalmente são utilizadas soluções de referência ou padrões aquosos. Essa via constitui a forma mais comum, simples e barata 144 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde inferior a 5% (OLESZCZUK, 2008). Ambos são obtidos com base nas medidas do branco analítico. Idealmente, a resposta do branco analítico pode ser conseguida a partir de materiais que possuem composição matricial similar à amostra que está sendo analisada, porém, isento do analito de interesse. Devido às dificuldades na preparação do branco para amostras sólidas analisadas directamente, tendo em conta a complexidade da matriz, a obtenção das medidas do branco é conseguida através da realização de medidas com a plataforma de grafite vazia. Nessas condições, o sinal de absorvância obtido refere-se à “massa zero” e o desvio padrão é o proveniente do “ruído” instrumental (NOMURA et al., 2008). No caso de amostras líquidas ou em forma de suspensão, os limites podem ser calculados de forma similar às soluções, com os brancos analíticos. Conhecendo-se o valor do desvio padrão de 20 medidas do branco analítico (σ), pode-se calcular o limite de detecção do método (LOD) pela equação 3σ/S, e o da quantificação por 10σ/S, na qual S é a inclinação da curva analítica de calibração. Os limites de detecção da GFAAS situam-se na ordem de µg L-1 ou ng g-1 para o caso de amostragem sólida (CADORE et al., 2008). para construir a curva analítica de calibração. Podem ser utilizados materiais de referência certificados (CRM), produzidos por diversas instituições, entre as quais a BCR (“Community Bureau of Reference”, IRMM, Geel, Bélgica) e a NRC (“National Research Council Canada, Institute for Environmental Research and Technology”, Otawa, Ontário, Canadá) (OLESZCZUK, 2008; NOMURA et al., 2008). Entretanto, devem considerar-se algumas limitações inerentes ao seu uso, entre as quais se podem destacar que muitos materiais não são certificados para alguns elementos de interesse e na prática é muito difícil encontrar CRM com composição semelhante à da amostra. Além disso, a maioria dos CRMs comercialmente disponíveis apresenta homogeneidade garantida somente para massas de amostra muito superior àquela praticada em análise directa de sólidos (SS ET AAS). Limites de detecção e quantificação De acordo com a definição da IUPAC, o limite de detecção (LOD), expresso em termos de quantidade de analito, está relacionado à menor resposta que pode ser detectada com razoável certeza por um dado método analítico (NOMURA et al., 2008; DESSUY et al., 2008). O limite de quantificação (LOQ) é definido como a menor massa ou concentração do analito que pode ser determinada quantitativamente, com uma percentagem de erro Massa característica A magnitude do sinal observado para o forno de grafite depende da massa de analito introduzido em 145 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Parte experimental Equipamentos vez da concentração do mesmo na amostra. Como tal, utiliza-se o termo “massa característica”, definido como a massa do analito, em picogramas, requerido para produzir um sinal cuja área do pico seja igual a 0,0044s, valor correspondente a 1% da absorvância integrada (WELZ, 2005; BEATY e KERBER, 1993). Este parâmetro pode ser utilizado como indicador de optimização do instrumento e é dado pela equação As determinações foram efectuadas no Espectrómetro Zeenit 650 P (Analytik Jena, Jena, Alemanha), equipado com um atomizador de tubo de grafite aquecido transversalmente e um corrector de fundo baseado no efeito Zeeman. Este equipamento, possui amostradores tanto para sólidos como para líquidos, possibilitando a análise de líquidos, amostragem di- Método Participantes recta de sólidos e amostragem directa em suspensão. Lâmpadas de cátodo oco de chumbo como fonte de linhas. Os parâmetros instrumentais utilizados estão apresentados na Tabela 1. Participaram do trabalho a autora, como bolsista de Iniciação científica, a orientadora e a co-orientadora, mencionadas acima, além de Aline Borges, doutoranda, executora do projecto “Desenvolvimento de métodos para a determinação de elementos traços em amostras de fertilizantes, solos e plantas utilizando espectrometria de absorção atómica com amostragem directa de sólidos”. Tabela 1 – Parâmetros instrumentais para determinação de Pb. PARÂMETRO Comprimento de onda (nm) Corrente de lâmpada (mA) Largura da fenda (nm) Campo magnético aplicado (T) Pb 283,3 4,0 0,8 0,8 O forno de grafite utilizado foi com plataforma integrada (forno PIN). Como gás de purga, empregou-se o árgon, com grau de pureza de 99,996% (White Martins, Brasil). A vazão do gás foi de 2,0 L min-1, durante todas as etapas, excetuando a de atomização, onde o fluxo de gás foi interrompido. O programa de aquecimento, mostrado Ambiente e aparato O desenvolvimento do projecto decorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na Central Analítica, incluindo as salas CA104, sala de preparo das amostras para análise e CA 106, laboratório de análise de traços por GF AAS. 146 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Limpeza e descontaminação do material na Tabela 2, foi obtido com a amostra de fertilizante N:P:K 4:14:8. A técnica de calibração com padrões aquosos foi usada em todo o trabalho. Os materiais de análise e vidrarias, foram lavados primeiramente com água e detergente, enxaguadas com água destilada para a remoção dos resíduos mais grosseiros, e posteriormente com água milli-Q (água ultra pura) para a remoção dos resíduos que ainda persistiam mesmo após a lavagem com água destilada. Posteriormente, foram mergulhadas em um banho com solução de ácido nítrico bi-destilado3 10% (v/v) por um período de 48 horas, enxaguadas novamente com água milli-Q e colocadas para secar a temperatura ambiente. Tabela 2 – Programa de aquecimento para a determinação de chumbo em amostras de fertilizantes por GF AAS. GF AAS Etapaa Temp / °C Rampa / °C s-1 Patamar /s Secagem 90 5 20 Secagem 120 5 10 Secagem 150 5 20 Pirólise 900 500 30 Atomização 2000 FPb 4 Limpeza 2300 1000 4 Reagentes a Gás de Purga: Argônio (2 L.min-1) b FP = Potência máxima (do inglês: full power). As soluções utilizadas foram preparadas a partir de reagentes de elevado grau analítico. A água foi purificada por um sistema Milliq-Plus (Millipore, Bedford, MA) acoplado a um destilador de água de vidro modelo 534 (Fisatom, Brasil), sendo utilizada tanto para preparo de reagentes como limpeza e descontaminação do mateiral. O ácido nítrico concentrado (Merck, Alemanha) foi bi-destilado em um destilador de quartzo (Kürner Analysesentechnik, Rosenheim, Alemanha). Utilizou-se para o preparo das soluções analíticas (em 0,014 M HNO3) uma solução estoque de 1.000 ppm de Pb (SpecSol). Foram usados ainda, um moinho vibratório modelo Pulverisette 0 (Fritsch, Alemanha) equipado com bolas de aço para a moagem das amostras, uma peneira de 45 µm para a homogeneização da mesma, um banho de ultrasom (Unique, SP, Brasil) e uma microbalança M2P (Startorius, Göttingen, Alemanha), com precisão de 0,001 mg. Um destilador de água de vidro, modelo 534 Fisatom (Brasil), um sistema MilliQ-Plus (Millipore, Bedford, MA) para destilação de água e um destilador de quartzo Kürner Analysentechnik (Rosenheim, Alemanha) para destilação de ácidos também foram utilizados. 3 A bidestilação tem como função básica aumentar o grau de pureza do ácido. 147 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde O modificador nitrato de amónia (NH4NO3) e paládio (Pd) foi obtido, preparando-se uma solução de 5% (m/v) de NH4NO3, 0,1% (m/v) Pd em Triton X-100 0,05% (v/v), enquanto o modificador Pd/Mg foi preparado em solução com 0,1% (m/v) de Pd e 0,06% (m/v) de Mg. A solução do diluente para o preparo da suspensão foi a mistura de soluções de ácido nítrico 5% (v/v), etanol 10% (v/v) e Triton X-100 0,05% (v/v). As amostras utilizadas foram o fertilizante (composição N:P:K 4:14:8), a ureia e o calcário. na forma de suspensão, foi transferida para o banho de ultra-som. Após um período de 30 minutos, a determinação de Pb é realizada por GF AAS. Resultados e discussão Estudo da determinação de Pd por GF AAS utilizando os modificadores químicos Pd/Mg e NH4NO3/Pd Curvas de pirólise e atomização A obtenção dos valores de temperatura óptima para a pirólise e para a atomização na determinação de elementos geralmente é feita a partir da literatura ou de dados experimentais. Para a determinação da curva de pirólise do chumbo, fixou-se a temperatura de atomização em 2.000ºC e fez-se a medição dos valores da absorvância integrada, variando as temperaturas de pirólise entre 300 a 1.250ºC, para o padrão de chumbo e, entre 300 e 1.300ºC para a amostra de fertilizante 4:14:8, utilizando ambos modificadores investigados neste trabalho, PdMg e NH4NO3-Pd. Pelas curvas de pirólise obtidas para ambos os modificadores (Figuras 2 e 3), pode-se ver que a temperatura de pirólise que confere um valor de absorvância maior para o Pb utilizando como modificador químico a mistura de paládio e magnésio (fig. 2) corresponde a 1.050°C para o padrão e 900°C para a mostra. Entretanto, a temperatura de pirólise adoptada para Preparação da amostra O “preparo”4 das amostras de fertilizantes incluiu apenas uma etapa inicial de moagem que compreende três ciclos de vinte minutos cada, num moinho vibratório de bolas. Após, a amostra moída é passada por uma peneira de 45µm e, de seguida é levada à estufa (por uma hora) para o processo de secagem. Terminado o processo de secagem na estufa, a amostra é conservada num dessecador para a remoção da humidade, que poderá afectar a precisão da análise. Uma porção de 20 mg de amostra foi pesada, em balança de precisão 0,001 mg, em um vial (recipiente para utilização no amostrador automático do GF AAS). Adicionou-se 1 mL de solução do diluente e, então, a amostra 4 A amostragem directa não requer o preparo da amostra. Caso for necessário algum preparo prévio, ele deverá ser mínimo. 148 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Absorvância Integrada (s) o estudo da massa do modificador e a quantificação foi de 900°C, uma vez que, apesar de ser o segundo valor de temperatura que apresentou melhores valores de absorvância, possui o melhor perfil de pico tanto para o padrão como para a amostra de fertilizante usada como teste. A temperatura de 1.000°C não foi escolhida por causa da preservação do forno com menores temperaturas. No caso do modificador nitrato de amónio-paládio (Figura 3), observase que a temperatura de pirólise que apresenta maiores valores de absorvância, assim como o modificador PdMg é 900°C. Optou-se por utilizar esta temperatura pelos mesmos motivos anteriores: aumento de sensibilidade, diminuição do background e um adequado formato de pico. Também para preservar o forno. Além do mais, podese ver que a partir desse de 1.000°C, os valores de absorvância começam a diminuir. Em relação à curva de atomização, quando se utilizou o modificador PdMg, verifica-se que a temperatura de 2.000°C é a que apresenta melhores resultados tanto para o padrão como para a amostra, no sentido de aumento de sinal de absorvância do Pb. Nessa temperatura, também os picos tem um formato mais gaussiano. Com o modificador NH4NO3-Pd observa-se comportamento semelhante a estabilização do sinal de absorvância do Pb para a amostra e padrão. Melhores resultados foram obtidos com a temperatura de 2.000°C. 0,25 Padrão 0,20 0,15 0,10 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 Temperatura (°C) Absorvância Integrada (s) 0,15 4:14:8 0,10 0,05 0,00 400 800 1200 1600 2000 Temperatura (ºC) Figura 2 – Curvas de pirólise e atomização utilizando 1 ng do padrão aquoso de Pb e 0,6 mg de amostra de fertilizante (4:14:8) na forma de suspensão e 10 µg de Pd + 6 µg de Mg na presença de Triton X-100 como modificador químico: ■ – curva de pirólise; ● – curva de atomização. Tp: 900°C; Ta 2.000°C. 149 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Estudo da massa do modificador Padrão Absorvância Integrada (s) 0,3 0,2 0,1 0,0 300 600 900 1200 1500 1800 2100 Temperatura (ºC) 0,20 Absorvância Integrada (s) 4:14:8 0,15 0,10 0,05 0,00 300 600 900 1200 1500 1800 Temperatura (ºC) Figura 3 – Curvas de pirólise e atomização utilizando 1 ng do padrão aquoso de Pb e 0,6 mg de amostra de fertilizante (4:14:8) na forma de suspensão e 500 µg de NH4NO3 + 10 µg Pd na presença de Triton X-100 como modificador químico: ■ – curva de pirólise; ● – curva de atomização. Tp: 1.000°C; Ta 2.000°C. Tendo estabelecidas as temperaturas de pirólise e atomização, fizeram-se diversas medições de absorvância da amostra e do padrão, utilizando diferentes massas de modificadores, como forma de definir a quantidade de modificador que fornece melhores resultados. A selecção da quantidade do modificador foi feita com base no aumento de sensibilidade (aumento de sinal de absorvância) e também com base nos perfis dos picos obtidos para o padrão e a amostra de fertilizante. Variou-se a massa de modificador levando em consideração também o volume de solução adicionado à amostra e que o volume final máximo fosse 40 µL dentro do tubo de grafite. Os resultados podem ser observados para ambos modificadores na Figura 4 (a e b). A quantidade do modificador Pd-Mg escolhida para o prosseguimento das medidas foi de 10 µL de modificador, correspondente à proporção em massa de 10 µg de Pd e 6 µ de Mg. Isto porque foi esta proporção deste modificador que propiciou maiores valores de absorvância, com correspondentes valores de desvio menores, além de melhores perfis de picos (Figura 4a). Para o modificador NH4NO3-Pd, a quantidade de modificador escolhida foi também 10 μL, correspondente a uma proporção, em massa de nitrato de magnésio e a do paládio, de 500 por 10 μg. A escolha foi realizada levando em consideração os mesmos parâmetros usados para o modificador Pd-Mg. 150 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde 0,20 0,20 Absorvância Integrada (s) Absorvância Integrada (s) 0,25 0,15 0,10 0,05 0,00 5:3 10:6 20:12 0,15 0,10 0,05 0,00 Massa de Pd:Mg (µg) a 250;5 b 500;10 100;20 Massa de Modificador (ug) Figura 4 – Estudo da massa de modificador para (■) 1 ng Pb aquoso e (●) 30 µL de amostra de fertilizante 4:14:8 em suspensão utilizando plataforma PIN e: a) Pd-Mg; b) NH4NO3-Pd ambos na presença de Triton X-100. Tp = 900 ºC e Ta = 2.000ºC. Os perfis de pico, obtidos na determinação do Pb, referentes ao modificador Pd-Mg são mostrados na tabela a seguir (Figura 5): 0,6 Padrão 1 ng de Pb 0,30 4:14:8 0,5 0,4 0,20 Absorvância Absorvância 0,25 0,15 0,10 0,05 0,00 0,3 0,2 0,1 0 1 2 3 4 5 0,0 0,0 6 tempo (s) 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 Tempo (s) 0,05 Calcário Uréia 0,15 0,04 Absorvância Absorvância 0,5 0,10 0,05 0,03 0,02 0,01 0,00 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 0,00 3,0 Tempo (s) 0 1 2 3 4 Tempo (s) Figura 5 – Perfis de pico do Pb, para o padrão e as diferentes amostras testadas, utilizando como modificador químico 10 µg de Pd + 6 µg de Mg na presença de Triton X-100: — espectro de absorção do Pb; — Background 151 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Os perfis de pico obtidos na determinação do chumbo quando se usou como modificador químico a mistura de NH4NO3-Pd são mostrados na Figura 6. 0,8 Padrão 1 ng de Pb 0,20 4:14:8 0,6 Absorvância Absorvância 0,15 0,10 0,2 0,05 0,00 0,4 0 1 2 3 0,0 0,0 4 0,5 1,0 Tempo (s) 1,5 2,0 2,5 3,0 Tempo (s) 0,030 Uréia Calcário 0,025 0,45 Absorvância Absorvância 0,020 0,30 0,15 0,015 0,010 0,005 0,00 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 0,000 0,0 3,0 Tempo (s) 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 Tempo (s) Figura 6 – Perfis de pico do Pb, para o padrão e as diferentes amostras testadas, utilizando como modificador químico 500 µg de NH4NO3 + 10 µg Pd na presença de Triton X-100; — espectro de absorção do Pb; — Background 152 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A partir das duas tabelas correspondentes aos perfis de pico do Pb, utilizando os dois tipos de modificadores, pode-se constatar que o modificador Pd-Mg revela melhores perfis de pico (forma mais gaussiana) que a mistura de NH4NO3-Pd, como já era de se esperar uma vez que este é considerado como sendo um “modificador universal” devido ao seu grande desempenho para um grande número de elementos determinados por GF AAS (OLESZCZUK, 2008). Contudo, quando se fez a determinação na amostra de ureia, os picos não foram tão perfeitos, apresentando alguns outros picos menores antes do pico principal, além de um sinal de background bastante significativo. traçaram-se duas curvas de calibração (Figura 7), um para cada modificador, utilizando padrões aquosos de Pb. A curva analítica foi obtida fazendo medições do padrão com massa de Pb variando entre 0 e 2 ng, utilizando as condições de temperatura estabelecidas nas curvas de pirólise e atomização e também após o estudo da massa de modificador adequada. A relação entre a absorvância integrada e a massa dos padrões de chumbo foi linear na faixa investigada uma vez que o coeficiente de correlação obtido foi 0,9997 para o modificador Pd-Mg e 0,9989 para NH 4NO 3-Pd. As equações das rectas, que fornecem a relação entre a absorvância e a massa de Pb para cada modificador químico utilizado, podem ser observadas na tabela III. Determinação dos parâmetros de mérito Para a determinação de Pb nas amostras anteriormente referidas, 0,45 Absorvância Integrada (s) Absorvância Integrada (s) 0,4 0,3 0,2 0,1 0,0 0,0 0,5 1,0 1,5 0,30 0,15 0,00 0,0 2,0 Massa de Chumbo (ng) 0,5 1,0 1,5 2,0 Massa de Pb (ng) Figura 7 – Curva de calibração de Pb em solução aquosa por GF AAS, utilizando forno PIN com os modificadores químicos: a) 10 μg de Pd + 6 μg de Mg; b) 500 μg de NH4NO3 + 10 μg de Pd, ambos na presença de Triton X-100. Tp = 900ºC e Ta = 2.000ºC. 153 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde A determinação do LOD e do LOQ foi obtida fazendo-se 10 leituras do branco analítico. Os valores encontrados para ambos modificadores investigados neste trabalho estão listados na Tabela 3. Pode-se salientar que utilizando o modificador NH4NO3-Pd melhores limites de detecção são obtidos. A sensibilidade, porém, obtida com a massa característica (m0), apresentou uma diferença restrita quando se compara os dois modificadores, sendo maior com o modificador Pd-Mg. Entretanto ambos estão abaixo do valor reportado na literatura (WELZ, 2005). Os limites de detecção e quantificação calculados foram melhores quando se utilizou o modificador PdMg do que o NH4NO3-Pd. amostras foram analisadas em triplicata. Os resultados encontrados de Pb nas amostras foram similares para ambos os modificadores (tabela IV), embora ainda não tenha sido aplicado o teste estatístico. A concentração variou aproximadamente de 0,5 a 0,7 µg de Pb por grama de amostra analisada. O desvio padrão relativo (RSD) para cada amostra variou entre 4 e 13 % com o modificador Pd-Mg e entre 7 e 44% com o modificador NH 4NO 3-Pd. Valores acima de 10% de RSD são considerados elevados (como os obtidos para o calcário), porém aceitáveis, uma vez que segundo alguns autores um RSD de 10% de um resultado exacto é preferível a um valor de RSD de 1% Tabela 3 – Parâmetros de mérito para o Pb por GF AAS, utilizando os modificadores Pd-Mg e NH4NO3-Pd Modificador Equação Pd-Mg A = 0,0125 + 0,1886 m NH4NO3-Pd A = 0,19287m + 0,02038 R LOD (µg.g-1) LOQ (µg.g-1) mo (pg)* 0,9997 0,13 0,44 21 0,02 0,06 0,9989 24 * Literatura: m0 = 30 pg, com forno aquecido transversalmente, utilizando o modificador Pd-Mg (WELZ, 2005). Quantificação de Chumbo nas amostras de um resultado que é afectado por erros sistemáticos devido à perda do analito e contaminação durante o preparo da amostra (VALE et al., 2006). Considerando a complexidade da matriz e a amostragem directa na forma de suspensão, tal RSD pode ser considerado aceitável. Estabelecidos os parâmetros de mérito, foram analisadas as amostras de fertilizante (4:14:8), calcário e uréia, todos na forma de suspensão, como anteriormente descrito. As 154 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Tabela 4 – Resultados da quantificação de Pb nas amostras Modificador Pd-Mg NH4NO3-Pd Amostra Concentração Pb (µg/g) RSD (%) Concentração Pb (µg/g) RSD (%) Fertilizante 4:14:8 0,68 4 0,75 7 Calcário 0,59 13 0,53 44 Ureia < LOD - < LOD - espectrometria de absorção atómica em forno de grafite constitui um método confiável e eficaz, tendo em conta os limites de sensibilidade obtidos, podendo ser aplicado nas investigações rotineiras de outras amostras similares. No entanto, estudos posteriores deverão ser realizados no sentido de avaliar a dispersão do analito na suspensão e o controlo da homogeneidade da amostra variando o tamanho de partícula para diminuir o RSD da análise. Salienta-se ainda o facto de, apesar de algumas amostras apresentarem teores de Pb acima do LOQ, as suas concentrações estarem abaixo dos valores admitidos pela norma Brasileira. Apesar de algumas amostras apresentarem teores de Pb possívies de ser determinados, as suas concentrações encontraram-se abaixo dos valores admitidos pela norma Brasileira que estipula100 ppm (100 miligramas de Pb por cada kilograma da massa total do fertilizante) como limite máximo de Pb em fertilizantes minerais com nitrogénio e potássio (Instrução Normativa nº 24, 2007; Decreto 4.954, 2004 – BRASIL, 2007). Conclusões preliminares A partir dos resultados obtidos provisoriamente, a análise directa de chumbo na forma de suspensão, por 155 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Referências bibliográficas (*) (*) Algumas referências não foram completadas pela autora (Nota do Organizador) ARAÚJO, R. G. O.; OLESZCZUK, N.; RAMPAZZO, R. T.; VALE, M. G. R. et al.. Comparison of direct solid sampling and slurry sampling for the determination of cadmium in wheat flour by electrothermal atomic absorption spectrometry. Talanta, 77, 400–406, 2008. Esta referência não foi completada pela autora. (Nota do Organizador), BEATY, R. D. e KERBER, J. D., Concepts, Instrumentation and Techniques in Atomic Absorption Spectrometry, The Perkin-Elmer Corporation, Norwalk, USA, 1993. BIANCHIN, L.; VALE, GORETI, M. R. et al. Feasibility of employing permanent chemical modifiers for the determination of cadmium in coal using slurry sampling electrothermal atomic absorption spectrometry. Microchemical Journal, 82, 174–182, 2006. CADORE, S. et al., A espectrometria atómica e a determinação de elementos metálicos em material Polimérico, Quim. Nova, Vol. 31, No. 6, 1533-1542, 2008. Damin, Isabel C. F., Investigação da amostragem directa por espectrofotometria de absorção atómica com forno de grafite para determinação de metais traço em carne in natura e em petróleo, tese de doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2008. DAMIN, I. C. F.; VALE, M. G. et al. Palladium as chemical modifier for the stabilization of volatile nickel and vanadium compounds in crude oil using graphite furnace atomic absorption spectrometry. Journal of Analytical Atomic Spectrometry (JAAS), vol. 20, pp. 1332-1336, 2005. DESSUY, M. B., VALE, M. G. R; WELZ, B. et all, Method development for the determination of lead in wine using electrothermal atomic absorption spectrometry comparing platform and filter furnace atomizers and different chemical modifiers, Talanta, 74, 5, 2008. DUARTE, R. P. e PASQUAL, A., Avaliação do Cádmio (Cd), Chumbo (Pb), Níquel (Ni) e Zinco (Zn) em solos, plantas e cabelos humanos, Energia na Agricultura, vol. 15, n. 1, 2000. 156 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde HARRIS, D. C., Análise Química Quantitativa, tradução: Riehl, Carlos A. S., 5ª edição, LTC, Rio de Janeiro, 2001. BRASIL, Instrução Normativa SDA nº 24, de 20 de Junho de 2007. Ministério Da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Publicado no Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília, 2007. KRUG et al. Espectrometria de Absorção Atómica, Material Didádico, 2001. Esta referência não foi completada pela autora. (Nota do Organizador). MAGALHÃES, C. E. C. e ARRUDA, M. A. Z. Amostragem de Suspensões: Emprego da técnica na análise directa de amostras, Revisão, Química Nova, 21(4), 1998. NOMURA, C. S. et al.. Análise directa de sólidos por espectrometria de absorção atómica com atomização em forno de grafite: uma revisão, Quim. Nova, 31, 1, 104-113, 2008. Esta referência não foi completada pela autora. (Nota do Organizador). WELZ, B. e SPERLING, M. Atomic Absorption Spectroscopy, 3ª edição, WileyVCH, Weinheim, Alemanha, 1999. WELZ, B. e VALE, M. G. R. Atomic Absorption Spectrometry and related techniques, in Ewing’s Analytical Instrumentation Handbook, 3ª edição, Marcel Dekker, New York, 2004. 157 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Avaliação da experiência pela autora “A experiência de realizar um estágio nos laboratórios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mesmo que por um período de tempo relativamente curto, significou para mim a aproximação desta disciplina muito abstracta que é a química à realidade. Foi uma experiência encantadora e fascinante, pois tive a oportunidade de conhecer e testar na prática os meus conhecimentos teóricos além da possibilidade de ter o contacto com os equipamentos, nomeadamente o espectrofotómetro de absorção atómica com forno de grafite, do qual só conhecia as imagens extraídas da Internet. A nível da acolhida, devo dizer que fiquei bastante surpreendida, pois não esperava tanta hospitalidade e disponibilidade. Tanto o pessoal do Laboratório quanto o da pensão sempre se mostravam preocupados com as condições em que estávamos, a nossa integridade física e emocional e se disponibilizavam para ajudar naquilo que fosse preciso. Em relação à inserção no programa, não tive muitas dificuldades, uma vez que o projecto para o qual estava indicada tinha por base a disciplina de Química Analítica, uma disciplina que eu já havia estudado anteriormente mas que também pude acompanhar de novo, na versão aplicada, a fim de conhecer a parte prática. Igualmente, a superação das dificuldades deveu-se aos imensos apoios que recebi por parte dos meus colegas do laboratório nas primeiras duas semanas, tempo em que tive a oportunidade de acompanhar com eles todos os procedimentos inerentes a cada etapa, mesmo nos processos mais simples. No que concerne à interacção com a minha tutora, devo agradecer bastante o facto de apesar de ser uma pessoa bastante ocupada, mulher de muitas responsabilidades, sempre teve tempo para me atender, esclarecer as minhas dúvidas em relação ao trabalho e sugerir-me algumas opções de actividades para os fins de semana. Devo salientar tambémque tive boas relações com os colegas, dos quais guardo boas lembranças. Durante a preparação e o decurso do estágio, não encontrei qualquer aspecto que para mim fosse tão relevante a ponto de considerá-lo como um aspecto negativo. Entretanto, penso que alguns outros pontos poderiam ser melhorados para que no futuro os resultados sejam sejam 158 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde melhores. São exemplos o atraso da entrega dos projectos, por parte dos nossos coordenadores de curso e alguns constrangimentos verificados durante o processo de obtenção do visto e bilhete de passagem. Para este último sugiro que, caso houver uma reedição deste programa, uma pessoa seja delegada para se responsabilizar pelos processos de pedido de visto e entrega dos bilhetes de viagem, de forma a evitar constrangimentos, tanto por parte dos estudantes como do pessoal da Embaixada que, desta forma, poderá executar da melhor forma as suas tarefas. Um outro aspecto que também sugiro que fosse revisto, caso possível, é o tempo de estágio. Penso que um aumento de pelo menos mais um mês traria ganhos significativos tanto para os alunos como para a comissão organizadora, pois no nosso caso o término de tempo de estágio coincidiu com o tempo em que já estava mais integrada no projecto e poderia ter resultados mais satisfatórios”. 159 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde CULTIVO DE MILHETO (PENNÍSETUM GLAUCUM) SOB CONDIÇÕES DIFERENCIADAS DE FONTES E DOSES DE NITROGÊNIO1 Jaquelino Lopes Varela Departamento de Ciência e Tecnologia Universidade de Cabo Verde - Campus de Palmarejo RESUMO Com o objectivo de avaliar a resposta do milheto e indicar a melhor fonte e dose de nitrogénio, foi conduzido um experimento em área de unidade académica da Universidade Federal de Alagoas. Os melhores tratamentos foram determinados a partir da morfometria, matéria verde, proteína bruta, macro e micronutrientes. Para a realização do experimento adoptou-se o delineamento experimental inteiramente casualizado com cinco repetições. As fontes utilizadas foram ureia e sulfato de amónia e as doses de 0kg = hectar, 40kg = hectar, 80kg = hectar e 120kg = hectar. As mensurações e as colectas de amostras foram realizadas após a emissão das primeiras panículas. Os resultados permitem concluir que há diferenças significativas nas quantificações do zinco e do cálcio, quando avaliadas a fonte e a dose/fonte, respectivamente. Palavras-chave: cultive de milheto; morfometria; matéria verde; proteína bruta; macro e micronutrientes. 1 Este trabalho foi orientado pelo Professor José Teodorico Araújo da Universidade Federal de Alagoas - Centro de Ciências Agrárias, e teve o apoio da CAPES. 161 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Introdução O milheto (Pennisetum glaucum) é uma gramínea tropical oriunda de África ocidental, onde foi domesticada há aproximadamente 5.000 mil anos. É uma planta anual, de hábito erecto, porte alto (até 220 cm) com desenvolvimento uniforme, inflorescência em forma de panícula compacta, com tamanho de 40 a 60 cm, alta capacidade de perfilhamento, boa capacidade de rebrota e produção de sementes entre 500kg/hectare a 1.500kg/hectare. Apresenta excelente valor nutritivo (até 24% de proteína bruta quando em pastejo), boa palatabilidade e digestibilidade e produz 6 a 13 toneladas de matéria seca/hectare2. É uma planta que se adapta bem a vários tipos de solos, apresentando boa persistência em solo de baixa fertilidade e défice hídrico devido à presença de sistema radicular profundo que lhe permite obter nutrientes a grande profundidade. Também apresenta alta eficiência no uso da água, embora responda com óptimas produtividades em solo de média a boa fertilidade e adubação. Não resiste a geadas e solos encharcados, mas apresenta alta resistência as pragas e doenças3 O milheto é uma planta adaptada a baixa fertilidade de solos, sendo capaz de produzir, razoavelmente, mes2 AITA, V. (1995). 3 HERINGER, I. (1995) mo em solos relativamente pobres. Entretanto, apresenta alta resposta de produção em solos mais férteis ou adubados. Devido às suas carac terísticas de alta produção e qualidade, e por sua excelente adaptação à diversidade de condições ambientais, é cultivado como forrageira na pecuária de corte ou de leite4 No Brasil, não só é cultivado para uso como forrageira, mas também para produção de sementes para fabricação de ração e como planta de cobertura do solo para o sistema de plantio directo. Comparativamente à maioria das forrageiras tropicais perenes, o milheto é uma excelente alternativa para melhorar a qualidade alimentar dos bovinos. Por apresentar alta produtividade e precocidade durante períodos de escassez das forrageiras perenes, abre espaço para o uso estratégico nas fases de cria, recria e engorda, repercutindo em sistemas mais precoces da pecuária de corte1. As pastagens anuais de milheto podem funcionar como um suplemento proteico/energético, principalmente durante a seca. A intercalação desta forrageira com as pastagens perenes resulta numa melhoria considerável na dieta dos animais. Em função do alto potencial produtivo da espécie, há também grande demanda por nitrogénio (N), nutriente cuja disponibilidade no solo é geralmente baixa. O nitrogénio é um dos principais nutrientes res4 MAKERI , E.E. e UGHERUGHE, P.O. (1992) • • • • • ponsável pelo rápido crescimento e rendimento da planta como forrageira e o seu défice inibe o crescimento do vegetal, mas também o excesso pode alterar o metabolismo vegetal e limitar o seu crescimento5 6. Sendo assim, a aplicação do nitrogénio ao solo proporciona maior rendimento da forragem, no entanto deve ser adicionado em doses e fontes adequadas, razão pela que o presente trabalho teve como objectivo, avaliar a resposta qualitativa de milheto, quando cultivado a diferentes fontes e doses de nitrogénio, e indicar as melhores fontes e doses de nitrogénio a serem aplicadas ao solo de modo a aumentar a produtividade. Morfometria; Matéria Verde; Matéria Seca; Proteína Bruta; Micro e Macronutrientes. A semeadura foi realizada em 22/ Junho/2009 e a extensão do experimento compreendeu uma área de 2 285,6 m . As fontes de nitrogénio foram a Ureia e o Sulfato de amónia. O desenho experimental utilizou quatro tratamentos: • Tratamento A foi a testemunha/ controlo, em que não foi incorporado nitrogénio; • Tratamento B em que foram incorporados 40Kg/ha de nitrogénio; • Tratamento C e m que foram incorporados 80Kg/ha de nitrogénio; • Tratamento D e m que foram incorporados 120Kg/ha de nitrogénio. Método Ambiente ~~O experimento foi conduzido em área de Unidade Académica de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas, localizada no Campus Delza Gitaí, BR 104N, km 87, Zona Rural do Município de Rio Largo/Alagoas, Brasil. O experimento foi realizado utilizando cinco repetições em blocos inteiramente casualizados. Cada bloco teve um espaço de 1 metro, entre eles e comprimento de 3 metros, totalizando 21 metros de comprimento. O espaço utilizado entre as linhas foi de 0,6 metros, cada tratamento foi dividido em dois, onde em quatro linhas era aplicada a ureia e em outras quatro, o sulfato de amónia, totalizando oito linhas. Sendo assim, cada tratamento tinha 3,2 metros de largura, o que Procedimento Para a avaliação das fontes e doses foram utilizados os seguintes parâmetros: 5 NIRVAL, B.G., CHAVAN, A.A., SHINDE, J.S. e GORE, S.B. (1995). 6 OJI, C.K. e UGHERUGHE, P.O. (1992). 163 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde constituía uma largura total de 19,2 metros. Cada tratamento possuía uma fileira de cada lado, a bordadura. Em cada tratamento, das quatro linhas plantadas só foram utilizadas as duas do meio para evitar erros. A adubação foi realizada 16 dias após a semeadura. Por ocasião da colheita, após a emissão das primeiras panículas, foi avaliada a morfometria com apoio de uma fita métrica e paquímetro, que consistiu na medida da altura, diâmetro da planta, compri mento e largura das folhas de oito plantas escolhidas aleatoriamente em cada parcela. Ainda, por ocasião da colheita, foi avaliada a matéria verde 1 da forragem. Deste material, foi colectado 0,5Kg para determinação de 2 matéria seca e cinza. Após uma se3 mana, o material era triturado com peneiras de 1 mm de diâmetro e acondicionados em sacos plásticos, devidamente etiquetados, para determinação da composição química. Durante esta determinação foram avaliados o 4 nitrogénio total, proteína bruta e macro e micronutrientes. 1. Digestão da amostra em acido sulfúrico com um catalisador, que resulta em conversão do nitrogénio em amónia; 2. Destilação da amónia em uma solução receptora; 3. Quantificação da amónia por titulação com ácido clorídrico. Na digestão, 0,5 g de cada amostra é misturada com 5 ml de ácido sulfúrico com um catalisador, sulfato de cobre, num tubo de ensaio e, posteriormente, submetida a temperatura o de 400 C num bloco digestor, dentro de uma capela, até a digestão completa e o caldeamento das amostras. Terminada a digestão, as amostras são diluídas em 25 ml de água e levadas ao destilador. No destilador, cada amostra é misturada com 50 ml de soda cáustica (NaoH), formando sulfato de amónia (NH4)2So4). A amónia é puxada através de um compartimento do destilador e misturada com ácido bórico. O ácido bórico, antes da chegada da amónia, apresenta cor avermelhada, tornando-se esverdeado com a reacção. A mistura de ácido bórico e amónia é titulada, com ácido clorídrico, até a mistura retornar à cor original, avermelhada. Este valor é então registado. O nitrogénio total e a proteína bruta foram determinados no laboratório de Química da Universidade, enquanto os macronutrientes (K e P) e micronutrientes (Mg, Ca, Mn e Zn) foram determinados num laboratório privado. _______________ 1 Mensurando o peso total da forragem das duas fileiras do meio de cada parcela. 2 Processo realizado com estufa de o ventilação forcada a 65 C, até o peso se tornar constante, e mufa para cálculo de cinza. 3 Moinho tipo Willey. 4 Método Kjeldahl. Descrição do Método Kjeldahl: 164 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Resultados Já em relação ao zinco, os resultados registaram diferenças em relação à fonte, indicando-se valores superiores para o sulfato de amónia (tabela 1). Os resultados demonstraram haver diferenças não significativas para a maioria dos parâmetros avaliados, identificando que, quando comparados dose/fonte, os valores de Cálcio e Proteína bruta foram superiores nas parcelas controle. Contudo, apesar deste registo para o Cálcio, diferenças significativas foram registadas, entre o sulfato de amónia e a ureia, quando aplicadas doses de 80kg/ha (Tabela 1). Conclusão Estes resultados permitem concluir que há diferenças significativas nas quantificações do zinco e do cálcio, quando avaliadas a fonte e a dose/ fonte, respectivamente, em plantas de milheto adubadas com sulfato de amónia e ureia. Tabela 1 – Resultados das dosagens de Cálcio, Zinco e Proteína Bruta nas amostras obtidas Cálcio Doses Zinco Proteína Bruta Sulf. de amónia Ureia Sulf. de amónia* Ureia Sulf. de amónia Ureia Controle 3.38 5.79* 0.42 0.39 6.32* 7.58 40 3.84 3.53 0.56 0.21 6.91 6.32 80 2.77 7.43* 0.44 0.33 7.59 6.10 120 5.17 2.88 0.58 0.35 7.53 7.31 *ANOVA - p<O.O5 165 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Referências bibliográficas AITA, V. Utilização de diferentes pastagens de estação quente na recria de bovinos de corte. Dissertação de Mestrado em Zootecnia, Universidade Federal de Santa Maria, 1995. 103 fls. HERINGER, I. Efeito de níveis de nitrogênio sobre a dinâmica de uma pastagem de milheto (Pennisetum americanum (L.) Leeke) sob pastejo. Dissertação de Mestrado em Agronomia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1995, 133 págs. MAKERI, E.E.e UGHERUGHE, P.O. Evaluation of the forage potentials of pearl millet in a semi-arid tropical environment. Journal of Agronomy and Crop Science, Berlin, 5, vol. 169, 1992, pp. 319-329. NIRVAL, B.G., CHAVAN, A.A., SHINDE, J.S. e GORE, S.B. Management of sowing date of rainy-season crops for sustainable crop yield under dryland condition. Indian Journal of Agricultural Sciences, New Delhi, 3, vol. 65, 1995, pp. 170-174. OJI, C.K. e UGHERUGHE, P.O. Effects of nitrogen fertilization and cutting height on forage yield and quality of Maiwa pearl millet. Tropical Agriculture, St. Augustine, 1, vol. 69, 1992, pp.11-14. ATT.: Neste último texto do Sr. Jaquillino Varela, há algumas notas de rodapé que parecem não estarem bem colocadas porque estão muito confusos. É preciso indicar quais é que são notas e os que não são. BLopes 166 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Parte IV – Balanço 167 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde I CIC: UMA AVALIAÇÃO SINTÉTICA As pesquisas dos 31 alunos da Uni-CV (Praia e São Vicente) que estagiaram em 7 universidades federais brasileiras, acompanhados por professores orientadores dessas instituições, no âmbito do Programa de Iniciação Científica apoiado pela CAPES, incidiram sobre temáticas ligadas à história, nutrição, língua inglesa, matemática, engenharia, biologia, linguística, didáctica, literatura, filosofia e química. Os alunos tinham-se comprometido de, retornando ao país, socializar com a comunidade académica universitária a experiência adquirida no Brasil. Além dessa socialização, em si, comunicar cientificamente os trabalhos, num período curto de tempo, com a máxima objectividade possível e sem a omissão das informações pertinentes. A comunicação científica é uma habilidade exigida, dentre as muitas que a caracterizam como um momento do processo de investigar; é pertinente, tendo em conta a necessidade de se basear na objectividade e daí ser algo cobrado com rigor. Essa exigência já tinha sido dada a conhecer aos nossos alunos mesmo antes de seu mergulho no estágio no Brasil. Esse foi um aspecto que se somou a outros como algo apreendido e que a organização do I CIC frisou e levou muito a sério, extensivo a todos, sem excepção. A organização do evento valorizou também, como outro aspecto de aprendizagem, a prática de redacção segundo os cânones da ciência. O saber escrever, além do saber expor, já referido. O codificar e o descodificar (ou decodificar) sem os vícios da linguagem comum: um desafio que todos tivemos que enfrentar na nossa qualificação científica ao longo do percurso académico e que, igualmente, precisamos instituir na Uni-CV. Escrever (descrevendo) também com a mesma objectividade requerida para a comunicação oral. O I CIC contou com a participação dos alunos do Programa e a participação activa de colegas e de docentes, especialmente daqueles que constituíram as comissões de trabalho. 169 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde O evento foi avaliado como tendo sido positivo, tanto pelos alunos congressistas, como por seus pares e pelos professores participantes. A avaliação teve em conta a performance dos alunos e dos organizadores. Dentre os vários aspectos, eis os principais que foram apontados: O desempenho dos congressistas, visto como tendo ultrapassado as expectativas iniciais, dada a excelente qualidade dos trabalhos, o que foi objecto de encorajamento para os alunos continuarem seus esforços de investigação; O facto de a Uni-CV ter recebido informações muito positivas acerca da conduta dos alunos pesquisadores no Brasil, tendo sido alguns deles convidados a prosseguirem lá a sua qualificação; A grande oportunidade de convívio entre alunos e professores de outras áreas durante os trabalhos, propiciada pelo evento; O cumprimento rigoroso da programação, nos dois dias, possibilitando o alcance dos objectivos propostos. Cabe mencionar, ainda quanto à avaliação, as insuficiências e as lacunas, bem como as oportunidades de melhoria do Programa na eventualidade de ter continuação. Assim, apontou-se, em resumo, que deveria ter sido evitada a forma como ocorreu a planificação, pela CAPES, da distribuição dos temas de pesquisa; esses temas, embora sintonizados inicialmente com as aspirações apresentadas pela UniCV, deram, em alguns casos, lugar a outros, sem que a Instituição pudesse acompanhar essas mudanças, após a inserção dos alunos no Brasil. Apontou-se, ainda, o atraso do início da pesquisa, no Brasil, prejudicando alguns alunos. As sugestões de melhoria diziam respeito à comunicação dos trabalhos, numa próxima edição do Programa e, consequentemente, no próximo Congresso (programado para Novembro deste ano). Frisouse o conteúdo, que deverá ser, no futuro, devidamente apropriado pelos estudantes, sendo estes ser treinados adequadamente para uma boa capacidade de síntese, e a programação de um tempo maior para as exposições. Esperando haver a continuidade do Programa no Brasil (e houve, de facto, pois neste ano mais 31 alunos foram contemplados), recomendou-se incluir outras áreas disciplinares e a pertinência de se elaborar um modelo comum Uni-CV/CAPES de Iniciação Científica. 170 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Com essa continuidade, a Uni-CV deverá preparar-se para desenvolver o seu próprio programa no futuro. O Comité Científico avaliou os trabalhos (parte escrita e parte expositiva) e concluiu pelo destino do Prêmio Jovem Investigador da Uni-CV – 2009-2010 aos estudantes, mencionados adiante e cujos trabalhos, transformados em artigos, temos a satisfação e a honra de publicar. Parabéns aos premiados. Já é altura de reunirmos as condições existentes para a consolidação do Programa de Iniciação Científica na Uni-CV, aproveitando o apoio da CAPES. Há que tomarmos medidas nesse sentido. Uma comissão permanente ou um comtê gestor do Programa poderia ser um começo, para dar continuidade, com plena dedicação e com o estusiasmo necessário, às tarefas requeridas para essa consolidação. Mais do que seleccionar alunos e envolvê-los na prática da investigação, há que motivá-los a permanecerem investigando, a ponto de prosseguirem o mestrado e o doutoramento; a entenderem os ganhos de inserção em grupos de pesquisa e em temáticas comuns, “contagiando” outros alunos numa eliciação sadia; a serem motivos de regozijo para seus professores que neles apostaram e apostam, e exemplos também para professores ainda não engajados. Sem investigação científica, o ensino não passará de transmissão do conhecimento; a extensão não alimentará a produção do saber e não se nutrirá dela também. O apoio da CAPES, da Embaixada do Brasil e das Universidades que acolheram os estudantes, bem como do Escritório dos Fundos e Programas das Nações Unidas em Cabo Verde foi valiosíssimo para a realização da Iniciação Científica e, com base nesta, a materialização do Congresso. Foi também muito importante a colaboração prestada pelos alunos congressistas e pelos professores e funcionários da Instituição que integraram as equipas de trabalho (Comissão Organizadora, Comité Científico e Staff de Apoio). Toda essa colaboração somou-se aos préstimos da Reitoria para o sucesso do evento. A todos, muito obrigado! Marcelo Galvão Baptista 171 Anais do I Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Cabo Verde Reitoria da Universidade de Cabo Verde PRAIA Praça António Lereno, s/n - Praia, Santiago - Cabo Verde CP 379 C Tel: (238) 260 3700 - Fax: (238) 261 2660 Mail: [email protected] SÃO VICENTE Av. Baltazar Lopes da Silva, 31 - 3º andar - Mindelo, São Vicente Tel: (00238) 232 5469 - Fax: (00238) 232 6452 Mail: [email protected] w w w . u n i c v. e d u . c v