ID: 47667817 14-05-2013 Tiragem: 16997 Pág: 16 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,04 x 31,82 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 1 de 3 Hospitais que mais gastam têm de cortar para nível dos mais poupados Ministério da Saúde avança com comparação de custos entre hospitais públicos em indicadores-chave. Dados provisórios e objectivos já geram contestação. Catarina Duarte [email protected] Pela primeira vez o Ministério da Saúde vai divulgar um estudo que compara os indicadores de eficiência de todos os hospitais-empresa (EPE). São 32 centros hospitalares (C.H.) e hospitais cujos gastos foram analisados à lupa. Objectivo: “explicar diferenças de acesso, qualidade e desempenho económico-financeiro” e “avaliar o potencial de melhoria de cada hospital em cada uma das principais área de actuação”. Por outras palavras, a partir destes dados, o Ministério da Saúde pode pedir aos hospitais com maior nível de despesa que tomem medidas de corte para conseguirem chegar aos valores apresentados pelas unidades mais poupadas, resultando numa poupança de 438 milhões de euros até ao final de 2015 (ver texto ao lado). O relatório a que o Diário Económico teve acesso tem a data de 8 de Maio e é ainda uma versão provisória (o documento oficial deverá ser divulgado nos próximos dias), mas permite perceber que existem grandes assimetrias nos custos dos hospitais, mesmo naqueles com características mais semelhantes. Por exemplo, no grupo dos seis maiores hospitais do país, o C.H. Universitário de Coimbra gasta 3.014 euros por cada doente que trata, mais 254 euros do que no C.H. Lisboa Ocidental (São Francisco Xavier e Egas Moniz). Se olharmos para indicadores de produtividade, é no C.H. de São João (Porto) que os médicos são mais produtivos. Já em questões de acesso a cuidados de saúde é no C.H. Lisboa Central (S. José, Estefânia, Sta. Marta e Curry Cabral) e no C.H. de São João que a percentagem de consultas e cirurgias realizadas em tempo adequado é maior (ver infografia). O Diário Económico questionou o Ministério da Saúde sobre o papel futuro desta comparação se é um instrumento indicativo à gestão ou uma orientação da tutela -, mas fonte oficial do gabinete de Paulo Macedo disse apenas que “não reconhece qualquer outro documento que não seja a versão que, a seu tempo, será divulgada”. O memorando assinado entre o Governo português e a ‘troika’ prevê a realização do ‘benchmarking’ (comparação com a referência) em vários indicadores sobre a actividade dos hospitais. O relatório promete gerar polémica, a começar pela qualidade dos dados que servem de base à comparação, que já está a ser contestada pelos hospitais com base na notícia publicada ontem pelo Diário Económico. O Centro Hospitalar de São João divulgou ontem uma nota esclarecendo que “alguns dos dados constantes no relatório (ainda preliminar) da Administração Central do Sistema de Saúde [ACSS] são, no que diz respeito ao Centro Hospitalar de São João, falsos, principalmente porque o número de doentes-padrão está errado, o que condiciona erros em Uma preocupação central está em saber se os hospitais com melhores indicadores económicofinanceiros são aqueles que garantem a maior qualidade do serviço. O Diário Económico avançou na edição de segunda-feira a versão preliminar de 22 de Abril do relatório de ‘benchmarking’ dos hospitais. Na edição de hoje publica os dados da versão mais actualizada, de 8 de Maio. todos os indicadores que dependem deste número”. Em declarações ao Diário Económico o presidente do hospital, António Ferreira, reconhece que este é um documento “fundamental” para que os hospitais possam aprender uns com os outros, implementando medidas de eficiência. Contudo, ressalva António Ferreira, para que o relatório seja de facto uma boa base de trabalho é preciso “assegurar o rigor absoluto dos dados”. E os dados preliminares da ACSS não reflectem a realidade do São João, cujos indicadores de despesa são até mais baixos, alega o presidente. Outra “fragilidade” apontada ao relatório é a própria comparabilidade entre hospitais que prestam serviços diferentes. Um gestor hospitalar ouvido pelo Diário Económico, que preferiu não ser identificado, lembra que apesar do Santa Maria e do São João estarem no mesmo grupo de comparação, o primeiro trata doentes com VIH/Sida (cujos tratamentos são muito caros) e o segundo não. A ACSS reconhece no relatório que o indicador de “doente-padrão” “não incorpora as especificidades particulares de toda a carteira de serviços das entidades hospitalares”, remetendo para uma análise mais detalhada. E a qualidade do serviço? O terceiro ponto, e talvez o mais crítico, é que o relatório olha apenas para os custos não tendo em conta os resultados em saúde. “Será que os hospitais com melhores indicadores económico-financeiros são aqueles que garantem maior qualidade?”, lança o mesmo gestor hospitalar, continuando: “Posso ter um hospital muito poupado mas onde a taxa de infecções hospitalares ou de mortalidade é alta”, alerta. Este ponto da discussão lança a “pergunta para um milhão de euros”: se os hospitais menos eficientes forem obrigados a cortar custos para chegar à mesma despesa dos mais eficientes, a qualidade e o acesso dos doentes aos cuidados de saúde sairão prejudicadas? Ninguém arrisca para já uma resposta. ■ OUTRAS CONCLUSÕES ● Dentro do grupo identificado como D (grandes hospitais), o Hospital de Braga, uma parceria público-privada gerida pelo grupo José de Mello Saúde, é o mais eficiente: gasta 2.251 euros por doente tratado, enquanto o menos eficiente do grupo, o Hospital de Faro, gasta 2.853 euros. ● É mais uma vez o Hospital de Braga aquele que melhor rácio apresenta entre custos com pessoal por doente tratado (1.047 euros). O menos eficiente neste grupo e neste indicador é o Hospital de Évora (gasta 1.561 euros) ● Ainda neste grupo de hospitais, é o Centro Hospitalar Trás os Montes e Alto Douro quem apresenta a maior percentagem de consultas e cirurgias realizadas em tempo adequado. ID: 47667817 14-05-2013 Tiragem: 16997 Pág: 17 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 26,80 x 31,73 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 2 de 3 Paulo Macedo quer cortar 438 milhões de euros até 2015 Objectivo do Governo é que todos os hospitais cheguem a 2015 com resultados equilibrados. Para chegarem a 2015 com resultados equilibrados, os 32 hospitais e centros hospitalares do sector empresarial do Estado (EPE) têm de cortar no seu conjunto 438 milhões de euros até lá. A grande fatia do ajustamento terá de ser feita pelas instituições da região de Lisboa e Vale do Tejo (223 milhões de euros). Esta região tem sido, aliás, apontada pelos grupos de peritos que desenvolveram propostas para a reforma a hospitalar como aquela em que existem maiores ineficiências. Os valores estão inscritos no relatório provisório de ‘benchmarking’ dos hospitais, a que o Diário Económico teve acesso, e prevêem que os hospitais passem de um resultado operacional negativo de 295 milhões de euros em Dezembro de 2012 para 114 milhões de euros em 2015. O relatório analisa as grandes rubricas da despesa (gastos com medicamentos e materiais de consumo clínico, despesas com pessoal) e também indicadores de acesso, como a percentagem de consultas e cirurgias realizadas em tempo adequado, por exemplo. E para estes indicadores inscreve valores estimados de poupança. O Ministério da Saúde não presta qualquer esclarecimento até que seja divulgada a versão oficial do relatório, mas o documento indica que “as poupanças estimadas para cada grande rubrica de custos são indicativas e não são cumulativas, reflectindo apenas o posicionamento de cada instituição face à instituição mais eficiente do grupo”. Com maior ou menor autonomia para gerir os respectivos ajustamentos na despesa, certo é os hospitais têm de entregar ao Ministério da Saúde os planos estratégicos a três anos (20132015), cujo resultado final tem de ser o equilíbrio das contas. O diagnóstico financeiro dos hospitais em 2012 não é animador resultados operacionais negativos de 295 milhões de euros e prejuízos de 154 milhões - pelo que a tarefa não será fácil. Os valores não serão para já contabilizados no défice público, uma Infografia: [email protected] vez que os hospitais-empresa não consolidam nas contas das administrações públicas. Esta situação poderá vir a ser alterada em 2014 com a entrada em vigor da actualização do sistema europeu de contas. Ainda assim, os números têm apresentado melhorias: os resultados operacionais melhoraram 28% em 2012 face ao ano anterior e os prejuízos diminuíram 36% no mesmo período. Recorde-se que tal como Diário Económico avançou o Ministério da Saúde já prevê um corte de 160 milhões de euros no financiamento dos hospitais EPE (via contratos-programa) em 2014 e outro valor idêntico no ano seguinte. ■ C.D. CUSTOS OPERACIONAIS - 295 milhões Em 2012 os 32 hospitais-empresa analisados pela ACSS apresentaram resultados operacionais negativos de 295 milhões de euros. Uma melhoria de 28% face a 2011. PREJUÍZOS - 154 milhões De acordo com dados divulgados ao Diário Económico pelo secretário de Estado da Saúde, os prejuízos dos hospitais melhoraram 36% em 2012 face ao ano anterior para 154 milhões de euros. FINANCIAMENTO - 160 milhões De acordo com as orientações da ACSS para os próximos dois anos, os hospitais vão perder no seu conjunto 160 milhões de financiamento em 2014 e valor idêntico em 2015. ID: 47667817 14-05-2013 Tiragem: 16997 Pág: 1 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 6,16 x 6,50 cm² Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 3 de 3 RACIONALIZAÇÃO Hospitais mais poupados são padrão para corte de custos na Saúde Paulo Macedo compara custos entre hospitais públicos para melhorar eficiência e cortar 438 milhões de euros até 2015. ➥ P16