BONNIE & CLYDE: A DESMISTIFICAÇÃO DO CASAL DE BANDIDOS MAIS
FAMOSO DOS ESTADOS UNIDOS
Autora: Manuela Campos Machado Alécio (UNIANDRADE)
Orientadora: Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs (UNIANDRADE)
Introdução
Este trabalho tem como substrato a relação interartes e intermídias, pela biografia, escrita pelo escritor e jornalista norte-americano Paul Schneider, em 2010. Em
sua obra Bonnie & Clyde: a vida por trás da lenda, observa-se linguagem direta, que
se prende – como explica o autor – “em um trabalho de não ficção em que nada foi
criado pela imaginação, tudo tem um antecedente razoavelmente aceitável como ‘fato’” (SCHNEIDER, 2010, p. 11). A obra também adota ritmo acelerado para narrar a
aventura do casal Bonnie e Clyde e da sua gangue na primeira metade da década de
1930, ambientada no cenário das regiões rurais da região central dos Estados Unidos.
Adicionalmente, por imagens, sons e figurino, representou-se a relação da dupla de criminosos no longa Bonnie & Clyde: uma rajada de balas, de 1967, na superprodução Bonnie & Clyde, lançada pelo History Channel e produzida pela Sony Pictures, em fevereiro de 2014, e na música “Bonnie & Clyde” (1968), do cantor francês
Serge Gainsbourg.
A ficha criminal e suas vidas foram temas de manchetes, transformando o casal no símbolo da época. No trabalho, analisar-se-ão os personagens Bonnie, menina
de família da classe média baixa, e Clyde, rapaz que entrou para o mundo do crime
ainda jovem. Procurar-se-á analisar a - ainda - história que não consegue ser esquecida, mesmo após 90 anos das datas de suas mortes.
Relação literatura – outras mídias
Em um roteiro estão presentes imagens descritas, para que por elas se imagine como será o produto final. Quando se adapta um livro para um roteiro, a questão
principal é a de achar a história que o livro traz e expor no roteiro como imagens. Portanto, não importa estar descrito num roteiro como o personagem se sente; importa se
a imagem exterioriza o que o personagem sente e como isso aparece (FIELD, 2009).
A literatura, o cinema, a música e as minisséries de TV são linguagens diferentes, baseiam-se em visões diferentes. Para a adaptação da linguagem da literatura
para o cinema, para a música e para as minisséries de TV, o roteirista faz uma transformação de formatos, altera a ordem dos acontecimentos e omite algumas passagens. Porém, mudanças são necessárias em qualquer adaptação, pois se trata de
outra linguagem (REYNAUD, 2014).
Por mais detalhistas que os livros possam ser, pessoas que leem o mesmo livro nunca vão imaginar os mesmos cenários, vestimentas ou personagens. Isso faz
com que o livro apresente infinitas possibilidades a diferentes leitores e cada adaptador é um leitor.
De acordo com Robert Stam, professor da Universidade de Nova Iorque, se o
estudo das adaptações parece, à primeira vista, uma área relativamente desprezada
dentro da teoria e análise cinematográfica, por outro lado ele também pode ser visto
como algo central e importante. Não apenas as adaptações literárias formam uma alta
porcentagem dos filmes já realizados (e, especialmente, uma alta proporção das produções de prestígio e ganhadores do Oscar), mas também todos os filmes podem ser
vistos, de certo modo, como “adaptações” (STAM, 2006, p. 49).
Os personagens Bonnie e Clyde
É importante a observação cuidadosa dos dois personagens que figuram entre os que mais se destacaram na época: Bonnie Parker e Clyde Barrow, apresentados com base na descrição de Paul Schneider, em Bonnie e Clyde: a vida por trás da
lenda (2010), cujas fontes, de acordo com o autor, foram uma ampla pesquisa em arquivos, documentos do FBI, entrevistas, relatos de familiares, amigos, jornais e fotografias da época ((SCHNEIDER, 2010, p. 427-428).
Bonnie Parker
Bonnie Elizabeth Parker nasceu na cidade de Rowena, no estado do Texas,
sudoeste dos Estados Unidos, em 01 de outubro de 1910, e faleceu em 23 de maio de
1934, aos 23 anos de idade. Era a filha do meio de uma família de três filhos, cujos
nomes eram: Billie Jean (nascida em 1912) e Hubert, conhecido como Buster (nascido
em 1908).
A situação financeira da família Parker era estável e confortável até que Charles Parker, o pai, artesão habilidoso, faleceu no último dia de 1914, na cidade de Ro-
wena. Deixou Emma Parker e seus três filhos, crianças, desamparados em uma cidade, sem parentes para ajudá-la.
Não há muito que eles possam fazer pela viúva e por seus três filhos,
compaixão não substitui salário. Emma não sabe trabalhar em construção, e mesmo que conseguisse encontrar trabalho na cidadezinha,
não poderia deixar três crianças com menos de 10 anos sozinhas em
casa. Poderia ser diferente se seus pais ainda morassem na região,
ou se algum de seus nove irmãos e irmãs estivesse ali por perto, Ou
se ela fosse dona de uma fazenda. Mas eles não estão perto e ela
não é dona (SCHNEIDER, 2010, p.47).
Em 1915, Emma mudou-se, carregando os filhos, para a periferia de Dallas,
capital do Texas, em busca de trabalho e do restante da família – pois essa poderia
dar auxílio no cuidado dos três filhos pequenos.
Bonnie Parker era excelente aluna de inglês e redação. Participava de todos os
esportes, além de representar em todas as peças de teatro da escola. Em 1922 ficou
em primeiro lugar em competição de soletrar na categoria infantil. Tempos depois,
vence um concurso literário na pequena cidade de Clement City, no estado do Texas.
Como explica Paul Schneider, ela foi “vencedora de concurso literário! Talvez ela vá
ser uma escritora. Ou uma poetisa” (SCHNEIDER, 2010, p. 55).
Bonnie apaixona-se pela primeira vez muito jovem e, em 1926, aos 15 anos,
casa-se com Roy Thornton, que:
Tem quase 1,80m, um queixo de estrela de cinema e uma testa forte,
nariz reto. Olhos verdes. Cabelo castanho, penteado para trás e um
sorriso largo. E ocasionalmente anda com um grupinho de meninos
um tanto encrenqueiros de West Dallas (…) (SCHNEIDER, 2010,
p.56).
O casamento sobreviveu até 1929, quando o casal separou-se de fato, mas
não conseguiu separar-se juridicamente, pois Thornton é mandado à prisão por assalto a um banco na cidade de Dallas.
Para ajudar no sustento da família após a separação, Bonnie Parker passa a
trabalhar como garçonete em um café na periferia de Dallas, chamado Marco’s Café.
Contudo, em novembro de 1929, o estabelecimento comercial fechou as portas e todos os funcionários foram demitidos.
Mas em Nova York, no final de outubro, as bolsas quebraram, e não
só naquele grande dia, mas um dia após o outro, com conseqüências
que se espalharam em ondas para o oeste. No fim de novembro de
1929, o Marco’s Café fecha suas portas para sempre, deixando todo
mundo na rua. Quer o fracasso do restaurante esteja ligado diretamente aos fatos econômicos nacionais, quer seja mera coincidência,
para Bonnie e outras garçonetes isso não importa. O que importa é
que elas de repente estão procurando novos empregos quando a
maioria dos negócios está tentando desesperadamente evitar a demissão de pessoas (SCHNEIDER, 2010, p.81).
Tempos depois da demissão e ainda desempregada, Bonnie Parker conheceu
na casa de uma amiga, um rapaz. Seu nome era Clyde Barrow, “um rapaz encantador,
boa pinta, bem vestido, penteado com esmero, com um sorriso que cria uma covinha
na bochecha esquerda” (SCHNEIDER, 2010, p.82).
Clyde Barrow
Clyde Chestnut Barrow nasceu no dia 24 de março de 1909, em uma casa de
três quartos, em Telico, no Texas, pequena cidade agrícola a aproximadamente 40
quilômetros de distância da capital, Dallas. Seus pais eram arrendatários de terra e
viviam da plantação e do cultivo de algodão. Clyde era o quinto de uma família de seis
filhos.
Quando Clyde nasceu, seus irmãos mais velhos, Elvin – então com 15 anos –
e Adelle – com 11 anos – , já ajudavam nas tarefas no campo. Havia também os mais
novos, Marvin – conhecido como Buch, de 6 anos – e Niellie – com 4 anos. O último
filho da família Barrow, L.C., nasceu quando Clyde havia acabado de completar 4 anos. Lamentava Niellie – como conta Schneider –, que “quase nunca havia o suficiente
para comer. Suponho que não éramos uma família muito feliz” (SCHNEIDER, 2010,
p.34-35).
Clyde não era, desde criança, um rapaz correto. Começou a se envolver com o
crime furtando galos de briga, juntamente com seu irmão, 6 anos mais velho, Buch,
em fazendas vizinhas, na região de Telico.
Em 1922, a família Barrow mudou-se para Dallas. Venderam o equipamento
agrícola que possuíam pelo valor que conseguiram, empacotaram todo o resto, incluindo os filhos, arrearam o velho cavalo da carroça e partiram atrás dos carros, rumo a
Dallas (SCHNEIDER, 2010, p.43).
Sem ter onde se abrigar, a família Barrow instalou-se em um acampamento de
desabrigados em West Dallas. Henry Barrow, pai de Clyde, agora catador de lixo,
consegue comprar um pequeno posto de gasolina e assim começar a vida na grande
Dallas. Mas, para as irmãs de Clyde, viver nesta parte da cidade era viver num ambiente ruim. Como revelou Schneider, “(…) não é fácil para um garoto do lado errado
dos trilhos fazer a coisa certa nesta cidade” (SCHNEIDER, 2010, p. 69).
Quando Clyde completou 16 anos, abandonou a escola e passou a trabalhar
em qualquer espécie de emprego que havia disponível, como em fábricas de vidros e
empresas de refrigerantes. Porém, nunca conseguiu ficar muito tempo em cada empresa. Em 1926, a situação econômica na região de West Dallas piorou, com o aumento do desemprego. Buck e Clyde começaram a furtar sucatas para conseguir algum dinheiro. Por isso, seus nomes passaram a ser associados a pequenos furtos.
Adelle, a irmã mais velha de Clyde, buscou uma explicação para o início do banditismo de seus irmãos mais novos:
Bem, acho que desde pequenos eles queriam coisas que não podiam
ter. E parecia que era a melhor maneira de conseguir: sair e pegar
uma coisa aqui, outra ali (SCHNEIDER, 2010, p. 84).
Clyde Barrow começou sua carreira no crime furtando coisas pequenas – como
os galos – até chegar a carros e dinheiro. Apesar de ser reconhecido como assaltante
de bancos, a preferência de Clyde era por pequenos roubos em postos de gasolina e
lojas.
Em 1930, Clyde conhece Bonnie, descrita por Paul Schneider como “vivaz,
tinha boa aparência e cabelos cor de caramelo com tons de vermelho e sardas”
(SCHNEIDER, 2010, p. 80). Na visão de Adelle, citada por Schneider, Bonnie “era a
resposta para as orações de uma irmã em favor do irmão que tanto amava. Esperava
que quando Bonnie descobrisse a ficha policial de Clyde, fizesse dele um bom menino
e continuasse com ele” (SCHNEIDER, 2010, p. 90). Adelle descreveu fisicamente
Bonnie: “(…) era uma coisinha adorável, mais uma boneca do que uma garota. Ela
tinha um cabelo amarelo, a pele mais bonita que já vi, sem uma mancha, o arco superior dos lábios perfeito e olhos azuis, azuis” (SCHNEIDER, 2010, p. 90). Claro, como a
história mostrará, Adelle estava equivocada.
Para W.D., um dos companheiros de crimes de Bonnie e Clyde, em 1933, também citado por Schneider: “Bonnie sempre foi bem cuidada, mesmo na estrada ela
usava maquiagem e o cabelo estava penteado o tempo todo. Ela usava vestidos longos e saltos altos e pequenas boinas na cabeça. Ela era uma coisinha minúscula”
(SCHNEIDER, 2010, p. 281).
As produções inspiradas em Bonnie e Clyde
Bonnie e Clyde: a vida por trás da lenda
Escritor e colaborador de jornais e revistas como The New York Times e The
New Yorker, Paul Schneider buscou, na obra Bonnie & Clyde – A vida por trás da len-
da, lançada pela editora Larousse do Brasil, em 2010, a desmistificação da lenda
em torno do casal de bandidos mais célebre dos anos 1930. Schneider traça um deprimente cenário das regiões rurais dos Estados Unidos, depois da quebra da Bolsa
de Valores de Nova Iorque, em 1929. Baseado em uma ampla pesquisa, o autor conta
a história do casal que se tornou um ícone no mundo do crime. O livro traz as origens
dos criminosos, como se fossem narradas pelos próprios Clyde e Bonnie. Apresenta
uma linguagem direta, que se prende, - de acordo com o autor, “apenas aos fatos,
sem traçar julgamentos e não tenta analisar a psicologia de seus personagens” (COZER, 2010). Schneider usa o ritmo acelerado para narrar a aventura do casal e da sua
gangue. Utiliza para isso descrições rápidas e onomatopeias, transformando algumas
passagens em quase um livro de ação. Logo na nota do autor, podemos observar a
preocupação de Schneider em inserir a sua obra no gênero biográfico:
A história a seguir é um trabalho de não ficção em que nada foi criado
pela imaginação do autor, e tudo tem um antecedente razoavelmente
aceitável como “fato”. Dito isto, algumas fontes são melhores do que
as outras, situação que vale para todo o trabalho de não ficção e é
ainda mais aceitável em histórias tão cheias de rumores e revestidas
do verniz de lenda como a de Bonnie Parker e Clyde Barrow. Por ora,
tudo o que o leitor precisa saber é que nenhum diálogo foi inventado:
todas as declarações assinaladas com aspas são citações diretas de
fontes qualificadas (SCHNEIDER, 2010, p.11).
A história começa antes mesmo do nascimento de Clyde Barrow e de Bonnie
Parker, ambos nascidos em pequenas cidades do estado do Texas, no início do século XX. Apresentam-se suas famílias, seus pais, mães e irmãos e como ambos cresceram.
Schneider, citando Emma Parker, mãe de Bonnie, comenta sobre a paixão do
casal de bandidos:
Soube que havia algo entre eles no minuto em que Bonnie me apresentou para ele. Eu podia notar nos olhos e na voz de Bonnie, e na
maneira como ela continuava tocando a manga dele enquanto falava
(SCHNEIDER, 2010, p. 82).
Schneider tenta, em Bonnie e Clyde: a vida por trás da lenda, contar a história
do casal por meio de fontes “primárias”. Descreve que relacionar o fato relatado com a
data em que ocorreu pode ser uma tarefa difícil, pois o tempo torna a lembrança confusa. Entretanto, nos casos de relatos de criminosos, o tempo é uma maneira de fazer
com que eles fiquem mais honestos, pois o medo de serem processados desaparece.
(SCHNEIDER, 2010, p.427-428)
O escritor afirma ainda que a grande contribuição para as informações apresentadas na biografia provêm de um livro de testemunhas, escrito logo após a morte
de Bonnie e Clyde, com o título Fugitives, tendo Emma Paker e Nell Barrow, irmã de
Clyde, como as principais colaboradoras (SCHNEIDER, 2010, p. 428).
Outra fonte importante são as memórias de Blanche Barrow, intituladas Minha
vida com Bonnie e Clyde e escritas entre 1933 e 1939, enquanto estava presa na Penitenciária do Estado de Missouri (SCHNEIDER, 2010, p. 429).
Bonnie e Clyde: uma rajada de balas
O longa de ação, cuja produção foi em 1967, desenvolve-se no interior norteamericano, durante a Grande Depressão. Bonnie Parker conhece Clyde Barrow, um
ex-presidiário, quando esse tenta roubar o carro de sua mãe. Atraída pelo rapaz, ela o
acompanha e ambos iniciam uma carreira de crimes, assaltando bancos e roubando
carros. Inicialmente não queriam ferir ninguém, era apenas uma aventura para ambos,
que, logo, se apaixonam. O público assiste à transformação dessa aventura em algo
brutal.
Bonnie Parker e Clyde Barrow percorrem sua trajetória na tela durante os desordeiros anos da década de trinta; não se consegue decifrar
com nitidez onde os fatos terminam e onde começa a lenda, nem isso
é relevante nesta breve estória de um casal que deixa o barco correr
e as coisas acontecem sem interferências, que ganha fama nos assaltos a bancos, que é laureado no gangsterismo e no crime (CRIST,
1970, p. 256).
O filme é considerado um dos mais importantes da década de 1960. Foi campeão de bilheteria e muito popular entre a geração jovem, conhecida como baby boom. No Oscar de 1968, a película recebeu duas premiações, nas categorias de melhor
atriz coadjuvante para Estelle Parsons e de melhor fotografia para Burnett Guffey. O
American Film Institute (Instituto Americano do Cinema) considerou Bonnie e Clyde:
uma rajada de balas como o 27º entre os 100 maiores filmes da história do cinema.
(AFI, 2014).
O longa foi responsável por elevar o casal ao patamar de bandidos mais adorados dos Estados Unidos. Bonnie e Clyde não eram pessoas de fama, mas por isso
ansiavam; aliás, a rebeldia de ambos era apenas momentânea, apenas se manifestava no instante da ação criminosa (CRIST, 1970, p. 256).
Existe um boa dose de glamour no clássico da década de 1960, graças ao casal de atores, Faye Dunaway e o elegante Warren Beatty.
Ele, tantas vezes citado apenas como risonha promessa do cinema
americano, aparece esplendidamente no papel de Clyde, revelando a
cada instante fraqueza interior e ferocidade exterior - um homem para
quem as armas e a velocidade significavam um acréscimo de potência física. Já Faye Dunaway, que representa Bonnie, consegue trazer
ao seu papel um toque de libido nervoso, um intermitente animalismo
que compensam seus olhares as vezes cândidos e imaculados
(CRIST, 1970, p. 257).
No filme há o aspecto fictício da história e o roteiro teve liberdade de eliminar
personagens e criar situações como, por exemplo, quando Bonnie leva um tiro da polícia em uma de suas últimas fugas; Bonnie recebeu uma bala no ombro. Sentiu o corpo arder com feroz intensidade e caiu para a frente gritando. Ela jamais tivera a experiência de uma severa dor física e seu grito era de um animal assustado
(HIRSCHFELD, 1967, p.146). O fato, em 1934, é que ela sofre um acidente de carro e
tem a perna direita inteira queimada.
A pele da perna direita dela acabara do quadril até o tornozelo - diz
W.D. - Eu conseguia ver o osso em alguns lugares. Ela estava tão
queimada que nenhum de nós achou que sobreviveria (SCHNEIDER,
2010, p.11).
Outro exemplo, de suposta alteração dos fatos, é que Clyde é apresentado
como impotente quanto às decisões de Bonnie. Em determinados momentos da obra
literária, objeto de análise deste artigo, Clyde, devido à sua personalidade, era o chefe
real, não Bonnie. Clyde dominava todos a sua volta, até mesmo o irmão mais velho,
Buck. Planejava e tomava todas as decisões sobre o que roubar ou quando deixar um
trabalho para lá (SCHNEIDER, 2010, p. 199-200).
Bonnie & Clyde (2014)
Os canais History, Lifetime e A&E dos Estados Unidos exibiram, nos dias 08 e
09 de dezembro de 2013, Bonnie & Clyde, superprodução em formato de minissérie,
em dois episódios, totalizando quatro horas de duração. No Brasil, a minissérie foi exibida pelo History Channel, nos dias 02 e 03 de fevereiro de 2014.
Com roteiro de John Rice e Joe Batteer, a história apresenta a trajetória de
Bonnie Parker – vivida pela atriz Holliday Grainger – e Clyde Barrow – representado
pelo ator Emile Hirsche.
Na minissérie, Clyde se vangloriava de ter um sexto sentido infalível para antecipar eventos, mas seu ponto fraco era Bonnie. Contudo, a ideia de sexto sentido por
parte de Clyde não aparece no filme de 1967, nem na música de 1968 e tampouco é
citado por Paul Schneider em 2010.
Bonnie, por sua vez, sentia prazer em ver suas frequentes aparições nos jornais. Isso satisfazia uma sede de fama, o que a motivava a cometer crimes cada vez
mais arriscados e perigosos. A personagem é retratada como obcecada por fama,
notoriedade e dinheiro e sentia prazer em ver sua foto estampada nos jornais, chegando ao ponto de enviar novas fotos a jornalistas. Já, na obra literária, esses eventos
nunca aconteceram, porque as fotos icônicas do casal foram encontradas em uma
batida policial, em 1933. A Barrow Gang, – composta, na época, por Bonnie, Clyde,
Buck (irmão de Clyde, agora absolvido de seus crimes) e Blanche, esposa de Buck acabou deixando, no local em que estava escondida, um caderno de poesias de Bonnie e uma máquina fotográfica com alguns rolos de filmes (SCHNEIDER, 2010, p.
304).
Esses filmes foram revelados pelo jornal The Globe Joplin, do estado norteamericano Missouri, e renderam as fotos mais famosas do casal, em especial a foto
em que Bonnie Parker aparece usando um vestido justo e uma pequena boina, um
charuto na boca, uma pistola na mão e com a perna no parachoque do Ford V-8 conversível. Essas fotos rapidamente foram divulgadas por todo o país. Em poucas semanas a dupla se transformou nos bandidos mais notórios dos Estados Unidos, na
primeira metade da década de 1930 (SCHNEIDER, 2010, p. 291).
Ao longo dos dois episódios da minissérie, fica evidente que Clyde é cegamente apaixonado por Bonnie e é ela quem comanda as atividades do grupo. Porém, na
obra literária, Paul Schneider apresenta Clyde como um amante ativo e dominador;
Bonnie acompanhou Clyde e ninguém que a conhecesse disse que houvera a menor
hesitação sobre isso. Para L.C., irmão mais novo de Clyde, citado por Schneider,
“Clyde só queria ficar vivo e livre, e Bonnie só queria estar com Clyde” (SCHNEIDER,
2010, p. 249).
Em outro momento, agora em depoimento de W.D., o comparsa da dupla afirmou: “Nunca soube de ele pular em cima de alguém com os punhos cerrados, exceto
em Bonnie. Ocasionalmente ele a chicoteava. Ele esbofeteava o rosto dela quando ela
o enfrentava, mas se beijavam e faziam as pazes” (SCHNEIDER, 2010, p. 298).
Bonnie & Clyde (1968)
A música “Bonnie & Clyde”, composta em 1968, pelo cantor francês Serge
Gainsbourg, e interpretada por Gainsbourg, juntamente com uma atriz também francesa (Brigitte Bardot), baseia-se no poema The Story of Bonnie and Clyde (A história de
Bonnie e Clyde). A canção foi finalizada semanas antes de o casal de bandidos ser
alvejado, em uma emboscada, em 1934. O poema conta os infortúnios do casal, des-
de o momento em que se apaixona até o final, com a morte de ambos (SCHNEIDER
2010, p. 419).
O filme Bonnie e Clyde: uma rajada de balas, (1967) obteve tamanho sucesso
que acabou por inspirar Gainsbourg a gravar a balada em tributo aos criminosos.
(GONÇALVES FILHO, 2014).
Da mesma forma que o poema escrito por Bonnie em 1934, a canção de 1968
conta a história do casal de forma cronológica: 1 - A forma como se conheceram:
“Quando eu conheci Clyde/ Numa outra vez/ Ele era um moço leal/ Honesto e direito/
A gente tem que pensar/ Que foi a sociedade/ Que me estragou definitivamente”
(GAINSBOURG, 1968). 2 - A vida de crimes: “Como as pessoas escreveram!/ Sobre
ela e eu/ Alegam que nós matamos/ A sangue frio/ Não é engraçado/ Mas às vezes
somos obrigados/ De fazer calar/ Aqueles que começam a gritar.” (GAINSBOURG,
1968). 3- A morte iminente:
Um dia desses/ A gente vai morrer junto/ Mas eu to pouco ligando/ É
por Bonnie/ que eu balanço/ Qual a importância/ Se eles tirarem meu
couro/ Eu, Bonnie/ Eu balanço por Clyde Barrow De qualquer maneira/ Eles não podiam mais sair dessa/ A única solução/ Era morrer/
Mas vários foram os que os seguiram/ No inferno/ Quando morreram/
Barrow e Bonnie Parker” (GAINSBOURG, 1968).
Conclusão
Com o cenário podre e empoeirado do interior norte-americano durante a
Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a história de
Bonnie e Clyde já foi retratada em livros, músicas, filmes, peças teatrais e em musical
da Broadway. De um modo ou de outro, todos esses produtos representam tentativas
de entender o fascínio que a vida e morte dos dois exerceram e exercem sobre o público ainda hoje, mesmo noventa anos após a morte de ambos. Mais de 50 mil pessoas foram ao velório de Bonnie e 40 mil pessoas foram ao velório de Clyde.
“Lá em Dallas, pessoas que você jamais conheceu farão fila em volta
do corredor para ter a emoção de passar por você ali deitado em uma
caixa. E você jamais voltará a se unir a Bonnie; Emma vai garantir isso. Ela insistirá em funerais separados e sepulturas separadas em
cemitérios separados” (SCHNEIDER, 2010, p. 425).
O casal criou a noção de bandido celebridade, graças à intensiva cobertura
da imprensa, nos anos de 1930. Criou-se ainda o mito, tanto na ficção quanto na realidade, sobretudo porque o assunto reunia crime e amor extremo, de modo que não se
consegue decifrar com nitidez onde os fatos terminam e onde começa a lenda do casal que ganhou fama roubando bancos. “Os dois têm carreira curta e sangrenta, mas
marcante, e chegam a receber postumamente honras de heróis populares” (CRIST,
1970, p.257).
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BONNIE & CLYDE: A DESMISTIFICAÇÃO DO CASAL