Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 AS REPRESENTAÇÕES DOS NÚMEROS RACIONAIS NA RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS COM RECURSO À BARRA COMO MODELO Hélia Ventura Escola EB 2,3 D. Domingos Jardo - Mira Sintra [email protected] Hélia Oliveira Universidade de Lisboa e Centro de Investigação em Educação da FCUL [email protected] Resumo Esta comunicação pretende dar a conhecer parte de um trabalho de investigação realizado com uma turma do 5.º ano de escolaridade, que visou o aprofundamento da problemática do ensino aprendizagem dos números racionais no ensino básico, particularmente no que diz respeito ao estabelecimento de conexões entre as diversas representações destes números. Neste contexto, foi realizada uma experiência de ensino no tema Números Racionais, delineada colaborativamente com a professora de uma turma de alunos com reduzida experiência escolar neste tópico. Tentou-se criar um contexto favorável ao estabelecimento de conexões entre as várias representações dos racionais, através de problemas e tarefas de natureza exploratória e investigativa e do uso de modelos, principalmente a barra numérica. O objectivo da presente comunicação é evidenciar como os alunos, partindo dos conhecimentos informais que possuem sobre fracções e percentagens, se começam a apropriar da barra numérica, articulando as várias representações dos números racionais, à medida que vão resolvendo problemas que suscitam o uso deste modelo. Os resultados aqui apresentados dizem respeito à exploração dos alunos de uma tarefa contextualizada na realidade, envolvendo números racionais, nos significados de medida e parte-todo, em que a barra numérica surge como modelo. Os dados foram recolhidos a partir do registo vídeo da aula de discussão da tarefa com toda a turma e dos registos escritos dos alunos que trabalharam em pequenos grupos. Os resultados deste estudo permitem compreender como os alunos começam a usar a barra numérica associada aos contextos propostos como um modelo de uma situação, para se transformar num modelo para pensar e resolver um problema (Van den Heuvel-Panhuizen, 2003), fazendo apelos a várias representações dos números racionais, e através de estratégias variadas e flexíveis. 1. Introdução O conceito de número racional é fundamental no desenvolvimento matemático dos alunos no ensino básico, no entanto, este reveste-se habitualmente de enorme dificuldade. As orientações curriculares mais recentes, assim como a investigação realizada As representações dos números racionais… H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 internacionalmente (Lamon, 2007), sugerem, na aprendizagem inicial dos racionais, o estabelecimento de conexões entre as suas representações (ME, 2007). O conceito de número racional é tão importante quanto complexo, existindo inúmera investigação que procura problematizar a situação e encontrar soluções para esta complexidade. Apesar das várias direcções tomadas pela investigação, parece ser claro que há muitos factores a ter em conta no ensino aprendizagem deste conceito, como por exemplo, os seus vários significados, o conhecimento informal dos alunos e o uso de contextos e modelos apropriados. Deste modo, é objectivo deste estudo compreender como alunos do 5.º ano de escolaridade, partindo dos conhecimentos informais que possuem sobre fracções e percentagens, se começam a apropriar da barra numérica, articulando as várias representações dos números racionais, à medida que vão resolvendo problemas que suscitam o uso deste modelo. Números racionais: significados e representações A investigação na área dos números racionais tem seguido direcções diversas, com incidência nas operações, erros, dificuldades, várias representações e significados. Os números racionais podem ser interpretados de várias formas, constituindo-se em diferentes sub-conceitos. Kieren (1980) foi o primeiro a defender que o conceito de número racional envolve vários significados, os quais designou por sub-constructos. Segundo este autor, uma compreensão completa dos números racionais requer não só uma compreensão de cada um dos sub-constructos separados, mas também da forma como eles se relacionam. O projecto Rational Number Project (Behr, Harel, Post & Lesh, 1992) baseou grande parte do seu trabalho nos sub-constructos de Kieren: medida, quociente, razão e operador, adicionando ainda um outro, a relação parte-todo (Olive, 1999). O conceito de número racional é reconhecidamente complexo devido: a) aos diferentes significados e representações que estes números podem assumir; b) aos desafios quando se comparam quantidades através das diferentes representações; e c) ao facto de amiúde este tema não ser desenvolvido com os alunos seguindo um modelo adequado (Moss, 2005). A introdução deste conceito está longe de ser trivial (Merlini, 2005), tanto do ponto de vista do ensino, como da aprendizagem, sendo particularmente difícil aos alunos relacionarem as várias representações: fracção, decimal e percentagem (Sweeney & Quinn, 2000). No entanto, tanto as orientações curriculares, como a vasta investigação empírica sobre os racionais (Lamon, 2007), tem mostrado que é importante que os alunos trabalhem as várias representações destes números. Assim, o documento Principles and standards for school mathematics (NCTM, 2000) refere que devem ser dadas oportunidades aos alunos para estabelecerem conexões entre as várias representações matemáticas. Existem propostas diversas relativamente ao modo como se pode ajudar os alunos a estabelecer essas relações. Segundo Moss (2005), as percentagens podem ser introduzidas antes do estudo das fracções e da representação decimal, porque neste caso os alunos estão sempre a trabalhar com fracções cujo denominador é 100, o que aparentemente se torna mais fácil. Estas podem ser abordadas evidenciando-se a equivalência entre racionais cuja representação decimal ou sob a forma de fracção sejam mais simples. Desta forma, os alunos podem fazer conversões (preliminares) entre as diferentes representações de um número racional de uma forma directa e intuitiva, enquanto desenvolvem uma compreensão geral de como as três representações se relacionam (Moss, 2005). Um argumento adicional, quanto ao reforço do ensino precoce das percentagens, é o facto destas constituírem uma forma natural de pensar acerca das proporções (Moss & Case, 1999), uma vez que são uma espécie de razão em que a segunda quantidade é sempre 100 As representações dos números racionais… 2 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 (Lamon, 2006). No entanto, uma abordagem destes conteúdos de forma isolada é uma das fontes de dificuldades por parte dos alunos (Sweeney & Quinn, 2000). Conhecimento informal O conhecimento informal sobre os números racionais é, em grande parte, alheio ao conhecimento dos símbolos e procedimentos matemáticos (Mack, 1990). Embora possa existir um desfasamento entre estes tipos de conhecimento, Hiebert (1988) propõe que na escola os conhecimentos informais dos alunos sirvam de base para o desenvolvimento dos símbolos e procedimentos matemáticos, independentemente do conteúdo abordado. Estudos revelam que quando os alunos chegam à escola possuem conhecimento informal sobre vários conceitos associados aos números racionais, nomeadamente, o de partilha equitativa e de equivalência (Pothier & Sawada, 1983) e também sobre “juntar” e “separar” conjuntos bem como estimar quantidades que envolvam fracções (Behr, Wachsmuth & Post 1985). Ainda assim, Mack (1990) refere que o conhecimento informal que os alunos têm sobre fracções é desligado dos conhecimentos simbólicos e procedimentais destas, não sendo claro como eles usam este conhecimento na compreensão dos símbolos e procedimentos das fracções durante o ensino. O conhecimento informal dos alunos, analisado em diversos estudos (Mack, 1990, 2001), pode ser caracterizado como o conhecimento aplicado e circunstancial construído pelos indivíduos como resposta às suas experiências da vida real, ou seja, o conhecimento informal (prático) que os alunos possuem dos números racionais, podem ajudá-los a resolver problemas reais com sucesso (Kieren, 1988; Mack, 1990). O modelo da barra numérica Entre os modelos que têm sido descritos como potenciadores do desenvolvimento do conceito de número racional, encontra-se a barra numérica, presente em diversos estudos no âmbito da Educação Matemática Realista (Van den Heuvel-Panhuizen, 2003). Esta permite que os alunos explorem relações entre números e contribui para a compreensão das relações entre as várias representações dos números racionais (Van Galen et al., 2008). São, adicionalmente, reconhecidas razões de ordem didáctica e psicológica para a utilização da linha numérica dupla como um modelo central para as operações de adição e subtracção com os racionais: 1) articula-se com soluções de procedimentos informais devido ao seu carácter linear (Klein, Beishuizen & Treffers, 1998) e é um modelo natural para as estratégias de contagem informais; 2) tem o potencial de aumentar o nível de actividade dos alunos (Gravemeijer, 1994); 3) tem um carácter natural e transparente (Klein et al. 1998), uma vez que o seu formato vazio estimula a representação mental dos números e das operações de adição e subtracção; 4) os alunos que a utilizam estão cognitivamente envolvidos nas suas acções, e não se tornam dependentes, numa fase primária, da visualização (Beishuizen, 1993). Deste modo, pode afirmar-se que a utilização da barra numérica favorece a criação de uma imagem mental das estratégias de contagem e das operações, estimulando o cálculo mental e, mais globalmente, o sentido de número. No que diz respeito, estritamente, à barra numérica, Bright, Behr, Post e Wachsmuth (1988) enumeram algumas vantagens deste modelo: 1) o comprimento representa uma extensão da unidade e, simultaneamente, de todas as subdivisões da unidade; 2) é um modelo contínuo; e 3) requer o uso de símbolos para transmitir o significado pretendido. Deste modo, este modelo é apontado como sendo particularmente útil numa fase inicial de exploração das várias representações dos números racionais, em contextos que envolvam medida e divisão. As representações dos números racionais… 3 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 2. Metodologia A metodologia adoptada neste estudo é de natureza interpretativa, recorrendo à observação de aulas (com gravação vídeo) e análise dos registos escritos dos alunos, como principais estratégias de recolha de dados. Os participantes deste estudo são os alunos da turma de 5.º ano que trabalharam colaborativamente em pequenos grupos de quatro elementos (Grupos 1, 2, 3 e 4) na realização das tarefas propostas planeadas pelas autoras deste estudo, em colaboração com a professora da turma. A constituição dos grupos foi efectuada a partir da aplicação de um teste escrito, antes da realização da experiência, incidindo sobre a representação de racionais nas várias formas e a resolução de problemas simples, envolvendo racionais. Procurou-se criar grupos com alunos que tivessem tido um desempenho variado nesse pré-teste e, adicionalmente, diversificar a representação de género e dos níveis obtidos no final do 1º período, na disciplina de Matemática. Para a avaliação dos alunos no pré-teste foram criadas categorias de análise, a partir das quais se estabeleceram três níveis de desempenho (bom - A, médio - B e reduzido - C). No entanto, o desempenho dos alunos no pré-teste ficou-se apenas pelos níveis B e C, o que nos levanta a forte conjectura de que os alunos não tiveram um contacto significativo com as fracções e os racionais no seu percurso escolar. A generalidade dos alunos revelou escassos conhecimentos, ficando-se pela identificação da metade, ½ ou 50% de uma área, pelo reconhecimento de 20%, como sendo a quinta parte de uma figura e pela aplicação do significado de operador (quarta parte) numa situação simples, que os mesmos transformam numa divisão por quatro. A partir destes resultados foi delineada uma experiência de ensino, alicerçada num conjunto de tarefas que promovem as conexões entre as várias representações dos racionais, que tem em conta as novas orientações curriculares para o ensino da Matemática (ME, 2007), no que se refere ao tema dos números racionais. As tarefas são preparadas para se realizarem em dois momentos: depois da professora dar alguma informação sobre as tarefas, sempre que isso se justifique, os alunos trabalham de forma autónoma em pequenos grupos (quatro elementos), e no final procede-se à discussão oral em grande grupo (turma). As tarefas propostas visam desenvolver diversas capacidades como observação, confronto de resultados, discussão de estratégias e formalização de conceitos e representações matemáticas. Com o intuito de proporcionar aos alunos modelos que os auxiliassem a representar situações concretas, dando-lhes apoio visual ao raciocínio sobre as relações que se podem estabelecer com os números racionais, a barra numérica foi um dos principais modelos estimulados pelas tarefas. A tarefa analisada nesta comunicação, é a quarta numa sequência em que figuram contextos, com personagens e acontecimentos onde é natural surgirem números racionais. A primeira tarefa parte de uma situação de partilha equitativa, permitindo que os alunos desenvolvam o sentido de quociente (dividir os chocolates em dois, quatro e oito pedaços iguais, que pode ser realizado por esquemas), servindo de “trampolim” para a exploração da relação parte-todo. Para a realização desta tarefa os alunos têm à sua disposição tiras de papel geometricamente iguais (simbolizando os chocolates), que servem de modelo da situação. A segunda tarefa apela à utilização de um número racional como quociente e na relação parte-todo, envolvendo quantidades discretas. Nesta tarefa os alunos devem utilizar numerais mistos para representar uma determinada quantidade maior que a unidade, assim como reconstruir a unidade a partir das suas partes, usando representações pictóricas e símbolos. Na terceira tarefa pretendia-se que os alunos além de utilizarem os racionais, como medida e operador, os representassem, escritos de diferentes formas, numa barra. As representações dos números racionais… 4 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 A quarta tarefa (que iremos analisar nesta comunicação) é apresentada num contexto de um problema, em que os números racionais aparecem com o significado de medida e de parte-todo e, na qual, existia a expectativa de que os alunos pudessem vir a usar a barra numérica. Figura 1- Tarefa 4 3. O uso da barra numérica pelos alunos Resolução da tarefa A tarefa analisada questionava os alunos sobre a quantidade de espelhos necessária para preencher o fundo do palco. As estratégias usadas inicialmente pelos grupos foram essencialmente de dois tipos. Uma das estratégias foi a realização de adições sucessivas do comprimento de cada espelho (fig. 1), até perfazer um total superior ao valor pretendido. A outra estratégia que os alunos seguiram (fig. 2) baseou-se inicialmente na estimação de uma resposta (5 espelhos), mas que ao verificarem pela multiplicação que obtinham um valor inferior ao pretendido, adicionaram o comprimento de mais um espelho, chegando então a 7,2m (6 espelhos). Figura 2- Estratégia 1 Figura 3 - Estratégia 2 Os alunos consideraram o número inteiro de espelhos efectivamente utilizados para realizar o trabalho referido, no entanto, aquilo que se pretendia era que eles determinassem com exactidão que quantidade de espelhos estava aqui em jogo. Assim sendo, a professora resolveu fazer um ponto da situação na exploração da tarefa e questionou-os sobre o número de espelhos inteiros presente na sua resposta (5 espelhos) e sobre a representação possível para a parte utilizada no sexto espelho. As representações dos números racionais… 5 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 Professora: Uma parte da resposta nós já sabemos! Quantos espelhos inteiros vamos usar? Grupo 3: Cinco! Professora: É?! Então agora do outro, quanto é que vão utilizar?! Grupo 2: Do outro vamos usar só um metro! Professora: E como é que podem representar isso? Dado que numa tarefa anterior, os alunos já tinham trabalhado com a representação de um número racional sob a forma de numeral misto, a professora tinha a forte expectativa de que essa forma de representação iria surgir nos grupos. Após os alunos terem trabalhado em pequeno grupo, durante aproximadamente 30 minutos, a professora inteirou-se das respostas dos vários grupos e passou à fase de discussão com o grupo-turma. Começou por registar no quadro a resposta dada por cada um dos quatro grupos: De seguida, a professora suscita a discussão com a turma questionando os alunos sobre a correcção das duas respostas, aparentemente diferentes, que surgiram nos grupos: Professora: Como eu penso que só há uma hipótese de resposta certa, quer dizer que há dois grupos errados! É verdade o que eu estou a dizer? Grupo 1: Não! Professora: Vocês? O que acham? (dirigindo-se ao grupo 2) Grupo 2: A professora não tem razão! Professora: Que maçada! E vocês? Grupo 3: Não! Professora: Também não?! E aqui? (dirigindo-se ao grupo 4) Grupo 4: Estão as duas bem! Professora: Pronto! A professora não tem razão! (rindo) Agora podem explicar porque é que a professora não tem razão. Grupo 2: Porque dez doze avos é a mesma coisa que cinco sextos! Professora: E como é que se podia provar isso? Grupo 1: Dois vezes cinco dez e dois vezes seis são doze! Professora: São fracções quê? Grupo 2: Equivalentes! Os alunos evidenciam reconhecer a equivalência entre as fracções presentes nos dois numerais mistos, o que os leva a afirmar com segurança que ambas as respostas estão correctas. De seguida, a professora questiona os grupos sobre as estratégias que os conduziram a esses resultados. A barra numérica na resolução dos grupos 1 e 3 A professora começou por questionar o grupo 3 sobre o modo como obtiveram o valor de 10/12. As representações dos números racionais… 6 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 Professora: Quero que me expliquem porque é que foram aos dez doze avos! Grupo 3: O espelho media um metro e dois! E como um metro valia 10 e com mais 2 décimas ficou doze! Professora: Porque uma unidade são quantas décimas? Grupo 3: Dez! Professora: 1,2 não são 12 décimas? Grupo 3: Sim! Grupo 3: Depois dividimos o espelho em doze bocadinhos! Professora: Porquê? Grupo 3: Porque era 1,2! E cada bocadinho ia valer 1 décima! Como se pode verificar pelo registo escrito dos alunos (fig. 4), estes usaram uma barra dividida em 10 partes (“um metro valia 10 [décimas]”) a que acrescentam duas (“com mais duas décimas ficou 12”) que assinalam com o círculo1. Note-se que embora não exista o mesmo rigor no desenho das partes na barra, tal como é feito com a representação dos espelhos, os alunos interpretam-nas como partes iguais. No diálogo com a professora evidenciam claramente que reconhecem que o todo (a unidade-comprimento do espelho) foi dividida em 12 partes (“doze bocadinhos”) em que cada uma corresponde a uma décima, ou seja, que estas são iguais entre si. Figura 4 - Resolução do grupo 3 O grupo 1 explicou oralmente que tinha raciocinado de forma semelhante, dividindo a barra (“o espelho”) em doze partes, cada uma delas “valia” uma décima. No entanto, ao atentarmos à sua resolução escrita verificamos que estes alunos incorporaram outras representações dos números racionais (fig. 5). Assim, identificam a unidade (o comprimento 12 total do espelho) como fracção ( ) e como percentagem (100%) e cada parte desenhada na 12 barra como sendo um decímetro e também 1%. Adicionalmente, assinalam metade da barra com “meio” e 60%. Questionados posteriormente sobre esta percentagem, os alunos explicaram que se enganaram no símbolo utilizado, e que o que queriam escrever era 60 cm, dado representar 50% do total (120 cm). No entanto, desconhecemos o significado que atribuíram a 1%. 1 A parte sombreada foi acrescentada pelos alunos já no momento da discussão, procurando integrar a resposta dos outros grupos na sua própria representação, embora sem sucesso. As representações dos números racionais… 7 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 Figura 5 - Resolução do grupo 1 A barra numérica na resolução dos grupos 2 e 4 Após os grupos 1 e 3 terem explicado a sua solução, foi a vez dos grupos 2 e 4 explicarem como chegaram ao resultado, 5/6. O grupo 2 explicou o seguinte: Professora: E vocês? Como fizeram? Grupo 2: Nós tínhamos 1,2 e multiplicámos por 5 e chegámos à conclusão que ainda nos faltava um metro para chegarmos aos sete. Professora: Ok! E a fracção cinco sextos? Grupo 2: Depois tirávamos cinco sextos do outro espelho! Professora: Como é que chegaram aos cinco sextos? Grupo 2: Tínhamos de dividir o espelho em seis partes e tirávamos cinco partes, que era o bocadinho que faltava para chegar aos sete! Professora: Dividiram em seis, mas eu não percebo bem porque é que dividiram em seis! Quanto valia cada bocadinho? Grupo 2: Porque cada bocadinho do nosso espelho valia 0,2, que era o que sobrava! Depois fomos ver quantos 0,2 cabiam na nossa unidade! Os alunos começaram por explicar como obtiveram a parte inteira no numeral misto. Depois através das questões da professora, a sua explicação evidencia que os 5/6 foram obtidos a partir de uma representação da barra, enquanto modelo do espelho, que surge no final seccionada em seis partes iguais representando 0,2 cada uma delas. Como é que os alunos chegaram a estas secções da barra? Segundo eles, “0,2 era o que sobrava [para além da unidade-um metro]”, ou seja, tomaram inicialmente como unidade o valor do comprimento que queriam relacionar com o todo (comprimento total do espelho) e foram determinar o número de partes na unidade (1 metro): “fomos ver quantos 0,2 cabiam na nossa unidade”. A partir daí completaram a unidade para chegar ao comprimento total do espelho (1,2m) e verificaram que a parte pretendida era cinco de um total de seis partes de 0,2. A professora representou no quadro (fig.6) o esquema dos alunos: Figura 6 - Esquema da resolução do grupo 2 As representações dos números racionais… 8 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 No grupo 4 embora os alunos também tenham recorrido à divisão da barra em seis partes iguais, os seus raciocínios divergiram, relativamente ao grupo anterior: Professora: Porque é que dividiram em seis partes? Grupo 4: Primeiro dividimos a barra ao meio, que era 50% e 60cm! Professora: Ok! No fim então era … Grupo 4: 100% e 120cm! Professora: E depois? Grupo 4: Nós precisávamos de um metro do sexto espelho! Depois de sabermos quanto era metade do espelho, fomos ver quanto é que lhe faltava para chegar aos 100! Professora: E como é que raciocinaram para dividir cada metade em três? Grupo 4: Vimos que do 60 para chegar a 100 faltava 40! E do 100 para chegar ao 120 faltava 20! Como só queríamos 40cm, dava-nos jeito que cada bocadinho valesse 20cm! Como é ilustrado pelo desenho dos alunos (fig. 7), tomaram o espelho como unidade (120cm) e foram usar uma fracção ou percentagem de referência (um meio ou 50%, respectivamente) para tentar estabelecer uma relação da parte (100cm) que queriam relacionar com o todo. De seguida, ao fazerem a diferença entre 100 e 60cm e entre 120 e 100 cm, verificam que a primeira é metade da segunda e apercebem-se que a metade da barra, entre os 60 e os 120 cm, pode ser dividida em três secções iguais, portanto, na sua totalidade pode ser dividida em seis partes iguais, correspondendo cada uma a 20cm. Estas medidas são assinaladas na parte superior da barra, às quais fazem corresponder as respectivas fracções (significado parte-todo) na parte inferior da barra. Figura 7 - Resolução do grupo 4 É interessante verificar como os alunos utilizaram as várias representações (percentagem, número decimal e fracção) para representarem a mesma porção de uma unidade, na mesma barra. Ou seja, tomaram a barra como uma ferramenta chave na resolução do problema, utilizando a mesma graduação (número de divisões), mas com diferentes “escalas” (número decimal, percentagem e fracção), verificando assim as respectivas correspondências. É de salientar, tal como sucedeu noutros grupos, a coexistência de várias unidades no modelo, sem que isso os confunda. As representações dos números racionais… 9 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 4. Conclusões Pelos resultados obtidos no pré-teste verifica-se que estes alunos possuíam conhecimentos muito limitados no campo das fracções e das percentagens. Destacam-se, entre estes a noção de metade, associada a uma partilha equitativa (Pothier & Sawada, 1983), que os alunos identificam facilmente como sendo 50% e alguma noção de fracção como operador para fracções de referência, como um meio ou um quarto (com o sentido de “quarta parte de”). Estes são conhecimentos de origem escolar e outros do quotidiano dos alunos, mas que não estão consolidados e que se restringem ao reconhecimento de alguns números e conceitos dispersos. No entanto, é a partir destes que os alunos vão explorando as sucessivas tarefas que lhes foram propostas. A análise do modo como a barra numérica foi utilizada por estes alunos, permite perceber que esta se revelou uma ferramenta útil para resolverem um problema com números racionais, envolvendo o significado de medida e de parte-todo. Os alunos conseguem resolver com sucesso o problema e explicar as estratégias seguidas, com base no modelo que escolheram. Embora o seu uso revele graus de sofisticação e de apropriação diferentes entre os vários grupos, verifica-se que todos conseguem reconhecer uma unidade de referência, desenvolver estratégias para definir a subunidade e identificar uma relação entre a parte e o todo. Para além disso, os grupos conseguem estabelecer e explicitar relações entre representações dos racionais e, para a maioria, a barra é usada como suporte na explicitação dessas relações. Estes resultados apontam no sentido das vantagens referidas por Bright et al. (1988). Há, ainda, a realçar que alguns grupos utilizam várias representações e unidades de medida, sem que isso os confunda. O modo flexível como utilizam a barra, não lhes cria o constrangimento, por exemplo, de desenharem de modo exacto as suas partes, evidenciando que mais do que uma representação de determinada quantidade, esta é um instrumento para pensar. Deste estudo, destaca-se também como aspecto significativo a variedade de estratégias que os alunos empregaram, associadas a diferentes formas de olhar para a unidade, embora socorrendo-se do mesmo modelo. Esta diversidade decorrerá, por um lado, das características de flexibilidade do modelo, mas também da forma como a professora conduz os momentos de discussão com toda a turma, nos quais, como ilustrámos, incentiva a partilha de estratégias, questionando os alunos sobre as opções tomadas. Alguns destes alunos começam já a usar a barra numérica com grande rigor de representação, uma vez que fazem claramente a separação entre a representação das medidas na parte superior da barra e das fracções e percentagens correspondentes em baixo. Esta utilização da barra poderá indiciar relativa facilidade na transição para o trabalho com a linha numérica dupla. Em alguns casos, os alunos usam simultaneamente fracções e percentagens na parte inferior da barra, transmitindo deste modo uma imagem muito clara de utilização dos números de forma flexível e do reconhecimento da relação entre as respectivas unidades. Globalmente, os resultados apontam no sentido do que Van Galen et al. (2008), advogam como sendo o papel do raciocínio numérico a partir da barra, ou seja, o reforço da compreensão das relações entre as várias representações dos números racionais. A abordagem das várias representações dos números racionais não foi efectuada de uma forma isolada, na sequência de tarefas propostas. Tal como sugere o documento Principles and standards for school mathematics (NCTM, 2000), foram dadas oportunidades aos alunos para estabelecerem ligações entre as várias representações matemáticas. O conjunto das quatro tarefas que os alunos realizaram, tendo a última sido o ponto central deste artigo, foram fundamentais para uma melhor compreensão das várias representações dos números As representações dos números racionais… 10 H. Ventura e H. Oliveira Grupo de discussão 1 Actas do XIXEIEM — Vila Real 2009 racionais e das suas relações. De facto, quando as tarefas encorajam os alunos, a utilizarem as várias representações de um número racional de acordo com a parte da unidade pretendida, estes passam a utilizar flexivelmente as fracções, percentagens e a representação decimal para representar a mesma quantidade (Sweeney & Quinn, 2000). No conjunto das tarefas propostas foi visível uma evolução na apropriação, por parte dos alunos, da barra numérica, uma vez que nas três primeiras tarefas, a barra foi uma ferramenta facultada directamente aos alunos como auxílio para concretizarem as situações expressas nos problemas. Contudo, na tarefa analisada nesta comunicação verifica-se que a maioria dos alunos recorre espontaneamente a este modelo para resolver o problema com que se confrontam no decurso da aula. Embora, tratando-se de uma situação de medida e em que a forma geométrica do espelho facilmente remete para a forma da barra, o uso eficiente da mesma, permite-nos afirmar que aquela que começou como modelo de uma situação na primeira tarefa proposta (Van den Heuvel-Panhuizen, 2003) foi apropriada como uma ferramenta útil para os alunos, potencialmente evoluindo para um modelo para pensar, em que fazem uso das várias representações dos números racionais. Notas 1. Este estudo foi realizado no âmbito do Projecto Improving Mathematics Learning in Numbers And Algebra, apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia - MCTES (PTDC/CED/65448/2006). 2. Agradecemos, com profundo reconhecimento, a colaboração da colega Irene Segurado, enquanto professora da turma, nas várias etapas da realização deste trabalho com os alunos. 5. Referências Behr, M., Wachsmuth, I., & Post, T. (1985). Construct a Sum: A Measure of Children's Understanding of Fraction Size. Journal for Research in Mathematics Education, 16(2), 120-131. Behr, M. J., Harel, G., Post, T., & Lesh, R. (1992). Rational number, ratio, and proportion. In D. A. Grouws (Ed.), Handbook of research on mathematics teaching and learning, 296-333. New York: Macmillan. Beishuizen, M. (1993). Mental strategies and materials or models for addition and subtraction up to 100 in Dutch second grades. Journal for Research in Mathematics Education, 24(4), 294-323. 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