A grande marcha dos BRICS
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) respondem ao
conservadorismo das instituições de Bretton Woods com a criação de
um banco, visto por especialistas como o primeiro passo rumo a uma
nova ordem económica mundial.
Patrícia Neves, Plataformamacau, n. 11/2014
Os BRICS lançaram o maior desafio às grandes potências ocidentais com o
anúncio da criação do seu próprio banco de desenvolvimento. Esta
instituição multilateral poderá afirmar-se com uma alternativa ao Fundo
Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial aos olhos dos países em
desenvolvimento e até de nações desenvolvidas em dificuldades, mas, para
já, é vista por observadores como um sinal de mudanças profundas na
arquitetura financeira global.
"O G20 [grupo das 20 principais economias emergentes e avançadas do
mundo] decidiu, em 2010, reformar o FMI, mas esta reforma do sistema de
quotas não avançou por causa dos Estados Unidos. O Congresso norteamericano impediu-a por duas vezes, por isso, podemos considerar a criação
do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS sob esta perspetiva", disse
ao Plataforma Macau Liu Zongyi, investigador do Instituto de Estudos
Internacionais de Xangai, próximo do Governo chinês.
Adams Bodomo, professor de Estudos Africanos da Universidade de Viena e
especialista nas relações China-África e em questões relacionadas com os
BRICS, também considera que esta nova instituição foi criada como reação à
frustação destas economias emergentes, que "têm tentado ter uma voz e
influência nos bancos tradicionais", mas alerta que ela se assume como uma
alternativa credível.
"Se olharmos para países como a China e a Índia não esperamos que
continuem a ter um papel secundário em relação aos Estados Unidos e ao
Reino Unido, por exemplo. A situação económica exige esta alternativa, há
potências económicas cada vez mais influentes, por isso, este é o tempo
natural para reagir a estas instituições ocidentais tradicionais e
conservadoras", defende.
Liu Zongyi chama a atenção para o facto de as economias emergentes
contribuírem para "mais de 50% do crescimento económico mundial,
enquanto os países desenvolvidos contribuem para menos de 50%". "Penso
que os países emergentes vão contribuir cada vez mais, é uma tendência
gobal e considero que o novo banco dos BRICS é só um sinal da ascensão
coletiva das potências emergentes", observa.
A reforma no FMI iria atenuar a influência dos Estados Unidos na instituição,
ficando com uma quota equivalente a 16,5%, enquanto os BRICS
aumentariam o seu peso de 11 para 14,1%. O Governo norte-americano
apoia a mudança, mas não conseguiu ainda convencer os republicanos no
Congresso a ratificarem-na.
"Um poder existente é normalmente conservador perante a ascensão de
outros poderes, portanto, é natural que o FMI e o Banco Mundial tenham
resistido a mudanças e ao facto de outros países quererem ter influência
sobre eles", constata Adams Bodomo, em declarações ao Plataforma Macau.
A criação de um banco pelos BRICS, alega Liu Zongyi, "é o primeiro passo
da institucionalização do grupo, que antes tinha apenas conversações, mas
agora afirma-se como um grupo político e económico". "BRICS já não é só
um termo referente a um mercado de investimento, onde as empresas
transnacionais podem ganhar dinheiro", realça.
Para o investigador, o novo banco tem um grande papel a desempenhar,
prevendo que possa "financiar o desenvolvimento de infraestruturas nos
BRICS e noutros países emergentes e estimular a reforma do FMI, Banco
Mundial e da própria estrutura financeira internacional".
AFIRMAÇÃO DO YUAN
Os BRICS anunciaram, na semana passada, durante uma cimeira em
Fortaleza, no Brasil, que a sede do seu banco será em Xangai e que este
terá como missão o financiamento de projetos de infraestruturas nos seus
países e em economias emergentes, nomeadamente de África e da América
Latina.
A instituição arrancará com um capital de 50 mil milhões de dólares e um
fundo de reservas de 100 mil milhões de dólares, caso algum dos países
enfrente problemas de liquidez, mas resta ainda saber com que moeda irá o
banco trabalhar no futuro. Especialistas arriscam apostar no yuan.
"No ano passado, quando os Estados Unidos anunciaram a retirada da
política QE [quantitative easing, estímulos à economia], os BRICS sofreram
uma turbulência financeira, o que causou muitos problemas. A rupia indiana,
por exemplo, desvalorizou mais de 20%", salientou Liu Zongyi. Ao constatar
que "por causa da posição dominante do dólar norte-americano no sistema
cambial atual, os países em desenvolvimento são afetados pelas políticas
monetárias dos Estados Unidos", este investigador chinês conclui que o novo
banco também foi criado para "proteger os BRICS" desta situação.
A instituição poderá "melhorar as trocas comerciais bilaterais e multilaterais
no seio dos BRICS", diz, prevendo, porém, que "o dólar não deverá ser a
moeda escolhida para tal". "Penso que estes países querem usar as suas
próprias moedas", sublinhou ao lembrar que a Índia "já disse que poderá
usar a rupia para comprar petróleo do Irão".
Para Liu Zongyi, "o banco poderá usar, numa fase inicial, as diferentes
moedas dos BRICS, mas talvez no futuro venha a usar o yuan, que deverá
tornar-se na moeda mais popular em todo o mundo".
Marcos Fonseca, gerente-geral em exercício da agência do Banco do Brasil
em Xangai, considerou, em declarações ao Plataforma Macau, que a nova
instituição financeira dos BRICS "deverá começar a trabalhar com dólares,
porque o seu capital é nessa moeda, mas poderá depois mudar para outras
moedas". "Estes países tentam já, de alguma maneira, utilizar as suas
próprias moedas para fazerem transações", salientou.
Para Adams Bodomo, "seria mais fácil um compromisso com o yuan". "A
China será a maior economia em breve, portanto, o banco dos BRICS será
uma demonstração simbólica de força, especialmente tendo a sua sede em
Xangai", disse.
A principal vantagem de o banco dos BRICS estar sediado na China é,
segundo Liu Zongyi, "o facto de a gravidade da economia mundial ter
mudado para a Ásia Pacífico", mas o investigador afasta a possibilidade de
esta instituição ter uma influência direta na afirmação do seu país como a
maior economia mundial. "O banco poderá melhorar a imagem de Xangai
como centro financeiro mundial e a cooperação económica entre a China e
outros países, que poderá ajudar ao desenvolvimento da economia chinesa",
sustentou.
NOVA CONCORRÊNCIA?
Adams Bodomo prevê que, no futuro, o FMI e o Banco Mundial "não
conseguirão responder à procura" e que se estas instituições não avançarem
com uma reforma, os BRICS poderão deixar de investir nelas, resultando na
sua perda de influência.
"Basta olhar para a Europa de leste, está a desenvolver-se muito depressa e
vai precisar rapidamente de bastante financiamento. O FMI está a aplicar
muito dinheiro em países desenvolvidos e o banco dos BRICS vai estar mais
focado em responder à procura, em captar novos mercados da Europa de
leste, de África e da América Latina e quem sabe se até os países
desenvolvidos não avançarão para este banco", realçou. Este académico
constata que "o banco dos BRICS é global e, se tiver mais capital, nada
impedirá que países europeus em dificuldades, como Portugal ou a Grécia,
lhe peçam financiamento".
Segundo Liu Zongyi, os BRICS "têm a sensação de que os Estados Unidos só
os quiseram usar para conseguirem dinheiro, mas não os deixam ter
poderes de voto adequados nas instituições". O investigador chinês
exemplifica: "Durante a crise financeira, a maior parte dos fundos foram
para países europeus, não para países em desenvolvimento, mas as
potências emergentes contribuíram com muito dinheiro". Neste contexto, o
novo banco dos BRICS, explica, assume-se como uma "alternativa para os
países em desenvolvimento" e "cria uma concorrência positiva com o Banco
Mundial e o FMI". "Por um lado, são concorrentes, por outro,
complementares", assinala.
Para Adams Bodomo, "se a reforma do FMI não avançar e se o banco dos
BRICS e outras instituições fizerem um melhor trabalho de inclusão, o FMI e
o Banco Mundial terão cada vez menor influência". A diferença entre os
montantes dos fundos não é um obstáculo, aponta, prevendo que, "nos
próximos cinco anos, o fundo dos BRICS aumente", nomeadamente com a
contribuição de novos membros.
Se o banco dos BRICS "conseguir gerir bem no futuro, talvez todos países
em desenvolvimento se virem para ele em detrimento do Banco Mundial e,
nesse caso, esta instituição irá enfrentar uma crise de sobrevivência",
sublinha o investigador do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai. No
entanto, alerta, o banco dos BRICS "não vai substituir o Banco Mundial e o
FMI, porque são os principais pilares da atual estrutura financeira
internacional e têm muita experiência". "Os BRICS só querem uma reforma
gradual destas instituições", reiterou. Bodomo acrescenta: "Se não houver
reformas e houver alternativas, claro que não terão o mesmo poder que têm
hoje".
DEMOCRATIZAÇÃO
Ao constatar que o "sistema de Bretton Woods é controlado principalmente
pelos Estados Unidos e por alguns países europeus, o que se verifica no
Banco Mundial, liderado por um norte-americano, e no FMI, liderado por
uma francesa", Liu Zongyi conclui que estas instituições "não são
democráticas". "As potências emergentes não têm poderes de voto
equiparados nem sequer aos de países europeus pequenos como a Bélgica",
acrescentou.
O facto de os cargos, nomeadamente a presidência, do novo banco dos
BRICS serem alternados entre os países fundadores [o primeiro presidente é
indiano] "fará esta estrutura mais democrática" e "poderá melhorar a
democratização da sociedade internacional".
Adams Bodomo alerta para a necessidade de "mais instituições financeiras,
como o banco dos BRICS, que sejam cada vez mais inclusivas".
Outro aspeto do novo banco dos BRICS destacado como vantajoso pelos
especialistas é o facto de poder ajudar mais os países em desenvolvimento
"numa situação com vantagens mútuas, o que não tem acontecido", realça
Bodomo.
"O Banco Mundial e o FMI sempre impuseram condicionantes para
empréstimos, por exemplo, antes de investirem num determinado país
exigem a sua democratização, a liberalização da economia, portanto julgo
que o banco dos BRICS poderá moderar esta situação", prevê. Liu Zongyi
considera que a instituição "poderá definir regras para evitar a corrupção",
mas não acredita que "vá interferir nos assuntos internos dos países,
exigindo condições políticas, nomeadamente no campo dos direitos
humanos".
Para Bodomo, o papel do novo banco dos BRICS deve passar sobretudo por
"conceder crédito para o desenvolvimento de infraestruturas e do setor da
agricultura dos países emergentes", oferecendo condições mais vantajosas
do que o FMI e o Banco Mundial e maior inclusão. "Quando novos membros
se juntarem ao grupo, deverão fazê-lo numa parceria igual e não da forma
como o sistema de quotas tem funcionado nos bancos tradicionais", defende.
Liu Longyi e Bodomo dizem-se confiantes no sucesso do banco dos BRICS ao
contrário do que se tem verificado com outras instituições ou instrumentos
financeiros regionais. "O banco dos BRICS é global, terá mais capital e os
países do grupo têm metade da população mundial", alertam.
O brasileiro Marcos Fonseca também acredita que esta instituição será uma
alternativa credível porque "é chefiada por um grupo de países que precisam
de apoio para se desenvolver mais e esse apoio virá de uma entidade que os
conhece profundamente". Apesar de reconhecer diferenças que afastam os
cinco países deste bloco, o gerente-geral em exercício da agência do Banco
do Brasil em Xangai acredita que "vão explorar as semelhanças para
aumentar a união e a sua importância".
"Os BRICS respondem hoje por 25% do PIB [Produto Interno Bruto]
mundial, tendo a China como carro-chefe. A importância destes países é
muito grande e vai pesar ainda mais no comércio mundial, não tenho
dúvidas, a tendência é de crescimento", concluiu.
蕾思雅
蕾思雅 Patrícia Neves
DE BRICS A GEEPs?
O académico Adams Bodomo, natural do Gana e professor de Estudos
Africanos na Universidade de Viena, propõe que a sigla BRICS, referente às
economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, seja
substituída por GEEP, que, em português, significa Grupo das Potências
Económicas Emergentes, ao prever um alargamento do bloco.
"Este grupo é hoje formado por cinco países, mas tenho a certeza de que
mais se juntarão. Portanto, hoje poderia chamar-se GEEP 5, mas depois
poderia ser o GEEP 6, 7, por aí em diante", explicou em declarações ao
Plataforma Macau, antevendo que, na próxima década, "tenhamos um GEEP
15".
A primeira proposta de alteração da sigla, criada em 2003 pela Goldman
Sachs, foi apresentada por Bodomo num artigo que publicou em 2011,
aquando da entrada de África do Sul no grupo. Nesse artigo, o académico
defendia que a sigla correta seria BRICSA, se se mantivese a opção de
utilizar a primeira letra dos nomes dos países com a entrada de África do
Sul. Mas além da questão linguística, Bodomo considerava que BRICSA
"enfatizaria a emergência de uma economia africana" no panorama mundial.
"Infelizmente, a estratégia da Goldman Sachs carece de falta de visão
quanto a futuros alargamentos do grupo a novos membros", afirma o
académico no seu artigo, sublinhando que o México, a Indonésia e a Turquia
deverão juntar-se em breve aos BRICS. Nesse caso, questiona, "o que
acontecerá? Devemos chamar ao grupo BRICSMIT ou até BRICSAMIT? Ou
mesmo se escolhermos um destes nomes, o que acontece se mais países
como a Nigéria ou a Coreia do Sul se juntarem no futuro?".
蕾思雅
蕾思雅 P. N.
A FORÇA DOS BRICS
- 26% da área terrestre do planeta
- 46% da população mundial
- 21% do PIB mundial
"O banco dos BRICS é global e, se tiver mais capital, nada impedirá que
países europeus em dificuldades, como Portugal ou a Grécia, lhe peçam
financiamento", Adams Bodomo
Download

articolo Neves