REFLETINDO SOBRE A DISCIPLINA ESCOLAR SEGUNDO UMA VISÃO POSITIVISTA DE ÉMILE DURKHEIM BRITO, Clovis - UTP [email protected] Eixo Temático: Violências nas Escolas Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente artigo busca, através de um resgate teórico, refletir sobre a disciplina escolar utilizando um embasamento amparado nas teorias de Durkheim. Analisando as referências desse autor é possível identificar como a questão da disciplina escolar está amplamente discutida e relacionada com a formação moral das crianças. Para escrever sobre tal assunto, o presente texto inicia, após sua introdução, colocando algumas questões do Positivismo, linha filosófica que foi estruturada por Auguste Comte e, posteriormente, influenciou os estudos de Durkheim; na sequência é abordada a questão da moral e da disciplina pensadas dentro dessa linha filosófica e, no tópico final, são desenvolvidas as conclusões a respeito do assunto proposto. Podemos afirmar que Durkheim defende a disciplina como o mais importante elemento da moralidade e também considera a penalidade como um dos meios dos professores conseguirem que os alunos atinjam o estágio moral desejável e necessário para a vida em sociedade. Para ele, o processo educativo, através da disciplina, conforma as crianças aos grupos sociais a que pertencem. A internalização das regras e dos valores estabelecidos faz com que a criança se prepare para a sociedade na qual a escola está inserida. Também podemos afirmar, embasados nas teorias de Émile Durkheim, que toda autoridade escolar, dentro de uma concepção positivista, deriva da sociedade, sendo o professor o responsável pela intermediação entre a sociedade e a criança. Por isso, tudo depende do docente e a regra é como uma revelação que um adulto dá à criança. Para essa revelação, utiliza-se a moral para direcionar e disciplinar as atitudes dos alunos. Dentro dessa concepção filosófica, disciplina é o ponto de partida de toda vida moral, sendo assim, podemos definir disciplina escolar, para Durkheim, como uma maneira de agir moralmente dentro de uma conduta predeterminada, tendo como objetivo final preparar os alunos para a sociedade. Palavras-chave: Disciplina. Educação. Positivismo. Introdução Pensamos que, para entender a complexidade da questão da disciplina na educação atual, é necessário compreender como esses assuntos são pensados nas principais correntes filosóficas contemporâneas e como diversos estudiosos refletiram sobre tais temas. Nesse artigo, estaremos pontuando apenas uma visão filosófica, mas temos consciência da 4736 importância de visualizá-los sob a ótica de outras correntes. Sendo assim, o presente artigo busca, através de um resgate teórico, refletir sobre a disciplina escolar, utilizando um embasamento amparado nas teorias de Émile Durkheim1. Para realizar tal reflexão, usaremos, principalmente, as referências encontradas em seu livro A educação moral (2008). Nessa obra – que consiste na reunião de algumas aulas redigidas por Émile Durkheim para um curso ministrado na Universidade de Sorbonne (Paris), no ano letivo de 1902/1903 –, Durkheim apresenta suas considerações sobre a educação moral na perspectiva da escola pública e laica. Durkheim pretendia ajudar na construção de um novo sistema social baseado na razão e na ciência, como forma de assegurar a coesão das sociedades modernas. Nessa referência (DURKHEIM, 2008), a questão da disciplina escolar está amplamente discutida e relacionada com a formação moral das crianças, demonstrando como tal questão – disciplina escolar – é um assunto que preocupou, e preocupa diversos estudiosos. A questão da disciplina na sala de aula é familiar para todos aqueles que se acham envolvidos com o processo educacional. Professores e alunos de todas as épocas, possivelmente, guardam na lembrança episódios relacionados aos prêmios e castigos na sala de aula. Logo, escrever sobre a disciplina escolar é falar sobre um assunto complexo que sempre rondou o ambiente educacional. Em outros tempos era vista de uma maneira e hoje apresenta uma evolução assim como tantas coisas e situações ocorridas dentro do ambiente educacional. Tal questão fica evidente ao analisarmos como a disciplina escolar era pensada nas escolas de antigamente. Nesse sentido, se a educação de outros tempos tinha como um dos seus objetivos controlar os comportamentos indesejáveis dos educandos, podemos compreender que a questão da disciplina sempre foi uma das preocupações da escola e de muitos estudiosos. Porém as situações de disciplina e indisciplina na escola, em outros momentos históricos, tiveram interpretações e sentidos diferenciados do que percebemos no século XXI. Se a indisciplina já foi compreendida como uma questão comportamental (BRITO, 2007, p. 64), e como tal era resolvida; e a disciplina escolar já foi utilizada como uma maneira de docilizar os corpos dos alunos, preparando-os como força útil e produtiva (FOUCAULT, 2004, p. 119), na atualidade tem adquirido novas interpretações e significados 1 O francês Émile Durkheim (1858 – 1917), é considerado um dos fundadores da sociologia moderna. Durante seus estudos, na École Normale Supérieure em Paris, teve contato com as obras de Augusto Conte e Herbert Spencer, que o influenciaram na tentativa de buscar cientificidade nos estudos das humanidades. 4737 que podem ser esclarecidos se olharmos como esses conceitos foram trabalhados em outros momentos históricos. Visualizando a relação de conflito entre educador e educando e, ainda, nos poucos estudos relacionados às questões da disciplina e indisciplina escolar é que pensamos na importância de compreendermos tal assunto por diversos pontos filosóficos, e por isso a relevância de entendermos a disciplina pela ótica do Positivismo – linha de pensamento de Durkheim. Ao observamos os textos de Émile Durkheim, que constam no livro A Educação Moral (2008), relativos às questões da disciplina e indisciplina escolar, precisamos, para não sermos anacrônicos, entender que aqueles escritos foram pensados para a sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX. Para o sociólogo francês aqui estudado, aquele momento era o ideal para repensar alguns temas dentro da escola, que estava implantando a educação laica em seus estabelecimentos, que deveria substituir uma moral racional (DURKHEIM, 2008, p. 26), passando a valorizar não apenas os valores antigos, mas os valores morais que seriam de suma importância para aquela sociedade emergente. É preciso que o educador ajude as gerações mais jovens a tomar consciência do novo ideal para o qual já se tende, embora de maneira confusa, e que as oriente nesse sentido. Não é suficiente que ele conserve o passado, é preciso que prepare o devir (DURKHEIM, 2008, p. 28). Para ele, então, caberia à escola e aos adultos preocupar-se com as crianças, pois elas seriam a “engrenagem da educação geral” e ocupariam um espaço importante na sociedade francesa (DURKHEIM, 2008, p. 20). Para escrevermos sobre tal assunto, o presente texto está organizado da seguinte maneira: iniciaremos apontando algumas questões do Positivismo, linha filosófica que foi estruturada por Auguste Comte e, posteriormente, influenciou os estudos de Durkheim2; na sequência abordaremos a questão da disciplina pensada dentro dessa linha filosófica e finalizaremos o artigo apontando nossas conclusões a respeito de tal assunto. O Positivismo 2 Visualizamos que, para entendermos a disciplina dentro dessa linha de pensamento, é coerente apresentarmos, de maneira sucinta, como funciona o Positivismo. 4738 O Positivismo é uma linha teórica da sociologia, criada pelo francês Auguste Comte (1798-1857), o qual começou a atribuir fatores humanos nas explicações dos diversos assuntos, contrariando o primado da razão, da teologia e da metafísica. Sendo assim, podemos dizer que o Positivismo é um conceito utópico que englobou perspectivas filosóficas e científicas do século XIX. Para entendermos tal corrente filosófica pontuaremos, inicialmente, quem foi o seu fundador. Dessa maneira, poderemos compreender melhor a revolução proposta por aquele estudioso. Auguste Comte nasceu em Montpellier, França, em 19 de janeiro de 1798, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Estudou na Escola Politécnica de Paris, da qual foi expulso com alguns companheiros de curso por ideias “ultrademocráticas” (RIBEIRO JUNIOR, 2006, p. 8). Voltaria a ela futuramente como examinador de admissão. Em 1845, conhece sua musa inspiradora, Clotilde de Vaux, que morreria no ano seguinte. Com essa mulher vive um relacionamento amoroso intenso, porém platônico. Clotilde seria idealizada por Comte como a expressão perfeita da humanidade. É a partir da morte daquela mulher que Comte atribui-se o título de messias, responsável de regenerar a humanidade. Comte afirmava que teria sido “Clotilde quem lhe deu forças para iniciar e acabar a segunda parte de sua obra e lhe fez ver a importância social dos sentimentos sobre a teoria e a práxis” (RIBEIRO JUNIOR, 2006, p. 8). Influenciado, diretamente, pelos acontecimentos e progressos das ciências de sua época, o fundador do Positivismo concebeu para a filosofia um novo papel: que o que é possível conhecer são, unicamente, os fenômenos e as suas relações com o real, acabando com as eternas investigações sobre o fantasioso, sobre o místico, pois as respostas se encontram no concreto. Toda sua obra teve como objetivo unificar duas culturas: a humanística e a científica, criando um novo humanismo, que seria amparado pela ciência, esta capaz de redescobrir e reavaliar as necessidades humanas, conferindo-lhe um significado de valor universal. 4739 Segundo Löwi (1987, p. 22), “não é por acaso que Comte – e não Condorcet ou Simon – seja considerado o fundador do Positivismo”. Para aquele autor foi Comte quem rompeu com um discurso cuja carga crítica e “negativa” lhe parecia ultrapassada e perigosa. Sendo assim, Auguste Comte proclama que a descoberta das leis sociológicas lhe era interditada pelos conceitos ultrapassados em que outros insistiam ficar atrelados, principalmente pelo fato de buscar respostas em coisas místicas sem comprovação científica. O século XIX foi marcado por grandes transformações científicas que, pouco a pouco, foram permeando os meios acadêmicos. O progresso contínuo, daquele período, foi ocupando espaços e mostrando respostas, que até então não tinham soluções pela redução imposta pelas crenças místicas que advinham de períodos anteriores. Surge, então, o Positivismo que passa a dominar o pensamento típico do século XIX, como método e como doutrina. “Como método, embasado na certeza rigorosa dos fatos de experiência como fundamento da construção teórica e, como doutrina, apresentando-se como revelação da própria ciência” (RIBEIRO JUNIOR, 2006, p. 13). Um dos fundamentos do Positivismo é a ideia de que tudo o que se refere ao saber humano pode ser sistematizado, segundo os princípios adotados como critério de verdade para as ciências exatas e biológicas. Isso se aplicaria também aos fenômenos sociais. Para Comte, a análise científica aplicada aos agrupamentos humanos é o cerne da sociologia, cujo objetivo seria planejar a organização social e política. Segundo Ribeiro Junior (2006, p. 15), o Positivismo é Uma filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo sistemático e, de outro, considera anticientífico todo o estudo das causas finais. Assim, admite que o espírito humano é capaz de atingir verdades positivas ou da ordem experimental, mas não resolve as questões metafísicas, não verificadas pela observação e pela experiência. Podemos dizer que o Positivismo é uma forma de ceticismo metafísico, no qual a compreensão de determinado estudo pode ser adquirida depois que se eliminam os elementos não observáveis e não mensuráveis do objeto ou experiência, fugindo de toda especulação metafísica. O Positivismo possui algumas premissas que estruturam, segundo Löwy (1987, p. 17), “um sistema coerente e operacional” que propicia que esta se desligue de posições morais, de classes sociais, políticas e ideológicas: 4740 1 – A sociedade é regida por leis naturais, independentes da vontade humana; 2 – A sociedade pode, epistemologicamente, ser assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos; 3 – Os fenômenos estudados devem limitar-se à observação e à explicação causal de um local neutro, sem prenoções ou preconceitos. Portanto, para entendermos o mundo segundo o Positivismo, devemos, antes de tudo, descobrir as leis que regem os fatos sociais, atentando para o afastamento das concepções abstratas e especulações metafísicas que propiciam uma redução da visão do pesquisador. O pensamento de Comte tinha forte aspecto empirista, por levar em conta apenas os fenômenos observáveis e considerar anticientíficos os estudos dos processos mentais do observador. A humanidade, ciência, síntese e fé constituem a essência do pensamento comtiano. Esse talvez seja o atrativo do Positivismo que ainda perdura como concepção filosófica, principalmente no que tange as questões que respeitam à crítica do conhecimento. Levando em consideração tais colocações sobre o Positivismo, no próximo tópico iremos abordar, especificamente, as questões relativas à disciplina e à moral, embasados pela visão de Émile Durkheim, que seguiu os apontamentos do Positivismo para refletir sobre a importância da educação para a sociedade. Para Durkheim, quanto mais eficiente fosse o processo – no qual a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta –, melhor seria o desenvolvimento da comunidade em que a escola estava inserida. A Disciplina Escolar, segundo Durkheim Neste artigo, falamos, especificamente, da disciplina escolar e, por isso, achamos coerente pontuar como Durkheim visualizava a educação e a sociedade na qual estava inserido. Assim sendo, neste tópico, além de refletirmos sobre a moral e a disciplina, também abordaremos como esse sociólogo pensava a sociedade e o espaço escolar. No final do século XIX e início do XX, na França, foi instituída a obrigatoriedade escolar para as crianças de 6 a 13 anos e a proibição do ensino religioso nas escolas públicas, princípio que até hoje perdura na base educacional daquele país. Tais mudanças foram primordiais para preocupação positivista para uma nova escola laica que estava emergindo: 4741 Decidimos dar às nossas crianças, em nossas escolas, uma educação que fosse puramente laica: com isso se deve entender uma educação que abdica de qualquer referência aos princípios sobre os quais repousam as religiões reveladas, que se apoia exclusivamente sobre as ideias, sentimentos e práticas que se justificam unicamente pela razão, em uma palavra, uma educação puramente racionalista (DURKHEIM, 2008, p. 19). Para aquele sociólogo, amparado em toda uma visão positivista – que afastava as concepções abstratas e metafísicas – a educação não era um elemento para a mudança social, e sim, pelo contrário, um elemento fundamental para a conservação e funcionamento do sistema social. Segundo Durkheim (2008, p. 77), “a sociedade é um ser psíquico que possui uma maneira especial de pensar, de sentir e de agir, diferente daquela que é característica dos indivíduos que a compõem” e caberia à escola e ao professor – um adulto –, a função principal de apresentar essa sociedade às crianças, adaptando-as e formando cidadãos capazes de contribuir para uma harmonia social. Durkheim afirma que a família constitui um ambiente que se apresenta particularmente apto a fazer despontar as primeiras inclinações altruístas, os primeiros sentimentos de solidariedade; mas a moral que ali se pratica é, sobretudo, afetiva. É na escola que a criança deve adquirir o necessário respeito pela regra e aprender a cumprir o seu dever. Assim, a escola desempenha o importante papel de guarda avançada da moral e é através da escola que a coesão social é assegurada. [...] a família pode muito bem despertar e consolidar os sentimentos domésticos necessários à moral e mesmo, mais genericamente, aqueles que estão na base das relações privadas mais simples, ela, contudo, não está constituída de modo a poder formar a criança tendo em vista a vida em sociedade [...], ela é um órgão impróprio para tal função (DURKHEIM, 2008, p. 2008). Na família, a tendência altruísta e os sentimentos de solidariedade predominam sobre o dever e, na escola, as regras são necessárias e constituem um instrumento insubstituível da educação moral, sendo que, para Durkheim, o professor deveria impô-las, despertando o espírito de disciplina na criança. Durkheim (1978, p. 41) pontua que a educação tem como objetivo – segundo sua linha filosófica – “suscitar e desenvolver na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança particularmente, se destine”. Para ele, toda ação educativa é um esforço contínuo para 4742 impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir, às quais não se chegaria de uma forma espontânea. Durkheim (2008, p. 39) define moral como sendo “um sistema de regras que predeterminam a conduta. Elas dizem como devemos agir em cada situação; e agir bem é obedecer”, consequentemente a moral consiste em um conjunto de regras definidas e especiais que determinam as condutas sociais que devem ser disciplinadas para o bom funcionamento da sociedade. Esse disciplinamento deve, para aquele sociólogo, acontecer, principalmente no espaço da sala de aula. É mediante a disciplina, e somente por ela, que podemos ensinar a criança a moderar seus desejos, a limitar seus apetites de todo tipo, e, com isso, definir os objetos de sua atividade; essa limitação é condição necessária para a felicidade e para a saúde moral (DURKHEIM, 2008, p. 57). Podemos identificar, para aquele autor, a importância ou a ligação da disciplina com a questão da moral, sendo ela um dos elementos principais da manutenção da moralidade estabelecida pela e para a sociedade3, e quanto mais complexa for essa sociedade, mais complexa será a maneira de ensinar a disciplina, devendo esta adaptar-se a cada nova realidade (DURKHEIM, 2008, p. 66). Durkheim (2008, p. 149) afirma que, na escola, existe todo um sistema de regras que determinam o comportamento da criança (comparecer à hora marcada, estar bem apresentado, não perturbar a ordem, fazer suas obrigações e exercícios com a aplicação necessária etc.), e a soma dessas regras constitui a disciplina escolar, cuja prática possibilita inspirar na criança o espírito de disciplina. Dessa maneira, disciplina escolar, para Durkheim, seria agir moralmente dentro de uma conduta predeterminada, tendo como objetivo final preparar os alunos para a sociedade. Aprendendo a respeitar as regras escolares, a moral de um ambiente educacional, a criança aprenderá, também, a respeitar as regras sociais, será capaz de conter-se e constranger-se, adaptando-se para viver harmoniosamente, tanto no mundo físico, quanto no 3 Para Durkheim, embasado pelos pensamentos positivistas, “excetuando o indivíduo, existe um único ser psíquico, um único ser moral empiricamente observável, ao qual nossa vontade pode vincular-se: é a sociedade. Portanto, é somente a sociedade que pode servir de objetivo à atividade moral”. (DURKHEIM, 2008, p. 77). 4743 social. O professor deve despertá-la e desenvolvê-la (DRUKHEIM, 2008, p. 109). É na firmeza do docente que se fundamenta a moralidade da classe. E como manter, na criança, essa disciplina? Segundo esse autor, “o ato de indisciplina enfraquece a disciplina” (DURKHEIM, 2008, p. 164), e um dos meios para mantê-la é a utilização de punições. [...] a função essencial da pena não é expiar o culpado de sua pena fazendo-o sofrer, nem limitar, por via cominatória, seus possíveis imitadores, mas tranquilizar as consciências de que a violação da regra pode ter abalado sua fé, mas que esta fé continua a ter sua razão de ser e, para falar especialmente no caso da escola, que a pena continua a ter valor para aquele de quem a criança a recebeu. (DURKHEIM, 2008, p. 165). A punição não serve para normalizar aquele que infringiu a regra, mas, sim, para dar uma satisfação ao obediente. Para aquele filósofo, a função essencial da pena não é a de obrigar o culpado a pagar pela sua indisciplina, fazendo-o sofrer – apesar de causar, inevitavelmente, sofrimento no infrator –, mas a de impedir que a disciplina perca sua autoridade, e cabe ao professor condenar, de maneira ostensiva, o ato cometido, demonstrando que o sentimento do mesmo, em relação à regra, continua inabalada. Qualquer atitude que viole a regra deve ser alvo de punição, pois a regra é sagrada e inviolável. “Punir é reprovar, é censurar” (DURKHEIM, 2008, p. 172), é afirmar que a regra foi negada. A reprovação e o castigo são consequências naturais da falta, e a criança só sente haver cometido uma falta moral, quando é moralmente censurada. Entretanto, para Durkheim, não se deve punir utilizando castigos corporais. Para ele, como os objetivos da educação moral consistem em transmitir à criança o sentimento de sua dignidade de homem, as penas corporais se tornam perpétuas ofensas a esse sentimento e têm um efeito desmoralizador. Punir não é torturar o corpo ou a alma; é afirmar, em face da falta, a regra que a falta negou. Essa é a grande diferença no papel que o castigo desempenha na educação da criança e no adestramento do animal. As punições infligidas ao animal para adestrálo só podem fazer efeito se forem sofrimentos efetivamente sentidos. Para a criança, ao contrário, o castigo é apenas o signo exterior que traduz um estado interior: é uma notação, uma linguagem pela qual a consciência, seja a pública da sociedade, seja a do professor, exprime o sentimento que lhe inspira o ato reprovado. (DURKHEIM, 2008, p. 172). 4744 “Não só não se deve bater, como também se deve proibir qualquer castigo susceptível de prejudicar a saúde da criança” (DURKHEIM, 2008, p. 191). A privação de brincadeiras e tarefas complementares junto às censuras são consideradas, por Durkheim, como os principais elementos da penalidade escolar. Deve-se ter cuidado na aplicação do castigo, porque o que constitui a sua autoridade é a vergonha moral que ele provoca. A virtude do castigo só é total quando ele se limitar à condição de ameaça, porque uma vez que se chega à severidade extrema, ele produz menos efeito. Logo, tem-se a necessidade, segundo Durkheim (2008, p. 193), de se multiplicar as divisões de uma escala penal que deve começar com a censura individual, quase secreta (um olhar, um gesto, um silêncio são processos muito significativos e a criança os compreende), a censura pública, diante de toda a classe, a censura comunicada aos pais, o castigo com suspensão. Analisando os apontamentos redigidos neste tópico, podemos afirmar que Durkheim defende a disciplina como o mais importante elemento da moralidade e também considera a penalidade como um dos meios dos professores conseguirem que os alunos atinjam o estágio moral desejável e necessário para a vida em sociedade. Para ele, o processo educativo, através da disciplina, conforma os indivíduos aos grupos sociais a que pertencem. A internalização das regras e dos valores estabelecidos faz com que a criança se prepare para a sociedade na qual a escola está inserida. Se a escola possui tudo o que é preciso para despertar na criança o espírito de solidariedade, o sentido da vida em grupo com a diversidade de pessoas, cabe ao professor, um adulto, fazer essa inserção do aluno no mundo social. Conclusão Podemos concluir o presente artigo pontuando, primeiramente, que o Positivismo é uma concepção filosófica que busca suas respostas no empirismo e visualiza com ceticismo as questões metafísicas. O objeto da ciência, dentro do Positivismo, é aquele que pode estar sujeito ao método da observação e da experimentação. Também podemos afirmar, embasados nas teorias de Émile Durkheim, que toda autoridade escolar, dentro de uma concepção positivista, deriva da sociedade, sendo o professor o responsável pela intermediação entre a sociedade e a criança. Por isso, tudo depende do docente e a regra é como uma revelação que um adulto dá à criança. Para essa revelação, utiliza-se a moral para direcionar e disciplinar as atitudes dos alunos. 4745 Dentro dessa concepção filosófica, disciplina é o ponto de partida de toda vida moral. Nesse sentido, podemos definir disciplina escolar, para Durkheim, como uma maneira de agir moralmente dentro de uma conduta predeterminada, tendo como objetivo final preparar os alunos para a sociedade. Entendemos, enquanto pesquisador4 das questões de disciplina e indisciplina escolar, que seja de suma importância conhecer as diferentes linhas filosóficas, entre elas o Positivismo, para discutir tais questões, principalmente pela relevância de Émile Durkheim para o Positivismo, linha filosófica que ainda direciona diversas pesquisas acadêmicas. Se o exercício deste artigo foi o de responder ao objetivo que determinamos para direcionar todo o trabalho de redação do presente material, podemos afirmar que a tarefa foi executada, mas temos consciência que a resposta aqui apresentada não satisfaz totalmente o presente pesquisador, pois temos clareza que, ao utilizarmos apenas uma linha filosófica para argumentar sobre um assunto tão complexo – a questão da disciplina escolar – podemos estar reduzindo, também, as respostas. Se a disciplina e a indisciplina escolar são questões complexas do cotidiano escolar, precisamos estudá-las com este pensamento – o da diversidade e da complexidade de argumentações acadêmicas –, e buscar respostas em diversos argumentos filosóficos para não simplificarmos seu entendimento. Dessa maneira, concordamos com Parrat-Dayan (2009, p. 32), quando afirma que as respostas para argumentar sobre a disciplina serão diferentes de acordo com o ponto de vista filosófico que se adote para argumentar sobre tal questão. Para exemplificar tal afirmação, podemos observar que Durkheim aborda a disciplina a partir da noção da moral – noção esta mediada por um adulto –; se olharmos essa questão pelos apontamentos de Piaget (1994), teremos que entendê-la pela abordagem que este autor realizou, observando a aparição das normas nas relações entre as crianças e o lúdico, determinando um outro tipo de disciplina; já Foucault (2004), que nos apresenta todo um estudo relativo à relação de poder existente na sociedade moderna, aborda a questão da disciplina a partir da normalização das atitudes. Podemos observar, através dos exemplos acima listados, que, dependendo da abordagem filosófica utilizada, podemos chegar a um conceito diferenciado dobre disciplina. 4 O autor do presente artigo, além de ser integrante do grupo de pesquisa Indisciplina na Educação Contemporânea do programa de Pós-Graduação da UTP, é Mestre em Educação (2007) e Doutorando em Educação (UTP). Pesquisa, desde 2005, as questões relativas à disciplina e à indisciplina escolar. 4746 REFERÊNCIAS BRITO, C. A indisciplina na educação física escolar. 134 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Tuiuti do Paraná, Programa de Pós-Graduação, Curitiba, 2007. DURKHEIM, E. Educação e Sociologia. 11º ed. São Paulo: Melhoramentos, 1978. DURKHEIM, E. A educação moral. Petrópolis: Vozes, 2008. FOUCAULT, M. Vigiar e punir. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2004. LÖWI, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen – marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. São Paulo: Busca vida, 1987. PARRAT-DAYAN, S. Como enfrentar a indisciplina na escola. São Paulo: Contexto, 2009. PIAGET, J. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994. RIBEIRO JUNIOR, J. O que é positivismo. São Paulo: Brasiliense, 2006.