ENCONTROS Q uando Antônio José deu de vista pela primeira vez com (...), não sabíamos ainda o nome dela, foi amor na certa, pelo menos foi o que ele disse na hora, consigo mesmo e sorrindo, mas ele é muito brincalhão e não leva nada muito a sério. Parecia ser sincero, pois havia anos que procurava alguém para esquentar a sua nuca nas noites de inverno, porém, isso não quer dizer nada, a grandeza do tempo de procura não faz dessa moça a escolhida e muito menos Antônio está tão desesperado, a ponto de laçar a primeira que aparecesse. Pelo menos era o que ele dizia, não sei ao certo. (...) naquele mesmo instante, o olhou e não fez nada, será que ela se assustara com ele? Ela o olhou com uma cara bastante estranha e desconfiada, também pudera, ele a olhava com um olhar de tarado, pensando que estava olhando com um olhar sedutor e convencido, eu acho, foi o que vi, e julgo a partir disso e pelo que conheço de Antônio, que não é muita coisa, ele fala muito pouco e muito baixo também. Mas acredito que algo penetrou ambos, pois estranhamente sorriram um para o outro e disseram, olá! Antônio José na sua esperteza masculina e segura foi logo puxando conversa: – Hey moçinha, qual é o teu nome? – E ela logo falou: – Luiza Maria. – E ele: – Que belo nome! Eu sou Antônio José, o teu criado. – Ela sorriu com sinceridade, parecia, vai saber, mulheres são mais ágeis que raposa e mais cruéis que o mar. – Você é nova por aqui? Pois há anos que moro nesse mesmo bairro e nunca te vi... – Continuou Antônio com o mesmo ar de segurança e masculinidade. – Sim, sou, eu era do Amanhece, mudei pra cá pra tentar consertar ou resgatar minha vida... – Nesse momento, Antônio se distraíra com uma loira moça que passava de moto ao seu lado pela rua e não ouviu o que ela disse. Será que ele observava a moça ou a moto? Pois digo que as duas coisas eram bonitas de se ver. Depois que ela terminou, ele disse: – Ah sim, seja bem-vinda ao bairro Centro. Você conhece Araguari? – Luiza: – Sim, sim, já percorri alguns bairros, alguns caminhos dessa cidade, mas me agradei por aqui. – Dizia ela olhando de cima em baixo Antônio, e agora era ela que tinha aquele olhar estranho, de tarada, pervertida, eu acho. Antônio parecendo estar gostando da situação e pensando, creio eu, que iria finalmente esquentar sua nuca em todas as noites de verão, inverno, primavera e outono, continua o papo: – Qual rua você mora? – Ela responde: – Moro na Rua Marciano Santos, nº24 e você, é daqui mesmo, da Rua Wenceslau Braz? – Ele: Sim, nº69. Depois passa lá pra tomarmos um suco e comer pão-de-queijo. – – Passo sim. Agora tenho de ir, tenho algumas coisas pra fazer. Adorei te conhecer Antônio, você é muito gentil. – – Também gostei e digo o mesmo pra você. Até mais ver... – – Até!... – Ambos se despediram com um beijo no rosto. Desse dia em diante, eles passaram a se ver todos os dias, saíam juntos para todos os lugares: cinemas, sorveterias, danceterias, supermercados, açougues etc., viviam grudados um no outro, mas havia um detalhe, acreditem se quiser, eram apenas amigos. Eu ouvia Antônio dizer, não tenho muita certeza, ele fala muito baixo, que estava apaixonado por ela e que um dia iria falar isso à mesma, porém lhe faltava coragem. Ela, confesso que não sei o que pensava sobre ele, se estava apaixonada, se era somente amizade colorida ou como muitos dizem, se ele era só o amigo gay dela, não sei, talvez ela tivesse alguém, mas nunca disse isso para ele, ela era A MARgem - Verbare, Uberlândia - MG, ano 2, n. 3, p. 89-91, jan./jun. 2009 89 um verdadeiro mistério, uma obscuridade de sentidos e pensamentos, um livro que estava aberto, porém escrito em uma língua que só a própria autora conhecia. Vai ver é coisa de mulher, devia estar caidíssima por ele, mas não dava o braço a torcer, seguia fielmente a cartilha das “verdadeiras mulheres”, que perdem o marido ou o amor de suas vidas, mas não perdem a dignidade de se rebaixarem e de se delatarem tudo que estão sentindo de intenso e de verdadeiro. Pelo menos é isso que eu acho e creio que não estou enganado, creio. Um dia então, os dois estavam em uma locadora, eles iam alugar um filme para ver à noite, pois a programação da TV não era lá essas coisas, sempre aqueles mesmos programas sensacionalistas e semi-pornofráficos (era melhor alugar um filme pornô logo de uma vez, não acham?), mas fiquem tranqüilos ou irados, não sei o gosto de vocês, não irei narrar nenhum sexo, porque eles alugaram um filme romântico, em que o sexo se vê somente nas palavras calorosas, poéticas e melancólicas sobre o amor. Eles estavam lá escolhendo qual filme romântico iam levar, se era “Por detrás de um coração partido” ou “A cor vermelha da paixão”, não sei, quando subitamente Antônio pega a mão de Luiza e à Luiza diz: – Você é muito bonita e me faz tão bem! – E em seguida lhe dá um beijo na boca, daqueles de novela, ou melhor dizendo, daqueles de filmes românticos. Ela consente o beijo e o continua beijando. Esse foi o início daquela maravilhosa noite e dos outros dias também. Entretanto, eles não tinham marcado nenhum compromisso sério, estavam “ficando”, como se diz hoje em dia, e estavam já um bom tempo juntos, e isso incomodava muito Antônio. Eles pararam de ir a alguns lugares que costumavam ir, devido ao número grande de pessoas conhecidas e por quê? Eu não sei, e nem Antônio, era a pedido dela. Esse incômodo era visto em seu semblante, talvez ele se perguntasse por que Luiza não falava nada em marcar algo sério, se era tão intenso o que viviam? Ele não dizia nada, só falava consigo mesmo, compenetrado, acho que estava realmente desgostoso dessa situação, mas a continuava. Em uma noite de sábado, os dois saíram como de costume, foram a um lugar que ninguém os conhecia, um bar na parte norte da cidade. Eles curtiam muito, estavam bebendo, sorrindo e cantando a beleza da vida quando de repente Antônio criou coragem mais uma vez e propôs um relacionamento sério com Luiza, pediu-a em namoro, mas ela disse fria e objetivamente: – Eu não posso. – Ele retruca: – Por que não? – Ela se manteve no silêncio profundo dos oceanos e manteve, também, a mesma feição tranqüila e serena que possuía, continuou a curtir a noite como se nada houvesse de errado ou de anormal. Antônio, por sua vez, fazia aquele mesmo formato do rosto quando estava pensando em algo, mas o que pensava, será que pensava sobre a resposta que Luiza o deu, ou que iria insistir até ela dizer o motivo de não querer nada de sério com ele, ou que iria acabar tudo de uma vez? Não sei. Talvez ele estivesse apenas escutando o som que tocava no bar, pois ele fazia esse mesmo gesto, também, com a face quando queria escutar com concentração alguma música. Ele não ligava muito para as coisas, pelo menos era o que sempre dizia... Por que, meu Deus, essa mulher não podia namorá-lo, será por questões sociais, econômicas, ela é judia e por isso a sua família nunca o aceitaria, ela tem um marido e estava fugindo dele, ela é bissexual e não queria perder as aventuras do outro lado da moeda, tem uma doença grave e letal e iria morrer em alguns meses e só mais tarde iria contar a ele? Quais os motivos que a fazem agir dessa maneira? Ela o está apenas usando? Será que ele é o cara do semestre e quando esse semestre acabar ela o trocará por outro? Que mulher misteriosa. Três dias depois que tudo aquilo aconteceu, Antônio vai até a casa de Luiza e resolve esclarecer tudo, disse que iria pôr todos os pingos nos “is”. Dessa vez deu para entender tudo A MARgem - Verbare, Uberlândia - MG, ano 2, n. 3, p. 89-91, jan./jun. 2009 90 bem claro, pois ele disse alto e em bom tom. Tocou a campainha e ela veio abrir e disse: – Que surpresa boa! Entre Antônio, por favor. – Eles entraram e foram direto para o quarto, porque só lá eles tinham liberdade para conversar e fazer outras coisas, como jogar dominó, por exemplo. Antônio estava sério e bastante agoniado, parecia que ia explodir, parecia. Luiza percebeu e logo disse: – Aconteceu alguma coisa, Antônio? Você está muito ofegante. – Eu quero esclarecer as coisas de uma vez por todas, ou você me fala o motivo de não podermos ficar juntos, ou eu vou embora pra sempre de tua vida! – Dizia ele com um tom irado. Ela, calma como sempre, dá aquele seu sorriso peculiar e misterioso e diz: – Tudo bem, eu te falarei o motivo, mas mesmo assim, você irá embora pra sempre. – Ambos se olham com surpresa, ela vai até o ouvido dele e diz alguma coisa que não deu para escutar. Antônio após ouvi-la, sai do quarto dela e depois da sua casa, não se vê nenhuma lágrima descer dos olhos, ele não disse nenhuma palavra. Nunca mais a viu, e também nunca disse o que ocorrera, nunca falou o que ela disse para ele. O que será, Cristo, que essa mulher disse para ele? Por que não podiam ficar juntos? Talvez um dia Antônio fale sobre isso. Manuel José Veronez de Sousa Júnior (UFU) 1 91 1 E-mail: [email protected] A MARgem - Verbare, Uberlândia - MG, ano 2, n. 3, p. 89-91, jan./jun. 2009