Proposta de Roteiro para Elaboração de Planos de Distribuição de Lodo1 ANDREOLI, C. V.; PEGORINI, E.S. Proposta de roteiro para elaboração de Planos de Distribuição de Lodo. In: I Seminário sobre Gerenciamento de Biossólidos do Mercosul, Curitiba, dez 1-4, 1998. Cleverson V. Andreoli, Engº Agrônomo, MSc Ciências do Solo (UFPR), Coordenador do Programa da Reciclagem Agrícola do Lodo de Esgoto, da SANEPAR. Eduardo S. Pegorini, Engº Agrônomo - Bolsista atua na SANEPAR . Endereço Comercial: 1Companhia de Saneamento do Paraná - SANEPAR/GECIP - R. Engenheiro Rebouças, 1376 - Curitiba Paraná - 80215-900 Tel.: ( 041 ) 330-3208 Fax: ( 041) 333-9952 e-mail: [email protected] Resumo. A disposição final dos resíduos gerados pelos sistemas de tratamento de esgoto é um problema emergente no Brasil e que cresce a medida em que são implantados e efetivamente operados sistemas de coleta e tratamento de esgoto no país. A proposta de reciclagem agrícola, que vem se destacando como opção promissora para equacionamento da questão no panorama brasileiro, depende da verificação e adequação de parâmetros de qualidade especialmente relacionados ao conteúdo de metais pesados, às características sanitárias do produto, e a parâmetros de restrição de uso do solo. Este trabalho procura identificar os pontos elementares e indispensáveis na elaboração de planos de distribuição do lodo, e propõem sua articulação em uma proposta de roteiro metodológico para organização, gerenciamento e implantação da prática de reciclagem agrícola do lodo. A definição de um programa de gestão do resíduo interfere nas rotinas de todas as áreas da ETE e envolve a avaliação da capacidade dos solos da região para uso do lodo, e, consequentemente, exige uma estrutura apropriada para as diferentes atividades exigidas, nos níveis gerenciais e operacionais. Os tópicos definidos são: 1 - Estudo da Produção do Lodo, 2 - Avaliação da Qualidade do Lodo, 3 - Aptidão das Áreas, 4- Organização da Distribuição e 5 - Operação de Distribuição. A viabilização da disposição do lodo na agricultura esta intimamente relacionada com a definição de uma política de organização e operacionalização da distribuição do produto. A organização de uma estrutura que administre as operações, dando maior credibilidade ao produto, facilitando a distribuição e dando infra-estrutura adequada ao produtor, certamente minimizará o custo de disposição final do lodo. Palavras chave: Lodo de Esgoto, Plano de distribuição, Biossólidos 1 Trabalho desenvolvido no âmbito do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico - PROSABTema 4, Edital 01/96. I. INTRODUÇÃO A questão de disposição final dos biossólidos gerados nos processos de tratamento de esgotos urbanos, é um problema emergente no Brasil, à medida em que se implantam e se operam, efetivamente, os sistemas de coleta e tratamento de esgoto no país. A perspectiva de aumento da população associada a crescente concentração urbana vem exigindo do Estado e da iniciativa privada a definição de ações imediatas para equacionar uma demanda social com grande tendência ao agravamento: a limitação técnica e econômica da disposição final de resíduos. Neste contexto, a prática de reciclagem na agricultura, alternativa consagrada em países desenvolvidos, se destaca como opção mais adequada tanto por reduzir a pressão sobre a exploração dos recursos naturais, como por evitar opções menos adequadas e mais impactantes sobre a população e o meio ambiente, além de proporcionar os melhores resultados econômicos. A necessidade de adequação do problema não pode, no entanto, considerar a disposição no solo como uma forma de eliminar um problema eminentemente urbano. A reciclagem na agricultura exige a produção de um insumo de qualidade assegurada, garantindo a adequação do produto ao uso agrícola, definindo restrições de uso aos solos e apresentando as alternativas tecnológicas de uso visando uma maior rentabilidade ao produtor. Neste sentido o “Plano de Distribuição do Lodo” pode ser encarado como um sistema que visa o planejamento e a otimização das atividades operacionais da reciclagem agrícola, avaliando a economicidade, a disponibilidade de áreas, os problemas sociais e a orientação agronômica da reciclagem agrícola do lodo. II. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA O uso agrícola do lodo de esgoto foi exaustivamente pesquisado no mundo todo, mais de 50.000 artigos científicos sobre o assunto já foram publicados, e nenhum efeito adverso do uso controlado do insumo foi encontrado. As regulamentações internacionais tem assegurado a proteção à saúde humana e animal, a qualidade das colheitas, do solo e do meio ambiente em todo o mundo. (Water&Environment international, 1998) ANDREOLI et al. (1997) resumem as principais características do lodo de esgoto a serem observadas para sua reciclagem agrícola em: • qualidade físico-química: nutrientes, metais pesados e poluentes orgânicos dos lodos, para avaliar o impacto da poluição do solo e contaminação ambiental. • qualidade sanitária: controle dos patógenos para evitar a disseminação de doenças. • estabilidade do material: a fim de evitar odor e atração de vetores. • aceitabilidade e marketing: a quantidade de NPK, de material orgânico e o conteúdo de cal (dependendo do tratamento) são fatores que interessam aos agricultores e devem ser explorados no mercado de fertilizantes. Em termos globais, as exigências constantes dos planos de valorização agrícola do lodo de esgoto tem sido: características ambientais das áreas de aplicação e critérios de tratamento, transporte, armazenamento e aplicação de lodos. Mesclam-se assim, exigências relativas às diferentes etapas do processo de valorização agrícola do lodo, desde a geração e tratamento do produto ao nível da ETE até especificações segundo as condições do ambiente, forma de aplicação e monitoramentos complementares, e exigindo, portanto uma abordagem multidisciplinar. Os parâmetros enfatizados como fatores de restrição são: a. Nutrientes Os lodos são em geral ricos em matéria orgânica, nitrogênio, fósforo e micronutrientes. Os teores de N e P dos lodos são maiores que os encontrados em matérias orgânicas de uso habitual na agricultura (MENDES, 1981). O fósforo no lodo de esgotos apresenta concentrações mais baixas que o nitrogênio e mais altas que o Potássio (EPS, 1984), sendo indispensável a complementação de K através da adubação mineral. O nitrogênio é agronômica e ambientalmente o principal componente do lodo de esgotos, e referencial à limitação de suas taxas de aplicação. O sistema de higienização através de processo de estabilização alcalina torna o produto também um eficiente corretivo da acidez dos solos. b. Patógenos A sanidade do lodo está intrinsicamente relacionada com o perfil da saúde da população e a sua influência nas condições sanitárias varia conforme o organismo, condições ambientais, flutuações sazonais e eventos temporais (FERNANDES et al, 1996). Entre os patógenos, são particularmente importantes os estreptococos, Salmonella sp., Shigella sp., helmintos (larvas e ovos), protozoários (cistos) e vírus (enterovirus e rotavirus). ANDREOLI et al. (1994) enfatiza a necessidade de se considerarem os riscos à saúde e ao meio ambiente pela aplicação ao solo de lodos contaminados como critério para definição de limitações de uso e/ou eficiência do sistema de higienização do material Existem vários processos para eliminação dos organismos patogênicos do lodo: pasteurização, oxidação, baixa pressão, tratamento com elevação do pH, compostagem, desinfecção química, radiação, entre outros (SOUZA et al, 1994). No programa de pesquisas conduzido no Paraná, foram investigados dois processos de higienização e estabilização do lodo: a calagem e a compostagem (SANEPAR, 1997). A calagem tem por princípio a elevação do pH a níveis iguais ou superiores a 12, o que inativa ou destrói a maior parte dos patógenos do lodo. O princípio higienizador da compostagem é a eliminação ou redução dos microrganismos patogênicos pela elevação da temperatura obtida com o processo de biodegradação da matéria orgânica. Além destes problemas, outra questão relevante é a atração de vetores em locais de aplicação de lodo em más condições de estabilização. É importante a discussão da importância do parâmetro, visando prevenir situações indesejáveis quando da aplicação de lodo em escala real (BONNET, 1995). c. Metais Pesados Elementos traço, tais como arsênio (As), cádmio (Cd), cobre (Cu), cromo (Cr), mercúrio (Hg), níquel (Ni), molibdênio (Mo), chumbo (Pb), selênio (Se), zinco (Zn) e cobalto (Co) tendem a co-precipitar com o esgoto e se concentrar no lodo. De uma forma geral, a concentração de metais pesados no lodo é maior que no solo, razão pela qual se conclui que seu controle é requisito básico a um sistema de valorização agrícola: as práticas do manejo da aplicação do lodo no solo devem levar em conta as concentrações de metais pesados presentes no produto, bem como os níveis cumulativos máximos permitidos no solo, quantidade de acumulação, as condições dos solos a nível regional, condições climáticas e topografia. (Andreoli, 1997) Entre estes, os elementos de significativo perigo são o Cd, Cu, Mo, Ni e Zn (ANDREOLI et al, 1994b). Destes, o cádmio apresenta risco substancial por não ter função biológica e tornar-se tóxico a animais, em concentrações mais baixas que as fitotóxicas BONNET (1995). Estes elementos, segundo ANDREOLI (1988), uma vez no solo, podem ser adsorvidos, lixiviados ou incorporados à teia trófica. Pela análise da Tabela 6, pode-se comparar os níveis de metais pesados existentes em lodos de alguns estados brasileiros com os valores mais e menos restritivos da legislação internacional. Tabela 6 - Limites internacionais mais e menos restritivos de metais pesados em lodos de esgoto comparados com os valores de alguns estados do Brasil METAL PESADO (mg/kg) LIMITE MAIS RESTRITIVO (Dinamarca) LIMITE MENOS RESTRITIVO (EUA) Norma Preliminar do Paraná ETEBELÉM (PR) RALF (PR) ETEs SUZANO e BARUERI (SP) Cd 0,8 85 nd - 12 --nd - 38 20 Pb 100 1200 nd - 200 60 - 88 101 - 762 750 Cu 75 4300 34 - 520 71 - 146 450 - 1706 1000 Cr 75 3000 13 - 299 24 - 71 334 - 3486 1000 Hg 0,75 57 nd a 4,4 nd a 4,5 nd - 55 16 Ni 30 420 nd - 150 36 - 45 124 - 600 300 Zn 300 7500 114 - 1350 415 - 862 595 - 2846 2500 FONTE: SANTOS (1996), FERNANDES et. alii(1997), LUDUVICE (1996) em ANDREOLI (1997) ETEs NORTE e SUL (DF) < 10 50 --54 4 34 --- Em muitos países, e mesmo em alguns estados do Brasil, a presença de metais pesados é um dos entraves mais fortes à reciclagem. Há de se acrescentar ainda que o equacionamento deste fator depende do controle das descargas industriais nas redes coletoras de esgoto. d. Viabilidade de Culturas: A composição mineral e orgânica do lodo fazem deste resíduo um condicionador de solo com propriedades semelhantes aos demais resíduos usados na agricultura. Portanto, em termos de resposta agronômica, o lodo pode ser aplicado com bons resultados à maioria das culturas. Na Região Metropolitana de Curitiba, SOUZA et al, (1994), mostra a viabilidade agronômica do uso do lodo na silvicultura, fruticultura, culturas anuais e produção de grama, entre outras, dada a capacidade de uso do solo nesta região. A EMATER-PR, em testes controlados em pequenas propriedades rurais da Região Metropolitana de Curitiba verificou aumentos de produção para o milho entre 30 e 77% (SANEPAR, 1997). Do ponto de vista financeiro, BISCAIA & MIRANDA (1996) relatam que o retorno por R$ (real) aplicado com o lodo pode chegar a ser quatro vezes maior do que o com adubo químico. Outras formas de reciclagem incluem: fruticultura, reflorestamentos, pastagens, floricultura e recuperação de áreas degradadas. Nas culturas de contato primário é vetada a utilização direta do lodo de esgoto e define um prazo mínimo de um ano para reutilização com estas espécies, caso a área seja fertilizada com aquele resíduo (SANEPAR , 1997). Deschamps & Favaretto. (1998) em estudo para avaliar o efeito do lodo de esgoto complementado com fertilizante mineral na produtividade e desenvolvimento da culturas do girassol e do feijoeiro, mostram que o lodo de esgoto pode ser utilizado para substituir 100% do nitrogênio recomendado sem prejuízo à produção. e. Adequação das Áreas de Aplicação: Vários países elaboraram sistemas com ações seqüenciais e padronizadas para a verificação das características ambientais das propriedades, no âmbito de sistemas de gestão de lodos. De acordo com USEPA (1979), as qualidades ótimas do solo para a aplicação de lodo são: profundidade, alta capacidade de infiltração e percolação, textura fina suficiente para alta capacidade de retenção de água e nutrientes, boa drenagem e aeração, e pH alcalino a neutro, pois pH ácido no solo proporciona maior mobilidade e solubilidade de elementos. No Brasil, o trabalho de SOUZA et al (1994) é a referência. No estudo, foram adotadas classes, subclasses e unidades de aptidão face a vários critérios. As classes consideram cinco níveis relacionados ao grau de limitação de uso. As subclasses de aptidão referem-se aos fatores de limitação ou impedimento mais importantes à aplicação de lodo, freqüentemente relacionados ao comportamento do solo ou à motomecanização. O pH caracteristicamente mais ácido dos solos brasileiros em relação aos solos Europeus e Norte Americanos, deve refletir na definição de critérios mais restritivos quanto ao aporte de metais pesados ao solo. Por outro lado, como a calagem tem se destacado aqui como tecnologia de higienização mais promissora, a cal adicionada ao produto eleva seu poder de neutralização da acidez dos solos, diminuindo a disponibilidade de elementos traço às plantas e permitindo a definição de parâmetros menos proibitivos. f. Dosagens: A definição de dosagens é o aspecto que parece ser mais problemático entre os discutidos na literatura de regulamentação internacional. É senso comum a definição de doses recomendadas para cada cultura através de sua necessidade de NPK, que levam a dosagens comumente entre 6 e 9 t/ha de matéria seca, dependendo contudo, das características do lodo, serem utilizadas doses muito mais elevadas. g. Economicidade O custo é um importante fator na escolha do método de processamento do lodo de esgoto pela comunidade, mas não é o único a determinar a escolha. Com relação aos fatores econômicos, destaca que os benefícios indiretos do uso do lodo na agricultura devem ser considerados (OUTWATER, 1994). A USEPA (1979) sugere a elaboração de estimativas detalhadas de custos de capital e de operação do projeto e, ainda, dos custos de transporte e aplicação do lodo. Em estudo orientado para o caso específico da ETE-Belém, Canziani et al. (1998) adota como metodologia para avaliação econômica da reciclagem do lodo, a divisão do processo operacional em: processo de produção e processamento, operação de higienização (calagem), armazenamento na ETE, problemática do transporte e etapas de aplicação e incorporação do lodo ao solo da propriedade rural. Com relação aos processos de produção e processamento, o autor analisa estas fases como indispensáveis ao processo operacional de uma ETE independente da alternativa de disposição final preconizada, e considerar inapropriada a inclusão destes custos sobre a operação de reciclagem agrícola do lodo. Os valores relacionados ao processo de higienização do lodo através da calagem, R$ 7,40/t úmida, e armazenamento, R$ 0,71/t úmida, compatibilizam o produto a concorrer com os outros materiais orgânicos comumente utilizados na agricultura. O maior entrave à reciclagem para o autor é o transporte. Dificuldades técnicas, como a relação volume/teor de sólidos, tornam inviável o transporte a distâncias maiores, e mesmo em deslocamentos curtos, oneram significativamente a reciclagem, podendo representar mais de 50% do custo total da operação. Na visão do autor, a organização de uma estrutura administrativa orientada pela companhia de saneamento será indispensável para viabilizar a reciclagem, não só economicamente, mas do ponto de vista operacional também. Outra análise de custo de transporte, foi realizada segundo as as concentrações de N,P e K do lodo, viabilizando um raio máximo econômico de 9,5 Km para uso de lodo líquido, 105,8 Km para lodo a 20 % de sólidos e 514,9 Km para o lodo seco (MENDES, 1981). h. Planejamento da Distribuição, Transporte e Estocagem: Em um sistema de reciclagem agrícola do lodo, faz-se necessária uma estrutura de administração física, técnica e econômica para gerir as atividades de tratamento, estocagem, distribuição e acompanhamento dos resultados a campo - BONNET (1995). No planejamento de um programa de utilização de lodo de esgoto, segundo USEPA (1979), várias etapas devem ser consideradas. Em relação aos aspectos técnicos, sugere avaliações quanto a: qualidade do produto, disponibilidade de terras para utilização, como será o transporte e estrutura de estocagem adequada ao período de utilização. Nas questões legais, sugere o uso de limitações quanto à área em que pode ser aplicado, volume a ser aplicado, níveis de substâncias específicas toleradas e à sanidade do produto. Também, recomenda avaliar os benefícios potenciais para a comunidade. IV. METODOLOGIA A partir dos resultados gerados na linha de pesquisa que se desenvolve no Paraná e no Brasil e da experiência internacional documentada, se propõem uma seqüência de etapas que permitem a visualização teórica de todos os processos que devem ser definidos na elaboração dos Planos de Distribuição de Lodo. Desta estrutura consta uma breve discussão da relevância das etapas em relação ao sucesso de operação prática dos planos. Consiste, portanto, de ferramenta para a orientação do processo de reciclagem agrícola do lodo dentro de critérios técnicos, econômicos e ambientais adequados, assim como de um roteiro para planejamento e gerenciamento da organização e operação de distribuição do lodo V. RESULTADOS E DISCUSSÃO O Plano de Distribuição permite a valorização agrícola controlada de lodo, segundo condições compatíveis com o meio ambiente, a regulamentação dos efeitos sobre a saúde e o potencial agronômico do produto. Sua premissa fundamental consiste na produção de um insumo de qualidade para a agricultura, minimizando os riscos sobre a população e o meio ambiente. Neste sentido, os Planos de Distribuição de Lodo devem abordar numa análise dinâmica todos os processos, desde a produção do lodo até a incorporação ao solo, com o intuito de assegurar a segurança da operação, quais sejam: 1. Estudo da produção do lodo A composição do lodo sofre variações conforme as características do esgoto que lhe dá origem, do sistema de tratamento empregado, do sistema de estabilização e higienização adotado e das condições de armazenamento deste produto na ETE. Assim, algumas informações que caracterizam a etapa de produção do lodo são importantes: • regime de funcionamento e vazão de entrada • sistema de estabilização e higienização: Calagem e/ou compostagem • avaliação da quantidade produzida (potencial e real): importante na avaliação da eficiência da ETE. • Tipo de tratamento: aeróbio ou anaeróbio • Cálculo da área necessária para reciclagem do lodo: Em função das recomendações. • processo de secagem: leito de secagem, por prensa desaguadora, centrífuga. • Equipamentos: para os processos de secagem, estabilização e carregamento do lodo. • Área para gerenciamento do lodo: As ETEs devem ter áreas dimensionadas especificamente para o gerenciamento do lodo: processo de secagem, estabilização/higienização e armazenagem. Após o processo de higienização o lodo através da calagem tem que ser estocado na ETE por um período mínimo de 2 meses, para garantir a eficácia do tratamento sanitário. O tempo suplementar de estocagem será determinado, também, pela demanda do produto na região. 2. Avaliação da qualidade do lodo A utilização agrícola do lodo deve ser vinculada aos resultados das análises dos parâmetros de qualidade do produto, e, uma vez que a composição do lodo pode variar em função das características do esgoto, do sistema de tratamento (aeróbio ou anaeróbio) e do processo de higienização adotado, estas variações devem ser mensuradas com freqüência, a fim de assegurar qualidade e viabilidade do produto a ser utilizado na agricultura, e as possíveis restrições de uso que deverão ser estabelecidas. • parâmetros agronômicos: matéria seca, matéria orgânica, C, N, P, K, Ca, Mg, S, relação C/N, e pH. • critérios sanitário: caracterizar o lodo em relação risco ao de contaminação do meio ambiente por patógenos e microrganismos prejudiciais à saúde humana: ovos viáveis de helmintos e coliformes fecais. • níveis de metais pesados: Cd, Cr, Cu, Hg, Ni, Pb e Zn. • estabilidade: A questão da freqüência de insetos nos locais de aplicação e estocagem do lodo no campo está associada às más condições de estabilização do produto, e pode ser avaliado pelo teor de cinzas do lodo. 3. Estudo da área de utilização O estudo da área de utilização envolve a discussão de características peculiares a cada região. No estudo destas características, o que se objetiva é encontrar parâmetros de avaliação do potencial da região para utilização agrícola do lodo, e da interferência de outras ETEs: • localização geográfica e estrutura viária: Avaliação da interferência de outras ETEs; • características climáticas: decomposição, liberação de odores, secagem natural • hidrologia: Risco de contaminação de mananciais de abastecimento; • características dos solos predominantes: Avaliação da capacidade de uso da área • contexto agrícola: Área total para aplicação do lodo, principais culturas compatíveis com o uso de lodo, épocas de preparo e plantio (picos de demanda do resíduo e de equipamentos - carregamento, distribuição e incorporação), perfil dos produtores (aceitação e absorção de novas tecnologias) e grau de tecnificação dos produtores (disponibilidade de equipamentos para trabalho com o lodo). 4. Organização da Distribuição A organização da distribuição aos agricultores é a etapa de definição de estratégias de valorização do produto para a reciclagem agrícola. Os seguintes aspectos são importantes: • divulgação: estratégias de marketing (imprensa e reuniões técnicas): A divulgação da utilização do lodo para fins agrícolas deverá ser feita através dos órgãos de imprensa e através de uma divulgação mais ativa, devendo ser realizadas reuniões técnicas proporcionando ao agricultor maiores informações sobre a manipulação, benefícios e conseqüências de sua utilização. • cadastro de produtores interessados: áreas e culturas A distribuição do lodo deverá ser realizada de acordo com um cadastro de todos os produtores interessados. O cadastro de cada produtor deverá conter a área e a cultura a ser implantada, devendo constar o período a ser utilizado com lodo. • Obtenção de licenciamento ambiental: junto aos Órgãos competentes de cada Estado. • outros usuários potenciais: Avaliação das alternativas potenciais de uso: recuperação de áreas degradadas, viveiros florestais, hortos municipais, paisagismo e outros. • cálculo da área agrícola necessária: Deverá ser realizado um cálculo preliminar da quantidade de lodo aplicado por hectare. • períodos de aplicação e estocagem e culturas de utilização: Segundo extensionistas da EMATER - Pr, o período de utilização se estenderá pelos meses de maio a setembro, diretamente relacionado com o período de estocagem na ETE. • levantamento de preços de transporte de lodo: Especial atenção deve ser dada à questão do transporte do lodo, que, segundo as pesquisas, é o fator que mais onera a reciclagem agrícola. • treinamento de técnicos locais: que deverão orientar os produtores rurais • treinamento dos responsáveis locais das Estações de Tratamento: para o controle da gestão do lodo 5. Operação da distribuição A última etapa do planejamento da reciclagem envolve o levantamento de parâmetros de monitoramento e gerenciamento da distribuição propriamente dita do lodo, onde serão definidas as metodologias de análise e operacionalização da reciclagem. • coleta de amostras de lodo: quantidade, freqüência e parâmetros de amostragem; • avaliação do potencial da propriedade: Mesmo aprovado pelos critérios sanitários e pelos teores de metais pesados e de cinzas, a utilização do lodo requer cuidados adicionais. É necessário que se estabeleçam critérios para a seleção de áreas que reduzam ao mínimo os riscos associados ao uso agrícola do resíduo e que propiciem as melhores respostas agronômicas. Dentre outros fatores, aqueles que oferecem maior risco são os que resultam em movimentação dos componentes do lodo por lixiviação ou escorrimento superficial. • recomendação de adubação e complementação mineral: A determinação das doses de aplicação deve levar em consideração a capacidade de absorção de nutrientes pela cultura e a análise de solo. A uso do lodo e a complementação mineral deve seguir as recomendações do técnico responsável. • carregamento, distribuição e incorporação do lodo: Empecilhos locais, problemas orçamentários, precauções no transporte, critérios para adequação de depósitos temporários na propriedades, disponibilidade de equipamentos e instrução dos agricultores • monitoramento ambiental: critérios e metodologias de monitoramento, definição de estratégias de avaliação dos impactos do uso do lodo sobre os caracteres bióticos e abióticos do meio. • organização e manutenção de cadastro: todos os documentos, especialmente os relacionados às características qualitativa do lodo e da capacidade de uso das áreas de aplicação, devem ser arquivados e disponíveis para consulta pelos órgãos competentes e eventuais interessados. IV. CONCLUSÕES Seguindo a tendência mundial, o Estado do Paraná deve adotar a reciclagem agrícola como opção de disposição final para o lodo de esgoto, baseado no desenvolvimento técnico cientifico gerado em 10 anos de pesquisas, e que deverá culminar com a elaboração de uma metodologia que oriente as políticas e praticas diretrizes do processo de valorização agrícola do lodo. A proposta de um plano de controle da reciclagem, procura atender a duas demandas: definir um sistema de gerenciamento orientado da processo de reciclagem, garantindo a saúde da população e a estabilidade do meio ambiente, e simultaneamente evitando critérios excessivamente restritivos que inviabilizem a alternativa que levariam a outras opções de disposição, menos adequadas e prejudiciais ao meio ambiente e à saúde. Muitas são as variáveis que devem ser avaliadas na proposição de um plano de uso agrícola de lodo. Uma série de variáveis de ordem econômica, ambiental e social, além dos custos, devem ser analisadas em conjunto pela comunidade. E, neste sentido, a disposição agrícola não pode ser encarada como forma de eliminar um problema eminentemente urbano, e sim com o objetivo de produzir um insumo de excelente qualidade para uso na agricultura. Dos critérios a serem estabelecidos numa estrutura que propõem o controle do uso do dejeto na agricultura, os mais críticos relacionam aos níveis de metais pesados e patógenos. A viabilização da disposição do lodo na agricultura esta intimamente relacionada com a definição de uma política de comercialização do produto. A organização de uma estrutura que administre as operações, dando maior credibilidade ao produto, facilitando a distribuição e dando infra-estrutura adequado ao produtor, certamente minimizará o custo de disposição final do lodo. V - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDREOLI, C. V. Disposição final do lodo de esgoto da ETE Belém. 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