GUIAS PARA ELABORAÇÃO DE PLANOS DE MOBILIDADE URBANA SUSTENTÁVEL: ANÁLISE COMPARATIVA DAS DIRETRIZES EUROPEIAS E BRASILEIRAS Ígor Godeiro de O. Maranhão Rômulo Dante Orrico Filho Universidade Federal do Rio de Janeiro Programa de Engenharia de Transportes – PET/COPPE/UFRJ Enilson Medeiros dos Santos Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de Engenharia Civil RESUMO Este artigo pode ser dividido em quatro partes. A primeira apresenta o cenário no qual as cidades brasileiras, sejam elas pequenas médias ou grandes, se encontram em relação à elaboração de planos de mobilidade urbana sustentável (PMUS). A segunda parte é destinada a uma breve revisão do conceito de PMUS, apresentando suas diferenças do planejamento tradicional de transportes. A terceira parte dedica-se à exposição das barreiras à elaboração desses planos em cidades europeias. A quarta, e última, apresenta e analisa os guias. As conclusões foram que o documento brasileiro é similar ao europeu e ambos são efetivos na realização da atividade em que propõem. Foi também identificado a necessidade de mais estudos relacionados à determinação das barreiras à elaboração e implementação de políticas sustentáveis de mobilidade urbana nas cidades brasileiras. Palavras-chave: Política Nacional de Mobilidade Urbana, planejamento da mobilidade urbana, barreiras. ABSTRACT This paper has four main parts. The first presents the context in which Brazilian cities, whether small or big, are in relation to the development of sustainable urban mobility plans (SUMP). The second part aims a brief review of SUMP concepts, presenting their differences from the traditional transport plans. The third dedicates to describe the barriers to the implementation of these plans in European cities. The fourth, and last, presents and analyzes the compared guides. The results were that the Brazilian guide is similar to the European and both are effective in carrying out the activity they propose to. We also identified the need for more studies on the definition of the barriers to the elaboration and implementation of sustainable urban mobility policies in Brazilian cities. Keywords: Urban mobility policy, urban mobility planning, barriers. 1. INTRODUÇÃO Em 2012 foi sancionada pela Presidência da República a Lei nº 12.587 (BRASIL, 2012), que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU). Este marco legal representa para o país a necessidade de mudanças de paradigmas aplicados às cidades brasileiras e, dentre outras características, a obrigatoriedade de um planejamento periódico que leve em consideração a maior importância dos usuários de modos não motorizados e de transportes públicos. Com a nova lei, o número de municípios obrigados a elaborar planos de mobilidade urbana passam de 38 para aproximadamente 1.663 (IPEA, 2012). Essa obrigação já existia devido lei nº 10.257, mais conhecido como Estatuto das Cidades, exigir a elaboração desses planos para cidades com mais de 500.000 habitantes (BRASIL, 2001). Tendo em vista a existência dessa obrigação, no ano de 2007 o ministério das cidades elaborou um documento que seria o embrião do atual guia, o PlanMob – Caderno de referência para elaboração de Plano de Mobilidade Urbana (Ministério das Cidades, 2007). Segundo Vieira (2012), este documento apresentou preciso detalhamento técnico, prático e conceitual, ressaltando a importância dos estudos de viabilidade, das projeções, da participação popular, entre outros. A autora ressaltou que o guia não determinou um padrão obrigatório a ser seguido e apresentou como falha a ausência de técnicas para revisão, que possuía obrigatoriedade decenal. De acordo com dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (IBGE, 2012), dentre os municípios com mais de 20.000 habitantes, parâmetro que abrange a maior parte deles, 16,12% não possuíam estrutura específica de um órgão gestor de transporte, 74,52% não tinham e não estavam tratando da elaboração de um plano municipal de transporte e 90,95% não possuíam fundo municipal de transporte. Diante de tais dados, pode-se inferir que grande parte das cidades brasileiras não está preparada para a implementar a Lei nº 12.587/12. É relevante ressaltar que apesar dos dados anteriormente apresentados indicarem, no âmbito local, a falta de infraestrutura governamental para elaboração dos planos, há também problemas relacionados aos planos de mobilidade já elaborados. Oliveira (2014) constatou ao analisar o plano de mobilidade de Belo Horizonte de 2012, o não cumprimento de algumas diretrizes da PNMU, entre elas os relacionados aos mecanismos de monitoramento e avaliação do cumprimento das metas e também a pouca participação popular no processo. Este fato é preocupante, pois indica que mesmo governos locais com aparente capacidade técnica e financeira não conseguem seguir as diretrizes da Política. Tendo em vista estes problemas, a importância de estudar o planejamento de transportes urbanos para alicerçar o desenvolvimento sustentável das cidades é essencial para que não haja má aplicação dos cerca de R$ 140 bilhões que serão destinados à mobilidade urbana (Planalto, 2015). Ante tal consideração, será realizado neste artigo um confronto entre o Caderno de referência para elaboração de Plano de Mobilidade Urbana (Ministério das Cidades, 2015a) e o documento europeu Desenvolvendo e Implementando um plano de mobilidade urbana sustentável (ELTISplus, 2014). Esta comparação tem por objetivo identificar e analisar as diferenças nas diretrizes de elaboração dos planos a fim de verificar se o documento brasileiro está guiando em direção ao planejamento sustentável. A utilização deste guia europeu se dá pois, diferentemente dos guias estritamente nacionais como os da França e Inglaterra, o documento europeu deve tratar de cenários e circunstâncias diversos, aproximando-se da situação brasileira em alguns aspectos. Além disto, este guia europeu foi elaborado considerando diversas pesquisas relevantes realizadas para o cenário europeu, pesquisas essas explicitadas nas seções adjacentes. Este artigo é dividido em quatro partes, além da introdução. A segunda e a terceira seção apresentam uma breve revisão do conceito de plano de mobilidade urbana sustentável e dos estudos sobre as barreiras ao seu planejamento e implementação. Uma descrição da bibliografia, bem como a análise dos documentos é realizada na quarta seção, apresentando a respectiva importância da existência de tais documentos e de que forma eles guiam para a melhoria da mobilidade e da qualidade de vida. A última seção é dedicada as considerações finais, apresentando as contribuições do artigo, as limitações e as recomendações para pesquisas futuras. 2. O CONCEITO DE PLANO DE MOBILIDADE URBANA SUSTENTÁVEL (PMUS) Foi realizada uma breve pesquisa do conceito de planos de mobilidade sustentável a fim de melhor analisar os guias no que tange as suas diretrizes. Pôde-se constatar que este é um conceito parcamente trabalhado na literatura. O projeto PILOT, conceitua o planejamento de mobilidade urbana sustentável afirmando que para entender o que é um PMUS deve-se entender no que ele difere do planejamento de transporte convencional, em seus objetivos (e.g. reduzir os impactos negativos do transporte sobre a saúde e a segurança dos cidadãos, em particular os mais vulneráveis), seu escopo (e.g. passageiros e bens) e suas qualidades distintas como forma de planejar (e.g. a abordagem participativa) (PILOT, 2007). Outra publicação, o estudo de revisão do projeto ELTISplus (ELTISplus, 2012), é uma importante fonte para se entender os PMUS. Entre outras contribuições, reiterou as conclusões do projeto PILOT mas constatou também, por parte dos stakeholders, a necessidade de uma definição curta e simples. Baseando-se nos apontamentos da etapa de consolidação dos conhecimentos, chegou-se a um consenso que o conjunto de termos apresentados na figura 1 deveriam estar presentes, implicitamente ou explicitamente, no conceito de PMUS. Assim, a seguinte definição foi sugerida: Um plano de mobilidade urbana sustentável é um plano estratégico elaborado para satisfazer as necessidades de mobilidade de pessoas e empresas nas cidades e imediações a fim de prover uma melhor qualidade de vida. Ele se baseia em práticas de planejamento existentes e leva em total consideração a integração, participação e os princípios de avaliação. (ELTISplus, 2012) Figura 1. Elementos essenciais no conceito de planos de mobilidade urbana sustentável Fonte: Tradução própria, retirado de ELTISplus (2012). Outras importantes contribuições do estudo de revisão foram as definições dos benefícios, o que pode ser alcançado, os requisitos mínimos, a diferença entre um plano de transporte tradicional e um plano de mobilidade urbana sustentável (Tabela 1) e as barreiras da elaboração de um PMUS, tratadas na próxima seção. Além disso, outro aspecto abordado foi a revisão dos guias nacionais já existentes e a conjuntura legal desses países em relação à mobilidade sustentável. Tabela 1. Comparação entre o modelo tradicional e o sustentável dos planos Plano de Transporte Tradicional Muitas vezes com perspectivas de curto prazo, sem visão estratégica Visão/Nível Estratégico Geralmente se concentram em uma única cidade Participação de alguns operadores e outros entes locais, não é uma característica obrigatória Não é uma característica obrigatória Nível de Envolvimento Público Baixa, foco em transporte e infraestrutura Integração de Setores Geralmente não há cooperação entre as autoridades Muitas vezes inexistente ou focada em objetivos muito amplos Cooperação Institucional Monitoramento e Avaliação Ênfase histórica em planejamento de vias e construção de infraestruturas Foco Temático Não é considerado Internalização de Custos Escopo Geográfico Sustentabilidade Plano de Mobilidade Urbana Sustentável Inclui a visão de longo prazo/estratégica com horizonte de planejamento de 20-30 anos "Cidade Funcional"; cooperação das autoridades das cidades relacionadas Alto; Envolvimento dos cidadãos e stakeholders é essencial Balancear equidade social, qualidade ambiental e desenvolvimento econômico Integração de práticas e políticas entre os setores (Ambiental, uso do solo, inclusão social, etc.) Integração entre as autoridades (Distritos, municipalidades, aglomerações, regiões) Foco em atingir objetivos mensuráveis e resultados esperados Mudança decisiva em favor de medidas destinadas a promover o transporte público , a pé e de bicicleta e além ( qualidade do espaço público , uso do solo , etc.) Avaliação dos custos e benefícios também em todos os sectores da política de transportes Fonte: Tradução livre, adaptado de ELTISplus (2012) Em 2013, a Comissão Europeia legitimou o conceito de plano de mobilidade urbana sustentável em todos os estado-membro da EU. Apoiando-se principalmente nos estudos do projeto ELTISplus, ela estabeleceu uma definição similar a apresentada anteriormente. Entretanto a Comissão afirma que este conceito não deve ser tomado como uma abordagem uniforme, e sim o contrário, deve ser adaptado às diversas circunstâncias e cenários existentes entre os Estados (Comissão Europeia, 2013). No Brasil, Cidades (2015), ao definir o que são planos de mobilidade urbana dispensa uma conceituação completa, afirmando que os mesmos são instrumentos para firmar a PNMU. Em relação a finalidade, o documento acaba conceituando algo similar ao que é um plano, como segue: Os planos de mobilidade urbana são instrumentos de internalização das diretrizes, dos objetivos e dos princípios gerais da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Sua finalidade é a de, por meio do planejamento de curto, médio e longo prazos, traduzir os objetivos de melhoria da mobilidade urbana local em metas, ações estratégicas e recursos materiais e humanos, viabilizando os meios para a efetiva transformação desejada e, com isso, contribuindo com uma real promoção do desenvolvimento da cidade. Assim, fica constatado a dificuldade em se definir o conceito de planos de mobilidade urbana sustentável. Esse fato era esperado, no sentido de que se trata de termos amplos e complexos, nos quais uma efetiva definição deve ser igualmente ampla a fim de englobar o maior número de cenários que o seu planejamento requer. Ainda assim, conforme apresentado, somente estes conceitos não devem ser o embasamento para a elaboração de um PMUS, sendo necessário, entre outros elementos, um guia para sua elaboração. 3. AS BARREIRAS AO PLANEJAMENTO DA MOBILIDADE SUSTENTÁVEL NA EUROPA May (2015) realizou extensa revisão bibliográfica sobre as barreiras à elaboração e implementação de um eficiente plano de mobilidade urbana sustentável. Entre os estudos por ele analisado e aqui utilizados estão Atkins (2007), ECMT (2002, 2006) e Gudmundsson (2007). Apesar de outros (ELTISplus, 2012; Hull, 2009; PROSPECTS, 2001) terem sido por ele analisado, optou-se por utilizar outras fontes. Atkins e DISTILLATE foram estudos realizados durante as três fases de aplicação dos chamados Local Transport Plan (LTP) nas cidades do Reino-Unido, durante os anos 2000. Essas três fases foram divididas na medida em que as diretrizes nacionais eram alteradas, de uma situação com prescrições e guias a serem seguidos (LTP1 e LTP2) para uma situação em que havia orientação nacional porém as cidades possuíam considerável flexibilidade (LTP3) e por último uma na qual as cidades têm total capacidade, e portanto não necessitam de orientação (Pós LTP3). IMPACT, um estudo similar ao DISTILLATE e Atkins, foi realizado na Suécia para obter as principais barreiras à abordagem escandinava do planejamento da mobilidade urbana sustentável. Em relação ao continente europeu, os estudos da European Conference of Ministers of Transports (ECMT) foram parte de um programa de 15 (quinze) anos de duração que realizou estudos de casos, bem como questionários em diversas cidades sobre a habilidade delas em implementar o planejamento da mobilidade sustentável. O projeto ELTISplus dividiu as barreiras por ele encontradas em três níveis, a saber: as barreiras encontradas em países com o planejamento sustentável já bem estabelecido, as barreiras em países que estão se mobilizando para o planejamento sustentável e as encontradas em países que ainda não adotaram o planejamento da mobilidade sustentável. Devido o intuito do artigo, foram analisadas apenas as barreiras relacionadas aos países que estão se mobilizando para o desenvolvimento de um planejamento sustentável, por assemelharem-se ao atual cenário brasileiro. O projeto PROSPECTS foi um estudo com a finalidade de prover amparo ao desenvolvimento de PMUS. Para embasá-lo, realizou questionários em 60 (sessenta) cidades europeias para identificar as barreiras enfrentadas pelos planejadores. As respostas dos questionários estão agrupadas em termos muito específicos, e para melhor organiza-los, foram agrupados em barreiras de cunho semelhante, conforme segue: Tabela 2. Barreiras ao planejamento da mobilidade urbana sustentável na Europa PROSPECTS Falta de integração e cooperação entre cidades e entre níveis de governo Falta de amparo legal e/ou de marcos regulatórios Falta de vontade política Falta de integração entre instrumentos de planejamento Falta de poder sobre operadores locais de transporte Limitação no número de pessoas e/ou de conhecimento do grupo planejador Relutância em compartilhar boas práticas Problemas relacionados a modelagem, monitoramento e avaliação Falta de espaço urbano Falta de iniciativas de âmbito privado Barreiras relacionadas a financiamentos e/ou taxações1 Baixa qualidade e quantidade de dados Pouco apoio da população Resistência dos planejadores por abordagens mais modernas Estudos da ECMT DISTILLATE x x x x x Atkins ELTISplus IMPACT x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x Fonte: Elaboração própria, a partir de ELTISplus (2012); apud May (2015); Hull (2009) e PROSPECTS (2001). 4. DESCRIÇÃO DA BIBLIOGRAFIA E ANÁLISE DOS DOCUMENTOS Um ponto a ser discutido é se há a real necessidade da atuação nacional na elaboração de planos cujo escopo geográfico são municípios. Esse debate é reforçado pela forma como o ente federal deve atuar, com prescrições ou diretrizes a serem seguidas. May (2013), baseado principalmente nos estudos realizados durante as três fases de aplicação dos planos locais de transporte (LTPs) no Reino Unido, afirma que é necessário haver um equilíbrio entre a atuação do poder nacional e local, mas que é essencial a participação do primeiro para que este instrua em relação às boas práticas a serem aplicadas pelo segundo. A necessidade da participação nacional é também reforçada pela importância que as cidades vêm tomado em relação aos países. Segundo relatório da Commission of the European Communities 1 Algumas barreiras foram agrupadas com o intuito de melhor organizá-las. Apesar de estarem marcadas igualmente, Hull (2009), ao tratar do projeto DISTILLATE, e ELTISplus (2012) tratam de duas barreiras diferentes de financiamento. Enquanto a primeira trata da falta de recursos, por parte dos entes locais, para a elaboração dos planos, o segundo trata das dificuldades relacionadas, também, ao financiamento do que chama de pacotes de medidas. (2007), cerca de 60% da população europeia vive em cidades com mais de 10.000 habitantes, sendo elas responsáveis por pouco menos de 85% do PIB produzido. Em relação aos transportes, o congestionamento nas cidades é responsável pela perda de 100 bilhões de euros e 40% das emissões totais de CO2. Em relação ao Brasil a importância das cidades é similar. Apesar dos municípios com mais de 20.000 habitantes representarem pouco menos de 30% do total de municípios brasileiros, cerca de 83% da população vive neles, representando 90% do PIB produzido (IBGE, 2010a, 2010b). Dessa forma, é essencial para os países que os governos nacionais empenhem-se em solucionar os problemas das cidades com a finalidade de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Tendo em vista o que foi explicitado, a análise partirá da comparação direta de dois documentos, o Caderno de Referência para Elaboração de Plano de Mobilidade Urbana e o Developing and Implementing a Sustainable Urban Mobility Plan. O primeiro se trata de um documento oficial do governo brasileiro com o objetivo de orientar estados e municípios na construção de planos de mobilidade urbana, o segundo, resultado de uma pesquisa financiada pela European Comission, é um documento guia que define os principais passos para estabelecer políticas de mobilidade urbana. O documento brasileiro trata como elementos essenciais (mínimos) o caderno de referência indica dois grupos: um formado por 6 (seis) itens relacionados ao estabelecimento de objetivos e metas e outro com 24 (vinte e quatro) relacionados as ações estratégicas para a solução de problemas e alcance de metas (e.g. Meta de redução de acidentes, através da Circulação viária em condições seguras e humanizadas). Em relação a metodologia recomendada, o documento brasileiro utiliza-se de um passo a passo obtido de EMBARQ (2014), abaixo descrito: Figura 2. Etapas de elaboração de planos de mobilidade urbana brasileiros. Fonte: (EMBARQ Brasil, 2014) Em relação a metodologia recomendada, o guia também utiliza-se de um passo a passo, porém este mais segmentado, conforme abaixo. Figura 3 Etapas da elaboração de um plano de mobilidade urbana sustentável. Fonte: Tradução livre, adaptado ELTISplus (2014). Os dois documentos oficiais têm escopo bastante similar. A principal semelhança está no esclarecimento de certos pontos dos passos recomendados a serem seguidos, como por exemplo na definição de metas, no qual ambos tratam da necessidade de se definir metas alcançáveis, dentro da realidade de cada cidade. O ponto negativo dessa semelhança é que, em alguns casos, ambos falham em certos pontos. Um exemplo disto está relacionado ao transporte de carga em áreas urbana, que de forma geral tem tratamento marginal nas análises necessárias, sendo raramente citado. Apesar de, em sua maior parte, os documentos serem similares, algumas diferenças podem ser notadas. Um exemplo disto é a forma como os documentos tratam da exclusão social. O documento brasileiro aborda este problema com uma visão mais relacionada à pobreza, enquanto o europeu aborda a exclusão social do ponto de vista do acesso dos idosos e portadores de necessidades especiais à cidade. Um ponto a ser observado no documento brasileiro é que este reconhece com maior “capacidade” os diferentes cenários e situações que cada cidade pode ter, inclusive identificando-os (e.g. cidade dormitório, cidade industrial, tamanho da população) e rapidamente elaborando o escopo do plano. Outra diferença observada foi que o documento europeu se mostra mais preparado para superação de barreiras identificadas neste artigo, inclusive mostrando em alguns pontos a existência dessas barreiras e como suplantá-las. Isso se verifica devido ao fato da revisão elaborada ser de estudos sobre dificuldades encontradas durante os processos de elaboração dos planos em cidades europeias. Tendo em vista que há, relativamente, poucos estudos sobre as barreiras encontradas durante a elaboração de planos de mobilidade nas cidades brasileiras, ou mesmo em cidades de países em desenvolvimento, o documento brasileiro se ausenta de informar atividades-chave para cercear tais dificuldades. É importante definir que o papel de um guia é guiar. Atentando-se a isso, é perceptível que o documento europeu apesar de mais sucinto, é mais completo em relação ao passo a passo recomendado. Há uma aparente preocupação em relação ao correto entendimento dos conceitos e dos passos a seguir, sistematizando-os, mostrando exemplos, atividades essenciais, atividades complementares e check-lists a serem realizados ao fim de cada etapa. Esses cuidados acabam por coibir erros gerados pelo não entendimento de certos itens. Tendo em vista a heterogeneidade de cenários e com as barreiras apresentadas neste artigo, a simplificação do guia se torna ainda mais essencial. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se dizer que o objetivo do artigo foi alcançado. Após breve análise dos documentos, concluiuse que ambos possuem diversos pontos positivos. Os guias europeu e brasileiro são similares em vários pontos, porém apresentam singularidades devido as claras diferenças entre os cenários atuais e perspectivas futuras. O artigo apresenta claras limitações quanto às análises do guia brasileiro em relação às barreiras, isso ocorreu devido ao fato de não existir muitos estudos sobre elas no cenário nacional. Dessa forma, uma recomendação é exatamente o estudo destas, a fim de determina-las e possivelmente recomendar alterações no guia nacional. Por fim, o Brasil está passando por uma fase de transição em termos de mobilidade, assim, muitos recursos serão alocados com esse intuito. Tendo isso em vista, a necessidade de se estudar o processo de planejamento se amplifica para que haja um processo racional e transparente de gastos. O caderno de referência publicado pelo ministério das cidades é um documento recente (publicado em 2015). Devido a isso, é seguro dizer que nenhum plano foi elaborando seguindo suas diretrizes. Tendo isso em vista, é importante a presença da academia nas discussões a fim de se tornar um elo permanente no processo de planejamento. Sua presença é primordial para identificar as barreiras no processo brasileiro, similar aos estudos revisados para o continente europeu. Referências Atkins. (2007) Long Term Process and Impact Evaluation of the Local Transport Plan Policy: Final Report. London. BRASIL. Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001. Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências. (2001). Brasília, DF. Obtido de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10257.htm BRASIL. Lei no 12587, de 3 de janeiro de 2012. Institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. (2012). República Federativa do Brasil, Brasília. Comissão Europeia. (2013) Anexo: Um conceito para os planos de mobilidade urbana sustentável. Bruxelas. 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