1
Identidade e Turismo: religiosidade na festa de Nosso Senhor dos Passos em São
Cristóvão/SE 1
Lucía Del Campillo 2
Universidade de Caxias do Sul - UCS
Ivan Rêgo Aragão 3
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
Resumo
Esse presente estudo tem por finalidade abordar aspectos do segmento do turismo culturalreligioso em São Cristóvão, cidade Sergipana que reivindica junto a UNESCO, o título de
Patrimônio Cultural da Humanidade, analisando o seu espaço urbano, herança do Brasil
Colônia e dando destaque à procissão de Nosso Senhor dos Passos. A metodologia utilizada
foi pesquisa bibliográfica e de campo com aplicação de questionário semiestruturado,
contendo questões fechadas e abertas, direcionadas ao morador e visitante. O processo da
análise dos gráficos foi o qualitativo e quantitativo. A pesquisa, também procura estabelecer
uma relação entre patrimônio, religiosidade e memória, através dos resultados dos
questionários aplicados durante a festa no ano de 2009. Por fim, o trabalho mostra que essa
comemoração é fator de atração turística para o local e de identidade sociocultural.
Palavras-chave: Turismo; São Cristóvão; Nosso Senhor dos Passos; Patrimônio Cultural da
Humanidade.
1
Trabalho apresentado ao GT “Turismo e Cultura” do VI Seminário de Pesquisa em Turismo do MERCOSUL – Caxias do
Sul, 09 e 10 de julho de 2010.
2
Mestranda em Turismo pela Universidade de Caxias do Sul – UCS; Bacharel em Turismo graduada pela Universidade de
Caxias do Sul – UCS. Email: [email protected]
3
Mestrando em Cultura & Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC; Bacharel em Turismo, graduado pela
Faculdade de Sergipe - FaSe; Técnico em Conservação de bens culturais móveis pela Fundação de Arte de Ouro Preto –
FAOP. Email: [email protected]
2
1.
Turismo Cultural-Religioso
A partir da última década a atividade do turismo tem sido amplamente divulgada e
propagada ao redor do planeta. Nessa perspectiva, a atividade foi classificada pelo Ministério
do Turismo de acordo com a motivação e o perfil dos visitantes. Concomitante a esse fato, o
MTur tem procurado também incentivar a segmentação turística
4
como forma de auxiliar o
setor, objetivando o planejamento, a gestão e o mercado. Segundo Andrade (1977) apud
Novaes (2000, p. 129),
Depois do turismo de férias e de negócios, o turismo que mais cresce é o religioso,
porque, além dos aspectos místicos e dogmáticos, as religiões assumem o papel de
agentes culturais pelas manifestações de valores antigos, de intervenção na
sociedade atual e de preservação no que diz respeito ao futuro dos indivíduos e das
sociedades.
Ao reconhecer os efeitos benéficos do turismo, a comunidade pode e deve traçar
metas para melhorar a atividade, procurando minimizar os impactos nocivos a população
local. De La Torre (1992, p. 19), avalia o turismo como,
Um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de
indivíduos ou grupo de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação,
descanso, cultura e saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual
não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas interrelações de importância social, econômica e cultural.
Dentro dessa divisão estabelecida pelo MTur, à motivação cultural-religiosa é
uma das que mais desenvolve um fluxo de indivíduos através das regiões, seja dentro ou fora
do país de origem. Ainda segundo o Ministério do Turismo (2005, p. 10), “o turismo cultural
compreende as atividades turísticas relacionadas à vivencia do conjunto dos elementos
significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e
promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Nesse sentido, o turismo religioso
como ramificação do turismo cultural, se propõe a estimular o deslocamento de pessoas aos
locais de culto e peregrinação, onde as mesmas procuram o preenchimento espiritual, a
4
A segmentação turística divide o público alvo em agrupamentos homogêneos, com uma ou mais referencias
mercadologicamente relevantes. Ver: Vaz (2001).
3
renovação da fé ou um simples conforto. Também conforme o MTur (2005, p. 12), o turismo
religioso “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática
religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas”. Oliveira pontua
outros aspectos dessa temática, onde para a autora (2004, p. 28), “o turismo religioso também
reafirma que a fé, como principal motivação desse tipo de viagem, é capaz de construir e
dinamizar a estética dos espaços, tornado-os materialmente religiosos”.
Nesse sentido, entendendo que o culto e a preservação da memória local, são
fundamentais para reafirmar a identidade sociocultural da cidade. Manter a tradição viva das
procissões, através dos bens imateriais e materiais do lugar, é também fortalecer o sentido de
pertencimento dos moradores, garantido a população residente e flutuante o acesso aos ritos
religioso. Souza (2003) informa que,
[...] a identidade cultural é vista como uma forma de identidade coletiva
característica de um grupo social que partilha as mesmas atitudes e, está apoiada
num passado com um ideal coletivo projetado. Ela se fixa como uma construção
social estabelecida e faz os indivíduos se sentirem mais próximos e semelhantes. 5
Através da perpetuação dos signos religiosos que atravessam gerações, é possível
a determinada sociedade, estabelecer um vínculo entre o passado e o presente. Trazendo para
o momento atual fatos, ritos e celebrações que construíram a sociedade local e nortearam o
desenvolvimento das suas ações. Nesse sentido, as festas, sejam elas de caráter sagrado ou
profano, cumprem seu papel de reafirmar a memória coletiva através das comemorações em
períodos pré-determinados. Para Polack (1992, p. 5)
[...] a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto
individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente
importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um
grupo em sua reconstrução de si.
Essa idéia também é corroborada por Rodrigues (2005), quando a autora explica
que a preservação da memória individual e coletiva, possibilita aos indivíduos, estabelecer um
elo entre o passado e o presente essencial para manter o equilíbrio emocional.
2.
5
A Cidade de São Cristóvão e a Festa de Nosso Senhor dos Passos
Disponível em: <www.sbec.org.br/evt2003/trab19.doc>. Acesso em: 27 de nov. de 2007.
4
Fundada em 1590, São Cristóvão no Estado de Sergipe é considerada a quarta
cidade mais antiga do Brasil, ficando atrás de Salvador, Rio de Janeiro e João Pessoa (antiga
Filipéia). O núcleo urbano nasceu no período colonial brasileiro e tem influência na sua trama
das cidades ibéricas, com a localidade construída em dois níveis: cidade alta e baixa. São
Cristóvão tinha no início da sua formação como os espaços principais, o Largo da Igreja
Matriz e a Câmara (poder religioso e político) e o porto. Galvão Júnior (2007),
6
discute os
espaços de poder na formação das cidades na colonização de Portugal e Espanha comentando
que,
[...] a organização dos estados ibéricos tinha uma característica determinante para a
colonização: o poder laico dos reis imbricava em suas cortes o poder divino. A
religião provinha o poder real de valores imateriais, como forma de sustentação e
auto-preservação. Por outro lado, os valores materiais eram distribuídos sobre bases
milenares de ocupação territorial, em suas marchas, contramarchas de ocupações,
guerras, domínios, etc.
Conforme Telles (2007), 7 a primeira irmandade religiosa – Carmelita – chega ao
local em 1608. Os franciscanos só foram se instalar na cidade após a desocupação dos
holandeses. A fixação dessas Ordens em Sergipe deixou um legado artístico e arquitetônico,
fundamentais na formação cultural do Estado. Para o autor citado, a chegada a São Cristóvão
das Ordens Religiosas vai definir os elementos formadores de sua malha urbana. Com a
edificação das igrejas conventuais, criam-se espaços públicos, diretamente ligados a estas
construções. Locais de convivência dos habitantes da cidade.
Esses espaços de socialização vão receber uma grande influência da religiosidade,
festas e procissões vindas de Portugal e Espanha. Ferreira (2009) faz uma análise desses
acontecimentos, comentando que “as festas religiosas são uma das mais antigas manifestações
da vida social no Brasil. Elas diferem umas das outras conforme a época e a sociedade, mas,
invariavelmente, representam os valores, reforçam as estruturas sociais e ajudam a construir a
identidade de um grupo [...]”.
8
A maioria das cidades que nasceram no período colonial do
Brasil traz para os dias atuais, ambientes de manifestação pública de religiosidade, fé e
devoção católica. Segundo Oliveira (2004, p. 1), na cidade espanhola de Sevilha, é possível
6
Ver CD ROM com o dossiê de São Cristóvão com a proposição de inscrição da Praça São Francisco em São
Cristóvão/SE na lista do patrimônio mundial.
7
No dossiê enviado à UNESCO, foram anexados artigos de Aglaé D’Ávila Fontes, Luis Fernando Ribeiro Soutelo, Maria
Thétis Nunes, José Lima Galvão Junior, Augusto Silva Telles, José Thiago da Silva Filho e Edinaldo Batista dos Santos.
8
Disponível em: < www.revistamuseu.com.br/artigos/art_.asp?id=20162>. Acesso em: 29 de maio de 2009.
5
vislumbrar “uma das mais impressionantes demonstrações de sobrevivência no mundo de
hoje de rituais herdados da época barroca, onde 58 procissões oficiais percorrem as ruas da
cidade, do Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição” [...].
Seguindo o calendário litúrgico anual no segundo fim de semana da Quaresma, a
cidade de São Cristóvão relembra a chegada de Jesus a Jerusalém, passando pela paixão,
crucificação, morte e ressurreição. São dois dias de celebração católica, atraindo pessoas em
romaria 9 de vários lugares do Estado. Há mais de cem anos, os últimos momentos da vida de
cristo são rememorados na cidade através da Festa de Nosso Senhor dos Passos, onde de
acordo com Fontes (2007), esta é a principal festa religiosa de São Cristóvão. Como
informam Santos e Nunes (2005, p. 98), a procissão ao Senhor dos Passos, “ainda no século
XIX tornou-se uma das principais manifestações religiosas de Sergipe, conseguindo
aglomerar fiéis devotos de diferentes segmentos sociais e de várias partes da antiga
província”. Por todo o circuito do trajeto é comum vislumbrar manifestações de devoção e
veneração, com pessoas pagando alguma promessa ou ajoelhadas sobre o calçamento.
O grande momento é a Procissão do Encontro, que leva a imagem de Jesus e de
Nossa Senhora das Dores pelas ruas do centro histórico. Na concepção de Almeida (2002, p.
27) apud Santos e Nunes (2005, p. 101), [...] “a procissão é o começo e o fim de tudo, é o
verdadeiro ponto de festejos ao santo. É o momento da festa em que os fiéis estabelecem o
diálogo com o santo padroeiro”. No trajeto da citada procissão existe um percurso
programado para as imagens se encontrarem na Praça São Francisco, sendo esse o momento
clímax na trajetória das imagens. O espaço citado e os monumentos arquitetônicos que o
circundam, reivindicam junto a UNESCO a chancela de se tornarem patrimônio cultural da
humanidade.
O ritual católico inicia a partir da sexta á noite, onde os fiéis rezam o Ofício da
Paixão de Jesus Cristo, seguido de uma missa. A primeira procissão é no sábado à noite com
cânticos ligados aos passos da Paixão. São paradas realizadas sempre em pontos estabelecidos
e mantidos segundo a tradição da festa. Nestes locais, são erguidos pequenos altares
representando o passo a ser entoado pelos cantadores sempre em latim. Neste dia, o cortejo sai
da Igreja Senhor dos Passos levando a imagem de Jesus dentro de uma caixa encoberta por
um pano roxo, onde ficará até o domingo à tarde para a Procissão do Encontro. As pessoas
seguem em silêncio, e algumas delas, vestindo túnicas pretas, roxas e brancas, com velas nas
mãos. Como observou Pereira (2009), “muitos seguem descalços, ajoelhados ou a pé, levam
9
Peregrinação religiosa feita por um grupo de pessoas a uma igrejaou local considerado santo, seja para pagar
promessas, agradecer ou pedirgraças, ou simplesmente pordevoção.
6
os ex-votos, retratos, fitas, bilhetes ou cabelos para colocar na Igreja, ao final deixam também
as indumentárias, que são recolhidas e doadas aos pobres”.
A Procissão do Encontro no domingo é um momento de grande emoção com
manifestações de fervor religioso, onde se podem ver pessoas agradecendo pelas graças
alcançadas ou pedindo a intercessão de Jesus ou Maria para alcançar algum benefício. Pereira
(2009) informa que a Procissão do Encontro é,
[...] realizada na tarde do domingo tem dois cortejos: Um cortejo acompanha o
Senhor dos Passos da Igreja Matriz em direção a Praça São Francisco onde ocorre o
encontro, são cantados três passos neste percurso. Outro cortejo sai da igreja do
Carmo acompanhando a imagem de Nossa Senhora em direção à mesma praça. Um
sermão é realizado no momento do encontro das imagens, logo após ouve-se ecoar o
triste canto da Verônica: "O vos ommines qui transites per viam, attendite et videte
se est dolor similis dolor meus", e então seguem as duas imagens, conduzidas á
Igreja do Carmo em cujo trajeto são cantados os passos finais. Uma missa por fim é
celebrada na Praça do Carmo com as duas imagens.
Para Giovaninni Júnior (2001, p.163), as procissões relacionadas à Semana Santa,
significam “a representação ordenada e harmônica de uma sociedade no encontro dos seus
valores e sua identidade mediante a reverência absoluta à tradição e ao transcendente”. Ainda
que, estejam embutidos, os valores não são apenas relacionados à religiosidade e devoção
católica, mas também, aos valores culturais e artísticos. Nesse contexto, Moura (2005) faz
uma análise dos festejos da Paixão de Cristo mostrando que existe uma celebração em três
níveis sociais. A primeira de cunho erudito relacionada aos ritos herdados da idade média,
com missas faladas em latim, dentre outros. A segunda de caráter popular ligada às
encenações da paixão, tal como a procissão do encontro etc. E a terceira de caráter folclórico,
onde é possível perceber aspectos profanos como carnaval e festa do Divino.
Foi a partir dessa celebração que se criou na cidade o Museu dos Ex-votos.
10
Segundo Santos e Nunes (2005, p. 106), a origem os ex-votos “prende-se a cultos e ritos de
antigas formas de agradecimento ligadas aos cultos de veneração das forças da natureza, em
que se buscava assegurar a fertilidade do solo”. Posteriormente a Igreja Católica vai absorver
os ex-votos como incentivo a “devoção, a crença nos milagres e os agradecimentos públicos,
e o ex-voto vai ser um testemunho individual do encontro com o sagrado e objeto que
materializava a confissão direta”. (SANTOS e NUNES, 2005, p. 107).
10
Graças alcançadas pela interseção de Jesus, Maria ou outro santo.
7
Numa sala anexa, onde se localiza o claustro
11
da Igreja Senhor dos Passos
durante os dois dias de celebração, os devotos trazem objetos criando o próprio acervo do
museu. Acervo este, composto exclusivamente de objetos referentes à graças alcançadas em
pagamento de promessas. É grande o fluxo de pessoas que visitam este museu na festa de
Jesus rememorando a Via Crucis. 12 Algumas peças são confeccionadas em madeira, gesso e
parafina, representando partes do corpo humano. Compõe também o acervo do museu,
fotografias, mechas de cabelo, dentre outros. Segundo Santos (2004) apud Santos e Nunes
(2005), os ex-votos podem ser de característica zoomórfica, antropomórfica, agrícolas, de
valor, específicos, médicos e de significado imaterial.
Com a devoção ao Senhor dos Passos, a antiga Capela da Ordem Terceira do
Carmo ou Carmo Pequena, passou a ser conhecida como a Igreja Senhor do Passos. Conforme
Carvalho (1989), a antiga capela foi construída no século XVIII, possuindo o frontão em
estilo barroco. Logo acima da portada, “coroamento” com concha e duas volutas 13 em pedra
calcária e a imagem de Nossa Senhora do Carmo com o mesmo material. O sino encontra-se à
direita da fachada, emoldurado por uma janela. A capela-mor possui teto em medalhão
policromado em forma de gamela, com a pintura de Nossa Senhora do Carmo. O altar-mor é
dourado e os quatro altares e retábulos laterais em estilo rococó sem policromia, com as
esculturas pintadas do “Senhor da Pedra Fria”, “Senhor da Coluna”, Santa Tereza e a imagem
de vestir de Nossa Senhora do Carmo. Também no acervo da igreja encontra-se a imagem de
roca 14 articulável, em tamanho natural representando Jesus, com olhos de vidro, indumentária
e peruca. De acordo com Quites (1997, p.1), “as Imagens de Vestir e as Imagens de Roca
também possuem articulações, porém ficam escondidas sob as vestes. Essas duas categorias
geralmente possuem perucas de cabelos naturais e vestes feitas em tecido”. São na sua
maioria imagens feitas para serem utilizadas nas procissões e servem sempre para tornar a
cena mais realística e dramatizada. Este Bem Cultural foi encontrado dentro de uma caixa no
rio Paramopama - rio que passa pela parte baixa da cidade - a partir daí, deu inicio a devoção
e tradicional festa da Penitência do Senhor dos Passos.
11
Em arquitetura o claustro é a parte anexa da igreja que consiste tipicamente em quatro corredores a formar um
quadrilátero, com um jardim no meio.
12
Trajeto seguido por Jesus Cristo carregando a cruz que vai do Pretório até o Calvário.
13
Elemento em espiral muito usado no período barroco.
14
Imagen sacra que se destina a ser levada em procissão e que é vestida com trajes de tecido.
8
No “Annuario Cristhovense”, o autor Serafim Sant’iago é citado por Thiago
Fragata em seu blog (2008), descrevendo o momento da inusitada descoberta da imagem. Em
seu manuscrito ele relata que,
Um homem praiano (diziam elles) cujo nome não me lembro encontrou certo dia,
rolando pela costa que fica ao sul da cidade, um grande caixão resultado talvez de
algum naufrágio de alguma sumaca; elle cuidadosamente rolou-o para a terra, abrioo e surprehendido ficou verificando a existência de uma perfeitíssima imagem de
roca em tamanho natural. O homem de educação religiosa muito honesto, tomou
uma canoa e nella acomodou o referido caixão, e com outros companheiros
transportou para a velha cidade o feliz e milagroso achado. Foi esta sagrada imagem
ali entregue aos frades jesuítas carmelitas que collocou em uma capelinha da Egreja
– Ordem 3a. do Carmo, e depois de longos annos, mudada para o throno do Altarmór da mesma Egreja. Como sabem, sempre foi no segundo domingo da quaresma,
o dia aprasado para efetuar a tradicional Procissão dos Passos na antiga cidade. 15
Com o passar dos anos, a Festa de Nosso Senhor dos Passos tem atraído pessoas à
cidade, transformando a paisagem local. Segundo o IBGE,
16
São Cristóvão que possui
74.189, no fim de semana da procissão recebe em média 200.000 pessoas, entre fiéis, devotos,
penitentes, turistas e curiosos.
3.
Resultados da Pesquisa de Campo 17
Com o intuito de entender a dinâmica da Festa de Nosso Senhor dos Passos,
durante o ano de 2009 foi desenvolvido um trabalho de pesquisa auxiliado pelo PIBIC com
alguns participantes (ente população local e turista), durante os dois dias da festa. Na visita in
loco foi procedida observação direta, registro fotográfico, entrevistas com alguns moradores,
turistas e aplicação de questionários semi-estruturados, com perguntas abertas e fechadas. O
método de análise utilizado foi qualitativo e quantitativo, extraindo ao máximo as respostas
das pessoas abordadas. Foram 100 questionários, 50 para os moradores e 50 para os
visitantes. A faixa etária escolhida foi dos 10 aos 60 anos, de qualquer condição
socioeconômica e nível de escolaridade.
15
16
Manuscrito pertencente ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Essas análises fazem parte de uma pesquisa mais abrangente que se encontra na monografia de conclusão de
curso de Turismo com o apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC. ARAGÃO,
Ivan Rêgo. Cultura, Identidade e Memória: uma análise da relação do turismo com o patrimônio arquitetônico
na cidade histórica de São Cristóvão/SE. Aracaju: Faculdade de Sergipe, FaSe, 2009.
17
9
Com o objetivo de perceber quais os aspectos da cultura e da memória
sãocristovense fortalece o sentido de pertença do morador, foi perguntado ao mesmo qual o
símbolo que mais representa a cidade. As respostas dadas foram as seguintes:
Gráfico 1
Passado histórico
Imagens talhadas
Arquitetura barroca
Primeira capital de Sergipe
Cristo Redentor
As igrejas
O Senhor dos Passos
20%
30%
10%
10%
10%
10%
10%
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Objetivando também mostrar que a festa religiosa é fator de atração para o local,
foi perguntado aos turistas através dos questionários, qual a principal motivação para
conhecer São Cristóvão. Dentro das quatro opções evidenciadas no questionário (lazer,
cultural, cultural, acadêmico/científica), as respostas foram as seguintes:
Gráfico 2
Lazer
Cultural
Curiosidade
12%
21%
18%
49%
Pesquisa de Campo, 2009.
Acadêmico/Científico
10
Como forma de entender o que mais marca a festa para a comunidade flutuante,
foi questionado qual a imagem que vai ficar da cidade de São Cristóvão. Os argumentos
foram os seguintes:
Gráfico 3
Idéa de continuidade / preservação histórica
Barroco
Que ainda falta para ser explorada turísticamente
Procissão do Senhor dos Passos
Sino das igrejas
Devoção popular
9%
9%
18%
18%
28%
18%
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Nos três gráficos relacionados ao tema da pesquisa, percebe-se que a vocação da
cidade de São Cristóvão está relacionada ao turismo cultural e as suas vertentes. Tais como o
turismo religioso, histórico-patrimonial, dentre outros. Visto que no gráfico 2, ao serem
questionados sobre a motivação da ida a cidade o que mais apareceu nas respostas dos
visitantes foi a de cunho “cultural” (49%), seguida da opção “lazer” (21%), “curiosidade”
(18%) e “acadêmico/científica (12%). Nos gráficos com perguntas relacionadas sobre o
símbolo que representa a cidade e imagem que vai ficar na memória do visitante (1 e 3), a
maioria respondeu sobre a festa e/ou a escultura de roca. Para 30% dos moradores consultados
na pesquisa, o símbolo que mais representa São Cristóvão é o Senhor dos Passos. De acordo
com o turista, 28% dos que preencheram o questionário diz que a imagem que vai ficar da
cidade é da Procissão de Nosso Senhor dos Passos.
18
Nessa contexto, Oliveira (2004, p. 65)
afirma que “o símbolo é, em si, uma construção mitológica, e não pode haver turismo
religioso sem a percepção dos elementos simbólicos que remetem ao divino”.
18
Parte dos entrevistados tinha vindo à cidade exclusivamente para a Festa de Nosso Senhor dos Passos.
11
Nota-se que os ícones da cidade de São Cristóvão, em sua maioria, estão
diretamente ligados à arte colonial do Brasil. Atualmente, estes símbolos do barroco atraem
pessoas para conhecer as formas empregadas pelos autores da época em que os monumentos
foram construídos. De acordo com Matos (2009, p. 6), o símbolo “[...] aplica-se tanto às
formas concretas mediante as quais uma religião se explicita como ao próprio modo de sentir
à experiência religiosa” [...]. Nesse sentido, o turismo também auxilia a perpetuar a memória
dos artistas e artífices. Por fim, percebe-se pelo resultado dos gráficos 1 e 3 a grande
influencia que o evento e a imagem do Senhor dos Passos tem nas pessoas. É notória a
influencia da religiosidade popular no período da festa. A procissão se torna ainda mais
realística e expressiva por parte da cena teatral dos últimos passos da Paixão de Jesus
representado pela sua imagem articulada e vestida. Durante um fim de semana, a cidade de
São Cristóvão torna-se um cenário para relembrar os últimos dias de Cristo mudando o
cotidiano da população local, e trazendo visitantes de várias partes do Estado e de outras
regiões do Brasil.
4.
Considerações Finais
Conclui-se com os resultados da pesquisa que a festa de Nosso Senhor dos Passos
possui uma tripla função: a de reafirmar a fé cristã quer seja do morador ou do visitante, bem
como, perpetuar a memória religiosa das pessoas que participam da comemoração. Ela inda
pode ser vista sob a ótica de atrativo turístico, visto que, anualmente, pessoas saem do seu
cotidiano habitual e vão para a cidade de São Cristóvão e se envolvem com a festa e tudo que
ela traz como conseqüência para as suas vidas pessoais. Os indivíduos reconhecem o centro
histórico da cidade e a festa como parte da sua cultura e, através dos atos de devoção, se
reconhecem enquanto pessoas que partilham o mesmo ambiente. Nesse sentido, o conjunto de
bens materiais e imateriais que estão envolvidos na festa são fatores de identidade
sociocultural dos moradores de São Cristóvão e também dos visitantes. Através desse
patrimônio, o lugar atrai indivíduos para conhecer as construções seculares, a festa religiosa e
a procissão, estabelecendo um vínculo entre passado e presente, perpetuando os ritos e
manifestações de fé, herança do período colonial do Brasil.
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12
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