1 Identidade e Turismo: religiosidade na festa de Nosso Senhor dos Passos em São Cristóvão/SE 1 Lucía Del Campillo 2 Universidade de Caxias do Sul - UCS Ivan Rêgo Aragão 3 Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC Resumo Esse presente estudo tem por finalidade abordar aspectos do segmento do turismo culturalreligioso em São Cristóvão, cidade Sergipana que reivindica junto a UNESCO, o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, analisando o seu espaço urbano, herança do Brasil Colônia e dando destaque à procissão de Nosso Senhor dos Passos. A metodologia utilizada foi pesquisa bibliográfica e de campo com aplicação de questionário semiestruturado, contendo questões fechadas e abertas, direcionadas ao morador e visitante. O processo da análise dos gráficos foi o qualitativo e quantitativo. A pesquisa, também procura estabelecer uma relação entre patrimônio, religiosidade e memória, através dos resultados dos questionários aplicados durante a festa no ano de 2009. Por fim, o trabalho mostra que essa comemoração é fator de atração turística para o local e de identidade sociocultural. Palavras-chave: Turismo; São Cristóvão; Nosso Senhor dos Passos; Patrimônio Cultural da Humanidade. 1 Trabalho apresentado ao GT “Turismo e Cultura” do VI Seminário de Pesquisa em Turismo do MERCOSUL – Caxias do Sul, 09 e 10 de julho de 2010. 2 Mestranda em Turismo pela Universidade de Caxias do Sul – UCS; Bacharel em Turismo graduada pela Universidade de Caxias do Sul – UCS. Email: [email protected] 3 Mestrando em Cultura & Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC; Bacharel em Turismo, graduado pela Faculdade de Sergipe - FaSe; Técnico em Conservação de bens culturais móveis pela Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP. Email: [email protected] 2 1. Turismo Cultural-Religioso A partir da última década a atividade do turismo tem sido amplamente divulgada e propagada ao redor do planeta. Nessa perspectiva, a atividade foi classificada pelo Ministério do Turismo de acordo com a motivação e o perfil dos visitantes. Concomitante a esse fato, o MTur tem procurado também incentivar a segmentação turística 4 como forma de auxiliar o setor, objetivando o planejamento, a gestão e o mercado. Segundo Andrade (1977) apud Novaes (2000, p. 129), Depois do turismo de férias e de negócios, o turismo que mais cresce é o religioso, porque, além dos aspectos místicos e dogmáticos, as religiões assumem o papel de agentes culturais pelas manifestações de valores antigos, de intervenção na sociedade atual e de preservação no que diz respeito ao futuro dos indivíduos e das sociedades. Ao reconhecer os efeitos benéficos do turismo, a comunidade pode e deve traçar metas para melhorar a atividade, procurando minimizar os impactos nocivos a população local. De La Torre (1992, p. 19), avalia o turismo como, Um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupo de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura e saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas interrelações de importância social, econômica e cultural. Dentro dessa divisão estabelecida pelo MTur, à motivação cultural-religiosa é uma das que mais desenvolve um fluxo de indivíduos através das regiões, seja dentro ou fora do país de origem. Ainda segundo o Ministério do Turismo (2005, p. 10), “o turismo cultural compreende as atividades turísticas relacionadas à vivencia do conjunto dos elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Nesse sentido, o turismo religioso como ramificação do turismo cultural, se propõe a estimular o deslocamento de pessoas aos locais de culto e peregrinação, onde as mesmas procuram o preenchimento espiritual, a 4 A segmentação turística divide o público alvo em agrupamentos homogêneos, com uma ou mais referencias mercadologicamente relevantes. Ver: Vaz (2001). 3 renovação da fé ou um simples conforto. Também conforme o MTur (2005, p. 12), o turismo religioso “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas”. Oliveira pontua outros aspectos dessa temática, onde para a autora (2004, p. 28), “o turismo religioso também reafirma que a fé, como principal motivação desse tipo de viagem, é capaz de construir e dinamizar a estética dos espaços, tornado-os materialmente religiosos”. Nesse sentido, entendendo que o culto e a preservação da memória local, são fundamentais para reafirmar a identidade sociocultural da cidade. Manter a tradição viva das procissões, através dos bens imateriais e materiais do lugar, é também fortalecer o sentido de pertencimento dos moradores, garantido a população residente e flutuante o acesso aos ritos religioso. Souza (2003) informa que, [...] a identidade cultural é vista como uma forma de identidade coletiva característica de um grupo social que partilha as mesmas atitudes e, está apoiada num passado com um ideal coletivo projetado. Ela se fixa como uma construção social estabelecida e faz os indivíduos se sentirem mais próximos e semelhantes. 5 Através da perpetuação dos signos religiosos que atravessam gerações, é possível a determinada sociedade, estabelecer um vínculo entre o passado e o presente. Trazendo para o momento atual fatos, ritos e celebrações que construíram a sociedade local e nortearam o desenvolvimento das suas ações. Nesse sentido, as festas, sejam elas de caráter sagrado ou profano, cumprem seu papel de reafirmar a memória coletiva através das comemorações em períodos pré-determinados. Para Polack (1992, p. 5) [...] a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. Essa idéia também é corroborada por Rodrigues (2005), quando a autora explica que a preservação da memória individual e coletiva, possibilita aos indivíduos, estabelecer um elo entre o passado e o presente essencial para manter o equilíbrio emocional. 2. 5 A Cidade de São Cristóvão e a Festa de Nosso Senhor dos Passos Disponível em: <www.sbec.org.br/evt2003/trab19.doc>. Acesso em: 27 de nov. de 2007. 4 Fundada em 1590, São Cristóvão no Estado de Sergipe é considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil, ficando atrás de Salvador, Rio de Janeiro e João Pessoa (antiga Filipéia). O núcleo urbano nasceu no período colonial brasileiro e tem influência na sua trama das cidades ibéricas, com a localidade construída em dois níveis: cidade alta e baixa. São Cristóvão tinha no início da sua formação como os espaços principais, o Largo da Igreja Matriz e a Câmara (poder religioso e político) e o porto. Galvão Júnior (2007), 6 discute os espaços de poder na formação das cidades na colonização de Portugal e Espanha comentando que, [...] a organização dos estados ibéricos tinha uma característica determinante para a colonização: o poder laico dos reis imbricava em suas cortes o poder divino. A religião provinha o poder real de valores imateriais, como forma de sustentação e auto-preservação. Por outro lado, os valores materiais eram distribuídos sobre bases milenares de ocupação territorial, em suas marchas, contramarchas de ocupações, guerras, domínios, etc. Conforme Telles (2007), 7 a primeira irmandade religiosa – Carmelita – chega ao local em 1608. Os franciscanos só foram se instalar na cidade após a desocupação dos holandeses. A fixação dessas Ordens em Sergipe deixou um legado artístico e arquitetônico, fundamentais na formação cultural do Estado. Para o autor citado, a chegada a São Cristóvão das Ordens Religiosas vai definir os elementos formadores de sua malha urbana. Com a edificação das igrejas conventuais, criam-se espaços públicos, diretamente ligados a estas construções. Locais de convivência dos habitantes da cidade. Esses espaços de socialização vão receber uma grande influência da religiosidade, festas e procissões vindas de Portugal e Espanha. Ferreira (2009) faz uma análise desses acontecimentos, comentando que “as festas religiosas são uma das mais antigas manifestações da vida social no Brasil. Elas diferem umas das outras conforme a época e a sociedade, mas, invariavelmente, representam os valores, reforçam as estruturas sociais e ajudam a construir a identidade de um grupo [...]”. 8 A maioria das cidades que nasceram no período colonial do Brasil traz para os dias atuais, ambientes de manifestação pública de religiosidade, fé e devoção católica. Segundo Oliveira (2004, p. 1), na cidade espanhola de Sevilha, é possível 6 Ver CD ROM com o dossiê de São Cristóvão com a proposição de inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na lista do patrimônio mundial. 7 No dossiê enviado à UNESCO, foram anexados artigos de Aglaé D’Ávila Fontes, Luis Fernando Ribeiro Soutelo, Maria Thétis Nunes, José Lima Galvão Junior, Augusto Silva Telles, José Thiago da Silva Filho e Edinaldo Batista dos Santos. 8 Disponível em: < www.revistamuseu.com.br/artigos/art_.asp?id=20162>. Acesso em: 29 de maio de 2009. 5 vislumbrar “uma das mais impressionantes demonstrações de sobrevivência no mundo de hoje de rituais herdados da época barroca, onde 58 procissões oficiais percorrem as ruas da cidade, do Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição” [...]. Seguindo o calendário litúrgico anual no segundo fim de semana da Quaresma, a cidade de São Cristóvão relembra a chegada de Jesus a Jerusalém, passando pela paixão, crucificação, morte e ressurreição. São dois dias de celebração católica, atraindo pessoas em romaria 9 de vários lugares do Estado. Há mais de cem anos, os últimos momentos da vida de cristo são rememorados na cidade através da Festa de Nosso Senhor dos Passos, onde de acordo com Fontes (2007), esta é a principal festa religiosa de São Cristóvão. Como informam Santos e Nunes (2005, p. 98), a procissão ao Senhor dos Passos, “ainda no século XIX tornou-se uma das principais manifestações religiosas de Sergipe, conseguindo aglomerar fiéis devotos de diferentes segmentos sociais e de várias partes da antiga província”. Por todo o circuito do trajeto é comum vislumbrar manifestações de devoção e veneração, com pessoas pagando alguma promessa ou ajoelhadas sobre o calçamento. O grande momento é a Procissão do Encontro, que leva a imagem de Jesus e de Nossa Senhora das Dores pelas ruas do centro histórico. Na concepção de Almeida (2002, p. 27) apud Santos e Nunes (2005, p. 101), [...] “a procissão é o começo e o fim de tudo, é o verdadeiro ponto de festejos ao santo. É o momento da festa em que os fiéis estabelecem o diálogo com o santo padroeiro”. No trajeto da citada procissão existe um percurso programado para as imagens se encontrarem na Praça São Francisco, sendo esse o momento clímax na trajetória das imagens. O espaço citado e os monumentos arquitetônicos que o circundam, reivindicam junto a UNESCO a chancela de se tornarem patrimônio cultural da humanidade. O ritual católico inicia a partir da sexta á noite, onde os fiéis rezam o Ofício da Paixão de Jesus Cristo, seguido de uma missa. A primeira procissão é no sábado à noite com cânticos ligados aos passos da Paixão. São paradas realizadas sempre em pontos estabelecidos e mantidos segundo a tradição da festa. Nestes locais, são erguidos pequenos altares representando o passo a ser entoado pelos cantadores sempre em latim. Neste dia, o cortejo sai da Igreja Senhor dos Passos levando a imagem de Jesus dentro de uma caixa encoberta por um pano roxo, onde ficará até o domingo à tarde para a Procissão do Encontro. As pessoas seguem em silêncio, e algumas delas, vestindo túnicas pretas, roxas e brancas, com velas nas mãos. Como observou Pereira (2009), “muitos seguem descalços, ajoelhados ou a pé, levam 9 Peregrinação religiosa feita por um grupo de pessoas a uma igrejaou local considerado santo, seja para pagar promessas, agradecer ou pedirgraças, ou simplesmente pordevoção. 6 os ex-votos, retratos, fitas, bilhetes ou cabelos para colocar na Igreja, ao final deixam também as indumentárias, que são recolhidas e doadas aos pobres”. A Procissão do Encontro no domingo é um momento de grande emoção com manifestações de fervor religioso, onde se podem ver pessoas agradecendo pelas graças alcançadas ou pedindo a intercessão de Jesus ou Maria para alcançar algum benefício. Pereira (2009) informa que a Procissão do Encontro é, [...] realizada na tarde do domingo tem dois cortejos: Um cortejo acompanha o Senhor dos Passos da Igreja Matriz em direção a Praça São Francisco onde ocorre o encontro, são cantados três passos neste percurso. Outro cortejo sai da igreja do Carmo acompanhando a imagem de Nossa Senhora em direção à mesma praça. Um sermão é realizado no momento do encontro das imagens, logo após ouve-se ecoar o triste canto da Verônica: "O vos ommines qui transites per viam, attendite et videte se est dolor similis dolor meus", e então seguem as duas imagens, conduzidas á Igreja do Carmo em cujo trajeto são cantados os passos finais. Uma missa por fim é celebrada na Praça do Carmo com as duas imagens. Para Giovaninni Júnior (2001, p.163), as procissões relacionadas à Semana Santa, significam “a representação ordenada e harmônica de uma sociedade no encontro dos seus valores e sua identidade mediante a reverência absoluta à tradição e ao transcendente”. Ainda que, estejam embutidos, os valores não são apenas relacionados à religiosidade e devoção católica, mas também, aos valores culturais e artísticos. Nesse contexto, Moura (2005) faz uma análise dos festejos da Paixão de Cristo mostrando que existe uma celebração em três níveis sociais. A primeira de cunho erudito relacionada aos ritos herdados da idade média, com missas faladas em latim, dentre outros. A segunda de caráter popular ligada às encenações da paixão, tal como a procissão do encontro etc. E a terceira de caráter folclórico, onde é possível perceber aspectos profanos como carnaval e festa do Divino. Foi a partir dessa celebração que se criou na cidade o Museu dos Ex-votos. 10 Segundo Santos e Nunes (2005, p. 106), a origem os ex-votos “prende-se a cultos e ritos de antigas formas de agradecimento ligadas aos cultos de veneração das forças da natureza, em que se buscava assegurar a fertilidade do solo”. Posteriormente a Igreja Católica vai absorver os ex-votos como incentivo a “devoção, a crença nos milagres e os agradecimentos públicos, e o ex-voto vai ser um testemunho individual do encontro com o sagrado e objeto que materializava a confissão direta”. (SANTOS e NUNES, 2005, p. 107). 10 Graças alcançadas pela interseção de Jesus, Maria ou outro santo. 7 Numa sala anexa, onde se localiza o claustro 11 da Igreja Senhor dos Passos durante os dois dias de celebração, os devotos trazem objetos criando o próprio acervo do museu. Acervo este, composto exclusivamente de objetos referentes à graças alcançadas em pagamento de promessas. É grande o fluxo de pessoas que visitam este museu na festa de Jesus rememorando a Via Crucis. 12 Algumas peças são confeccionadas em madeira, gesso e parafina, representando partes do corpo humano. Compõe também o acervo do museu, fotografias, mechas de cabelo, dentre outros. Segundo Santos (2004) apud Santos e Nunes (2005), os ex-votos podem ser de característica zoomórfica, antropomórfica, agrícolas, de valor, específicos, médicos e de significado imaterial. Com a devoção ao Senhor dos Passos, a antiga Capela da Ordem Terceira do Carmo ou Carmo Pequena, passou a ser conhecida como a Igreja Senhor do Passos. Conforme Carvalho (1989), a antiga capela foi construída no século XVIII, possuindo o frontão em estilo barroco. Logo acima da portada, “coroamento” com concha e duas volutas 13 em pedra calcária e a imagem de Nossa Senhora do Carmo com o mesmo material. O sino encontra-se à direita da fachada, emoldurado por uma janela. A capela-mor possui teto em medalhão policromado em forma de gamela, com a pintura de Nossa Senhora do Carmo. O altar-mor é dourado e os quatro altares e retábulos laterais em estilo rococó sem policromia, com as esculturas pintadas do “Senhor da Pedra Fria”, “Senhor da Coluna”, Santa Tereza e a imagem de vestir de Nossa Senhora do Carmo. Também no acervo da igreja encontra-se a imagem de roca 14 articulável, em tamanho natural representando Jesus, com olhos de vidro, indumentária e peruca. De acordo com Quites (1997, p.1), “as Imagens de Vestir e as Imagens de Roca também possuem articulações, porém ficam escondidas sob as vestes. Essas duas categorias geralmente possuem perucas de cabelos naturais e vestes feitas em tecido”. São na sua maioria imagens feitas para serem utilizadas nas procissões e servem sempre para tornar a cena mais realística e dramatizada. Este Bem Cultural foi encontrado dentro de uma caixa no rio Paramopama - rio que passa pela parte baixa da cidade - a partir daí, deu inicio a devoção e tradicional festa da Penitência do Senhor dos Passos. 11 Em arquitetura o claustro é a parte anexa da igreja que consiste tipicamente em quatro corredores a formar um quadrilátero, com um jardim no meio. 12 Trajeto seguido por Jesus Cristo carregando a cruz que vai do Pretório até o Calvário. 13 Elemento em espiral muito usado no período barroco. 14 Imagen sacra que se destina a ser levada em procissão e que é vestida com trajes de tecido. 8 No “Annuario Cristhovense”, o autor Serafim Sant’iago é citado por Thiago Fragata em seu blog (2008), descrevendo o momento da inusitada descoberta da imagem. Em seu manuscrito ele relata que, Um homem praiano (diziam elles) cujo nome não me lembro encontrou certo dia, rolando pela costa que fica ao sul da cidade, um grande caixão resultado talvez de algum naufrágio de alguma sumaca; elle cuidadosamente rolou-o para a terra, abrioo e surprehendido ficou verificando a existência de uma perfeitíssima imagem de roca em tamanho natural. O homem de educação religiosa muito honesto, tomou uma canoa e nella acomodou o referido caixão, e com outros companheiros transportou para a velha cidade o feliz e milagroso achado. Foi esta sagrada imagem ali entregue aos frades jesuítas carmelitas que collocou em uma capelinha da Egreja – Ordem 3a. do Carmo, e depois de longos annos, mudada para o throno do Altarmór da mesma Egreja. Como sabem, sempre foi no segundo domingo da quaresma, o dia aprasado para efetuar a tradicional Procissão dos Passos na antiga cidade. 15 Com o passar dos anos, a Festa de Nosso Senhor dos Passos tem atraído pessoas à cidade, transformando a paisagem local. Segundo o IBGE, 16 São Cristóvão que possui 74.189, no fim de semana da procissão recebe em média 200.000 pessoas, entre fiéis, devotos, penitentes, turistas e curiosos. 3. Resultados da Pesquisa de Campo 17 Com o intuito de entender a dinâmica da Festa de Nosso Senhor dos Passos, durante o ano de 2009 foi desenvolvido um trabalho de pesquisa auxiliado pelo PIBIC com alguns participantes (ente população local e turista), durante os dois dias da festa. Na visita in loco foi procedida observação direta, registro fotográfico, entrevistas com alguns moradores, turistas e aplicação de questionários semi-estruturados, com perguntas abertas e fechadas. O método de análise utilizado foi qualitativo e quantitativo, extraindo ao máximo as respostas das pessoas abordadas. Foram 100 questionários, 50 para os moradores e 50 para os visitantes. A faixa etária escolhida foi dos 10 aos 60 anos, de qualquer condição socioeconômica e nível de escolaridade. 15 16 Manuscrito pertencente ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Essas análises fazem parte de uma pesquisa mais abrangente que se encontra na monografia de conclusão de curso de Turismo com o apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC. ARAGÃO, Ivan Rêgo. Cultura, Identidade e Memória: uma análise da relação do turismo com o patrimônio arquitetônico na cidade histórica de São Cristóvão/SE. Aracaju: Faculdade de Sergipe, FaSe, 2009. 17 9 Com o objetivo de perceber quais os aspectos da cultura e da memória sãocristovense fortalece o sentido de pertença do morador, foi perguntado ao mesmo qual o símbolo que mais representa a cidade. As respostas dadas foram as seguintes: Gráfico 1 Passado histórico Imagens talhadas Arquitetura barroca Primeira capital de Sergipe Cristo Redentor As igrejas O Senhor dos Passos 20% 30% 10% 10% 10% 10% 10% Fonte: Pesquisa de campo, 2009. Objetivando também mostrar que a festa religiosa é fator de atração para o local, foi perguntado aos turistas através dos questionários, qual a principal motivação para conhecer São Cristóvão. Dentro das quatro opções evidenciadas no questionário (lazer, cultural, cultural, acadêmico/científica), as respostas foram as seguintes: Gráfico 2 Lazer Cultural Curiosidade 12% 21% 18% 49% Pesquisa de Campo, 2009. Acadêmico/Científico 10 Como forma de entender o que mais marca a festa para a comunidade flutuante, foi questionado qual a imagem que vai ficar da cidade de São Cristóvão. Os argumentos foram os seguintes: Gráfico 3 Idéa de continuidade / preservação histórica Barroco Que ainda falta para ser explorada turísticamente Procissão do Senhor dos Passos Sino das igrejas Devoção popular 9% 9% 18% 18% 28% 18% Fonte: Pesquisa de campo, 2009. Nos três gráficos relacionados ao tema da pesquisa, percebe-se que a vocação da cidade de São Cristóvão está relacionada ao turismo cultural e as suas vertentes. Tais como o turismo religioso, histórico-patrimonial, dentre outros. Visto que no gráfico 2, ao serem questionados sobre a motivação da ida a cidade o que mais apareceu nas respostas dos visitantes foi a de cunho “cultural” (49%), seguida da opção “lazer” (21%), “curiosidade” (18%) e “acadêmico/científica (12%). Nos gráficos com perguntas relacionadas sobre o símbolo que representa a cidade e imagem que vai ficar na memória do visitante (1 e 3), a maioria respondeu sobre a festa e/ou a escultura de roca. Para 30% dos moradores consultados na pesquisa, o símbolo que mais representa São Cristóvão é o Senhor dos Passos. De acordo com o turista, 28% dos que preencheram o questionário diz que a imagem que vai ficar da cidade é da Procissão de Nosso Senhor dos Passos. 18 Nessa contexto, Oliveira (2004, p. 65) afirma que “o símbolo é, em si, uma construção mitológica, e não pode haver turismo religioso sem a percepção dos elementos simbólicos que remetem ao divino”. 18 Parte dos entrevistados tinha vindo à cidade exclusivamente para a Festa de Nosso Senhor dos Passos. 11 Nota-se que os ícones da cidade de São Cristóvão, em sua maioria, estão diretamente ligados à arte colonial do Brasil. Atualmente, estes símbolos do barroco atraem pessoas para conhecer as formas empregadas pelos autores da época em que os monumentos foram construídos. De acordo com Matos (2009, p. 6), o símbolo “[...] aplica-se tanto às formas concretas mediante as quais uma religião se explicita como ao próprio modo de sentir à experiência religiosa” [...]. Nesse sentido, o turismo também auxilia a perpetuar a memória dos artistas e artífices. Por fim, percebe-se pelo resultado dos gráficos 1 e 3 a grande influencia que o evento e a imagem do Senhor dos Passos tem nas pessoas. É notória a influencia da religiosidade popular no período da festa. A procissão se torna ainda mais realística e expressiva por parte da cena teatral dos últimos passos da Paixão de Jesus representado pela sua imagem articulada e vestida. Durante um fim de semana, a cidade de São Cristóvão torna-se um cenário para relembrar os últimos dias de Cristo mudando o cotidiano da população local, e trazendo visitantes de várias partes do Estado e de outras regiões do Brasil. 4. Considerações Finais Conclui-se com os resultados da pesquisa que a festa de Nosso Senhor dos Passos possui uma tripla função: a de reafirmar a fé cristã quer seja do morador ou do visitante, bem como, perpetuar a memória religiosa das pessoas que participam da comemoração. Ela inda pode ser vista sob a ótica de atrativo turístico, visto que, anualmente, pessoas saem do seu cotidiano habitual e vão para a cidade de São Cristóvão e se envolvem com a festa e tudo que ela traz como conseqüência para as suas vidas pessoais. Os indivíduos reconhecem o centro histórico da cidade e a festa como parte da sua cultura e, através dos atos de devoção, se reconhecem enquanto pessoas que partilham o mesmo ambiente. Nesse sentido, o conjunto de bens materiais e imateriais que estão envolvidos na festa são fatores de identidade sociocultural dos moradores de São Cristóvão e também dos visitantes. Através desse patrimônio, o lugar atrai indivíduos para conhecer as construções seculares, a festa religiosa e a procissão, estabelecendo um vínculo entre passado e presente, perpetuando os ritos e manifestações de fé, herança do período colonial do Brasil. Referências Bibliográficas 12 ARAGÃO, I. R. Cultura, Identidade e Memória: uma análise da relação do turismo com o patrimônio arquitetônico na cidade histórica de São Cristóvão/SE. Aracaju: Faculdade de Sergipe, FaSe, 2009. BRASIL, MTur. Diretrizes para o desenvolvimento do turismo cultural. Brasília, DF, 2005. ______________. Segmentação turística. Brasília, DF, 2005. CARVALHO, E. M. S. F. São Cristóvão e seus monumentos: 400 anos de história. São Cristóvão: Secretaria de Estadual de Educação, 1989. DE LA TORRE, O. P. 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