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“O grupo a que pertence a pitavastatina é
um grupo com menos interacções, o que
torna mais seguro o seu uso no doente
polimedicado”, referiu o especialista. Outra vantagem teórica da pitavastatina é a
sua sua grande afinidade para a hidroximetilglutaril-CoA, e por isso requer doses
mais baixas para atingir o efeito terapêutico, o que se repercute na segurança do medicamento.
O que dizem os estudos
O orador apresentou quadros comparativos
do comportamento das várias estatinas disponíveis para concluir que “neste momento
já não há desculpas para não sabermos o
que devemos esperar de uma determinada
terapêutica”, até porque há grelhas e recomendações consoante o risco apresentado
pelo doente. Como salientou, um dos aspectos interessantes da pitavastatina prende-se
com o efeito positivo na apolipoproteína
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A1, conseguindo assim aumentar de
forma relevante o colesterol HDL. O Estudo
CIRCLE, apesar de envolver um número pequeno de doentes (n=740) e de ser retrospectivo, tem a vantagem de ser um estudo
do “mundo real”, em que se comparam os
efeitos clínicos de diversas estatinas em monoterapia em doentes após intervenção coronária. Neste estudo a pitavastatina mostrou vantagens no aumento do colesterol
HDL e na sobrevida livre de eventos.
Já o Estudo LIVES, que envolveu 20 mil doentes, revela uma incidência baixa de efeitos
adversos com a pitavastatina, sendo as
reacções severas praticamente “residuais”
com este fármaco. Outro dado relevante extraído deste estudo está relacionado com o
efeito, aquando da troca de estatina. Quando
o doente muda para a pitavastatina verifica-se
um aumento do colesterol HDL, com efeito
prolongado no tempo, principalmente em
doentes com C-HDL<40mg/dl.
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O Simpósio Jaba Recordati foi moderado pelo Dr. Luís Semedo, Presidente das Jornadas.
O Estudo JUPITER, por seu turno, provou a
utilidade dos novos marcadores, nomeadamente da PCR de alta sensibilidade, na
estratificação dos doentes. “Este estudo
demonstrou que doentes com colesterol
LDL inferior a 130 mg/l e PCR aumentadas,
desde que cumprissem o objectivo da redução substancial do colesterol LDL e a
normalização da PCR conseguiam o facto
notável de uma redução muito significativa dos eventos cardiovasculares”, expôs
o clínico. Mas este efeito positivo foi conseguido com doses elevadas da rosuvastatina, o que teve um efeito negativo no
aumento de novos diabéticos. Aliás, estes
efeitos menos positivos das estatinas usadas em altas doses têm sido evidenciados
em vários estudos e metanálises. De qualquer modo, estas evidências não anulam
os benefícios que se podem obter com
uma redução acentuada do C-LDL em
doentes de maior risco cardiovascular,
como são os diabéticos.
Outro dado interessante no Estudo LIVES diz respeito aos doentes com reserva renal diminuída, em que a pitavastatina teve um efeito neutro, ou até
ligeiramente favorável. Por tudo isto, o
Dr. Marco Costa concluiu a sua intervenção salientando que a pitavastatina
deve ter lugar na nossa prática clínica,
de maior exigência no que diz respeito
ao controlo do colesterol, pela redução
do colesterol LDL, mas também pelo
aumento do colesterol HDL. A pitavastatina tem menos interacções medicamentosas, pela sua via de metabolização favorável, e por isso os idosos e
doentes polimedicados são exemplos
de doentes que podem beneficiar da
toma deste fármaco.
11 a 24 de Novembro.11
Ref.242-2011
Potencialidades
da pitavastatina
na dislipidemia
Jornadas de Cardiologia da Zona Centro
Potencialidades da pitavastatina
na dislipidemia
Organizadas pelo Serviço de Cardiologia do Hospital Distrital da Figueira
da Foz, as 19 as Jornadas de Cardiologia dos Hospitais Distritais da Zona
Centro realizaram-se nos passados dias 28 e 29 de Outubro, no Casino
da Figueira da Foz. As estatinas estiveram em análise, em particular a
pitavastatina, cujas potencialidades terapêuticas foram evidenciadas
pelo Dr. Marco Costa.
Texto Maria Fernandes Teixeira Fotos Hugo Vieira da Silva
[A pitavastatina] tem menos
interacções medicamentosas,
pela sua via de metabolização
favorável, e por isso
os idosos e doentes
polimedicados são exemplos
de doentes que podem
beneficiar da toma
deste fármaco
“A dislipidemia é responsável por mais de metade do risco global de enfarte do miocárdio”, recordou o Dr. Marco Costa.
O Simpósio promovido pela Jaba Recordati teve lugar dia 28 e contou com o Dr.
Marco Costa, cardiologista de intervenção
do Centro Hospitalar de Coimbra/Hospital
dos Covões, como orador. O moderador da
sessão foi o Presidente das Jornadas, Dr.
Luís Semedo, que fez a apresentação do
prelector: “O Dr. Marco Costa é um brilhante hemodinamista de Coimbra e um
grande amigo desta cidade [a Figueira da
Foz], sendo o responsável por muitas vidas
salvas, dos nossos doentes que enviamos
ao cuidado da sua equipa”, afirmou.
Numa prelecção bem-humorada, mas
nem por isso menos científica, o Dr.
Marco Costa apresentou as mais recentes
evidências sobre a pitavastatina. O prelector começou por desmistificar a ideia
vigente em relação ao trabalho dos cardiologistas de intervenção que, como salientou, “não vivem num mundo à parte”
e também não são apenas “canalizadores,
desentupidores de canos”, leia-se, artérias. Como os de mais colegas, os cardiologistas de intervenção têm, na sua prática clínica quotidiana, de estar atentos
aos “tubarões” que por vezes surgem. E,
para o especialista, “a dislipidemia é um
desses tubarões, no que diz respeito às
doenças cardiovasculares”. Esta ameaça
é tanto mais importante quanto é do conhecimento da classe médica que “50
por cento das causas de morte têm a ver
com as doenças cardio e cerebrovasculares”. Não obstante o seu importante contributo para a mortalidade, estas patologias
não são, de acordo com uma extrapolação a
partir de dados norte-americanos, as que
mais contribuem para os gastos em Saúde,
assinalou o orador. No que respeita às cifras nacionais disponíveis para esta área,
do Alto Comissariado da Saúde/Coordenação Nacional para as Doenças Cardiovasculares e referentes ao ano de 2009, as
perspectivas são animadoras. “Tem havido um crescimento grande, ao nível nacional, desta actividade, que todos os
anos tem subido. É importante termos
a noção que, por exemplo, mais de 100
mil doentes têm, neste momento, um
stent coronário. Isto significa que só no
ano passado os gastos terão excedido os
50 milhões de euros. Estes são números
que nos devem impressionar a todos”,
salientou o médico.
que os custos de uma estratégia de prevenção secundária, que é obrigatória”.
Como salientou, além do elevado custo de
uma intervenção hemodinâmica, que
ronda os 4 mil euros no centro onde
exerce, tanto os custos da terapêutica farmacológica como o risco de morte aumenta
substancialmente, da fase pré-enfarte para a
fase de prevenção secundária. O risco de um
evento fatal passa de <5 por cento para >10
por cento e a medicação passa a incluir muitos mais fármacos, além dos destinados ao
controlo da dislipidemia e da hipertensão,
nomeadamente anti-agregantes plaquetários, antidepressivos, entre outros, ficando
estes doentes muitas vezes polimedicados.
Casos clínicos
O Dr. Marco Costa apresentou dois casos
clínicos reais, de doentes enviados ao seu
Laboratório de Hemodinâmica, para evidenciar a disparidade entre o custo-benefício da prevenção primária e o custo--benefício de uma intervenção deste nível.
Um dos casos apresentados tratava-se
de um doente de 52 anos com enfarte do
miocárdio com 24 horas de evolução e recorrência constante de dor. O doente
apresentava dislipidemia, obesidade e
insuficiência renal crónica e a equipa
de cardiologia de intervenção teve de recorrer a diversas técnicas, nomeadamente
mini-crush, kissing balloon e colocação de
stent no tronco comum da coronária esquerda. O hemodinamista confessa que
este foi um doente que “deu muito trabalho”,
mas o resultado da intervenção foi “bastante
razoável”. Segundo o médico, o doente “ficou
muito assustado”, pelo que “será relativamente fácil de convencer a fazer uma prevenção secundária rigorosa, quando antes
era um doente bastante desleixado na prevenção primária”. Com este e outro exemplo,
o prelector quis demonstrar que “os custos
de uma estratégia de prevenção primária
adequada são claramente mais favoráveis
Os custos de uma estratégia de prevenção primária adequada são claramente mais favoráveis que os gastos
no tratamento do evento e prevenção secundária, salientou o prelector.
HISTÓRIA
A prelecção do Dr. Marco Costa foi também recheada de apontamentos históricos. Segundo o orador,
“a história das estatinas começa muito lá atrás, com um senhor chamado Darwin”. A relação do autor de
A Origem das Espécies, publicada em 1759, com as estatinas passa pela influência que teve numa outra
personalidade histórica, Fleming, que em 1928 descobriu, por mero acaso, a penicilina, “um dos maiores avanços
do século XX”, como assinalou o orador. Este investigador influenciou um outro, o japonês Akira Endo, que em
1973 desenvolveu a ideia de que a razão pela qual os fungos ganhavam "a luta das espécies" com as bactérias
poderia ter a ver com os componentes da estrutura da membrana celular (sendo um dos componentes mais
importantes o colesterol) e investigou várias centenas de fungos, até descobrir o penicillium citrinum, que esteve
na base da primeira estatina.
Várias investigações e progressos depois, surge a pitavastatina, um sal de cálcio com estrutura análoga à rosuvastatina
e atorvastatina, mas com as seguintes particularidades: “não tem pró-fármaco, tem uma boa biodisponibilidade,
uma forte ligação plasmática às proteínas e uma semi-vida que ronda as 14 horas”, salientou o especialista.
(Não) adesão à terapêutica
“A dislipidemia é responsável por mais de
metade do risco global de enfarte do miocárdio”, recordou o Dr. Marco Costa. Depois,
como assinala o médico, a generalidade dos
doentes dislipidémicos apresentam também diabetes, hipertensão e por isso “a
maior parte das vezes há um efeito multiplicativo deste factor de risco”. Acresce que não
é fácil classificar os pacientes, pelo que “é muito
importante fazer a estratificação do risco destes doentes”, recomenda o especialista.
Outro problema importante no tratamento dos doentes dislipidémicos prendese com a não adesão à terapêutica. Como
afirmou o Dr. Marco Costa, “é fácil perceber porquê”, tendo em conta que se trata
de um tratamento para algo que os doentes não vêem nem sentem, a não ser quando têm dor no peito, e ainda porque são
Um dos aspectos positivos da pitavastatina tem a ver com o aumento do colesterol HDL, em particular
nos doentes com valores mais baixos à partida, afirmou o Dr. Marco Costa.
Como demonstrado
nas mais recentes guidelines
para a dislipidemia,
a pitavastina faz parte
do grupo de fármacos com
interacções farmacológicas
potencialmente
mais baixas
medicamentos onerosos. Por isso, defende o prelector, “temos de insistir muito na
manutenção da terapêutica e explicar muito bem aos doentes por que razão esta é importante”. As interacções medicamentosas podem igualmente ajudar a explicar
esta situação, já que são muito frequentes
nos doentes em tratamento com estatinas.
“Cerca de um quarto dos nossos doentes estão a tomar um outro fármaco,
que vai reduzir ou aumentar o efeito
da estatina”, exemplificou. Pelo contrário, e como demonstrado nas mais
recentes guidelines para a dislipidemia, a pitavastina faz parte do grupo
de fármacos com interacções farmacológicas potencialmente mais baixas.
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Potencialidades da pitavastatina na dislipidemia