Proc. Interamer. Soc. Trop. Hort. 46:52-54. Fruit/Frutales - October 2002 Alterações Fisiológicas Durante a Maturação de Pitanga (Eugenia uniflora L.) Adriana Ferreira dos Santos, Silvanda de Melo Silva, Rejane Maria Nunes Mendonça e Marcelo Santos da Silva, Programa de Pós-Graduação em Agronomia, CCA/UFPB, 58397-000, Areia, PB, Brasil. [email protected], Ricardo Elesbão Alves e Heloísa Almeida Cunha Filgueiras, Embrapa Agroindústria Tropical, Caixa Postal 3761, 60511-110, Fortaleza, CE, Brasil. [email protected] Resumo. O objetivo deste trabalho foi avaliar as modificações fisiológicas decorrentes da maturação e amadurecimento de pitangas dos tipos vermelho e roxo. Frutos de pitanga vermelha e roxa colhidos em cinco e seis estádios de maturação, respectivamente, foram avaliados quanto as varias caracteristicas. Durante a maturação dos dois tipos de pitanga ocorreu uma redução da taxa respiratória, evidenciando comportamento de frutos não climatéricos. A maturação resultou também no aumento do diâmetro, comprimento, matéria fresca e seca, e polpa até os estádios anteriores ao amadurecimento pleno desses frutos. A firmeza desses frutos diminuiu progressivamente à medida que a maturação progredia, evidenciando o amadurecimento. A ATT, e os SST aumentaram no decorrer da maturação. Comparado aos frutos do tipo vermelho, pitangas do tipo roxo apresentaram taxa de respiração mais baixa e acidez titulável mais elevada. A relação SST/ATT, nos estádios finais da maturação, parece ser um índice de maturidade adequado para esses tipos de frutos. Abstract. The work objectives of this work was to evaluate physiological changes in red and purple types of Surinam cherries. Fruit of both red and purple Surinam cherries were harvested at five and six developmental stages, respectively and evaluated for many quality characteristics. Through maturation of both types of Surinam cherries, there was a reduction in respiratory activity, indicating a non-climateric behavior. There was also an increase in diameter, length, fresh and dry weight up to the fully ripe stage. Firmness decreased as maturation progressed, an evidence of ripening. TTA and TSS increased through this period. Red Surinam cherries showed a higher respiratory activity and lower TTA than the purple type. TSS/TTA ratio is a good harvest maturity index for these fruit. _________________________________ A pitanga (Eugenia uniflora L.) é nativa desde o centro do Brasil até o Norte da Argentina, embora atualmente esteja distribuída tanto em território nacional como em várias partes do mundo (Donadio et al., 2002). No que concerne à produção e comercialização da fruta, não se dispõe de dados oficiais, tanto no Brasil quantos no mundo, no entanto estima-se que o Brasil seja o maior produtor mundial. Os maiores plantios estão localizados no Estado de Pernambuco, onde uma região possui cerca de 300 ha cultivados (Bezerra et al., 2000). A fruta vem ganhando atenção em outros países pelo seu sabor exótico e conteúdo de vitaminas A e C, onde tem sido reconhecida como alimento natural e saudável (Ribeiro, 1998). Portanto, existem grandes perspectivas de sua utilização nas misturas entre sucos de outras frutas, como também pode ser utilizada como aditivo em bebidas lácteas e, ainda, na forma de refresco em pó e néctares (Bezerra et al., 2000). O estudo do desenvolvimento proporciona o conhecimento da fisiologia da maturação de frutos, permitindo estabelecer bases para a colheita apropriada, criando alternativas para o armazenamento, que possam ampliar a vida útil e reduzir as perdas pós-colheita dos produtos colhidos (Kader, 1986). Durante a maturação, várias transformações bioquímicas ocorrem nos frutos, entre elas a tendência ao aumento dos sólidos solúveis totais e redução da acidez (Hardenburg et al., 1986). Em um fruto frágil como a pitanga (Kavati,1997), a colheita no momento impróprio pode acelerar o processo de deterioração, elevando as perdas pós-colheita (Kays, 1997). O estudo, portanto, das transformações físicas e físico-químicas durante os processos de maturação e amadurecimento pode ser usado como base para determinar índices de maturidade e qualidade nos frutos, podendo servir ainda como indicadores do ponto ideal de colheita para o armazenamento (Kader, 1986). Dessa forma, o objetivo desse trabalho foi avaliar as variações das características físicas e físico-químicas de pitangas dos tipos vermelho e roxo seguindo os processos de maturação e amadurecimento. Materiales y Métodos As pitangas, dos tipos roxo e vermelho, foram provenientes dos pomares do Centro de Formação de Tecnólogos (CFT), Campus IV – Bananeiras e do Centro de Ciências Agrárias (CCA), Campus III – Areia-PB, da Universidade Federal da Paraíba. Os frutos, marcados individualmente, foram colhidos, acondicionados em caixas de isopor e transportados para o Laboratório de Fisiologia e Tecnologia Pós-Colheita, onde foram selecionados quanto a coloração, sanidade, ausência de injúrias, tamanho e peso. Como tratamento antifúngico, os frutos foram imersos por 10 minutos em uma solução de hipoclorito de sódio comercial a 1%. Os frutos foram classificados de acordo com o tipo: vermelhas, provenientes das pitangueiras dos viveiros do Campus III, e roxas, colhidos no Campus IV, em cinco e seis estádios de maturação, respectivamente (Tabela 1). A seleção do estádio de maturação de cada grupo de frutos foi realizado inicialmente através de seleção visual e em seguida, de acordo com o grau de cor da casca (Munsell, 16 1976). As avaliações físicas e físico-químicas foram realizadas seguindo-se a colheita para avaliar as modificações decorrentes do processo de maturação e amadurecimento dos frutos. Tabela 1. Classificação em estádios maturação, de acordo com a cor da casca, de frutos de pitangueira. Pitangas Tipo Vermelho Estádios de Maturação MBC* Coloração 1TV 2.5GY – 7/10 Totalmente verde 2B 2.5GY – 7/8 Transição da cor verde para início da pigmentação (breaker) 3IP 2.5GY – 8/10 Início da pigmentação (avermelhado) 4PV 10R – 6/10 Predominantemente vermelho 5 TV 5R – 5/10 Totalmente vermelho Pitangas Tipo Roxo Estádios de Maturação MBC Características 1TV 5GY – 6/8 Totalmente verde 2B 5GY – 7/8 Transição da cor verde para início da pigmentação (breaker) 3IP 10R – 6/10 Início da pigmentação (arroxeada) 4PR 5R – 4/10 Predominantemente roxo 5R RR – 3/6 Roxo 6RE 5R – 3/2 Roxo Escuro * Munsell Book of Color (Munsell, 1976). Tabela 2. Alterações durante a maturação de pitangas vermelhas. Estádios de Maturação 1V* 2B 3IP 4PV Antocianinas Totais (mg.100g-1) 0,00 0,09 0,29 0,51 Diâmetro (mm) 19,9 21,4 21,7 22,4 Comprimento (mm) 13,2 14,3 15,0 15,1 Peso Fresco (g) 3,54 4,25 4,65 5,25 Matéria Seca (%) 19,02 19,44 18,26 17,83 Porção Comestível (Casca + Polpa - %) 72,36 70,40 76,14 79,60 Sementes (%) 27,61 29,69 23,86 20,41 Firmeza (N) 21,36 20,13 10,91 8,16 Sólidos Solúveis Totais (%) 8,13 b 8,96 ab 10,33 ab 11,00 ab Acidez Total Titulável (% ácido cítrico) 0,86 b 1,23 ab 1,61 a 1,58 a pH 3,36 a 3,11 b 3,13 b 3,16 b Relação Sólidos Solúveis/Acidez 9,42 7,25 6,46 7,12 Vitamina C Total (mg.100g-1) 22,50 d 26,93 cd 40,65 b 51,00 a Atividade Respiratória (mg CO2.kg fruto-1.hora-1) 25,50 a 23,27 b 19,87 c 18,53 c *Médias seguidas pela mesma letra minúscula na horizontal não diferem significativamente entre si, pelo Teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade. Características 5TV 0,98 21,2 14,6 4,40 18,81 74,95 25,04 8,77 12,56 a 1,57 a 3,28 a 7,99 33,00 c 14,90 d Tabela 3. Alterações durante a maturação de pitangas roxas. Características -1 Antocianinas Totais (mg.100g ) Diâmetro (mm) Comprimento (mm) Peso Fresco (g) Matéria Seca (%) Porção Comestível (Casca + Polpa - %) Sementes (%) Firmeza(N) Sólidos Solúveis Totais (%) Acidez Total Titulável (% ácido cítrico) pH Relação Sólidos Solúveis/Acidez Vitamina C Total (mg.100g-1) Atividade Respiratória (mg CO2.kg fruto-1.hora-1) 1V* 0,00 f 17,90 14,30 2,56 26,26 64,73 ab 35,26 ab 17,30 a 8,53 c 1,66 3,38 ab 5,67 21,85 e 28,30 a Estádios de Maturação 2B 3IP 4PR 5R 2,40 e 9,40 d 16,30 c 21,60 b 17,80 17,80 17,80 17,00 13,90 15,10 15,00 14,60 2,56 2,96 3,37 2,67 24,70 22,36 23,51 22,86 71,76 ab 72,35 a 69,06 ab 65,73 ab 28,20 ab 27,64 b 30,93 ab 34,26 ab 17,92 a 6,68 b 4,47 b 5,41 b 9,73 bc 10,76 abc 12,53 ab 10,56 abc 1,74 1,98 1,55 1,73 3,29 ab 3,24 b 3,43 ab 3,28 ab 6,16 5,83 7,04 7,04 29,15 de 32,85 cd 42,65 b 55,00 a 26,77 a 26,33 a 23,43 b 20,83 c 6RE 29,60 a 17,60 15,10 3,32 24,41 61,76 b 38,23 a 4,80 b 13,04 a 1,64 3,55 a 10,61 38,35 bc 17,33 d As características avaliadas foram: comprimento longitudinal e diâmetro (mm); matéria seca (g/100g do fruto) e peso fresco (g); proporções de polpa + casca e de sementes (%); firmeza (lb/pol2); pH; Sólidos Solúveis Totais (SST, %), Acidez Total Titulável (ATT, % de ácido cítrico), relação SST/ATT, antocianinas totais, vitamina C e produção de CO2. O delineamento foi inteiramente casualizado, com três repetições/estádio, constituídas de 20 frutos por bandeja. As DMSs foram obtidas após a análise de variância e os dados foram submetidos a comparação de médias pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Resultados e Discussao Avaliando os dois tipos de pitanga estudados, observou-se que o tipo roxo apresenta um estádio de maturação a mais que o tipo vermelho (RE), devido a transição do estádio de maturação desse último ser mais rápido que no tipo roxo, resultando num ciclo de 17 maturação mais curto para o tipo vermelho. A avaliação do teor de antocianinas evidenciou a diferença de cor entre os dois materiais estudados. Nos dois casos houve um aumento no conteúdo de antocianinas indicando haver uma síntese desses pimentos em pitanga como ocorre em outras frutas (Figueiredo et al., 2002). O rápido acúmulo destes pigmentos nos estádios finais de maturação, proporcionou uma aparência atrativa, característica da fruta madura. De acordo com os resultados de diâmetro, as pitangas tipo vermelho apresentam valores máximos que variaram de 2,24 a 1,99. Pode-se verificar também que para ambos tipos de frutos, o comprimento apresentavam menor variação comparado ao diâmetro, indicando que os frutos “incham” mais do que crescem no decorrer do desenvolvimento. As pitangas do tipo roxo apresentaram valores de diâmetros inferiores as do tipo vermelho (sendo, portanto, frutos menores), variando na faixa de 1,79 a 1,70 com amplitude de variação de 0,45 cm entre os maiores diâmetros dos frutos vermelhos para os do tipo roxo. Tanto o diâmetro quanto o comprimento das pitangas vermelhas e roxas aumentaram até o estádio 4PV e 4PR, respectivamente, indicando que neste estádio, os frutos atingiram o completo desenvolvimento. Para ambos os frutos, a partir desse estádio, o comprimento e diâmetro, tenderam a decrescer, possivelmente por terem os mesmos alcançado o limiar entre o final do desenvolvimento e o início do amadurecimento. Para o acúmulo de peso de matéria fresca e seca, os valores oscilaram de 5,25g para 3,54g e 17,83 para 19,50 g/ 100g para frutos tipo vermelho e de 3,37 para 2,56 e 22,86 para 26,26 g/100g para frutos do tipo roxo, respectivamente. Verificou-se que o peso de matéria fresca aumentou continuamente, enquanto que o peso de matéria seca aumentou no início (1V e 2B) e diminuindo posteriormente (3IP, 4PV, 4PR e 5R), aumentando nos últimos estádios de maturação 5V (tipo vermelha) e 6RV ( tipo roxa), indicando o final da maturação quando o fruto começa a acumular água. Em média, as frutas maduras, apresentaram um rendimento (porção comestível) de 80 e 65% para os tipos vermelho e roxo, respectivamente. Villachica (1996) relata que o fruto tem um rendimento de 66% enquanto que Bezerra et al. (2000) citam valores variando de 74,6 a 88,4%. A firmeza dos frutos, nos cincos estádios de maturação para os dois tipos de frutos, diminuiu progressivamente durante a maturação. A firmeza das pitangas vermelhas decresceu de 61,80% entre os estágios 1V e 4PV. O maior valor para a firmeza do tipo vermelho foi de 21,36 N (estádio 1V) e o menor 8,16 N para o estádio 4PV. Para pitangas do tipo roxo o maior valor de firmeza de polpa foi de 17,30 N e o menor de 4,47 N, com um decréscimo de 74,17% do maior para o menor valor. Em todos estádios de maturação as pitangas vermelhas apresentaram firmeza superior às das roxas. Os teores de SST aumentaram com o avanço da maturação de 8,13% até valores máximos 12,56% para os frutos do tipo vermelho, e de 8,53 a 13,04% para os do tipo roxo. O aumento foi mais acentuado nos estádios de maturação mais avançados o que evidencia o início do amadurecimento, quando os frutos começam a acumular açúcar. Isso, provavelmente poderá ser resultado da hidrólise de amido, uma vez que este se forma durante o crescimento do fruto e que é hidrolizado em açúcares durante a fase de maturação (Cheftel e Cheftel, 1992). Observou-se, que os dois grupos de pitanga, apresentaram valores de ATT que oscilaram de 0,86% a 1,58% de ácido cítrico/100g e de 1,51 a 1,98 de ácido cítrico/100g, respectivamente, no decorrer da maturação. Esses resultados contrariam grande parte dos encontrados com frutos tropicais, cujos teores de ácidos orgânicos diminuem com o amadurecimento. No entanto, é muito interessante observar que os frutos do tipo vermelho e do tipo roxo, a acidez aumentou somente até o estádio 4IP (início da pigmentação), quando passou a diminuir. Resultados semelhantes foram observados por Santos et al. (2002) estudando a maturação de pitangas ainda na planta. Os valores de pH oscilaram de 3,36 a 3,11 para frutos tipo vermelho e de 3,55 a 3,24 para tipo roxo, com uma tendência de decréscimo do pH com avanço da maturação. Exceção foi observada para os estádios 5TV e 6RE, nos quais observou-se um aumento do pH, provavelmente devido ao avanço do amadurecimento dos frutos. A relação SST/ATT oscilou de 6,42 para 9,42 para frutos do tipo vermelho e de 5,67 a 10,61 para frutos do tipo roxo. As frutas avaliadas apresentaram conteúdos relativamente altos de vitamina C variando de 21,85 a 55,0 mg/100g. Os frutos de ambos os tipos apresentaram a maior concentração de vitamina C no final do crescimento, no estádio 4PV e 5R para os frutos vermelhos e roxos, respectivamente. Esse conteúdo decresceu conforme os frutos completavam seu amadurecimento. Quanto a atividade respiratória das pitangas roxas e vermelhas observou-se um decréscimo ao longo do desenvolvimento, indicando um comportamento não climatérico desses frutos. Nos estádios iniciais, 1V, a produção de CO2 é 25,50 e 28,30 mg de CO2 / kg de fruto / hora enquanto nos finais, 5TV e 6RE, chega a 14,9 e 17,33 mg de CO2 / kg de fruto / hora para os frutos vermelhos e roxos, respectivamente. Literatura Citada Bezerra, J. E. F., J. F. Silva Júnior e I. E. Lederman. 2000. Pitanga (Eugenia uniflora L.). FUNEP, Jaboticabal. Cheftel, J.C, H. Cheftel. 1992. Introducion a la Bioquímica y Tecnología de los alimentos (1). Acríbia. Zaragoza. Donadio, L. C., F.V. Moro, A. A. Servidone. 2002, Pitanga. In: Frutas Brasileiras. Novos Talentos, Jaboticabal, p.240-243. Figueiredo, R. W., F.M. Lajolo, R. E. Alves, H. A C. Filgueiras. 2002. Physical-chemical changes in early dwarf cashew pseudofruits during development and maturation. Food Chemistry, 77:343-347. Kader, A A. 1986. Ethylene-Induced Senescence and Physiological Disorders in Harvested Horticultural Crops. HortScience, 20:54-57. Kays, S. J. 1991. Postharvest physiology of perishable plant product. AVI Publishing, New York. Kavati, R. 1997. Pitanga, o sucesso é internacional. Globo Rural, 11(132): 17. Munsell, A. H. 1976. Munsel Book off Color – 2.5 R-10G. Baltimore, Macbeth Division of Kollmorgen Corporation,. n.p. Ribeiro, A. V. 1998. Várzea de Sousa : Oportunidades de Investimentos na Paraíba. Secretário de Agricultura/PB. Palestra na FrutInvest-PB. 17 a 20/Nov, João Pessoa. 18