DIFICULDADES ENCONTRADAS POR ENFERMEIROS NO GERENCIAMENTO DE EQUIPES DE SAÚDE DA FAMÍLIA NO ÂMBITO DA 10° REGIONAL DE SAÚDE Simone Roecker1 Elizabeth Maria Lazzarotto2 Janaina Ultado Dutra³ INTRODUÇÃO A família é considerada como possuidora de um plano de simbolismos, emocionalidades, racionalidades, intencionalidades, pactuações, saberes, fazeres e necessidades. O ser e viver da família ultrapassa ao que corresponderia à soma das individualidades (RIBEIRO, 2004). Na visão de Rodrigues (2008), a família é considerada no cuidado em saúde como de fundamental importância. Portanto, falar de família não é uma tarefa muito simplificada, já que a mesma está sempre em processo de construção. Nesta perspectiva, se faz necessária a observação dos indivíduos, das famílias e do seu cotidiano, para que se possa identificar a formação, o funcionamento, ou seja, o modelo de construção e vivência de cada família. Somente com esta investigação torna-se possível construir um plano de cuidados às famílias, baseado no respeito e na resolução dos problemas evidenciados. O modelo assistencial vigente passa por uma crise, mas que precisa ser enfrentada para que haja a consolidação do processo de reforma iniciado após a implantação do SUS. “Era necessário então criar instrumentos ou intervenções para a ruptura com o modelo 1 Enfermeira, mestranda no curso de pós-graduação em Enfermagem e o Processo do cuidado, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/PR). End. Rua São João, 200, Zona 07. Maringá/PR. Email: [email protected]. 2 Docente do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste/CascavelPR. ³Discente do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste/CascavelPR. de atenção tradicional e historicamente hegemônico no país, traduzido como um modelo centrado na doença” (BRASIL, 2002b, p. 10-11). O PSF, segundo Brasil (2002b), tem como meta reorganizar a assistência, baseando-se no discernimento de uma abordagem humanizada, provocando reflexos em todos os serviços do sistema de saúde. Por isso, tal programa foi considerado como a principal estratégia de atenção básica, com uma nova organização do modelo de prestação da assistência. Conforme Pantaleão; Lazzarotto e Gemelli (2006), o enfermeiro precisa ter além do saber técnico, o saber científico; e para que a gerência seja eficaz é necessário ter conhecimentos, habilidades e atitudes gerenciais. As ações realizadas no PSF devem seguir algumas regras, como: o profissional deve estar preparado para atuar em sua função, possuindo os saberes teóricos e práticos. Dentre as atividades que o enfermeiro desenvolve na USF, a gerência ocupa lugar de destaque, porém pouco explorado. Observa-se que, para alcançar eficiência gerencial, o enfermeiro, ao obter informações, deve identificar as necessidades de saúde-doença da comunidade e utilizar o conhecimento para planejar as ações de forma descentralizada. Gerenciar, segundo as mesmas autoras, é “organizar o sistema de saúde por meio da educação continuada voltada para a atuação epidemiológica e de vigilância à saúde, planejando, coordenando, executando e avaliando as atividades da equipe do PSF [...]”, de modo que sejam atendidas todas as reais necessidades da comunidade (p. 16). O gerente de uma USF necessita entender que o programa foi instituído com a intenção de ofertar serviço de saúde à coletividade por meio de promoção, atenção e prevenção à saúde, com o objetivo de obter qualidade de vida junto às famílias. A ação gerencial, no entender de Lazzarotto; Souza e Roecker et al. (2007, p. 2), “[...] deve ser valorizada como uma expressão individual e coletiva dos princípios administrativos de um sistema social”. Nota-se ainda que as funções gerenciais são voltadas principalmente para a resolução dos problemas de saúde dos usuários. Assim, o enfermeiro, como gerente, deve ser um gerador de conhecimentos, deve estar sempre em contato com as novas tecnologias, incorporando-as no seu dia-a-dia, visando sempre a resolutividade dos problemas de saúde da comunidade e a eficácia do atendimento. Deste ponto de vista, a gerência de USF objetiva o conhecimento da área de abrangência, do contexto social da população desta área, das características, do perfil da população, da demografia da área, das condições de saúde/doença da população que é atendida e, além disso, o gerente precisa avaliar o seu trabalho e de sua equipe através da análise da satisfação da população a qual os serviços são prestados cotidianamente. Os grandes avanços tecnológicos e científicos estão exigindo cada vez mais conhecimentos e atualizações do enfermeiro. Percebe-se que o enfermeiro e a equipe necessitam de maior empenho e integração com a população para administrarem com segurança as mudanças. Para Penteado (2002, p. 25), a gerência “é uma função que realiza os objetivos organizacionais através de pessoas e, para obter tal cooperação, a ênfase deverá ser no relacionamento aberto, baseado na discussão de metas, na delegação, na descentralização”. Planejar e programar ações de saúde são ações que envolvem a equipe multidisciplinar de uma unidade prestadora de serviços de saúde, na qual está centrada a gerência. O bom gerenciamento realizado pelo enfermeiro, baseado no conhecimento, é avaliado por meio da qualidade e da eficácia dos serviços que são desenvolvidos junto aos usuários. O perfil de um gerente precisa estar ancorado em conhecimentos que possam gerar mudanças, inovações e fazer com que as ações de saúde sejam cada vez mais resolutivas (LAZZAROTTO, 2004). Para Ryan e Oestreich, citados por Lazzarotto; Souza e Roecker et al. (2007, p. 6), os medos mais comuns manifestados pelos profissionais que atuam como gerentes em uma organização de saúde são: “ter a sua credibilidade questionada, ser excluído da tomada de decisões ou criticado na frente de outros, não obter as informações necessárias para ser bem sucedido, ver uma atribuição-chave delegada a outra pessoa”, além do medo de não auferir o prestígio merecido ou não ser aceito como um profissional que atua no grupo, de observar propostas e críticas mal-explicadas e de ser despedido. Moreira; Coelho e Pinheiro (1997, p. 11) afirmam que o desenvolvimento gerencial tem corroborado que a obtenção de novas capacidades e indica escolhas para o sujeito em termos de profissão e de vida. Assim, os atributos contraídos pelo “gerente facilitam a execução de suas tarefas, enriquecendo sua compreensão diante da vida: pessoas com mais e melhores conhecimentos e habilidades desenvolvidas tornam-se autoconfiantes” e criam situações mais seguras dentro da organização. Para exercer a função de gestor de saúde, exigem-se conhecimentos relativos à saúde, dentre eles destacam-se: o conhecimento do perfil da população atendida; as necessidades por ela apresentadas; as normas e leis que regem o PSF; as necessidades de recursos humanos, físicos e materiais para o atendimento da população adscrita, dentre outros conhecimentos conforme as particularidades de cada região onde o programa está implantado. OBJETIVO Analisar as dificuldades encontradas por enfermeiros na gerência do programa saúde da família, nos municípios de Cafelândia, Capitão Leônidas Marques, Guaraniaçu, Nova Aurora e Santa Tereza do Oeste, localizados na região Oeste do Paraná, pertencentes a 10° Regional de Saúde. MATERIAL E MÉTODOS A pesquisa foi realizada segundo as características do estudo survey descritivo/exploratório. Neste estudo, buscou-se identificar as habilidades gerenciais do profissional enfermeiro e como ele atua na gerência de Unidades de Saúde da Família. A população delimitada para o estudo foi composta por 15 enfermeiros que atuam nos 25 municípios que compõem a 10ª Regional de Saúde. Entretanto, destes 25 municípios, somente 23 deles contam com equipes de saúde da família em andamento. Nos 23 municípios com equipe de saúde da família existem 60 enfermeiros em atuação. A composição da amostra do estudo foi elaborada utilizando como critério pesquisar os municípios de 12.000 a 20.000 habitantes, entre os 23 municípios que compõem a 10ª Regional de Saúde, e que possuem equipes de saúde da família (PSF). Obteve-se assim o número de 15 equipes (15 enfermeiros) sendo que duas destas enfermeiras recusaramse a participar do estudo. A amostra ficou composta pelos seguintes municípios, com suas respectivas equipes de saúde da família: Cafelândia, com quatro equipes de saúde da família; Capitão Leônidas Marques, com uma equipe; Guaraniaçu, com cinco equipes de saúde da família; Nova Aurora, com três equipes; e Santa Tereza do Oeste, com uma apenas. Assim, a amostra dos pesquisados foi composta de 13 enfermeiros. A opção por amostra relativamente pequena justifica-se pela análise ser qualitativa, pela distância entre os municípios e também pelo escasso tempo de consecução da pesquisa, que decorreu de outubro de 2007 a novembro de 2008, conforme cronograma. A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário semi-estruturado, aplicado aos enfermeiros que trabalham nos PSFs das cidades definidas na amostragem. Foram utilizadas questões abertas, a fim de se obter o conhecimento sobre as habilidades e as atitudes das enfermeiras pesquisadas. Por tratar-se de uma pesquisa de campo, a coleta de dados foi realizada nas Unidades Saúde da Família (USF) de acordo com a disponibilidade do enfermeiro e agendamento prévio realizado por telefone. A análise dos dados obedeceu a abordagem quantiqualitativa. RESULTADOS E DISCUSSÕES A seguir, apresentam-se, na Tabela 1, os resultados do perfil socioeconômico e demográfico dos enfermeiros que atuam no PSF: Tabela 1 - Distribuição do perfil socioeconômico e demográfico dos enfermeiros pesquisados. Região Oeste do Paraná - 2008. Variável Sexo Descrição Feminino 23 a 27 anos Idade 28 a 32 anos 32 a 36 anos Solteira Estado civil Casada União consensual Fonte: Dados da pesquisa da autora (2008). Freqüência Absoluta 13 7 5 1 4 8 1 Freqüência (%) 100 53,9 38,4 7,7 30,8 61,5 7,7 Relativa Constatou-se o predomínio absoluto do sexo feminino na população pesquisada. A maioria (53,9%) das enfermeiras está na faixa etária de 23 a 32 anos. O estado civil predominante é o casado, abarcando 61,7% das pesquisadas. Em relação ao trabalho em enfermagem, nota-se historicamente que as mulheres representam à maioria neste serviço. Isto demonstra que na profissão há a predominância do sexo feminino. Analisando os dados sobre faixa etária constatou-se que a maior parte das entrevistadas tem menos de 27 anos. Percebe-se, por meio deste indicador, que a idade dos profissionais que atuam no PSF dos municípios pesquisados concentra-se na faixa etária mais jovem, diferenciando-se da maioria dos PSF, que, segundo Machado (2000, p. 22), “apresenta alta concentração de profissionais na faixa entre 30 a 49 anos”. Tabela 2 - Distribuição do perfil profissional dos enfermeiros pesquisados. Região Oeste do Paraná - 2008. Variável Universidade de graduação Descrição Pública Privada Tempo em que está formado (a) 2 a 5 anos 6 a 9 anos Pós-graduação Sim Não Área de pós-graduação Saúde do trabalhador Saúde Pública Assistência na Urgência e Emergência Saúde da Mulher Saúde da Família Controle de Infecção Hospitalar Renda mensal R$ 1.500,00 a R$ 1.900,00 R$ 2.100,00 NI Número de empregos 1 emprego 2 empregos Tempo de atuação na ESF 1 a 3 anos 4 a 6 anos FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa Fonte: Dados da pesquisa da autora (2008). FA 9 4 9 4 11 2 3 2 1 1 3 1 11 1 1 12 1 8 5 FR (%) 69,2 30,8 69,2 30,8 84,6 15,4 27,3 18,2 9,1 9,1 27,3 9,1 84,6 7,7 7,7 92,3 7,7 61,5 38,5 A maioria das entrevistadas graduou-se em universidades públicas. Quanto ao tempo de formação acadêmica, constatou-se que quatro graduaram-se há cerca de 6 a 9 anos e as demais (nove) concluíram a graduação há 2 a 5 anos. A maioria (84,6%) das enfermeiras realizou pós-graduação. As áreas de pós-graduação variaram, mas os maiores índices foram verificados para a saúde da família e saúde do trabalhador, visto que três delas fizeram pós-graduação em cada uma dessas áreas, porém todas com ênfase em variados temas. Somente duas cursaram Assistência na Urgência e Emergência e Controle de Infecção Hospitalar, áreas que oferecem poucos subsídios para gerenciar serviços de saúde da família. A partir desses dados evidencia-se que nenhuma enfermeira possui especialização em gerência, o que pode resultar em desconhecimento quanto às habilidades e atitudes necessárias para o gerenciamento de uma USF. Em relação à renda mensal, verificou-se que quatro enfermeiras recebem R$ 1.800,00 reais, três recebem R$ 1.600,00 reais, outras três recebem R$ 1.500,00 reais, uma pesquisada ganha R$ 1.900,00 reais e outra ganha mais de R$ 2.000,00 reais mensais. Somente uma enfermeira tem mais de um emprego. Machado (2000), em sua pesquisa com enfermeiros de PSF, constatou que o número de enfermeiros entrevistados que tinham mais de um emprego era somente de 33,67%, o que condiz com os resultados obtidos nessa pesquisa, que apontam que tais profissionais com dupla jornada de trabalho representam somente 20% dos entrevistados. Os baixos salários são um fator de insatisfação para a categoria dos enfermeiros, já que estes trabalham e se responsabilizam por diversas atividades, mas não são reconhecidos de forma esperada. Quanto ao tempo de atuação na ESF, a maioria (61,5%) das enfermeiras atua neste trabalho, em média, há um a três anos. As demais atuam na ESF há um período de quatro a seis anos. O tempo relativamente curto desde o ingresso em tal serviço se justifica por se tratar de um programa novo, e muitos dos municípios pesquisados tiveram recentemente a implantação do mesmo. Em relação à questão sobre as dificuldades na realização do gerenciamento junto à equipe, E1 relatou que uma das barreiras é não possuir unidade específica para USF. Na visão de Marcon; Lopes e Lopes (2008), há muitas dificuldades referentes à estrutura do serviço, e muitas delas afetam diretamente o trabalho com as famílias, dentre estas destacam-se: a dificuldade para o deslocamento da unidade até a área de abrangência; áreas de abrangência relativamente distantes da USF; o grande número de equipes alocadas em uma mesma unidade; a falta de meios de transporte para deslocamento dos profissionais; a falta de unidade específica para a saúde da família, entre outras. Em muitos casos, estas condições podem restringir o atendimento à comunidade. A dificuldade no gerenciamento junto à equipe relatada por E2 é a diversidade de idéias e opiniões. O PSF apresenta características estratégicas para o SUS e aponta possibilidades de adesão e mobilização das forças sociais e políticas em torno de suas diretrizes. Isto possibilita integração e organização das ações de saúde em território definido. A finalidade do programa é propiciar o enfrentamento e a resolução de problemas identificados em conjunto com toda a equipe, pela articulação de saberes e práticas com diferenciados graus de complexidade, integrando distintos campos do conhecimento e desenvolvendo habilidades e mudanças de atitudes nos profissionais envolvidos. No entende de E3, as maiores dificuldades são em relação à equipe, que mostra falta de cooperação, pensamentos negativos e intolerância. Sobre o relato da pesquisada, cabe mencionar Rodrigues e Ramires (2008), que descrevem que o trabalho das equipes do PSF é o elemento-chave para a busca permanente de comunicação, troca de experiências e conhecimentos entre os integrantes da equipe. A atuação das equipes ocorre principalmente nas unidades de saúde, nas residências e na mobilização da comunidade, realizando-se atividades de educação e promoção à saúde. As equipes precisam estabelecer vínculos de compromisso e de responsabilidade com a população e estimular a organização das comunidades para exercer o controle social das ações e serviços de saúde. De acordo com E4, as dificuldades encontradas na gerência ocorrem quando a equipe está desfalcada em número de profissionais e com muitas atribuições para a mesma. Sobre o assunto, Marcon; Lopes e Lopes (2008, p. 15) evidenciam que a “ausência de profissionais nas equipes dificulta o trabalho, uma vez que cada profissional tem funções especificas a serem desenvolvidas dentro da equipe”. Quanto às funções burocráticas, nota-se que “existe a possibilidade de serem realizadas por outros profissionais; todavia, quando são assistenciais, muitas vezes esses profissionais não podem ser substituídos por outro membro da equipe”, e o maior agravante nesta situação é a “sobrecarga dos demais membros para a realização das tarefas e o desfalque para a assistência à população”. Conforme descrição de E6 e E11, a maior dificuldade é a resistência da equipe em aceitar e seguir inovações. Observa-se que atualmente vem se estudando mais profundamente a importância do trabalho em equipe multiprofissional como forma de se acompanhar as mudanças ambientais que ocorrem nas organizações de saúde, através do incentivo à participação das pessoas nos processos decisórios dos gestores. Este incentivo pode gerar motivação, comprometimento com as metas estabelecidas e melhorias na produtividade. Tal incentivo pode tornar-se imprescindível quando um líder necessita estimular e trabalhar com sua equipe estruturada. Uma equipe que trabalha sem participar efetivamente dos processos decisórios pode acabar por não se comprometer com as metas estabelecidas pela organização. A pesquisada E5 descreveu que as maiores dificuldades estão no gerenciamento dos recursos humanos e nas relações interpessoais. E7, E10 e E12 declararam que as dificuldades junto à equipe no desenvolvimento da gerência estão relacionadas à falta de profissionais especializados, falta de materiais disponíveis, falta de educação continuada para os profissionais que atuam no PSF. As mesmas afirmaram: muitas vezes caímos na rotina de uma UBS e esquecemos-nos de realizar ações de PSF, e ainda muitas vezes as pessoas que compõem a ESF não têm noção ou mesmo treinamento para atuarem junto às diferenças encontradas nas populações assistidas. Nas organizações de saúde, o trabalho profissional é altamente especializado e complexo, e a autonomia é necessária para executá-lo, gerando um ambiente propício ao conflito, tornando-se fundamental um processo de negociação permanente. Os diferentes serviços tendem a se comportar algumas vezes de forma independente, originando assim a rivalidade. Enfim, as características próprias de cada ambiente profissional tornam o processo decisório nas organizações bastante labiríntico e a cooperação um grande desafio, tornando central o papel da gerência. Na visão de E8, a maior dificuldade está relacionada ao horário de atendimento médico e à forma de atuação do mesmo. Em estudo realizado por Sberse e Claus (2003, p.126) sobre as dificuldades no atendimento no PSF, a falta de médicos durante o dia todo foi um dos principais fatores citados pela maioria dos usuários, por isso “é importante salientar que o horário de trabalho do médico é de 8 horas diárias, conforme preconizado pelo Programa”. Foram consideradas, por E9, como dificuldades: a falta de teto salarial e a falta de confiabilidade na consulta de enfermagem. A confiança na ESF está sendo adquirida quando a equipe constitui vínculo com a população da área adscrita. O interesse em resolver ou em encaminhar soluções para as dificuldades das comunidades é assinalado pelos usuários dos serviços como um tema respeitável na certeza que eles colocam nas equipes (RODRIGUES; RAMIRES, 2008). A pesquisada E13 relatou não ter dificuldades no gerenciamento junto à equipe, pois a esta recebe bem as mudanças, colabora no planejamento de novas atividades; a equipe troca informações e elabora ações, atividades em conjuntos para um bom andamento das atividades, visando à melhoria no atendimento às necessidades da comunidade. Percebe-se, a partir desta fala, que a enfermeira consegue administrar bem a sua equipe, podendo ser caracterizada como uma gerente eficiente, que mantém um bom relacionamento interpessoal com a equipe, com o gestor e com os usuários, além de contar com recursos necessários para o desenvolvimento tanto da gerência quanto da assistência. Quanto as dificuldade no gerenciamento de USF junto aos usuários, E1 relatou que, apesar das dificuldades, a população recebe tudo o que necessita para a promoção da saúde no seu município de atuação. Observa-se a partir desta fala que, mesmo em sistemas de saúde que não contam com uma infra-estrutura totalmente adequada e que apresentam alguns defeitos organizacionais, as equipes de saúde podem, por meio da criatividade e empenho, prestar um atendimento qualificado e eficaz, capaz de promover a saúde da população da área de abrangência. A promoção a partir da educação junto à população, e não propriamente de materiais e insumos. Para E2, a dificuldade junto à população é a falta de paciência, descontentamento das pessoas, mesmo diante de um excelente sistema funcionante no município. Mesmo tendo um sistema bem estruturado e organizado, às vezes falta resolutividade e agilidade no atendimento à população, como a demora para o atendimento às especialidades, para receber os resultados de exames, as filas de espera, a atuação dos profissionais, os atrasos para encaminhamentos, entre outros. Foi relatado por E3, E4, E6, E7, E10, E11, E12 e E13 que as dificuldades sentidas junto aos usuários são: falta de conhecimento; dificuldade de assimilação de informações e de seguir orientações; dificuldade de compreensão sobre o que é o PSF e quais suas funções e finalidades; dificuldade de compreensão das reais atividades a serem desenvolvidas pela ESF; dificuldade da população em aceitar a prevenção, pois só aceitam a ação curativa, não compreendendo os objetivos de uma USF; e a valorização do modelo curativo pelo usuário (consulta médica/medicamento), ao invés da prevenção (palestra, etc.). Todos os envolvidos no PSF, o gestor e a comunidade, precisam saber qual é o objetivo do programa. Segundo Souza (2000), o PSF tem como objetivo a reorganização dos serviços de saúde, objetivando a prestação de uma assistência baseada nos princípios da universalidade, integralidade, eqüidade e resolutividade. Portanto, o PSF é um programa que objetiva: conhecer o perfil da população a ser atendida, identificando as áreas de riscos e as prioridades; organizar e planejar as ações de saúde conforme prioridades; prestar assistência à saúde dos indivíduos na unidade, no domicílio e na comunidade; promover a participação da comunidade; realizar demais atividades conforme necessidades e possibilidades, a fim de enfrentar e resolver os problemas identificados nas famílias e na comunidade. Observou-se no relato de muitas enfermeiras que a dificuldade da população está em seguir as orientações repassadas em atividades de educação em saúde. Perante esta dificuldade os profissionais devem considerar alguns fatores que influenciam este processo, dentre eles pode-se destacar: o baixo grau de escolaridade, a imposição da educação em saúde, a utilização de termos científicos, problemas na comunicação, falta de tempo da equipe, dentre outros. Conforme descrição de E5, em relação aos usuários, as maiores dificuldades estão envolvidas na visão política e na acomodação e em alguns momentos à ignorância dos usuários. No PSF, o trabalho do enfermeiro junto a sua equipe baseia-se em relações interpessoais na prestação da assistência à comunidade, o qual é realizado com vistas à obtenção de resultados positivos à prevenção, proteção e recuperação da saúde dos usuários que estão sendo cuidados. A pesquisada E8 pontuou como dificuldade o acesso ao atendimento médico e sua disponibilidade de tempo limitada (de 2 a 3 horas diárias). Isto é um problema, pois muitas vezes o profissional não cumpre com a carga horária estabelecida. Segundo a Portaria 648 (BRASIL, 2006), compete às secretarias municipais de saúde assegurar o cumprimento de horário integral, com jornada de 40 horas semanais, por todos os profissionais que atuam nas equipes de saúde da família. No relato de E9, foi assinalada como dificuldade no trabalho junto ao usuário a falta de conhecimento do papel de cada profissional da equipe. De acordo com a Portaria 648 (BRASIL, 2006), é atribuído ao enfermeiro: a realização de assistência integral aos indivíduos e famílias na USF, no domicílio e em espaços comunitários em todas as fases da vida humana; a realização da consulta de enfermagem, solicitação de exames e prescrições medicamentosas conforme protocolos ou normativas do município; o planejamento, gerenciamento e avaliação das ações dos ACS’s; a supervisão, coordenação e realização da educação continuada aos ACS e a equipe de enfermagem, além da contribuição na educação permanente à equipe de saúde bucal; e a participação no gerenciamento dos insumos necessários ao funcionamento da unidade. Com relação à questão sobre as dificuldades no gerenciamento de USF junto ao gestor, E1, E3, E7, E11 e E13 relataram que as dificuldades são as cobranças para atuar na USF como está escrito no Programa (PSF), e não conforme demanda; as cobranças frente às diretrizes do PSF; a falta de recursos humanos/financeiros para a efetiva realização do programa e a falta de capacitação/sensibilização. E13 reforça: exige-se, mas não se fornecem meios, ou seja, recursos para a realização do trabalho. Complementa E2, nem sempre as prioridades de uma USF junto à gerência são atendidas e resolvidas como gostaríamos. Pode se extrair destas falas que os objetivos são propostos pelas equipes e o trabalho é realizado com base nestas proposições e em consonância com os objetivos do programa, mas muitas vezes as ações não acontecem como planejadas. Os determinantes deste processo podem ser a falta de recursos, a desvalorização das ações desenvolvidas pela equipe e, principalmente, a visão do gestor sobre estes serviços prestados. De acordo com E4, em relação ao gestor, a maior dificuldade é a falta de valorização profissional. Enquanto profissionais, nos preocupamos em valorizar o ser e o fazer da enfermagem, proporcionando uma qualidade de vida satisfatória a estes trabalhadores. Isso vale tanto para a enfermagem assistencial, que abrange a promoção e a recuperação da saúde, como também para a academia, a qual possui participação relevante na formação de profissionais desta equipe. No entender de E5 e E12, as dificuldades em relação aos gestores são a defesa de interesses políticos, a falta de visão integral e compreensão do SUS, pois, muitas vezes, a visão do gestor não está voltada para ações de saúde e sim para ações políticas. E12 ainda relata: creio que, se todos os gestores de saúde fossem obrigatoriamente profissionais de saúde, muita coisa melhoraria. Conforme Yunes (1999), é a população no âmbito local que conhece as necessidades, as prioridades e a melhor maneira de participar. Não há uma receita para a transformação ou criação de uma localidade totalmente saudável. Mas nota-se que, se o município possui a preocupação de melhorar a qualidade de vida, é indispensável estimular a participação de vários setores e da população. É esta participação que permite a obtenção de um diagnóstico dos problemas e a definição das prioridades em termos de saúde, segurança, educação, lazer entre outros. É preciso que a população participe do planejamento das ações de saúde, principalmente nos Conselhos municipais de saúde, pois tudo o que for planejado será para a prestação da assistência a ela própria. Na visão de E6 e E9, não há dificuldades no desenvolvimento da gerência de USF junto ao gestor. Na opinião de E10, a dificuldade é a comunicação com o gestor. Partindo desse pressuposto, percebe-se que a comunicação impulsiona as organizações, gerando forças indispensáveis à sua dinâmica, contribuindo para criar, reforçar ou modificar comportamentos, atuando na consecução de objetivos. O sistema de comunicação adotado por uma instituição pode definir a maneira como são transmitidas e recebidas as informações baseadas no grau de relacionamento das pessoas dentro das instituições e na liberdade que existe nas interações nos diversos níveis de hierarquia (MOREIRA; COELHO; PINHEIRO, 1997). Para E8, as dificuldades estão relacionadas à falta de cobrança do tempo de atendimento diário do profissional médico. Segundo a Portaria 648 (BRASIL, 2006), a carga horária diária a ser cumprida pelos profissionais da equipe, inclusive pelo médico é de oito horas, totalizando assim quarenta horas semanais. Em muitos serviços de saúde, visualizam-se alguns problemas em relação ao tempo de atendimento médico, visto que muitos destes profissionais não cumprem o horário conforme o estabelecido. Segundo Sberse e Claus (2003), a carga horária de trabalho do médico preconizada pelo PSF é de oito horas por dia. Este pode ser um fator influenciante na qualidade do atendimento aos usuários. E, conforme fala da pesquisada, não ocorre cobrança por parte do gestor a este profissional e está situação não é regularizada. CONCLUSÃO O perfil revelou o predomínio absoluto do sexo feminino, sendo as enfermeiras, em sua maioria, profissionais na faixa etária de jovem-adulto e civilmente casadas. A maior parte graduou-se em universidades públicas, tendo cursado pós-graduação em diversas áreas. Possuem renda mensal entre R$ 1.500,00 a R$ 2.100,00 reais para a atuação na ESF, serviço que exercem entre um a seis anos. Com relação às dificuldades para gerenciar a equipe, constatou-se a existência de diversidade de idéias e opiniões, que giram em torno do negativismo, da intolerância, da falta de profissionais na equipe e do não cumprimento de horários por alguns membros. A maior dificuldade observada apontou para a resistência à mudança da equipe, à falta de confiabilidade nas ações realizadas pela equipe. As dificuldades que estas enfermeiras encontram junto aos usuários referem-se ao não conhecimento da população sobre o serviço ofertado às famílias. Evidenciou-se o grau de dificuldade no trabalho, pois as famílias preferem a cura em detrimento da educação em saúde. Outro nível de dificuldades foi relacionado aos gestores, com destaque para a exigência de metas e resultados. Como maiores dificuldades as enfermeiras mencionaram a falta de recursos humanos/financeiros para desenvolver as ações com a equipe e com as famílias. Vale salientar também a não valorização profissional e a comunicação deficiente com o gestor. Conclui-se que o enfermeiro que atua como gerente de USF precisa atualizar os seus conhecimentos sobre o perfil da população atendida; as necessidades por ela apresentadas; as normas e leis e políticas do PSF; sobre recursos humanos, físicos e materiais para o atendimento da população adscrita, além de habilidades e atitudes condizentes com o seu trabalho, preparando-se melhor para a realização da gerência, minimizando as dificuldades na realização da mesma, refletindo assim em uma melhoria da qualidade dos serviços prestados a população. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. 50 milhões de brasileiros atendidos. Revista Brasileira de Saúde da Família, edição especial, ano II, n. 5, maio 2002. Brasília: MS, 2002b. p. 01-80. ______. Ministério da Saúde. 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