SUZANO ANO 4 ISSN: 2176-5227 Nº 3 ABR. 2012 REVISTA INTERFACES 49 Educação ambiental nas ONG(s): uma análise qualitativa Ana Claudia Guimarãe dos Santos Faculdade Unida de Suzano – UNISUZ ([email protected]) Jairo José Matozinho Cubas Faculdade Unida de Suzano – UNISUZ ([email protected]) Resumo A educação Ambiental não formal desenvolvida por ONG(s) tem se constituído em um importante espaço de ensino aprendizagem, entretanto, são escassos os mecanismos de avaliação dos programas desenvolvidos. O objetivo deste trabalho é averiguar o grau de aprofundamento dos temas discutidos nos projetos de Educação Ambiental em ONG(s). Para tanto foram realizadas entrevistas com professores e alunos de três instituições localizadas no Alto Tietê. Os dados indicam um bom comprometimento e seriedade no desenvolvimento dos projetos, mas constatou-se que a concepção de educação ambiental, segundo a literatura, não está totalmente contemplada. Entendeu-se que nos projetos analisados os conceitos ambientais são apresentados de forma lúdica, artística e comprometida, porém são ensinados com base na formação e aprendizado dos coordenadores e colaboradores voluntários, que nem sempre estão totalmente de acordo com os autores e documentos pesquisados. Palavras-Chave: Educação não-formal; pedagogia e empresa. Introdução A educação ambiental vem sendo, nos últimos anos, tema de destaque e tem alcançado grande espaço na educação formal. Entretanto, observa-se que a criança aprende não somente no ambiente escolar, mas também com a educação não formal, em casa, na rua com seus colegas e nas organizações não governamentais (ONGs), que vêm a cada dia aumentando seus núcleos e temas para melhor atender a demanda. Os objetivos desta pesquisa é investigar o grau de aprofundamento, de discussão e de envolvimento nos projetos de Educação Ambiental em três organizações não governamentais, uma vez que a participação deste segmento na educação ambiental tem aumentado consideravelmente. Realizou-se acompanhamento e entrevistas com coordenadores, professores e crianças que estão envolvidas nestes projetos, seguido de análise quantitativa e qualitativa. Educação Ambiental não Formal: Conceitos e Caracterização De acordo com a Política Nacional de Educação Ambiental , entende-se por Educação Ambiental não formal aquelas atividades organizadas fora do sistema regular de ensino. Nelas as ações e práticas educativas são voltadas à sensibilização sobre as questões ambientais e à sua organização na defesa da quali- dade do meio ambiente (PNEA, 1999). Neste documento está evidente o papel da educação não-formal: “Entendem-se por educação ambiental não-formal as ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização na defesa da qualidade do meio ambiente”. (PNEA, 1999, p.4). Segundo Born (2008), a educação ambiental não formal ganhou novos rumos a partir de 1980-1990 passando a se tornar mais abrangente. Entre os veículos de Educação Ambiental não formal pode ser destaca a mídia que é formadora de opiniões fortalecendo as discussões sobre as questões ambientais. Segundo a PNEA (1999), o poder público, em níveis federal, estadual e municipal deverá incentivar a difusão, por intermédio dos meios de comunicação de massa, em espaços nobres, de programas e campanhas educativas, e de informações acerca de temas relacionados ao meio ambiente, isto está relacionado diretamente com a educação não formal. A televisão constitui-se em uma das principais fontes de informação para uma expressiva parcela da população, seu papel torna-se decisivo nos processos de formação de opinião, em vários aspectos, inclusive sobre a problemática ambiental. (Carneiro e Tomazello, 2001, p. 61). Carneiro e Tomazello (2001), procuraram analisar um programa de televisão pública que contemplasse a Educação não Formal Ambiental e escolheu o repórter ECO/ TV Cultura. Este programa foi criado em 1992 50 REVISTA INTERFACES e foi o primeiro programa exclusivo sobre a temática ambiental, o objetivo desse programa era, a princípio, introduzir no cotidiano das pessoas reflexões ambientais, antecipando questões que seriam abordadas na Rio-92 (Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente no século XX). Ao passar a conferência, o programa se transformou em uma Tele revista ambiental. Outro veículo da educação ambiental não formal, tema deste trabalho, são as ações das organizações não governamentais. “No Brasil é certo afirmar que as organizações não governamentais (ONGs), que lidam com questões ambientais têm um papel cada vez maior e mais efetivo em políticas públicas e geração de iniciativas” (BORN, 2008, p.107). É fato que a contribuição das ONGs é significativa para a melhoria de vida no planeta, pois favorece a participação da população na formulação e implementação de políticas públicas voltadas para o meio ambiente, entretanto, Born (2008), relata que nas organizações não governamentais (ONGs) têm fragilidades em suas organizações. Rodrigues (2001), aponta que estão filiadas à ABONG (Associação Brasileira de Organizações não Governamentais) 270 organizações, porém o número de ONGs no Brasil é maior. Muitas ONGs brasileiras não constam no cadastro da ABONG e seus dados qualitativos permanecem imprecisos.Born (2008), cita que para trabalhar em ONGs muitas vezes a formação técnica não é o suficiente, principalmente no movimento ambientalista. É necessário que mobilizem recursos que na maioria das vezes vem de fundações privadas e mobilizem pessoas para pensarem de maneira diferente de seus colegas de profissão que trabalham no setor privado. “Entretanto, o aprofundamento das discussões acerca de sua identidade mundo globalizado e suas “regras de mercado” têm levantado importantes questões quanto à proximidade (por vezes consideradas excessivas) dessas organizações com o Estado e agências de financiamento” (Rodrigues, 2001, p. 24). O mesmo autor diz ainda que os aprofundamentos sobre a identidade das ONGs no mundo globalizado e as suas regras do mercado têm levado em conta a sua proximidade excessiva com o estado e agencias de financiamento. A autora faz um questionamento: Como garantir autonomia e construir identidade própria quando a relação de poder econômico entre essas instituições é desigual? Born (2008), traça desafios e perspectivas para o trabalho nas ONGs como, por exemplo, integrar perspectivas sociais e ambientais; escolher entre ter a agenda própria ou estar ligados com as iniciativas do governo; aumentar sua capacidade de decidir onde quer atuar; facilitar o acesso para organizações que estão centradas no voluntarismo; buscar parcerias com SUZANO ANO 4 Nº 3 ABR. 2012 ISSN: 2176-5227 empresas privadas e financiadores; superar impasses e propiciar o fortalecimento institucional e qualificação das organizações. Temas de Relevância na Educação Ambiental Formal e Não Formal O tema Educação Ambiental é muito amplo e pode ser trabalhado de diversas formas enfocando diversos aspectos. Entre as maneiras de trabalhar a educação ambiental está a reciclagem, a reutilização dos materiais, a horta escolar, a concepções de alimentação saudável, entre outros. Entre os temas mais abordados por alguns autores atuantes na área podemos citar a horta ,“Quando a horta da escola passa a fazer parte desse currículo, nós aprendemos sobre os ciclos alimentares, por exemplo, e integramos os ciclos alimentares naturais ao ciclo de plantio, cultivo, colheita, compostagem e reciclagem”. (CAPRA, 2006, p.15). Segundo o autor, estar na horta para as crianças é algo mágico, pois elas vão ter um contato com a terra, com as coisas que crescem dela e plantar, cozinhar e comer aquilo que se plantou é uma experiência que vai continuar com a criança para o resto da vida. Waters (2006) complementa o pensamento de Capra (2006), com uma crítica aos valores da fast food e tenta resgatar os valores do slow food, pois acredita que as escolhas que fazemos a respeito do que se come são de grande importância e não dizem respeito somente à alimentação e o prazer pessoal, mas, a nossa saúde. Já para Michael (2006), os valores da educação ambiental podem e devem estar vinculados com a arte, pois as crianças são especialistas em imaginar lugares desconhecidos e sugere que façamos com que as crianças imaginem lugares ou coisas que de fato existam como a água, a terra, a rocha e façamos com que a criança se desenvolva através da imaginação levandoas ao conhecimento. [...] Vemos crianças encontrando seus lugares no mu ndo natural, crianças que sabem que a água não vem simplesmente da torneira, que sabem os nomes das plantas e dos animais a sua volta, que entendem o desafio da vida sustentável na Terra, e conseguem instrumentos e usam a imaginação para resolver esses desafios. (MICHAEL, 2006, p.143). Segundo Michael (2006), nos últimos anos a educação ambiental tem enfocado em problemas como a poluição e a extinção das espécies e relata que não é interessante ressaltar problemas ambientais para as crianças pequenas, pois isso pode levá-las a um sentimento de impotência com a situação e sua capacidade de mudar.Já para o Eco cidadão (2008), diferente da autora Michael, acredita que é preciso sim enfocar SUZANO ANO 4 ISSN: 2176-5227 Nº 3 ABR. 2012 em problemas como a poluição. Primeiramente cita a mudança de atitude que a população deve ter como adquirir novos hábitos de consumo e a forma de jogar o lixo fora. Dias (2003), acredita que as atividades de educação ambiental devem levar em conta a realidade da escola em relação a pouca e nenhuma disponibilidade de recursos, e dá um enfoque a atividades que foram concebidas para estimular a interdisciplinaridade com estratégias que buscam solução para os problemas ambientais. A forma de apresentação das atividades do autor Dias (2003) foge dos padrões de experimentação muitas vezes encontrados nos livros de ciência e dos moldes comuns de livros de atividades, pois em vez de objetivos, materiais, procedimentos e discussão há uma descrição como uma conversa informal.As propostas de atividades pelo autor consistem em observações do ambiente natural como a fauna e a flora urbana, identificando os animais do ecossistema urbano, observar o desenvolvimento da natureza, observar e analisar o amanhecer e o entardecer, o céu à noite, a lua, a chuva e orvalho, o arco-íris, os ventos e os redemoinhos, o relâmpago e o trovão. O mesmo autor aponta para a necessidade em se comparar ambiente urbano e ambiente rural. Cita ainda em suas propostas de atividades a observação dos serviços essenciais da cidade como coleta, água, proteção ambiental, lazer, esporte e cultura. Outras propostas apresentadas por Dia (2003) consiste na verificação dos materiais recicláveis no supermercado, o lixo gerado na escola, a qualidade do ar que se respira, da água que ingere, dos alimentos que come e ao final relata que a contribuição individual é de cada um para a diminuição da degradação. Esse autor vai ao encontro com a proposta do Eco cidadão (2008) que relata que é necessária a adoção de hábitos de consumo responsáveis e conscientes e cita a busca de alternativas para ter energia por fontes menos poluidoras, reduzir a quantidade de lixo, evitar o desmatamento, a exploração excessiva de recursos naturais e a contaminação da água. Relata ainda que com a adoção de padrões de consumo sustentável é possível ter uma vida saudável no presente e no futuro. É necessário olhar o planeta terra como moradia a ser preservada. Carneiro e Tomazello (2001) creem que os abordar temas em educação ambiental por meio de projetos seja mais eficiente. Para as autoras quando definimos objetivos educacionais de um projeto, baseado no desenvolvimento cognitivo dos alunos estamos cumprindo finalidades de Educação Ambiental, pois estamos promovendo a motivação dos alunos, despertando o interesse para o mundo, adquirindo conhecimentos e participando na resolução e prevenção de problemas ambientais. REVISTA INTERFACES 51 Orr (2006) relata que toda a educação é ambiental, pois através dela ensinamos os alunos que fazemos parte de um todo. “Toda a educação é ambiental (...) com a qual por inclusão ou exclusão ensinamos aos jovens que somos partes integral ou separada do mundo natural”. (Orr, 2006, p.11). Ainda para Carvalho (2002) não é possível desvincular a Educação Ambiental do movimento histórico social (movimento ambientalista) que foi um grupo de pressão que inicialmente era contra uma serie de atitudes insustentáveis e em seguida assume um caráter social. Com os poucos exemplos acima é possível perceber que perceber que a diversidade de temas apontados pelos autores com possibilidades de serem trabalhados em Educação Ambiental e diante do exposto entende-se a necessidade em averiguar o grau de aprofundamento, de discussão e de envolvimento nos projetos de Educação Ambiental nas organizações não governamentais. Metodologia Foi realizada uma pesquisa de campo com a finalidade de verificar a concepção de Educação Ambiental e o ensino aprendizagem na educação não formal em três Organizações não Governamentais, onde foram entrevistadas dez crianças e o coordenador de cada instituição. Com o objetivo de verificar como acontece a Educação Ambiental no ensino das crianças de 09 e 10 anos na educação não formal, foi realizada entrevista individualizada com os coordenadores e em rodas de conversas com as crianças. Para os coordenadores utilizou-se um roteiro com nove questionamentos referentes aos projetos desenvolvidos na ONG com relação à Educação Ambiental desenvolvidas nas respectivas instituições. Para crianças foram utilizada cinco questionamentos; todas as questões foram abordadas em uma roda de conversa onde foram gravadas e sintetizadas as respostas. A análise aplicada sobre a entrevista foi qualitativa descritiva com base nas respostas dos coordenadores e das crianças. As discussões se deram com base nos autores citados. Resultado e Discussões A primeira organização que identificada como ONG1, está situada em um bairro pouco afastado do centro de uma cidade do Alto Tietê e depende de recursos financeiros do município para realizar seus projetos. Atende crianças da região através de cursos de aprendizagem, capacitação para o mercado de trabalho, oficinas culturais e esportivas e apoio sócio- 52 REVISTA INTERFACES educativo, com vista à promoção da cidadania e inclusão social. Tem a família, o trabalho, a religião, o lazer e a convivência comunitária como eixos norteadores do trabalho. Partindo destes eixos, adotou como uma das linhas de atuação, o desenvolvimento de projetos sociais que atendam a população, tendo como grandes objetivos a promoção humana, valorização da vida e contribuir para a formulação e execução das políticas públicas. A segunda organização identificada como ONG2, está localizada em um bairro periférico e depende de instituição privada e do município para a realização dos projetos. É uma organização que desenvolve trabalhos voltados ao desenvolvimento social e comunitário, com foco direcionado a educação. O projeto específico de Educação Ambiental dessa ONG é financiado por uma instituição particular e tem como objetivo a promoção da conscientização nas pessoas quanto à preservação do meio ambiente. Esse trabalho vem sendo realizado com as crianças e adolescentes e é todo pautado em ações efetivas de reciclagem e da mudança da realidade onde o projeto está inserido. A terceira organização, identificada como ONG3, localiza-se em um bairro pouco afastado do centro da cidade, mas, com grande referência, pois está dentro de uma empresa e recebe financiamento tanto privado como do município.Essa organização surgiu a partir de uma conscientização da necessidade de participação efetiva do grupo empresarial em ações sociais onde pudessem se envolver diretamente com obras sociais e contribuir para a criação de oportunidades principalmente para crianças. Foi todo dedicado a implementar atividades envolvendo crianças e adolescentes da comunidade com abrangência familiar. Mantém em sua sede, uma vasta área reservada para reflorestamento de plantas e árvores da mata atlântica, com o objetivo de preservar e ampliar o conhecimento das crianças sobre a origem de cada espécie e desenvolver a conscientização sobre a importância de sua preservação. Na entrevista com os coordenadores verificou-se que a maior parte dos projetos desenvolvidos na ONG1 foram projetos sócio-educativos para tirar as crianças das ruas, a ONG2 desenvolveu projetos sócio-educativos, porém com direcionamento á oficinas de artesanato e caminhadas voltadas a sensibilização do meio ambiente e a ONG3 desenvolveu atividades voltadas para a coleta seletiva, cultivo de plantas e hortaliças. Desses projetos realizados foi constatado que na ONG1 o tema meio ambiente é trabalhado dentro do contexto dos projetos desenvolvidos, já na ONG2 apenas um dos projetos desenvolvidos trabalha com educação ambiental e na ONG3 todos os projetos foram relacionados com a educação ambiental. Segundo Carneiro e Tomazello (2001) uma das características da educação ambiental é ser globaliza- SUZANO ANO 4 Nº 3 ABR. 2012 ISSN: 2176-5227 dora e interdisciplinar e que as atividades realizadas com projetos são mais eficientes. Nesta perspectiva todas as ONGs têm a preocupação, entretanto a ONG3 demonstra observar de modo mais eficiente o caráter interdisciplinar da Educação ambiental ao identificála em todos os projetos sociais da instituição e perceber a Educação Ambiental de forma globalizadora e interdisciplinar. Os temas mais presentes trabalhados dentro dos projetos da ONG1 estão relacionados à qualidade de vida, envolvendo direitos humanos, cidadania, planejamento familiar, drogas, meio ambiente, entre outros. Na ONG2 os temas mais presentes estão relacionados à consciência ambiental como reciclagem, coleta seletiva e reaproveitamento de materiais. Na ONG3 o tema mais presente é a flora e a reutilização dos recursos naturais. Segundo Carneiro e Tomazello (2001), educação ambiental não é somente o estudo da fauna e da flora, pois o meio ambiente não se reduz ao controle de parcelas do meio natural. Verifica-se que as ONGs entrevistadas não se limitam a concepção de fauna e flora, pois os temas trabalhados dentro de seus projetos são muito amplos. Ao questionar qual é a concepção de reciclagem que é passada para as crianças, a ONG1 respondeu de acordo com a Política Estadual de Resíduos Sólidos, as ONGs2 e 3 responderam conceitos que não são de reciclagem e sim de reutilização dos materiais. XIII- reciclagem- prática ou técnica na qual os resíduos podem ser usados com a necessidade de tratamento para alterar suas características físico-químicas;(...)” e “XVII- reutilizaçãoprática ou técnica na qual os resíduos podem ser usados na forma em que se encontram sem a necessidade de tratamento para alterar suas características físico-químicas;(...)” (LEI nº 12.300, 2006, p.5 e 6) Pode-se observar que os conceitos de reciclagem não estão claros para os coordenadores das ONGs 2 e 3, apenas o coordenador da ONG1 soube identificar. Sabemos que se os conceitos são passados de maneira incorreta para as crianças as mesmas não saberão diferenciar reciclagem de reutilização. As ONGs1 e 3 têm como principal objetivo trabalhar a preservação do meio ambiente, porém a ONG1 dá mais enfoque no impacto da qualidade de vida e a ONG3 na conscientização da dependência humana referente aos recursos naturais. Já a ONG2 tem como objetivo a mudança de perspectiva visando às crianças como agentes de transformação Lago (2004), fez uma pesquisa mostrando que a transformação de consciência depende da mudança de mentalidade em relação à natureza, e este processo SUZANO ANO 4 ISSN: 2176-5227 Nº 3 ABR. 2012 passa pela educação. Percebeu-se nas entrevistas que as ONGs trabalham muito com a qualidade de vida, conscientização e mudança de perspectiva e isso colabora para promover na crianças uma mudança de mentalidade em relação à natureza e o meio em que se vive. Os valores que a ONG1 espera que as crianças aprendam é a preservação visando à qualidade de vida das pessoas, para a ONG2 é a valorização dos recursos naturais envolvendo consumo e desperdício e para a ONG3 o desenvolvimento sustentável. Podemos observar que as ONGs envolvem a sustentabilidade em seus projetos, pois visam que as crianças valorizem e preservem os recursos naturais e isso ajudará não só a qualidade de vida atual, mas também das gerações futuras. Entretanto, verifica-se que nas ONGs 1 e 2 o conceito de sustentabilidade não está claro, já a ONG3 define sustentabilidade como o uso de recursos de maneira que o mesmo não venha prejudicar as gerações futuras. A ONG3 tem os conceitos de sustentabilidade de acordo com Capra 2008, que definiu sustentabilidade como uma sociedade capaz de satisfazer suas necessidades sem prejudicar as sociedades futuras. Percebe-se que todas as ONGs entrevistadas desenvolvem nos projetos noções de sustentabilidade direta ou indiretamente, porém as ONGs 1 e 2 não têm claros os conceitos de sustentabilidade mesmo trabalhando com as crianças essa temática. Ao questionar se há alguma ligação da escola com a ONG nos projetos que envolvem Educação ambiental, a ONG1 respondeu que a instituição atua de forma compartilhada com toda a rede de serviço e as atividades sócio-educativas são complementares a escola. A ONG2 e 3 não responderam. A ONG1 diz que a comunidade é sensibilizada para a questão ambiental através de oficinas, a ONG2 diz que sensibiliza a comunidade através de palestras e caminhadas e a ONG3 relata que a instituição está sempre aberta para abordar o tema com a comunidade.Lago (2004), cita que o professor tem o papel de formador de opinião, pois o processo de conscientização de Educação Ambiental exige um trabalho integrado entre instituições públicas e privadas como universidades, escolas e organizações não governamentais. Podemos observar que mesmo desenvolvendo trabalhos direcionados a comunidade as ONG2 e 3 não mostraram uma ligação com a escola nos projetos ambientais, ou seja ainda há uma defasagem no trabalho integrado entre escola e organização não governamental. Seguem abaixo as respostas que mais aparecem da entrevista com as crianças. 1. Qual atividade você mais gosta de participar na ONG? 53 REVISTA INTERFACES Respostas Ler e escrever Futebol Desenho e pintura Recreação Informática ONG1 4 3 ONG2 ONG3 Total 4 3 7 1 5 2 3 5 3 3 3 3 Atividades que envolvem exercício físico Reciclagem 3 2 1 Atividades com música 1 1 Agricultura Tabela 1 2 1 A pesquisa mostra que a resposta “ler e escrever” aparece com frequência na ONG2 e na ONG3, não aparecendo nenhuma vez na ONG1 na qual a atividade que mais aparece é futebol. A agricultura aparece apenas uma vez na ONG3 que é a única ONG dentro das entrevistadas que possui essa atividade dentro do projeto com as crianças. Percebe-se que mesmo a coordenadora dando grande ênfase nessa atividade, as crianças não a citam como atividade que gostam de participar, isso acontece pelo fato das crianças não se apropriarem do meio natural que as envolvem. Para Michael (2006), é preciso que as crianças se apropriem de seus lugares no mundo natural, que saibam os nomes das plantas e dos animais a sua volta, que gostem do ambiente em que vive para que cuidem do mesmo. 2. Tem alguma atividade na ONG que você faz igual na escola? ONG1 ONG2 ONG3 Total Ler e escrever 1 6 8 15 Desenho e pintura 3 8 11 1 9 10 Respostas Atividades físicas Informática 6 6 Política 2 Assistir filmes 1 Inglês 2 1 1 1 Tabela 2 Verificamos que as atividades realizadas igual à escola que aparece com maior freqüência é a leitura e escrita, 14 de 30 crianças colocaram essa resposta. Podemos observar que todas as atividades sócio-educativas são complementares a escola não podendo exercer o papel da mesma, no entanto a resposta ler e escrever são a que mais aparece. As atividades que envolvem o cuidado com o meio ambiente citadas pelas coordenadoras não apareceu nenhuma vez. Michael (2006), cita que é preciso dar às crianças a 54 REVISTA INTERFACES SUZANO oportunidade de conhecer a natureza, observar e criar um espaço de alegria e admiração, assim quando se tornarem adultos serão cidadões comprometidos com a preservação desse lugar.É possível que as crianças não citem atividades que envolvem o meio ambiente pelo fato de não conhecerem de fato a natureza, o meio em que os cerca e não ter um espaço para admiração. 3. Cite o que o homem faz de errado contra o meio ambiente? ONG1 ONG2 ONG3 Total Desmatamento 6 4 2 12 Poluição 2 7 9 Joga lixo no meio ambiente 1 Destrói a natureza 1 Respostas 5 6 1 1 Polui o ar andando de carro 1 1 Mata animais 1 Tabela 3 O desmatamento apareceu em todas as ONGs entrevistadas, mas na ONG1 aparece com maior freqüência, sendo 6 de 10 crianças a responderem essa opção. Já na ONG2, a resposta que mais aprece é jogar lixo no meio ambiente, 5 de 10 crianças e na ONG3 a resposta que mais aparece é a poluição, sendo 7 de 10 crianças a apontarem como resposta. Nota-se que uma das crianças da ONG2 pontuou a questão de andar de carro como poluição do ar, como essa foi uma resposta isolada, deve se levar em conta que a questão do meio ambiente já foi trabalhada anteriormente com essa criança, seja pela família, ou pelo projeto da ONG. Michael (2006) relata que nos últimos anos a educação ambiental tem enfocado em problemas como a poluição e relata que não é interessante ressaltar problemas ambientais para as crianças, pois isso pode levá-las a um sentimento de impotência com a situação. Verificamos que os problemas ambientais enfocados nas ONGs são desmatamento, poluição e extinção das espécies indo contra o que Michael (2006), diz, pois as crianças teriam que conhecer a natureza, se apropriar dela criando um espaço de admiração e não de impotência ou conformismo com a situação. 4. Para você o que é reciclagem Respostas Não soube identificar ONG1 ONG2 10 Acredita que é a reutilização dos materiais 6 Transformação dos materiais recicláveis em outros materiais Tabela 4 4 ONG3 Total 9 19 1 7 4 ANO 4 Nº 3 ABR. 2012 ISSN: 2176-5227 Os resultados apontam que na ONG 1 nenhuma criança soube identificar o que é reciclagem, na ONG3 9 de 10 crianças não souberam identificar e 1 identificou como a reutilização dos materiais. Na ONG nº 2, seis das dez crianças entrevistadas acredita que reciclar é reutilizar os materiais através de artesanatos e confecções de brinquedos e 4 crianças conseguiram identificar a reciclagem como prática ou técnica na qual os resíduos podem ser usados com a necessidade de tratamento para alterar suas características, como cita a Política Estadual de Resíduos Sólidos. Há uma contradição entre o apontado pelas crianças e o descrito pelo coordenador, pois na ONG1 nenhumas das crianças souberam identificar o que é reciclagem sendo que a coordenadora relatou que o conceito de reciclagem não é reutilizar o produto e sim a sua transformação. Já na ONG2 onde 4 crianças souberam responder o que é reciclagem a coordenadora não soube definir. Na ONG3 nem a coordenadora nem as crianças conseguiram definir, relatando apenas que é a reutilização dos materiais. 5. O que você faz para ajudar a preservar o meio ambiente Respostas Jogar o lixo no lixo ONG1 6 Plantar árvores e cuidar das plantas Separar o lixo para a coleta seletiva 1 Reciclar os materiais 1 Não cortar árvores ou plantas 2 ONG2 ONG3 Total 5 3 14 2 4 6 2 3 1 3 1 2 Não usar sacolinhas de plástico 1 1 Evitar andar de carro Tabela 5 1 1 A maior parte das crianças aponta que contribuem com o meio ambiente jogando o lixo no lixo. Podemos observar a sinceridade das crianças com essa faixa etária, pois sabemos o quanto é difícil implantar maneiras de preservar o meio ambiente em uma sociedade que já tem uma cultura pré-estabelecida de jogar o lixo no chão. Segundo o Eco Cidadão (2008), é preciso sim enfocar problemas como a poluição e a mudança de atitude que a população deve ter, como adquirir novos hábitos de consumo e a forma de jogar o lixo fora. As três ONGs entrevistadas desenvolvem algumas atividades citadas por Dias (2003) que relata que é necessária a adoção de hábitos de consumo responsáveis e conscientes, como reduzir a quantidade do lixo, evitar o desmatamento e exploração excessiva de re- SUZANO ANO 4 ISSN: 2176-5227 Nº 3 ABR. 2012 cursos naturais. Podemos verificar que as três ONGs desenvolvem em seus projetos atividades que estimulam as crianças ao cuidado com o meio, pois as crianças das três ONGs citaram que jogam o lixo no lixo. Considerações Finais Verifica-se com os resultados que a concepção de educação ambiental na educação não formal é ampla, pois envolve vários conceitos como conservação, sustentabilidade, valores, sensibilização, qualidade do meio ambiente, entre outros. Por meio da análise das entrevistas sobre os projetos de educação ambiental conclui-se que as ONGs entrevistadas têm conceitos de educação ambiental de acordo com os autores e sua responsabilidade ambiental é muito grande se comprometendo com a aprendizagem das crianças que participam dos projetos, atingindo suas famílias e comunidade. Entretanto, verificamos que o grau de aprofundamento, de discussão e de envolvimento nos projetos de educação ambiental ainda apresenta algumas defasagens no que diz respeito à sustentabilidade, reciclagem e parceria com a escola. Constata-se com os resultados que nos projetos dessas organizações a concepção de educação ambiental não é contemplada totalmente, pois as crianças não se sentem apropriadas do meio em que vivem, respondendo as questões como alguém que contribui para o meio ambiente e não como alguém que faz parte dele, a maioria ainda não sabe identificar o que é reciclagem. Finalmente entende-se que a educação não formal desenvolve conceitos ambientais no ensino aprendizagem das crianças de maneira lúdica, artística e comprometida, porém os conceitos são passados de acordo com a formação e aprendizado dos coordenadores e colaboradores, que nem sempre são os conceitos corretos de acordo com os autores. Esta constatação pode ser decorrente de uma formação específica não totalmente adequada o que compromete os conceitos sobre o assunto. Referências Bibliográficas AGENDA 21, Documento na integra. Disponível em: http://www.ambiente.sp.gov.br/agenda21.php Acesso em: 18 Out. 2010. BORN, Rubens Harry. Articulação do capital social pelo movimento ambientalista para a sustentabilidade do desenvolvimento no Brasil: In: TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no Século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas áreas de conhecimento. 5 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. REVISTA INTERFACES 55 BRASIL. Lei nº 9795 de 27 de Abril de 1999. 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SUZANO ANO 4 Nº 3 ABR. 2012 ISSN: 2176-5227