Análise das Similaridades Genética e Morfológica de Cultivares de Alho. José Hortêncio Mota1, Jony Eshi Yuri2, Itamar Rosa Teixeira3, Rovilson José de Souza4 1. UFMS – Núcleo de Ciências Agrárias, Cx Postal 533, Cep: 79.804-970, Dourados/MS; 2. REFRICON - Rod. Régis Bittencourt s/n, km 294, Cep: 06850-000 Itapecerica da Serra/SP; 3. UEG – Unidade Universitária de Ipameri – Rod. GO 330 s/n, km 241, Cep: 75780-000, Ipameri/GO; 4. UFLA - Depto. de Agricultura, Cx. Postal 37, Cep: 37200-000, Lavras/MG. RESUMO O objetivo deste trabalho foi analisar a divergência genética e morfológica entre 12 cultivares de alho dos grupos nobre (Caçador, Chonan, Contestado 12, Caçador 30, Caçador 40 e Quitéria 595) e semi-nobre (Gigante Curitibanos, Gigante Roxo, Gigante Roxão, Gravatá, Amarante e Cateto Roxo). Os resultados permitiram definir que existe diferença entre as duas matrizes de similaridade, sendo que o dendrograma da matriz genética, agrupou coerentemente de acordo com sua origem, formando dois grupos distintos: um formado pelas cultivares semi-nobres (com 54,2% de similaridade) e outro formado pelas cultivares nobres (com 57,1% de similaridade). No dendrograma das características morfológicas observou-se a formação de dois grupos distintos, porém não agrupando coerentemente as cultivares de acordo com sua origem. Palavras chave: Allium sativum, marcadores moleculares, diversidade. ABSTRACT Analysis of the genetic and morphologic similarity of garlic cultivars. The aim of this work was to analyze the genetic and morphologic diversity among 12 garlic cultivars of the groups noble (Caçador, Chonan, Contestado 12, Caçador 30, Caçador 40 and Quitéria 595) and semi-noble (Gigante Curitibanos, Gigante Roxo, Gigante Roxão, Gravatá, Amarante and Cateto Roxo). The results allowed to define that difference exists among the two similarity matrices, being that the dendrogram of the genetic matrix, coherently grouped in accordance with its origin, forming two distinct groups: one formed for the semi-noble cultivars (with 54,2% of similarity) and other formed by the noble cultivars (with 57,1% of similarity). In the dendrogram of the morphologic characteristics was observed formation of two distinct groups, however not grouping coherently the cultivars in accordance with its origin. Key-words: Allium sativum, molecular marker, diversity. O Brasil é o maior importador mundial de alho, sendo que no mercado brasileiro há uma grande quantidade de cultivares, os quais apresentam diferentes denominações regionais, acarretando dificuldades e, muitas vezes, caracterizações dúbias do mesmo material. Tal fato faz com que, na maioria das vezes, os alicultores adquiram material para plantio de baixa produtividade e baixa conservação pós-colheita. Neste contexto, a separação ou o agrupamento das cultivares de alho por meio de características morfológicas, anatômicas ou moleculares apresenta grande importância na indicação das cultivares mais adaptadas às diferentes regiões brasileiras, ou na avaliação de bancos de germoplasma (Mota, 2003). Diante do exposto, realizou-se este estudo com o objetivo de fazer uma análise comparativa entre as matrizes morfológica e molecular (RAPD) de doze cultivares de alho dos grupos semi-nobre e nobre. MATERIAL E MÉTODOS Foram utilizadas doze cultivares de alho, sendo seis classificadas como nobres e seis classificadas como semi-nobres. Os alhos pertencentes ao grupo nobre possuem cabeça redonda, com bulbos uniformes e grandes, apresentando poucos bulbilhos. Os bulbos têm túnica branca e película de cor rósea ou roxa, necessitando de vernalização e apresentando sensibilidade ao pseudoperfilhamento. Já o grupo semi-nobre caracteriza-se por possuir alhos de cabeça irregular, com bulbos desuniformes e de túnica branca com película branca a levemente arroxeada, não precisando de vernalização. As cultivares nobres utilizadas foram: Chonan, Roxo Pérola de Caçador, Caçador 30, Quitéria 595, Contestado 12 e Caçador 40, todas provenientes do Estado de Santa Catarina, localizado na região Sul do Brasil. No grupo das semi-nobres utilizaram-se as cultivares Gigante Roxo, Gigante Roxão, Amarante, Cateto Roxo e Gravatá cultivadas em Minas Gerais. Outra cultivar semi-nobre utilizada foi a cultivar catarinense Gigante Curitibanos, que pelas características morfológicas apresenta exigência climática semelhante às cultivares tradicionalmente plantadas em Minas Gerais, não necessitando de vernalização para plantio na região Sudeste. Extração do DNA e análise RAPD O DNA genômico foi obtido através de bulbilhos descascados triturados in natura em N2 líquido com PVP. Adicionou-se, em seguida, 10 ml de solução extratora (1 M de Tris pH 7,5; 0,5 M EDTA pH 8,0; 5 M NaCl; 1% CTAB; 2% β-Mercaptoetanol). Os tubos foram agitados e colocados em banho-maria a 65oC, durante 60 minutos. O extrato foi misturado com 10 ml de clorofórmio-octanol (24:1), para formar uma emulsão. Após centrifugar por 10 minutos a 3.000 rpm, a parte superior aquosa foi isolada e submetida a álcool 95 %, o que ocasionou a precipitação do DNA. A quantificação do DNA foi realizada em gel de agarose 1% por comparação com padrão de DNA de concentração conhecida. A eletroforese foi realizada a 100V em tampão TAE (1mM EDTA pH 8,0; 40 mM Tris pH 8,0; 20 mM de ácido acético) e o gel tratado com brometo de etídio (10%) durante 20 minutos sob agitação, sendo posteriormente visualizado sob luz ultravioleta; a imagem do gel foi captada pelo sistema de documentação “Eagle Eye”. Foram utilizados, para o estudo, quatro kits de Primers Operon (A, B, F e W), totalizando 80 primers, sendo que a análise foi realizada somente para as bandas polimórficas. Inicialmente, foi construída uma matriz para os fragmentos de DNA amplificados com presença (1) e ausência de banda (0). Para análise dos dados, utilizou-se o NTSYS-pc (Numerical Taxonomy and Multivariate Analysis System), versão 2.02 (Rohlf, 1992). A similaridade entre as amostras foi estimada pelo coeficiente de Jaccard, que gerou a matriz de similaridade. A partir dessa matriz, foi gerado o cluster, pelo método UPGMA (“Unweighted Pair-Group Method Using Arithmetic Average”). Avaliação morfológica Os caracteres vegetativos analisados foram: altura da planta; largura, número e ângulo de folhas. Avaliaram-se as médias dos caracteres pela análise da variância e do teste de Tukey ao nível de 5%. Realizou-se, também, uma análise de agrupamento, utilizando-se o programa STATISTICA 5.0 (StatSoft, 1995) e um dendrograma gerado pelo método UPGMA. RESULTADOS E DISCUSSÃO Agrupamento genético Foram amplificados 279 fragmentos de DNA sendo 194 polimórficos e 85 monomórficos, utilizando os 80 primers de RAPD. Na Tabela 1, observa-se que a análise de divergência genética, feita com base nas 194 bandas polimórficas selecionadas, indicou, para o grupo nobre, que as cultivares Contestado 12 e Quitéria 595 são mais próximas entre si, com valor de Jaccard igual a 0,855. A cultivar Roxo Pérola de Caçador mostrou-se mais distante geneticamente em relação à cultivar Caçador 30, com um valor médio de Jaccard igual a 0,452. Para o grupo das cultivares semi-nobre, observou-se que as cultivares Amarante e Gigante Curitibanos são as mais próximas entre si (índice de Jaccard = 0,860) e a cultivar Cateto Roxo mostrouse mais distante geneticamente em relação à cultivar Gravatá (índice de Jaccard = 0,429). Tabela 1 - Matriz de distâncias genéticas entre as doze cultivares de alho analisadas*. Chon. R. P. Caç. G. Rx. G. Cur. G. Rxão Amar. C. Rx. Caç. 30 Quit. 595 C. 12 C. 40 Grav. Chon. R. P. Caç. G. Rx. G. Cur. G. Rxão Amar. C. Rx. Caç. 30 Quit. 595 C. 12 C. 40 0,637 0,282 0,270 0,284 0,261 0,253 0,467 0,550 0,569 0,571 0,299 0,287 0,293 0,245 0,290 0,452 0,584 0,555 0,525 0,837 0,690 0,760 0,542 0,375 0,379 0,385 0,414 0,728 0,860 0,538 0,371 0,375 0,381 0,411 0,750 0,641 0,313 0,350 0,323 0,347 0,534 0,395 0,348 0,379 0,408 0,293 0,307 0,279 0,307 0,646 0,654 0,650 0,855 0,726 0,800 Grav. 0,335 0,312 0,603 0,589 0,521 0,573 0,429 0,425 0,410 0,435 0,500 *Em que: Chon. = Chonan; R. P. Caç. = Roxo Pérola Caçador; G. Rx. = Gigante Roxo; G. Cur. = Gigante Curitibanos; G. Rxão = Gigante Roxão; Amar. = Amarante; C. Rx. = Cateto Roxo; C. 30 = Caçador 30; Quit. 595 = Quitéria 595; C. 12 = Contestado 12; C. 40 = Caçador 40; Grav. = Gravatá. Constatou-se que houve relação entre a região de cultivo das cultivares e a formação dos grupos pela técnica do marcador molecular. O primeiro grupo foi formado pelas cultivares nobres (Chonan, Roxo Pérola de Caçador, Caçador 30, Quitéria 595, Contestado 12, Caçador 40). Essas cultivares têm em comum a necessidade de serem vernalizadas antes do plantio nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e em alguns microclimas de baixas temperaturas na região Nordeste. Outra características dessas cultivares é que freqüentemente apresentam o fenômeno do pseudoperfilhamento (que é uma característica indesejável). O segundo grupo foi formado pelas cultivares semi-nobres (Gigante Roxo, Gigante Roxão, Amarante, Cateto Roxo, Gravatá e Gigante Curitibanos) ou que não precisam de vernalização para a formação do bulbo. Agrupamento morfológico Observa-se na Tabela 2 que houve a formação de dois grupos, sendo o primeiro constituído pelas cultivares Caçador 40, R. P. Caçador, Caçador 30, Quitéria 595 e Contestado 12, que são consideradas nobres e provenientes do Sul do Brasil; e o segundo grupo formado pelas cultivares Gig. Roxão, Gig. Roxo, Amarante, Cateto Roxo, Gravatá, Gig. Curitibanos, que são alhos do grupo semi-nobre, cultivados em Minas Gerais. Foi também inserida nesse grupo a cultivar Chonan, que pertence ao grupo dos alhos nobres. Foi observado que as características morfológicas são influenciadas pelas condições edafoclimáticas e que uma cultivar pode apresentar diferenças quando analisada somente por seu atributos morfológicos. Para a cultura do alho, verifica-se que o grau de acúmulo de viroses também influencia os aspectos visual e produtivo da cultura. Tabela 2 - Matriz de distâncias euclidianas entre as doze cultivares de alho analisadas*. G. Rxão Amar. G. Rx Grav. G. Cur. C. Rx C. 12 C. 30 Quit. 595 R. P. Caç. C. 40 Chon. G. Rxão Amar. 10,090 G. Rx 3,453 7,928 Grav. 7,403 11,995 5,463 G. Cur. 9,509 11,983 6,895 2,659 C. Rx 7,628 8,024 6,267 8,267 9,224 C. 12 8,612 17,040 10,320 11,167 13,028 15,755 C. 30 8,194 13,146 8,116 9,679 10,677 13,607 7,025 Quit. 595 8,211 15,012 7,874 5,728 7,110 12,712 6,626 7,106 R. P. Caç. 8,194 9,057 6,163 8,083 8,204 10,300 11,596 5,566 C. 40 8,434 14,302 9,293 10,708 12,268 12,330 9,980 6,430 Chon. 10,228 11,252 7,560 5,474 4,371 9,887 13,583 9,130 9,031 9,909 8,304 7,760 5,596 10,281 *Em que: G. Rxão = Gigante Roxão; Amar. = Amarante; G. Rx. = Gigante Roxo; Grav. = Gravatá; G. Cur. = Gigante Curitibanos; C. Rx. = Cateto Roxo; C. 12 = Contestado 12; C. 30 = Caçador 30; Quit. 595 = Quitéria 595; R. P. Caç. = Roxo Pérola Caçador; C. 40 = Caçador 40; Chon. = Chonan. Deve-se atentar para o fato de que as características morfológicas são ferramentas auxiliares no agrupamento de cultivares muito ou pouco semelhantes. E que para a cultura do alho se faz necessário que se trabalhe com maior número de características morfológicas possíveis para ser ter maior confiabilidade dos resultados. Agrupamento genético x agrupamento morfológico Para a diversidade morfológica foram obtidas 66 estimativas de similaridade entre as 12 cultivares de alho, com estimativa média de 9,19% e amplitude de 2,66% a 17,04%. Já para a diversidade genética foram obtidas 66 estimativas de similaridade genética entre as 12 cultivares de alho, com estimativa média de 47% e amplitude de 24% a 86%. As cultivares nobres formaram um grupo com 57,1% de similaridade e as cultivares seminobres, um grupo com 54,2% de similaridade. Comparando o dendrograma das características morfológicas (Figura 1a) com os resultados obtidos da análise de DNA pela técnica de RAPD (Figura 1b), observa-se que houve diferença, pois a técnica molecular agrupou coerentemente as doze cultivares de alho, separando-os em dois grupos. Sendo que o agrupamento que ocorreu para as características morfológicas, não correlaciona de forma adequada o agrupamento com a origem das mesmas. Este resultado pode ser devido a cultura do alho sofrer grande influencia das características edafoclimáticas associada ao possível acúmulo de viroses ao longo do seu ciclo de multiplicação. a b Figura 1 - Dendrograma de similaridade das cultivares de alho: a) similaridade morfológica, b) similaridade genética. CONCLUSÕES Pela análise molecular (RAPD) as cultivares são geneticamente distintas entre si, apesar das semelhanças fenotípicas. A técnica de RAPD é útil para caracterizar geneticamente cultivares de alho (Allium sativum L.), considerando a qualidade da amplificação e o nível do polimorfismo entre as cultivares. As características morfológicas e físico-químicas não foram eficientes na seleção de cultivares mais aptas para os grupos nobre e semi-nobre, sendo necessário trabalhar com um maior número de características. As matrizes de características morfológicas não agruparam coerentemente as cultivares de alho conforme sua origem. LITERATURA CITADA MOTA, J. H. Diversidade genética e características morfológicas, físico-químicas e produtivas de cultivares de alho (Allium sativum L.). 2003. 66 p. Tese (Doutorado em Fitotecnia) - Universidade Federal de Lavras, Lavras/MG. ROHLF, F. J. Numerical taxonomy and multivariate analysis system: version 2. 02. New York, 1992. (Software) STATSOFT. Statistica for Windows, versão 5.0. 1995. (Software estatístico)