231 FLUXO DE CARGA DESACOPLADO RÁPIDO CONTINUADO PARA DETERMINAÇÃO DO PONTO DE MÁXIMO CARREGAMENTO DE SISTEMAS ELÉTRICOS DE POTÊNCIA PARTE II: ANÁLISE DE RESULTADOS Elisabete de Mello Magalhães 1, Alfredo Bonini Neto 2, Dilson Amancio Alves 3 1 UNESP - Departamento de Engenharia Elétrica, Ilha Solteira – Brasil, elisabete.magalhã[email protected] 2 UNESP - Departamento de Engenharia Elétrica, Ilha Solteira – Brasil, [email protected] 3 UNESP - Departamento de Engenharia Elétrica, Ilha Solteira – Brasil, [email protected] Resumo: Neste trabalho são apresentados os resultados da aplicação do método de fluxo de carga desacoplado rápido continuado modificado para o traçado das curvas P-V e obtenção do ponto de máximo carregamento. Foram realizados testes com dois sistemas do IEEE (o de 118 e o de 300 barras) e com duas versões reais e de grande porte do sistema elétrico de potência brasileiro: o sistema SUL/SULDESTE-638 barras e o SUL/SULDESTE-787 barras. Palavras-Chave: Fluxo de carga, curvas P-V, método da continuação. 1. INTRODUÇÃO Na parte I do trabalho foi apresentada uma nova técnica de parametrização obtida a partir da análise geométrica das trajetórias de soluções das equações do Fluxo de Carga (FC) apresentadas em [1], as quais devido à parametrização geométrica associam a robustez com a simplicidade e a facilidade de interpretação. Para a obtenção da solução do problema adicionaram-se equações de retas que passam por um ponto no plano formado pelas respectivas variáveis: magnitude da tensão nodal de uma barra k qualquer (Vk) e o fator de carregamento (). O desenvolvimento do método denominado por Fluxo de Carga Desacoplado Rápido Continuado Modificado (FCDRCM), e que foi apresentada na parte I do trabalho [2], segue os mesmos passos dos métodos apresentados em [3]; [4]; e [5], ou seja, a versão desacoplada foi obtida a partir da versão que utiliza o método de Newton desacoplado e o método da continuação [6] (FCNDC). Neste trabalho são apresentados os resultados da avaliação do desempenho desse método. Para isso, foram realizados diversos testes com os sistemas do IEEE 118 e 300 barras [7] e com os dois sistemas elétricos de potência reais do sistema brasileiro: o sistema SUL/SULDESTE-638 barras e o SUL/SULDESTE-787 barras. A versão Newton desacoplada FCNDM mostrou-se mais eficiente, no que se refere à escolha das coordenadas do centro do feixe de retas, do que a correspondente versão desacoplada. A versão FCNDM possibilita a mudança do centro do feixe de retas no plano formado pelas respectivas variáveis: magnitude da tensão nodal de uma barra k qualquer e o fator de carregamento. Isso possibilita, ao contrário da versão FCDRCM, o uso da magnitude de tensão de qualquer barra para a definição do feixe de retas, incluindo as barras cuja magnitude de tensão permanece constante ao longo de uma faixa da curva P-V e também as que apresentam coincidência dos noses. A coincidência dos noses ocorre quando tanto o fator de carregamento quanto a magnitude da tensão apresentam uma inversão simultânea na sua tendência de variação. As razões para tal comportamento encontram-se ainda em fase de investigação, mas os resultados já obtidos, em especial para os sistemas de grande porte, são animadores. Assim no caso da versão FCDRCM aqui apresentada, a principal desvantagem em relação à versão FCNDC seria, no caso da escolha da magnitude de tensão de uma barra com coincidência de noses, a necessidade de mudança de plano para a obtenção do ponto de máximo carregamento (PMC). Essa desvantagem pode ser facilmente contornada com o uso da técnica de parametrização local proposta em [8]. Neste caso, a técnica de parametrização local seria empregada não para a escolha do novo parâmetro da continuação, mas sim para a escolha da nova barra cuja magnitude de tensão seria usada para a definição do novo plano, o parâmetro continuaria sendo o mesmo, ou seja, o coeficiente angular da reta (). 2. RESULTADOS A técnica adotada no passo preditor é o de ordem zero, que usa a solução atual e um incremento fixo no parâmetro (Vk ou, eno caso do método proposto ) como uma estimativa para a próxima solução. Para todos os testes realizados, a tolerância adotada para os mismatches foi de 10–4 p.u. O primeiro ponto de cada curva é obtido com o método de FC convencional. Os limites de potência reativa (Q) nas barras PV's são os mesmos utilizados no método convencional de FC. Em cada iteração a geração de reativos de cada uma essas barras é comparado com seus respectivos limites. No caso de violação, ela é alterada para tipo PQ. Estas barras podem voltar a ser PV nas iterações futuras. As cargas são modeladas como de potência constante e o 232 FLUXO DE CARGA DESACOPLADO RÁPIDO CONTINUADO PARA DETERMINAÇÃO DO PONTO DE MÁXIMO CARREGAMENTO DE SISTEMAS ELÉTRICOS DE POTÊNCIA PARTE II: ANÁLISE DE RESULTADOS Elisabete de Mello Magalhães, Alfredo Bonini Neto, Dilson Amancio Alves parâmetro é usado para simular incrementos de carga ativa e reativa, considerando fator de potência constante. Cada aumento de carga é seguido por um aumento de geração equivalente usando . Em todos os casos o passo (incremento) e o número máximo de meia-iterações considerados foram de 0,05 e 30, respectivamente. A seguir são apresentados os principais resultados já obtidos com a versão BX do FCDRCM. O traçado da curva P-V foi obtido considerando duas alternativas: na primeira foi considerado o conjunto de retas paralelas à reta que passa pela origem e pelas coordenadas do ponto correspondente ao caso base, ponto P nas figuras que se seguem; e na segunda foi considerado o conjunto de retas que passa pela origem (0; 0), ponto O nas figuras e que é o centro de feixe de retas, e os pontos da curva P-V obtidos incrementando gradualmente (i.e., com um passo fixo) o valor do coeficiente angular da reta (α). Em ambas as alternativas a matriz B’ é obtida e fatorada uma única vez. Por outro lado, a matriz B” é obtida e fatorada uma única vez na primeira alternativa, e a cada ponto na segunda alternativa. Observa-se que além disso, a matriz B” deverá ser refatorada sempre que ocorrer mudanças no tipo das barras PV para PQ, e novamente quando da sua redefinição para PQ. Observa-se que mesmo nessas condições, o esforço computacional será bem menor que o da versão Newton devido não só à necessidade de se recalcular a cada iteração todos os elementos da matriz Jacobiana, mas também devido a diferença da ordem de grandeza das matrizes envolvidas, no caso a Jacobiana e a B”. 2.1. Desempenho do Método Proposto (FCDRCM) para o sistema IEEE 118 Na figura 1 apresenta-se a aplicação do FCDRCM, considerando as duas alternativas, para o traçado da curva PV do sistema IEEE-118. Nas figuras 1(a) e (b) são mostradas as curvas P-V da barra crítica, magnitude de tensão da barra 9 (V9) como função de , para as duas alternativas. Nestas figuras podem ser vistos os pontos obtidos ao longo da curva, juntamente com as respectivas retas utilizadas e o ponto P considerado como caso base. O número de iterações necessárias pelo passo corretor pode ser visto na figura 1(c). Seguindo o procedimento, partindo-se do ponto P da figura 1(a) ou (b) e considerando-se um passo de +0,05 para α, o processo diverge para o segundo ponto após o PMC. Observa-se que no caso da figura 1(a) não existira mais solução se o incremento for mantido porque não haverá mais interseção entre a reta e a curva P-V. Já no caso da figura 1(b) a divergência ocorre porque o processo ultrapassa o número máximo de meia-iterações especificado que é de 30. Em ambos os casos o passo de α poderia ser reduzido e assim, mais pontos poderiam ser obtidos. Uma vez que o último ponto obtido já se encontra após o ponto de máximo carregamento (PMC), o cálculo de mais pontos torna-se desnecessário. A figura 1(c) mostra que os números de iterações gastos no traçado permaneceram reduzidos. 2.2. Desempenho do FCDRCM para o IEEE 300 Na figura 2 apresenta-se o desempenho do FCDRCM para o traçado da curva P-V do sistema IEEE-300. Nas figuras 2(a) e (b) são mostradas as curvas P- V da barra crítica, magnitude de tensão da barra 526 (V526) como (a) (b) (c) (d) Fig. 1. Desempenho do método proposto para o sistema IEEE- 118 barras: (a) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas paralelas; (b) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas que passa pelo centro de feixe de retas de coordenadas (0; 0); (c) número de iterações. função de , para as duas alternativas. O número de iterações necessárias pelo passo corretor pode ser visto na figura 2(c). Seguindo o procedimento, partindo-se do ponto P da figura 2(a) ou (b) e considerando-se um passo de +0,05 para , o processo diverge para o terceiro e o quarto ponto após o PMC, respectivamente. Observa-se que a divergência no caso da figura 2(a) e (b) ocorre pelo fato de que no primeiro caso, não existira mais solução se o incremento for mantido porque não haverá mais interseção entre a reta e a curva P-V. Já no segundo caso, porque o processo ultrapassou o número máximo de meiaiterações especificado. Os métodos mostraram-se um pouco mais eficientes para esse sistema do que para o anterior. 2.3 Desempenho do FCDRCM para o SUL-SUDESTE 638 barras e SUL-SUDESTE 787 barras Observa-se que já no caso base o sistema SULSUDESTE 638 encontra-se operando muito próximo de seu PMC. Nas figuras 3(a) e (b), e 4(a) e (b), são mostradas as curvas P-V das respectivas barras críticas, magnitude de 233 (a) (a) (b) (b) (c) (d) (c) Fig. 2. Desempenho do método proposto para o IEEE-300 barras: (a) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas paralelas; (b) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas que passa pelo centro de feixe de retas de coordenadas (0; 0); (c) número de iterações. tensão da barra 150 (V150) e 576 (V576) como função de , para as duas alternativas. Os números de iterações necessárias pelo passo corretor podem ser vistos nas figuras 3(c) e 4(c). Destas figuras verifica-se que os números de iterações gastos no traçado permaneceram reduzidos e que ambas as alternativas mostraram praticamente o mesmo desempenho. As vantagens da primeira alternativa com relação à segunda já foram discutidas no item 2. Com base nestes resultados se constata a viabilidade do uso das versões desacopladas para a obtenção do PMC, mesmo para os sistemas elétricos de potência de grande porte. Entretanto, deve-se ressaltar a necessidade ainda de um estudo mais detalhado dos critérios para se obter qual é a melhor estratégia para realizar a troca do centro do feixe de retas, bem como de, se necessário, se realizar a permuta entre as alternativas. (d) Fig. 3. Desempenho do método proposto para o SUL-SUDESTE 638 barras: (a) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas paralelas; (b) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas que passa pelo centro de feixe de retas de coordenadas (0; 0); (c) número de iterações. 3. CONCLUSÃO Neste trabalho se apresentou a viabilidade do uso do fluxo de carga desacoplado rápido continuado modificado para obtenção do ponto de máximo carregamento dos sistemas elétricos de potência. Foram apresentados resultados para os sistemas IEEE 118 e 300 barras e para as duas versões do sistema brasileiro SUL/SULDESTE: de 638 234 FLUXO DE CARGA DESACOPLADO RÁPIDO CONTINUADO PARA DETERMINAÇÃO DO PONTO DE MÁXIMO CARREGAMENTO DE SISTEMAS ELÉTRICOS DE POTÊNCIA PARTE II: ANÁLISE DE RESULTADOS Elisabete de Mello Magalhães, Alfredo Bonini Neto, Dilson Amancio Alves da curva P-V obtidos incrementando gradualmente (i.e., com um passo fixo) o valor do coeficiente angular da reta. Da análise dos resultados verifica-se que ambas as alternativas propostas obtêm êxito na determinação do PMC com um número reduzido de iterações, e, portanto, podem ser considerados como uma boa opção para aplicação nos estudos de análise estática de estabilidade de tensão. (a) AGRADECIMENTOS Os autores agradecem a CAPES, ao CNPq e a FAPESP pelo apoio financeiro. REFERENCES [1] D. A. Alves; L. C. P. Silva; C. A. Castro; V. F. Costa. Esquemas Alternativos para o Passo de Parametrização do Método da Continuação Baseados em Parâmetros Físicos. SBA. Sociedade Brasileira de Automática, v. 13, n. 3, p. 275-289, 2002. (b) [2] E. M. Magalhães; A. B. Neto; D. A. Alves. Fluxo de Carga Desacoplado Rápido Continuado para Determinação do Ponto de Máximo Carregamento de Sistemas Elétricos de Potência Parte I: 10th Brazilian Desenvolvimento Teórico, In: Conference on Dynamics, Control and Applications_DINCON'2011. Águas de Lindóia (SP), Setembro 2011 (Editoração Eletrônica – CD: 04 pp.). [3]DOI D. A. Alves; L. C. P. Silva; C. A. Castro; V. F. Costa. Continuation Fast Decoupled Power Flow with Secant Predictor. IEEE Transactions on Power Systems, Estados Unidos, v. 18, n. 03, p. 1078-1085, 2003. (c) (d) Fig. 4. Desempenho do método proposto para o SUL-SUDESTE 787 barras: (a) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas paralelas; (b) magnitude da tensão na barra crítica como função do carregamento, obtida considerando conjunto de retas que passa pelo centro de feixe de retas de coordenadas (0; 0); (c) número de iterações. e de 787 barras. Foi analisado o desempenho da versão BX do fluxo de carga desacoplado rápido modificado que acrescenta à resolução do problema do fluxo de carga a equação da reta que passa por um ponto no plano formado pelas variáveis: fator de carregamento e magnitude da tensão nodal de uma barra k qualquer. Foram avaliadas duas alternativas: uma que considera o conjunto de retas paralelas à reta que passa pela origem e pelas coordenadas do ponto correspondente ao caso base; e uma outra que considera o conjunto de retas que passa pela origem, centro do feixe de retas, e pelos pontos [4] D. A. Alves; L. C. P. Silva; C. A. Castro; V. F. Costa. Determinação do Ponto de Máximo Carregamento de Sistemas de Potência Utilizando o Fluxo de Carga Desacoplado Rápido Parametrizado. SBA. Sociedade Brasileira de Automática, Brasil, v. 14, n. 02, p. 151165, 2003. [5]DOI D. A. Alves; L. C. P. Silva; C. A. Castro; V. F. Costa. Alternative Parameters for the Continuation Power Flow Method. Electric Power Systems Research, Estados Unidos, v. 66, n. 2, p. 105-113, 2003. [6] E. M. Magalhães; A. B. Neto; D. A. Alves. Obtenção do Ponto de Máximo Carregamento de Sistemas Elétricos de Potência Utilizando o Método Desacoplado de Newton, In: Transmission and Distribution Conference and Exposition: Latin America, 2010 IEEE/PES. Proceedings. São Paulo (SP), Novembro 2010, Power System, (Editoração Eletrônica – CD: 06 pp.) [7] Web site da Universidade de Washington. Power Systems Test Case Archive. Disponível em: <www.ee.washington.edu/research/pstca/>. Acesso em: 01 de março de 2011. [8]DOI V. Ajjarapu e C. Christy. 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