___________________________________________________________ PERFIL NUTRICIONAL DOS PACIENTES DE PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIA BARIÁTRICA NUTRITIONAL PROFILE OF PATIENTS POST-BARIATRIC SURGERY GIULIA SARAH GOMES Graduanda em Nutrição pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – Unileste-MG E-mail: [email protected] MICHELLE DE ASSIS ROSA Graduanda em Nutrição pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – Unileste-MG E-mail: [email protected] HELENISE RAMOS MENDES FARIA Docente do Curso de Nutrição do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG E-mail: [email protected] RESUMO O objetivo deste trabalho foi traçar o perfil nutricional de indivíduos após o tratamento cirúrgico (técnica Fobi-Capella) no período de 6 meses a 1 ano. Foram avaliados 18 pacientes, de ambos os sexos, pacientes do ambulatório de Nutrição do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais. A perda de peso mostrou-se efetiva, com redução do índice de massa corporal (IMC) de 42,2 ± 6,1kg/m² para 29,6 ± 4,7kg/m², a perda média de peso foi de 32,8 ± 12,1kg após 6 a 9 meses e de 38,2 ± 10,0kg após 10 a 12 meses. Houve melhora das complicações associadas à obesidade. De acordo com o percentual de gordura corporal (%GC) encontrado, 7 (87,5%) mulheres e 7 (87,5%) homens estavam obesos. Em relação à ingestão alimentar diária, os pacientes com o pós-cirúrgico de 6 a 9 meses consumiam em média 999,8 ± 364,2kcal/dia, com taxa de metabolismo basal (TMB) de 1922,3 ± 364,2kcal/dia, dos 10 a 12 meses de pós-operatório a média consumida foi de 1153,4 ± 488,7kcal, tendo a TMB de 1671,8 ± 290,6kcal/dia. A baixa ingestão alimentar desses pacientes garantiu a desejada perda de peso. Os alimentos mais consumidos foram: feijão, arroz e pães, houve também um grande consumo de alimentos gordurosos e açúcares simples, o que poderia levar ao insucesso do tratamento. Com esse estudo verificou-se a necessidade de um acompanhamento do estado nutricional desses pacientes a curto e longo prazo para a manutenção de perda de peso e reeducação alimentar, garantindo o sucesso do tratamento. Palavras-chave: obesidade, cirurgia bariátrica, perfil nutricional. ABSTRACT This work aims to identify the nutritional profile of individuals who experienced bariatric surgery (fobi - Capella technique), with post-surgery period from six months to 1 year. 18 patients, of both sexes, were assessed in the nutritional evaluation ambulatory at Centro Universitário do Leste de Minas Gerais. For the nutritional profile of these patients, it can be seen that the weight loss was effective, with reduction of BMI 42,2 ± 6,1 kg/m2 to 29,6 ± 4,7 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. ___, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ kg/m², the average loss of 32,8 ± 12,1 kg weight in post-surgery period of 6 to 9 months and 38,2 ± 10,0 kg from 10 to 12 months. There was reduction of symptoms of obesity comorbities presented previously to the surgery, once these results are similar to the specialized literature. In accordance with the %GC found in 7 (87,5%) women and 7 (87,5%) men were obese. About the daily dietary intake, patients with post surgical period from 6 to 9 months consume on average 999,8 ± 364,2 kcal / day and has BMT 1922, 3 ± 364,2 kcal per day, of 10 to 12 months of post-operative average consumed is 1153, 4 ± 488,7 kcal, taking the BMT of 1671,8 ± 290,6 kcal per day. The low dietary intake of these patients ensures the desired weight loss. The consumed food were: bean, rice and bread, and there was also a large consumption of food and simple sugars, what could lead to treatment failure. In this study there is a need for monitoring the nutritional status of patients in the short and long-term maintenance of weight loss and food education, ensuring the success of treatment. Key words: obesity, bariatric surgery, nutritional profile. INTRODUÇÃO A obesidade mórbida é uma doença multifatorial sendo definida pelo excesso de tecido adiposo no organismo classificada por índice de massa corporal (IMC) acima de 40 kg/m², e tem tomado grandes proporções dentro da população. A cirurgia bariátrica tem sido a melhor opção como tratamento eficaz para indivíduos que sofrem da obesidade mórbida, com resultados mais rápidos e duradouros, dentre as demais terapias existentes (SEGAL; FANDIÑO, 2002). Além do sucesso na perda de peso, a cirurgia traz uma melhor qualidade de vida para esses pacientes, ajudando nos aspectos psicológicos e sociais. Estudos têm relatado uma redução ou até mesmo cura de comorbidades existentes, acrescentando maiores benefícios ao tratamento (FARIA et al., 2002; VALEZI et al., 2004). Dentre as diversas técnicas cirúrgicas o bypass Gástrico em Y de Roux (Fobi-Capella) é considerado padrão-ouro e atualmente a mais realizada, devido aos resultados expressivos com menor reincidência da obesidade e aceitáveis índices de morbimortalidade (FARIA et al., 2002; GARRIDO JÚNIOR et al., 2006). Para efetivar melhores resultados no pós-cirúrgico, é necessário que haja harmonia entre os profissionais da saúde envolvidos. A equipe que irá acompanhar o paciente deve ser composta por médicos, psicólogos e nutricionistas. Nesta equipe, o nutricionista tem a função de garantir a manutenção da perda de peso com saúde por meio do acompanhamento pessoal e ininterrupto (FARIA et al., 2002; QUADROS et al., 2005). 463 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ Alguns dados antropométricos são essenciais para a avaliação do resultado do processo cirúrgico como aferição da altura, peso, massa muscular, dentre outros. O teste de bioimpedância é usado para estimar o percentual de água corporal total, massa livre de gordura e a massa gorda. Neste sentido, o objetivo deste trabalho foi traçar o perfil nutricional de indivíduos que realizaram cirurgia bariátrica, com pós-operatório no período de seis meses a um ano. MATERIAIS E MÉTODOS O presente estudo consistiu em delineamento transversal e quantitativo. Foi realizado um levantamento prévio de 50 pacientes, porém devido aos critérios de exclusão e a não adesão, participaram da pesquisa 18 pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, técnica FobiCapella. Os pacientes foram atendidos em ambulatório de nutrição do laboratório de avaliação nutricional do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste-MG), no período de 13 de março a 30 de abril de 2009 após terem assinado o termo de consentimento livre esclarecido. Foram incluídos no estudo pacientes com pós-operatório de seis meses a um ano e que se dispuseram a participar da pesquisa. Foram excluídos os indivíduos que apresentaram marcapasso ou outro dispositivo que impossibilitasse a realização do exame de bioimpedância e gestantes devido às alterações fisiológicas que ocorrem nessa fase. Os resultados foram analisados e dispostos por meio de tabelas e gráficos pelo programa Microsoft Office Excel 2003. Foi elaborado um protocolo pelas pesquisadoras para a avaliação dos pacientes e com a aplicação do mesmo, obtiveram-se informações sociodemográficas (nome completo, idade, sexo, profissão e data da cirurgia); história pregressa de patologias através do relato do paciente (dislipidemia, diabetes, apneia do sono e hipertensão); sintomas pós-cirúrgico (edema, síndrome de dumping, anorexia, diarreia, constipação intestinal, náuseas, vômitos, estomatite, mucosite, pele ressecada, unhas quebradiças e enfraquecidas, cabelo quebradiço/alopécia, dormência e câimbras musculares - membros inferiores e superiores, fraqueza, desanimo, ansiedade, fadiga, insônia, depressão e perda de memória); história patológica atual. 464 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ Obtiveram-se também dados antropométrico e clínico, com peso atual, aferido através da balança antropométrica mecânica adulto 150 kg Welmy; peso pré-cirúrgico, recolhido através do relato do paciente; altura, por meio da balança antropométrica mecânica adulto 150 kg Welmy; IMC (peso/altura²) atual e pré-cirúrgico; e análise corporal pelo método de bioimpedância elétrica utilizando o monitor Biodynamics modelo 450, fornecendo os resultados de taxa metabólica basal (TMB), percentual de massa magra (MM) percentual de massa gorda (%GC) e água corporal total em relação à massa magra (ACT/MM). A análise da composição corporal pela bioimpedância elétrica fundamenta-se nos diferentes níveis de condutibilidade elétrica dos tecidos corpóreos expostos. Por ter grande quantidade de água e eletrólitos, os tecidos magros são potentes condutores de corrente elétrica (RODRIGUES et al., 2001; GUEDES; GUEDES, 2003; CUPPARI, 2005). A água corporal é disposta nos espaços intra e extracelular, sendo que em indivíduos não obesos, a água intracelular contém maior volume, de 50 a 60%, e o líquido extracelular tem os índices de 40 a 50% do peso corporal total. A desidratação e a hiperidratação significam, respectivamente, a diminuição ou o aumento do volume hídrico corpóreo. Devido à taxa da razão de líquido extracelular por intracelular (3 ou 4:1) ser aumentada no tecido adiposo, os obesos apresentam o líquido corporal total expressivamente elevado em relação aos não obesos (MARQUEZE; LANCHA JUNIOR, 1998; CEZAR, 2002). Para classificação do %GC foi considerado os parâmetros de acordo com Lohman (1992), sendo adequado de 9 a 22% para o sexo feminino e 6 a 14% para masculino. O teste foi realizado com o paciente deitado em decúbito dorsal com as pernas afastadas e os braços em paralelo afastados do tronco; sendo os eletrodos pletismógrafos colocados em superfície dorsal da mão e do pé do lado direito. Foi necessária uma preparação para realização do exame, assim, os pacientes foram aconselhados a não ingerir bebida alcoólica 48 horas antes, não realizar atividades físicas intensas em 24 ou 04 horas anteriormente e urinar pelo menos 30 minutos antes do teste. Houve aplicação de dois métodos de inquérito alimentar, o recordatório 24 horas de um dia para a verificação da ingestão calórica diária e questionário de frequência do consumo alimentar (QFCA) para avaliar as possíveis tolerâncias alimentares no pós-operatório. RESULTADOS E DISCUSSÃO 465 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ Dentre os 18 pacientes avaliados, oito eram do sexo masculino (44,5%) e 10 do feminino (55,5%). A idade variou entre 19 a 57 anos com média de 34,6 ± 11,0 anos. A média de peso dos pacientes no pré-operatório foi de 118,3 ± 20,8kg, variando de 88 a 155 kg e a média de IMC foi de 42,2 ± 6,1kg/m² (mín: 34,8; máx: 53,7kg/m²), sendo classificado como obesidade classe III com risco de comorbidades muito graves de acordo com a tabela da Organização Mundial da Saúde (OMS) (1998). Faria et al. (2002) apresentaram em seu estudo 160 pacientes avaliados com média de peso no pré-operatório de 125,9 ± 25,3kg e IMC de 45,8 ± 6,0kg/m², onde 19 destes pacientes apresentaram pelo menos uma comorbidade grave relacionada com a obesidade e possuíam um IMC de 35 a 40kg/m² no préoperatório. Encontram-se na Tabela 1 os dados antropométricos do pré e pós-operatório. A média de perda de peso no período pós-operatório de 6 a 9 meses foi de 32,8 ± 12,1kg (mín: 19; máx: 58kg), correspondendo a 26,9% da perda e IMC de 32,2 ± 4,5kg/m². Quanto ao póscirúrgico de 10 a 12 meses, a média de perda de peso foi de 38,2 ± 10,0kg (mín: 29; máx: 56kg), correspondendo a 33,2% da perda e IMC de 27,0 ± 3,3kg/m². Tabela 1 - Valores médios e desvio padrão de peso e IMC dos pacientes avaliados no pré e pós-operatório, Ipatinga, 2009. 6 A 9 MESES PESO (kg) IMC (kg/m²) 10 A 12 MESES PRÉ PÓS n=7 n=7 PRÉ n = 11 PÓS n = 11 121,8 ± 23,5 89,0 ± 16,4 114,9 ± 16,5 76,7 ± 12,5 44,0 ± 6,9 32,2 ± 4,5 40,5 ± 4,1 27,0 ± 3,3 Anderi Júnior et al. (2007) verificaram a perda de peso na cirurgia by pass em Y de Roux no período de um ano após a cirurgia e encontraram uma média de perda de peso, variando entre 32,31 para os indivíduos do sexo feminino e de 42,53 kg para os indivíduos do sexo masculino. Ferraz et al. (2003) encontraram uma porcentagem de perda de peso de 29,4% para 6 meses de pós-operatório e de 40 a 41% de perda de peso com 1 ano de pósoperatório classificando-as como excelente. De acordo com Carvalho et al. (2007), a média de diminuição de IMC de 49,4 kg/m² para 32,9 kg/m² com um ano de pós-operatório. No estudo de Faria et al. (2002) houve a diminuição do IMC de 45,8kg/m² para 33,9kg/m² em 7,2 meses de pós-operatório. 466 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ O índice de água corporal total/massa magra (ACT/MM) indica normalidade quando está entre os valores de 69 a 75% (CEZAR, 2002). Nos pacientes avaliados, 16 (88,9%) estavam adequados e 2 (11,1%) foram excluídos da avaliação de composição corporal por estarem com os valores de ACT/MM alterados (Tabela 2). Através da avaliação do %GC é possível diagnosticar as prováveis anormalidades nutricionais, além de identificar precocemente os riscos à saúde associados aos níveis altos de gordura corporal (CEZAR, 2002). No presente estudo, de acordo com o %GC encontrado, 7 (87,5%) pacientes do sexo feminino e 7 (87,5%) do masculino foram classificados como obesos. Nesses pacientes, mesmo no pós-operatório de um ano, o percentual de massa gorda, tanto no sexo feminino quanto no masculino, continuava elevado, porém mesmo esses pacientes encontravam-se em descendência de peso (Tabela 2). Tabela 2 - Avaliação dos resultados do teste de bioimpedância, contendo as médias dos resultados dos pacientes avaliados, Ipatinga, 2009. HOMEM 6 a 9 meses 10 a 12 meses n=4 n=3 MULHER 6 a 9 meses 10 a 12 meses n=5 n=4 Massa Magra (%) 73,3 ± 7,2 73,0 ± 11,9 63,8 ± 6,2 68,0 ± 4,0 Massa Gorda (%) 26,7 ± 7,2 27,0 ± 11,9 36,2 ± 6,2 32,0 ± 4,0 Água Intracelular (%) 57,1 ± 2,4 50,6 ± 9,9 51,7 ± 1,9 51,0 ± 1,8 Água Extracelular (%) 42,7 ± 2,3 49,3 ± 9,9 48,2 ± 1,9 48,9 ± 1,8 ACT/MM (%) 73,3 ± 1,1 72,1 ± 0,5 72,1 ± 1,4 71,6 ± 0,5 Entre os pacientes que participaram da amostra, alguns relataram possuir antes da cirurgia algumas doenças. Apenas 5 (27,8%) dos pacientes não relataram nenhuma das patologias citadas (Figura 1). 467 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ HISTÓRIA HistóriaPREGRESSA pregressa 18 15 12 9 6 3 0 50% 44,4% 38,9% 27,8% Dislipidemia Diabetes Apneia Hipertensão Mellitus Tipo 2 Figura 1 – Co-morbidades relatadas pelos pacientes antes da cirurgia bariátrica, Ipatinga, 2009. Todos os pacientes que relataram apresentar a apneia do sono antes da cirurgia descreveram o desaparecimento dos sintomas no pós-operatório. Ceneviva et al. (2006) encontraram em seu estudo 83,6% dos pacientes com apneia obstrutiva do sono, solucionado após a cirurgia. A apneia é uma doença crônica e progressiva que ocorre associada à obesidade devido a deposição de gordura nas vias aéreas, sendo sua incidência mais comum em obesos que possuem maior acúmulo de gordura na porção alta do abdome (MANCINI et al., 2000; GONZAGA et al., 2005). Dos pacientes que apresentaram dislipidemias no pré-operatório, 8 (44,5%) relataram uma melhora no perfil lipídico. A incidência de dislipidemia está associada a pacientes obesos no pré-operatório e é encontrada com valores variáveis de 21 a 28,7% (FARIA et al., 2002; FERRAZ et al., 2003). Silva e Sanches (2006) e Carvalho et al. (2007) mostraram que no pós-cirúrgico os valores lipídicos (triglicerídeos e LDL-colesterol) tiveram uma redução significativa no período de até 12 meses. Nos pacientes avaliados houve relato da diminuição significativa da glicemia, sendo que o controle da glicemia estava sendo feito apenas com a alimentação. Na literatura, a presença do diabetes mellitus tipo 2 foi de 6,9 a 23,8% dos pacientes no pré-operatório. Estudos mostram a completa remissão de doença entre 82 a 98% dos operados, havendo uma adequação dos valores glicêmicos no período mais próximo dos 12 meses após a cirurgia 468 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ (FARIA et al., 2002; FERRAZ et al., 2003; MARTINS; SOUZA, 2007; DINIZ et al., 2008; LIMA et al., 2008). Quanto a hipertensão arterial sistêmica (HAS), três (16,6%) pacientes relataram uma melhora dos níveis pressóricos, 1 (5,5%) paciente suspendeu o uso dos medicamentos antihipertensivos e 3 (16,6%) mantêm a medicação prescrita antes da cirurgia. Estudos mostram que a hipertensão arterial atinge grande parte de obesos, acometendo aproximadamente 63% no pré-operatório, havendo melhora significativa dos níveis pressóricos no pós-cirúrgico (FARIA et al., 2002; FERRAZ et al., 2003; CUNHA et al., 2006; DINIZ et al., 2008). É comum o paciente apresentar várias intercorrências no pós-cirúrgico, tendo complicações como: unhas quebradiças; secura da pele; queda de cabelo (alopécia); síndrome de dumping; anemia megaloblástica; náuseas; vômitos; diarreia; constipação; e refluxo gastroesofágico (CLAUDINO; ZANELLA, 2005; FRANCISCO et al., 2007). No presente estudo os sintomas mais apresentados pelos pacientes estão apresentados na Figura 2. De acordo com Mafra e Cozzolino (2004), a alopécia ocorre devido à deficiência de zinco, proteínas e ácidos graxos essenciais. Anderi Júnior et al. (2007) relataram uma porcentagem de 23,1% de queixas quanto à queda de cabelo. Desanimo Pele ressecada Dormência e cãimbras musculares Ansiedade Unhas quebradiças/Enfraquecidas Diarréia Sídrome de Dumping Náuseas Vômitos Fraqueza Cabelo quebradiço/Alopécia 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Figura 2 - Principais sintomas apresentados pelos pacientes no pós-cirúrgico, Ipatinga 2009. 469 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ A diarreia foi descrita como sintoma inicial do pós-cirúrgico, persistindo por pouco tempo, durante a dieta líquida ou ingestão de alimentos muito gordurosos. Isto faz relação com a osmolaridade estomacal e absorção dos nutrientes, que ficam em defasagem pela pequena porção do estômago atual no paciente (ELLIOT, 2003; GARRIDO JÚNIOR et al., 2006; VALEZI et al., 2008). Dentre os sintomas clínicos, a síndrome de dumping é um sintoma muito característico no pós-cirúrgico da técnica Fobi-Capella, sendo um aliado para proporcionar a perda de peso. A síndrome de dumping é o conjunto de sintomas ocorridos após as refeições como desconforto abdominal, fraqueza e tremores, sudorese, palidez, vertigem e taquicardia surgido devido ao rápido esvaziamento gástrico em virtude da nova capacidade estomacal desproporcional a quantidade de alimentos ingeridos, ocorrendo principalmente após a ingestão de carboidratos simples (FANDIÑO et al., 2004; LEMKE; CORREIA, 2007; SANCHES et al., 2007). A fraqueza pode ocorrer devido à baixa ingestão alimentar, que geralmente é menor que a taxa metabólica basal (TMB), e/ou pela má digestão dos alimentos, que vão para o jejuno de 10 a 15 minutos após a ingestão, provocando queda do volume sanguíneo (MONTEIRO; ANGELIS, 2007). A TMB é a energia gasta pelo corpo para manter as funções fisiológicas básicas como batimento cardíaco, contração e função muscular e respiração (GIBNEY et al., 2005). Com relação à ingestão alimentar, a análise do recordatório alimentar de 24h para os pacientes de seis a nove meses foi em média 999,8 ± 360,0 kcal/dia e a TMB com média de 1922,3 ±3 64,2kcal/dia. Os pacientes de 10 a 12 meses tiveram a ingestão média de 1153,4 ± 488,7kcal e TMB de valor médio de 1671,8 ± 290,6kcal/dia. De acordo com Gibney et al. (2005), a baixa ingestão alimentar em longo prazo pode desencadear a deficiência de vitaminas e minerais e de sintomas como fraqueza, desânimo e fadiga. O sucesso da perda de peso nos pacientes que passaram pela cirurgia é alcançado por essa baixa ingestão alimentar, devido ao volume gástrico reduzido e a má absorção de nutrientes (GARRIDO JÚNIOR et al., 2006). Valezi et al. (2008) mencionam que nos pacientes de pós-operatório de um ano que operaram pela técnica bypass gástrico em Y de ROUX, os alimentos mais tolerados foram os vegetais (fonte de fibras, vitaminas e minerais) quando bem cozidos, o feijão amassado, caldo 470 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ ou inteiro e os pães. Já os alimentos menos aceitos foram os vegetais crus, arroz e carne de boi. Também em outros estudos citados por esses mesmos autores, os alimentos menos tolerados são os de consistência fibrosa, seca e gordurosa, arroz, vegetais crus e carnes. Com a aplicação do questionário de frequência do consumo alimentar (QFCA) podese perceber que a tolerância dos alimentos é muito variável (Figura 3). De acordo com este inquérito alimentar, os alimentos menos consumidos foram: leite desnatado, refresco em pó, mel, aveia e preparações grelhadas. Este resultado foi influenciado pelo hábito alimentar e não pela intolerância aos alimentos, não podendo relatar os alimentos menos tolerados em virtude do procedimento cirúrgico. Figura 3 - Alimentos com maior consumo diário relatados pelos pacientes, de acordo com o QFCA, Ipatinga, 2009. Ainda em relação ao QFCA, foi notado que dentre os pacientes de seis a nove meses de pós-operatório, o consumo de alimentos ricos em açúcares simples e gordurosos era considerável, mostrando que mesmo após o tratamento cirúrgico, os hábitos alimentares mantiveram-se inadequados (Figura 4). 471 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ Alimentos Ricos em Gorduras e Açúcares Chips ou Similares Doces Salgados (Coxinha, Pastel) Frituras Embutidos Refrigerantes 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Figura 4 – Alimentos consumidos semanalmente ricos em gorduras e açúcares simples relatados pelos pacientes de acordo com o QFCA. Ipatinga, 2009. No presente estudo, dois (11,1%) pacientes continuaram o acompanhamento nutricional. Ressalta-se que a falta de mudança de hábitos alimentares e a reincidência da obesidade nos pacientes que passam por esse tratamento são fatores que podem ocorrer devido à ausência de um acompanhamento nutricional (GARRIDO JÚNIOR et al., 2006). Para perder mais peso e conseguir manter uma menor ingestão calórica é necessária a manutenção de uma dieta equilibrada contendo alimentos ricos em vitaminas e minerais, pequena quantidade de gorduras e quantidades moderadas de carboidratos e proteínas. A inserção precoce de açúcares simples e gorduras e em grande quantidade pode levar ao insucesso desse tratamento, por isso a reeducação alimentar se torna fundamental (GARRIDO JÚNIOR et al., 2006). CONCLUSÃO A perda de peso foi efetiva, com redução do IMC e diminuição dos sintomas das comorbidades relacionadas à obesidade apresentadas no pré-operatório. A %GC mostrou-se elevada, resultado da não adesão a hábitos mais saudáveis. Deve-se buscar uma perda de peso 472 _________________________________________________________________________________ NUTRIR GERAIS – Revista Digital de Nutrição, Ipatinga, v. 3, n. 5, p. 462-476, ago./dez. 2009. ___________________________________________________________ de qualidade, e não apenas uma redução ponderal total independente da qualidade de peso, já que a %GC manteve-se elevada. A ingestão alimentar diária foi inferior a TMB, o que garantiu a desejada perda de peso nos pacientes. Os alimentos mais consumidos foram: feijão, arroz, pães, biscoitos, folhosos, legumes, banana, leite integral, queijo e iogurte, houve também um grande consumo de alimentos gordurosos e açúcares simples, o que poderia levar ao insucesso do tratamento. Com esse estudo, verificou-se a necessidade de um acompanhamento do estado nutricional desses pacientes no pré e pós-cirúrgico, a curto e longo prazo, para a manutenção de perda de peso e reeducação alimentar, garantindo o sucesso do tratamento. 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