XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE e PRÉALAS BRASIL 04 a 07 de setembro de 2012 Universidade Federal Piauí, Teresina/PI GT04 - Educação, Cultura e Sociedade As Políticas e os Símbolos no "Governo das Mudanças": O mito de Iracema e as mobilizações indígenas Antônio José M. de Lima (UECE) [email protected] 2012 As Políticas e os Símbolos no "Governo das Mudanças": O mito de Iracema e as mobilizações indígenas Antônio José Morais de Lima1 RESUMO No estado do Ceará, a introdução do discurso do multiculturalismo neoliberal pelo “Governo das Mudanças” nas políticas estatais abriu oportunidade para o reconhecimento dos direitos específicos de grupos sociais que ocupam distintos espaços, tais como "os excluídos", segundo a retórica estatal, bem como negros, quilombolas, índios e outros. Neste artigo procuramos compreender o surgimento do multiculturalismo, com a entrada em cena dos políticos-empresários do Centro Industrial do Ceará (CIC), e como tais atores moldaram as políticas direcionada a indígenas com o retorno ao espaço público de mitos da origem do povo cearense, como é o caso da Índia Iracema, do romance de José de Alencar. Exploramos também como estes símbolos entraram no cálculo político do indigenismo local. Palavras-chave: Governo das Mudanças, Educação Indígena, Etnologia Indígena Introdução Um conjunto de políticas voltadas para os direitos dos povos indígenas no Brasil vão dar nova configuração ao cenário da educação diferenciada direcionada para as comunidades indígena. Dentro do conjunto de políticas e aparatos legais (Constituição Federal de 1988; Lei de Diretrizes e Base da Educação 9.394/96; Decreto n.° 25.970/2000; Resolução n.° 382/2003; etc.) podemos destacar mudanças de ordem político-administrativas, técnicas e pedagógicas, bem como a coordenação política das ações, que mudou da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) para o Ministério da Educação (MEC). O MEC, na continuidade de coordenador das políticas de educação indígena e atendendo as novas normas de ensino, passa para as secretarias de educação dos Estados e Municípios a tarefa 1 Mestrando em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), Bolsista da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP). E-mail: [email protected] de executar, de forma colaborativa (Governo Federal, Estadual e Municipal), as novas políticas voltadas para as escolas diferenciadas. No Estado do Ceará, a Secretaria de Educação Básica (SEDUC) propôs o projeto de Descentralização da Administração e Gestão Participativa que, consequentemente, envolviam as escolas diferenciadas indígenas e o curso de formação de professores indígenas. Mas quando e como surgiram os primeiros indícios de uma política de educação diferenciada indígena no Governo do Estado do Ceará? Os documentos oficiais que estabeleceram os primeiros rumos de uma política para a educação indígena aparecem no Ceará em 1996, quando uma série de políticas específicas são implementadas no âmbito da educação indígena. Mas antes disso, em 1987, uma nova forma de administração pública estava sendo incorporada ao governo do Estado, com ideais de desenvolvimento e modernização. Entram em cena os empresários do Centro Industrial do Ceará (CIC), liderados por Tasso Jereissati, que buscavam uma nova forma de governabilidade através de uma negação do passado, os coronéis. Por conta disso, recebeu nome de “Governo das Mudanças”. Com a entrada em cena dos políticos-empresários do CIC os discursos e ações governamentais no “Governo das Mudanças” são moldados a partir de uma lógica empresarial centrada no desenvolvimento socioeconômico, modelando a criação de políticas na área da indústria e do turismo local, além disso, tais ideais de modernidade influenciaram na criação das políticas culturais, com a resignificação dos mitos da origem do povo cearense e, de uma só vez, afirmando o Estado como sendo composto de um multiculturalismo. Assim, abre espaço para discussões sobre reconhecimento dos direitos específicos dos demais grupos sociais que ocupam os distintos espaços, sejam eles: mestiços, brancos, negros ou índios. O trabalho que procuro desenvolver aqui diz respeito à introdução desse discurso do multiculturalismo pelo “Governo das Mudanças”, inicialmente, nas políticas culturais do Estado e como, a partir daí, o governo passou a pensar as políticas de educação voltadas aos povos indígenas no Ceará. Para tanto, busco reconstituir historicamente a entrada dos empresários do CIC na vida política do Estado, levando Tasso Jereissati a se eleger como Governado do Estado do Ceará em 1987. Trazendo consigo os ideais de modernidade e desenvolvimento para as políticas do Estado. E como tais ideais moldaram as políticas culturais, re-produzindo os mitos da origem do povo cearense e introduzindo o multiculturalismo ao discurso político do Estado. A partir do levantamento de um corpo documental do Governo do Estado do Ceará, de 1998 a 2006, organizados por “gêneros literários” (ALMEIDA, 2008a), busco identificar os discursos oficiais acerca da educação indígena. Na tentativa de descrever parcialmente a constituição de práticas e ações de uma política governamental voltada aos povos indígena no Ceará. “Novos” atores entram em cena: os empresários do CIC Nas eleições de 1986 a coligação Pró-Mudanças2 lança a candidatura de Tasso Jereissati ao governo do Estado contra o candidato dos coronéis, o até então vice-governador, Adauto Bezerra, “assinalando o início de uma época de profundas mudanças políticas e sociais no Estado”. (ABU-EL-HAJ, 2002, p. 83). Segundo Barreira (2002, p. 65), a candidatura de Tasso Jereissati tinha como slogan “governo das mudanças”, “uma construção simbólica de uma temporalidade política”, que buscava uma nova forma de governabilidade através de uma negação do passado, queria, assim, realizar a “ruptura o com os coronéis”, as chamadas “forças do atraso”, e ficou conhecido como “o momento de embate entre o moderno e o tradicional” (PARENTE, 2002, p. 138). Tasso Jereissati faz parte da nova elite cearense, formada a partir de um grupo de empresários ideologicamente homogêneos, tendo seus integrantes empenhados em atividades industriais tradicionais e formada por uma maioria de 2 A Coligação Pró-Mudança reunia os seguintes partidos político: PMDB, PCB, PCdoB e o PDC. (ABU-ELHAJ, 2002, p. 83) empresários cearenses, identificados com os problemas sociais e econômicos do Estado (ABU-EL-HAJ, 2002). Segundo Parente (PARENTE, 2002, p. 131), a formação da nova elite cearense teve início na década 1950, tendo a frente o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) como principal instrumento de formação e socialização, difundindo um ideal desenvolvimentista e modernizador. É a partir da formação incentivada pelo BNB e da constituição do Ceará como o III pólo industrial do Nordeste, que a nova elite cearense surge composta por jovens industriais cearenses que compõem o Centro Industrial do Ceará (CIC). Com o tempo o CIC se tornou a principal voz crítica da sociedade civil contra as elites políticas tradicionais e a sua estrutura econômica, defendendo uma economia competitiva definida por uma ética empresarial (ABU-EL-HAJ, 2002). Em 1986 Tasso Jereissati é eleito para o governo do Estado do Ceará promovendo grandes mudanças, tendo como principal projeto político uma reforma do Estado, na tentativa de trazer de volta a autonomia do setor público, que se encontrava em decadência, consequência do “agravamento do empreguismo, ou a troca de emprego público por lealdade política” (Ibidem, 2002: 89). Dentre as reformas3 que foram realizadas de forma imediata com o inicio do governo Jereissati, na tentativa de minimizar os efeitos negativos no setor público, destacamos a nomeação predominante de técnico para o primeiro escalão de secretários do novo governo, na tentativa de priorizar uma qualidade administrativa e, ao mesmo tempo, ir em direção oposta à práticas clientelistas de apadrinhamento político de uma política tradicional. O perfil do tecnocrata ocasiona mudanças significativas no novo governo. Com formação em cursos de nível superior “esses secretários técnicos mostram [...] uma ênfase na neutralidade das ações e uma obstinação de atingir os objetivos propostos” (PARENTE, 2000, p. 192). 3 Segundo Abu-El-Haj (2002), mais duas importantes medidas foram realizadas: Disciplinamento cotidiano da administração pública, com o intuito de recuperar a hierarquia e o fluxo gerencial normal necessário para o funcionamento harmonioso das instituições governamentais; e recuperação das finanças públicas e da capacidade de investimento do Estado Com relação à Secretaria de Educação, também ocorreram mudanças significativas com o intuito de realização do projeto de modernização do Estado. Para a direção da secretaria foi nomeada inicialmente uma secretaria com um perfil técnico-politico, a professora Nildes Alencar, filiada ao PMDB, veio a ocupar o cargo na Secretaria de Educação em 1988, mas afastada em 1989, foi substituída por José Rosa Abreu Vale, sociólogo, que até então era secretário de Ação Social (BONFIM, 2002, p. 50). Posteriormente, o cargo de secretário da Educação foi preenchido pelo ex-reitor da Universidade de Federal do Ceará (UFC), o professor Dr. Paulo Elpídio de Menezes Neto (PARENTE, 2000, p. 192). Transformações Simbólicas Dando continuidade ao ideário do “Governo das Mudanças”, com iniciativas de modernização e desenvolvimento do estado do Ceará, o novo Governo, liderado por Tasso Jereissati, inicia uma série de mudanças significativas com a finalidade de desenvolver o crescimento do estado. O governo de Tasso Jereissati visa o crescimento socioeconômico, criando assim uma propaganda que possua uma mensagem positiva para atrair investimentos e capital externo, com isso, adotaram-se projetos de desenvolvimento direcionados em dois principais pontos: primeiro, como um atrativo de prosperidade econômica para novas indústrias que aqui se instalassem, numa tentativa de atrair capital nacional e global (FROTA; DA SILVA, 2003; TEIXEIRA JUNIOR, 2005); e segundo, mostrando o estado do Ceará e sua população dotados de uma “vocação natural” para o turismo (ARAGÃO; DANTAS, 2006). O novo período de industrialização do “governo das mudanças” busca atrair a iniciativa privada e novos investimentos através de uma propaganda positiva da política industrial do estado. A fim de atrair investidores o governo cria mecanismos de “propaganda” que seduza investidores interessados, o qual possuía [...] uma característica diferenciada das outras propagandas do governo, pois foi produzida para ser veiculada fora do Estado e do País. Trata-se de um material publicitário cujo objetivo é atingir os empresários que queiram investir no Ceará, ou seja, é um comercial sobre a política industrial e de desenvolvimento local para a atração de novos investimentos para o Estado (FROTA; DA SILVA, 2003, p. 227). Segundo Frota e da Silva (2003), a propaganda política do governo do estado busca pôr em evidência a abertura econômica do estado para o investimento externo, tanto nacional quanto internacional, difunde a ideia de uma economia integrada globalmente, na busca por capital estrangeiro, ligando a economia local, nacional e internacional. Em resumo, a propaganda do governo do estado busca conectar a política industrial cearense às bases de uma política econômica em um mundo globalizado e de características neoliberais. Ao mesmo tempo são realizadas iniciativas de criação de propagandas que mostrem de forma positiva o estado do ceará, como parte da estratégia do “governo das mudanças” em desenvolver o turismo no Ceará. Segundo Aragão e Dantas (2006), a iniciativa de se realizar uma propaganda positiva do Estado estaria focada na concentração de forças em romper com os pensamentos negativos e atrasados4 que conecta o estado e, ao mesmo tempo, o semi-árido nordestino, à seca, fome, miséria, etc. Segundo Teixeira Junior (2005, p. 63), é na construção de um discurso do “o que é ser cearense”, que o governo do estado passa a criar um sistema de representação da cultura local, relacionando passado, presente e futuro na produção das estratégias de divulgação e, ao mesmo tempo, de promoção do turismo local. “A elaboração de um imaginário é parte integrante da legitimação de qualquer regime político [...] é nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro” (MURILO DE CARVALHO, 1998 apud TEIXEIRA JUNIOR, 2005, p. 64). Sendo assim, o governo do estado consegue produzir uma propaganda externa que mostra o estado de forma moderna. 4 Segundo Taddei (2006, p. 02), no Nordeste brasileiro, a agricultura familiar, o subsídio e a ajuda governamental são representados como símbolos do atraso; e a indústria, o turismo, o agronegócio para exportação, a competitividade mercadológica e a auto-sustentabilidade transformam-se em símbolos da modernidade. Renzo Taddei (2006) analisado o fenômeno dos “Profetas da Chuva” como acontecimento ligado diretamente ao turismo rural e ao desenvolvimento econômico, afirma que “iniciativas de desenvolvimento econômico só são capazes de reorganizar efetivamente padrões e fluxos econômicos na medida em que operam também uma reorganização de padrões simbólicos” (ibidem, p. 01). No caso da propaganda turística do governo do Ceará, foi construída a imagem de um Ceará moderno, desenvolvido, com um clima favorável ao turismo em grande parte do ano, belas praias5, belezas naturais, rico em cultura, mas a cultura veiculada à propaganda turística “restringe-se à cidade de Fortaleza, o ritmo musical tradicional é o forró, e a cultura é centralizada no Centro Cultural Dragão do Mar” (ARAGÃO; DANTAS, 2006, p. 56). As Políticas de Cultura do Estado: o Ceará e seus mitos O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) foi planejado durante o mandato do sucessor de Tasso Jereissati no “Governo das Mudanças”, Ciro Gomes, com a finalidade de dar continuidade às políticas culturais que pretendiam ampliar o desenvolvimento econômico local através do crescimento do turismo. Seu nome, “Dragão do Mar”, foi uma homenagem ao jangadeiro Francisco José do Nascimento6, herói cearense mitológico que liderou o movimento dos jangadeiros que se negaram a embarcar escravos que se encontravam no Ceará para os navios que se localizavam na costa, os quais os levariam para outros estados da província. Por liderar tal movimento o jangadeiro Francisco José do Nascimento foi levado ao Rio de Janeiro pelo Movimento Abolicionista onde foi homenageado. Por tal feito, a imprensa começou a chamá-lo de “Dragão do Mar”, alusão a fera de grande força e sabedoria (GONDIM, 2009, p. 14). 5 Segundo Gondim (2009, p. 16), “Fortaleza foi apresentada na mídia e mesmo em documentos oficiais como “a Miami do Nordeste” ou “a capital do Caribe brasileiro””. 6 De inicio Francisco José do Nascimento era conhecido como “Chico da Matilde”, apelido dado por conta do nome de sua mãe. (GONDIM, 2009, p. 14) O CDMAC foi construído estrategicamente na Praia de Iracema, pois ali era o local onde o jangadeiro ”Dragão do Mar” guardava sua jangada em um galpão. O nome Praia de Iracema também remete a outro símbolo mitológico da cultura cearense, a Índia Iracema, a “virgem dos lábios de mel”, saída dos contos de José de Alencar7. Como relata Gondim (2009, p. 14), No mito do romancista cearense, a “virgem dos lábios de mel” não foi vítima do dragão, e sim do cavaleiro que deveria protegê-la, Martin Soares Moreno. Do encontro do colonizador com a jovem tabajara nasceu Moacir – o “filho da dor”, conforme a etimologia alencarina. E de Moacir descendem os cearenses, um povo de olhos voltados para além-mar, tal como o Guerreiro Branco. E assim como ocorreu com o Francisco José do Nascimento, o “Chico da Matilde”, que a partir da imprensa ficou conhecido por “Dragão do Mar”, a Praia de Iracema, até o inicio do século XX era conhecida como “praia do peixe”, mas por se tratar de uma denominação corriqueira, a imprensa propõe a mudança do nome para fazer uma homenagem a José de Alencar e, ao mesmo tempo, reforçar o mito da origem do povo cearense. (SCHRAMM, 2001 apud GONDIM, 2009, p. 15). A idealização e construção do CDMAC e a reforma e revitalização da Praia de Iracema surgem como políticas culturais de Estado que pautam as ações do governo do Ceará na área cultural com a finalidade de valorizar a identidade cultural do cearense, re-produzindo a mitologia local, no caso, o mito da a “mãe” de todos os cearenses, a Índia Iracema. Por políticas culturais podemos entender como: [...] um programa de intervenções realizadas pelo Estado, entidades privadas ou grupos comunitários com o objetivo de satisfazer as necessidades culturais da população e promover o desenvolvimento de suas representações simbólicas. Sob este entendimento imediato, a política cultural apresenta-se assim como um conjunto de iniciativas, tomadas por esses agentes, visando promover a produção, distribuição e o uso da cultura, a preservação e a divulgação do patrimônio histórico e o 7 Antes do romance de José de Alencar, não existia nenhuma lenda sobre Iracema; entretanto, ao longo do tempo, a ficção alencarina foi aceita como mito de origem do Ceará (MONTENEGRO, 1983; LINHARES, 1992 apud GONDIM, 2009: 14 ) ordenamento do aparelho burocrático por elas responsável (COELHO, 1997 apud MAIA CRUZ; RODRUGUES, 2009: 03). Segundo Maia Cruz e Rodrigues (ibidem), críticas foram feitas com base em tal conceito, principalmente por se restringir a descrever as políticas culturais como simples tarefas administrativas. As críticas partem do sentido que tal conceito de política cultural estaria mais próximo do conceito de “gestão cultural”, algo como um conjunto de regras e instrumentos direcionado ao setor da cultura. Conclui expondo que, definir o conceito de política cultural não poderia se limitar em uma mera descrição de atividade administrativa, pois, quando se falar em política cultural entende-se como o “[...] conjunto de idéias, lutas institucionais e relações de poder na produção e circulação de significados simbólicos” (BARBALHO, 2008 apud ibidem,p. 03). As políticas culturais trazem ao centro da discussão os símbolos que representam a essência do povo cearense, na edificação de uma identidade do “o que é ser cearense”. Esses símbolos são usados para moldar o discurso de progresso, desenvolvimento e modernidade dos governos, mantendo sempre uma relação entre o que é tradicional e moderno, entre o passado e o presente. Sendo assim, ocorre a “‘re-invenção da tradição’, atualização ou re-significação do mito fundacional, calcado na unidade cultural, na mestiçagem e no atraso em face dos rumos da política de desenvolvimento brasileira [...]” (TEIXEIRA JUNIOR, 2005, p. 63, itálico no original). Com isso, o governo do Estado passa a “atualizar” seus símbolos sem romper com as tradições, como é o caso dos mitos do “Dragão do Mar” e da Índia Iracema: Assim, mesmo aqueles governos que se voltaram, mais enfaticamente, para a constituição de uma identidade preenchida pelos signos da modernidade, do progresso e dos negócios empresariais, resistiram em romper por definitivo com a questão da tradição, isto é, com os discursos que se reportam, no entendimento deles, à essência do povo cearense, às suas “raízes” (MAIA CRUZ; RODRIGUES, 2009, p. 09). A partir das políticas culturais iniciadas no “governo das mudanças” podemos perceber como o discurso de um multiculturalismo está presente nas ações governamentais moldadas durante o segundo governo de Tasso Jereissati, ao realizar uma re-invenção dos seus principais mitos e símbolos. Então, a reinvenção da tradição “[...] trata-se de uma estratégia política poderosa que retrabalha aspectos deste sistema de representação cultural, amalgamando os anseios, as esperanças, os medos, e os mitos de origem da população cearense” (TEIXEIRA JUNIOR, 2005, p. 63-64). Segundo Maia Cruz e Rodrigues (2009), têm se constatando um crescimento na discussão originada pelo governo afirmando o Estado como sendo composto por uma pluralidade de práticas culturais, isto é, a afirmação da presença no Estado do multiculturalismo. O esforço que foi realizado até agora, concentrou-se na tentativa de trazer elementos que nos façam compreender como surgiu o discurso do multiculturalismo com a entrada em cena dos políticos-empresários do CIC e como moldaram os discursos e ações governamentais no “governo das mudanças”, liderado por Tasso Jereissati; de como uma lógica empresarial centrada no desenvolvimento socioeconômico modelou a criação das políticas na área da indústria e do turismo local, além disso, como tais ações influenciaram na criação das políticas culturais, com a “re-significação” dos mitos da origem do povo cearense, no caso o mito da Índia Iracema, e, de uma só vez, afirmado o Estado como sendo composto pelo ideal do multiculturalismo. O reconhecimento do multiculturalismo, da pluralidade de práticas culturais, pelo governo do Estado abre espaço para discussões sobre reconhecimento dos direitos específicos dos demais grupos sociais que ocupam os distintos espaços do governo do Estado, sejam eles: mestiços, brancos, negros ou índios. Mas, como questiona Hale (2007, p. 298), “¿En qué consiste, [...], el “proyecto cultural” del neoliberalismo [multicultural]”? Charles Hale toma o conceito de neoliberalismo multicultural com a finalidade de analisar dois fenômenos recorrentes nos países da América Latina na década de 1990, a saber, as mobilizações dos movimentos indígenas e a adoção da doutrina neoliberal pelos países latino-americanos, com isso, o ideal neoliberalismo multicultural cria um campo que favorece a produção de uma pluralidade de práticas culturais, [...] abrindo de certo modo, espaços na estrutura de oportunidades políticas para a conquista de direitos, mas, por outro lado, avançando na imposição de suas agendas políticas e regulando os espaços de participação indígena e normatização das diferenças culturais (AIRES, 2009, p. 17). Segundo Hale, o multiculturalismo neoliberal “ha surgido en parte como una respuesta a las demandas por derechos de aquellos culturalmente oprimidos y excluidos” (HALE, 2007, p. 293). Sendo assim, o multiculturalismo neoliberal abre um novo espaço nas políticas culturais que oferece concessões aos diversos grupos sociais, mais especificamente no que diz respeito às lutas por reconhecimentos identitário, participação popular, em contrapartida, ao mesmo tempo em que atende seus anseios por ações mais transformadoras, com a finalidade de diminuir as diferenças socioeconômicas. Políticas Governamentais de Educação Indígena no Ceará As políticas educacionais no Ceará começam a ser moldadas a partir do ideal do multiculturalismo neoliberal com a chegada do grupo político do “Governo das Mudanças”, liderado por Tasso Jereissati, trazendo consigo iniciativas inovadoras para implementação da agenda do Estado com discursos e ações sobre desenvolvimento e modernidade no que diz respeito aos projetos administrativos, participação social, descentralização, desenvolvimento econômico e cidadania. Como estão sendo construídos tais projetos administrativos na área de educação indígena no Ceará a partir de um ideal multiculturalista, introduzido pelo “governo das mudanças”? Para tanto, faz-se necessário trazer a tona a discussão da forma que trataremos tais projetos. Optamos por pensá-los enquanto “políticas governamentais” (SOUZA LIMA; MACEDO E CASTRO 2008), ou seja, práticas que obedecem a regras, padrões e formas específicas. O conceito de política governamental pode ser entendido como uma complexa prática social constituída por diferentes atores (dentre eles, agentes governamentais e lideranças indígenas) situados em múltiplos espaços que definem a “política de educação escolar indígena” no Ceará. Uma análise, do ângulo da antropologia, das políticas voltadas para uma educação indígena no Ceará “implica, de saída, em suspender a ideia de público como qualificativo para os fins das ações de Estado, as quais poderiam ser melhor descritas [...] como políticas governamentais” (SOUZA LIMA; MACEDO E CASTRO 2008, p. 24). O que nos remete a pensar na atuação dos vários agentes envolvidos (ONGs, movimentos sociais, instituições internacionais, etc.) “elaborando e executando políticas governamentais, ou seja, atuando como ‘Estado’” (ALMEIDA, 2008b, p. 102). Segundo Almeida (2008b, p. 103), frequentemente, ao se falar de políticas governamentais logo se é associado a categoria de “Estado” à sua definição. A autora, levando-nos a problematizar tal categoria a partir de duas formas: a) o Estado à frente da atuação de organismos multilaterais e internacionais nos processos de definição de políticas e problemas sociais em diversas escalas; e b) o Estado em suas relações com o que muitas vezes é definido em termos de “sociedade civil”, em oposição ao campo da “política”. A presença de distintos agentes, locais, nacionais e internacionais, faz com que reflitamos sobre como as políticas governamentais são determinadas, não apenas pelo Estado. O que nos leva a realização de tarefas fundamentais, como mapear os discursos contidos nos documentos oficiais das agências atuantes no âmbito das políticas governamentais de educação indígena do Estado, com a finalidade de verificar como estão sendo moldados tais projetos políticos de educação. Sigo a sugestão de Paladino (2001), em que trata a educação escolar indígena como objeto de discurso e prática, com a intenção de explorar os diversos sentidos empregados na definição das políticas governamentais de educação escolar indígena. Como também a proposta metodológica de “gêneros literários” (ALMEIDA, 1978 apud ibidem, 2001, p. 02). Seguindo a proposta metodológica de “gêneros literários”, decidimos por classificar os documentos a partir de suas especificidades discursivas, tendo como característica distinguirem-se a partir da atuação, obrigação, objetivos e práticas do Estado. É através dos documentos oficiais que podemos perceber as mudanças nos discursos do Estado e reconstituir o reconhecimento oficial da educação escolar indígena pelo Governo do Ceará. Embora esta estratégia facilite a disposição preliminar do material, possibilitando o mapeamento dos discursos e ações de diferentes sujeitos, ela pode ser enganadora, pois alguns dos textos foram produzidos com a participação de múltiplos agentes. Segundo Paladino (ibidem, p. 20), os documentos oficiais Testemunham a apropriação do Estado sobre a educação indígena: sua incumbência, intervenção, objetivos e discursos que norteiam as práticas. Permitem, também, reconstituir a luta pelo reconhecimento daquilo que começou sendo “alternativo” e que se buscou oficializar, seja por falta de recursos financeiros e humanos para continuar essas experiências, seja pela própria demanda das populações indígenas, ou dificuldades que o caráter “alternativo” trazia a certos setores da sociedade nacional. Os documentos oficiais que dizem respeito as políticas de educação indígena no ceará, contêm discursos e ações dos diversos agentes que compõem a Educação Indígena no estado do Ceará. Mapeamos documento do Governo do Estado do Ceará: Mensagens governamentais; Os Planos Educacionais; os planos de desenvolvimento sustentável e planos plurianuais; Resolução e parecer. Os documentos governamentais tomam progressivamente a educação indígena como objeto de considerações das políticas oficiais do Estado, instituindo uma temática que privilegia as populações indígenas. Observa-se também nos documentos analisados que as primeiras menções referentes a educação indígena as tratavam como uma “educação especial” destinada a crianças, jovens e adultos com algum tipo de carência de aprendizagem ou como um processo de inclusão educacional designado às populações carente economicamente. Apesar disso, é recorrente o discurso de “conservação da cultura” e respeito as especificidades dos povos indígenas. Com a inclusão da educação indígena nos discursos das políticas governamentais permitiu que as escolas recebessem verbas para melhoria logística e pagamento dos funcionários, assim como a feitura de material específico para cada etnia. Outro fator de bastante observado nos documentos é a recorrente atenção dada aos cursos de formação dos professores indígenas, quase todos os documentos fazem algum tipo de referência à formação docente e a sua importância na educação indígena, com destaque para a resolução n.º 382/2003 cujo XI capítulo trata da formação de professores. Embora a inclusão da Educação Indígena nos discursos dos documentos oficiais tenha ocasionado o acesso a programas de apoio a educação, parece que muito ainda deve ser conquistado. Outros documentos, denunciam irregularidades no fornecimento de merenda escolar, atraso no pagamento dos professores e funcionários indígenas, pedidos de contratação de mais professores, etc. mostram uma outra realidade vivida nas escolas indígenas. Conclusão Esse estudo buscou analisar como o processo de modernização da administração do Estado iniciado pelo “Governo das Mudanças” moldou os discursos sobre cultura no Estado, inicialmente nas políticas culturais, reproduzindo os mitos da Índia Iracema e da origem do povo cearense, introduzindo o multiculturalismo ao discurso político do Estado, para depois ser introduzido às políticas educacionais voltadas as comunidades indígenas no Ceará Como os documentos das políticas de educação indígena no estado referem-se a educação indígena, as tratando como uma “educação especial” destinada a crianças, jovens e adultos com algum tipo de carência de aprendizagem ou como um processo de inclusão educacional designado às populações carente economicamente. Com um discurso recorrente de “conservação da cultura” e respeito às especificidades dos povos indígenas. Recorrente atenção dada aos cursos de formação dos professores indígenas. Mesmo assim, a inclusão da Educação Indígena nos discursos oficiais, não garante total garantia que suas demandas sejam atendidas. Referências Bibliográficas ABU-EL-HAJ, Jawdat. Classe, poder e administração pública no Ceará. In: PARENTE, Josênio; ARRUDA, José Maria. (org.). A Era Jereissati: modernidade e mito. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. V.1. AIRES, Max Maranhão Piorsky (org.). Escolas Indígenas e políticas interculturais no nordeste brasileiro. Fortaleza: Ed. UECE, 2009. AIRES, Max Maranhão Piorsky. et la. Definindo uma política governamental: mapeando agentes, discursos e ações. Cadernos do LEME, Campina Grande, vol. 2, nº 2, p. 98 – 123. jul./dez. 2010. Disponível em: <http://www.ufcg.edu.br/~leme/pdf/Cadernos_leme2pdf/LEME2_JUL_DEZ/LEME %202_2_%20AIRES%20[ABSTRACT].pdf>. Acesso em: 10 Fev. 2012. ALMEIDA, Alfredo Berno Wagner de. A ideologia da decadência: leitura antropológica a uma história da agricultura do Maranhão. 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