Cultura e Sociedade no ensino de línguas para o turismo1 Maira Angélica Pandolfi2 e Patrícia Tosqui3 UNESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Unidade Diferenciada de Rosana - Curso de Turismo (Docentes) Resumo O presente artigo tem por objetivo apresentar e discutir alguns aspectos do ensino de língua estrangeira com fins específicos. Considerando o fato de que a abordagem comunicativa vem contribuindo para a organização de um curso de língua cujo foco é o aluno, torna-se necessária a reflexão acerca do tratamento dado aos aspectos sócioculturais da língua estrangeira no turismo, tradicionalmente dissociados do ensino de línguas. Podemos encontrar, atualmente, dentro do âmbito da lingüística aplicada, uma série de contribuições e reflexões que permeiam as relações entre cultura, sociedade e língua, que podem ajudar o professor de língua estrangeira a organizar um curso comunicativo voltado para as necessidades dos alunos de Turismo. Palavras-chave: cultura; literatura; língua estrangeira; turismo; comunicação turística 1. Introdução A dificuldade na elaboração de um curso de língua estrangeira (doravante LE) para o turismo reside principalmente nas características lingüísticas e funcionais que diferenciam um curso de língua comum de um curso de língua com fins específicos. Além disso, no caso do turismo, a situação é ainda um pouco mais grave, uma vez que engloba uma heterogeneidade de serviços e funções variadas que podem ser desempenhadas por um profissional da área. A questão lexical é de suma importância na hora de pensar as especificidades do curso de turismo porque irá abarcar não somente uma terminologia 1 Trabalho apresentado ao NP 19 – Comunicação, Turismo e Hospitalidade, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. Este trabalho contou com auxílio da FUNDUNESP,processo 00852/04-DFP 2 Professora Assistente de Português (Comunicação e Expressão) e de Espanhol I e II do curso de Turismo da Unesp (UD Rosana), Mestre e Doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Unesp (FCL - Assis). 3 Professora Assistente de Português (Comunicação e Expressão) e de Língua Inglesa I, II e III do curso de Turismo da Unesp (UD Rosana), Mestre e Doutoranda em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp (FCL- Araraquara). 2 específica desse setor como também um léxico referente às artes, história, esportes, meio ambiente, empresas, economia e direito. Contudo, será que apenas a familiarização com os sistemas lexical e morfológico de uma LE garantem ao aluno competência comunicativa? Para responder a essa pergunta podemos começar revisando as considerações de Seelye (1984), ao comentar que “...compreender a forma de vida de nações estrangeiras é essencial para sobreviver em um mundo de valores conflitantes, no qual as fronteiras, que antes separavam as pessoas das idéias, foram corroídas pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação ou derrubadas pelo grito de ira dos mais necessitados em busca de uma vida melhor. No entanto, como nos libertar dos compartimentos estanques do etnocentrismo? Daquilo que Francis Bacon denominou de falácia da tribo? Não somente através do estudo de outras culturas mas também de outras línguas, já que é crítico reconhecer que para penetrar em outra cultura torna-se obrigatório o conhecimento da língua de seus falantes.”4 O conhecimento efetivo de uma LE implica, necessariamente, no estudo da cultura dos falantes dessa língua. Contudo, grande parte dos cursos de LE, pelas mais diversas razões, não privilegia o ensino da língua através da cultura, de forma integrada, sobretudo, porque os próprios materiais didáticos apresentam uma visão de que os alunos necessitam aprender primeiro os aspectos gramaticais e o léxico básico da língua para, futuramente, entrar em contato com materiais que tratam de cultura. Esse “futuramente”, para muitos, quase nunca acontece, seja por insegurança do professor, seja por ele não conhecer as estratégias para integrar o estudo da cultura ao da língua. No tocante ao ensino da comunicação para o turismo, trabalhar cultura e língua de forma integrada torna-se imprescindível. A comunicação não se concretiza apenas no âmbito verbal, realizando-se inclusive por meio da gestualidade; tópico que se torna primordial nas aulas de turismo. Em um artigo de Míriam Sancho Sánchez5 sobre os gestos em diferentes culturas, a estudiosa refere-se ao hábito de tocar e de não tocar em diferentes partes do mundo. Muitas vezes, o desconhecimento de um simples gesto de abraçar ou apertar as mãos pode gerar situações conflitantes e até cômicas entre pessoas de culturas diferentes. É o que Axtell (2001) reproduz em seu livro Gestos quando se refere ao “tango conversacional”: 4 5 1984, apud Omaggio 1986:359 (tradução nossa) Cuadernos Cervantes, n.36, ano VII, 2001, p.31-34. 3 “Es el baile que ejecutan los norteamericanos cuando acaban de llegar a América Latina y se enfrentan con esta repentina y extraña costumbre de cercania. La primera reacción del visitante es alejarse un poco, pero el latino le seguirá en su movimiento. El visitante vuelve a retroceder otro paso y el latino lo sigue. Así continúa la sesión, en una espécie de tango. La danza se detiene tan solo cuando el norteamericano llega a una esquina en la pared”.6 É fundamental que os hábitos que compõem a cultura de um povo não sejam pensados ou ensinados como acabados. Sabe-se que pouco a pouco o valor dos gestos está mudando nos EUA e os políticos, principalmente, estão aprendendo o significado de tocar. A interação entre fenômenos lingüísticos e culturais tem sido explorada em profundidade desde a década de 60 pela Sociolingüística. Essa área de estudo procura enfocar a forma na qual uma língua é empregada na comunicação entre grupos sociais distintos, o que se configura como um campo de especial interesse aos professores de LE, que precisam ensinar aos alunos as mudanças de registro e suas adequações aos diferentes contextos conversacionais. O mau uso de registros e estilos discursivos pode dar aos falantes nativos uma impressão desfavorável acerca do falante não nativo, impondo barreiras de origem cultural na comunicação. 2. A abordagem comunicativa no ensino de LE Os enfoques mais tradicionais de ensino de LE procuram descrever a língua a partir da seleção e organização de regras gramaticais. As unidades temáticas de um livro didático, por exemplo, costumam seguir uma organização que consiste em apresentar estruturas que vão do mais simples ao mais complexo. Assim, a ênfase dos enfoques mais tradicionais recai sobre os aspectos fonológicos e morfossintáticos. As mudanças nos métodos de ensino de línguas no decorrer da história têm refletido as mudanças nos tipos de necessidades dos alunos, tais como a valorização da habilidade de comunicação em detrimento da simples compreensão escrita. Até o fim do século passado, o grande interesse de quem estudava uma língua estrangeira era estar apto para a leitura. Por isso, o método mais adotado era o de gramática-tradução. Com o aumento do intercâmbio entre os povos e, 6 1993, apud Míriam S. Sánchéz 2001:32 4 sobretudo, com a evolução dos meios de comunicação, surgiu a necessidade do domínio oral da linguagem. Iniciou-se, então, uma sucessão de abordagens e métodos de ensino e aprendizagem de LE que vem evoluindo até hoje. Dentre essas visões, destacam-se a estrutural, a funcional e a interacional. A estrutural vê a língua como um sistema de elementos estruturalmente relacionados para codificar o significado. Para a funcional, a língua é um veículo utilizado para expressar significados funcionais, enfatizando a semântica e a dimensão comunicativa. De acordo com a visão interacional, o aprendizado de uma língua se dá com a realização de intercâmbios sociais entre as pessoas, levando em conta aspectos culturais. É importante que o professor saiba diferenciar esses enfoques na hora de escolher um material didático para o curso de língua que irá ministrar ou até mesmo para o material que irá confeccionar. Destacamos aqui a visão interacional, e mais especificamente, a abordagem comunicativa, originada a partir de uma mudança no modo tradicional de ensino de línguas ocorrida no final dos anos 60, e que é empregada até hoje e vem resistindo às críticas. Nela, a ênfase recai no uso, o que justifica a importância atribuída aos aspectos semânticos, pragmáticos e sociolingüísticos. De acordo com Littlewood (1981)7, essa abordagem pretende abordar quatro competências básicas, a saber: - manipulação do sistema lingüístico, a ponto de que o aluno possa expressar uma mensagem espontaneamente; - distinção entre as estruturas lingüísticas e expressões funcionais; - uso da língua que possibilite diferentes formas de se expressar; - dosagem da linguagem de acordo com o contexto social. Isso possibilita aos alunos que aprendam formas lingüísticas e as relatem em uma função comunicativa, em uma realidade não-lingüística, dentro de um contexto social determinado, por meio de diálogos abertos, a fim de que o aluno aprenda a moderar os graus de independência usando as estruturas lingüísticas não como um fim, mas sim como um meio, um suporte para a comunicação. Para tanto, desenvolvem-se dois tipos de atividade comunicativa: de comunicação funcional e de interação social. Na comunicação funcional, a interação fica menos controlada por convenções artificiais. Simulam-se situações que o aluno pode encontrar fora da sala de aula. Os alunos 7 LITTLEWOOD, W. (1981) Communicative Language Teaching. Cambridge: CUP. 5 devem, então, aprender a controlar os níveis de interação gradualmente, para saberem expressar suas opiniões, concordar e discordar em LE, sem parecerem inadequados ou artificiais. As oportunidades de interação social são criadas usando-se técnicas compatíveis com o ambiente de sala de aula, e também simulando outras situações para superar as limitações da classe. Para alcançar os objetivos propostos, a abordagem comunicativa pressupõe que o aluno desenvolva igualmente as quatro habilidades de uma língua: leitura, redação, expressão oral e compreensão auditiva. Aliados a essas habilidades, estão os conhecimentos sobre as situações de uso das palavras na língua e a inclusão dos aspectos socioculturais. Segundo Johnson & Paulston (apud Richards & Rodgers: 1986)8, a abordagem comunicativa estabelece os papéis que devem ser assumidos pelo aluno, pelo professor e pelo material didático. Para os autores, o papel do aluno consiste em monitorar e avaliar seu progresso; ser responsável pela sua conduta em sala de aula; interagir com o grupo para uma maior aprendizagem; auxiliar os outros alunos e aprender o máximo possível aproveitando todas as oportunidades: com o professor, com os colegas e fora da sala de aula, por outras fontes, o que ressalta a autonomia no processo de aprendizagem. O professor é visto como uma fonte de conhecimento e orientação, tal qual o “maestro de uma orquestra”. Ele possui dois papéis principais: facilitar o processo comunicativo entre todos os participantes da aula e entre esses participantes e as várias atividades e textos e atuar como um participante independente durante o ensino. Esses papéis implicam um conjunto de papéis secundários para o professor; primeiro como orientador e fonte de pesquisas; segundo como um guia nas atividades desenvolvidas em sala de aula e, terceiro, como pesquisador e aprendiz, o que muito contribui para seu desenvolvimento profissional. O material é considerado um instrumento para facilitar a interação e o uso da língua em sala de aula. Seu principal papel é permitir que se desenvolva o uso comunicativo da língua. Ele deve enfocar as habilidades comunicativas de interpretação e expressão e a troca de informações relevantes e interessantes de modo compreensivo, sem preocupar-se excessivamente com a gramática. Deve conter vários tipos de textos, verbais e não verbais, 8 RICHARDS, J. & RODGERS, T. (1986) Approaches and Methods in Language Teaching. Cambridge: CUP. 6 valendo-se de recursos audiovisuais. Isso permitirá ao aluno progredir, superando suas limitações, pelo contato com diferentes tipos de textos e materiais. Também dará oportunidade para o estudo e uso da língua de forma independente, assim como para uma auto-avaliação de seu progresso. O essencial é que, ao adotar o enfoque comunicativo, o professor procure organizar atividades relevantes para o aluno e que estas estejam relacionadas à sua realidade e necessidades a fim de capacitá-lo para o uso da língua alvo em ações que permitam a interação com outros usuários dessa língua. 3. A literatura e a cultura no ensino de LE para o Turismo Nas últimas décadas, com o prestígio da abordagem comunicativa, os professores de LE começaram a perceber que o conhecimento da vida cotidiana dos falantes de uma determinada língua era um fator essencial para que seus alunos apreciassem as artes e a literatura de um povo. Assim, o próprio conceito formal e elitista de cultura como sinônimo de erudição, textos literários canônicos e belas artes, tem passado por uma transformação natural, começando a abarcar aspectos antropológicos e sociológicos de diferentes comunidades lingüísticas. Desse modo, verifica-se, atualmente, a adoção, em diferentes livros didáticos voltados para o ensino de LE, de um conceito de cultura mais abrangente que, a partir de uma perspectiva antropológica, passa a envolver todos os aspectos da vida humana, desde as atividades cotidianas e atos de fala até a interação entre indivíduo e sociedade. Dentre as inúmeras reflexões acerca do que fazer com a cultura no ensino de LE, convém refletir sobre as considerações de Allen9 de que os estudantes de LE devem: 9 - comportar-se apropriadamente em uma situação social - descrever um modelo da cultura ou do comportamento social - reconhecer e explicar um modelo quando ele é claro - apresentar a aplicação de um modelo em uma dada situação 1985, apud Omaggio 1986 7 - descrever ou manifestar um comportamento importante para ser aceito em uma sociedade estrangeira - avaliar a forma de uma afirmação correspondente a um modelo cultural - descrever ou demonstrar formas de analisar um todo sociocultural Podemos perceber nas colocações de Allen que uma comunidade lingüística organiza-se de forma estratificada, já que pela maneira de falar dos sujeitos e marcadores lingüísticos utilizados é possível inferir algumas informações como classe social a qual pertence, sexo, idade e outros, além de características e estilos de fala diferentes apresentados por um mesmo indivíduo em situações comunicativas diversas. É importante que o aluno de LE perceba que as variantes como sexo, idade, classe social e procedência regional influem na forma de falar e de portar-se dos indivíduos. Analisando as considerações de Allen podemos concluir que o papel primordial do professor de LE é organizar estratégias de aprendizagem para que o aluno possa, num primeiro momento, desenvolver a empatia e apresentar curiosidade pela comunidade lingüística que está estudando e, posteriormente, desenvolver habilidades necessárias para localizar e organizar informações sobre os aspectos culturais em bibliotecas e meios de comunicação, com as pessoas e através de sua observação pessoal. Dentre os diversos tipos de textos que se pode trabalhar num curso de turismo, o texto literário pode ser uma excelente opção para abordar a questão cultural e promover a aproximação entre a língua materna do aluno e a LE que está aprendendo. Um texto não é simplesmente uma entidade lingüística e, portanto, sua abordagem é também cultural. Por isso, a interpretação de um texto pressupõe também o conhecimento “extralingüístico”. Tal conhecimento diz respeito à competência cultural e comunicativa de um falante, ou seja, o conhecimento lingüístico e o conhecimento de mundo que tornam possível a comunicação. Ao escolher um autor de destaque de uma comunidade cultural, o professor poderá explorar não somente certos regionalismos léxicos ou morfológicos próprios de uma determinada variedade lingüística como também outros aspectos que caracterizam a linguagem literária como a ironia, a ambigüidade, o olhar crítico, aspectos políticos e outros. Muitas vezes, a apresentação de um contexto ou de um autor por meio de fragmentos de textos bem selecionados pode ser mais motivadora e interessante para o aluno do que uma extensa 8 descrição biográfica desse autor. É importante que o professor procure incorporar às suas atividades de leitura de textos literários perguntas que vão além do contexto dos textos, incentivando os alunos a falarem sobre textos antes de averiguarem o que compreenderam do texto em questão. O que irá caracterizar a maneira de abordar um texto literário será a visão do leitor (aluno de LE) como alguém que desempenha um papel ativo na atividade de leitura e, por outro lado, a visão do professor como responsável pela promoção da aproximação de dois horizontes culturais diferentes. Em relação aos aspectos culturais, é importante que o professor leve para a sala de aula tudo o que propiciar que seus alunos se sintam envolvidos na cultura do país ou países falantes da língua que estudam. De acordo com Hirsch et al. (1993:09)10: “O legado cultural de um povo pode ser entendido como a parcela de informações úteis para nossa cultura e que merecem ser preservadas. Essas informações constituem os fundamentos de nosso discurso público. São elas que permitem que compreendamos os jornais e notícias diárias, que escolhamos nossos líderes políticos e religiosos, que consigamos até mesmo compreender piadas. O legado cultural é o que contextualiza o que lemos e dizemos; é o que faz de um povo um povo.” Assim, conhecer a cultura é fundamental para que seja possível compreender todos os tipos de expressão verbal ou não verbal de um povo, expressar-se de forma a ser entendido e obter, dessa forma, sucesso na comunicação. Por isso, acreditamos que o professor deve colocar seus alunos em contato com o maior número de elementos que expressem esse legado cultural, como música, pintura, escultura, manifestações folclóricas, festas populares, etc. No caso dos estudantes de Turismo, é ainda mais importante que esses elementos sejam enfocados em aula, pois, para o futuro turismólogo, é importante conhecer a constituição do patrimônio histórico/cultural (museus, monumentos, artefatos produzidos pelo homem, sítios arqueológicos, tradições) de um povo e sua utilização em roteiros turísticos. Além disso, é importante destacar para os alunos a importância das manifestações artísticas (festas, danças, músicas, lendas, crendices, provérbios, ditos populares e o artesanato) como forma de expressão da cultura e sua utilização como atrativo turístico. 10 HIRSCH, E. D., KETT, J., TREFIL, J. (1993) Dictionary of Cultural Literacy. Boston, Houghton Mifflin Company. 9 Considerações Finais Para Almeida Filho (1993)11, a abordagem de ensinar refere-se ao conjunto de disposições do professor para orientar as ações da operação global de ensinar. Esta, por sua vez, compreende o planejamento de cursos e suas unidades, a produção ou seleção criteriosa de materiais, a escolha e construção de procedimentos para experienciar a línguaalvo, e as maneiras de avaliar o desempenho dos participantes. Os métodos comunicativos, que constituem as práticas de ensinar línguas, apresentam como base uma abordagem comunicativa. Tais métodos têm em comum o foco no sentido e na interação entre sujeitos na língua estrangeira. Por isso, trabalhar de forma comunicativa inclui não somente o que já foi dito, mas também compreende o apoio que a língua materna do aluno apresenta na aprendizagem de uma LE, incluindo os erros como sinais de crescimento de uma nova capacidade de comunicação em outra língua. Por meio de técnicas interativas como trabalhos em pares ou pequenos grupos, o professor deverá envolver o aprendiz com conteúdos relevantes para uma prática consciente das regularidades lingüísticas, avaliando mais o que o aluno pode desempenhar em tarefas comunicativas do que propriamente aferindo conhecimento gramatical não aplicado sobre a língua-alvo. No momento de organizar um curso comunicativo de LE para o Turismo é fundamental que o professor procure não somente o apoio de bons materiais didáticos como também elabore seus próprios materiais. Para trabalhar os conteúdos lingüísticos gerais o professor poderá contar com os manuais e materiais comuns de LE; alguns já enfocam diretamente o setor turístico, outros costumam inserir alguns tópicos relevantes dessa área em manuais voltados para os negócios em geral. Muitas vezes, para organizar um curso de LE para o turismo, o professor esbarra na dificuldade de adquirir materiais autênticos que constituem documentação específica dessa área porque, em geral, são materiais confidenciais de uma agência de turismo. Portanto, o profissional dessa área deverá estar atento às vantagens que a Internet poderá oferecer em relação à aquisição desses recursos. Há uma infinidade de periódicos, dos mais variados, dos quais o professor poderá conseguir muito material para a aula de LE no turismo. Uma 11 ALMEIDA FILHO, J.C. Dimensões comunicativas no ensino de línguas. Campinas: Pontes, 1993, p.13. 10 das revistas mais úteis é a Editur, sobretudo, porque publica uma versão dedicada ao turismo na América Latina, Editur Latinoamérica. Outras como a Spic e Hosteltur podem ser também muito úteis já que, como a Editur, apresentam vários setores do turismo como hotelaria, economia, aviação, cultura e outros. Na área de língua espanhola, por exemplo, podemos encontrar materiais didáticos que total ou parcialmente enfocam o turismo como: Espanhol por profesiones: servicios turísticos, de B. Aguirre; Primer Plano, de M.A Palomino; Internet y Turismo, de Guevara Plaza e outros. Nos dois últimos, o sistema www é utilizado como recurso educativo e o estudante, seja na sua casa, na escola ou no trabalho, desde que conectado à Internet, poderá ter acesso a uma imensa quantidade de informações atualizadas, com atividades guiadas e que possibilitam a complementação e ampliação do léxico das unidades trabalhadas em sala de aula. Na área de língua inglesa, há materiais específicos para o ensino de Turismo, como First class: English for tourism de M. Duckworth e English for International Tourism, de M. Jacob, entre outros. O livro de L. A. Oliveira, English for Tourism Students traz uma seção especial sobre Cultura, que trata de temas como: conhecimentos gerais, ditos e provérbios, além de apresentar textos que discutem turismo religioso, turismo gay e o turismo no futuro. Além de escolher cuidadosamente os livros didáticos que vai adotar, é imprescindível que o professor utilize materiais de apoio, tais como: folhetos turísticos, revistas de bordo e outros materiais autênticos (passagens, boarding pass, formulários, passaporte, etc), além de revistas como TIME Magazine e NEWSWEEK Magazine. Outro material didático que deve ser explorado em sala de aula é o dicionário. De acordo com Tosqui (2002)12, o dicionário (seja bilíngüe, nos níveis iniciais de estudo ou monolíngüe, para níveis mais avançados), desde que selecionado adequadamente pelo professor, de acordo com o nível lingüístico e as necessidades de seus alunos, pode servir como um eficaz instrumento de auxílio no aprendizado de LE, pois dele podem-se extrair não apenas definições e listas de equivalentes, mas também especificações de uso, expressões idiomáticas e dados culturais dos itens consultados. Não basta, portanto, que o professor adquira bons materiais de apoio, o que significa dar somente o primeiro passo para organizar um curso de língua estrangeira com qualidade, é necessário que o professor saiba utilizá-los na sala de aula a partir de uma abordagem 12 TOSQUI, P. O diccionario bilingüe como ferramenta de ensino/aprendizagem de uma lengua estrangeira. Trabalhos em Lingüística Aplicada. Campinas, (40): 101-114, Jul./Dez. 2002 11 comunicativa. Compreender o valor correto e exato de uma língua implica saber utilizá-la em momento oportuno e dentro do contexto social e situacional que lhe cabe. Nos últimos decênios, a expressão oral tem prevalecido sobre as demais destrezas no ensino de LE e, em alguns casos, chegou-se a afirmar que o método comunicativo era a capacidade de expressar-se oralmente. Tal afirmação não corresponde à realidade do processo comunicativo na sociedade humana e, sem menosprezar a importância da habilidade oral, convém ressaltar que na comunicação lingüística todas as destrezas são importantes (falar, escrever, ler e ouvir) e devem ser trabalhadas pelo professor de LE. Se irá prevalecer uma destreza ou não dependerá da finalidade para a qual está sendo ensinado o idioma. As atividades com diálogos foram as primeiras a serem sugeridas desde que se começou a utilizar programas funcionais, já que era a atividade mais evidente e diretamente relacionada à finalidade comunicativa. Desse modo, há um leque de possibilidades para trabalhar em sala de aula, desde completar diálogos com o que poderá dizer um interlocutor diante de alguma pergunta até oferecer um conjunto de registros e elementos que permitam estabelecer um diálogo com um companheiro. Outra prática interessante e que pode ser trabalhada a partir de qualquer texto é elaborar um diálogo a partir de um texto lido ou ouvido. Nessa atividade, o professor poderá ajudar sugerindo alguns pontos sobre os quais o diálogo deve versar. Um texto descritivo de um hotel, por exemplo, poderá suscitar um diálogo com várias perguntas do tipo: quais os serviços oferecidos, qual o valor cobrado na diária de um determinado alojamento, quais os horários das refeições, etc. As atividades interativas e que estimulem a pesquisa e autonomia do aluno são as mais recomendadas; o importante é que o aluno tenha que ler, consultar ou perguntar para solucionar algum problema, projeto ou idéia. Nas aulas de turismo, o tema das viagens é muito estimulante e pode ser trabalhado a partir de uma situação na qual um grupo ou família deseja visitar um lugar ou país concreto. Para isso, é necessário que o aluno disponha de fontes variadas de informação como folhetos turísticos, dados de enciclopédias, livros, revistas e informações de agências de viagem. Desse modo, um grupo de alunos deverá informar aos outros como chegar ao destino desejado (meios de transporte, rotas, horários,etc); especificar as datas mais adequadas e os preços cobrados; enumerar os centros turísticos que poderá conhecer; os serviços de alojamento, etc. Tal atividade possibilita trabalhar várias destrezas 12 simultaneamente pois a partir de leituras se elabora uma exposição oral e também escrita, concluída com a elaboração de um itinerário da viagem. Referências bibliográficas AGUIRRE BELTRÁN, B. El español por profesiones: servicios turísticos. Madrid: SGEL, 1994. ALMEIDA FILHO, J.C. 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