Cultura e Sociedade no ensino de línguas para o turismo1
Maira Angélica Pandolfi2 e Patrícia Tosqui3
UNESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Unidade Diferenciada de Rosana - Curso de Turismo (Docentes)
Resumo
O presente artigo tem por objetivo apresentar e discutir alguns aspectos do ensino de
língua estrangeira com fins específicos. Considerando o fato de que a abordagem
comunicativa vem contribuindo para a organização de um curso de língua cujo foco é o
aluno, torna-se necessária a reflexão acerca do tratamento dado aos aspectos sócioculturais da língua estrangeira no turismo, tradicionalmente dissociados do ensino de
línguas. Podemos encontrar, atualmente, dentro do âmbito da lingüística aplicada, uma
série de contribuições e reflexões que permeiam as relações entre cultura, sociedade e
língua, que podem ajudar o professor de língua estrangeira a organizar um curso
comunicativo voltado para as necessidades dos alunos de Turismo.
Palavras-chave: cultura; literatura; língua estrangeira; turismo; comunicação turística
1. Introdução
A dificuldade na elaboração de um curso de língua estrangeira (doravante LE) para o
turismo reside principalmente nas características lingüísticas e funcionais que diferenciam
um curso de língua comum de um curso de língua com fins específicos. Além disso, no
caso do turismo, a situação é ainda um pouco mais grave, uma vez que engloba uma
heterogeneidade de serviços e funções variadas que podem ser desempenhadas por um
profissional da área. A questão lexical é de suma importância na hora de pensar as
especificidades do curso de turismo porque irá abarcar não somente uma terminologia
1
Trabalho apresentado ao NP 19 – Comunicação, Turismo e Hospitalidade, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da
Intercom. Este trabalho contou com auxílio da FUNDUNESP,processo 00852/04-DFP
2
Professora Assistente de Português (Comunicação e Expressão) e de Espanhol I e II do curso de Turismo da Unesp (UD
Rosana), Mestre e Doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Unesp (FCL - Assis).
3
Professora Assistente de Português (Comunicação e Expressão) e de Língua Inglesa I, II e III do curso de Turismo da
Unesp (UD Rosana), Mestre e Doutoranda em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp (FCL- Araraquara).
2
específica desse setor como também um léxico referente às artes, história, esportes, meio
ambiente, empresas, economia e direito. Contudo, será que apenas a familiarização com os
sistemas lexical e morfológico de uma LE garantem ao aluno competência comunicativa?
Para responder a essa pergunta podemos começar revisando as considerações de Seelye
(1984), ao comentar que
“...compreender a forma de vida de nações estrangeiras é essencial para sobreviver em
um mundo de valores conflitantes, no qual as fronteiras, que antes separavam as
pessoas das idéias, foram corroídas pelo desenvolvimento das tecnologias de
comunicação ou derrubadas pelo grito de ira dos mais necessitados em busca de uma
vida melhor. No entanto, como nos libertar dos compartimentos estanques do
etnocentrismo? Daquilo que Francis Bacon denominou de falácia da tribo? Não
somente através do estudo de outras culturas mas também de outras línguas, já que é
crítico reconhecer que para penetrar em outra cultura torna-se obrigatório o
conhecimento da língua de seus falantes.”4
O conhecimento efetivo de uma LE implica, necessariamente, no estudo da cultura
dos falantes dessa língua. Contudo, grande parte dos cursos de LE, pelas mais diversas
razões, não privilegia o ensino da língua através da cultura, de forma integrada, sobretudo,
porque os próprios materiais didáticos apresentam uma visão de que os alunos necessitam
aprender primeiro os aspectos gramaticais e o léxico básico da língua para, futuramente,
entrar em contato com materiais que tratam de cultura. Esse “futuramente”, para muitos,
quase nunca acontece, seja por insegurança do professor, seja por ele não conhecer as
estratégias para integrar o estudo da cultura ao da língua.
No tocante ao ensino da comunicação para o turismo, trabalhar cultura e língua de
forma integrada torna-se imprescindível. A comunicação não se concretiza apenas no
âmbito verbal, realizando-se inclusive por meio da gestualidade; tópico que se torna
primordial nas aulas de turismo. Em um artigo de Míriam Sancho Sánchez5 sobre os gestos
em diferentes culturas, a estudiosa refere-se ao hábito de tocar e de não tocar em diferentes
partes do mundo. Muitas vezes, o desconhecimento de um simples gesto de abraçar ou
apertar as mãos pode gerar situações conflitantes e até cômicas entre pessoas de culturas
diferentes. É o que Axtell (2001) reproduz em seu livro Gestos quando se refere ao “tango
conversacional”:
4
5
1984, apud Omaggio 1986:359 (tradução nossa)
Cuadernos Cervantes, n.36, ano VII, 2001, p.31-34.
3
“Es el baile que ejecutan los norteamericanos cuando acaban de llegar a América
Latina y se enfrentan con esta repentina y extraña costumbre de cercania. La primera
reacción del visitante es alejarse un poco, pero el latino le seguirá en su movimiento. El
visitante vuelve a retroceder otro paso y el latino lo sigue. Así continúa la sesión, en una
espécie de tango. La danza se detiene tan solo cuando el norteamericano llega a una
esquina en la pared”.6
É fundamental que os hábitos que compõem a cultura de um povo não sejam
pensados ou ensinados como acabados. Sabe-se que pouco a pouco o valor dos gestos está
mudando nos EUA e os políticos, principalmente, estão aprendendo o significado de tocar.
A interação entre fenômenos lingüísticos e culturais tem sido explorada em profundidade
desde a década de 60 pela Sociolingüística. Essa área de estudo procura enfocar a forma na
qual uma língua é empregada na comunicação entre grupos sociais distintos, o que se
configura como um campo de especial interesse aos professores de LE, que precisam
ensinar aos alunos as mudanças de registro e suas adequações aos diferentes contextos
conversacionais. O mau uso de registros e estilos discursivos pode dar aos falantes nativos
uma impressão desfavorável acerca do falante não nativo, impondo barreiras de origem
cultural na comunicação.
2. A abordagem comunicativa no ensino de LE
Os enfoques mais tradicionais de ensino de LE procuram descrever a língua a partir
da seleção e organização de regras gramaticais. As unidades temáticas de um livro didático,
por exemplo, costumam seguir uma organização que consiste em apresentar estruturas que
vão do mais simples ao mais complexo. Assim, a ênfase dos enfoques mais tradicionais
recai sobre os aspectos fonológicos e morfossintáticos. As mudanças nos métodos de
ensino de línguas no decorrer da história têm refletido as mudanças nos tipos de
necessidades dos alunos, tais como a valorização da habilidade de comunicação em
detrimento da simples compreensão escrita. Até o fim do século passado, o grande interesse
de quem estudava uma língua estrangeira era estar apto para a leitura. Por isso, o método
mais adotado era o de gramática-tradução. Com o aumento do intercâmbio entre os povos e,
6
1993, apud Míriam S. Sánchéz 2001:32
4
sobretudo, com a evolução dos meios de comunicação, surgiu a necessidade do domínio
oral da linguagem. Iniciou-se, então, uma sucessão de abordagens e métodos de ensino e
aprendizagem de LE que vem evoluindo até hoje.
Dentre essas visões, destacam-se a estrutural, a funcional e a interacional. A
estrutural vê a língua como um sistema de elementos estruturalmente relacionados para
codificar o significado. Para a funcional, a língua é um veículo utilizado para expressar
significados funcionais, enfatizando a semântica e a dimensão comunicativa. De acordo
com a visão interacional, o aprendizado de uma língua se dá com a realização de
intercâmbios sociais entre as pessoas, levando em conta aspectos culturais. É importante
que o professor saiba diferenciar esses enfoques na hora de escolher um material didático
para o curso de língua que irá ministrar ou até mesmo para o material que irá confeccionar.
Destacamos aqui a visão interacional, e mais especificamente, a abordagem
comunicativa, originada a partir de uma mudança no modo tradicional de ensino de línguas
ocorrida no final dos anos 60, e que é empregada até hoje e vem resistindo às críticas. Nela,
a ênfase recai no uso, o que justifica a importância atribuída aos aspectos semânticos,
pragmáticos e sociolingüísticos. De acordo com Littlewood (1981)7, essa abordagem
pretende abordar quatro competências básicas, a saber:
- manipulação do sistema lingüístico, a ponto de que o aluno possa expressar uma
mensagem espontaneamente;
- distinção entre as estruturas lingüísticas e expressões funcionais;
- uso da língua que possibilite diferentes formas de se expressar;
- dosagem da linguagem de acordo com o contexto social.
Isso possibilita aos alunos que aprendam formas lingüísticas e as relatem em uma
função comunicativa, em uma realidade não-lingüística, dentro de um contexto social
determinado, por meio de diálogos abertos, a fim de que o aluno aprenda a moderar os
graus de independência usando as estruturas lingüísticas não como um fim, mas sim como
um meio, um suporte para a comunicação. Para tanto, desenvolvem-se dois tipos de
atividade comunicativa: de comunicação funcional e de interação social.
Na comunicação funcional, a interação fica menos controlada por convenções
artificiais. Simulam-se situações que o aluno pode encontrar fora da sala de aula. Os alunos
7
LITTLEWOOD, W. (1981) Communicative Language Teaching. Cambridge: CUP.
5
devem, então, aprender a controlar os níveis de interação gradualmente, para saberem
expressar suas opiniões, concordar e discordar em LE, sem parecerem inadequados ou
artificiais. As oportunidades de interação social são criadas usando-se técnicas compatíveis
com o ambiente de sala de aula, e também simulando outras situações para superar as
limitações da classe.
Para alcançar os objetivos propostos, a abordagem comunicativa pressupõe que o
aluno desenvolva igualmente as quatro habilidades de uma língua: leitura, redação,
expressão oral e compreensão auditiva.
Aliados a essas habilidades, estão os
conhecimentos sobre as situações de uso das palavras na língua e a inclusão dos aspectos
socioculturais.
Segundo Johnson & Paulston (apud Richards & Rodgers: 1986)8, a abordagem
comunicativa estabelece os papéis que devem ser assumidos pelo aluno, pelo professor e
pelo material didático. Para os autores, o papel do aluno consiste em monitorar e avaliar seu
progresso; ser responsável pela sua conduta em sala de aula; interagir com o grupo para
uma maior aprendizagem; auxiliar os outros alunos e aprender o máximo possível
aproveitando todas as oportunidades: com o professor, com os colegas e fora da sala de
aula, por outras fontes, o que ressalta a autonomia no processo de aprendizagem.
O professor é visto como uma fonte de conhecimento e orientação, tal qual o
“maestro de uma orquestra”. Ele possui dois papéis principais: facilitar o processo
comunicativo entre todos os participantes da aula e entre esses participantes e as várias
atividades e textos e atuar como um participante independente durante o ensino. Esses
papéis implicam um conjunto de papéis secundários para o professor; primeiro como
orientador e fonte de pesquisas; segundo como um guia nas atividades desenvolvidas em
sala de aula e, terceiro, como pesquisador e aprendiz, o que muito contribui para seu
desenvolvimento profissional.
O material é considerado um instrumento para facilitar a interação e o uso da língua
em sala de aula. Seu principal papel é permitir que se desenvolva o uso comunicativo da
língua. Ele deve enfocar as habilidades comunicativas de interpretação e expressão e a troca
de informações relevantes e interessantes de modo compreensivo, sem preocupar-se
excessivamente com a gramática. Deve conter vários tipos de textos, verbais e não verbais,
8
RICHARDS, J. & RODGERS, T. (1986) Approaches and Methods in Language Teaching. Cambridge: CUP.
6
valendo-se de recursos audiovisuais. Isso permitirá ao aluno progredir, superando suas
limitações, pelo contato com diferentes tipos de textos e materiais. Também dará
oportunidade para o estudo e uso da língua de forma independente, assim como para uma
auto-avaliação de seu progresso.
O essencial é que, ao adotar o enfoque comunicativo, o professor procure organizar
atividades relevantes para o aluno e que estas estejam relacionadas à sua realidade e
necessidades a fim de capacitá-lo para o uso da língua alvo em ações que permitam a
interação com outros usuários dessa língua.
3. A literatura e a cultura no ensino de LE para o Turismo
Nas últimas décadas, com o prestígio da abordagem comunicativa, os professores de
LE começaram a perceber que o conhecimento da vida cotidiana dos falantes de uma
determinada língua era um fator essencial para que seus alunos apreciassem as artes e a
literatura de um povo. Assim, o próprio conceito formal e elitista de cultura como sinônimo
de erudição, textos literários canônicos e belas artes, tem passado por uma transformação
natural, começando a abarcar aspectos antropológicos e sociológicos de diferentes
comunidades lingüísticas. Desse modo, verifica-se, atualmente, a adoção, em diferentes
livros didáticos voltados para o ensino de LE, de um conceito de cultura mais abrangente
que, a partir de uma perspectiva antropológica, passa a envolver todos os aspectos da vida
humana, desde as atividades cotidianas e atos de fala até a interação entre indivíduo e
sociedade.
Dentre as inúmeras reflexões acerca do que fazer com a cultura no ensino de LE,
convém refletir sobre as considerações de Allen9 de que os estudantes de LE devem:
9
-
comportar-se apropriadamente em uma situação social
-
descrever um modelo da cultura ou do comportamento social
-
reconhecer e explicar um modelo quando ele é claro
-
apresentar a aplicação de um modelo em uma dada situação
1985, apud Omaggio 1986
7
-
descrever ou manifestar um comportamento importante para ser aceito em uma
sociedade estrangeira
-
avaliar a forma de uma afirmação correspondente a um modelo cultural
-
descrever ou demonstrar formas de analisar um todo sociocultural
Podemos perceber nas colocações de Allen que uma comunidade lingüística
organiza-se de forma estratificada, já que pela maneira de falar dos sujeitos e marcadores
lingüísticos utilizados é possível inferir algumas informações como classe social a qual
pertence, sexo, idade e outros, além de características e estilos de fala diferentes
apresentados por um mesmo indivíduo em situações comunicativas diversas. É importante
que o aluno de LE perceba que as variantes como sexo, idade, classe social e procedência
regional influem na forma de falar e de portar-se dos indivíduos.
Analisando as considerações de Allen podemos concluir que o papel primordial do
professor de LE é organizar estratégias de aprendizagem para que o aluno possa, num
primeiro momento, desenvolver a empatia e apresentar curiosidade pela comunidade
lingüística que está estudando e, posteriormente, desenvolver habilidades necessárias para
localizar e organizar informações sobre os aspectos culturais em bibliotecas e meios de
comunicação, com as pessoas e através de sua observação pessoal.
Dentre os diversos tipos de textos que se pode trabalhar num curso de turismo, o
texto literário pode ser uma excelente opção para abordar a questão cultural e promover a
aproximação entre a língua materna do aluno e a LE que está aprendendo. Um texto não é
simplesmente uma entidade lingüística e, portanto, sua abordagem é também cultural. Por
isso, a interpretação de um texto pressupõe também o conhecimento “extralingüístico”. Tal
conhecimento diz respeito à competência cultural e comunicativa de um falante, ou seja, o
conhecimento lingüístico e o conhecimento de mundo que tornam possível a comunicação.
Ao escolher um autor de destaque de uma comunidade cultural, o professor poderá explorar
não somente certos regionalismos léxicos ou morfológicos próprios de uma determinada
variedade lingüística como também outros aspectos que caracterizam a linguagem literária
como a ironia, a ambigüidade, o olhar crítico, aspectos políticos e outros. Muitas vezes, a
apresentação de um contexto ou de um autor por meio de fragmentos de textos bem
selecionados pode ser mais motivadora e interessante para o aluno do que uma extensa
8
descrição biográfica desse autor. É importante que o professor procure incorporar às suas
atividades de leitura de textos literários perguntas que vão além do contexto dos textos,
incentivando os alunos a falarem sobre textos antes de averiguarem o que compreenderam
do texto em questão. O que irá caracterizar a maneira de abordar um texto literário será a
visão do leitor (aluno de LE) como alguém que desempenha um papel ativo na atividade de
leitura e, por outro lado, a visão do professor como responsável pela promoção da
aproximação de dois horizontes culturais diferentes.
Em relação aos aspectos culturais, é importante que o professor leve para a sala de
aula tudo o que propiciar que seus alunos se sintam envolvidos na cultura do país ou países
falantes da língua que estudam. De acordo com Hirsch et al. (1993:09)10:
“O legado cultural de um povo pode ser entendido como a parcela de informações
úteis para nossa cultura e que merecem ser preservadas. Essas informações constituem os
fundamentos de nosso discurso público. São elas que permitem que compreendamos os
jornais e notícias diárias, que escolhamos nossos líderes políticos e religiosos, que
consigamos até mesmo compreender piadas. O legado cultural é o que contextualiza o que
lemos e dizemos; é o que faz de um povo um povo.”
Assim, conhecer a cultura é fundamental para que seja possível compreender todos
os tipos de expressão verbal ou não verbal de um povo, expressar-se de forma a ser
entendido e obter, dessa forma, sucesso na comunicação. Por isso, acreditamos que o
professor deve colocar seus alunos em contato com o maior número de elementos que
expressem esse legado cultural, como música, pintura, escultura, manifestações folclóricas,
festas populares, etc. No caso dos estudantes de Turismo, é ainda mais importante que esses
elementos sejam enfocados em aula, pois, para o futuro turismólogo, é importante conhecer
a constituição do patrimônio histórico/cultural (museus, monumentos, artefatos produzidos
pelo homem, sítios arqueológicos, tradições) de um povo e sua utilização em roteiros
turísticos. Além disso, é importante destacar para os alunos a importância das
manifestações artísticas (festas, danças, músicas, lendas, crendices, provérbios, ditos
populares e o artesanato) como forma de expressão da cultura e sua utilização como
atrativo turístico.
10
HIRSCH, E. D., KETT, J., TREFIL, J. (1993) Dictionary of Cultural Literacy. Boston, Houghton Mifflin Company.
9
Considerações Finais
Para Almeida Filho (1993)11, a abordagem de ensinar refere-se ao conjunto de
disposições do professor para orientar as ações da operação global de ensinar. Esta, por sua
vez, compreende o planejamento de cursos e suas unidades, a produção ou seleção
criteriosa de materiais, a escolha e construção de procedimentos para experienciar a línguaalvo, e as maneiras de avaliar o desempenho dos participantes.
Os métodos comunicativos, que constituem as práticas de ensinar línguas,
apresentam como base uma abordagem comunicativa. Tais métodos têm em comum o foco
no sentido e na interação entre sujeitos na língua estrangeira. Por isso, trabalhar de forma
comunicativa inclui não somente o que já foi dito, mas também compreende o apoio que a
língua materna do aluno apresenta na aprendizagem de uma LE, incluindo os erros como
sinais de crescimento de uma nova capacidade de comunicação em outra língua. Por meio
de técnicas interativas como trabalhos em pares ou pequenos grupos, o professor deverá
envolver o aprendiz com conteúdos relevantes para uma prática consciente das
regularidades lingüísticas, avaliando mais o que o aluno pode desempenhar em tarefas
comunicativas do que propriamente aferindo conhecimento gramatical não aplicado sobre a
língua-alvo.
No momento de organizar um curso comunicativo de LE para o Turismo é
fundamental que o professor procure não somente o apoio de bons materiais didáticos como
também elabore seus próprios materiais. Para trabalhar os conteúdos lingüísticos gerais o
professor poderá contar com os manuais e materiais comuns de LE; alguns já enfocam
diretamente o setor turístico, outros costumam inserir alguns tópicos relevantes dessa área
em manuais voltados para os negócios em geral.
Muitas vezes, para organizar um curso de LE para o turismo, o professor esbarra na
dificuldade de adquirir materiais autênticos que constituem documentação específica dessa
área porque, em geral, são materiais confidenciais de uma agência de turismo. Portanto, o
profissional dessa área deverá estar atento às vantagens que a Internet poderá oferecer em
relação à aquisição desses recursos. Há uma infinidade de periódicos, dos mais variados,
dos quais o professor poderá conseguir muito material para a aula de LE no turismo. Uma
11
ALMEIDA FILHO, J.C. Dimensões comunicativas no ensino de línguas. Campinas: Pontes, 1993, p.13.
10
das revistas mais úteis é a Editur, sobretudo, porque publica uma versão dedicada ao
turismo na América Latina, Editur Latinoamérica. Outras como a Spic e Hosteltur podem
ser também muito úteis já que, como a Editur, apresentam vários setores do turismo como
hotelaria, economia, aviação, cultura e outros. Na área de língua espanhola, por exemplo,
podemos encontrar materiais didáticos que total ou parcialmente enfocam o turismo como:
Espanhol por profesiones: servicios turísticos, de B. Aguirre; Primer Plano, de M.A
Palomino; Internet y Turismo, de Guevara Plaza e outros. Nos dois últimos, o sistema www
é utilizado como recurso educativo e o estudante, seja na sua casa, na escola ou no trabalho,
desde que conectado à Internet, poderá ter acesso a uma imensa quantidade de informações
atualizadas, com atividades guiadas e que possibilitam a complementação e ampliação do
léxico das unidades trabalhadas em sala de aula. Na área de língua inglesa, há materiais
específicos para o ensino de Turismo, como First class: English for tourism de M.
Duckworth e English for International Tourism, de M. Jacob, entre outros. O livro de L. A.
Oliveira, English for Tourism Students traz uma seção especial sobre Cultura, que trata de
temas como: conhecimentos gerais, ditos e provérbios, além de apresentar textos que
discutem turismo religioso, turismo gay e o turismo no futuro. Além de escolher
cuidadosamente os livros didáticos que vai adotar, é imprescindível que o professor utilize
materiais de apoio, tais como: folhetos turísticos, revistas de bordo e outros materiais autênticos
(passagens, boarding pass, formulários, passaporte, etc), além de revistas como TIME Magazine e
NEWSWEEK Magazine. Outro material didático que deve ser explorado em sala de aula é o
dicionário. De acordo com Tosqui (2002)12, o dicionário (seja bilíngüe, nos níveis iniciais de estudo
ou monolíngüe, para níveis mais avançados), desde que selecionado adequadamente pelo professor,
de acordo com o nível lingüístico e as necessidades de seus alunos, pode servir como um eficaz
instrumento de auxílio no aprendizado de LE, pois dele podem-se extrair não apenas definições e
listas de equivalentes, mas também especificações de uso, expressões idiomáticas e dados culturais
dos itens consultados.
Não basta, portanto, que o professor adquira bons materiais de apoio, o que significa
dar somente o primeiro passo para organizar um curso de língua estrangeira com qualidade,
é necessário que o professor saiba utilizá-los na sala de aula a partir de uma abordagem
12
TOSQUI, P. O diccionario bilingüe como ferramenta de ensino/aprendizagem de uma lengua estrangeira.
Trabalhos em Lingüística Aplicada. Campinas, (40): 101-114, Jul./Dez. 2002
11
comunicativa. Compreender o valor correto e exato de uma língua implica saber utilizá-la
em momento oportuno e dentro do contexto social e situacional que lhe cabe. Nos últimos
decênios, a expressão oral tem prevalecido sobre as demais destrezas no ensino de LE e, em
alguns casos, chegou-se a afirmar que o método comunicativo era a capacidade de
expressar-se oralmente. Tal afirmação não corresponde à realidade do processo
comunicativo na sociedade humana e, sem menosprezar a importância da habilidade oral,
convém ressaltar que na comunicação lingüística todas as destrezas são importantes (falar,
escrever, ler e ouvir) e devem ser trabalhadas pelo professor de LE. Se irá prevalecer uma
destreza ou não dependerá da finalidade para a qual está sendo ensinado o idioma. As
atividades com diálogos foram as primeiras a serem sugeridas desde que se começou a
utilizar programas funcionais, já que era a atividade mais evidente e diretamente
relacionada à finalidade comunicativa. Desse modo, há um leque de possibilidades para
trabalhar em sala de aula, desde completar diálogos com o que poderá dizer um interlocutor
diante de alguma pergunta até oferecer um conjunto de registros e elementos que permitam
estabelecer um diálogo com um companheiro. Outra prática interessante e que pode ser
trabalhada a partir de qualquer texto é elaborar um diálogo a partir de um texto lido ou
ouvido. Nessa atividade, o professor poderá ajudar sugerindo alguns pontos sobre os quais
o diálogo deve versar. Um texto descritivo de um hotel, por exemplo, poderá suscitar um
diálogo com várias perguntas do tipo: quais os serviços oferecidos, qual o valor cobrado na
diária de um determinado alojamento, quais os horários das refeições, etc. As atividades
interativas e que estimulem a pesquisa e autonomia do aluno são as mais recomendadas; o
importante é que o aluno tenha que ler, consultar ou perguntar para solucionar algum
problema, projeto ou idéia. Nas aulas de turismo, o tema das viagens é muito estimulante e
pode ser trabalhado a partir de uma situação na qual um grupo ou família deseja visitar um
lugar ou país concreto. Para isso, é necessário que o aluno disponha de fontes variadas de
informação como folhetos turísticos, dados de enciclopédias, livros, revistas e informações
de agências de viagem. Desse modo, um grupo de alunos deverá informar aos outros como
chegar ao destino desejado (meios de transporte, rotas, horários,etc); especificar as datas
mais adequadas e os preços cobrados; enumerar os centros turísticos que poderá conhecer;
os serviços de alojamento, etc. Tal atividade possibilita trabalhar várias destrezas
12
simultaneamente pois a partir de leituras se elabora uma exposição oral e também escrita,
concluída com a elaboração de um itinerário da viagem.
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