Diário do Minho BRAGA QUARTA-FEIRA, 30 de outubro de 2013 www.diariodominho.pt 5 Especialistas assumem denúncia na Escola de Direito da Universidade do Minho Medidas de austeridade estão a violar direitos fundamentais da União Europeia ANTÓNIO SILVA JOAQUIM MARTINS FERNANDES As medidas de austeridade que a União Europeia está a impor a alguns países estão a violar a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia que, desde 2007, têm força jurídica no ordenamento dos Estados-Membros. A denúncia foi feita, ontem, num seminário sobre a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia Comentada, que decorreu na Escola de Direito da Universidade do Minho (UMinho). Logo na apresentação da obra, Mariana Canotilho, umas das duas coordenadoras da Carta Comentada, colocou em dúvida que, atualmente, os países que integram a União Europeia fossem capazes de criar a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. A suspeita da docente da UMinho “feriu de morte” a integridade da União Europeia na Denúncias de Mariana Canotilho tiveram “eco prudente” na Procuradora Geral da República defesa e promoção de valores considerados fundamentais para a dignidade da pessoa humana e condicionou as intervenções da Procuradora Geral da República, do constitucionalista Pedro Bacelar Vasconcelos, do ex-Procurador Geral da República, Cunha Rodrigues, e do bracarense José Luís da Cruz, que é juiz no Tribunal Europeu. Mariana Canotilho disse não ter dúvidas que as medidas de austeridade que estão a ser impostas em alguns países fazem tábua rasa de «vários direitos» consignados na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e não escondeu que o pro- blema não existe apenas entre os dirigentes da área das finanças. A investigadora socorreu-se do caso grego para sublinhar que «as medidas de austeridade têm várias violações dos direitos contidos na Carta». O vencimento auferido pelos gregos, após dois programas de resgate, foram o exem- Cunha Rodrigues opõe direitos à “Troika” O ex-Procurador Geral da República, José Narciso Cunha Rodrigues, assumiu por inteiro as denúncias de Mariana Canotilho sobre a violação da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia pelos programas de austeridade que estão a ser impostos a países como a Grécia e Portugal e alertou que «o drama» é que «os jovens, os idosos e os doentes» são os mais prejudicados pelo incumprimento da “Carta Magna” da União. «A Constituição e Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia podem responder à “Troika” sempre que há um pressão sobre uma pessoa», sublinhou Cunha Rodrigues, notando que «a perda da nossa soberania não é total», sendo, por isso, «necessário que haja uma luta, não só pela indignação, mas pela concretização dos nossos direitos». ANTÓNIO SILVA «Corremos o risco de criar uma geração que aceita uma seletividade de direitos que leva a um nivelamento por baixo da dignidade humana», advertiu o juiz que foi relator de muitos acórdãos do Tribunal Europeu, alegando que vivemos num tempo em que os economistas têm excesso de mediatismo e se assiste a «um recuo dos juristas», que identificou como a classe que, historicamente, tem sido o baluarte dos direitos humanos. plo a que lançou mãos para expor a contradição existente entre os direitos fundamentais subscritos por todos os Estados-Membros e a realidade dos jovens gregos, que «usufruem de um salário abaixo do limiar da pobreza». A especialista em direito comunitário fez saber que o problema da “simpatia” que motiva a violação da Carta dos Direitos Fundamentais da União não afeta apenas os economistas. «Ainda recentemente uma colega de um país do Norte da Europa comentou que é uma pena Portugal não poder vender sol, porque se vendesse sol, bom vinho e boa comida podia pagar a dívida. Isto revela que a divisão entre o Norte e o Sul da Europa vai para além da economia», vincou, levando o constitucionalista Pedro Bacelar Vasconcelos a reconhecer que a “Carta Magna” dos direitos fundamentais da União Europeia está longe de ter uma aplicação correta e a sublinhar que «o projeto europeu está hoje numa das encruzilhadas mais dramáticos da história». Assumindo uma postura muito prudente, a Procuradora Geral da República não deixou de referir «a importância acrescida do direito, nos momentos de crise, na defesa dos direitos fundamentais». Joana Marques Vidal sublinhou que «é nos momentos de turbulência, que não devemos esquecer a dignidade da pessoa humana». Pressão «inadmissível» sobre Constitucional A pressão que os partidos políticos e o Governo estão a fazer sobre o Tribunal Constitucional por causa do Orçamento do Estado para 2014 «é inadmissível» e será «muito grave» que o Presidente da República não peça a fiscalização preventiva do documento. A opinião foi expressa ontem pelo constitucionalista Pedro Bacelar Vasconcelos, à margem do seminário sobre a apresentação da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia Comentada, obra que foi lançada pela Escola de Direito da Universidade do Minho. O constitucionalista que já integrou o Conselho Superior da Magistratura disse ser «inadmissível» a pressão que o Governo da coligação PSD/CDS está a fazer sobre o Tribunal Constitucional por causa da aprovação do Orçamento para 2014. Bacelar Vasconcelos alega que «é obrigação» poder político garantir que o Orçamento cumpre a Constituição. Sobre a atitude que deve ser tomada pelo Presidente da República, o também ex-Governador Civil de Braga considera «muito grave» que Cavaco Silva não peça a fiscalização preventiva. Além dos «grandes prejuízos» que causa ao país, «coloca os juízes do Constitucional sob grande pressão, porque a decisão vai acontecer em março ou abril», quando o programa da “Troika” está na fase final e se sabe que o Governo não tem um “Plano B”.