O mundo antes e depois da crise econômica de 2007
Desde a Grande Depressão de 1929, iniciada nos Estados Unidos e que contaminou
principalmente as economias mais fortes da época – os países mais industrializados uma crise de tamanhas proporções não atingia uma economia central. Com uma forte
intervenção governamental nos Estados Unidos a partir de 1933 e com os tratados
multilaterais pós Segunda Guerra (Sistema Bretton Woods, que emergiu das
conferências de mesmo nome, em 1944), as economias centrais – Estados Unidos e
Europa ocidental, e mais tarde o Japão – passaram por um longo período de relativa
estabilidade. A exceção foi a crise do petróleo, na década de 70, mas que teve
estopim muito mais geopolítico, embora com conseqüências econômicas.
Ocorre que aquele sistema regulatório internacional, criado para evitar fortes
desequilíbrios econômicos que poderiam originar novas guerras, foi baseado
inicialmente na cooperação internacional com a regulação e intervenção dos Estados
nos processos econômicos, a partir da compreensão de sua responsabilidade para
com o equilíbrio internacional e o bem-estar de seus cidadãos. Entretanto, a
hegemonia dos Estados Unidos (única potência mundial que não foi fortemente
afetada pela guerra) entre os países signatários dos acordos fez com que o discurso
mais liberalizante daquele país fosse cada vez mais preponderante no mundo.
Contudo, em uma observação mais atenta, podemos perceber que essa liberalização
da economia mundial foi, em grande parte, unidirecional, abrindo mercados para a
continuidade da expansão do setor produtivo Norte Americano e acesso às
necessárias matérias primas. O desequilíbrio entre a capacidade produtiva instalada
nos Estados Unidos do pós-guerra e a do resto do mundo foi então intensificado pelas
políticas liberalizantes impostas. E por ironia, calcado justamente nos acordos
celebrados para evitar esse desequilíbrio. A derrocada da experiência soviética
evidenciou a formação de um mundo mono polar.
Nas décadas de 80 e 90 percebemos, até, a exacerbação da liberalização econômica.
Estado mínimo e desregulamentação dos mercados foram receitas utilizadas como
plataformas de governo de vários países do G7 (grupo que reúne os sete países mais
industrializados do planeta) e ministradas pelos organismos multilaterais aos países
que passaram por crises regionais. Talvez tenha sido plantado, naquela ocasião, o
gérmen da crise.
Toda essa recapitulação histórica é para lembrar-nos de como, em 2001, o Produto
Interno Bruto dos Estados Unidos atingiu o impressionante patamar de 32% do
Produto Interno Bruto mundial. Essa confortável posição hegemônica talvez tenha sido
o maior impeditivo para questionamentos sobre os riscos econômicos decorrentes
dessa concentração e das práticas que criaram e ampliaram os chamados “déficits
gêmeos” da economia Norte Americana: déficit fiscal e déficit em conta corrente.
Afinal, foi fácil encontrar quem quisesse financiar esses déficits e em troca ficar
lastreado em títulos da maior economia do mundo.
Mas o princípio básico da mitigação de riscos é a diversificação. Então, mesmo antes
que a atual crise se instalasse, os efeitos dos excessos de concentração e os esforços
de alguns Estados nacionais para conquistar maior participação no contexto
econômico mundial, com vistas a fortalecer suas dinâmicas de crescimento
econômico, principalmente após as crises de algumas economias satélites na década
de 90 e início dos anos 2000, deram início a alguns fenômenos de mudança do
cenário internacional. Entre eles, a percepção de um novo papel dos chamados
BRIC’s (sigla criada pelo economista Jim O’Neill para o grupo Brasil, Rússia, Índia e
China) e de outras economias denominadas emergentes.
A partir dos anos 2000 pôde-se perceber uma gradual redução da participação dos
Estados Unidos no Produto Interno Bruto mundial, chegando aos atuais 24% (25% de
redução em relação à participação 2001), com a concomitante ampliação da
participação dos países emergentes de 38% em 2001 para 45% atualmente. Não
fosse esse recente movimento, as conseqüências da atual crise econômica, iniciada
justamente na economia hegemônica, poderiam ser ainda mais dramáticas. E é esse
movimento que pode determinar o desenho mundial que surgirá após a crise.
Quais serão, então, as conseqüências da crise? É dada como certa uma forte redução
do crescimento econômico e até recessão, nas economias centrais. Embora seja
desaconselhável comparar o mundo de 1929 com o mundo de 2007, em função das
imensas diferenças tecnológicas, culturais, políticas, entre outras, vale lembrar que
também naquela crise, iniciada em uma economia central, os maiores impactos
ocorreram nos países mais desenvolvidos. Além disso, na crise atual foi justamente o
sistema financeiro das economias centrais que se envolveu diretamente no
financiamento do castelo de cartas que acabou por vir abaixo.
Por diferentes motivos e motivações as economias dos países emergentes encontramse em estágio muito mais regulado do que as economias centrais. O que por algum
tempo foi considerado um entrave ao desenvolvimento, por “engessar” a livre
circulação de capitais, acabou funcionando como uma defesa contra as perdas diretas
decorrentes do estouro da bolha imobiliária Norte Americana. Por conseqüência, não
há nos países emergentes corridas aos bancos como nos Estados Unidos e Europa.
Essa situação pode levar à segunda comparação com a crise de 1929, novamente
ressalvadas as diferenças de contexto e de nexos de causalidade. Naquele caso,
várias economias não industrializadas iniciaram seu processo de industrialização a
partir da década de 30, como Argentina e Brasil.
Por óbvio, o período de forte redução do crescimento e de recessão das economias
centrais acarretará redução do ritmo de crescimento mundial e, em alguma escala, das
economias emergentes. Entretanto, alguns elementos apontam para a possibilidade
de vermos emergir desta crise um novo desenho mundial que pode ser mais favorável
para aqueles que até então eram relegados a um papel secundário: a melhor situação
dos sistemas financeiros destes países, o já iniciado incremento de sua participação
na economia mundial e o melhor posicionamento de seus mercados e setores
produtivos domésticos em relação a outros momentos históricos.
O comportamento dos fluxos de capitais, tanto de investimentos quanto de
especulação costuma ser de rápidas decisões, tão logo as expectativas dos agentes
econômicos comecem a demonstrar algum grau de convergência. A globalização
advinda, principalmente, da evolução tecnológica faz com que os efeitos das medidas
macroeconômicas e dos fenômenos microeconômicos sejam percebidos em períodos
de tempo cada vez mais curtos, sem deixarmos de levar em conta que esta crise não
pode ser comparada às crises regionais da década de 90 e que não sabemos, ainda, a
profundidade das feridas que acarretam a aversão ao risco.
A eficiência das iniciativas dos Governos em todo o mundo determinará a extensão e o
tempo de duração da crise, bem como o intervalo de tempo para o início de um novo
ciclo de crescimento mundial. Instala-se a percepção de que o liberalismo não é o
caminho mais curto, nem o mais adequado, para essa recuperação. A recente
aprovação de um pacote de US$ 850 bilhões por parte do governo dos Estados
Unidos, além dos aproximadamente US$ 300 bilhões já utilizados para salvar e/ou
estatizar algumas instituições financeiras, além das pouco alardeadas, mas rápidas
estatizações de vários bancos europeus demonstram essa opção. Medidas
preventivas para limitar os extraordinários bônus dos executivos e para que no futuro
não seja necessário, novamente, socializar as perdas depois que os ganhos foram
privatizados também reforçam essa impressão.
As chamadas economias emergentes devem tomar os cuidados e medidas a fim de
que a crise tenha o menor impacto possível em seu ciclo próprio de crescimento. Mas
têm, por outro lado, a melhor oportunidade em oitenta anos (ou desde sempre, quem
poderá afirmar?) para reduzirem sua dependência econômica dos atores centrais,
consolidarem a sua participação na economia mundial e contribuírem para o
estabelecimento de um mundo mais equilibrado e menos polarizado.
Demósthenes Marques
Diretor de Investimentos da FUNCEF
06 de outubro de 2008
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