AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas Recomendações do Fórum das Empresas para o Multilinguismo criado pela Comissão Europeia Europe Direct é um serviço que o/a ajuda a encontrar respostas às suas perguntas sobre a União Europeia Número verde único (*): 00 800 6 7 8 9 10 11 (*) Alguns operadores de telecomunicações móveis não autorizam o acesso a números 00 800 ou poderão sujeitar estas chamadas telefónicas a pagamento Encontram-se disponíveis numerosas outras informações sobre a União Europeia na rede Internet, via servidor Europa http://europa.eu Uma ficha bibliográfica figura no fim desta publicação Luxemburgo: Serviço das Publicações Oficiais das Comunidades Europeias, 2007 ISBN 978-92-79-08798-1 © Comunidades Europeias, 2008 Reprodução autorizada mediante indicação da fonte Printed in Belgium Impresso em papel branqueado sem cloro AS OPINIÕES EXPRESSAS NESTE RELATÓRIO SÃO DA RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS MEMBROS DO FÓRUM DAS EMPRESAS PARA O MULTILINGUISMO E NÃO REFLECTEM NECESSARIAMENTE O PONTO DE VISTA DA COMISSÃO EUROPEIA. AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas Recomendações do Fórum das Empresas para o Multilinguismo criado pela Comissão Europeia Membros do Fórum das Empresas que contribuíram para a elaboração do presente relatório: Visconde Etienne Davignon Suez –Tractebel Presidente do Fórum das Empresas Winfried Albrink Chefe do Departamento de Formação do Grupo Henkel Henning Dyremose Presidente do Conselho de Comércio da Dinamarca Mike Janssen Gerente de produção industrial da UMAC-Midwest Caroline Jenner Presidente do Conselho de Administração da JA-YE Europa António Gomes de Pinho Presidente da Portgás e da Fundação de Serralves Waqas Hussain Director-Geral de Recursos Humanos da Syngenta Sabina Klimek Deloitte Business Consulting Lars-Kare Legernes Presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comércio de Oslo Peter Mathews CMG, Presidente do Conselho de Administração da Black Country Metals Limited Fiorella Kostoris Padoa Schioppa AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas Professora de Economia 2 Gabor Proszeky Fundador e Presidente do Conselho de Administração da MorphoLogic Documentação de apoio disponível no sítio Web da Comissão Europeia: http://ec.europa.eu/education/languages/pdf/doc1597_en.pdf AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO Sem compreensão mútua, somos incapazes de viver e de trabalhar em conjunto. Numa União onde a diversidade é valorizada, uma língua franca nunca pode ser suficiente para satisfazer todas as necessidades de comunicação. As línguas são a chave das culturas que representam. O multilinguismo favorece a abertura e a tolerância, abrindo igualmente portas a novos mercados e novas oportunidades de negócio. Durante a minha vida profissional, testemunhei que o ambiente empresarial estava a tornar-se gradualmente mais uniforme e monolingue. Não será possível inverter esta tendência de um dia para o outro. Foi com prazer que aceitei o convite do Comissário Orban para reflectir sobre as questões linguísticas em conjunto com um pequeno grupo de distintos especialistas que partilham a crença comum de que as empresas europeias só têm a beneficiar com o multilinguismo. Acredito que este relatório irá intensificar os actuais debates da Comissão sobre o desenvolvimento da política do multilinguismo. Com o tempo, esperamos contribuir para uma mudança de mentalidade e de comportamento no que respeita à atitude do sector empresarial em relação às línguas. As línguas facilitam o funcionamento das empresas Prólogo do Visconde Etienne Davignon 3 4 AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas Síntese A UE deve prosseguir o seu processo de mudança para triunfar numa era de globalização. O último relatório da Comissão sobre a Estratégia de Lisboa para o Crescimento e o Emprego afirma-o de forma bem clara. O nosso grupo analisou a contribuição das línguas para a competitividade. Com base nas conclusões a que chegámos, pretendemos, em primeiro lugar, chamar a atenção para o motivo pelo qual é importante investir nas competências linguísticas. Em segundo lugar, gostaríamos de dar conta do que já foi feito para promover as línguas a nível empresarial. Em último lugar, mas não menos importante, queremos deixar alguns conselhos sobre o modo como as empresas podem melhorar os seus resultados em termos de comunicação empresarial multilingue. Na maioria dos países, as organizações nacionais de promoção do comércio prestam orientação prática e apoio financeiro às PME para reforçar as suas estratégias de exportação, mas estes programas excluem geralmente as estratégias linguísticas. A nível regional, estão a registar-se progressos em vários Estados-Membros e em países associados através de redes como as Câmaras de Comércio e as organizações profissionais. Estas redes permitem uma maior sensibilização para a importância das línguas. Localmente, existem possibilidades de reforçar os intercâmbios linguísticos entre as comunidades empresariais locais. As iniciativas regionais transfronteiras devem ser encorajadas, uma vez que podem reforçar com êxito os intercâmbios transfronteiriços, as competências linguísticas e a mobilidade. AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO O nosso grupo saúda as iniciativas e acções comunitárias que promovem a aquisição de competências linguísticas e de sensibilização cultural nas empresas. São vários os programas comunitários que oferecem possibilidades de financiamento. Contudo, a sensibilização para estas oportunidades e para osmétodosde candidatura a subvençõesda UEé limitada. Osprocessosde candidatura são considerados complexos e morosos, sobretudo para as PME. Deve igualmente salientar-se que o financiamento disponibilizado pela UE é mínimo, devendo ser visto, acima de tudo, como um meio de incentivo à partilha de melhores práticas e uma fonte de inspiração para acções neste domínio. A maior parte do apoio terá de ser concedida pelos governos e pelas administrações nacionais, regionais e locais. Os governos nacionais estão ainda muito longe do objectivo comum definido pelos Estados-Membros na Cimeira de Barcelona de 2002, segundo o qual todos os cidadãos deveriam aprender duas línguas na escola para além da língua materna. Em muitos países, a tendência é invertida quando se trata de adquirir conhecimentos práticos sólidos de uma segunda ou até de uma primeira língua estrangeira. São frequentes os casos em que as pessoas verdadeiramente multilingues adquiriram as suas competências linguísticas fora do sistema de ensino formal. Todavia, não é habitual obter o reconhecimento oficial do ensino não formal e informal, pelo que estas competências raramente são consideradas como méritos meramente pessoais. As línguas facilitam o funcionamento das empresas Uma percentagem significativa das PME europeias perde oportunidades de negócio todos os anos em resultado directo da escassez de competências linguísticas e interculturais. Embora pareça inequívoco que o inglês irá manter o seu papel de liderança enquanto língua comercial mundial, serão as outras línguas a marcar a diferença entre a normalidade e a excelência e a criar uma vantagem competitiva. As línguas não são necessárias apenas para reforçar as vendas e o marketing. As cadeias de abastecimento a montante atravessam fronteiras exactamente como os serviços internacionais e os produtos acabados destinados a exportação. Os mercados de trabalho encontram-se igualmente globalizados. A integração de trabalhadores multilingues e multiculturais é fundamental. De acordo com a nossa visão, as línguas serão utilizadas de forma mais eficaz no futuro, a fim de atingir novos grupos-alvo e de estabelecer relações estratégicas duradouras. 5 Conclusões e recomendações A Europa deve transformar a sua diversidade linguística numa vantagem verdadeiramente competitiva. Tal sucederá apenas se: 1. os governos nacionais promoverem a aprendizagem formal e informal de um leque de línguas diversificado; 2. as estratégias linguísticas forem aprovadas ao mais alto nível de gestão das empresas; 3. os organismos nacionais, regionais e locais apoiarem os esforços das empresas para uma utilização estratégica das línguas e 4. for criada uma plataforma europeia de intercâmbio permanente de melhores práticas que inclua as competências linguísticas das empresas. Mais especificamente, devem prever-se as seguintes medidas: A nível empresarial: as empresas devem ▸ inventariar as competências linguísticas existentes na empresa e aplicá-las às necessidades e oportunidades a todos os níveis da organização e a todas as funções da empresa; ▸ rever as políticas de contratação e as estratégias de desenvolvimento a nível da gestão de recursos humanos e estabelecer metas para as competências linguísticas de cada trabalhador com base nas suas funções e responsabilidades específicas; ▸ aplicar um amplo conjunto de estratégias de gestão linguística, como o investimento no ensino de línguas, o recrutamento (temporário ou permanente) de trabalhadores de diferentes línguas maternas, a utilização de tecnologias linguísticas e a colaboração com tradutores, intérpretes e mediadores culturais; ▸ procurar reforçar a mobilidade internacional dos trabalhadores. AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas A nível nacional: os governos devem 6 ▸ incentivar a aprendizagem de línguas a todos os níveis e tornar o ensino extensivo a um maior número de línguas; introduzir módulos de aprendizagem de línguas mais orientados para a prática a partir do ensino secundário e ao longo de todo o ensino superior, incluindo a formação profissional; ▸ permitir um reconhecimento adequado das competências linguísticas através de certificados de habilitações e insistir na sua mais-valia em termos de oportunidades de carreira futuras; ▸ recomendar às organizações nacionais de promoção do comércio a inclusão de estratégias linguísticas nos respectivos programas de apoio, nomeadamente nos programas direccionados para as PME, tendo em vista reforçar as suas perspectivas de exportação; ▸ incluir a formação linguística nos programas nacionais de aprendizagem ao longo da vida e de integração social. A nível regional/local: as autoridades regionais e locais devem ▸ recorrer a redes regionais e locais a fim de aumentar a sensibilização das pequenas e médias empresas para as oportunidades de melhorarem as competências linguísticas e fomentar o intercâmbio de boas práticas; ▸ estabelecer parcerias entre o sector público e o sector privado que incluam universidades e instituições de formação, apoiando as comunidades empresariais locais na organização de cursos de línguas e no desenvolvimento de outros métodos que permitam melhorar as suas estratégias linguísticas; ▸ promover um ambiente empresarial mais multilingue através de cursos de línguas e da partilha de grupos de conversação entre várias pequenas empresas, de feiras multiculturais e de outros eventos do mesmo tipo em parques empresariais e zonas industriais. A nível europeu: as instituições europeias devem AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas ▸ sensibilizar os Estados-Membros para a importância das línguas no que diz respeito à competitividade e incentivá-los a tomar medidas como as acima referidas; ▸ reunir toda a informação pertinente sobre programas comunitários de apoio às competências linguísticas das empresas e de bons exemplos de projectos num sítio Web que funcione como um serviço centralizado onde as empresas possam obter orientações práticas sobre o procedimento a seguir para solicitar financiamento; ▸ criar uma plataforma permanente de intercâmbio de melhores práticas para empresas, recolhendo informação útil junto da comunidade empresarial, de organizações profissionais, de câmaras de comércio, de organizações de promoção do comércio, de escolas e de autoridades do sector da educação. 7 1. Argumentação Para propiciar o crescimento e criar postos de trabalho, a evolução técnica é fundamental e a aprendizagem ao longo da vida é necessária. O multilinguismo inerente à Europa é mais essencial que nunca, dada a transformação gradual da economia industrial numa economia do conhecimento. Teoricamente, as empresas europeias deveriam estar mais bem posicionadas que quaisquer outras para obter oportunidades de negócio que requerem uma comunicação multilingue. Contudo, o potencial está longe de ser plenamente explorado. 1.1 O multilinguismo é um recurso escondido… Vários estudos de investigação revelam que os mercados internacionais precisam de diversas línguas, juntamente com a competência cultural que é normalmente adquirida com o domínio das línguas. Entretanto, as empresas consideram cada vez mais difícil contratar pessoal qualificado com competências linguísticas que vão além do inglês básico. Eis um aspecto que é encarado como um verdadeiro problema. A mobilidade dos trabalhadores continua a ser relativamente reduzida. Apenas 2% dos cidadãos em idade activa vivem e trabalham num Estado-Membro diferente do seu. A falta de competências linguísticas é a barreira mais citada à mobilidade intra-europeia. A percentagem correspondente de cidadãos de países terceiros e de pessoas nascidas noutros países mas residentes na UE equivale a quase o dobro 1. Porém, os trabalhadores imigrantes têm de envidar esforços consideráveis para adquirir as competências linguísticas necessárias no seu novo país e, mesmo se os imigrantes de segunda geração de países não comunitários são bilingues ou trilingues, as suas competências linguísticas raramente são reconhecidas. 1.2 …que tem de ser desvendado AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas O nosso grupo gostaria de transmitir um sentimento de urgência aos decisores políticos a todos os níveis da sociedade. A Europa está a correr o risco de perder a guerra das competências, já que as economias emergentes, sobretudo na Ásia e na América Latina, adquirem rapidamente competências linguísticas e outras competências necessárias para concorrer com êxito nos mercados do futuro. O desafio consiste em integrar solidamente o multilinguismo em todas as estratégias destinadas ao desenvolvimento do capital humano para o futuro. Vamos precisar de uma força de trabalho diversificada que considere todo o espaço europeu como casa sua. Ao mesmo tempo, a própria Europa deve apresentar-se como uma proposta empresarial suficientemente interessante para atrair trabalhadores imigrantes altamente qualificados, que trarão consigo as línguas de que necessitamos para negociar em mercados onde o crescimento será superior a 10% nos próximos anos. 8 1.3 A investigação revela o potencial Uma grande percentagem das PME europeias perde contratos todos os anos em resultado directo da escassez de competências linguísticas e interculturais. Foram estas as conclusões do relatório ELAN 2, publicado pela Comissão em Fevereiro de 2007. Trata-se do primeiro inquérito realizado em toda a Europa sobre a perda de oportunidades de negócio devido à inexistência de competências linguísticas nas empresas. Este relatório baseia-se numa amostra de quase 2000 PME da EU-27 e dos países candidatos. Cerca de 11% das PME incluídas nesta amostra afirmaram ter perdido contratos em resultado directo da escassez de competências linguísticas e interculturais. As conclusões macroeconómicas apresentadas no estudo sugerem que a utilização estratégica das línguas representa um considerável potencial de melhoria dos resultados das exportações das PME, o que foi, aliás, confirmado por vários estudos nacionais. 1 2 «Demographic trends, socio-economic impacts and policy implications in the European Union 2007 – a monitoring report from the European Observatory on Social Situation and Demography» (Tendências demográficas, impactos socioeconómicos e implicações políticas na União Europeia de 2007 – um relatório de acompanhamento do Observatório Europeu da Situação Social e da Demografia http://ec.europa.eu/employment_social/spsi/docs/social_situation/2007_mon_rep_demo.pdf, página 43. Texto integral e resumo do estudo disponíveis em http://ec.europa.eu/education/policies/lang/key/studies_en.html O Austrian Institut für Bildungsforschung der Wirtshaft publicou, em 2006, um relatório que antecipa os problemas futuros da Áustria, um dos poucos países onde o nível de competências linguísticas entre a população em geral chegou mesmo a descer, de acordo com o Eurobarómetro. Para além do inglês, as empresas precisarão de adquirir competências a nível do italiano e das línguas dos parceiros comerciais da Europa Central e Oriental, nomeadamente o checo, o eslovaco e o húngaro. Em geral, a investigação e a experiência revelam que existe um certo nível de complacência, visto o inglês ser considerado a única língua necessária para o comércio internacional. Muitas empresas ainda precisam de reforçar as competências dos seus trabalhadores para poderem sentir-se à vontade com o uso do inglês. Contudo, em grande parte da Europa, o inglês é já considerado mais uma competência básica do que uma língua estrangeira. Falar inglês como um inglês está a tornar-se cada vez menos importante, dado o inglês estar a tornar-se parte integrante do ensino básico em muitos países 3. Neste contexto, a necessidade de manter uma vantagem alargando as competências linguísticas para além do inglês será sentida de forma mais acentuada. Línguas que as PME necessitariam de adquirir ou aperfeiçoar nos próximos três anos 1.07 % 9.30 % EN – inglês 1.14 % 1.83 % 25.84 % 2.67 % DE – alemão FR – francês 4.12 % RU – russo ES – espanhol 4.65 % IT – italiano ZH – chinês PL – polaco 6.55 % AR – árabe PT – português 17.84 % 11.74 % RO – romeno ** – outras línguas Fonte: Estudo ELAN, 2006 Em 2007, a Confederação das Indústrias Dinamarquesas realizou um inquérito entre as empresas seus membros, no qual ficou demonstrado que mais de um terço dessas empresas utilizam outras línguas para além do inglês e que 4 em cada 10 empresas sentiram dificuldades de comunicação mais ou menos graves com parceiros comerciais de outros países em resultado de défices linguísticos. AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO Um quarto das PME ainda considera necessário melhorar o seu nível de inglês. No entanto, o alemão, o francês e o russo são igualmente muito procurados. O mandarim e outras línguas chinesas (ZH) obtêm pontuações mais elevadas entre as empresas multinacionais. As línguas facilitam o funcionamento das empresas 13.19 % 9 3 Uma investigação da autoria do British Council chama a atenção para a extraordinária velocidade de alteração operada em aspectos que afectam a língua inglesa, especialmente nos dois relatórios de David Graddol, Future of English (1997) e English Next (2006). http://www.britishcouncil.org/learning-research-englishnext.htm 1.4 O desafio das PME Para as pequenas empresas, uma boa comunicação multilingue pode proporcionar oportunidades que marcam a diferença entre o êxito e o fracasso. As competências linguísticas constituem uma mais-valia para todas as actividades e não apenas para as vendas e o marketing. É possível resolver problemas de forma mais célere e evitar atrasos se existir uma comunicação directa entre as pessoas a todos os níveis. De acordo com o estudo ELAN, apenas 48% das PME incluídas na amostra afirmaram dispor de estratégias linguísticas formais de apoio às suas actividades internacionais. Quase 40% das PME nem sequer trabalham com sítios Web multilingues. O estudo conclui que existe uma forte correlação entre o investimento em estratégias linguísticas, a percentagem de exportação das vendas e a produtividade da empresa. Caso: Hencke und Meier, carpinteiros especializados, Düsseldorf, Alemanha Os dois co-proprietários da empresa falam inglês, francês e espanhol. O pessoal de que dispõem, composto por nove operários (dos quais três são aprendizes), é incentivado a praticar, desenvolver e utilizar as respectivas competências linguísticas. Thomas Meier explica: «As nossas competências linguísticas colocaram-nos em vantagem relativamente aos nossos concorrentes e ajudaram-nos a obter contratos interessantes e a estabelecer relações duradouras com os clientes. Estivemos a participar num grande projecto de restauro em França com uma equipa internacional: artistas de mosaicos italianos, estucadores polacos, electricistas franceses, restauradores artísticos ingleses… Como dispúnhamos de competências linguísticas, éramos chamados sempre que era necessário resolver problemas com os operários locais. Fomos sempre capazes de negociar soluções de forma eficiente em termos de custos, tendo assim assegurado a satisfação do cliente». 1.5 Multilinguismo e integração AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas O multilinguismo é igualmente um elemento-chave para a integração e propicia o diálogo intercultural. Pode permitir melhorar a situação de milhões de imigrantes na Europa e contribuir para a sua integração nos mercados de trabalho. Um apoio eficaz para ajudar os imigrantes a aprender rapidamente a língua do seu novo país de acolhimento é uma condição essencial para um bom funcionamento operacional. Uma melhor comunicação entre os trabalhadores aumenta a eficácia, a qualidade e a segurança, parâmetros extremamente importantes num contexto de produção. As competências linguísticas dos trabalhadores migrantes podem também ser úteis às empresas desde que utilizadas de forma mais proactiva. Estes trabalhadores são muito valiosos quer como mediadores culturais quer como recursos de vendas. 10 Caso: UMAC Midwest – Reciclagem de borracha sintética, Antuérpia, Bélgica Entre os 50 trabalhadores da UMAC Midwest, 21 são imigrantes marroquinos. Quando chegaram, os seus conhecimentos de neerlandês eram insuficientes ou nulos, dominando apenas o árabe e/ou o francês. Com o apoio financeiro do Fundo Social Europeu e de peritos externos, foi criada uma estratégia de línguas e comunicação que tinha como objectivos aumentar a eficácia, a qualidade e a segurança, reforçar a motivação e a participação pessoal dos trabalhadores e melhorar o ambiente de trabalho tendo em vista reduzir o número de faltas. Foram disponibilizados cursos de línguas em pequenos módulos, acompanhados de discussões em grupo e de outras reuniões regulares com o pessoal autóctone e imigrante. Os trabalhadores passaram a ter uma atitude positiva em relação à diversidade linguística e cultural da empresa e todos os objectivos foram cumpridos. 2. Instrumentos disponíveis e práticas actuais O grupo comparou a situação em vários países europeus e analisou as evoluções mais recentes a nível da UE em termos de promoção das línguas no âmbito empresarial. O resultado espelha uma Europa fragmentada e incoerente. Em geral, são poucas as iniciativas que referem abertamente a necessidade de melhorar esta situação, sendo raros os casos em que o multilinguismo é expressamente abordado em programas de desenvolvimento destinados a reforçar competências para o futuro. 2.1 Iniciativas europeias O Fórum das Empresas congratula-se com a cooperação europeia no âmbito da Estratégia de Lisboa para o Crescimento e o Emprego. A tónica incide na mobilidade e o Plano de Acção Europeu para a Mobilidade Profissional 4 propõe o reforço do EURES, um portal Internet em 25 línguas com acesso a uma base de dados de oferta de emprego pan-europeia. Entre outras iniciativas promissoras, inclui-se a «Parceria Europeia para a Mobilidade Profissional». Trata-se de uma rede composta por grupos de interesse, apoiada pela Comissão e criada com o objectivo de analisar formas de reforçar a mobilidade profissional na UE. O Parlamento Europeu, por seu turno, está a contribuir financeiramente para uma iniciativa destinada a desenvolver um esquema de mobilidade estruturado para aprendizes e outros jovens em formação profissional. 2.2 Financiamento europeu Em números absolutos, a maior parte do financiamento comunitário provém do Fundo Social Europeu, do Fundo de Desenvolvimento Regional e, no caso de alguns países, do Fundo de Coesão. Em conjunto, estes fundos representam um total de 347 mil milhões de euros (2007-2013). Este dinheiro é distribuído através das autoridades nacionais, no âmbito de planos nacionais, aprovados pela Comissão Europeia com base em prioridades mutuamente acordadas. Os projectos de integração no local de trabalho, incluindo cursos de línguas e compensações por tempo de trabalho perdido, são elegíveis para este tipo de financiamento. 4 5 COM(2007) 773 final. O documento pode ser descarregado a partir de http://eur-lex.europa.eu/Result.do?T1=V5&T2=2007&T3=773&RechType=RECH_naturel&Submit=Search No seguinte endereço poderá encontrar-se uma lista das actuais publicações sobre projectos financiados pela UE: http://ec.europa.eu/dgs/education_culture/publ/educ-training_en.html AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO Projecto de mobilidade Leonardo «Formation Transnationale Europe» Este projecto contribui para o desenvolvimento das competências profissionais e linguísticas de desempregados franceses que procuram trabalho, através da sua colocação em empresas europeias. O grupo frequenta um curso de formação composto por 8 semanas de formação geral com módulos profissionais, linguísticos e culturais, 3-6 semanas de cursos de formação intensiva e, por último, um estágio de 20-24 semanas numa empresa europeia. Este intercâmbio é efectuado no âmbito de parcerias europeias, o que permite garantir uma boa supervisão dos formandos. A parceria envolve 18 parceiros de 4 países. Após o estágio, o formando deve apresentar um relatório na língua do país de acolhimento, que será depois incluído na sua avaliação. As línguas facilitam o funcionamento das empresas As subvenções disponíveis através do Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida da Comissão Europeia são distribuídas através de convites à apresentação de propostas anuais. Em 2008, estes convites abrangerão um montante disponível total de 873 milhões de euros. O subprograma Leonardo da Vinci, em especial, proporciona oportunidades interessantes para empresas, uma vez que se centra na formação profissional 5. 11 Os processos de candidatura a subvenções comunitárias são complexos e morosos. As regras de constituição de um consórcio europeu, geralmente um pré-requisito para candidatura a qualquer tipo de subvenção, excluem frequentemente empresas com sucursais ou agentes em diferentes países, as quais, se assim não fosse, poderiam beneficiar das referidas subvenções. Estes problemas devem ser abordados em futuras discussões entre a Comissão Europeia e a comunidade empresarial. 2.3 Língua materna mais duas: a recomendação continua a ser a mesma Embora as iniciativas da UE e o financiamento da Comunidade possam representar um forte incentivo ao trabalho a nível nacional e regional, a maior parte do trabalho relativa ao apoio ao multilinguismo terá de ser efectuada pelos Estados-Membros. Por conseguinte, é importante que estes continuem a trabalhar em torno do objectivo comum mutuamente acordado desde a Cimeira de Barcelona de 2002: todos os cidadãos devem aprender duas línguas para além da sua língua materna. Gostaríamos que o multilinguismo fosse encorajado de forma mais activa em todos os níveis de escolaridade. Acima de tudo, é necessário alargar o leque de línguas por cuja aprendizagem se possa optar. A nível secundário e superior, os métodos de aprendizagem devem ser mais aplicados e orientados para a prática. Por outro lado, é necessário garantir um reconhecimento adequado das competências linguísticas nos currículos escolares e, numa fase posterior, na avaliação dos candidatos a emprego. Num contexto diferente, as competências linguísticas devem ser reconhecidas de forma apropriada em acordos negociados a nível central entre os parceiros sociais. 2.4 As redes podem melhorar a sensibilização e facultar apoio AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas A nível regional, estão a ser obtidos progressos em vários Estados-Membros e em países associados através de redes como as Câmaras de Comércio e os Conselhos de Comércio, que podem propor conceder assistência inicial às PME que pretendam alargar a sua actividade a mercados internacionais. Se as estratégias linguísticas fossem solidamente integradas em todos os programas de apoio, as empresas envolvidas sairiam ainda mais beneficiadas. O Conselho de Comércio da Dinamarca O Conselho de Comércio, tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros 6, é o organismo governamental responsável pela promoção das exportações e do investimento. Presta apoio em termos de consultoria individual a empresas e serviços comerciais gerais destinados a empresas e ao público. A sua prioridade estratégica centra-se nas PME, tendo desenvolvido programas direccionados para as necessidades especiais destas empresas. Um dos exemplos é o programa de apoio ao arranque das exportações, que inclui assistência para tarefas específicas relacionadas com a internacionalização, tais como a procura de parceiros, a pesquisa de mercado e o acesso a redes. 12 6 Para mais informações sobre o Conselho de Comércio da Dinamarca: http://www.um.dk/en/menu/TradeAndInvestment/ 2.5 Testes e normas As normas existentes podem ser utilizadas para estabelecer metas individuais, específicas e mensuráveis para diferentes categorias de pessoal, consoante o modo como elas utilizem as línguas no seu trabalho. Este tipo de diferentes estratégias linguísticas pode ser útil e eficaz, uma vez que as normas fornecem instrumentos concretos para que os departamentos de recursos humanos possam analisar as necessidades da empresa em questão. Além disso, podem ser integradas em objectivos de desenvolvimento pessoal. O sistema mais frequentemente utilizado é o Quadro Europeu Comum de Referência (QECR), criado pelo Conselho da Europa e aplicado em cooperação com a Comissão Europeia. Através de um sistema de níveis de competências necessários para realizar determinadas tarefas em diferentes situações, este quadro é adequado a uma abordagem que abrange as realidades complexas de um local de trabalho. Caso: Henkel KGaA, Düsseldorf, Alemanha A Henkel é uma grande empresa química multinacional, proprietária de várias marcas internacionais bem conhecidas 7. Só na Alemanha, são cerca de 2 500 os trabalhadores que frequentam anualmente acções de formação em línguas e comunicação. Uma parte importante desta formação é organizada sob a forma de reuniões de equipas. O serviço interno de formação linguística da Henkel centra-se nos processos de trabalho e nas respectivas competências de comunicação, integradas na aprendizagem linguística, necessárias para desempenhar diferentes funções na empresa. As necessidades de formação são avaliadas e definidas com base nas normas do QECR. As equipas multifuncionais frequentam as acções de formação em conjunto. Através deste método interactivo e flexível, a responsabilidade de aprendizagem assenta na equipa, embora a cultura de aprendizagem encoraje tanto as competências individuais como as de grupo. O êxito pode ser sempre determinado precisamente através da observação da aplicação das competências adquiridas em situações de trabalho reais. 3. O caminho a percorrer Será possível obter verdadeiros progressos se as empresas, desde as microempresas até às multinacionais, desenvolverem estratégias linguísticas criativas e dinâmicas, adaptadas às possibilidades individuais de cada organização. Todas essas estratégias requerem o apoio de redes locais e regionais. As parcerias, tanto entre o sector empresarial e o sector educativo como entre a indústria e a investigação, podem fornecer soluções viáveis para uma utilização produtiva das competências e das tecnologias linguísticas. AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As empresas devem apurar quais as competências linguísticas existentes na empresa e aplicálas estrategicamente. Devem analisar as suas políticas de contratação, as suas estratégias de formação e os seus princípios de mobilidade. Podem incentivar o pessoal a utilizar e a desenvolver as competências já adquiridas e organizar acções de formação linguística que sejam motivadoras e compatíveis com as exigências do posto de trabalho. É possível encontrar na Internet cursos flexíveis que, além de permitirem economizar tempo, são adaptados às necessidades, recursos e limitações de cada empresa. As possibilidades de novos instrumentos de aprendizagem e prática de línguas estrangeiras são cada vez mais amplas. As línguas facilitam o funcionamento das empresas 3.1 Medidas para uma abordagem mais multilingue 13 7 Para mais informações: http://www.henkel.com Os serviços de tradução podem ser utilizados para consultar sistematicamente sítios Web de concursos públicos em meios nacionais e internacionais. É necessário diversificar linguisticamente a comunicação e a publicidade na Internet, devendo as mensagens ser cuidadosamente adaptadas ao público-alvo. Desde que habilmente utilizada, a tecnologia linguística pode ajudar a reduzir e a controlar os custos do multilinguismo. 3.2 Estruturas de apoio a nível regional e local Os governos nacionais precisam de encontrar a forma mais eficaz de apoiar as PME com potencial a triunfar nos mercados estrangeiros. Por norma, este tipo de assistência é concedido a nível regional e em cooperação com organismos de desenvolvimento regional. Para além de apoio financeiro, as empresas beneficiariam de boas práticas e de conhecimento técnico em comunicação multicultural e multilingue. As Redes Linguísticas Regionais no Reino Unido As Redes Linguísticas Regionais (RLN) 8 do Reino Unido, apoiadas pelo CILT, o Centro Nacional de Línguas, promovem as competências linguísticas e culturais especificamente orientadas para as empresas e o emprego. A sua função consiste em colaborar com parceiros a fim de identificar e responder a necessidades regionais e sectoriais em termos de línguas e de sensibilização cultural, apoiar as empresas em questões linguísticas e ajudar os profissionais da indústria linguística. Parte do financiamento é concedida por outros interessados, como sejam as «Regional Development Agencies», os serviços de «Trade and Investment» britânicos e os «Learning and Skills Councils» de cada região. Localmente, existem possibilidades de reforçar os intercâmbios linguísticos entre as comunidades empresariais locais. O apoio e a assistência podem ser concedidos pelas Câmaras de Comércio, por grupos de interesse ou pelas autoridades locais. O objectivo consiste, por exemplo, em partilhar os custos e os recursos para a organização de acções de formação linguística para diferentes categorias de pessoal, assim como intercâmbios informais, como grupos de conversação durante a hora do almoço e feiras interculturais em parques industriais com trabalhadores multilingues. 3.3 Parcerias intersectoriais e transfronteiriças AS LÍNGUAS SÃO A ALMA DO NEGÓCIO As línguas facilitam o funcionamento das empresas As parcerias estratégicas desempenham um papel importante no investimento em capital humano e no desenvolvimento de competências para o futuro. Gostaríamos que fossem criadas parcerias de mobilidade profissional em toda a Europa e que as empresas procurassem novas possibilidades de cooperação no âmbito de diferentes redes, a fim de desenvolverem programas de intercâmbio e de mobilidade. A aprendizagem de línguas deve ser parte integrante de iniciativas regionais fronteiriças com a participação das empresas e do sector educativo. Este tipo de cooperação pode contribuir para a prosperidade, estimulando o comércio entre países vizinhos. 14 A adopção de tecnologia linguística parece ser ainda um objectivo longínquo para muitas empresas, especialmente para as PME. Esta situação pode ser melhorada através da promoção de parcerias entre os sectores da indústria e da investigação, assim como da conjugação de esforços tendentes a transferir a tecnologia linguística para a utilização produtiva. Estas medidas não só justificarão os elevados investimentos em tecnologia linguística, como também colocarão as empresas em vantagem, garantindo melhores serviços aos cidadãos. Por último, o nosso grupo gostaria que, a nível da UE, se prosseguisse o trabalho que deu origem a este relatório. O sector empresarial europeu necessita de uma plataforma permanente de discussão e intercâmbio de experiências e de boas práticas. Devemos avançar com eventos de sensibilização em toda a Europa, mobilizando todas as redes numa campanha concertada para alertar os decisores nas empresas e nos governos. Juntos, devemos garantir o reconhecimento e a utilização de todas as línguas como trunfos fundamentais para o êxito futuro das empresas. 8 Página de acolhimento multilingue das Redes Linguísticas Regionais: http://www.rln-east.com/international/ As línguas são a alma do negócio As línguas facilitam o funcionamento das empresas Recomendações do Fórum das Empresas para o Multilinguismo criado pela Comissão Europeia Luxemburgo: Serviço das Publicações Oficiais das Comunidades Europeias 2008 — 14 p. — 21,0 x 29,7 cm ISBN 978-92-79-08798-1 Como obter publicações comunitárias? As publicações para venda produzidas pelo Serviço das Publicações estão disponíveis na «EU Bookshop» http://bookshop.europa.eu, podendo encomendá-las através do agente de vendas da sua preferência. Também pode solicitar uma lista da nossa rede mundial de agentes de vendas através do fax (352) 2929 42758. NC-30-08-370-PT-C Comissão Europeia Direcção-Geral da Educação e da Cultura B-1049 Bruxelles / Brussel 32 - (0)2 299 11 11 32 - (0)2 295 57 19 [email protected] ISBN 978-92-79-08798-1