O Sítio dos Doces
de Emílio Carlos
Era uma tarde gostosa de
fim de verão. Como
estava meio quente Pedro
e Ana se sentaram à
sombra de uma velha
árvore, que fica no quintal
da casa da avó deles.
- Que sombra gostosa,
hein Pedro?
- É mesmo, Ana.
Os irmãos ficaram ali
observando os galhos e as
folhas da árvore. Era uma
árvore grande, que dava
uma sombra enorme.
Porém a árvore não dava
frutos.
- Eu queria morar num sítio – disse Pedro.
- Eu também – concordou a irmã.
- Esta árvore não dá frutos. Já reparou? – indagou o irmão.
- Já – respondeu Ana. – No meu sítio só vou querer árvores que dêem frutos.
Daí Pedro teve uma idéia: que tal falar os tipos de árvores que nós vamos plantar no
sítio?
- Quando o papai comprar o sítio, né? – disse Ana.
- É – concordou Pedro. – Eu começo: a primeira árvore que eu vou plantar vai ser...
uma goiabeira! Vai Ter muita goiaba. Hum!...
- Bem – disse Ana pensando – a primeira árvore que eu vou plantar vai ser... uma
gomeira!
- Gomeira? – estranhou Pedro – Não conheço essa árvore.
- É a árvore que dá... balas de goma! – exclamou Ana.
- O quê? – estranhou mais ainda Pedro. – Mas isso não exis...
Ana interrompeu o irmão e disse:
- Também vou plantar uma sorveteira, pra dar muito sorvete!
- Sorveteira? E onde você vai arranjar a semente dessa árvore, hein? – disse Pedro
assim desconfiado.
- É fácil: é só pegar uma bola de sorvete e plantar na terra que logo cresce... a
sorveteira!
- Eu não mereço! – pensou Pedro falando alto.
Mas a irmã nem ouviu. Estava em plena euforia agrícola. E continuou:
- Vou plantar várias árvores sorveteiras, uma de cada sabor. E também vou plantar
uma chocolateira.
- Para dar chocolates - completou Pedro, sem empolgação.
- Isso! – exclamou a irmã. – E vou querer uma piruliteira!
- Para dar pirulitos – adivinhou o irmão.
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- Isso! E também vou querer... vou querer... uma algodãozeira! – exclamou Ana.
- O que é isso? – quis saber Pedro.
- Árvore de algodão doce. E também vou querer uma churrasqueira!
- Ué: não era só árvore de doce que você queria? – estranhou Pedro.
- Claro que sim, bobinho. Churrasqueira é a árvore que churros.
Nessa Pedro ficou sem fala.
- E também vou querer uma baleira! – exclamou Ana.
- Não me diga. Deixe-me adivinha – disse Pedro. – É uma árvore de balas.
- Isso! – exclamou a irmão dando um tapa na própria testa.
As ideias de Ana não tinham fim. Parecia que ela estava no setor de doces de um
super-mercado – não num sítio. Foi quando Pedro interrompeu a irmã e disse:
- Ana: não vai dar certo.
- Como assim “não vai dar certo”?
- Assim: não vai dar certo.
Ana quis saber porque. Afinal um sítio de doces era uma idéia pra lá de gostosa. As
crianças iam adorar.
- E as formigas também – completou Pedro.
- Como é que é? – indagou Ana.
- As formigas também vão adorar seu sítio de doces. Todas as formigas do sítio vão
atacar suas árvores açucaradas. E as formigas dos sítiso vizinhos também. Virão
formigas de toda cidade, do país inteiro, do mundo todo. Vai ser uma verdadeira
invasão de formigas comendo tudo, aumentando de tamanho, virando formigas
gigantes. E quando elas acabarem não vai sobrar nada das suas árvores.
- O sítio será um grande formigueiro – disse Ana estática imaginando a invasão das
formigas.
- É – concordou Pedro.
- É – disse Ana desanimada.
O silêncio se abateu sobre os irmãos naquela tarde debaixo daquela sombra gostosa.
Depois de um tempo Pedro disse:
- Acho melhor voltar para as goiabeiras.
- É – concordou Ana, sem nenhum entusiasmo.
- Seria bom uma bananeira, para dar bananas - disse o irmão.
- Formiga gosta de salgado? – quis saber Ana.
- Bem – disse Pedro pensando – acho que...
Mas Ana nem esperou o irmão terminar de responder. Se não podia Ter um sítio de
doces, que tal um sítio de salgados?
- Vou plantar uma croqueteira para dar croquetes, uma empadeira para dar
empadinhas, uma coxeira para dar coxinhas, uma quibeira para dar quibes, uma
pizzeira para dar...
- Lá vamos nós de novo... – disse Pedro pensando alto.
- ... e uma cachorro-quenteira para dar cachorro-quente, e uma esfiheira para dar...
Emílio Carlos
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