ISSN: 1983-8379
Literatura oitocentista montes-clarense: escrita, memórias e leituras
Osmar Pereira Oliva1
RESUMO: Este artigo discute a produção literária do norte de Minas Gerais, a partir de publicações no jornal
“Correio do Norte”, nos anos de 1884 a 1891. Nesse jornal, encontram-se contos, crônicas, romances e poemas.
Neste texto, no entanto, deu-se preferência à análise de alguns poemas, a fim de demonstrar como a estética
romântica é privilegiada, enquanto a estética realista-naturalista, então em voga, não se faz notar para os autores
que contribuíram para esse jornal.
Palavras-chave: Literatura norte-mineira; Romantismo; Poesia
“Pensa na escuridão e no grande frio que reinam nesse vale, onde soam lamentos.”
(Brecht, Ópera dos três vinténs)
Há alguns anos, venho me dedicando à literatura oitocentista, especialmente às
literaturas de língua portuguesa. Em 2002, concluí uma pesquisa de doutoramento na
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, discutindo a produção literária de Machado
de Assis, Adolfo Caminha, Abel Botelho e Eça de Queirós; este último, objeto central da
minha análise. Em 2007, comecei a me interessar pela produção literária regional, pois há
muitos textos publicados em jornais do século XIX que não são conhecidos dos leitores do
século XXI, e penso que se não forem recuperados e editados, jamais serão lidos.
É comum a crítica literária dar uma atenção especial ao pensamento e à produção
ficcional dos grandes centros urbanos, onde a intelectualidade tem uma visibilidade maior. No
entanto, pouco se discute sobre o que os homens das cidades do interior pensam e produzem,
ainda mais se nos referirmos ao final do século XIX, quando o Rio de Janeiro era o centro das
atividades políticas e culturais. Se Minas Gerais (Belo Horizonte e Ouro Preto) tinha certa
importância nessa época, o norte-mineiro era praticamente desconhecido, e o pouco que se
falava desta região era como um lugar inóspito, rural e bárbaro, como se não houvesse
educação e não se circulassem idéias a respeito do que acontecia no restante do país e no
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Professor de literaturas de língua portuguesa nos cursos de graduação em Letras e na pós-graduação Stricto
Sensu em Letras/Estudos Literários na Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes.
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mundo. No imaginário nacional, o norte de Minas era o sertão, habitado por vaqueiros e
jagunços, fazendeiros rudes e gente inculta. Representações que foram reforçadas pelos
relatos de viagens de europeus que por aqui passaram, como Saint-Hilaire, Maurice Gaspar,
George Gardner, Richard Burton, entre outros.
De 1887 a 1900, o Brasil passou por importantes transformações políticas, sociais e
culturais, que ficaram registrados em documentos históricos, em livros e jornais. Entre esses
acontecimentos, destacam-se a abolição da escravatura e a proclamação da república. No
campo estético, é a transição do Realismo-naturalismo para a literatura simbolista e
modernista. No entanto, percebem-se, em quase todos os textos publicados no jornal “Correio
do Norte”, de Montes Claros – MG, ainda as marcas do Romantismo tardio. Mesmo assim, os
autores que publicaram seus textos nesse jornal não estavam alheios a esses acontecimentos
históricos, que serviram de matéria também para a sua criação ficcional. Inicialmente, poderse-ia falar de ingenuidade ou desconhecimento estético por parte dos autores que publicaram
seus textos nesse jornal, mas esse preconceito esbarra no fato de essa produção literária
dialogar com grandes autores e obras de outras nacionalidades, como a inglesa, a francesa e a
alemã, além de haver traduções de alguns textos literários por autores regionais.
A sociedade contemporânea parece cada vez mais seduzida pelos instrumentos
tecnológicos e pelos meios de comunicação instantânea. A cultura que se produz nesse
momento também revela a sua interação com os discursos e veículos referentes a essa era em
que a informática predomina. Ressalta-se a virtualidade da arte, acessível de qualquer parte do
mundo, via internet. Textos publicados em jornais, revistas e livros tornam-se menos comuns,
e é por isso que é preciso resgatar muitas obras publicadas em outros séculos, para que os
leitores deste novo milênio tenham acesso a essas produções antigas. Como afirma Leopoldo
Comitti (2000, p. 77),
Como um painel de ruínas, os documentos nos darão pistas para reconstituir toda uma
trajetória, não só do poeta, como também do gênero poético, tais como: a mentalidade da
sociedade que, em última instância, foi a responsável pela organização do material; a ideologia
das entidades oficiais e sua função histórica; leituras do escritor; tradição cultural familiar;
amizades literárias; tradição literária relacionada à formação educacional, além do resgate de
todo um sistema simbólico presente nos objetos e vestígios documentais do cotidiano.
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A imprensa escrita ocupou um espaço preponderante na divulgação da cultura e do
conhecimento, até o início do século XX, principalmente nas grandes cidades, onde se
discutiam a política, a religião, a arte e o destino da nossa pátria. Alguns jornais surgiram nas
cidades do interior, na segunda metade do século XIX, procurando seguir a tendência do
debate intelectual desenvolvido nas capitais ou, no mínimo, expondo suas opiniões e fazer
literário.
Montes Claros, localizada no norte de Minas Gerais, é um exemplo dessa tentativa.
De 1884 a 1891, publicou-se um folhetim intitulado “Correio do Norte”, noticiando os fatos
relevantes da região. Nesse jornal, de publicação semanal, uma coluna era dedicada à
literatura, recebendo colaborações dos homens de letras daquela época. Uma seção
independente, “A lira”, organizada pelo senhor Antônio Augusto Spyer, chegou mesmo a ser
editada junto com esse jornal. Infelizmente, não encontramos nem um exemplar desse encarte.
A sua criação é creditada ao senhor desembargador Antônio Augusto Veloso, em 24 de
fevereiro de 1884. O último número (343) veio a lume em 1 de março de 1891.
Segundo Walter Benjamin, existe um encontro secreto marcado entre as gerações
passadas e a nossa, como se alguém estivesse, no passado, à nossa espera, para ser resgatado.
Para esse autor, “foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige
um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente.” (BENJAMIN, 1997, p. 223).
Como se vê, o pensamento de Benjamin dialoga muito bem com o texto de Brecht, em
epígrafe, uma vez que, no vale da escuridão da memória, onde estão autores e obras
esquecidos pelo processo histórico, ecoam lamentos, apelos para serem ajudados a saírem
desse vale frio e tenebroso do silenciamento e da invisibilidade.
Com a nossa investigação, sem aceitar o caráter messiânico de que nos fala
Benjamin, pudemos discutir como os escritores montesclarenses se relacionaram com a
literatura das capitais e de outras nacionalidades. Mapeamos, assim, não apenas o nosso
processo de formação literária, resgatando a nossa memória histórica e literária, mas
apontamos, também, como essa literatura produzida no interior de Minas Gerais estabelecia
um diálogo com a literatura nacional e universal. Como afirma Andreas Huyssen, em seu
livro Memórias do Modernismo (HUYSSEN, 1997, p.14) “O passado não está simplesmente
ali na memória, mas tem de ser articulado para se transformar em memória.” Portanto, é
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preciso pôr em exercício contínuo esse passado, para que se transforme em memória de fato e
acessível aos leitores de outros tempos.
Não encontramos nenhum outro registro desses escritores montes-clarenses do final
do século XIX, além do jornal em foco. Também não encontramos nenhuma antologia que
resgatasse essa produção literária. Um dos nossos objetivos, neste texto, é trazer à luz os
escritos de autores do interior norte-mineiro, apresentando-os aos leitores universitários e aos
leitores comuns, possibilitando novas investigações. Desta forma, podemos falar numa
atualização de nossas memórias do século XIX. Retomando Huyssen, a memória não é uma
oposição à reificação capitalista, mas uma
tentativa de diminuir o ritmo do processamento de informações, de resistir à dissolução do
tempo na sincronicidade do arquivo, de descobrir um modo de contemplação fora do universo
da simulação, da informação rápida e das redes de TV a cabo, de afirmar algum “espaçoâncora” num mundo de desnorteante e muitas vezes ameaçadora heterogeneidade, nãosincronicidade e sobrecarga de informações. (HUYSSEN, 1997, p.18)
Acreditamos poder colocar à disposição desses novos leitores da era das
moderníssimas tecnologias informações sobre um acervo que está sendo consumido pelo
próprio tempo e pelas físicas traças e intempéries, associados ao mofo, à poeira e ao desgaste
natural dos papéis-jornais. Ao ler esses jornais, propusemos as seguintes questões: Que
aspectos da produção literária do século XIX, dos autores das capitais brasileiras e de outros
países são retomados nas escritas dos autores montes-clarenses? Quais idéias do século XIX
se propagam nesses textos? Que elementos antecipam uma certa modernidade nesses autores?
Como se articulam as idéias do Romantismo e as filosofias e valores do Realismo? Como essa
produção ficcional registra a abolição da escravatura e a proclamação da república? Que
leituras os autores montes-clarenses realizavam naquele momento histórico? E, retomando
Comitti (2000, p. 80), “Organizar coisas é, sem dúvida, estabelecer uma leitura do vivido”.
A nossa pesquisa desenvolveu-se, essencialmente, na Diretoria de Documentação e
Informação da Universidade Estadual de Montes Claros, onde se encontra o maior número de
edições do jornal “Correio do Norte”. Como a numeração não é contínua, infelizmente alguns
números se perderam, e nenhum exemplar de “A lira” foi encontrado para ser analisado.
Sabendo que Ouro Preto era a capital mineira nessa época, também investigamos a existência
de algum acervo nessa cidade, mas nada encontramos a respeito. Em Belo Horizonte, a
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pesquisa foi feita no acervo Linhares, da Universidade Federal de Minas Gerais, onde não foi
possível localizar qualquer edição desse jornal. No entanto, na Hemeroteca pública mineira há
alguns números, que não completam as lacunas existentes nessa produção. Na Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro também a pesquisa foi realizada e lá detectamos a existência de
apenas dois números, já localizados no acervo de Montes Claros.
Depois de localizar e ler esses jornais, ao longo de dois anos, realizamos a cópia
manuscrita de todos os textos considerados literários, sem um julgamento de valor a esse
respeito. Os textos foram digitados e
encontram-se à espera de apoio financeiro para
publicação. Apontamos, a seguir, a quantidade de textos coletados e sua classificação, por
gênero literário: 50 poemas; 9 contos, alguns deles narram lendas orientais; 30 crônicas, com
assuntos históricos – a república, os escravos, acontecimentos corriqueiros, lutas, assassinatos,
entre outros temas variados, da ordem do dia; 5 Folhetins: O Recruta, sem indicação de autor,
O Irmão do Espírito Livre – Romance Histórico, do alemão Henrique Zschokke, traduzido
por Antônio dos Anjos, A Pena de Morte – drama judiciário, do francês Julio Simon, sem
indicação do tradutor, Offland, do francês Alexandre Dumas Filho, sem indicação do tradutor,
Os noivos da floresta de Guinder, de Erckman Chatrian, sem indicação do tradutor. 10
charadas e 11 logogrifos2. Abaixo, transcrevemos um exemplo de logogrifo, para que o leitor
tenha clareza de sua estrutura:
A primeira mulher do mundo...............4,6,7
Vasto paraíso enxergava.......................6,2,7
Como candura o contemplava.....1,2,5,7,6,7
E ao criador adorava..........................7,1,6,7
Então naquele tempo............................4,5,7
Nessa infantil idade.....................1,4,3,2,3,7
É justo não acertar.........................4,5,5,7,5
2
Nos jornais e almanaques do séc. XIX eram comuns as publicações de charadas como desafio para os leitores.
Entre
as
charadas,
havia
um
tipo
chamado
logogrifo,
de
difícil
solução.
Logogrifo – modalidade de charada que consiste em formar certo número de palavras com letras de outra palavra
ou das palavras integrantes de uma locução. Para isso numeram-se as letras da palavra ou locução escolhida e
com esses números se indicam as letras utilizadas nas palavras que se formarem. É condição do logogrifo que no
conjunto das palavras assim formadas figurem todas as letras da palavra ou locução básica e, no mínimo, se
repita a metade mais uma. O logogrifo pode ser feito em prosa ou verso, mas de preferência em verso. (Compõese um logogrifo incluindo-se numa ou mais frases de sentido completo, ou num poema, sinônimos das palavras
formadas [parciais] e em último lugar o da palavra ou locução que serve de solução [conceito], indicando-se ao
lado de cada parcial, entre parênteses ou ao pé da composição [quando em prosa], e no fim do verso em que
aparecem ou ao pé do poema [quando em verso], os algarismos, separados por vírgulas, correspondentes às letras
do conceito utilizadas na sua formação).
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Com a fresca suavidade..................7,14,3,7
Mas em época mais tarde....................4,5,7
Viu-se o Messias chegar......................6,2,5
O inimigo a zombar.............................5,2,5
E ele a todos salvar........................5,4,1,2,5
Conceito
Da antiga religião dos gregos
A mitologia tiramos
E nessa parte das ciências
Uma deusa encontramos
(Correio do Norte, n.268, 7 de abril de 1889)
Os temas mais frequentes nessa produção literária eram: o orientalismo, por meio de
contos e lendas; a fauna e a flora regionais, na poesia; o romantismo tardio, por meio de
representações da mulher morta (mãe ou irmã), da subjetividade e do sentimentalismo; a
república e a abolição da escravatura, sobretudo nas crônicas. Desses textos, apenas um foi
escrito por uma mulher, que assinou M. L. Seixas (um poema dedicado à memória de sua
amiga Luiza Augusta Ribeiro de Alkmin, pela ocasião de sua morte).
No Editorial da primeira edição do jornal, em 24 de fevereiro de 1884, o editor
explica ao leitor quais são as intenções desse impresso:
Animado pelo justo empenho de advogar a prosperidade moral e material do externo norte de
Minas, apresenta-se, no círculo da imprensa, o Correio do Norte.
Nestes últimos anos, principalmente, em que o jornal, ativo e pujante instrumento das
evoluções sociais, tem-se vulgarizado e penetrado por todos os recantos dos países cultos,
contribuindo de modo eficaz, para fecunda disseminação de idéias; quando possuir uma
imprensa é legítima aspiração dos centros populosos mais adiantados, o aparecimento de mais
um, ainda modesto, cooperador desses olheiros do progresso, é um fato digno de estímulo, por
parte de quem pensa no futuro da pátria, e lhe não recusa o contingente devido, em prol da
prosperidade dela; porquanto, é sempre frutificativo, sempre civilizador o fim da imprensa,
qualquer que seja a posição em que esta se coloque, qualquer a cor política da bandeira
arvorada, ou programa a seguir.
A seção literária, que será ao mesmo tempo instrutiva – procurando unir o útil ao
agradável – conterá variedades – literatura amena, lendas e poesia, originais e
traduzidas...
Terá, igualmente, por objeto, ligeiras noções sobre conhecimentos úteis; e qualquer outro
assunto que, referindo-se particularmente ao norte de Minas, puder interessar ao progresso
destas zonas, e tornar conhecido o estado de adiantamento, precursor de melhor futuro, em que
já se acham... (grifos nossos)
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Nota-se que o editor tem uma compreensão bem acertada a respeito da função da
imprensa, considerando-a instrumento de evolução e civilização, meio pelo qual se produzem
e circulam idéias, sejam elas políticas, econômicas ou culturais. Destaca-se, nesse editorial, a
seção literária, onde encontramos uma grande variedade de textos em diversos formatos e
gêneros, como já apontamos.
A literatura produzida na região do norte de Minas Gerais e publicada no jornal
“Correio do Norte”, de Montes Claros, apresenta intertextualidades com autores e obras de
outras nacionalidades. Essas publicações podem ser agrupadas nos gêneros lírico e narrativo,
predominando o primeiro, nos quais é possível estabelecer contatos com as reflexões
políticas, sociológicas, históricas e estéticas do final do século XIX, porém, permanecendo
traços ainda da escrita romântica. Deixamos para outra oportunidade os comentários sobre os
textos em prosa e apontaremos, a partir de agora, algumas representações da natureza local e
outros temas frequentes na poesia romântica:
Sentimentalismo e subjetividade
Afrânio Coutinho (1976, p. 164), ao discutir o Romantismo no Brasil, subdivide-o
em quatro grupos, iniciando pelo grupo fluminense, com o manifesto romântico de 1836, e
finalizando em 1870. Segundo esse crítico, o gênero preferido é a poesia lírica, marcada pela
sensibilidade, pelas aspirações espirituais e religiosas. Em todos os grupos o individualismo, o
subjetivismo e o negativismo boêmio se fazem presentes. No entanto, em sua fase final, o
Romantismo brasileiro ganhou “intensa impregnação político-social, nacionalista, ligada às
lutas pelo abolicionismo (especialmente depois de 1866) e pela Guerra do Paraguai (18641870). Na poesia lírica, além de um lirismo intimista e amoroso, por influência de Victor
Hugo tende para um lirismo de metáforas arrebatadas e ousadas...” (COUTINHO, 1976, p.
166).
Depois de 1870, informa-nos Afrânio Coutinho, há uma franca reação antiromântica, e a ficção assume a forma realista, seja na maneira urbana, de análise de costumes
e caracteres, seja na regionalista, seja na naturalista. No entanto, não é o que se comprova na
ficção produzida no norte de Minas Gerais, conforme as publicações de 1884 a 1891, como
percebemos nos seguintes fragmentos:
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Já pela manhã, quando alto o sol,
Lá no horizonte,
Soberba potestade se apresenta,
Eu sou errante!
(...)
do mísero judeu – ente maldito –
a sina cumprirei?!
No mundo oh! Deus clemente
Sempre só eu andarei?!
Nesse poema, intitulado “O mendigo”, publicado em 24 de fevereiro de 1884, Pedro
Guimarães escreve sobre um assunto tão comum para os poetas românticos – o andarilho ou o
judeu errante. Os versos contêm expressões de cunho moralizante, uma vez que os ricos,
considerados avaros, desprezam o peregrino, o qual será recompensado pelo “grão ser”, o
Deus cristão, em quem o eu-lírico espera uma recompensa espiritual pelo seu sofrimento
terreno. Assim também se verifica o sentimento anti-semita, uma vez que o mísero andante,
em sua pujante humildade, julga o judeu pior do que ele. Escrito em 1ª pessoa do singular, o
poema mantém ainda a tradição romântica, no sentido de valorização da subjetividade e da
dor existencial.
A mulher morta
Uma das correntes do Romantismo é conhecida como “O mal do século”, pelo gosto
nas descrições dos estados mórbidos, pelas representações da morte e pelos sentimentos de
perda e de melancolia, a exemplo do que se percebe em poemas de Álvares de Azevedo,
Junqueira Freire e Casimiro de Abreu. Assim, outro tema bastante recorrente na poética
romântica é o da mulher morta; uma vez que não pode ser tocada, deve ser contemplada à
distância, se está viva; ou admirada, quase santificada, se está morta. Como no poema
“Saudade”, de Carlos Lima, publicado em 6 de março de 1884:
Meu Deus!... eu passo
Sem alimento,
E só lamento,
No triste peito.
A imagem triste
D’uma irmã querida,
Que há um ano existe
No eterno leito!
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O sentimentalismo também se nota na maioria dos poemas, quando o eu-lírico se
apresenta queixoso, lamentando seus infortúnios:
Se eu pudesse chorar!... minhas mágoas
Bem poderão talvez ameigar-se
A minha alma transida de dores,
Poderia talvez alegrar-se.
Nesse poema, intitulado “Se eu pudesse chorar”, P. A. Faria, poeta de Ouro Preto,
exacerba a dor, expondo uma alma conturbada e triste. O eu-lírico revela-se aflito por causa
de algum tormento, não explícito nos versos, mas intensificado pelas repetições do verso “Se
eu pudesse chorar”, o que demonstra o dilaceramento da alma e a impossibilidade do alívio,
pois as lágrimas não vêm nem aplacam suas dores.
A natureza local
De acordo com Afrânio Coutinho (1976, p. 172), o sentimento da natureza traduziuse na poesia de maneira exaltada, transformando-a quase numa religião. Em suas palavras: “O
romântico instaurou o prazer estético da paisagem, descobrindo-a definitivamente para a
literatura, ao mesmo tempo fazendo conhecer o Brasil pelas suas descrições.” Raphael A.
Torres, em um poema publicado no dia 2 de março de 1884, escreve um poema ufanista, ao
gosto romântico, pela valorização da natureza local:
Na amena sombra
De verde jaqueira,
Em tarde fagueira,
Me sento a cismar,
Ouvindo o gorjeio
Dos plúmeos cantores,
Que ternos amores
Estão a cantar.
(...)
Eu vejo também
Correr gracioso,
Ribeiro formoso,
Entre árvores gentis,
E as áureas travessas.
Por entre as palmeiras,
Nas folhas ligeiras,
Perpassam sutis.
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Aqui, é o repouso tranquilo que o poeta representa, exaltando a fauna e a flora
brasileiras, como herança do poeta Gonçalves Dias, modelo para escritores de sua época, tema
de reescrita para outros, até os nossos dias. Além do ritmo apressado, promovido pelos versos
heptassílabos, as rimas garantem musicalidade ao texto, em lembrança às cantigas escritas em
forma de quadrinhas, tão ao gosto popular durante o Romantismo. O poeta aproveita, também,
elementos estéticos que simbolizam a pátria brasileira: a jaqueira e a palmeira; o poema
descreve o prazer do repouso em meio à natureza tropical e aconchegante.
Em dezembro de 1884, outro poeta, Manoel Ambrósio, retoma o tema da canção do
exílio:
Trina o canário no jardim florente
Canção do exílio que jamais cantou
Voa e revoa pelo caos, - distante
Respira aromas que jamais achou.
Depois ligeiro percorrendo ainda
O vasto espaço que transpondo vem,
Pousa na rama de frondosa balsa,
Canta os pesares que na alma tem.
Como se percebe, há uma atualização quanto ao pássaro da canção de Gonçalves
Dias, mas o teor sentimentalista permanece, pelos pesares que o eu-lírico na alma tem. O
canário, pássaro de cor amarela e que canta extraordinariamente, é o novo símbolo de
brasilidade nesse poema, associado aqui, porém, mais à dor do eu-lírico do que à exaltação da
pátria brasileira. Não podendo suportar o sofrimento, esse sujeito/pássaro, com seu canto
mavioso, pede a Deus clemente que lhe dê a morte. O poema finda com uma imagem delicada
e triste: o pássaro morto e a brisa leve beijando-lhe a cabecinha loura, em referência ao lindo
dourado de sua plumagem.
Apesar da simplicidade dos versos, quanto à estética e quanto à criação de metáforas
e imagens bem elaboradas, percebemos claramente a identificação dos versos com os ideais
do romantismo brasileiro. Mas é difícil explicar por que esses autores não se afastaram dessa
estética, uma vez que o Realismo-naturalismo estava em seu auge com a publicação de O
Mulato, de Aluísio Azevedo. A nossa hipótese é a de que o Realismo do final do século XIX
não produziu uma poesia que tivesse o mesmo reconhecimento e a mesma divulgação que a
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poesia romântica teve. Quanto à simplicidade dos versos, nós a encontramos em outros tantos
românticos, sem os desmerecer.
Nesse sentido, cabe ressaltar que os poetas do sertão norte-mineiro liam os autores
nacionais e também os poetas franceses, alemães, portugueses e ingleses, pois muitos deles
são referidos nos poemas e alguns trechos servem mesmo de epígrafe para certos autores. É o
caso de Matinée, poema sem indicação de autoria, publicado em 3 de setembro de 1890, que
tem como epígrafe um fragmento de poema de Mme. Valmore. O próprio título foi mantido
em língua estrangeira. Longfellou é outro poeta que empresta versos à epígrafe do poema “A
mulher”, de 7 de outubro de 1890, sem identificação do autor. F. Querino dos Santos, em 26
de outubro de 1884, presta sua homenagem a Murger, em “Os três sorrisos de Margarida”.
Portanto, esses escritores sertanejos liam os demais românticos. Sua simplicidade é
mais estilo do que ingenuidade e desconhecimento. E, para finalizar esta reflexão, prestamos
aqui nossa homenagem a esses tardios românticos que colaboraram para a divulgação da
poesia no jornal “Correio do Norte”: P. Cardoso, Antônio Augusto Spyer, Antônio dos Anjos,
P. A. Faria (Ouro Preto), A. F. de Castilho, F. Querino dos Santos, Antônio Couto de
Magalhães, J.M.M.W, de São Francisco, S. Júnior, Paulino A. Faria (Caitité), Manuel
Ambrósio, Leandro Antonino Teixeira, B.D. Alkimin, Tristão Moreira da Silva, Antônio
Pacífico Viana, Cônego Francisco Neto Carneiro, José Maurício da Silva, Henrique Câncio
(cidade de Peçanha), Luís Gregório Júnior, Malvino, José Estevão, Bento Belchior de Alkmin,
Cecílio Ribeiro (Contendas/Brasília de Minas) e dois ilustres conhecidos nossos, D. Pedro II3
e Castro Alves (poema “O São Francisco”).
3
O poema a seguir foi publicado em 29 de dezembro de 1889, com a nota explicativa de que a autoria é
atribuída ao imperador D. Pedro II, encontrado em seus aposentos escrito a lápis, por ocasião da proclamação da
república.
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte.
Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade
Que hoje mos dá contínua felicidade
E amanhã nem um bem que nos conforte
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Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: sobre literatura e história da cultura.
São Paulo: Brasiliense, 1994.
COMITTI, Leopoldo. Transbordamentos – Biografia, Acervos de Escritores e História da
Literatura. São Paulo: Barcarola, 2000.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1976.
HUYSSEN, Andreas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: ED.UFRJ, 1997. Jornal
Correio do Norte – edições de 24 de fevereiro de 1884 a 1 de março de 1891. Montes Claros –
MG.
RÉSUMÉ: Cet article discute la littérature du nord de Minas Gerais, à partir de publications au journal “Correio
do Norte”, dans les années 1884 jusqu’à 1891. Dans ce journal, il y a des contes, des chroniques, des romans et
des poèmes. Ici, toutefois, nous avons préféré analyser de certains poèmes pour montrer comme l'esthétique
romantique est privilégiée, tandis que l’ esthétique realiste-naturaliste, en vogue dans cette époque, n’est pas
apperçue dans les écrits de ces auteurs-lá qui ont contribué pour ce journal.
Mots-clés: littérature du nord de Minas, Romantisme, Poésie
Mas a dor que excrucia, que maltrata
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e pronto o mata
É ver na mão cuspir à extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata
Que tantos beijos nela deu outrora.
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