Revista das Ciências Agrárias, volume XXIX, 2006: 221-237. Co-compostagem de lamas de ETAR da indústria têxtil com suportes orgânicos residuais: estudo do processo e caracterização dos compostos finais Cocomposting of textil industry sludge with organic wastes: process evolution and composts characterization A. Fernandes 1, A. Sousa 2, M. Costa 3, C. Vasconcelos5, E. Leandro 3, M. Russo 4, M. Cunha 5 1 Divisão de Hidráulica, das Infrastruturas Rurais, do Ordenamento do Território e do Ambiente, DRAEDM [email protected], 2Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, IPVC antó[email protected], 3Laboratório Regional [email protected], 4 Escola Superior de Tecnologia e Gestão, IPVC,[email protected], , 5 Secção Autónoma de Ciências Agrárias, F.C.U.P., Rua Padre Armando Quintas, 4485-661 Vairão, e-mail: [email protected]. RESUMO A aplicação de lamas ao solo é uma das possíveis vias para o seu escoamento. Estudos à escala Laboratorial apontam para o seu valor fertilizante associado a consideráveis teores em azoto e fósforo. Contudo, a aplicação de lamas aos solos encerra cuidados especiais de manuseamento associados a questões de higienização e obriga ao conhecimento de todo um conjunto de factores, nomeadamente do tipo de solos onde vai ser aplicada a lama, da distância a linhas de água e de técnicas culturais que não são dominados pelo utilizador. A necessidade de conferir a estes resíduos uma maior margem de segurança na aplicação e estabilidade na deposição, a fim de salvaguardar a saúde pública e o ambiente conduziu ao estudo em questão, através do qual se pretendeu efectuar o tratamento de lamas de ETAR da industria têxtil mediante a sua co-compostagem com resíduos que constituíssem uma fonte de carbono, tais como algodão, casca de pinheiro e serrim, em proporções calculadas para corrigir a relação C/N inicial. Constituíram-se três tipos de misturas, lama + serrim, lama + casca de pinheiro e lama + algodão + serrim, e seis tratamentos. Após 45 dias em degradação activa, os resíduos orgânicos permaneceram em maturação durante 90 dias. São apreciados os parâmetros de evolução da compostagem e é efectuada a caracterização físicoquímica e a avaliação do grau de higienização dos compostos finais. 1 ABSTRACT Sludge use on land is a possible way for the management of these organic wastes. Laboratory essays show the sludge fertilizer value resulting from high levels of nitrogen and phosphorus content. However sludge spreading on land need special handle care related with higienization as well as a knowledge about a whole of factors that are not generally controlled by the users such as, kind of soil, cultural technics, distance to groundwater. The necessity for increase safety on sludge handling and stability on land use, in order to protect health and the environment, lead to this work, where we pretend to do a sludge treatment by co-composting it with organic wastes as a carbon source. So, sawdust, pine bark and cotton were added to sludge just in the right proportion to balance C/N ratio, and three kind of moistures were carried out: sludge + sawdust, sludge + pine bark, and sludge + cotton + sawdust. The composts were obtained after forty five days of active degradation and ninety days of maturation period. Composting evolution, physical and chemical characterization of the final composts were evaluated as well as their higienization degree. INTRODUÇÃO De acordo com um parecer do Instituto de Resíduos sobre a valorização agrícola das lamas, as lamas provenientes de ETAR´s domésticas, ou de composição similar, podem ter valor fertilizante, constituindo uma fonte de matéria orgânica e de nutrientes, e ter acção como correctivo alcalinizante para o solo (Lobo, 2001). A Comissão Europeia apoia a aplicação ao solo de lamas de ETAR´s domésticas e outras, de composição similar, desde que sejam tomadas providências no sentido de se assegurar a salvaguarda da saúde pública e do ambiente (Evans, 2002). Pesquisas levadas a cabo na União Europeia, durante os últimos trinta anos, têm comprovado que a aplicação controlada de lamas ao solo, respeitando as exigências da directiva 86/278/CEE, não ocasionam prejuízos para o ambiente nem riscos para a cadeia alimentar (CEC, 2002a). Existe a tendência, na União Europeia, para que na política de escoamento de resíduos se adoptem soluções que privilegiem a sua reutilização e valorização (Pinto, 2002). A 2 aplicação de lamas ao solo contribui para a conservação dos solos, a reciclagem de nutrientes e a redução da emissão de gases com efeito de estufa (CEC, 2002b). A Directiva 1999/31/CE, relativa à deposição de resíduos em aterro, estabelece a definição, por parte dos estados membros, de uma estratégia, no sentido da diminuíção dos resíduos biodegradáveis destinados a aterro de modo a ser alcançada uma redução de 25% em 2006 e de 50 % em 2009 (Paulino & Santana, 2001). Como alternativa à reciclagem das lamas, para aquelas cujo potencial de contaminação não permita a sua aplicação ao solo, é apontada a incineração (Evans, 2002). Limitações na aplicação de lamas de ETAR´s domésticas e de composição similar estão associadas à sua higienização. De acordo com a directiva comunitária 86/278/CEE, só são susceptíveis de serem aplicadas ao solo lamas tratadas, não estando contudo definidos os processos para o seu tratamento, nem o tipo de monitorização a realizar, o que tem gerado alguma confusão. Entende-se por lamas tratadas ou estabilizadas as que são sujeitas a um tratamento físico, químico ou biológico, daí resultando um produto com menor massa, com menos odor e com menor carga de organismos patogénicos, apresentando menos riscos para a saúde pública e ambiente (Bitton & Lin, 1994). De acordo com o último documento de trabalho relativo ao tratamento biológico de resíduos biodegradáveis (CE, 2001), a reciclagem e a compostagem ocupam o terceiro e quarto lugar, respectivamente, na hierarquia da gestão de resíduos, depois da redução da produção e da contaminação por poluentes (1º lugar) e da reutilização (2º lugar). Para além do efeito sobre a higienização, há evidência experimental da existência de uma correlação positiva entre o aumento de produção das culturas com a melhoria das propriedades físicas do solo, nomeadamente da capacidade de retenção de água, e com a libertação gradual de azoto e fósforo (Smith et al.,1992). De acordo com os mesmos autores, a taxa de mineralização do azoto veiculado pelas lamas está dependente do tratamento a que foram sujeitas, verificando-se que para lamas compostadas a taxa pode ser de apenas 1/3 da que se verifica com lamas não tratadas. Este aspecto tem particular importância na defesa dos aquíferos da poluição pelos nitratos, pelo que à luz do código de boas práticas agrícolas a compostagem das lamas deverá ser uma solução de tratamento privilegiada (MADRP, 1997). A compostagem é referida como uma das possíveis técnicas de estabilização (Gomes, 2001; Bitton & Lin, 1994). A utilização de matéria orgânica estabilizada, pode contribuir, 3 através de fenómenos de retenção no complexo de troca e de quelatização, para diminuir a biodisponibilidade e a mobilidade dos metais pesados no solo (Santos, 1995). Relativamente à presença de compostos orgânicos tóxicos nas lamas e ao risco da sua entrada na cadeia alimentar, dados experimentais têm revelado que a aplicação de lamas aos solos não tem conduzido à absorção destes compostos pelas plantas e, quando ocorre, a quantidade absorvida é negligenciável (EPA, 2000). As três ETAR´s actualmente em funcionamento, para tratamento dos efluentes das Indústrias Têxteis do Vale do Ave, produzem 26 000 t lama por ano. Estas lamas estão, na sua totalidade, a ser escoadas para valorização agrícola como fertilizantes do solo. De acordo com o plano do projecto de despoluição do rio Ave (SIDVA) prevê-se a construção de mais quatro ETAR´s e a ampliação de duas, o que vai contribuir para quase triplicar o montante de lamas actualmente produzido. É objectivo do estudo avaliar a vantagem do tratamento das lamas têxteis por compostagem na perspectiva da obtenção de um produto que, por um lado apresente um acrescido valor agronómico e, por outro lado, seja mais seguro do ponto de vista ambiental. MATERIAL E MÉTODOS A lama utilizada apresentava um teor em cobre, zinco, crómio e níquel inferior aos limites estipulados na legislação (Portaria 176/96), o que permitia a sua aplicação ao solo (Quadro 1). Para que a compostagem se processasse em boas condições houve que corrigir alguns parâmetros, nomeadamente a relação carbono/azoto, a humidade e a densidade do material, as quais se apresentavam desfavoráveis à actividade dos microorganismos intervenientes no processo (Quadro 1). A lama foi misturada com resíduos, que funcionavam, simultaneamente, como fonte de carbono e como agentes estruturantes (Quadro 1). 4 Quadro 1 - Caracterização físico-química dos materiais utilizados. Determinações Unidades Lama de ETAR 7,6 866 368 633 70,9 pH Humidade g kg-1 Carbono Orgânico 1 g kg-1 1 Matéria Orgânica g kg-1 1 Azoto total g kg-1 Azoto Amoniacal g kg-1 0,32 + 1 (N-NH4 ) -1 Relação C/N g kg 5 1 -1 Fósforo ( P) g kg 41 Potássio (K) 1 g kg-1 3,7 Cálcio (Ca) 1 g kg-1 31,3 1 Magnésio (Mg) g kg-1 7,5 Sódio (Na) 1 g kg-1 4,5 Cobre (Cu) 1 mg kg-1 432,9 Ferro (Fe) 1 mg kg-1 3798,7 Manganês (Mn) 1 mg kg-1 194 Zinco (Zn) 1 mg kg-1 619,4 Cádmio (Cd) 1 mg kg-1 * 1 Chumbo (Pb) mg kg-1 * Cobalto (Co) 1 mg kg-1 * Crómio (Cr) 1 mg kg-1 74,6 Níquel (Ni) 1 mg kg-1 74,6 Condutividade eléctrica mS/cm 2,624 1 - valores expressos na matéria seca a 105 ºC; * espectrofotómetro de absorção atómica, de chama. Serrim 4,8 477 468,0 806,8 0,19 Casca de Pinheiro moída 4,4 372 591,6 825,2 2,5 0,02 2450 0,19 0,6 2,3 0,6 0,4 Fibra de Algodão 6,8 56,3 510,5 880,2 14,8 0,3 189 0,8 2,2 3,8 1,4 34 2,8 20,7 19,4 4,2 1,4 * * 42,4 4,2 * * * * 2,1 0,902 2,09 24,6 valor inferior ao limite de detecção do Constituíram-se três modalidades de mistura com lama: lama + serrim (LS), lama + casca (L+C) e lama + algodão + serrim (LAS), em proporções que asseguravam o equilíbrio carbono/azoto, que variou de C/N≈30, para as misturas com resíduos de difícil biodegradabilidade (LS e LC), a C/N≈25, para materiais mais fermentescíveis (LAS) (Quadro 2). Quadro 2 - Composição das pilhas por tratamento Tratamento T1 T2 T3 T4 T5 T6 Materiais Lamas + Casca de Pinheiro moída Lamas + Casca de Pinheiro moída Lamas + Serrim Lamas + Serrim Lamas + Fibra de algodão + Serrim Lamas + Fibra de algodão + Serrim Sigla Relação LC (1:1) 1/1 LC (2:1) 3/1 LS (1:1) 1/1 LS (2:1) 2/1 LAS (3:0,5:0,5) 3/0,5/0,5 LAS (3:0,2:0,4) 3/0,22/0,44 Quantidade (Kg) 500/500 900/300 500/500 600/300 660/120/120 820/60/120 Os materiais foram misturados com o auxílio de uma betoneira e constituíram-se pilhas do tipo “windrow”, com a dimensão de 1,20 x 1,20 m de base e 1,10 m de altura. As 5 pilhas foram instaladas sob um coberto plástico, com arejamento natural nos topos, e o teor de humidade foi ajustado a 65%. A composição das misturas de resíduos, para as modalidades constituídas, encontra-se descrita no quadro 3. Quadro 3 – Composição física e química dos resíduos, logo após a mistura. Parâmetros Unidades T1 (LC 1:1) pH 6,20 Humidade g kg-1 515,2 Carbono orgânico 1 g kg-1 416,3 1 Matéria Orgânica g kg-1 717,5 1 -1 Azoto total (N) g kg 13,8 Azoto amoniacal g kg-1 0,2 (N-NH4+) 1 Relação C/N 30 Fósforo (P) 1 g kg-1 4,3 Potássio (K) 1 g kg-1 2,1 1 -1 Cálcio(Ca) g kg 5,2 Magnésio (Mg) 1 g kg-1 1,9 Sódio (Na) 1 g kg-1 0,8 Cobre (Cu) 1 mg kg 45,4 Ferro (Fe) 1 mg kg 1636 1 Manganês (Mn) mg kg 61,9 Zinco (Zn) 1 mg kg 92,8 Condutividade mS/cm 1,599 eléctrica 1 - valores expressos na matéria seca a 105 ºC 6,9 714,3 485,1 836,5 32,2 1,1 6,5 557,7 427,4 736,8 13,3 0,1 5,8 732,1 483,1 832,5 18,7 10,6 T5 (LAS 3:0,5:0,5) 8,60 692,9 515,1 887,9 29,6 1,3 15 14,7 2,8 9,5 3,2 2,1 157,5 1625 105 220,5 1,968 32 1,6 0,9 3,2 0,7 0,7 22,6 528,8 113 56.5 1,333 26 8,6 1,5 6,0 1,9 1,9 101 1210 131 161 3,731 17 15,3 17,6 22,8 5,2 1,6 397,2 2240,1 140 247,5 10,414 T2 (LC 3:1) T3 T4 (LS1:1) (LS 2:1) T6 (LAS 3:0,2:0,4) 9,15 717,4 395,5 682,1 29,0 1,8 14 14,9 4,6 9,9 2,8 1,8 159,2 1804,4 113,2 215,8 4,182 Para apreciar a evolução do processo controlaram-se os seguintes parâmetros: temperatura, humidade, pH, matéria orgânica, azoto total e relação C/N. A temperatura foi monitorizada diariamente nas pilhas, através de termopares com sondas tipo K em aço inox de ∅ 6mm, com 30, 60 e 100 cm de comprimento, colocados em três pontos: topo, centro e base, acoplados a um painel digital de aquisição de temperaturas, constituído por um selector rotativo de 40 canais Omega OSW5-40 e leitor digital de temperatura SHINKO FIR-101 CE M/Range, alimentado por fonte de 220V. Para promover o arejamento, as pilhas eram revolvidas manualmente, de dois em dois dias nas primeiras duas semanas e, a partir dessa data até aos 45 dias de compostagem, uma vez por semana. Para a manutenção da humidade (≈60%) os resíduos foram regados, sempre que necessário, durante o processo de revolvimento, de modo a assegurar uma distribuição mais homogénea da água. Para apreciar a evolução dos parâmetros físicos e químicos dos resíduos colheram- 6 se amostras de 3 em 3 semanas. Para determinar o pH dos resíduos recorreu-se a um potenciómetro, efectuando-se a leitura directa na suspensão aquosa resíduo orgânico e água desionizada, na proporção 1:5 (p/v). Para medição da condutividade eléctrica recorreu-se a um condutivímetro, por leitura directa na suspensão, na mesma proporção do pH. A humidade foi determinada por secagem em estufa, até peso constante, à temperatura de 105 ºC. Para quantificar a matéria orgânica, os ácidos húmicos e fúlvicos, recorreu-se ao método de Tinsley (Tinsley, 1950), para o carbono orgânico ao coeficiente empírico (Carbono orgânico = Matéria orgânica x 0.58). Para doseamento do azoto total utilizou-se o método de Kjeldahl, para quantificar o azoto amoniacal o método do arrastamento pelo vapor e para quantificar o azoto nítrico o método da liga de Devarda (Bremner, 1965). O doseamento dos elementos minerais dos resíduos e compostados foi efectuado após digestão das amostras com a mistura nitro-perclórica (Isaac, 1980), por espectrofotometria de absorção molecular, no caso do fósforo; por fotometria de chama para o potássio e sódio; por espectrofotometria de absorção atómica para os restantes elementos. A extracção das substâncias húmicas foi efectuada pelo método do pirofosfato de sódio, com separação das fracções por variação do pH (Jodice et al., 1984). Para avaliar o grau de higienização dos compostos realizaram-se análises microbiológicas da lama, à saída da prensa e após 1 mês de ensacagem, assim como análises aos compostos no final da fase da compostagem (45 dias). Os microorganismos patogénicos pesquisados foram a Escherichia coli e a Salmonela sp, referidos na Decisão da Comissão 98/488/CE, para atribuíção do rótulo ecológico comunitário a correctores do solo. Na ausência de métodos específicos, os métodos adoptados foram os que constam nas normas de qualidade alimentar, de pré enriquecimento, seguido de isolamento em placa e posterior confirmação sorológica e bioquímica para a Salmonela sp., e o da fermentação em tubos múltiplos, com interpretação dos resultados pela tabela de McCrady para a E. coli. RESULTADOS E DISCUSSÃO 7 Evolução da temperatura Pela leitura da figura 1 constata-se que a evolução das temperaturas nos diferentes compostos foram, de uma forma geral, mais elevadas na parte superior da pilha. 75 T1 60 Superior 75 Inferior 60 45 T2 Inferior ºC ºC 45 30 15 30 15 0 0 0 7 13 16 21 27 37 42 44 49 0 7 13 16 21 Dias 75 T3 75 Superior 60 Inferior ºC ºC 27 Dias 37 42 44 T4 30 15 49 Superior 60 45 Inferior 45 30 15 0 0 0 7 13 16 21 27 37 42 44 49 0 7 13 16 Dias T5 75 75 Superior 21 27 Dias 37 42 T6 44 49 Superior 60 Inferior 60 Inferior 45 ºC 45 ºC Superior 30 30 15 15 0 0 0 7 13 16 21 27 37 42 44 0 49 Dias 7 13 16 21 27 Dias 37 42 44 49 Figura 1 - Evolução da temperatura: T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Este facto poderá ser explicado pela forma da pilha, a qual, proporcionando um maior arejamento na parte superior, contribuiu para uma maior actividade dos microorganismos intervenientes no processo, o que se traduz em maior libertação de energia sob a forma de calor. Por outro lado, verifica-se que apenas foram atingidas temperaturas de 50-70 ºC nos tratamentos T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5) e T6 (LAS 3:0,2:0,4). Estas 8 temperaturas são referidas por Bitton & Lin (1994) como temperaturas de higienização as quais permitem reduzir significativamente os teores em agentes patogénicos, parasitas e sementes de infestantes. A temperatura é um dos parâmetros indicadores da actividade microbiana (Mustin, 1987), pelo que a ausência de subida da temperatura para valores superiores a 50 ºC, observada nas modalidades LS (T3 e T4), revela que um ou mais factores podem ter actuado desfavoravelmente sobre os microrganismos, limitando o seu desenvolvimento e actividade. Como factores que podem ter prejudicado a actividade microbiana referem-se uma possível falta de água efectiva no “start-up” do processo, por deficiente homogeneização dos materiais, e durante a fase activa de degradação. No tratamento T5 (LAS 3:0,5:0,5) observaram-se temperaturas superiores a 72 ºC ao fim de 16 dias de compostagem. Estas temperaturas são consideradas críticas, pois afectam a sobrevivência dos microrganismos intervenientes na compostagem e têm como consequência um abrandamento do processo de decomposição e subsequente redução da temperatura (Cardenas & Swang., 1980), o que veio a verificar-se. A maior actividade de degradação nas modalidades LAS (T5 e T6) está possivelmente relacionada com a maior biodisponibilidade do carbono que constitui as fibras de celulose do algodão, assim como com a maior superfície específica de contacto com os microrganismos activos no processo de compostagem. As menores temperaturas atingidas nos tratamentos com serrim e casca de pinheiro podem resultar da menor biodegradibilidade destes materiais, resultante da presença de lenhina e de compostos fenólicos. A menor disponibilidade do carbono, que constitui a fonte de energia necessária à actividade microbiana, traduz-se numa taxa de degradação mais lenta que se reflecte numa menor libertação de energia na forma de calor. Observa-se uma quebra de temperatura aos 21 dias de compostagem (Figura1) como resultado da amostragem ter sido efectuada imediatamente após a rega das pilhas. Este facto é confirmado pela ocorrência de uma subida da temperatura, após a rega, para valores considerados normais nesta fase. Ao fim de 45 dias observou-se a estabilização das temperaturas para valores próximos da temperatura ambiente, iniciando-se a partir desta data a fase de maturação. Os resíduos permaneceram nas pilhas em maturação por um período de 90 dias, a fim de ocorrerem os fenómenos de humificação e de se assegurar a estabilidade da matéria orgânica do composto final. 9 Evolução da humidade A percentagem de humidade manteve-se, para a generalidade dos tratamentos, dentro dos valores desejados, não actuando como limitante da compostagem (Fig.2). T1 T2 80 80 60 60 40 y = 0,0005x 2 - 0,1382x + 58,796 R2 = 0,1367 20 40 y = 0,0006x 2 - 0,2084x + 67,727 R2 = 0,733** 20 0 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 T3 T4 80 80 60 60 40 40 y = -0,0008x2 - 0,0235x + 59,504 R2 = 0,8502** 20 80 100 120 140 160 180 200 y = 0,0013x2 - 0,3889x + 72,9 R2 = 0,8494** 20 0 0 0 20 40 60 80 0 100 120 140 160 180 200 20 40 60 T5 T6 80 80 60 60 40 80 100 120 140 160 180 200 40 y = 0,0001x2 - 0,1526x + 66,7394 R2 = 0,5982* 20 y = 0,0007x2 - 0,3172x + 72,278 R2 = 0,9278** 20 0 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Figura 2 -Evolução da percentagem de humidade T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Da análise dos gráficos verifica-se que em todos se verifica uma descida do teor em água, e que podemos agrupar os gráficos em dois grupos: um dos tratamentos T1 (LC 1:1), T3 (LS 1:1) e T5 (LAS 3:0,5;0,5) e outro dos tratamentos T2 (LC 3:1), T4 (LS 2:1) e T6 (LAS 3:0,2:0,4). Isto porque, embora o gráfico para o T1 (LC 1:1) não apresente forma semelhante ao T3 (LS 1:1) e ao T5 (LAS 3:0,2;0,4), os três tratamentos tem subidas no teor 10 de água após o inicio da fase de degradação e no outro grupo tal não ocorre, facto que terá resultado do menor quantitativo de lama adicionado, efeito este que se diluiu ao longo do tempo. Estes dados estão em consonância com os referidos por Carvalho et al.(1994), de 75 a 85 %, como teores de humidade de referência a não serem ultrapassados na compostagem de resíduos florestais. Contudo, não se constatou haver relação entre o maior teor de humidade presente nos tratamentos T2 (LC 3:1), T4 (LS 2:1) e T6 (LAS 3:0,2:0,4) e a maior temperatura atingida no processo de compostagem. A percentagem de humidade reflecte o balanço hídrico dos compostos, facto este que parece não ter condicionado o processo de compostagem em estudo. De acordo com Cardenas & Swang (1980), quando o teor de humidade se situa entre os 35% e 40%, a decomposição torna-se significativamente mais lenta, podendo mesmo ocorrer a interrupção do processo para valores inferiores a 30%. Evolução do pH Observa-se, em todos os tratamentos, que o pH se manteve ou inclusive aumentou nos T2 primeiros vinte dias. de compostagem (15T1 A não descida de pH no início da fase termófila 1710dias), não está de acordo com o referido por 10 Mustin (1987), segundo o qual há uma 8 8 intensa produção de ácidos orgânicos, que se dissociam em solução aquosa e que são 6 6 responsáveis pela acidificação do substrato. Esta acidez inicial seria favorável ao 4 4 y = 0,0001x 2 - 0,0242x + 6,4443 = 0,0002x - 0,0443x + 7,453 crescimento dosR2fungos com capacidade para degradar ay celulose e a lenhina (Carvalho et 2 2 = 0,7791** R2 = 0,8041** 2 0 al.,0 1994). Neste caso tal não aconteceu, possivelmente devido a má homogeneização dos 0 20 40 0 60 80 100 120 140 160 180 200 materiais originais 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T4 T3 10 Após a subida inicial observa-se um decréscimo do pH até sensivelmente aos 80 dias 10 8 8 de 6compostagem (Figura 3), verificando-se que a descida mais significativa ocorre nas 6 4 dentro da gama de valores neutros. As modalidades LAS (T5 e T6), embora se conserve 4 y = 0,00005x2 - 0,01989x + 6,75582 R2 = 0,89950** 2 y = 0,00007x 2 - 0,01778x + 6,24339 R2 = 0,50103* 2 misturas LS e LC apresentam menor variação de pH. Com excepção do tratamento T4 (LS 0 0 20 40 60 0 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 100 120 140 160 2:1), todos os gráficos apresentam significativos coeficientes de 80 ajustamento. 180 200 T6 T5 Num processo de compostagem equilibrado, após a fase de acidogénese e em plena 10 valores básicos, como consequência da 10 termófila deve ocorrer uma subida do pH para fase 8 8 6 6 4 4 y = 0,0002x - 0,0489x + 9,0261 R2 = 0,8254** 2 2 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 11 y = 0,0002x 2 - 0,0562x + 9,4746 R2 = 0,9153** 2 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 hidrólise bacteriana dos radicais amina, que constituem as proteínas, daí resultando a produção da base amoníaco (Mustin, 1987). Contudo, essa evolução não se verificou; apesar de todos os gráficos apresentarem concavidade voltada para cima, o que indica um ligeiro aumento do pH na fase final, este não alcança valores significativamente diferentes. Figura 3 -Evolução do pH: T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Quando, após a fase termófila, o pH não recupera, é recomendável a adição de um correctivo alcalinizante, nomeadamente calcário, o que não se efectuou. A acidez dos substratos terá prejudicado a actividade das bactérias predominantes no processo de degradação, cujo pH de crescimento óptimo se situa na vizinhança da neutralidade, ou seja 6 (Mustin, 1987). 12 Evolução da matéria orgânica T1 T2 120 120 100 100 80 80 60 60 40 y = -0,0011x2 + 0,1787x + 73,783 R2 = 0,3825 20 0 40 y = 0,0003x2 - 0,1108x + 77,554 R2 = 0,3291 20 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T4 T3 120 100 120 80 100 80 60 60 40 40 y = -0,0007x2 + 0,0402x + 79,36 R2 = 0,2414 20 0 0 20 40 60 y = 0,0006x2 - 0,2492x + 85,91 R2 = 0,6844* 20 0 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T6 T5 120 120 100 100 80 80 60 60 40 40 y = 0,0009x 2 - 0,3052x + 88,584 R2 = 0,3276 20 y = -0,0012x 2 + 0,1127x + 67,669 R2 = 0,7022 20 0 0 0 20 40 60 0 80 100 120 140 160 180 200 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Figura 4 - Evolução do teor de matéria orgânica: T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Como resultado da degradação oxidativa da matéria orgânica que se processa durante a compostagem, o teor em carbono deverá diminuir com o tempo, sendo libertado para a atmosfera sob a forma de dióxido de carbono. Isto implica que o aumento do teor em matéria orgânica observado nos primeiros 40 dias, para a generalidade dos tratamentos, com excepção do T2 (LC 2:1), (Figura 4), só poderá ser explicado por um problema analítico relacionado com uma deficiente amostragem, devido à heterogeneidade dos materiais. 13 Como se pode constatar ao fim de 40 dias de compostagem, quando os materiais já se encontravam mais degradados, tornando possível a obtenção de uma amostra mais homogénea, já se observa o decréscimo esperado no teor em matéria orgânica. Aos 90 dias de compostagem obteve-se uma taxa de perda de matéria orgânica comparativamente à existente nos substratos iniciais, de 12,4% para T2 (LC 2:1), 14% para T3 (LS 1:1), 29,8% para T4 (LS 2:1), 29,9 % para T5 (LAS 3:0,5:0,5) e 9,5 % para T6 (LAS 3:0,2:0,4). Dada a natureza dos materiais iniciais, como a casca de pinheiro e o serrim, muito lenhificados e de difícil decomposição, estas taxas não são consideradas baixas (Pereira, c.p., 2003). De Bertoldi (1999) refere que a quantidade de matéria orgânica biodegradável nos materiais de partida tem de ser alta uma vez que durante o processo cerca de 30 % é mineralizada e cerca de 20 % sofre humificação. Evolução do azoto total O teor em azoto total para o T2 (LC 3:1) e para o T5 (LAS 3:0,5:0,5) diminui até aos 100 dias de compostagem, voltando em seguida, a aumentar; no entanto, para o T5 (LAS 3:0,5:0,5) aumentou para valores superiores aos iniciais, o que não aconteceu com o T2 (LC 3:1). As descidas iniciais do teor de azoto total só poderão ser explicadas por perdas de azoto por volatilização, sob a forma de amoníaco, fenómeno este que ocorrerá, sobretudo, quando se realiza o reviramento das pilhas de compostagem. O T1 (LC 1:1), tal como o T3 (LS 1:1), não apresentou grande variação; no entanto, subiu a partir dos 90 dias. No caso do T4 (LS 2:1) e T6 (LAS 3:0,2:0,4) não é possível tirar qualquer ilação visto os valores oscilarem bastante (R2=0,082 e R2=0,021, respectivamente) (Figura 5). O odor a amoníaco era particularmente notório nos tratamentos T5 (LAS 3:0,5:0,5) e T6 (LAS 3:0,2:0,4), que continham fibra de algodão, e que correspondem a substratos com valores de pH e com teores em azoto mais elevados (baixas razões C/N iniciais). Estas perdas podem ser minimizadas, quer através da criação de condições desfavoráveis à produção de amoníaco, recorrendo a misturas que promovam o abaixamento do pH (Raviv et al., 2002), quer através imobilização do amoníaco presente nos substratos, pela adição fertilizantes fosfatados solúveis em água. Neste último o ião fosfato combina-se com o azoto 14 amoniacal para formar fosfato de amónio (Mitchell et al.,1990, Santos, 1991). A aplicação deste aditivo valoriza o composto do ponto de vista agrícola. T2 T1 3,5 3 3,5 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 2,5 2 1,5 1 2 y = 0,00003x 2 - 0,00298x + 1,31397 R = 0,85543** 0,5 0 0 20 40 60 y = 0,00009x2 - 0,02106x + 3,13299 R2 = 0,58754* 0 80 100 120 140 160 180 200 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T4 T3 3,5 3,5 3 3 2,5 2,5 2 2 1,5 1,5 1 1 y = 0,00002x2 - 0,00029x + 1,21926 0,5 R 2 = 0,77448** 0 0 20 40 y = -0,00002x 2 + 0,00270x + 1,73892 R2 = 0,08245 0,5 0 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T6 T5 3,5 3 3,5 2,5 2 1,5 1 2,5 3 2 1,5 1 y = 0,0001x2 - 0,0209x + 3,0673 R2 = 0,5444* 0,5 0 y = 0,0000043x2 - 0,0001110x + 2,8242374 R2 = 0,02105 0,5 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Figura 5 - Evolução do teor de azoto total: T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Evolução da relação C/N 15 Verifica-se, para a generalidade dos tratamentos, um aumento da relação C/N até aos 60 dias de compostagem seguido de uma diminuição, excepção ao T5 (LAS 3:0,5:0,5), onde esta relação permaneceu relativamente constante (Figura 6). No caso do T4 (LS 2:1) ocorre uma oscilação de valores (R2 =0,15), podendo no entanto verificar-se uma tendência de descida até aos 60/80 dias e um ligeiro aumento a partir daí. T1 T2 50 50 40 40 30 30 20 y = -0,0011x 2 + 0,1409x + 32,928 R2 = 0,7966** 10 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 20 y = -0,0004x 2 + 0,0892x + 14,094 R2 = 0,4187 10 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T3 T4 50 50 40 40 30 30 20 y = -0,0008x + 0,0566x + 36,759 R2 = 0,3945 2 10 0 20 y = 0,0003x 2 - 0,0837x + 29,314 R2 = 0,1542 10 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 T6 T5 50 50 40 40 30 30 20 20 10 y = -0,0006x2 + 0,0723x + 16,315 R2 = 0,8066** 0 0 20 40 10 y = -0,0002x2 + 0,0131x + 14,199 R2 = 0,9545** 0 0 60 80 100 120 140 160 180 200 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Figura 6 - Evolução da relação C/N: T1 (LC 1:1), T2 (LC 3:1), T3 (LS 1:1), T4 (LS 2:1), T5 (LAS 3:0,5:0,5), T6 (LAS 3:0,2:0,4). Esta evolução está em desacordo com a que se processa normalmente durante a compostagem. Segundo Mustin (1987), durante a fase de fermentação activa, os 16 microorganismos consomem 15 a 30 vezes mais carbono do que azoto, pelo que naturalmente a relação C/N deverá decrescer durante a compostagem até um valor variável de 8 a 15, dependendo do valor de C/N inicial do substrato. O aumento do relação C/N observado durante o processo pode resultar do já referido na evolução da matéria orgânica, mas também pode ser, em parte, atribuído a perdas de azoto, sob a forma de amoníaco, principalmente durante a primeira semana de compostagem (2ª amostragem). Avaliação dos compostos finais Após 45 dias de degradação activa e 90 dias de maturação obtiveram-se compostos com odor a húmus, indicativo da presença de actinomicetas, cor castanho escuro, com a propriedade de aderência à mão, não se distinguindo a presença da lama ou a do algodão mas identificando-se o serrim e a casca de pinheiro. No quadro 3 podem observar-se os resultados da avaliação do grau de higienização da lama e dos respectivos compostos, LS, LC e LAS. A lama à saída da prensa apresentava uma elevada carga em microrganismos patogénicos, embora não fosse detectada a Salmonela sp e o NMP de Escherichia coli estivesse a um nível inferior ao permitido pela legislação de referência (98/488/CE). A observação do quadro permite constatar que os compostos se encontram higienizados face aos microrganismos pesquisados. A permanência da lama em saco conduziu a uma redução significativa do teor em Coliformes fecais e E. coli. 17 Quadro 3 – Resultados das análises microbiológicas da lama à saída da prensa, após permanência em saco, 1 mês e dos compostos LS, LCP e LAS, após 45 dias de degradação activa. Lama Lama ensacada T1 (LC 1:1) T2 (LC 2:1) T3 (LS 1:1) T4 (LS 2:1) T5 (LAS 3:0,5:0,5) T6 (LAS 3:0,2:0,4) Decisão 98/488/CE Coliformes fecais Escherichia coli (NMP/g)* >1000 23 43 23 23 23 23 23 (NMP/g)* 180 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <1000 Salmonella sp neg. neg. neg. neg. neg. neg. neg. neg. Ausente/25g * - NMP/g - número mais provável por grama. A apreciação da caracterização física e química aos compostos (Quadro 4) permite observar que, à excepção do composto T3 (LS 1:1), o pH dos compostos é adequado e não é limitante do crescimento das plantas. A generalidade dos compostos tem um apreciável teor em matéria orgânica e apresentam interesse fertilizante como veículo de azoto, fósforo e cálcio, em especial as modalidades LAS, permitindo a redução da aplicação destes nutrientes através dos adubos de síntese. Á excepção do T3 (LS 1:1) e do T6 (LAS 3:0,2:0,4), que apresentam uma taxa de humificação média, a generalidade dos compostos têm baixo grau de maturação, face à baixa taxa de humificação apresentada. O superior grau de maturação do composto T3 (LS 1:1) é confirmado pela maior redução da relação C/N obtida por este tratamento, comparativamente aos restantes. A relação C/N é um parâmetro tradicionalmente aceite como indicador do grau de decomposição dos materiais orgânicos, admitindo-se que relações inferiores a 20 indicam uma maturação aceitável (Morel et al., 1985). Porém, esta relação não pode ser considerada um indicador absoluto do estado de maturação, e terá de ser interpretada sempre de acordo com as características iniciais dos materiais orgânicos. Quadro 4 - Caracterização analítica dos compostos após 135 dias de compostagem. 18 Parâmetros T1 T2 T3 Unidades (LC 1:1) (LC 3:1) (LS1:1) pH 5,8 5,5 -1 Humidade g kg 516,1 500,0 Carbono orgânico 1 g kg-1 709,4 652,8 Carbono ácidos g kg-1 1,5 1,2 húmicos 1 Carbono ácidos g kg-1 3,2 4,9 fúlvicos 1 Taxa humificação1 % 1,1 1,6 Matéria Orgânica 1 g kg-1 411,5 378,6 Azoto total (N) 1 g kg-1 2,5 2,0 Azoto amoniacal mg kg-1 64,1 44,0 (N-NH4+) 1 Relação C/N 24 18 Fósforo (P) 1 g kg-1 2,2 9,3 Potássio (K) 1 g kg-1 2,5 4,6 1 Cálcio(Ca) g kg-1 4,5 8,2 1 -1 Magnésio (Mg) g kg 1,3 2,4 g kg-1 0,8 1,6 Sódio (Na) 1 Condutividade mS/cm 0,500 0,918 eléctrica 1 1 - valores expressos na matéria seca a 105 ºC T4 (LS 2:1) T5 T6 (LAS (LAS 3:0,5:0,5) 3:0,2:0,4) 6,5 6,1 428,6 392,9 650,7 508,3 4,8 291,7 598,1 5,5 461,5 610,8 13,3 2,1 3,2 1,5 16,1 7,5 5,8 10,3 8,5 346,9 22,9 2,7 354,3 3,7 2,4 377,5 5,6 4,0 294,8 2,6 578,9 319,4 122,5 260,2 23 4,5 2,7 5,2 1,1 1,0 24 4,4 3,5 4,5 2,0 1,1 11 11,4 8,6 13,4 3,9 2,3 10 7,1 11,3 19,8 8,2 2,1 0,869 0,763 1,115 1,394 Quanto ao teor em metais pesados (Quadro 5), constata-se que a generalidade dos compostos apresenta um teor manifestamente inferior aos valores limite impostos pela legislação actualmente em vigor, para a aplicação de resíduos orgânicos ao solo (portaria 176/96). De acordo com a proposta de norma portuguesa para apreciação da qualidade de compostos orgânicos de Souteiro & Baptista (2001), o zinco e o cobre apresentam-se como factores limitantes à atribuição do rótulo classe II aos compostos T3 (LS 1:1), T2 (LCP 3:1) e T5 (LAS 3:0,5:0,5). Quadro 5 – Teor em metais pesados dos compostos após 135 dias de compostagem Parâmetros Portaria 176/96 Ref2 T1 T2 T3 T4 T5 (LAS (LC 1:1) (LC 3:1) (LS1:1) (LS 2:1) 3:0,5:0,5) 19 T6 (LAS 3:0,2:0,4) LD 3 Cobre (Cu) 1 1000 200 59 218 177 110 270 166 1 Zinco (Zn) 2500 500 164 416 621 285 456 405 Cádmio (Cd) 1 20 1,5 <LD <LD <LD <LD <LD <LD 0,028 1 Chumbo (Pb) 750 150 <LD <LD <LD <LD <LD <LD 0,45 Crómio (Cr) 1 1000 150 <LD 22 <LD <LD 32 20 0,078 Níquel (Ni) 1 300 100 <LD 46 <LD 28 54 36 0,14 1 -1 2 -valores expressos em mg.Kg de matéria seca a 105ºC; - Valores de referência, para compostos classe II de acordo com a Proposta de Regulamentação sobre a qualidade do composto para utilização na agricultura (Souteiro & Baptista, 2001); 3 -limite de detecção do espectrofotómetro de absorção atómica, de chama. CONCLUSÕES A co-compostagem de lamas têxteis com casca de pinheiro, serrim e fibra de algodão permite obter compostos orgânicos de acrescido valor agronómico como correctivos orgânicos do solo. Apesar do baixo grau de humificação obtido para a generalidade dos compostos, eles constituem uma fonte de matéria orgânica estável para os solos. Da análise dos resultados químicos, tendo em atenção o teor de metais pesados, e pelas temperaturas alcançadas, o tratamento que apresentou os melhores resultados foi o T6 (Lama+Algodão+Serrim nas proporções 3/0,2/0,4). A toxicidade associada à presença de fenóis e taninos, como resultado da utilização de casca de pinheiro e de serrim frescos e não sujeitos a um prévio processo de envelhecimento, poderá ter sido a causa mais próxima do insucesso da compostagem nas modalidades LS e LC. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Professor Antunes Pereira (Universidade Aveiro), ao Engº Henrique Ribeiro (Instituto Superior de Agronomia), à Associação Municípios do Vale do Ave (AMAVE) , ao Eng.º Cláudio Costa (TRATAVE), ao Sr Hernani Teixeira, ao pessoal auxiliar de campo da ERCA (DRAEDM) e aos técnicos do Laboratório Regional da DRAEDM: Ana Maria Carquejo, António Augusto Ferreira e Guiomar Alemão, toda a colaboração prestada na execução do trabalho. Este trabalho foi financiado pelo programa AGRO, medida 8, acção 8.1. 20 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bitton, G. & Lin, W. 1994. Sludge microbiology. In Wastewater Microbiology. New York, USA. Bremner, J.M. 1965. Total Nitrogen and Inorganic forms of nitrogen. In Black, C.ª, Evans, D., White, J.L. Ensminger, L.E. & Clark, F.E. (eds) Methods of Soil Analysis, part 2, Chemical and Microbiological Properties, pp 1149-1237. Series Agronomy, 9. American Society of Agronomy, Inc. Publisher, Madison, Wiscosin. USA. 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