MARCADORES INFLAMATÓRIOS - NO DIABETES MELLITUS O paciente com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) tem um risco elevado de complicações macrovasculares, em particular de doença arterial coronariana e de infarto agudo do miocárdio (IAM). Estudos já demonstraram um risco de IAM duas e quatro vezes maior em homens e mulheres diabéticos, respectivamente. Diabéticos sem coronariopatia apresentaram o mesmo risco de eventos coronários que coronariopatas não-diabéticos, o que sugere que o diabetes mellitus tipo 2, por si só, representa um fator de risco cardiovascular. No diabetes tipo 2, as principais alterações são a resistência insulínica e a deficiência de secreção compensatória de insulina. A resistência à insulina é considerada um fator de risco independente para doença cardiovascular, estando presente em mais de 80% dos pacientes com DM2. A ação da insulina nas células-alvo é parcialmente bloqueada, levando ao aumento da síntese dos triglicerídeos, à redução do HDL-colesterol e ao aumento da fração LDL-colesterol aterogênica. Em nível renal, a ação moduladora da insulina na excreção de uratos, potássio e sódio é alterada, com maior efeito poupador de sódio, mantendo-se ou agravando-se a hipertensão arterial. A resistência insulínica está associada a uma série de anormalidades metabólicas, coletivamente chamadas de síndrome da resistência à insulina ou síndrome metabólica. Muitas dessas anormalidades são consideradas fatores de risco cardiovascular, podendo estar presentes em estágios precoces do desenvolvimento do DM2. As anormalidades relacionadas são: hipertensão, dislipidemia, obesidade central, hiperglicemia, hiperinsulinemia, disfunção endotelial, microal-buminúria e, mais recentemente, inflamação e hipercoagulação (fibrinólise reduzida). O tecido adiposo tem um papel importante na etiopatogenia do diabetes tipo 2 e em outras formas de resistência insulínica, pelo fato de ser uma glândula endócrina, com produção de diversos hormônios, como leptina, resistina e adiponectina e, também, pela produção de citocinas, como IL-1, IL-6, IL-8 e TNF-alfa. Evidências crescentes sustentam a hipótese de que a inflamação desempenhe um papel no desenvolvimento e na progressão da aterosclerose, havendo um aumento dos marcadores de inflamação anos antes de ocorrer um episódio coronariano. A proteína C reativa, PCR, é uma proteína de fase aguda, produzida principalmente no fígado. O tecido adiposo secreta IL-6, a qual regula a produção da PCR, podendo induzir a inflamação sistêmica crônica em pessoas com excesso de gordura corporal. Estudos de Clamp em pessoas normais mostraram que a insulina exerce efeitos seletivos na síntese de proteínas hepáticas, e a resistência a esses efeitos levaria à síntese aumentada de proteínas de fase aguda, como o fibrinogênio e a PCR. A PCR tem sido considerada um potente estimulador da produção de fator tecidual por macrófagos, ativadora do sistema de complemento, moduladora da ativação plaquetária, além de se ligar a lipoproteínas, tais como LDL e VLDL, induzindo a agregação destas. O PAI-1 (inibidor tipo 1 do ativador do plasminogênio) é o inibidor primário da fibrinólise, apresentando níveis elevados em pacientes resistentes à insulina. O comprometimento da função fibrinolítica está relacionado com a gravidade da doença vascular e constitui um fator de risco para o infarto do miocárdio. Foi relatado aumento dos níveis de PAI-1 durante a progressão da tolerância normal à glicose até o DM2. Vários estudos epidemiológicos prospectivos avaliaram o papel dos marcadores inflamatórios, PCR, IL-6 e fibrinogênio, no desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2. No Insulin Resistance Atherosclerosis Study (IRAS), inicialmente, foi avaliada a relação da PCR, do fibrinogênio e da contagem de leucócitos com componentes da síndrome de resistência insulínica em população não-diabética, sem doença arterial coronariana. Correlações mais fortes foram encontradas entre a PCR e medidas de gordura corporal, diminuição da sensibilidade à insulina e insulina e pró-insulina de jejum. Houve um aumento linear dos níveis de PCR com o aumento do número de desordens metabólicas. Posteriormente, nesse mesmo estudo, foram analisados os níveis de PCR, fibrinogênio e PAI-1 em pacientes que desenvolveram diabetes em cinco anos de acompanhamento. Tais pacientes apresentavam valores basais significativamente mais elevados de fibrinogênio e, principalmente, PCR e PAI-1, quando comparados aos que não desenvolveram diabetes. Ao contrário do PAI-1, a associação de PCR e fibrinogênio foi significativamente atenuada após o ajuste de outras variáveis, como gordura corporal e sensibilidade à insulina, demonstrando que os níveis de PAI-1 predizem diabetes tipo 2 independentemente de outros fatores de risco conhecidos para diabetes. No Women’s Health Study, após acompanhamento de 27.628 mulheres durante quatro anos, 188 desenvolveram diabetes mellitus. Nestas, os níveis basais de IL-6 e PCR foram significativamente mais elevados quando comparados aos controles. Associações positivas persistiram após o ajuste para índice de massa corpórea, história familiar de diabetes, fumo, exercício, uso de álcool e terapia de reposição hormonal. Os riscos relativos para os mais altos versus os mais baixos quartis dos marcadores foram 2,3 para IL-6 (p = 0,07) e 4,2 para PCR (p = 0,001). The Cardiovascular Health Study, estudo prospectivo de fatores de risco para doença cardiovascular em adultos com idade igual ou superior a 65 anos, avaliou 5.888 pessoas que tinham glicemia de jejum normal. Foram comparados os níveis basais de seis marcadores inflamatórios naqueles que desenvolveram alterações glicêmicas durante o acompanhamento de três a quatro anos com os participantes que mantiveram a glicemia de jejum normal. Os marcadores foram: contagem de leucócitos e plaquetas, albumina, fibrinogênio, PCR e fator VIII. Os pacientes que desenvolveram diabetes apresentaram níveis basais mais elevados de PCR do que aqueles que se mantiveram normoglicêmicos. Pacientes com níveis elevados de PCR tiveram 2,03 vezes mais chance de desenvolver diabetes durante o acompanhamento. A comparação com os outros marcadores não foi importante. Portanto, vários estudos têm demonstrado que a inflamação crônica precede o desenvolvimento do diabetes tipo 2. Valores elevados dos marcadores inflamatórios, principalmente PCR, e também de PAI-1 podem ajudar a identificar uma população de alto risco entre pessoas com tolerância normal à glicose, com o potencial de prevenir doença aterosclerótica e diabetes tipo 2, causas principais de mortalidade e morbidade prematuras. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1- Subclinical Inflammation is Strongly Related to Insulin Resistance but not to Impaired Insulin Secretion in a High Risk Population for Diabetes. TemelkovaKurktschiev, T.; Siegert, G.; Bergmann, S.; et al. Metabolism, 51 (6): 743-749, 2003; 2Chronic Subclinical Inflammation as Part of the Insulin Resistance Syndrome: The Insulin Resistance Atherosclerosis Study (IRAS). Festa, A.; D‘Agostino, R.; Howard, G.; et al. 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