A PESSOA COM DIABETES A diabetes mellitus é uma doença crónica com elevados custos humanos, sociais e económicos, em rápida expansão por todo o mundo. Calcula-se que Portugal terá, na segunda década deste século, perto de um milhão de pessoas com diabetes. Travar esta expansão e respetivos custos, representa um desafio que passa por programas de prevenção integrados na Educação para a Saúde assim como pela informação e formação quer de técnicos quer daqueles que são mais diretamente visados, como as pessoas diabéticas e suas famílias. A diabetes não é uma doença de evolução catastrófica como se pensava no passado. É uma doença crónica, controlável, que obriga a uma vigilância permanente e ao recurso a terapêuticas mais ou menos intensivas. É uma doença que resulta de uma deficiente capacidade de utilização pelo organismo da nossa principal fonte de energia – a glucose, ou seja o nosso conhecido açúcar. À quantidade de glucose no sangue chama-se – glicémia. Muitos dos alimentos que ingerimos são transformados em glucose no aparelho digestivo, resultado da digestão e transformação dos hidratos de carbono – amido e açúcar – da nossa alimentação. Depois de absorvida, a glucose entra na circulação sanguínea e está disponível para ser utilizada pelas células. Para que esta seja usada como fonte de energia é necessário a insulina, que funciona como uma chave para a entrada de glucose nas células. A hiperglicemia – elevação de açúcar no sangue – que existe na diabetes deve-se, na maioria dos casos, à insuficiente produção de insulina ou à diminuição da sua ação e, frequentemente, à combinação dos dois fatores. A insulina é produzida nas células beta dos “ilhéus de Langerhans” do pâncreas. A falta de insulina ou a insuficiente ação da mesma podem trazer alterações muito importantes no aproveitamento dos açúcares, das gorduras e das proteínas que são a base de toda a nossa alimentação e constituem as fontes de energia do nosso organismo. Existem vários tipos de diabetes como por exemplo a diabetes tipo 1, diabetes gestacional, etc. No entanto, a mais frequente, com cerca de 90% dos casos é a diabetes tipo 2, muito conhecida como diabetes não insulinodependente. Ocorre em indivíduos com tendência hereditária e que, muitas vezes, por hábitos de vida e alimentação pouco saudáveis passam a sofrer de diabetes na idade adulta. Na diabetes tipo 2, o pâncreas produz insulina. Contudo, a alimentação incorreta e a vida sedentária, associado á falta de exercício físico tornam o organismo resistente à ação da insulina – insulinorresistência, obrigando o pâncreas a trabalhar demasiado até que a insulina que é capaz de produzir deixa de ser suficiente, aparecendo a diabetes… Hábitos de vida saudáveis são a chave da prevenção e do controlo… O excesso de peso e a obesidade estão muito relacionados com a diabetes. A redução do peso, mesmo que pequena, contribui, de uma forma muito sensível para o controlo da glicemia. As pessoas com diabetes tipo 2, normalmente têm insulinorresistência. O excesso de gordura, sobretudo na região abdominal, contribui para a insulinorresistência e para o aumento da glicemia. Assim deve-se ter atenção aos valores de referência para o peso ideal (IMC - > 19 < 25), e para a vigilância do perímetro abdominal ou da cintura,(na mulher < 80 cm e no homem <94 cm. Este tipo de diabetes está a surgir nos últimos anos,em idades mais jovens, como resultado dos excessos alimentares, sedentarismo e obesidade, particularmente nos países desenvolvidos. Aparece em geral, de uma forma silenciosa e quando é diagnosticada, a pessoa já tem vários anos de diabetes, por vezes tem complicações tardias sem ter percebido. A diabetes gestacional, surge em grávidas sem história de diabetes anterior à gravidez e normalmente desaparece após esta. No entanto, quase metade destas grávidas desenvolve diabetes tipo 2 se não forem tomadas medidas de prevenção. Se a grávida não for tratada, pode surgir complicações para a mãe e para o bebé. É comum o bebé apresentar peso superior a 4 kg à nascença. Os abortos espontâneos constituem um risco da diabetes gestacional. Conhecer os fatores de risco e sintomas é fundamental para a prevenção e tratamento precoce… Fatores de risco para a diabetes: • História familiar de diabetes; • Obesidade, excesso de gordura abdominal; • Hipertensão arterial e/ou níveis elevados de colesterol; • Mulheres que tiveram diabetes na gravidez ou filhos com peso à nascença igual ou superior a 4 kg; • Pessoas com doenças do pâncreas ou doenças endócrinas. O diagnóstico da diabetes é feito através da sintomatologia e confirmado com uma análise ao sangue. Os sintomas mais frequentes são: fadiga; poliúria (urinar muito e com mais frequência); sede excessiva. Para o bom controlo da glicemia é necessário atingir um equilíbrio entre a alimentação, a atividade física e a medicação para a diabetes… Assim, a educação alimentar faz parte do tratamento de todas as pessoas com diabetes, quer tomem antidiabéticos orais ou façam insulina. O plano de alimentação aconselhado às pessoas com diabetes é o adequado às necessidades individuais, pelo que deverá ser orientado por um profissional especializado. O exercício físico deve estar integrado no dia-a-dia de uma pessoa com diabetes, por fazer parte não só dos hábitos de vida saudável como também do tratamento da diabetes. Deve ser ajustado às capacidades, caraterísticas e objetivos individuais assim como à restante terapêutica. Recomenda-se uma atividade física regular de pelo menos 1 hora diária, não fumar e evitar o consumo de bebidas alcoólicas A Autovigilância e a responsabilidade individual é o segredo para prevenir complicações… Um dos avanços mais importantes no tratamento e controlo da diabetes é a possibilidade de a pessoa verificar periodicamente os níveis de açúcar no sangue, de modo a poder decidir acerca da necessidade de ajustes no tratamento. Os testes para determinação da glicémia são simples e rápidos, com apenas uma picada no dedo. O resultado deverá ser sempre registado assim como a data e a hora. As complicações da diabetes são evitáveis: Complicações da diabetes: • Retinopatia, (lesão do fundo do olho que pode levar à cegueira; • Doença coronária (lesão dos vasos do coração, que pode levar à angina e/ou enfarte) • Nefropatia (lesão dos rins, cujo agravamento pode ser retardado com o controlo da pressão arterial) • Neuropatia (lesão dos nervos , com diminuição da sensibilidade à dor e à temperatura, que pode causar formigueiro e úlceras). • Alteração Vascular periférica (perigo de gangrena e amputação). Fonte: Registo de Saúde da Pessoa com Diabetes (SRAS – RAM) Com o passar dos anos, as pessoas com diabetes podem desenvolver uma série de complicações em vários órgãos. Aproximadamente 40% das pessoas com diabetes vêm a ter complicações tardias graves da sua doença. Muitas dessas complicações surgem por desresponsabilização individual face à gestão do regime terapêutico. Estas complicações evoluem de uma forma silenciosa e muitas vezes já estão instaladas há algum tempo quando detetadas. Hoje, é possível reduzir os seus danos através de um controlo rigoroso da glicémia, da tensão arterial e do colesterol, bem como de uma vigilância periódica dos órgãos mais sensíveis: retina; rim; coração; etc.. O diagnóstico precoce, o bom controlo metabólico e a vigilância periódica são as principais armas para prevenir ou atrasar o início e a evolução das complicações… A educação da pessoa com diabetes carateriza-se por uma transferência de competências para o doente, permitindo tornar-se autónomo, responsável e parceiro da equipa de saúde no tratamento. O diabético bem controlado pode e deve fazer tudo o que os outros fazem, aceitando a diabetes como parte integrante da sua vida. Os Enfermeiros são na equipa de saúde, um recurso fundamental na gestão do regime terapêutico do doente diabético. Dirija-se sempre ao seu Centro de Saúde, sempre que precisar de qualquer orientação. Dídia Campos Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica