XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO
Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção
Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012.
DESENVOLVIMENTO DE ETIQUETAS
EM BRAILLE PARA PERMITIR O USO
DE EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS
POR PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL
Ana Camila Rodrigues de Oliveira (UFPB)
[email protected]
Marcel de Gois Pinto (UFPB)
[email protected]
Janielle Mayse Guedes de Amorim (UFPB)
[email protected]
Natanna Glenda Soares Fernandes (UFPB)
[email protected]
Este artigo tem como finalidade apresentar o resultado da aplicação
de um modelo de Processo de Desenvolvimento de um Produto (PDP)
que tem como público alvo os portadores de deficiências visuais. O avanço da tecnologia com o desenvolvimentto e popularização de teclas
sensíveis ao toque utilizados em muitos aparelhos eletroeletrônicos
restringiu o uso desses equipamentos. Portanto, para permitir o uso da
tecnologia sensível ao toque por toda a população foram analisados
métodos para adaptar os comandos dos aparelhos. O estudo foi realizado no aparelhos de micro-ondas, visto que este é de grande importância na rotina das pessoas e que a falta de independência dos deficientes visuais para a realização das atividades diárias é um dos maiores problemas enfrentados por essas pessoas. Dessa forma, a melhor
maneira encontrada de adaptar este equipamento foi a partir do desenvolvimento de etiquetas com inscrições em Braille. Para a realização deste trabalho foi necessário levantar dados de pesquisa de mercado e pesquisa tecnológica, definir a modelagem funcional, desenvolver as possíveis alternativas de solução e, a partir destas escolher a
melhor entre aquelas geradas, e por fim, agregar estética, ergonomia e
funcionalidade ao produto.
Palavras-chaves: Desenvolvimento de Produtos, Portadores de deficiências visuais, Teclas sensíveis ao toque.
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1. Introdução
O acelerado avanço tecnológico, que trás diversos produtos para o cotidiano das pessoas, tem
deixando uma parte da população de lado: os deficientes visuais. O desenvolvimento e a popularização das teclas sensíveis ao toque, presentes em muitos aparelhos eletroeletroeletrônicos, impedem que cegos e pessoas com visão subnormal utilizem esta tecnologia
por não existir a possibilidade de usar o produto usando outros sentidos além da visão.
Embora a legislação brasileira busque a inclusão dos portadores de necessidades no mercado
de trabalho, os meios para a realização das atividades não estão tendo a mesma ênfase, e em
boa parte estão ficando esquecidos. Contudo, os deficientes necessitam que as empresas pensem um pouco mais na flexibilidade dos produtos de forma simples e econômica permitindo
que as pessoas com deficiência tenham acesso ao avanço tecnológico.
Dados do IBGE (Censo 2000) mostram que aproximadamente que 14,5% da população total
do Brasil, ou seja, 24,6 milhões de pessoas apresentaram algum tipo de incapacidade. Destes
16,6 milhões de pessoas apresentaram algum grau de deficiência visual e quase 150 mil se
declararam cegos. O levantamento anterior mostra as deficiências encontravam-se distribuídas
da seguinte forma: 48,1% apresenta deficiência visual; 22,9% deficiência motora; 16,7% deficiência auditiva; 8,3% deficiência mental e 4,1% deficiência física.
Deste modo, verifica-se que o número de pessoas com deficiência no Brasil é relevante, e
dentre estes, o maior grupo é o de deficientes visuais. Com o objetivo de desenvolver um produto que permite a acessibilidade e que possa atingir um mercado mais amplo, optou-se por
trabalhar com esse grupo de pessoas.
Os produtos desenvolvidos especificamente para o público deficiente são denominados de
Tecnologias Assistivas (TA). Ou, de acordo com Cook e Hussey (1995), TA é uma ampla
gama de equipamentos, serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para minorar os
problemas funcionais encontrados pelos indivíduos com deficiências.
Para desenvolver o produto de que trata esse trabalho foram realizadas visitas à FUNAD
(Fundação de Apoio ao Deficiente), ASPADEF (Associação Paraibana de Deficientes) e ao
Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha, ambas em João Pessoa-PB. Nestas oportunidades, foi possível conhecer alguns utensílios já utilizados por essas pessoas para reduzir a
sua dependência nas atividades diárias, e identificar outras que ainda poderiam ser mais bem
trabalhadas por novos produtos de TA.
Com as informações obtidas, o trabalho de desenvolvimento foi direcionado para o ambiente
doméstico, com foco na necessidade dos deficientes visuais em executar as atividades diárias
sem precisar do auxílio de outra pessoa. Com a popularidade das telas sensíveis a toques, produtos que costumavam ser simples de serem manipulados pelos deficientes visuais, como televisores e aparelhos de som, se tornaram difíceis, porque muitas vezes requerem navegação
por múltiplos menus que precisam ser vistos para que se possa usá-los de maneira efetiva.
Dentre as referidas telas sensíveis, podem-se encontrar aquelas em que é utilizado um painel
liso de controle sob o produto. Tais painéis geralmente têm de conteúdo estático, ou seja, seus
botões não mudam de função à medida que são feitas opções pelo usuário. Ao contrário disso,
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existem pelas de conteúdo dinâmico, onde cada decisão do usuário leva a uma nova configuração de tela, como é o caso de telefones celulares ou caixas eletrônicos de banco.
Considerando essa natureza das telas interativas, esse trabalho visou desenvolver um produto
que tornasse acessível aos Deficientes Visuais as telas ou painéis de conteúdo estático a partir
do tato e a utilização do Braille, particularmente adaptado aos painéis de aparelhos de microondas para o aquecimento e preparo de alimentos.
2. Tecnologia Assistiva (TA)
O número de tecnologias utilizadas para ampliar a capacidade das pessoas com alguma deficiência vem crescendo muito nos últimos anos, de modo que é possível encontrar alguns catálogos eletrônicos nacionais e internacionais com acervo muito vasto de produtos (e.g, abledata.com ou assistiva.org.br).
Segundo a ADA American with Disabilities Act, TA consiste em “qualquer item, peça de equipamento, sistema de produto, seja adquirido comercialmente, modificado ou customizado,
utilizado para aumentar, manter ou melhorar capacidades funcionais dos indivíduos com deficiência”. (BERSCH, 2008).
Bersch e Tonolli (2006) explicam que a TA “visa melhorar a funcionalidade de pessoas com
deficiência” e advertem que o termo funcionalidade não apenas como a habilidade em realizar
tarefas. Os referidos autores afirmam que, a fim de compreender e explicar a incapacidade e a
funcionalidade propuseram-se vários modelos conceituais, quais sejam:
- Modelo Médico – que considera a incapacidade como um problema da pessoa e que requer assistência sob a forma de tratamento por profissionais de saúde;
- Modelo Social – considera a questão como um problema de integração à sociedade. A incapacidade não é vista como um atributo de um indivíduo, mas do ambiente social;
- Abordagem Biopsicosocial – baseia-se numa integração dos modelos anteriores, onde é
utilizada uma síntese das perspectivas de saúde: biológica, individual e social.
Bersch e Tonolli (2006) argumentam, ainda, que segundo a CIF (Classificação Internacional
de Funcionalidade), o modelo de intervenção deve ser biopsicosocial e diz respeito à intervenção em: (1) funções e estruturas do corpo – deficiência; (2) atividades e participação - limitações de atividades e de participação; e (3) fatores contextuais - ambientais e pessoais.
Tais recomendações de intervenção vinculam-se com a aceitação do produto por parte do usuário. Nesse sentido, Phillips e Zhao (1993) realizaram uma pesquisa para identificar quais as
maiores causas do abandono do uso de TA pelos deficientes. Como resultado, identificou-se
que os fatores mais importantes eram: a falta de consideração pela opinião dos usuários na
seleção do produto, aquisição fácil do produto, baixo desempenho do produto e mudanças nas
necessidades e prioridades dos usuários.
No que tange à tecnologia embarcada, percebe-se que a TA pode variar de itens de baixa tecnologia, tais como bengalas, muletas, barras de apoio, e andadores, a equipamentos de alta
tecnologia, tais como sintetizadores de voz, cadeiras de rodas elétricas ou aparelhos para surdez. (BRUMMEL-SMITH e DANGIOLO, 2009). Em outras palavras, Leung et al. (2009)
afirmam que TA pode ser tão complexo, como uma comunicação informatizada ou tão simples quando a incorporação de alças em utensílios de cozinha.
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As deficiências que podem acometer as pessoas podem ser permanentes ou temporárias, como
no caso de acidentes ou cirurgias. Além disso, elas podem ser de cunho genético, factuais ou
relacionadas com o próprio processo de envelhecimento natural da população. Neste último
caso, as falhas no organismo vão ocorrendo e as capacidades vão sendo perdidas pouco a
pouco, inclusive a capacidade de enxergar.
Entretanto, apesar da variedade deficiências e de suas etiologias, Brummel-Smith e Dangiolo
(2009) afirmam que mais de 75% dos adultos portadores de alguma deficiência utilizam alguma tecnologia assistiva. O que indica que, mesmo que o número de deficientes diminua, o
envelhecimento da população e aumento da expectativa de vida levará a uma maior necessidade equipamentos de auxílio.
Atualmente é possível encontrar existem algumas categorizações de TA realizadas por organizações, tais como: ADA – American With Disabilities Act, EUSTAT – Empowering Users
Through Assistive Technology, IPAT - Iowa Program for Assistive Technology e a ISO.
(BERSCH, 2008).
A ISO 9999:2002, por exemplo, que trata da classificação e terminologia de produtos assistivos para pessoas com deficiências, apresenta onze categorias de TA, quais sejam:
- Produto de apoio para tratamento clínico individual - são produtos de apoio destinados a
melhorar, monitorizar ou manter a condição clínica da pessoa, não considerando os produtos utilizados pelos profissionais de saúde;
- Produtos de apoio para treino de competências - dispositivos concebidos para melhorar as
capacidades físicas, mentais e sociais. Dentre estas capacidades, pode ser listada a comunicação, a continência, contagem numérica, artísticas, entre outras;
- Órteses e próteses – são dispositivos aplicados externamente. As ortóteses visam modificar as características estruturais e funcionais dos sistemas neuromuscular e esquelético e as
próteses substituem uma parte do corpo ausente;
- Produtos de apoio para cuidados pessoais e proteção - produtos de apoio para vestir e
despir, para proteção do corpo, ajuda para higiene pessoal, traqueostomia, ostomia e incontinência, para medir as propriedades fisiológicas e para as atividades sexuais;
- Produtos de apoio para a mobilidade pessoal - incluem as ortóteses e próteses, produtos
de apoio para levantar e transportar, adaptações para carros, veículos de transporte industrial, tapetes transportadores, etc.;
- Produtos de apoio para atividades domésticas - produtos de apoio para comer e beber,
desde a medição, preparação, ingestão e lavagem dos utensílios;
- Mobiliário e adaptações para habitação e outros edifícios - mobiliário (com ou sem rodízios) para descanso ou trabalho. Acessórios para mobiliário e produtos de apoio e instalações para adaptações de edifícios residenciais, de formação e educação;
- Produtos de apoio para comunicação e informação - dispositivos para ajudar a pessoa a
receber, enviar, produzir ou processar informação. Estão incluídos dispositivos para ver,
ouvir, ler, escrever, telefonar, sinalizar, avisar e tecnologia de informação;
- Produtos de apoio para manuseamento de objetos e dispositivos;
- Produtos de apoio para melhoria do ambiente, máquinas e ferramentas - visam ajudar a
melhorar o ambiente pessoal na vida diária, ferramentas manuais e máquinas motorizadas;
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- Produtos de apoio para atividades recreativas - dispositivos destinados a jogos, hobbies,
desportos e outras atividades de lazer.
O produto desenvolvido e apresentado neste trabalho trata-se de apoios para manuseamento
de objetos e dispositivos, também podendo ser classificado como apoio para atividades domésticas. Deste modo, verifica-se que determinado produto pode atender à conceituação referente a mais de uma classificação da ISO 9999: 2002.
Por fim, sendo entendidos os aspectos relativos à TA, em especial a forma de atuação e aos
cuidados no desenvolvimento e prescrição do produto ao deficiente, torna-se possível definir
os aspectos conceituas vinculados com o ato de projetar o dispositivo propriamente dito.
3. Desenvolvimento de Produtos
O Processo de Desenvolvimento do Produto (PDP) é composto por uma série de atividades
que objetiva auxiliar a realização das tarefas de forma mais rápida, precisa e orientada para o
mercado. Para isso se faz necessário reduzir o tempo de desenvolvimento, custos, aumentar a
qualidade e, consequentemente, a produtividade.
Rozenfeld et al (2006) afirmam que o PDP se diferencia das atividades rotineiras de produção
e prestação de serviços em uma empresa por conta dos seguintes aspectos: importantes decisões são tomadas no início do processo, quando o grau de incerteza é bastante elevado; dificuldade de alterar as decisões iniciais; as atividades seguem um ciclo projetar, construir, testar
e otimizar; a manipulação e geração de alto volume de informação e a existência de informações e atividades envolvendo diversas áreas da empresa.
Wheelwright e Clark (1992), afirmam que o PDP é um processo de negócios que promove a
interação dos setores gerencial, técnico e comercial. Para Baxter (2000), o PDP é uma atividade complexa, por requerer pesquisa, planejamento, controle e ainda envolver marketing,
engenharia de métodos e o uso de conhecimentos de estética e estilo. Para Rozenfeld et al
(2006), o PDP é como um conjunto de atividades realizadas em uma sequência lógica como
objetivo de produzir um bem ou serviço que tem valor para um grupo específico de clientes
Como é um processo estratégico para as organizações, passou a ser estudado e alguns autores
definiram metodologias específicas. Cada modelo de PDP tem suas particularidades. Os trabalhos desenvolvidos por Ulrich e Eppinger (2004) e o por Rozenfeld et al (2006), por exemplo, apresentam um número maior de fases, abrangendo desde o planejamento do produto até
o acompanhamento do produto no mercado.
O modelo de referência de Rozenfeld et al (2006) para o PDP (Figura 1) foi elaborado a partir dos trabalhos de Wheelwright e Clark (1992), Pahl et al. (2005), etc., estando estruturado
em macrofases, fases, etapas e atividades.
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Figura 1 – Modelo de desenvolvimento de produtos
Fonte: Rozenfeld et al. (2006)
Nesta proposição as macrofases e fases são assim apresentadas: pré-desenvolvimento (planejamento estratégico do produto e planejamento do projeto), desenvolvimento (projeto informacional, projeto conceitual, projeto detalhado, preparação da produção e lançamento do produto) e pós-desenvolvimento (acompanhar produto e processo e descontinuar o produto).
Cada fase é composta por atividades que podem ser realizadas em paralelo ou quando a atividade anterior for concluída; o que permite maior flexibilidade e maior interação entre os setores responsáveis. A quantidade e complexidade das atividades a serem desenvolvidas no PDP
vão depender da realidade de cada empresa.
Neste sentido, alguns fatores de adaptação são importantes: setor ou ramo de atividade, complexidade e nível de inovação do produto, posição da cadeia de suprimentos e nível de interferência do cliente no projeto do produto. Levando em conta tal adaptabilidade prevista, para o
desenvolvimento das etiquetas em Braille, optou-se por tomar como base o modelo desenvolvido por Rozenfeld et al (2006), sendo apresentados nesse artigo apenas as atividades essenciais ao entendimento do conceito do produto e do processo de projeto.
3.1. Projeto Conceitual
Segundo Rozenfeld, et. al. (2006), na fase do projeto conceitual é feita a busca, criação, representação e seleção de soluções para o projeto. O processo de criação é livre de restrições, porém direcionado pelos requisitos do cliente e auxiliado por métodos de criatividade.
Segundo os referidos autores, a fase conceitual é iniciada com uma modelagem funcional do
produto. Warell (2001) apresenta uma metodologia em que são explicitadas funções técnicas
(estruturai e operativas) e interativas (ergonômicas e comunicativas).
Após isso, são buscadas as soluções para cada função através da matriz morfológica. Este é
um método que busca encontrar a melhor solução para cada função do produto (visão cartesiana) e a melhor solução total (visão sistêmica).
Nesta fase também são definidos os aspectos semânticos do produto, diretamente relacionados
com sua estética e ergonomia. É, também, o estudo das qualidades das formas no contexto
cognitivo e social e a aplicação do conhecimento aos objetos de desenho industrial.
Segundo Baxter (2000), a ergonomia tem por objetivo entender as relações entre as pessoas,
os artefatos e o meio-ambiente, usando conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia,
direcionando isto ao projeto de objetos. Por fim, a representação das soluções pode ser feita
por meio de esquemas, croquis ou desenhos.
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4. Metodologia
Este trabalho pode ser classificado, quanto aos fins, em aplicado (devido seu valor prático) e
intervencionista (ligado à mudança da realidade), e, quanto aos meios, é um estudo de caso,
pois procura conhecer profundamente a realidade dos deficientes visuais de maneira pouco
ampla. (VERGARA, 1997).
A partir desta classificação e da revisão da literatura foi possível conceber um método para o
projeto do produto, sendo realizado em três fases: (1) conhecimento da realidade do portador
de PC, (2) identificação dos produtos eletrônicos existentes no mercado e a sua adaptação dos
deficientes visuais, e (3) desenvolvimento do conceito de um novo produto que supere as limitações encontradas.
Na primeira fase foram realizadas visitas semanais as seguintes instituições: FUNAD (Fundação de Apoio ao Deficiente), ASPADEF (Associação Paraibana de Deficientes) e ao Instituto
dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha, ambas em João Pessoa-PB. Notou-se, através de conversas que a maior crítica dos deficientes estava relacionada com a dificuldade na realização
de atividades domésticas, especialmente quando se trata de novos aparelhos.
Posteriormente, foram identificados por meio de pesquisas em sítios da internet produtos eletroeletrônicos, sendo verificada a sua adaptabilidade ao uso por pessoas com limitações de
visão ou completamente cegas.
Finalmente, foram buscados métodos de adaptar os comandos dos aparelhos, em especial os
fornos de micro-ondas em que os deficientes visuais não pudessem operar, tendo por solução
a criação de etiquetas autoadesivas fixadas no quadro de comando. Toda investigação e desenvolvimento são apresentados no tópico se segue.
5. Desenvolvimento das etiquetas em Braille para equipamentos eletrônicos
Observou-se a necessidade do desenvolvimento de um produto que atingisse o maior público
alvo possível, fosse economicamente viável ao nicho desejado, e principalmente fosse de fácil
e prática utilização. Fazendo com que o desenvolvimento tecnológico caminhe alinhado com
a inclusão social.
Assim sendo, a melhor opção de produto foram as etiquetas em Braille para equipamentos
eletrônicos com tela sensível ao toque. Nas seções abaixo serão discutidos os mais importantes tópicos referentes a esse desenvolvimento.
5.1 Identificação do problema de projeto
Durante a realização de visitas técnicas os deficientes visuais apresentaram diversas queixas
aos aparelhos com painéis lisos, cujas teclas só podem ser identificadas através da visão. Para
aqueles que usam o tato para identificar números e funções nos aparelhos a vida foi dificultada com a introdução de nova estética e tecnologia.
Foram particularmente importantes, para os deficientes visuais, as dificuldades apresentadas
no uso do aparelho de micro-ondas, ainda que outros dispositivos como celulares, televisores,
aparelhos de DVD ou home-theater também se apresentassem como problema. No ponto de
vista da independência, o aparelho de micro-ondas permite ao deficiente visual independência
na alimentação. A comida pode ser preparada e congelada por pessoas com visão para determinado período e vai sendo aquecida, sem ajuda, à medida que for necessária.
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No Quadro 1 são apresentados diversos modelos de forno de micro-ondas pesquisados. Como
se pode perceber pela análise, a maioria deles apresenta telas de comando em que não é possível identificar as teclas pelo simples toque.
Quadro 1 – Pesquisa de modelos de forno de micro-ondas
Fonte: Pesquisa direta
Embora não se possa considerar que é uma amostra representativa dos modelos existentes, a
lista constante no Quadro 1 apresenta o problema expresso pelos deficientes visuais. E, apesar
de alguns modelos possuem comandos com botões em alto-relevo, com formato e tamanhos
diferentes, a queixa não deixa de existir, pois muitos aparelhos já comprados ficam inutilizados por conta da inacessibilidade.
5.1. Especificação da oportunidade de desenvolvimento
Segundo Baxter (2000), a especificação da oportunidade deve desembocar na determinação
de uma proposta básica de benefício, ou seja, aquilo a que o produto se propõe a fazer. Para o
autor, tal definição deve ser feita por meio de pesquisas de mercado e tecnológica.
No caso do artigo em questão, as necessidades são de facilitar as atividades diárias dos deficientes visuais, buscando dessa forma um produto adaptado que proporcione independência e
interação social a essas pessoas.
Assim, para obtenção do projeto do produto, foram realizadas pesquisas de mercado e tecnológicas, visitas a instituições em João Pessoa-PB, com o intuito de facilitar o desenvolvimento
do produto em questão.
5.2. Modelagem Funcional
Foi utilizada a tipologia de Warell (2001) para a análise funcional. Esta tipologia divide as
funções em técnicas e interativas, sendo as primeiras divididas em estruturais e operativas e as
últimas em ergonômicas e comunicativas. O resultado é apresentado no Quadro 2.
FUNÇÕES TÉCNICAS
FUNÇÕES INTERATIVAS
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Funções Estruturais
Adaptar-se ao aparelho
de micro-ondas.
Funções Operativas
Funções Ergonômicas
Possibilitar a identificaFacilitar a utilização do
ção das teclas através do aparelho micro-ondas.
toque.
Quadro 2 – Modelagem Funcional
Fonte: Elaboração Própria
Funções Comunicativas
Transmitir informações
do conteúdo presente nas
teclas para o deficiente.
As funções das etiquetas em Braille são subdividas nas seguintes funções do aparelho microondas: funções básicas, programadas e ajustes pré-definidos, onde cada uma dessas funções
tem sua respectiva subdivisão, como é ilustrado na Figura 2.
Figura 2 – Funções do painel do aparelho de micro-ondas
Fonte: Pesquisa Direta
A lista de funções para as etiquetas Braille, constantes no Quadro 2, e as funções do aparelho
de micro-ondas, constantes na Figura 2, orientaram a busca de soluções do produto para o
atendimento aos requisitos dos clientes.
5.3. Desenvolvimento das alternativas de solução
Para que o produto atinja a sua função, este deverá ser corretamente colado com o auxilio de
outra pessoa. Neste caso, as funções mostradas anteriormente deverão ser guiadas por um
manual e a pessoa que vai comprar deverá acompanhar toda a colagem dos adesivos para que
nenhuma peça fique fora dos padrões desejados.
Função
Informar as funções básicas
1
Formato da tecla
diferenciada por
função do forno
Princípios de soluções
2
3
Formato da tecla
diferenciada e
Abreviação da
abreviação da funfunção em Braille
ção em Braille
4
Símbolos no lugar
do braile
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Informar funções
de programação
Informar as funções pré-definidas
Formato da tecla
Abreviação das
Alto relevo ao
diferenciada por
funções de prograredor do Braille
função do forno
mação em Braille.
Manual informando
Abreviações das
Informação o temo tempo cada item
funções prépo na própria tecla
está programado
definidas.
Quadro 3 – Alternativas de solução
Fonte: Elaboração Própria
-
-
A decisão do princípio de solução total do produto projetado, as Etiquetas em Braille para
aparelhos de micro-ondas, recaiu para a combinação presente na segunda coluna do Quadro 3.
Nesta sugestão foram previstos que o produto deverá ter (I) Formato da tecla diferenciada por
função do forno e abreviação da função em Braille, (II) Alto relevo ao redor do Braille e (III)
Abreviações das funções pré-definidas.
5.4. Arquitetura, ergonomia e estética do produto
A definição das funções do produto e seus princípios de solução tornaram possíveis determinar como as suas partes constituintes irão interagir entre e com o aparelho. As etiquetas adesivas não possuem interação mútua, o que da flexibilidade ao produto, podendo ser utilizado em
qualquer marca de micro-ondas visto que as funções principais estão em todos os aparelhos.
O maior objetivo das etiquetas para micro-ondas em Braille é tornar o uso deste aparelho acessível aos deficientes visuais, para isso serão utilizados diferentes formatos para as funções
do aparelho bem como inscrições em Braille.
O painel numérico terá suas etiquetas no formato retangular, as funções Ligar/desligar e Parar/cancelar serão na forma de triângulo e as demais ovais para que o portador de necessidades especiais possa identificar qual função deseja acionar, relacionando-as com as demais e
consequentemente, diminuindo o número de erros ao acionar a tecla errada.
As etiquetas serão fabricadas em material transparente para que não modifique as características estéticas do forno de micro-ondas e para que não interfira no manuseio deste por pessoas
não portadoras de deficiência visual, possibilitando-as enxergar as funções do painel, como é
ilustrado na Figura 2.
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Figura 2 – Protótipo Virtual
6. Considerações Finais
O desenvolvimento das etiquetas para micro-ondas em Braille é uma proposta de produto para
incluir os portadores de necessidades especiais no avanço tecnológico que participa cada vez
mais da vida das pessoas.
Com as pesquisas de mercado e de produtos realizadas foi verificado que muitos produtos de
utilidade doméstica ainda não foram adaptados para as pessoas deficientes visuais. A escolha
do desenvolvimento deste produto foi feita com base na necessidade percebida que os deficientes visuais têm de utilizar produtos com teclas sensíveis ao toque.
Para dar continuidade ao desenvolvimento do produto, observa-se a importância de apresentar
este projeto às instituições que foram anteriormente visitadas. Para tanto se faz necessária a
produção do protótipo real para testes e posterior lançamento do produto no mercado. Essa
etapa do PDP ainda não foi realizada, porém encontra-se em fase de desenvolvimento.
Vale ressaltar que a necessidade de utilizar produtos com painéis lisos não se limita apenas ao
aparelho de micro-ondas. Assim as etiquetas como as desenvolvidas podem ser adaptadas a
diferentes aparelhos eletroeletrônicos, permitindo que os deficientes visuais possam ser mais
independentes. As etiquetas podem até ser parte integrante e destacável dos manuais de instrução dos equipamentos.
Referências
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Blücher, 2000.
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Infantil Porto Alegre/RS, 2008.
BERSCH, R.; TONOLLI, J. C. Introdução ao Conceito de Tecnologia Assistiva e Modelos
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BRUMMEL-SMITH, K.; DANGIOLO, M. Assistive Technologies in the Home. Clin Geriatr Med 25 (2009) 61–77. Elsevier, 2009
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VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas,
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desenvolvimento de etiquetas em braille para permitir o