A leitura, o leitor e a escola...
Algumas considerações sobre a literatura infantil
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Flávia Brito Dias (Colégio Medianeira)
Deisily de Quadros (UFPR/Faculdades Santa Cruz/ Colégio Medianeira)
Resumo: Em meio às novas tecnologias, ao crescente interesse pela televisão, aos pais que por falta de tempo
não leem ou contam histórias para os seus filhos, aos professores que não são leitores e não são preparados para
trabalhar com a literatura nos cursos de licenciatura surge o grande desafio da escola: formar leitores. Não
leitores circunstanciais ou escolares, mas leitores para a vida. Para tanto, além do investimento na formação dos
profissionais da educação, são necessárias intervenções constantes por meio de estratégias de leitura, que
apresentem o texto de literatura como fonte de cognição e reflexão, mas também de afetividade, fruição e
sensibilidade. Nesse sentido, apresentaremos no presente artigo, direcionado ao simpósio “Intervenções
literárias: estratégias de leitura”, Um encontro com Alice, projeto que desenvolvemos a partir do livro Alice no
país das maravilhas, de Lewis Carroll, com nossos alunos de 4º ano, com o intuito de sensibilizá-los para a
literatura e de despertar atitudes leitoras.
Palavras-chave: Literatura e escola; Estratégias de leitura; Literatura infantil.
Abstract: Due to technology advances, higher level of interest in television, lack of time for parents to read or
tell stories to their children, teachers who are not readers and are not prepared to work with literature in
bachelor’s degree courses, arises a great challenge for schools: to form readers. Neither school nor
circumstantial readers, but readers for life. For that, besides the investment in the graduation of education
professionals, constant interventions through reading strategies, which present the literature text as a source of
cognition and reflection, but also of affection,fruition and sensibility, are necessary. Thereby, we will present in
this article, oriented for the symposium “ Literary interventions: reading strategies”, An encounter with Alice, a
project that was developed from the book Alice in Wonderland, by Lewis Carroll, with our 3rd grade students,
with the intention of moving our students to enjoying literature and awaken reading attitudes.
Key words: Literature and school; reading strategies, children’s literature.
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
(Adélia Prado)
Com os avanços da ciência e da tecnologia, o mundo apresenta interações tão
dinâmicas que, muitas vezes, nós precisamos ter outro olhar para com a realidade. A nossa
maneira de ver o mundo precisa acompanhar – ou tentar acompanhar – o dinamismo dos
acontecimentos, dos novos conhecimentos e informações que nos saltam aos olhos a todo o
momento.
Nos dias atuais, as tecnologias virtuais estão presentes no cotidiano dos indivíduos.
Ana Maria Machado (SESC/2011) coloca que as novas tecnologias vieram para ficar e que a
adaptação a elas é inevitável. Embora as novas tecnologias tragam pontos negativos, também
se percebem pontos positivos: não considerando a qualidade das produções, nunca se escreveu
tanto ou fizeram-se tantas leituras como na atualidade.
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No contexto social em que está inserido, o sujeito tem a possibilidade de interagir
com as diferentes linguagens sejam elas verbais, gestuais, escritas, imagéticas, faz-se
necessário preparar o sujeito para fazer uso adequado das diferentes linguagens por meio da
leitura, em diferentes situações sociais no contexto, ou seja, capacitá-lo a atribuir sentidos à
leitura nos processos em que se apropriam de novos conceitos de conhecimentos e atribui seu
olhar acerca do mundo, a fim de que compreenda sua função social.
Ao promover um processo que permita ao indivíduo entrar em contato por meio da
leitura com a interação das diferentes linguagens e gêneros textuais, acredita-se que possa
levar o sujeito a estabelecer relações múltiplas, análises e reflexões a fim de construir,
reconstruir conceitos significativos. Não desconsiderando as diversas interações sociais e
culturais em que estão inseridos, a leitura está relacionada às diversas experiências sociais e
culturais que o sujeito traz consigo, sendo assim, neste universo tecnológico e global, faz-se
necessário possibilitar ao indivíduo o contato com os livros e com o texto literário.
Acreditamos que formar leitores é um dos maiores desafios da escola. Ninguém nasce
leitor, mas torna-se por meio do contato com uma diversidade de textos, que apresenta
estruturas e temas peculiares, como a Literatura.
Assim, formar leitores de literatura é também uma tarefa da escola. E por pensarmos a
literatura como fonte de formação e transformação do ser humano é que realizamos o projeto
de leitura que vamos aqui abordar.
O termo literatura vem sendo aplicado desde o final do século XVIII para distinguir e
classificar textos da escrita imaginativa. A especificidade do texto literário é uma ideia
defendida por Madame de Staël em seu livro Sobre a literatura considerada em suas relações
com as instituições sociais (1800). Criado para construir uma realidade paralela e baseado na
imaginação, o texto literário traz a marca da invenção e quebra dos padrões da escrita, de
representação do mundo e do ser humano. A literatura, portanto, caracteriza-se pela arte da
palavra, pela estética, pelo imaginário, pela fruição, pelo encantamento, pela transcendência.
Se hoje a literatura tem importância, isto se deve basicamente ao fato de nela
se ver, como ocorre a muitos críticos convencionais, um dos poucos espaços
remanescentes nos quais, em um mundo dividido e fragmentado, ainda é
possível incorporar um senso de valor universal; e nos quais, em um mundo
sordidamente material, ainda se pode vislumbrar um raro lampejo de
transcendência. (EAGLETON, 1997, p.329).
É dentro desse universo que a literatura infantil vem sendo incluída. Compreendida
atualmente como “histórias ou poemas que ao longo dos séculos cativam e seduzem as
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crianças” (AGUIAR, 2001, p.16) e como textos que “envolvem, simultaneamente, a emoção e
a razão em atividade” (PAULINO, 1999, p.74), nem sempre a literatura voltada ao público
infantil teve essas características.
A Literatura infantil, que surgiu no século XVII, juntamente com o sentimento de
infância, tinha como função ensinar, moralizar, doutrinar. Essa concepção de literatura com
função didática veio se transformando e hoje a concebemos como arte: é cognição, mas
também sensibilidade, prazer e afetividade.
A leitura explora a imaginação e proporciona as possibilidades de expressão oral e
escrita, mas é significativo que os sujeitos possam contemplar diferentes tipos de textos para
que possam perceber e identificar suas diferenças. A escolha e a diversidade de textos de
qualidade são essenciais, pois podem transmitir inúmeras informações relacionadas às
diferentes linguagens e ao mundo.
Calvino (1986) em breves palavras sobre a leitura depõe:
Tenho certeza de que a leitura não é comparável a nenhum outro meio de
aprendizagem e de comunicação, porque ela tem um ritmo que é o
governado pela vontade do leitor; a leitura abre espaços de interrogação, de
mediação, de meditação e de exame crítico, isto é, de liberdade; a leitura é
uma correspondência não só com o livro, mas também com o nosso mundo
interior através do mundo que o livro nos abre. (CALVINO, 1986, p.45)
A leitura cumpre uma importante função social e cultural e é determinante nos
processos de pensamento. É de fundamental importância que o indivíduo entenda que a
aprendizagem da leitura é um meio de ampliar as possibilidades de comunicação e um ato de
compreensão do que se vê, do que se sente e da leitura que se faz do mundo.
É com esse olhar que desenvolvemos o projeto “Um encontro com Alice”, momento
de leitura do livro Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, com nossos alunos de 4º
ano do Colégio Medianeira (Curitiba/Paraná) neste ano de 2012. A intenção primeira é
seduzir as crianças com a leitura da referida obra, na tentativa de formar leitores além do
muro da escola, leitores para a vida, que adentrem o mundo dos livros de literatura.
1 Um encontro com Alice
Descreveremos aqui algumas estratégias usadas na leitura do livro Alice no país das
maravilhas que acreditamos serem comuns ao trabalho com outras obras de literatura infantil.
O que as crianças pensam sobre a leitura? Eis a resposta de alguns de nossos alunos
quando questionados:
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“A leitura é um jeito de aprender sempre mais!”
“Ler nos torna mais criativos e podemos nos divertir.”
“A leitura é um caminho para a imaginação.”
“A leitura é um caminho para o conhecimento, para aprender mais!”
“A leitura nos leva a grandes aventuras.”
A leitura é concebida como uma prática cultural/social que se aplica mediante a
interação entre a subjetividade de cada leitor e seu contexto social. Jauss (1994) considera que
a leitura, ao olhar do receptor, gera e possibilita a interação de novos sentidos, se modifica.
Sendo assim, todo leitor deve ser percebido como um sujeito que circula e perpassa pelo texto
com autonomia e cria, a partir de seus desejos, das habilidades intelectuais, suas próprias
interpretações para a leitura que exerce efeitos sobre o indivíduo como forma de
conhecimentos ou reconhecimento da realidade.
E para compreender a própria realidade e auto-conhecer-se, o leitor identifica-se com
o outro por meio das personagens e do real representado na ficção. Portanto, para que os
leitores em formação compreendam uma obra, é necessário de imediato situá-la no tempo e no
espaço de sua criação e no tempo e espaço que retrata.
No que se refere à Alice no país das maravilhas, inicialmente contextualizamos a obra
por meio da seguinte estratégia: em uma caixa com a bandeira da Inglaterra, colocamos as
imagens Rainha – Chá – Chapéu – Críquete. Abrimos a caixa, retiramos as gravuras uma a
uma e perguntamos o que as crianças conheciam sobre elas. Assim, pudemos verificar o
conhecimento prévio e as hipóteses que elaboraram. Então, explicamos os costumes do
período da Inglatera vitoriana: o chá das 5, o papel do chapeleiro com relação às damas da
sociedade, o uso do chapéu, o jogo críquete, a rainha Vitória, o papel das crianças
(trabalhavam, casavam e morriam cedo). Explicamos ainda que nesse período, na Inglaterra,
um escritor criou uma história e usou as imagens da caixa. Em seguida, pedimos que as
crianças escrevessem, em duplas, que história esse autor poderia ter escrito. Os escritos foram
compartilhados com os demais colegas. Só então apresentamos o livro Alice no país das
maravilhas.
Observe as imagens:
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Rainha
Chá
Chapéu
Críquete
Que história você acha que um escritor inglês do século XIX poderia ter escrito com essas palavras?
Imagine, faça suas anotações e depois conte para os colegas.
As inferências são parte essencial do processo de leitura. Há todo momento nós,
leitores, estamos inferindo a partir dos não ditos do texto lido, de acordo com o repertório que
temos (termo cunhado por Iser) e com as estratégias textuais e possibilidades que o texto nos
oferece. Assim, os leitores em formação devem ser levados a construir essas inferências e
perceber que elas podem ou não se confirmar. O trabalho com as inferências se deu logo no
início, ainda antes da leitura de Alice, quando procuramos saber o que inferiam a partir do
título e dos elementos pré-textuais como capa, autor, sumário...
Como você imagina serem as personagens que farão parte dessa história?
Represente a seguir as imagens que lhe vem à mente quando pensa no título: “Alice no país das maravilhas”.
Registre seus pensamentos:
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Após essa inferência inicial, lemos um texto informativo (“Como surgiu a Alice?”) e
procuramos confrontar o novo conhecimento com as inferências previamente realizadas:
1- O que você descobriu nos textos não-ficcionais sobre a história de Alice que ainda não conhecia?
Registre a seguir três informações que mais lhe interessaram:
O leitor, portanto, estabelece algum tipo de diálogo ao se deparar com um texto, antes
mesmo de saber seu conteúdo, pois ele já tem algumas pistas sobre o que encontrará nele. Ao
ampliar sua leitura, continua seu diálogo com o texto até o momento em que a interpretação o
leva a assumir uma atitude de posicionamento diante da escrita, verificando se as inferências
realizadas no início, com a leitura dos elementos pré-textuais e até mesmo das primeiras
páginas, se comprovam ou não. Portanto, considera-se fundamental que o leitor entre em
contato com situações onde possa explorar diversos gêneros literários, de maneira que
propicie a oportunidade de interpretação e inferências, pois para desenvolver a habilidade de
interpretar é necessário ter vivenciado várias experiências de leitura.
O texto literário, enquanto fictício, não se adéqua de maneira total à realidade, mas
não deixa de relacionar-se com o real. Compreendido como universo da ficção, o texto
literário traduz aspectos sociais, históricos e culturais, reconhece-se essencialmente como um
fenômeno de linguagem.
Procuramos trabalhar também a contraposição entre ficção e não-ficção, na tentativa
de aproximar os dois conceitos, mostrando ser a ficção uma leitura simbólica do real.
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Você acredita que algum dos personagens que conheceu poderia ser real? Explique:
Existem histórias que são reais? Você conhece uma? Qual?
Como sabemos a diferença entre uma história real e uma história de fantasia?
Existe alguma característica que aparece em todas as histórias que são fantasias? Quais?
O que faz uma história ser verdadeira?
E há ainda um aspecto muito importante no que diz respeito ao formar leitores: ensinálos a estabelecer relações entre o texto lido e outros textos, experiências pessoais,
acontecimentos do mundo. Quanto mais relações o leitor consegue estabelecer, mais ele
atuará sobre o texto no ato da leitura, na medida em que será capaz de preencher as lacunas
desse texto – os vazios mencionados por Iser (1996).
1- Que relações você pode estabelecer com outros textos:
a- “ Em toda volta do salão havia portas. Mas todas estavam trancadas. E depois que Alice passou por
todas elas, experimentando uma por uma, sentou-se muito triste no meio do salão, sem saber como é que
ia sair dali.” (pág. 18)
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b- “Agora já estava só com um palmo de altura e seu rosto se iluminou com a ideia de que estava no
tamanho exato para passar pela portinhola e ir até o jardinzinho lindo.” (pág.20)
Ler significa desenvolver-se cognitivamente, mas também emocional e afetivamente.
Jouve considera que “a leitura é uma atividade complexa, plural, que se desenvolve em
várias direções” (JOUVE, 2002, p.17). É preciso desorganizar para reorganizar,
desestabilizar para estabilizar, desconstruir para construir e reconstruir uma nova leitura de
mundo que nos ajudará a entender qual é a realidade, em que contexto nós estamos inseridos,
e nos levar a novas reflexões sobre nossa realidade, nossa prática, nossa maneira de ser,
pensar e agir.
Percebendo os sentimentos das personagens, o leitor será capaz de lidar com os
próprios sentimentos despertados pela leitura, que podem ser diversos. Um bom texto é
aquele capaz de desestabilizar, provocar afetos, para só então construir o novo.
Propusemos a seguinte reflexão acerca dos sentimentos da personagem Alice, para
então verificar como a história sensibilizou a criança leitora.
1. Copie trechos do livro que descrevem os sentimentos que Alice demonstra ao longo da história, de
acordo com as figuras a seguir:
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E você? Que sentimentos essa história despertou em você?
Acreditamos que, ao trabalhar com a literatura em sala de aula, é preciso ir muito além
dos convencionais elementos da narrativa: personagens, cenário, enredo, narrador, tempo. É
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preciso provocar reflexões, fazer conhecer a estrutura do texto, desestabilizar, tecer relações,
comprovar e não comprovar inferências, deixar-se afetar e sensibilizar de alguma forma pela
arte da narrativa. É o que procuramos fazer com os textos de literatura para crianças, neste
caso, o livro Alice no país das maravilhas: fazer da leitura uma atividade criadora e
transformadora da realidade por meio do encantamento da ficção.
2 Um pouco mais: algumas considerações
No contexto atual, a leitura mantém funções fundamentais. Ao envolver-se com a
leitura, o sujeito tende a ampliar sua visão de mundo, tornando-se um ser criativo diante de
informações recebidas, capaz de valorizar e adaptar-se às mudanças sociais e culturais e de
desenvolver uma postura crítica e reflexiva frente às diversas situações.
Para que se estabeleça uma experiência com a leitura é necessário lançar mão de todos
os recursos que favoreçam a compreensão do texto na sua perspectiva mais ampla durante o
processo da leitura.
O leitor e sua totalidade interferem consideravelmente na compreensão do texto lido.
Compreender o que se lê, além de compreender as particularidades, as especificidades do
texto e do autor, depende das características do leitor, das suas capacidades cognitivas
internalizadas e do conhecimento de mundo que possui.
O ato de leitura exige, assim, do leitor habilidades de análise, compreensão e
interpretação. Machado considera
uma situação que se caracteriza por conjugar muito estímulo intelectual e
muita liberdade, ao mesmo tempo. São os melhores momentos para se ter
ideias novas, nessa espécie de súbito apagamento relativo que o imaginário
se acende nas lembranças circulares de outros textos e outras leituras que
ocorrem se juntam e penetram pelas invisíveis ranhuras do texto, sempre
presentes e ativas, e então seguem desenhos irregulares a partir de suas
frestas, brincam com a língua, provocam a inteligência. (MACHADO, 2008,
p.60).
Pode ser classificada como dialética a relação entre o leitor e o texto durante o
processo de leitura, pois o leitor, para interpretar o texto e extrair novos significados, baseiase em seus conhecimentos de mundo. O novo significado, por sua vez, possibilita-o criar,
modificar, elaborar e incorporar novos conhecimentos em suas habilidades cognitivas.
A interpretação de um texto depende em grande parte de outros conhecimentos além
do conhecimento da língua. O conhecimento de mundo do aluno somado às pistas e
informações que o texto lhe fornece, formam uma rede de reconstruções do sentido e das
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intenções pretendidas pelo autor. A leitura enquanto interpretação traz consigo as experiências
do leitor a fim de ir além das perspectivas da compreensão.
Para melhor compreensão e interpretação textual será necessário que o indivíduo
exercite algumas habilidades como analisar os elementos simbólicos, estabelecer relações
com outros textos e com a realidade, refletir sobre as questões propostas, observar, sintetizar
as informações por meio de respostas.
Ao entrar em contato com a leitura, o leitor analisa a temática, a estrutura que
determina cada modalidade de texto e os diversos discursos propriamente ditos. O leitor
eficiente tende a atuar e supervisionar de maneira significativa e constante sua própria
compreensão e está sempre atento aos vazios e interrupções da compreensão, ele é seletivo ao
atentar aos diferentes aspectos do texto e progressivamente torna mais precisa sua
interpretação textual.
As conexões que o leitor faz a partir da leitura, relacionando-a com o conhecimento
adquirido, o contexto e a realidade em que está inserido, o repertório de leitura que possui,
possibilitam a desconstrução, a construção e a reconstrução de novas ideias, levando-o a
perceber de maneira crítica e criativa uma nova possibilidade de ir além das ideias já
concebidas. A literatura permite ao sujeito reconhecer-se enquanto indivíduo e modificar a
leitura que se faz do mundo. Ela permite ser um fio a explorar a complexidade.
Ao pensar a literatura na perspectiva da complexidade, pode-se compreendê-la num
processo de transformação contínuo, numa relação dialógica e transdisciplinar como
formadora do pensamento crítico e criativo.
A literatura, assim como as outras artes, expressa por meio de representações
simbólicas criadas pela imaginação sentimentos, angústias, dilemas, sonhos e estabelece
correspondências com a realidade. O texto literário, por meio das palavras, interliga tempos e
espaços, autores e leitores em um gesto solidário. Para Yunes, “ler é solidarizar-se pela
reflexão, pelo diálogo com o outro, a quem altera e que o altera.” (p. 32).
A literatura considerada como arte apresenta características que envolvem o apelo ao
imaginário e ao fantástico. Essa aventura, em um primeiro momento, solitária, permite ao
leitor a compreensão do que se sente e estabelece desse modo, relações de sentido com os fios
da vida, com as experiências vividas, com outros textos e encontra modos diferentes de ler o
mundo e entender a realidade.
O ato de linguagem necessita de um emissor e um receptor estabelecendo assim sua
função comunicativa e compará-la ao discurso literário ressalta sua complexidade. O autor, ao
escrever o seu texto, busca a interação e a dinamicidade do leitor.
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A linguagem literária leva o leitor a perceber que os textos não são isolados, sempre
existem relações estabelecidas com outros textos e que lhe permitem desconstruir, construir,
reconstruir novos significados. Neste emaranhado significativo dos fios das ideias conectadas,
interrelacionadas, surge a perspectiva de uma nova leitura. O leitor, por meio das relações
estabelecidas, encontra algo inovador, entrelaçado pelas linhas da imaginação, o que permite
que ele possa aventurar-se por caminhos até então desconhecidos, que num exato instante cria
novos sentidos.
O texto literário vem a ser compreendido como um diálogo em execução, pois as obras
constroem relações e interações recíprocas, as quais se ampliam para outras formas
discursivas. Ele prevê a existência do autor-leitor, que concebe as relações estabelecidas entre
os textos e as compreende de modo implícito e explícito, assim como prevê a existência do
leitor-autor, que estabelece diversas conexões com outros textos a partir do texto que lê.
Ao ler, o leitor percebe não apenas sua capacidade subjetiva, sua condição de sujeito
sócio-histórico-cultural ao compartilhar a leitura ficcional, como também propõe seus
esforços interpretativos ao reconstruir o texto com o envolvimento criativo de sua
imaginação. A leitura do texto literário apresenta um aspecto que justifica a fruição. A função
da literatura transcende e provoca prazer ainda que este esteja implícito no ato de ler.
Jauss considera que a leitura de obras literárias possibilita ao leitor vivenciar, saborear
do prazer estético, que por meio da imaginação, ultrapassa a ordem da realidade cotidiana e
lhe permite a partir de símbolos e signos linguísticos construir uma nova realidade.
O acesso a bons textos literários contribui para o crescimento do indivíduo, pois a
literatura é elemento propulsor do imaginário, do despertar a sensibilidade, da capacidade de
interagir e compreender o outro.
Face às alterações no contexto social é, muitas vezes, na escola, que a criança pode
entrar em contato com a leitura literária, por mediação do professor. Daí a importância da
formação do professor por meio dos cursos de licenciatura e da formação continuada acerca
do letramento literário. Afinal, é papel fundamental do professor formar leitores de literatura.
Dentro desse contexto, os professores têm um enorme desafio, pois a leitura não pode
ser vista nos bancos escolares como um sacrifício, uma obrigação, um instrumento
pedagógico. Ler tem que ser algo desejado, um prazer associado ao trabalho. É de
significativa importância que a literatura seja incorporada no cotidiano infantil, valorizando o
aspecto de que pode abrir as portas para variados mundos e realidades. O fundamental é que o
leitor perceba que a leitura é fonte de fruição, liberdade, criação, sensibilização e uma grande
e inesperada aventura pelo desconhecido. E essa aventura, num primeiro momento solitária,
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permite ao leitor compreender pelos sentidos (aisthesis), estabelecendo, desse modo, relações
com os fios da vida, com outros textos e encontrar modos diferentes de ler o mundo e
entender a realidade.
Referências
AGUIAR, Vera Teixeira de. (org.) Era uma vez... na escola: formando educadores para
formar leitores. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2001.
CALVINO, Ítalo. A necessidade-prazer da leitura. In: Leia Livros. São Paulo: Agosto, 1986.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura: arte, conhecimento e vida. São Paulo: Peiropolis, 2000.
COLOMER, Teresa. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Porto Alegre: Artmed, 1996.
CORACINI, Maria José R. Faria. Concepções de leitura na (pós) Modernidade. Org. Regina
Celia de Carvalho Paschoal. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2005.
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura. Uma Introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996.
JAUSS, Hans Robert. A Literatura e o leitor: textos de estética e recepção. Org. Luiz Costa
Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
___. A Literatura como provocação (História da Literatura como provocação literária). São
Paulo: Passagens, 1993.
JOUVE, Vincent. A Leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
LAJOLO, Marisa. Literatura: Leitores e Literatura. São Paulo: Moderna, 2001.
MACHADO, Ana Maria. Alguns Equívocos sobre Leitura. In: Nos Caminhos da Literatura.
São Paulo: Peirópolis, 2008.
PAULINO, Maria das Graças Rodrigues; WALTY, Ivete Lara Camargos; CURY, Maria
Zilda Ferreira. Intertextualidades: teoria e prática. Belo Horizonte: Editora Lê, 1997.
YUNES, Eliana. Pensar a leitura: Complexidade. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo:
Loyola, 2002.
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