Bios
Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas e do
Programa de Pós-graduação em Zoologia de Vertebrados
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
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EDITORA PUC MINAS
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ISSN: 0104-4389
Bios
Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas e do
Programa de Pós-graduação em Zoologia de Vertebrados
BIOS
Belo Horizonte
v. 13
n. 13
p. 1-92
dez. 2005
Bios
Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas e do Programa
de Pós-graduação em Zoologia de Vertebrados
Editora
Luciana Barreto Nascimento
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Foto da capa: Miguel Angelo de Andrade.
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
B616
Bios: Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas. – v.1, n.1 (dez.
1993- ). – Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 1993- .
v.
ISSN 0104-4389
Anual
1. Biologia - Periódicos. 2. Zoologia – Periódicos. I. Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais. Departamento de Ciências
Biológicas.
CDU: 57(05)
Indexação: artigos publicados na Bios são indexados no Asfa (Aquatic Sciences & Fisheries Abstracts) a partir do
número 7 e no Zoological Record a partir do número 10.
Sumário
ARTIGOS
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
Malacological assemblages in sediments of eastern Brazilian continental shelf,
coordinates 10º and 20º S, between Bahia and Espírito Santo State
Maria Auxiliadora Gomes
Ronaldo Novelli
Ilana Rosental Zalmon
Cristina Maria Souza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal das Mangabeiras,
Belo Horizonte, MG
Bryophytes of Passatempo Islands, Municipal Park of Mangabeiras,
Belo Horizonte, MG
Andreia Tonini
Maria de Fátima Vieira Starling
Olga Yano
José de Arimatéa Figueiredo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Deslocamento matutino e vespertino do biguá, Phalacrocorax brasilianus
(Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Dawn and dusk movements of the Neotropic Cormorant, Phalacrocorax brasilianus
(Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
Túlio Dornas
Gabriel Barbosa de Oliveira
José Eugênio Côrtes Figueira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos
da Estação Ecológica do Tripuí
Water quality and aquatic macroinvertebrated community of Estação
Ecológica do Tripuí
Marcelo Coutinho Amarante
Henrique Paprocki . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
RESUMOS
Hábitos alimentares da Corvina plagioscion squamosissimus (Perciformes,
Sciaenidae) em dois reservatórios do sudeste do Brasil
Feeding habits of Corvina plagioscion squamosissimus (Perciformes,
Sciaenidae) in two reservoirs in southeastern Brazil
André Corrêa Costa
Gilmar Bastos Santos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
Aspectos ecomorfológicos indicadores de modalidade locomotoras e estratégias
forrageadoras de xenartros Phyllophaga Owen, 1842 e Vermilingua (Illiger, 1811)
atuais e fósseis intertropicais brasileiros (Xenarthra; Pilosa)
Ecomorphological aspects indicating locomotion systems and foraging strategies of
living xenartrans Phyllophaga Owen, 1842 and Vermilingua (Illiger, 1811) and Brazilian
intertropical fossils (Xenarthra; Pilosa)
Bruno Machado Kraemer
Robert Young . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
Embriogênese e ontogênese larval de três espécies de peixes Erythrinidae
da bacia do rio São Francisco
Larval embryogenesis and ontogenesis of three species of Erythrinidae
fish of the São Francisco river bay
Bruno Vilaça Campos Gomes
Nilo Bazzoli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Teores de mercúrio total em Rhandia quelen (Quoy & Gaimard, 1824) e sua
relação com os parâmetros físicos, químicos e físico-químicos do rio Piracicaba
em Minas Gerais
Total mercury concentrations in Rhandia quelen (Quoy & Gaimard, 1824) and their
relation with physical, chemical and physical-chemical parameters of Piracicaba river,
State of Minas Gerais
Carolina Decina Vieira
Maria Tereza Candido Pinto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
Quantificação de mercúrio em órgãos celomáticos de Geophagus brasiliensis
(Quoy & Gaimard, 1842) e sua relação com parâmetros abióticos do rio Piracicaba,
Minas Gerais
Mercury contamination in celomatic organs of Geophagus brasiliensis (Quoy &
Gaimard, 1842) and its relation with abiotic parameters of Piracicaba river, State of
Minas Gerais
Domingos Sávio Pereira
Maria Tereza Candido Pinto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
O homem, as matas ciliares e os peixes de Lagoa da Prata, no Alto São
Francisco: um estudo das inter-relações
Man, riparian vegetation and fish in Lagoa da Prata, upstream São Francisco
river: a study of interrelations
Flávia Peres Nunes
Maria Tereza Candido Pinto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Aspectos biológicos, ecológicos e comportamentais do lobo-guará, Chrysocyon
brachyurus (Illiger, 1815) (Mammalia: Canidae), segundo os moradores do entorno da
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Caraça
Biological, ecological, and behavioral aspects of the maned wolf, Chrysocyon
brachyurus (Illiger, 1815) (Mammalia: Canidae), according to dwellers of the Private
Reserve of the Natural Heritage of Serra do Caraça
Graziela Mendes Resende
Sonia Nicolau dos Santos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Estrutura espacial e temporal da anurofauna associada a poças naturais na
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Serra do Caraça, MG
Spatial and temporal structure of anuran fauna associated to natural ponds in the
Private Reserve of the Natural Heritage of Serra do Caraça, Minas Gerais State
Kátia Alcione Kopp
Paula Cabral Eterovick . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72
Estrutura temporal e espacial de comunidades de anuros em riachos de mata
na RPPN Serra do Caraça (Catas Altas, Minas Gerais)
Temporal and spatial structure of anuran communities in forest streams at Serra do
Caraça (Catas Altas, State of Minas Gerais
Lílian Gomes Afonso
Paula Cabral Eterovick . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
Análise da variação craniométrica em Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817)
(Rodentia, Muridae)
Craniometric variation analysis of Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817)
(Rodentia, Muridae)
Maria Olímpia Garcia Lopes
Adriano Garcia Chiarello . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Área de vida e uso de micro-ambientes em uma população de Crossodactylus sp.
(gr. gaudichaudii) (Anura, Cyclorhamphidae) na Serra do Caraça, Minas Gerais
Home range and microhabitat use in a population of Crossodactylus sp. (gr.
gaudichaudii) (Anura, Cyclorhamphidae) at Serra do Caraça, State of Minas Gerais
Milena Wachlevski Machado
Paula Cabral Eterovick . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
Avaliação do estado de saúde e do risco de transmissão de doenças entre canídeos
(Mammalia, Carnivora) silvestres e domésticos na região da Serra do Cipó, Minas
Gerais: implicações para a conservação
Evaluation of health conditions and disease transmission risk between wild and
domestic canids (Mammalia, Carnivora) in the Serra do Cipó National Park region,
State of Minas Gerais: implications for conservation
Nelson Henrique de Almeida Curi
Sônia Aparecida Talamoni . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Diversidade de mamíferos em diferentes fitofisionomias do Cerrado do Parque
Nacional Grande Sertão Veredas: um estudo com foto-armadilhas
Diversity of mammals in different physiognomies of Cerrado of Parque Nacional
Grande Sertão Veredas: a study with camera trapping
Rafael Luiz Aarão Freitas
Adriano Garcia Chiarello . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
Estratégias reprodutivas dos peixes do reservatório de Porto Colômbia,
bacia do rio Grande, sudeste do Brasil
Reproductive strategies of fish in Porto Colômbia Reservoir, Grande river basin,
southeastern Brazil
Renê Eiji Souza Hojo
Nilo Bazzoli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
Estrutura e dieta da ictiofauna em dois riachos na bacia do rio Pará (MG) com
ênfase nas interações tróficas entre peixes e macroinvertebrados bentônicos
Icthyofauna structure and diet in two streams of Pará river basin (Minas Gerais State)
with emphasis on trophic interactions between fish and benthic macroinvertebrates
Taynan Henriques Tupinambás
Gilmar Bastos Santos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Artigos
Reprodução cooperativa: ajudar ou não ajudar, eis a questão
Associações malacológicas em sedimentos ao largo
da costa leste do Brasil, latitudes 10º e 20º S, entre os
Estados da Bahia e Espírito Santo
Malacological assemblages in sediments of eastern Brazilian continental
shelf, coordinates 10º and 20º S, between Bahia and Espírito Santo State
MARIA AUXILIADORA GOMES
RONALDO NOVELLI
ILANA ROSENTAL ZALMON
CRISTINA MARIA SOUZA
1
Resumo
Um levantamento da malacofauna da plataforma continental leste do Brasil foi realizado em 19941995, durante o cruzeiro oceanográfico a bordo do navio Victor Hensen, entre as paralelas 15º e
20ºS. As amostras qualitativas e quantitativas foram obtidas em 0,25m2 de box grab em 14 estações
oceanográficas. Foram amostradas 170 espécies de moluscos, dentre elas 105 gastrópodes e 65
bivalves. Natica pusilla, Calyptraea centralis, Crassinella lunulata, Nuculana acuta, Corbula cubaniana e
Anadara notabilis foram as espécies mais freqüentes, ocorrendo em seis estações, onde representaram
cerca de 30% do total amostrado. A análise de co-ocorrência revelou a existência de três associações
malacológicas relacionadas à granulometria. A primeira composta por estações com predominância
de sedimento mais arenoso; a segunda apresentando as três frações – argila, silte e areia – bem
distribuídas e uma terceira com predomínio da fração silte. O modelo discriminante construído com
variáveis abióticas foi 100% eficiente em identificar o ambiente onde as associações ocorreram, sendo
especialmente relevantes os percentuais de silte e areia.
Palavras-chave: Associações malacológicas; Relação animal/sedimento; Padrões de co-ocorrência.
Abstract
A survey of the malacofauna along the eastern Brazilian continental shelf (15º and 20º S) was carried
out from 1994 to 1995 by the oceanographic ship Victor Hensen. Qualitative and quantitative samples
were collected using 0.25m2 of box grab in 14 sublitoral stations. One hundred and seventy species of
mollusks were sampled: 105 gastropods and 65 bivalves. Natica pusilla, Calyptraea centralis, Crassinella
lunulata, Nuculana acuta, Corbula cubaniana and Anadara notabilis were frequent and occurred at six
stations, where they represented around 30% of the total sampling. Distribution patterns of benthic
associations were examined in relation to the prevalent sedimentary processes. Three malacological
assemblages were identified by the co-occurrence analysis based on sedimentological properties: one
with sandy-sediment predominance, the second with three well distributed fractions, and the third
with silte fraction predominance. A discriminant model including abiotic variables was 100% efficient
in identifying the assemblage environments, with especially relevant percentages of silte and sand.
Key words: Malacological assemblages; Benthos; Animal/sediment relationship; Co-occurrence
patterns.
Laboratório de Ciências Ambientais, Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense, Av. Alberto Lamego, 2000, 28015-620, Campos dos Goytacazes - RJ. e-mail: [email protected]
Bios, Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas, v. 12, n. 12, p. 11-24, dez. 2004
11
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
O
s moluscos destacam-se entre os demais organismos da macrofauna bêntica pela riqueza de espécies e pela
dominância numérica. Constituem um grupo
bem conhecido do ponto de vista taxonômico. Muitas espécies são sedentárias e as conchas vazias podem constituir um registro semipermanente de sua ocorrência.
Em regiões temperadas, espécies de moluscos têm sido tradicionalmente utilizadas
para a caracterização de associações bênticas,
pelo fato de serem dominantes ou constantes
ao longo do espaço e do tempo. No entanto,
são poucos os trabalhos que procuram caracterizar as associações malacológicas das plataformas continentais de regiões tropicais e
subtropicais. Gastrópodes e bivalves chegam
a compreender de sete a 38% dos organismos
de tais comunidades bênticas (LONGHURST;
PAULY, 1987).
Para Absalão (1989), comunidades bênticas de invertebrados da plataforma continental têm sido amplamente estudadas de
forma descritiva. Segundo esse autor, poucos
estudos têm atentado para construir modelos
viáveis para associações de espécies com variáveis ambientais, principalmente ao longo
da costa tropical e subtropical e na plataforma
continental brasileira.
Nesse contexto, o presente estudo procurou, através do levantamento sistemático
de moluscos bivalves e gastrópodes, investigar o delineamento de “associações” de espécies através dos padrões de co-ocorrência
entre moluscos e verificar a ocorrência relativa
da relação animal/sedimento a partir das associações de espécies e o compartimento abiótico, num contexto espacial.
Material e métodos
A área estudada compreende um trecho
da costa leste do Brasil, entre as latitudes 10º
S e 20º S, abrangendo o Estado da Bahia e do
Espírito Santo (FIG. 1; ANEXO 2). A profundida-
12
de variou de 9m (estação 18) a 48m (estação
10) em área da plataforma continental. Foram feitas referências às estações 4 (989m) e
9 (1180m), para fins comparativos, em área do
talude continental (ANEXO 1).
FIGURA 1 - Localização geográfica da área estudada, com as 12 estações oceanográficas.
O material biológico e sedimentológico
foi coletado durante a operação Jops II (Joint
oceanografic projects II), compreendendo a
segunda expedição científica multidisciplinar
com o navio de pesquisa RV Victor Hensen em
águas brasileiras.
Para a obtenção do material bentônico,
foi utilizado um pegador de sedimento box
grab, com área amostral de 0,25m2, retirandose uma sub-amostra de 6,25dm3. O material
assim obtido foi conservado em formol a 10%
e transportado para o laboratório.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
No laboratório 30% dessa amostra foi
retirada, aleatoriamente, e lavada com água
através de duas peneiras de 1,0 e 0,5mm. O
material biológico retido nessas peneiras foi
triado manualmente, sob microscópio estereoscópio e os moluscos separados para identificação. O material estudado foi comparado
com exemplares da coleção do Espaço da
Ciência da Universidade Estadual do Norte
Fluminense, Uenf, que apresenta 90% de suas
conchas identificadas por Eliézer de Carvalho
Rios, do Museu Oceanográfico da Universidade do Rio Grande, Mofurg. Após identificação,
o material foi depositado no Espaço da Ciência da Uenf.
O material sedimentar foi diferenciado e
classificado em argila, silte e areia, segundo a
tabela do MIT, tradicionalmente utilizada em
estudos de sedimentos. Para representação
diagramática dos sedimentos, utilizou-se o Triângulo de Shepard (SHEPARD, 1954) (FIG. 2). O
percentual de carbono orgânico no sedimento foi obtido pelo CHNS/O Analyzer (PERKIN;
ELMER, 2004).
Dados de temperatura, salinidade e profundidade foram obtidos através do CTD e o
percentual de saturação de oxigênio, determinado por um oxímetro.
Para delinear as associações malacológicas, os dados obtidos sobre as espécies nas
diferentes estações foram incluídos em uma
análise de agrupamento (modo Q) pelo método das médias não ponderadas (Upgma), com
índice binário de Dice, escolhido após testes
Argila
100%
Argila
AAr
AS
ASAr
9
10
ArA
6
16
SA
18
ArSA
SAAr
12
24
15
27
23
20
11
14
ArS
Areia
Areia
100%
Sar
Silte
Silte
100%
FIGURA 2 – Diagrama triangular mostrando a posição das estações conforme a classificação do sedimento. ArS - areia-síltica; ArA - Areia-argilosa; ArSA - areno-síltico-argiloso; SAAr - silte-argilo-arenoso;
ASAr - argilo-síltico-arenoso; SAr - silte-arenoso; AS - argila-síltica e AAr - argila arenosa.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
13
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
14
50
40
30
20
espécies
A. notabilis
C. cubaniana
N. acuta
0
C. lununata
10
C. centralis
Com base na percentagem granulométrica dos sedimentos, verificou-se a existência
de três tipos sedimentológicos principais, representados no diagrama da FIG. 2. Reconheceu-se um tipo (tipo I) com predomínio de
areia, em que se caracterizou na estação 11
um sedimento mais arenoso (Ar), nas estações
20, 15, 23 e 27 um sedimento de areia-argilosa
(ArA) e na estação 14 um sedimento de areia
síltica (ArS); outro tipo (tipo II) com percentuais similares das três frações, areno-silticoargiloso (ArSA) na estação 10, silte-argilo-arenoso (SAAr) na estação 6, 16 e 18. O terceiro
tipo (tipo III), formado pelas estações 12 e 24,
constituídas de silte com pequena contribuição de argila (SA).
Dados de temperatura, salinidade, percentagem de saturação de oxigênio da água
próxima ao fundo não apresentaram nenhum
padrão. Quanto às estações, destacaram-se a
número 27, situada em Barra do Riacho (Espírito Santo) e a 10, situada em Canavieiras
(Bahia), tendo a primeira os menores valores
de temperatura, salinidade e percentual de
saturação de oxigênio (19,4º C, 35,9 e 95,8%,
respectivamente), enquanto na estação 10
foram registrados os maiores valores de salinidade e percentual de saturação de oxigênio
(37 e 104,3%, respectivamente). A estação
24 apresentou o maior valor de temperatura
(28oC) (ANEXO 1).
N. pussilla
Resultados
O carbono orgânico no sedimento
apresentou uma tendência a valores mais
baixos nas estações com maior teor de areia
(ANEXO 1).
Foram registradas 170 espécies de moluscos (ANEXO 3), entre as quais 105 gastrópodes e 65 bivalves. As espécies Natica pusilla, Calyptraea centralis, Crassinella lunulata,
Nuculana acuta, Corbula cubaniana e Anadara
notabilis foram as que apresentaram maior
porcentagem relativa, aparecendo em seis
estações, correspondendo a cerca de 30% do
total de indivíduos coletados (FIG. 3).
% O. R.
realizados a priori. Para as análises utilizou-se
o “pacote estatístico” Fitopac.
Uma análise discriminante simples (ADS)
(LUDWIG; REYNOLDS, 1988) foi aplicada nas
estações agrupadas, a fim de se confirmar as
formações dos agrupamentos e a contribuição dos parâmetros abióticos.
Duas estações do agrupamento 3 não
foram incluídas, devido à falta de dados abióticos.
FIGURA 3 – Percentagem de ocorrência relativa
(O.R.) das espécies mais abundantes presentes
nas estações de coleta.
Associações malacológicas
As análises das associações moluscos
versus estações foram realizadas para dois
conjuntos de dados. Inicialmente, testou-se o
conjunto de dados com todas as espécies de
moluscos e depois foram retiradas as espécies
representadas por um único indivíduo. As estações (#4 e #9) próximas ao talude continental, não representadas na FIG. 1, foram incluídas somente na análise de agrupamento, por
apresentarem espécies exclusivas, utilizadas
como controle.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
Os resultados das análises de agrupamentos sobre dois conjuntos de dados testados são mostrados na FIG. 4. O dendrograma
A foi produzido com base em todos os 170 tá-
A
xons e o dendrograma B com base nos moluscos. Foram retiradas as espécies representadas por um único indivíduo, totalizando uma
amostragem com 102 espécies.
Média de grupo (UPGMA)
0.1
Dice/Sorensen/Czekanowski
0.2
0.3
0.4
0.5
0.6
0.7
0.8
0.9
1.0
14
B
24
15
20
11
06
27
16
12
18
23
10
04
09
16
27
12
18
23
10
04
09
Média de grupo (UPGMA)
0.1
Dice/Sorensen/Czekanowski
0.2
0.3
0.4
0.5
0.6
0.7
0.8
0.9
1.0
14
24
15
06
20
11
Figura 4 – Dendrogramas baseados na similaridade entre as estações de coleta. Foi utilizado o índice
de similaridade de Dice. (A: todos os moluscos coletados; B: moluscos com mais de um indivíduo por
estação).
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
15
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
Nos dois conjuntos testados evidenciou-se a existência de três agrupamentos,
apresentando 10% de similaridade, só modificando o arranjo de algumas estações nos
agrupamentos. O baixo índice de similaridade adotado para o corte provavelmente reflete a elevada diversidade e a baixa freqüência da maioria das espécies.
O agrupamento I reuniu as estações 14,
24, 15, 6, 20, 11, 16 e 27, cuja profundidade
variava em torno de 12-29 m. Foram comuns
e abundantes as espécies Calyptraea centralis, Crassinela lunulata, Natica pusilla, Nuculana acuta, Pitar albidus, Acteon pelecais e Acteocina bullata. Esse agrupamento apresentou
um predomínio do tipo sedimentológico I,
com maior percentagem de areia (FIG. 2).
O agrupamento II, formado pelas estações 12, 18 e 23, reuniu as estações mais rasas, com profundidade variando de 9 a 12m.
Esse agrupamento, com alta variabilidade
sedimentológica, apresentou os três tipos
(FIG. 2). Nesse agrupamento ocorreram as
espécies comuns Anadara notabilis, Anadara
ovalis, Corbula patagonica, Corbula cubaniana, Diplodonta nucleiformes e Macoma uruguaensis.
O terceiro agrupamento foi caracterizado pelas estações de maior profundidade,
a estação 4, com cerca de 989m e a estação
9, com 1180m de profundidade, ambas com
tipo sedimentológico III, em que predominavam silte e argila (FIG. 2). Ocorreram exclusivamente nesse agrupamento as espécies
Benthonela gaza, Cavolinia uncinata, Calliostoma coppingeri, Clatrodrillia lophoessa, Cryoturris serga, Diacria quadridentata e Tindaria
af. cytherea.
A estação 10, caracterizada pela freqüência mais elevada de Chione subrostrata,
Granula lavalleana e Limopsis antillensis, não
se agrupou às demais no nível de similaridade escolhido.
Relação entre moluscos e fatores
ambientais
A interpretação dos fatores ambientais,
utilizando-se análise discriminante simples
(ADS), baseou-se em dois conjuntos de dados. O primeiro composto por todos os dados
abióticos disponíveis, ou seja, profundidade,
temperatura, salinidade, carbono orgânico do
sedimento, oxigênio e percentagem de argila,
silte, areia; no segundo utilizaram-se todos os
dados já citados, desconsiderando-se os tipos
sedimentológicos (argila, silte e areia), para,
com isso, avaliar a importância desses conjun-
TABELA 1
Resultados da análise discriminante simples (ADS) na interpretação de diferenças entre dois
agrupamentos de estações da plataforma continental leste, usando oito fatores ambientais:
profundidade (X1), temperatura (X2), salinidade (X3), percentual de carbono orgânico (X4), percentual de saturação de oxigênio (X5), percentual de argila (X6), silte (X7) e areia (X8).
Fator
Coeficiente discriminante
% Contribuição relativa
X1
0,3149
0,384
X2
0,4334
0,028
X3
-2,8548
2,049
X4
0,4527
0,962
X5
-0,0123
0,044
X6
-12,0291
9,853
X7
-12,1990
55,674
X8
-12,0633
-67,994
Distância de Mahalanobis = 0,064 x 103; F=44,8; DF=2,7; nível de significância=0,0001% de acerto=100%; grupo
centróide: I=-12,969 x 103; II=-13,033 x 103.
16
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
tos separadamente. Devido à falta de dados
abióticos nas duas estações do agrupamento
3, utilizaram-se apenas os dois primeiros agrupamentos nos dois dendrogramas (FIG. 4).
O primeiro conjunto de dados foi praticamente 100% eficiente em diferenciar o ambiente abiótico das duas associações malacológicas, sendo menor que 1% a probabilidade
de que os dois agrupamentos sejam iguais
(TAB. I). Os dados padronizados da função discriminante simples destacaram o silte como a
maior contribuição positiva (55,6%) e a areia
como contribuição negativa (-67,9%). As coordenadas para cada estação ao longo do eixo
discriminante ilustram bem a separação dos
dois grupos (FIG. 5).
27
16
18
12
-13,10
-13,05
27
18
12
-4,3
-4,25
6
11
15
24
20
14
II
I
16
-4,15
-4,10
D2 x 102
FIGURA 6 – Eixo discriminante entre os agrupamentos 1 e 2, retirando as variáveis sedimentológicas. A distância D2 entre os grupos centróides é apresentada.
6
11 15
Discussão
20 24 14
II
os resultados (p=0,25), apresentando uma
eficiência de acerto de 75% no desmembramento dos agrupamentos (FIG. 6). Os dados
obtidos reforçam a importância das variáveis
sedimentológicas na diferenciação das associações malacológicas.
I
-12,95
-12,90
D2 x 103
FIGURA 5 – Eixo discriminante entre os agrupamentos 1 e 2 em relação a todas as variáveis
analisadas. A distância D2 entre os grupos centróides também é apresentada.
O resultado da ADS, da qual foram excluídas as variáveis sedimentológicas, está
sumarizado na TAB. 2, onde é verificada a perda de qualquer significância estatística para
Um levantamento da malacofauna da
plataforma continental leste do Brasil foi realizado em 1994-1995, durante o cruzeiro oceanográfico a bordo do navio Victor Hensen,
entre as paralelas 15º e 20ºS, em 14 estações
oceanográficas. Foram amostradas 170 espécies de moluscos, dentre elas 105 gastrópodes e 65 bivalves. Neste estudo foi descartada
a hipótese de influências nas amostragens
por moluscos mortos devido à remobilização,
embora diversos pesquisadores questionem a
validade de se considerar dados de ocorrência
TABELA 2
Resultados da análise discriminante simples (ADS) na interpretação de diferenças entre dois agrupamentos de estações da plataforma continental leste, usando cinco fatores ambientais: profundidade
(X1), temperatura (X2), salinidade (X3), percentual de carbono orgânico (X4) e percentual de saturação
de oxigênio (X5).
Fator
Coeficiente discriminante
% Contribuição relativa
X1
0,216
34,6
X2
1,881
- 60,9
X3
-12,634
12,4
X4
-11,344
108,4
X5
-0,016
5,6
Distância de Mahalanobis = 0,03819 x 102 ; F =2,6733; DF=2,7.
Nível de significância=0,25% de acerto=75 %; grupo centróide: I=-4,171; II=-4,209.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
17
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
de moluscos coletados mortos, uma vez que
estes poderiam facilmente ser remobilizados
pelas correntes marinhas, alterando assim
seus padrões de distribuição original. Absalão
et al. (1997), em seu estudo de associações
malacológicas na Área de Proteção Ambiental
do Arquipélago de Santana, contestam esse
fato, ao comparar análises de agrupamentos
de moluscos grandes coletados vivos, com
moluscos menores de 10mm, em sua maioria
coletados mortos, obtendo resultados muito
similares. A suposta remobilização de animais
após a morte, embora plausível enquanto hipótese, não foi sustentada pelas evidências.
Uma segunda questão levantada é a necessidade de eliminação das análises de todos os
táxons que contenham apenas um indivíduo
(FIG. 4B). No presente estudo, no entanto, os
resultados dos testes comparativos de agrupamento das estações com todos os moluscos não revelaram quaisquer diferenças em
relação aos obtidos excluindo-se as espécies
com um único indivíduo (FIG. 4A).
A análise discriminante otimiza a proporção de variação entre os grupos em relação à
variação nos grupos. Logo, a escolha inicial dos
grupos é crítica na decisão de se encontrar diferenças significativas entre eles. Conseqüentemente, a análise pode ser vista como um
teste de validação para as associações obtidas
a partir da análise de agrupamento das ocorrências dos moluscos (ABSALÃO et al., 1999).
Os resultados obtidos da análise discriminante simples confirmaram a análise de
classificação proposta, demonstrando uma
relação das associações malacológicas com as
características sedimentológicas particulares.
As frações de silte e areia apareceram como
separadoras das diferentes estações, visto que
em sua maioria ocorreu uma elevada percentagem dessas frações. O resultado negativo
pode indicar a inclusão de uma variável discriminante fraca, o que pode diminuir a força da
análise (LUDWING; REYNOLDS, 1988). Porém,
18
nesse caso, o valor negativo tão alto refletiu a
grande contribuição do componente areia na
separação das estações.
A análise de agrupamento mostrou certa correspondência com a profundidade, que
tem uma grande relação com o tipo de sedimento presente no local.
Gonçalves e Lana (1991) comentam que
a distribuição das associações de moluscos ao
longo do gradiente batimétrico é um aparente
reflexo do gradiente hidrodinâmico perpendicular à plataforma continental. Os níveis de
energia, definidos pela maior ou menor movimentação da água e sedimento, são, em última análise, os responsáveis pela estruturação
dos fundos regionais. Dessa forma, os elevados níveis de energia prevalecentes no setor
raso da plataforma condicionam as ocorrências de fundos arenosos bem selecionados,
continuamente retrabalhados e pobres em
finos e matéria orgânica particulada. O material fino é transportado em suspensão para as
maiores profundidades, fato evidenciado pelo
maior teor de silte e argila nas estações mais
profundas analisadas neste estudo.
Absalão (1991) apontou a profundidade com uma das mais importantes variáveis
controladoras da estrutura das associações
malacológicas. A profundidade pode ser considerada como uma variável controladora da
estabilidade/perturbação do sedimento, desde que, quanto mais rasas as estações, mais
facilmente seu sedimento seria afetado pelo
efeito do arrasto causado pelas ondas. Localidades mais profundas tendem a ser mais
estáveis e propícias à deposição de matéria
orgânica e sedimentos mais finos, como silte
e argila.
Thorson (1957), Gray (1974) e Péres
(1982) têm mostrado a existência de uma forte ligação entre os organismos bênticos e o
sedimento onde habitam.
Associações estruturadas por distintas
estratégias de alimentação e mobilidade não
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
se distribuem aleatoriamente nos fundos marinhos, mas são condicionadas e estruturadas
por fatores e processos sedimentológicos. A
estreita relação entre a natureza do fundo e a
estrutura trófica de associações macrobênticas foi anteriormente demonstrada por Lana
(1986) e Absalão (1986) em áreas estuarinas
da plataforma.
Para Sanders (1958), a riqueza e a abundância de espécies estão relacionadas com o
teor de silte e argila contidos no sedimento.
Algumas espécies dominantes são completamente ou largamente limitadas a sedimentos com pequena quantidade de silte e
argila, outras estão largamente confinadas
em solos com grande quantidade de silte e
argila, enquanto outros animais estão amplamente distribuídos. Os organismos que obtêm seu alimento da matéria em suspensão
(filtradores) são a maioria da fauna de sedimentos arenosos, enquanto os animais detritívoros vivem de matéria orgânica do fundo
e dominam a fauna de sedimentos finos. O
sedimento de areia reflete a mais pronunciada atividade de corrente, inversamente
à lama, que reflete as correntes mais fracas,
permitindo que a matéria orgânica se assente e assim provendo um curso adequado de
nutrição para os detritívoros.
As variáveis sugeridas como relevantes,
dada sua constância em diferentes estudos,
têm uma dimensão ecologicamente significativa na determinação da estrutura das comunidades malacológicas. Dessa forma, e com
base nesses fundamentos, utilizaram-se as variáveis profundidade, temperatura, salinidade
e tipos sedimentológicos nas determinações
das relações malacológicas e seus fatores ambientais.
São escassas as evidências de dados sobre alimentação e mobilidade da maioria das
espécies de bivalves e gastrópodes coletadas
neste estudo. No entanto, é possível fazer algumas considerações sobre o assunto, com
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
base em informações sobre regimes alimentares fornecidas por Gonçalves e Lana (1991) e
Absalão (1991).
A baixa heterogeneidade dos sedimentos, pela inclusão de silte em quase todas as
estações, impediu que fosse notificada a presença de associações nítidas entre as espécies. Lana (1986) descreve associações como
Olivella-Tellina-Cadulus, referindo-se a associações de areias finas bem selecionadas, mas
também mostra a ocorrência ocasional de
espécies típicas de setores mais profundos,
localizados em sedimentos mais finos, como a
associação Nucula-Corbula-Dentalium.
Em nosso estudo, no agrupamento I (estações 14, 24, 15, 6, 20, 11, 16 e 27), mesmo
com a presença de silte em quase todas as estações, observaram-se o predomínio de fundo
mais arenoso e a presença de animais filtradores, como Pitar albidus e Crassinella lunulata.
Porém, constatou-se também nesse agrupamento a presença de detritívoros como Nucula puelcha e Nucula semiornata, o que revela a
influência de sedimento lodoso.
A baixa heterogeneidade dos sedimentos pode estar relacionada à proximidade das
estações de coleta com desembocadura de
rios, proporcionando o aporte de sedimento
terrígeno para o mar.
19
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
Referências
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Biologia, v. 46, p. 27-31, 1986.
ABSALÃO, R. S. Padrões distributivos e zoogeografia dos moluscos da plataforma continental brasileira.
Parte III. Comissão Oceanográfica Espírito Santo I. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 84, Supl. 4, p.
1-6, 1989.
ABSALÃO, R. S. Environmental discrimination among soft-bottom mollusc associations off Lagoa dos
Patos, South Brazil. Estuarine, Coastal and Shelf Science, v. 32, p. 71-86, 1991.
ABSALÃO, R. S. et al. Associações malacológicas dos substratos inconsolidados na Área de Proteção
Ambiental do arquipélago de Santana, Macaé, Rio de Janeiro. Oecologia Brasiliensis, Rio de Janeiro, v. 7,
p. 273-289, 1999.
GOMES, A. S. Distribuição espacial de moluscos bivalves na região da plataforma continental do Cabo
Frio, Praia de Maçambaba, RJ, Brasil. 1989. 122 p. Dissertação (Mestrado em Zoologia) – Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Rio de Janeiro.
GONÇALVES, E. M.; LANA, P. C. Padrões de distribuição de Bivalvia e Gastropoda na plataforma continental
da costa sudeste do Brasil (24ºS - 27ºS). Nerítica, v. 6, n. 1-2, p. 73-92, 1991.
GRAY, J. S. Animal-sediment relationships. Oceanography and Marine Biology: An Annual Review, v. 12,
p. 223-261, 1974.
LANA, P. C. Macrofauna bêntica de fundos sublitorais não consolidados da Baía de Paranaguá (Paraná).
Nerítica, v. 1, n. 3, p. 79-89, 1986.
LONGHURST, A. R.; PAULY, D. Ecology of tropical oceans. London: Academic Press, 1987.
LUDWIG, J. A.; REYNOLDS, J. F. Statistical ecology: primer on methods and computing. New York: Wiley J.,
1988.
PERES, J. M. Benthic assemblages. Marine Ecology, New York, v. 5, p. 373-522, 1982.
RIOS, E. C. Seashell of Brazil. 2. ed.. Rio Grande: Editora da Furg, 1994.
SANDERS, H. L. Benthic studies in Buzzards Bay. I. Animal-sediment relationship. Limnology and
Oceanography, v. 3, n. 3, p. 245-258, 1958.
SHEPARD, F. P. Introdução à sedimentologia. São Paulo: Edgard Blucher, 1954.
THORSON, G. Bottom communities. In: HEDGPETH, J. W. Treatise on Marine Ecology and Paleoecology.
New York: Geological Society of America, v. 1, cap. 17, p. 461-534, 1957.
ANEXO 1
Dados abióticos das estações de coleta, obtidos durante a operação Jops II,
pelo navio oceanográfico Victor Hensen.
Profundidade
(m)
20
Temperatura
(ºC)
Salinidade
(ppm)
% OC
% Sat. O2
#6
12
25,6
36,8
0,3
102,2
# 10
48
25,4
37
0,95
104,3
# 11
18
22,9
36,7
-*
97,7
# 12
12
25,1
36,6
0,76
97,3
# 14
29
23,5
36,7
0,11
95,8
# 15
12
24,6
36,8
-*
-*
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
Profundidade
(m)
Temperatura
(ºC)
Salinidade
(ppm)
% OC
% Sat. O2
# 16
24
25,7
36,6
0,31
101,1
# 18
9
26,4
36,5
0,69
103,1
# 20
10
26,4
36,3
0,85
103,7
# 23
10
-*
-*
-*
-*
# 24
12
28,0
36,3
1,24
100,7
# 27
16
19,4
35,9
0,07
95,8
M
17,6
24,8
36,5
0,58
100,1
DP
11,6
2,27
0,3
0,4
3,2
Min.
9
19,4
35,9
0,07
95,8
Máx
29
28
37
1,24
M - média, DP- desvio-padrão, Min. - minimo, Máx.- máximo * Dados não computados.
104,3
ANEXO 2
Coordenadas das estações de coleta realizadas pelo navio oceanográfico Victor Hensen.
ESTAÇÃO
LATITUDE
LONGITUDE
LOCAL
#4
#6
#9
# 10
# 11
# 12
# 14
# 15
# 16
# 18
# 20
$ 23
# 24
# 27
10 45’ 42” S
15O 13’ 42”S
15O 20’ 24”S
15O 28’ 15’’ S
15O 37’ 36” S
16O 16’ 42” S
16O 18’ 12” S
16O 27’ 42” S
17O 37’ 24” S
17O 56’ 00” S
17O 56’ 36” S
18O 37’ 30” S
18O 57’ 54” S
19O 51’ 24” S
36 15’ 12”W
38o 58’ 24”W
38O 35’ 42”W
38O 41’ 30”W
38O 40’ 00”W
38O 59’ 06”W
38O 57’ 24”W
39O 02’ 12”W
38O 50’ 30”W
39O 01’ 42”W
39O 18’ 00”W
39O 42’ 30”W
39O 42’ 42”W
40O 02’ 42”W
Rio São Francisco
Barra do Uma/Bahia
Belmonte/Bahia
Canavieiras/Bahia
Canavieiras/Bahia
Cabrália/Bahia
Cabrália/Bahia
Porto Seguro/Bahia
Caravelas/Bahia
Caravelas/Bahia
Caravelas/Bahia
Barra Seca/E. Santo
Espírito Santo
Barra do Riacho/E. Santo
O
o
ANEXO 3
Lista das espécies coletadas durante a operação Jops II, pelo navio oceanográfico Victor Hensen.
Arcidae
Arca imbricata
Arca zebra
Barbatia domingensis
Barbatia cancellaria
Arcopsis adamsi
Anadara notabilis
Barbatia candida
Calyptraea centralis
Crepidula aculeata
Cardiidae
Laevicardium laevigatum
Bivalvia
Carditidae
Cardita floridana
Chamidae
Chama congregata
Chama macerophyla
Corbulidae
Corbula cymella
Corbula dietziana
Corbula cymella
Corbula patagonia
Crassatellidae
Crassinella lunulata
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Crassinela martinicensis
Vitrinellidae
Vitrinella filifera
Pectinidae
Chlamys sentis
Chlamys tehuelchus
Chlamis beneticti
Chlamis muscosus
Chlamys ornatus
P. portalesianum
Semelidae
Abra aequalis
21
Gomes, M. A.; Novelli, R. Zalmon, I. R.; Souza, C. M.
Semele nuculoide
Spondylidae
Basterotia quadrata
Tellinidae
Macoma uruguayensis
Cuspidariidae
Limidae
Lima pellucida
Limopsidae
Limopsis antillensi
Mactridae
Mactra petiti
Mytilidae
Crenella divaricata
Noetidae
Arcopsis adamsi
Nuculanidae
Nuculana acuta
Aclididae
Acmaeidae
Colisella abrolhosensis
Acteonidae
Acteon pelecais
Amathinidae
Iselica anomola
Assimineidae
Assiminea succinea
Buccinidae
Prosipho tuberculatus
Calyptraeidae
Calyptraea centralis
Crepidula aculeata
Cavolinidae
Cavolinia gibbosa
Cavolinia uncinata
Diacra trispinosa
Cerithiopsidae
Cerithiopsis emersoni
Cerithiopsis subulatum
Aesopus stearnsi
Anachis catenata
Anachis helenae
Anachis isabellei
Anachis obesa
Mitrella lunata
Conidae
Conus jaspideus
Costellariidae
Vexilum hedersoni
Vexillum lixa
Retusidae
Volvullela paupercula
Pyrunculus caelatus
Volvullela persimilis
Volvullela texasiana
Turritellidae
Gastropoda
Turritella exoleta
Cycichinidae
Acteocina bullata
Acteocina candi
Cylichina verrillii
Cylichna crispula
Triphoriidae
Triphora decorata
Triphora nigrocincta
Triphora pulchella
Triphora turris thomae
Dentimargo lasallei
Prunum bahiensis
Volvarina avena
Volvarina serrei
Muricidae
Attiliosa striatoides
Chicoreus senegalensis
Dermomurex abyssicola
Muricopsis oxossi
Murixiela glibyla
Nassariidae
Buccinanops lamarckii
Nassarius albus
Natica pusilla
Neritidae
Smaragdia veridis
Olividae
Jaspidella jaspidea
Olivella natermani
Olivella olssoni
Pyramidellidae
Odostomia canaliculata
Ododtomia virginae
Pyramidella crenulata
Diastomidae
Finella dubia
Epitoniidae
22
Nuculidae
Nucula puelcha
Nucula semiornata
Ostreidae
Crassostrea rizophora
Ostrea puelchana
Glycymerididae
Glycymeris decussata
Glyssimeris undata
Epitonium candeanum
Epitonium magellanium
Eulimidae
Eulima bifasciata
Eulima mulata
Fissurellidae
Diodora arcuata
Diodora cayenensis
Diodora say
Lucapina aegis
Lucapinella henseli
Lucapinella limatula
Hamineidae
Haminoea petitii
Lamellariidae
Marginellidae
Triphoriidae
Triphora decorata
Triphora nigrocincta
Triphora pulchella
Triphora turris thomae
Dentimargo lasallei
Prunum bahiensis
Volarina avena
Volvarina serrei
Muricidae
Attiliosa striatoides
Chicoreus sewnegalensis
Dermomurex abyssicola
Muricopsis oxossi
Murixiela glibyla
Nassariidae
Buccinanops lamarckii
Nassarius albus
Turbonilla interrupta
Turbonilla nivea
Turbonilla pusilla
Rissoidae
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
Associações malacológicas em sedimentos ao largo da costa leste do Brasil,
latitudes 10º e 20º S, entre os Estados da Bahia e Espírito Santo
Bentonella gaza
Rissoina bryerea
Skeneidae
Parviturbo rehderi
Calliostoma coppingeri
Throchidae
Tricoliidae
Gabrielona sulcifera
Tricolia bella
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 11-24, dez. 2005
23
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal
das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
Bryophytes of Passatempo Islands, Municipal Park of
Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
ANDREIA TONINI
Bolsista FIP/ PUC Minas
MARIA DE FÁTIMA VIEIRA STARLING
Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas
OLGA YANO
Instituto de Botânica da USP
JOSÉ DE ARIMATÉA FIGUEIREDO
Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas
Resumo
Foram identificadas 46 espécies de briófitas nas Ilhas do Passatempo, do Parque Municipal das
Mangabeiras, das quais 38 pertencem à divisão Bryophyta (distribuídas em 16 famílias: Fissidentaceae,
Bryaceae, Pottiaceae, Sematophyllaceae, Macromitriaceae, Hypnaceae, Leucobryaceae, Bartramiaceae,
Brachytheciaceae, Calymperaceae, Dicranaceae, Entodontaceae, Fabroniaceae, Racopilaceae,
Stereophyllaceae e Thuidiaceae) e oito pertencem à divisão Marchantiophyta (distribuídas em quatro
famílias: Lejeuneaceae, Plagiochilaceae, Frullaniaceae e Metzgeriaceae). Entre elas, dez espécies
são citadas pela primeira vez para Minas Gerais. Sematophyllum caespitosum (Brid.) Brid. e Lejeunea
laetevirens Nees e Mont foram as espécies com maior ocorrência nas ilhas estudadas. O substrato
de maior incidência de briófitas foi o corticícola. Elas foram encontradas servindo de substrato para
germinação de sementes de outras plantas e como abrigo para pequenos animais.
Palavras-chave: Diversidade; Brioflora; Ilhas do Passatempo; Minas Gerais.
Abstract
We identified 46 bryophytes species in the Passatempo Islands, located in the Municipal Park of
Mangabeiras, of which 38 belong to Bryophyta division (distributed in 16 families: Fissidentaceae,
Bryaceae, Pottiaceae, Sematophyllaceae, Macromitriaceae, Hypnaceae, Leucobryaceae, Bartramiaceae,
Brachytheciaceae, Calymperaceae, Dicranaceae, Entodontaceae, Fabroniaceae, Racopilaceae,
Stereophyllaceae and Thuidiaceae) and 8 belong to Marchantiophyta (distributed in 4 families:
Lejeuneaceae, Plagiochilaceae, Frullaniaceae and Metzgeriaceae). Ten species were mentioned for the
first time for Minas Gerais. Sematophyllum caespitosum (Brid.) Brid. and Lejeunea laetevirens Nees and
Mont were the species of widest occurrence. The substratum of highest bryophytes incidence was
corticicolous. They were found serving as substratum for germination of other plant seeds and as small
animals’ shelter.
Key words: Diversity; Mosses; Liverworts; Passatempo Islands; Minas Gerais.
Bios, Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
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Tonini, A,; Starling, M. F. V.; Yano, O.; Figueiredo, J. A.
A
s briófitas contribuem significativamente para a diversidade vegetal e são
também importantes pelas grandes
quantidades de carbono que armazenam, desempenhando um papel importante no ciclo
global do carbono. Ao lado dos líquens, são
importantes colonizadoras iniciais de rochas
e superfícies nuas (RAVEN et al., 2001), modificando o substrato e oferecendo condições
para que outras plantas o colonizem, formando o berço ideal para a germinação de sementes de outros vegetais. Servem, ainda, como
refúgio para pequenos animais (GRADSTEIN
et al., 2001).
De acordo com Yano (2000), do total de
24 mil espécies de briófitas conhecidas no
mundo, 3.125 táxons são citados para o Brasil, e, para o Estado de Minas Gerais, foram
encontrados 883 táxons (quatro espécies de
Anthocerotophyta, 262 espécies de Marchantiophyta e 617 espécies de Bryophyta). Ainda
segundo a autora, dez espécies foram consideradas ameaçadas de extinção.
A importância de se conhecer a brioflora de um determinado local reside no fato de
que ela é essencial para o estabelecimento de
alguns tipos de animais e vegetais (GRADSTEIN et al., 2001).
A incapacidade de se distinguir uma espécie da outra, seja devido às características
semelhantes ou à confusão sobre o nome
científico correto, freqüentemente atrasa os
esforços de preservação das espécies. Tratase de um problema ainda mais sério em áreas
de alta diversidade, como o nosso país. Dado
que a ação do homem tem levado muitas espécies à extinção, o melhor meio de proteger
a diversidade biológica, além de conhecê-las,
é a preservação de seus habitats (PRIMACK;
RODRIGUES, 2001).
Em Minas Gerais, o estudo de briófitas
ainda é muito restrito. Os primeiros trabalhos
realizados no Estado foram os de Nees (1833),
Hornschuch (1840), Ångstron (1876) e Mueller
26
(1898). Posteriormente, outras publicações
fizeram referências às espécies já descritas
ou citaram novas ocorrências para o Estado,
destacando-se Yano (1981; 1987; 1995), Smith-Merril (1991), Crum (1992), Yano e Carvalho
(1995) e Costa (1999).
Um dos poucos remanescentes de
mata da região metropolitana de Belo Horizonte encontra-se no Parque Municipal das
Mangabeiras, localizado a apenas 3km do
centro de Belo Horizonte e um dos maiores
parques urbanos do país. Sua infra-estrutura
está voltada para o lazer, o que facilita e favorece a visitação constante de pessoas, podendo acarretar alterações na vegetação original
do local (BELO HORIZONTE, 1996).
O presente trabalho teve como objetivos realizar o levantamento das briófitas do
Parque Municipal das Mangabeiras, a fim de
contribuir para o conhecimento da brioflora
de Minas Gerais, fornecer subsídios para estudos futuros de taxonomia e ecologia, bem
como enriquecer a coleção de briófitas do
herbário da PUC Minas/Coração Eucarístico.
Material e métodos
Área estudada - O Parque Municipal das
Mangabeiras está localizado nas encostas da
Serra do Curral. Apresenta uma área de 337 ha
de vegetação cortada por cursos d’água, em
altitudes que variam de 1.000 a 1.400m, com
predominância de cerrado. Situa-se na bacia
hidrográfica do Córrego da Serra, afluente do
Ribeirão Arrudas. Em função do relevo da área
e dos diferentes tipos de solo, o parque apresenta uma cobertura vegetal heterogênea,
formando uma rica variedade de ambientes,
com formas que variam de floresta estacional
semidecídua, cerrado e até mesmo campos
de altitude (BELO HORIZONTE, 1996).
O clima da região é classificado como
tropical e o regime pluviométrico possui média anual de 1.515mm. O período mais quente do ano (outubro a março) é o que recebe
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
maiores quantidades de chuva, colaborando
com cerca de 89% da média anual. É no período marcado pela escassez de chuva (abril a
setembro) e durante o trimestre julho-agostosetembro que ocorrem as maiores ameaças
de incêndio. Além disso, a velocidade média
anual dos ventos aumenta a partir do inverno,
atingindo o máximo na primavera, o que facilita a propagação de focos de incêndio (BELO
HORIZONTE, 1996).
Coleta e identificação - a coleta do material briofítico foi realizada nas dez pequenas
“Ilhas do Passatempo”, denominadas: Ilha Sabiá, Ilha Quaresmeira, Ilha Mística, Ilha Mico
Estrela, Ilha Jacarandá, Ilha Esquilo, Ilha Ticotico, Ilha Vinhático, Ilha Sibipiruna e Ilha Pauferro.
Foram realizadas cerca de 20 excursões
para coleta e/ou observação do material briofítico entre fevereiro e dezembro de 2003, resultando num total de 71 coletas.
A área foi escolhida de acordo com a
maior riqueza aparente de briófitas, a presença constante do homem e de animais, o desenvolvimento de trabalhos socioeducativos
locais (indicando acúmulo de pessoas) e a insolação.
As amostras de briófitas foram coletadas
arbitrariamente, sendo observado e anotado
o tipo de substrato em que foram encontradas. As metodologias de coleta, herborização
e preservação do material briofítico seguiram
as regras básicas indicadas por Yano (1984). O
sistema de classificação adotado foi baseado
em Buck e Goffinet (2000), para a divisão Bryophyta, e em Crandall-Stotler e Stlotler (2000)
para a divisão Marchantiophyta.
O material briofítico foi identificado com
base nos trabalhos de Bartram (1949), Gradstein (1994), Gradstein et al. (2001), Griffin
III (1979), Hirai et al. (1998), Oliveira e Silva e
Yano (2000a; 2000b; 2000c), Reiner-Drehwald
(2000), Sharp et al. (1994), Yano e Ribas (1998),
Yano (1995; 2000). Quando necessário, o ma-
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
terial foi enviado para especialistas do Instituto de Botânica de São Paulo, a fim de se
completar e/ou se confirmar a identificação,
incluindo espécie.
Os exemplares coletados estão depositados no herbário didático da PUC Minas/Coração Eucarístico.
Resultados e discussão
Composição florística - No levantamento da brioflora do Parque Municipal das Mangabeiras foram encontradas, na área selecionada, 46 espécies de briófitas, distribuídas em
20 famílias e 31 gêneros, das quais 38 pertencem à divisão Bryophyta (distribuídas em 16
famílias e 25 gêneros) e oito pertencem à divisão Marchantiophyta (distribuídas em quatro
famílias e seis gêneros), conforme TAB 1.
Descrição da área de estudo - As ilhas
Sabiá, Mística, Mico Estrela, Tico-tico e Esquilo apresentam um ambiente mais sombrio e
úmido, pois a vasta quantidade de plantas de
maior porte no local e nos seus arredores possivelmente dificulta a entrada da luz. A coleta
foi realizada nos limites de cada ilha, em todos
os tipos de substratos presentes (terra, rocha
e troncos).
A Ilha Quaresmeira, com um ambiente
mais ensolarado, apresenta predominância
de árvores da família Melastomataceae (como
a Tibouchina, popularmente conhecida como
quaresmeira). A coleta do material briofítico
estendeu-se para os arredores da ilha, onde
o ambiente era mais úmido e sombreado,
abrigando uma quantidade de briófitas aparentemente maior do que no espaço da ilha
propriamente dito.
Assim como a Ilha Quaresmeira, as ilhas
Vinhático e Pau-ferro também apresentam
um ambiente mais ensolarado, porém não
houve necessidade de estender a coleta para
os arredores dessas ilhas.
As ilhas Jacarandá e Sibipiruna, por serem
próximas à Praça das Águas e à sede adminis-
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Tonini, A,; Starling, M. F. V.; Yano, O.; Figueiredo, J. A.
TABELA 1
Briófitas encontradas nas “Ilhas do Passatempo”, Parque Municipal das Mangabeiras
de Belo Horizonte – MG
Divisão
Família
Espécie
Bartramiaceae
Brachytheciaceae
Philonotis hastata (Duby) Wijk & Marg.
Rhynchostegium scariosum (Taylor) H. Rob. 
Brachymenium hornschuchianum Mart.
Brachymenium systilium (C. Muell.) A. Jaeg. 
Bryum limbatum Müll. Hal.
Bryum pseudocapillare Besch. 
Bryum radiculosum Brid. 
Syrrhopodon prolifer Schwägr.
Dicranella hilariana (Mont.) Mitt.
Entodon beyrichii (Schwägr.) Müll. Hal.
Fabronia ciliaris (Brid.) Brid. 
Fissidens amoenus Müll. Hal.
Fissidens bryoides Hedw. 
Fissidens flaccidus Mitt.
Fissidens gardneri Mitt.
Fissidens intramarginatus (Hampe) A. Jaeg.
Fissidens palmatus Hedw.
Fissidens serratus Müll. Hal.
Fissidens zollingeri Mont.
Chryso-hypnum diminutivum (Hampe) W. R. Buck
Isopterygium tenerum (Sw.) Mitt.
Ochrobryum gardneri (Müll. Hal) Mitt.
Octoblepharum albidum Hedw.
Groutiella apiculata (Hook.) H. A. Crum & Steere 
Macrocoma frigida (Müll. Hal.) Vitt 
Schlotheimia rugifolia (Hook.) Schwägr.
Barbula indica (Hook.) Spreng.
Hyophila involuta (Hook.) A. Jaeg. 
Hyophiladelphus agrarius (Hedw.) R. H. Zander
Leptodontium viticulosoides (P.-Beauv.) Wijk & Marg.
Pseudosymblepharis schimperiana (Par.) H. A. Crum
Racopilum tomentosum (Hedw.) Brid.
Sematophyllum caespitosum (Hedw.) Mitt.
Sematophyllum cuspidiferum Mitt.
Sematophyllum galipense (Müll. Hal) Mitt.
Sematophyllum subpinnatum (Brid.) E. Britton
Sematophyllum subsimplex (Hedw.) Mitt.
Entodontopsis nitens (Mitt.) W. R. Buck
Cyrto-hypnum involvens (Hedw.) W.R. Buck & H. A. Crum
Frullania ericoides (Nees ex Mart.) Mont.
Acanthocoleus aberrans (Lindenb. & Gott.) Kruijt
Cheilolejeunea rigidula (Mont.) R. M. Schust.
Lejeunea flava (Sw.) Nees
Lejeunea laetevirens Nees & Mont.
Metzgeria furcata (L.) Corda
Plagiochila disticha (Lehm. & Lindenb.) Lindenb.
Plagiochila martiana Nees
Bryaceae
Calymperaceae
Dicranaceae
Entodontaceae
Fabroniaceae
Fissidentaceae
Bryophyta
Hypnaceae
Leucobryaceae
Macromitriaceae
(Orthotrichaceae)
Pottiaceae
Racopilaceae
Sematophyllaceae
Stereophyllaceae
Thuidiaceae
Frullaniaceae
Marchantiophyta
Lejeuneaceae
Metzgeriaceae
Plagiochilaceae

Espécies citadas pela primeira vez para Minas Gerais.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
trativa do parque, onde o fluxo de pessoas é
constante, têm a atuação e influência antrópica mais evidentes do que nas outras ilhas.
Todas as ilhas apresentam uma infra-estrutura adequada ao lazer e facilidade de acesso, o que torna a área bastante visitada e, conseqüentemente, mais sujeita a depredações.
Devido ao fluxo constante de pessoas,
registraram-se na área, com certa freqüência,
troncos de árvores com marcas de desenhos
e/ou escritos, demonstrando que a brioflora
local está vulnerável a ações depredatórias.
Dentre todas as dez ilhas, a Ilha Mico Estrela foi a que contribuiu com o maior número
de espécies de briófitas (16 ao todo), 13 das
quais pertencentes à divisão Bryophyta e três
à divisão Marchantiophyta (FIG. 1).
15
musgos
hepáticas
12
9
6
3
0
IS
IQ
IM
IME
IJ
IE
ITT
IV
ISI
IPF
FIGURA 1 - Número de espécies de hepáticas
e musgos encontrados nas ilhas estudadas (IS:
Ilha Sabiá, IQ: Ilha Quaresmeira, IM: Ilha Mística,
IME: Ilha Mico Estrela, IJ: Ilha Jacarandá, IE: Ilha
Esquilo, ITT: Ilha Tico-tico, IV: Ilha Vinhático, ISI:
Ilha Sibipiruna, IPF: Ilha Pau-ferro).
A Ilha Vinhático foi a que apresentou o
menor número de briófitas (FIG. 1), com apenas duas espécies de musgos registradas.
As demais ilhas que compõem a área
Ilhas do Passatempo contribuíram com um número de espécies que variou entre esses dois
extremos. Na Ilha Sabiá, foram encontradas 14
espécies (do total); na Ilha Mística 12 espécies;
na Ilha Sabiá 11 espécies; nas Ilhas Esquilo e Sibipiruna foram encontradas sete espécies; na
Ilha Pau-Ferro, seis espécies; e nas ilhas QuaBios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
resmeira e Tico-Tico foram encontradas cinco e
quatro espécies, respectivamente (TAB. 2).
Riqueza florística - Algumas espécies,
tanto de musgos quanto de hepáticas, tiveram
maior ocorrência, sendo encontradas na grande maioria das ilhas, como Fissidens zollingeri,
Lejeunea laetevirens e Sematophyllum subpinnatum. Outras, no entanto, ficaram restritas
a poucas ilhas, como Acanthocoleus aberrans,
Bryum limbatum e Metzgeria furcata (TAB. 2).
Sematophyllum subpinnatum e Lejeunea
laetevirens foram as espécies de ocorrência
mais ampla na área estudada. Outras espécies, como Fissidens zollingeri (Fissidentaceae),
Frullania ericoides (Frullaniaceae) e Octoblepharum albidum (Leucobryaceae), que também tiveram uma ocorrência ampla, ocorrem
num menor número de ilhas. Molinaro e Costa (2001), ao trabalharem com briófitas do arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro,
relataram, entre outras, essas duas famílias
como as de maior ocorrência no local.
Tipos de substrato - As briófitas foram
encontradas colonizando diferentes tipos de
substratos, como rochas, solo, troncos e galhos de árvores vivas ou em decomposição.
O substrato de maior incidência de briófitas foi o corticícola, com 63% de ocorrência,
seguido pelo terrícola, com 22% (FIG. 2). A explicação para a preferência das briófitas pelo
habitat corticícola, segundo Lisboa (1976), é
que a água da chuva, ao escorrer lentamente
pelo tronco, dissolve muitos detritos, ficando
com nutrientes suficientes para manter uma
grande quantidade de briófitas, além de outras epífitas.
Rupícola
15%
Terrícola
22%
63%
Corticícola
FIGURA 2 - Percentual de distribuição de briófitas de acordo com o tipo de substrato.
29
Tonini, A,; Starling, M. F. V.; Yano, O.; Figueiredo, J. A.
TABELA 2
Distribuição das briófitas nas Ilhas do Passatempo.
Espécies
IS
IQ
IM
IME
IJ
IE
ITT
IV
ISI
IPF Substrato
Acanthocoleus aberrans
+
C
Barbula indica
+
+
T
Brachymenium hornschuchianum
+
T
Brachymenium systilium
+
C
Bryum limbatum
+
T
Bryum pseudocapillare
+
+
C, T
Bryum radiculosum
+
C
Cheilolejeunea rigidula
+
C
Chryso-hypnum diminutivum
+
R, C
Cyrto-hypnum involvens
+
C
Dicranella hilariana
+
T
Entodon beyrichii
+
+
C
Entodontopsis nitens
+
C
Fabronia ciliaris
+
+
+
+
C
Fissidens amoenus
+
C
Fissidens bryoides
+
R
Fissidens flaccidus
+
+
+
R
Fissidens gardneri
+
C
Fissidens intramarginatus
+
R
Fissidens palmatus
+
R
Fissidens serratus
+
+
C
Fissidens zollingeri
+
+
+
+
R, T
Frullania ericoides
+
+
+
C
Groutiella apiculata
+
C
Hyophila involuta
+
R, T
Hyophiladelphus agrarius
+
R
Isopterygium tenerum
+
+
+
C
Lejeunea flava
+
C
Lejeunea laetevirens
+
+
+
+
+
C
Leptodontium viticulosoides
+
C
Macrocoma frigida
+
+
+
C
Metzgeria furcata
+
C
Ochrobryum gardneri
+
C
Octoblepharum albidum
+
+
+
C
Philonotis hastata
+
T
Plagiochila disticha
+
+
C
Plagiochila martiana
+
C
Pseudosymblepharis schimperiana
+
+
T
Racopilum tomentosum
+
R
Rhynchostegium scariosum
+
T
Sematophyllum caespitosum
+
+
+
+
+
+
+
+
+
C, T
Sematophyllum cuspidiferum
+
+
C, T
Sematophyllum galipense
+
+
C, T
Sematophyllum subpinnatum
+
T
Sematophyllum subsimplex
+
T
Schlotheimia rugifolia
+
+
C
Syrrhopodon prolifer
+
C
TOTAL
14 5
12
16 11 7
4
2
7
6
IS: Ilha Sabiá, IQ: Ilha Quaresmeira, IM: Ilha Mística, IME: Ilha Mico Estrela, IJ: Ilha Jacarandá, IE: Ilha Esquilo, ITT: Ilha
Tico-tico, IV: Ilha Vinhático, ISI: Ilha Sibipiruna, IPF: Ilha Pau-ferro. C: cortícola; T: terrícola; R: rupícola.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
Bryum pseudocapillare, Chryso-hypnum
diminutivum, Fissidens zollingeri, Hyophila involuta, Sematophyllum subpinnatum, S. cuspidiferum e S. galipense foram encontradas em mais
de um tipo de substrato. Mas a grande maioria
das briófitas estudadas, 87,23%, foi observada
em apenas um tipo de substrato (TAB. 2).
Tipos de habitat - Dentre as espécies relacionadas para o Parque Municipal das Mangabeiras, temos aquelas que, de acordo com
Yano e Câmara (2004), são consideradas de zonas urbanas e/ou de grandes cidades, como:
Frullania ericoides, Lejeunea flava, L. laetevirens,
dentre as hepáticas; Fabronia ciliaris, Hyophila
involuta, Octoblepharum albidum e Sematophyllum subpinnatum, dentre os musgos.
Briófitas encontradas no Parque
Municipal das Mangabeiras,
citadas pela primeira vez para o
Estado
Divisão Bryophyta
BRACHYTHECIACEAE
• Rhynchostegium scariosum (Taylor) A. Jaeg.
Gametófitos pequenos, verdes. Caulídios irregularmente ramificados; ramos
eretos. Filídios levemente complanados,
côncavos na base, ovados, com o ápice acuminado. Margem serreada até perto da base.
Costa percurrente, terminando antes do ápice. Células medianas fusiformes ou lineares.
Células basais alongadas e retangulares.
Células alares quadráticas ou retangulares,
geralmente com uma pequena borda composta por uma ou duas fileiras de células
alongadas e estreitas.
Ocorrência: Goiás, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Rio
de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
BRYACEAE
• Brachymenium systilium (C. Muell.) A. Jaeg.
Gametófitos pequenos, brilhantes, esverdeados. Caulídios ramificados. Filídios côncaBios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
vos, oblongos, ápice acuminado. Margem lisa.
Costa excurrente. Células apicais rômbicashexagonais. Células basais quadráticas.
Ocorrência: Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
• Bryum pseudocapillare Besch.
Gametófitos ligeiramente eretos, esverdeados, filamentosos, com propágulos
axilares. Filídios oblongos, enrolados quando secos. Margem levemente serreada na
região apical. Costa excurrente. Células apicais e medianas hexagonais. Células basais
retangulares e quadráticas. Seta alongada.
Cápsula cilíndrica e pendular. Opérculo curto
e cônico.
Ocorrência: Bahia, Mato Grosso, Minas
Gerais e Rio de Janeiro.
• Bryum radiculosum Brid.
Gametófitos brilhantes, esverdeados. Filídios alongados, oblongos. Margem serrada
na região apical. Costa amarelada, excurrente.
Células apicais e medianas rombo-hexagonais,
levemente alongadas. Células basais quadráticas. Cápsula alongada, cilíndrica, enrugada.
Opérculo cônico e curto. Dentes do peristoma
unidos na base.
Ocorrência: Mato Grosso, Mato Grosso
do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina.
FABRONIACEAE
• Fabronia ciliaris (Brid.) Brid.
Gametófitos verdes, ramificados. Filídios
oblongos, com a região apical acuminada e
alongada. Margem denteada até a metade da
lâmina, dentes formados por apenas uma célula. Costa terminando na região mediana do
filídio ou um pouco mais acima. Células apicais
hexagonais, com a parede sinuosa. Células medianas alongadas. Células basais diferenciadas,
quadráticas. Seta longa. Cápsula ovóide. Dentes do peristoma aos pares, curtos e papilosos.
Esporos arredondados, com papilas.
Ocorrência: Bahia, Mato Grosso, Minas
Gerais e Pernambuco.
31
Tonini, A,; Starling, M. F. V.; Yano, O.; Figueiredo, J. A.
FISSIDENTACEAE
• Fissidens bryoides Hedw.
Gametófitos eretos e grandes. Filídios
longos, lanceolados. Margem mais ou menos
inteira. Borda com uma a cinco fileiras de células alongadas e estreitas. Células basais alongadas e retangulares. Células apicais e medianas quadráticas, menores. Costa percurrente.
Lâmina vaginante até a metade do filídio.
Ocorrência: Bahia, Fernando de Noronha,
Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima e São Paulo.
MACROMITRIACEAE
• Groutiella apiculata (Hook.) H. A. Crum e
Steere
Gametófitos esverdeados, formando
densos emaranhados. Caulídios rastejantes,
com numerosos ramos eretos. Filídios distribuídos irregularmente no caulídio, em espiral;
ligulados ou oblongos. Ápice obtuso. Margem
inteira. Costa levemente excurrente. Células
apicais e medianas arredondadas ou quadráticas, inchadas. Células basais retangulares, algumas alongadas e outras mais estreitas; são
maiores que as demais células do filídio.
Ocorrência: Bahia, Espírito Santo, Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais,
Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e
São Paulo.
• Macrocoma frigida (Müll. Hal.) Vitt
Gametófitos delicados, verde-escuros,
formando tapete. Caulídio rastejante, com ramos secundários eretos (em sua maioria). Filídios eretos, oblongo-lanceolados; ápice agudo; costa percurrente, terminando logo abaixo do ápice. Seção transversal do filídio com
células mamilosas, arredondadas, assumindo
a forma quadrada quando próximas da margem. Células basais arredondadas na margem
e hexagonais ou elípticas próximas à costa.
Seta longa; cápsula ovóide e estriada.
Ocorrência: Minas Gerais e Rio de Janeiro.
32
POTTIACEAE
• Hyophila involuta (Hook.) A. Jaeg.
Gametófitos verdes no ápice e castanhos na base, raramente ramificados. Filídios
espatulados ou ovóides. Margem plana ou
levemente curvada, inteira ou com pequenos
dentes no ápice. Costa percurrente. Células
apicais e medianas pequenas, quadráticas ou
hexagonais. Células basais retangulares, maiores, algumas sobrepostas. Seta longa. Cápsula
cilíndrica, apresentando um diferenciado pescoço. Esporos papilosos.
Ocorrência: Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul, Rondônia e São Paulo.
MARCHANTIOPHYTA
LEJEUNEACEAE
• Acanthocoleus aberrans (Lindenb. e Gott.)
Kruijt
Gametófitos verdes, rastejantes. Filídios
incubos, com o ápice obtuso ou ligeiramente
acuminado. Margem inteira. Lóbulo com um
a dois dentes pequenos. Células arredondadas e/ou quadráticas, com trígonos cordados.
Oleocorpos pequenos e numerosos. Anfigastro inteiro.
Ocorrência: Alagoas, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
Briófitas das Ilhas do Passatempo, Parque Municipal das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG
Referências
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 25-34, dez. 2005
Deslocamento matutino e vespertino do biguá,
Phalacrocorax brasilianus (Pelicaniformes,
Phalacrocoracidae) em Belo Horizonte,
Minas Gerais, Brasil
Dawn and dusk movements of the Neotropic Cormorant,
Phalacrocorax brasilianus (Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) in Belo
Horizonte, Minas Gerais, Brazil
TÚLIO DORNAS
GABRIEL BARBOSA DE OLIVEIRA
JOSÉ EUGÊNIO CÔRTES FIGUEIRA
1
Resumo
Este estudo analisa se a temperatura, a umidade relativa do ar e a presença de luz correlacionamse com os horários de deslocamento diário de uma população de biguás, Phalacrocorax brasilianus,
entre o dormitório e seu local de forrageio. Utilizando-se a correlação de Spearman, verificou-se
que não houve nenhuma correlação entre a umidade relativa do ar e o horário de deslocamento
das aves, assim como para a temperatura e a saída do primeiro indivíduo. Entretanto, a temperatura
correlacionou-se negativamente (rs= -0,72; p = 0,008; n = 17) com os horários de deslocamento dos
bandos representativos do dormitório pela manhã e positivamente (rs= 0,62; p = 0,02; n = 12) à tarde
para o local de forrageio, indicando um padrão de deslocamento inverso. Observou-se também que,
em média, 92% das aves abandonavam o ponto de forrageio antes do anoitecer, sendo esse padrão
irregular para as alvoradas.
Palavras-chave: Phalacrocorax brasilianus; Migração; Lagoa da Pampulha; Belo Horizonte.
Abstract
This study analyzes whether temperature, relative air humidity and light are correlated with the daily
movements of a Neotropic Cormorant population, Phalacrocorax brasilianus, between its nesting and
foraging sites. Using Sperman’s correlation, it was verified that there was not any correlation between
relative air humidity and the schedule of the birds’ movements, as well as temperature and the first
individual’s exit. However, temperature was correlated negatively (rs = -0.72; p= 0.008; n=17) for the
schedules of representative groups’ movements from the nesting site in the morning, and positively
(rs= 0,62; p = 0,02; n = 12) to the foraging site in the afternoon, indicating an inverse movement pattern.
It was also observed that an average of 92 % of the birds abandoned the foraging site before twilight,
while this pattern was irregular at dawn.
Key words: Phalacrocorax brasilianus; Migration; Pampulha Lake; Belo Horizonte.
Laboratório de Ecologia de Populações, Departamento de Biologia Geral Instituto de Ciências Biológicas, UFMG, e-mail: [email protected]
Bios, Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
35
Dornas, T.; Oliveira, G. B.; Figueira, J. E. C.
O
biguá,
Phalacrocorax brasilianus
(GMELIN, 1789), é uma ave aquática
que ocorre em toda a América Latina
(SICK, 1997), habitando lagos, lagoas, estuários, manguezais e áreas litorâneas (NAKA;
RODRIGUES, 2000). Essa ave alimenta-se de
peixes e é exímio mergulhador. Existem relatos de que indivíduos dessa espécie podem
mergulhar a profundidades de até 20 metros
(SICK, 1997). Além de pescarem individualmente, podem nadar agregados, encurralando cardumes de peixes, mergulhando simultaneamente e capturando vários peixes
(SANTOS, 1990).
Os biguás são aves migratórias, cujo vôo
ocorre geralmente na posição em forma de
V (160º), o que proporciona uma vantagem
aerodinâmica, tornando o vôo menos desgastante (SICK, 1997). Além disso, tal comportamento pode ser uma alternativa para manter
o campo de visão de todos os indivíduos bem
amplo e aberto (SICK, 1997). Estudos com uso
de anilhas mostraram a existência de bandos
migratórios e entre vales do baixo Rio Paraná
na Argentina e os alagados do Rio Grande do
Sul, no Brasil (ANTAS, 1994).
Os biguás dormem em aglomerados de
árvores muito altas, onde se concentram durante a noite. Nesses locais, observa-se grande
quantidade de guano, que é muito utilizado
como fertilizante (SICK, 1997). Os biguás deixam seus dormitórios diariamente e se dirigem às áreas de forrageio, retornando ao entardecer.
No Parque Municipal Lagoa do Nado,
região norte de Belo Horizonte, há um dormitório de P. brasilianus. Pela manhã, as aves
voam em direção à Lagoa da Pampulha, onde
permanecem forrageando. Nessa trajetória as
aves cruzam caprichosamente a rota de pouso
e decolagem dos aviões do Aeroporto Municipal da Pampulha, o que causa certa preocupação entre os aeroviários, devido à possibilidade de colisões com as aeronaves.
36
Desse modo, o objetivo do estudo foi
averiguar se o deslocamento entre dormitório
e local de forrageio apresentava algum padrão
quanto ao horário do dia, e ainda se dependia
de parâmetros meteorológicos: temperatura
e umidade relativa do ar e a presença ou não
do sol.
Para isso, testamos a hipótese de que os
horários de deslocamento das aves dependeriam da temperatura e umidade relativa do ar,
considerando os horários de saída do primeiro
indivíduo da população e do grupo de bando
mais representativo (GBR) em relação ao total
de indivíduos presentes para cada dia de estudo. Consideramos também a hipótese de que
a ausência de luz, devido à não presença do
sol, anterior à alvorada e posterior ao crepúsculo vespertino, poderia interferir no deslocamento das aves.
Material e métodos
O estudo foi realizado de março a novembro de 2002 no Parque Municipal Lagoa
do Nado (19º49’56”S, 43º57’34”W) e na Lagoa
da Pampulha (19º55’09”S, 43º56’47”W). Foram formadas duas equipes: uma permanecia
no dormitório, enquanto a outra no local de
forrageio. Aparelhos telefônicos celulares e
walk-talks proporcionaram as comunicações
necessárias entre as duas equipes. As observações foram feitas através de binóculos durante a alvorada, em que foram anotados os
horários de saída de cada bando do dormitório e o número de indivíduos, assim como seu
horário de chegada no local de forrageio. O
mesmo procedimento foi tomado para a saída
do ponto de forrageio em direção ao dormitório durante o crepúsculo.
Para determinar o GBR, considerou-se o
tempo total de deslocamento de toda a população para cada dia de estudo. Esse tempo
de deslocamento era dividido em intervalos
de cinco minutos. Logo após, verificava-se em
qual intervalo concentraram-se mais de 50%
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
Deslocamento matutino e vespertino do biguá, Phalacrocorax
brasilianus (Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Resultados
Rs = -0,105, P>0,06 n = 17
B
6
5,5
5
60
70
80
90
5,5
5,5
60
5,5
5
100
6
5
6
Umidade relativa do ar
Rs = 0,37, P>0,05 n = 15
6,5
70
80
90
100
Umidade relativa do ar
Rs = 0,210, P>0,05 n = 12
6,5
horário de saída do GBR
6,5
O percurso deslocado entre o dormitório (Parque Municipal Lagoa do Nado) e
o local de forrageio (Lagoa da Pampulha) é
de 3600 metros. O deslocamento matutino
ocorria no sentido nordeste-sudoeste, e o
vespertino no sentido inverso. Para Phalacrocorax auritus, espécie de biguá norteamericana, observou-se que as populações do delta do rio Mississipi deslocaramse em média 7,5km entre o dormitório e o
local de forrageio, com alguns indivíduos
deslocando-se até 15km (KING et al., 1995).
Para a mesma localidade registrou-se ainda que alguns indivíduos de P. auritus chegaram a utilizar entre quatro e seis dormitórios diferentes (TOBIN et al., 2002).
Durante o período de estudos, verificou-se uma grande variação no número
de indivíduos, com 115 indivíduos no pri-
D
60
70
80
90
Umidade relativa do ar
100
Rs = 0,168, P>0,05 n = 12
6,5
horário de saída do GBR
C
horário de saída do 1º indivíduo
A
horário de saída do 1º indivíduo
dos indivíduos presentes no deslocamento.
Supondo-se, para uma manhã, um tempo
de deslocamento de 60 minutos, haveria 12
parcelas de cinco minutos. Na parcela sete
foram observados seis bandos, os quais, somados, possuíam 71% de toda a população
deslocada naquela suposta manhã. Posteriormente verificava-se o horário de saída
da parcela sete, que ficava então registrado
como o horário do GBR para aquela manhã
de deslocamento.
Para estimar o tamanho do percurso
realizado, foram utilizadas imagens aéreas
com escala de 1:25.000 retiradas da página eletrônica da Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte. Os dados de temperatura
e umidade relativa do ar foram fornecidos
pela Infraero-SSBH. Os dados foram analisados através da correlação de Spearman,
utilizando-se o programa Systat 5.0.
6
5,5
5
60
70
80
90
Umidade relativa do ar
100
FIGURA 1 – A saída de Phalacrocorax brasilianus do dormitório e do local de forrageio não se correlacionou com a umidade relativa do ar. Os gráficos A e B referem-se ao deslocamento matutino e os
gráficos C e D ao deslocamento no período crepuscular.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
37
Dornas, T.; Oliveira, G. B.; Figueira, J. E. C.
meiro mês de observações e um máximo
de 880 indivíduos em agosto de 2002. Oliveira (2004) também verificou uma variação do número de indivíduos de P. brasilianus na bacia de Guaratuba-PR, registrando
no mês de agosto cerca de 700 indivíduos.
Essa flutuação no número de indivíduos
ao longo dos estudos demonstra a capacidade migratória da espécie, condição
verificada por Antas (1994).
B
6
5,5
5
10
15
20
25
Temperatura do Ar (ºC)
Rs = -0,3349, P>0,05 n = 15
180
17,5
17,0
16,5
16,0
8
Rs = -0,718, P<0,01 n = 12
horário de saída do GBR
Rs = -0,488, P>0,05 n = 17
6,5
22
24
26
28
30
Temperatura do ar (ºC)
32
7
6
5
D
14
6
18
20
22
24
Temperatura do ar (ºC)
Rs = 0,643, P<0,05 n = 12
9
horário de saída do GBR
C
horário de saída do 1º indivíduo
A
horário de saída do 1º indivíduo
Quanto às possíveis dependências meteorológicas dos deslocamentos diários dos
biguás, as análises de correlação de Spearman
mostraram que não houve correlação entre
umidade relativa do ar e os horários de saída
do dormitório e o local de forrageio das aves,
tanto para o primeiro indivíduo, quanto para
o grupo de bandos mais representativo (GBR)
(FIG. 1).
Não houve também correlação entre
a temperatura e a saída do primeiro indivíduo do dormitório, assim como do local de
forrageio (FIG. 2a,c.). Entretanto, houve uma
significativa correlação negativa (rs= -0,72, p
= 0,008, n = 17) para os horários de deslocamento dos grupos de bandos representativos
pela manhã e a temperatura do ar. Para o período da tarde, foi verificada uma significativa
correlação positiva (rs= 0,62, p = 0,02, n = 12)
para os grupos de bandos representativos e a
temperatura do ar (FIG. 2b,d).
Por outro lado, quanto à possibilidade de
os horários do nascer e do pôr-do-sol afetarem
o deslocamento dos P. brasilianus ao longo do
tempo, observou-se um padrão irregular no
deslocamento das aves em relação ao nascer
do sol: os indivíduos não tiveram nenhuma
preferência pelo período anterior ou posterior
8
7
6
22
24
26
28
30
Temperatura do ar (ºC)
32
FIGURA 2 – Os gráficos B e D mostram uma forte correlação entre temperatura do ar e os grupos de bandos mais representativos (GBR), ao contrário da saída do primeiro indivíduo mostrada nos gráficos A e C.
38
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
Deslocamento matutino e vespertino do biguá, Phalacrocorax
brasilianus (Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
ao sol nascente (TAB. 1). Porém, para o período de crepúsculo vespertino, foi observado
um padrão muito regular. Em média, aproximadamente 92% dos indivíduos abandonaram o local de forrageio antes do pôr-do-sol
(TAB. 1).
TABELA 1
Porcentagem de indivíduos de Phalacrocorax
brasilianus que abandonaram o dormitório antes
do nascer do sol (padrão irregular) e o local de
forrageio antes do pôr-do-sol (padrão regular)
em 15 dias amostrados entre março e
novembro de 2002.
Dia de
campanha
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
Antes do sol
nascente (%)
100
98,20
34,57
47,95
41,93
2,70
3,13
4,10
1,10
7,00
6,00
070
0,40
0,00
0,00
Antes do sol
poente (%)
94,44
81,25
100
97,35
73,11
92,82
77,60
98,30
99,30
98,90
100
96,20
90,06
96,90
95,70
Discussão
Os resultados obtidos mostraram que o
deslocamento da população de Phalacrocorax
brasilianus na região norte de Belo Horizonte
pode estar sendo determinado por fatores
metereológicos. A princípio, essa população
não sofre nenhuma influência da umidade relativa do ar, ao contrário da temperatura do ar,
que demonstrou forte influência.
A população de biguás estudada apresenta um padrão inverso de deslocamento
em relação à variação da temperatura do ambiente. Pela manhã, quanto maior for a temperatura durante a alvorada, mais cedo os
indivíduos abandonam o dormitório (FIG. 2b).
Ao entardecer, quanto maior for a temperatura no crepúsculo vespertino, mais tarde os
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
biguás retornam ao dormitório (FIG. 2d).
De alguma forma, a temperatura do ar estaria sinalizando aos biguás o melhor momento de iniciar o deslocamento nos dois períodos
do dia. Conforme a FIG. 2b, o aumento de um
grau na temperatura do ar pode representar
o adiantamento de até 20 minutos no abandono do dormitório pela manhã. Isso pode
representar um elevado grau de sensibilidade
de P. brasilianus à temperatura ambiente.
A variação do fotoperíodo durante o ano
é um importante fator determinante dos movimentos e migração entre as aves (FAABORG,
1988). Desse modo, espera-se que ao longo
do ano, com a variação do fotoperíodo, os horários de abandono e retorno ao dormitório
dessa população de biguás sejam diferenciados.
Nos períodos do ano em que o fotoperíodo for maior, as alvoradas terão temperaturas
mais altas em horários mais cedo, comparativamente ao período de fotoperíodo menor. O
mesmo ocorre nos crepúsculos vespertinos,
pois serão registradas temperaturas mais altas
em horários mais tarde, comparativamente ao
período de fotoperíodo menor. Isso implicaria,
portanto, um abandono mais cedo e um retorno mais tarde ao dormitório em período de
fotoperíodo maior e um abandono mais tarde,
seguido de um retorno mais cedo ao dormitório, em ocasiões de fotoperíodo menor.
Fisiologicamente, a temperatura corporal das aves acompanha o ciclo diário da luz
(SCHIMIT-NIELSEN, 1996). Durante o período
noturno, as temperaturas das aves de hábitos diurnos podem diminuir até quatro graus
centígrados, como observado para Pipilo alberti, fringilídeo norte-americano (SCHIMITNIELSEN, 1996). Uma das estratégias utilizadas
pelas aves é reduzir a taxa metabólica durante
o período noturno (FAABORG, 1988) e restabelecer, durante as manhãs, a taxa metabólica
ideal para o exercício de suas atividades. Elas
podem se expor ao sol, o que aumentará sua
39
Dornas, T.; Oliveira, G. B.; Figueira, J. E. C.
temperatura corporal, ou promover contração
muscular, involuntária ou voluntariamente, a
fim de restabelecer a taxa metabólica ideal
(FAABORG, 1988).
Possivelmente, as manhãs que apresentarem maiores temperaturas em horários mais
cedo proporcionarão aos biguás alcançar rapidamente a temperatura corporal ideal, restabelecendo a taxa de metabolismo corpóreo
mais eficiente para suas atividades em horários também mais cedo, comparados àquelas
manhãs mais frias. O mesmo ocorreria para
as tardes mais quentes, pois a temperatura
corporal ideal do biguá se prolongaria por
um tempo maior, já que o indivíduo sentiria
os efeitos da queda da temperatura do ar ao
final do dia em horários mais tarde, estendendo assim o horário de abandono do local de
forrageio.
Do ponto de vista comportamental, o
deslocamento dessa população de biguás independe da saída do primeiro indivíduo, pois
constatou-se que esta pouco se correlacionou
com a temperatura do ar. Porém, esse deslocamento depende da saída de bandos que numericamente representam a maior parte de
toda a população presente. Isso depõe contra
a possibilidade de que a população de biguás
estudada tenha um indivíduo líder, isto é, um
indivíduo de largada, o qual sinalizaria, após a
sua saída, uma possível permissão ou indicação para a saída dos demais indivíduos.
O fato de esse abandono estar ligado à
saída de bandos representativos do total de
indivíduos presentes (GBR) mostra um forte
comportamento gregário entre os indivíduos,
indicando a preferência pelo deslocamento
em grupo e não isolado. Isso pôde ser comprovado nas observações de campo, em que
foram avistados bandos com 70 indivíduos
em algumas manhãs e com até 150 indivíduos
no anoitecer, sendo mais freqüentes os bandos de dois a cinco indivíduos.
O nascer e o pôr-do-sol também de-
40
monstraram interferir no deslocamento. Segundo Faaborg e Chaplin (1988), a posição do
sol parece ser um dos primeiros instrumentos
de navegação entre as aves. Durante o período de estudo, a alta porcentagem de indivíduos que abandonavam o local de forrageio
para retornarem ao dormitório antes do sol se
pôr (em média 92%, TAB. 1) mostrou possivelmente uma grande influência da necessidade
da presença do sol e/ou da luminosidade para
a realização desse deslocamento. No sertão
pernambucano observou-se, para bandos de
andorinhas, Progne chalybea, o retorno aos
seus dormitórios no final da tarde, por volta
das 17 horas, em um tempo máximo de 20 minutos, por mais de 60 dias de estudos (JUNIOR
et al., 2000).
Possivelmente, a presença do sol e/ou da
luminosidade seria muito importante para os
P. brasilianus se guiarem e direcionarem seu
vôo de retorno ao dormitório, pois em seguida
ao crepúsculo vespertino tem-se um grande
período de escuridão, até a alvorada. Por outro lado, mais que uma questão de direção, no
caso particular da população de P. brasilianus,
a presença da luz pode significar proteção. No
fim do dia o fluxo de aviões aterrissando no aeroporto municipal é muito intenso e, como o
deslocamento dessas aves coincide justamente com a rota de aterrissagem, um retorno ao
dormitório durante a noite ou em período de
luminosidade reduzida poderia representar
uma possibilidade de colisão.
Acreditamos, portanto, que os dados
apresentados poderão contribuir com informações importantes sobre o comportamento
de Phalacrocorax brasilianus, pouco relatado
na literatura. Telfair e Morrison (1995) e LopezOrnat e Ramos (1992) já destacaram tal condição para as regiões costeiras da Argentina e
México, respectivamente, ocorrendo o mesmo para o Brasil.
Porém, o que mais impressiona é que o
estudo fornece informações relevantes sobre
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
Deslocamento matutino e vespertino do biguá, Phalacrocorax
brasilianus (Pelicaniformes, Phalacrocoracidae) em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
o comportamento da espécie num ambiente
altamente urbanizado. Esse vigoroso cenário
antropizado, conseqüentemente, interfere
sobre os fatores ecológicos que regem a sobrevivência dos organismos e suas respostas
a esses ambientes, condição verificada para
essa população de Phalacrocorax brasilianus,
que demonstra ter conseguido adaptar-se a
esses ambientes artificiais.
Agradecimentos
Agradecemos ao Prof. Rogério
Parentoni e a Marcelo Vasconcelos pelas sugestões, e à equipe de trabalhos de
campo: Aretusa Drummond Lage, Fabrício
Vilas-Boas e Hubermam Gonçalves.
Referências
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 35-42, dez. 2005
41
A qualidade de água e as comunidades de
macroinvertebrados aquáticos da Estação
Ecológica do Tripuí
Water quality and aquatic macroinvertebrated community
of Estação Ecológica do Tripuí
MARCELO COUTINHO AMARANTE
Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais
HENRIQUE PAPROCKI
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Resumo
A qualidade da água da microbacia do córrego Tripuí foi avaliada mediante o uso de parâmetros
físico-químicos e zoobentônicos, e classificada como oligosapróbio e em alguns pontos oligobetamesosapróbio, ou seja, com o teor de carga orgânica variando de ausente a pouco. A poluição
identificada na microbacia é de origem pontual, do tipo efluente de esgoto doméstico. O índice BMWP
adaptado (JUNQUEIRA et al., 2000) foi utilizado para a avaliação biológica da qualidade da água. Sua
pontuação varia entre 63 e 137 na microbacia, indicando qualidade de água entre boa e excelente.
Foram identificadas quatro espécies da ordem Plecoptera e 91 espécies da ordem Trichoptera no
córrego Tripuí e no rio Belchior.
Palavras-chave: Insetos aquáticos; Zoobenton; Macroinvertebrados; Qualidade de água;
Biomonitoramento.
Abstract
The water quality assessment of the Tripuí stream was undertaken using physical, chemical
and zoobenthonic parameters. It was classified as oligossaprobic and, at some sites, as oligobetamesossaprobic, that is, with organic matter rate from null to low. The pollution identified in the
watershed is point-source, domestic wastewater. The adapted biological index of water quality BMWP
(JUNQUEIRA et al., 2000) was used to classify the water quality in the watershed, punctuation varying
from 63 to 137, indicating from good to excellent water quality. Identification of 91 species of adult
Trichoptera and four species of adult Plecoptera was accomplished in Tripuí stream and Belchior
River.
Key words: Aquatic insects; Zoobenton; Macroinvertebrates; Water quality; Biomonitoring.
Bios, Cadernos do Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
43
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
A
crescente instalação de indústrias e
construção de sistemas de esgotamento urbano têm acarretado um aumento do lançamento de resíduos industriais e
domésticos nos corpos d’água, na sua maioria
destituídos de tratamento prévio adequado.
Esses despejos têm alterado a qualidade da
água dos mananciais, o que suscita a preocupação com o desenvolvimento de técnicas capazes de diagnosticar tais alterações.
O uso de indicadores biológicos de qualidade de água vem sendo reafirmado mundialmente como uma forma eficaz de monitoramento. Os grupos mais recomendados para
serem usados nesses estudos são os macroinvertebrados, em primeiro lugar, e as algas
(HELLAWELL, 1986).
O estudo sistematizado de biomonitoramento começou no século XX com os trabalhos de Kolkwitz e Marsson (1908), que desenvolveram o conceito de saprobidade ou grau
de poluição por matéria orgânica. Junto a isso,
a observação da permanência ou não de certos organismos em determinados biótopos
levou à listagem de organismos indicadores
(ROSENBERG; RESH 1993).
Os macroinvertebrados apresentam uma
série de vantagens sobre outros grupos habitantes dos sistemas aquáticos. Sua ubiqüidade e diversidade de espécies garantem sua
distribuição em praticamente todos os tipos
de ambiente aquático e fornecem respostas
específicas de acordo com os variados tipos
de impacto produzidos nos corpos d’água.
Por outro lado, a diversidade em ambientes
neotropicais e a falta de conhecimento taxonômico da maioria dos grupos de insetos
aquáticos dificultam o desenvolvimento dos
estudos de biomonitoramento.
As comunidades de macroinvertebrados apresentam organismos geralmente sedentários e com ciclo de vida relativamente
longo, o que representa uma vantagem sobre outros grupos, como os peixes, que po-
44
dem fugir das zonas poluídas em direção às
cabeceiras ou afluentes não poluídos. Reunindo todas essas características, a sua utilização em monitoramento da qualidade da
água exprime uma figura sempre utilizada na
literatura: o monitoramento físico-químico
representa um momento do corpo d’água,
como uma fotografia, e o monitoramento biológico representa um filme, onde fica
registrada a história do corpo d’água. Esses
organismos sofrem o impacto de descargas
poluidoras eventuais e seus efeitos alteram
as comunidades de macroinvertebrados, o
que pode ser detectado pelos pesquisadores, mesmo algum tempo depois.
Resh (1995) listou vantagens e desvantagens da utilização de macroinvertebrados
para monitoramento biológico. Uma das vantagens é que a taxonomia de muitos grupos
já é bem conhecida e chaves de classificação
estão disponíveis, o que representa a realidade em países da Europa e nos Estados Unidos,
mas não na região sul-americana, onde é necessário o desenvolvimento da taxonomia
básica e da elaboração de chaves de identificação. A metodologia de coleta, análise e tratamento dos dados já está bem estabelecida
e é de fácil adaptação, mas a composição da
fauna do hemisfério norte é extremamente
diferente da América do Sul.
A utilização das ordens Trichoptera, Plecoptera e Ephemeroptera em biomonitoramento pode ser considerada como um grande passo para o desenvolvimento das técnicas
relativas à bioindicação de qualidade de água
(PAPROCKI, 2003), devido à sua grande diversidade e alta sensibilidade ao aumento dos teores de poluição orgânica. Resh (1992) avalia
vários sistemas de pontuação dos grupos de
macroinvertebrados. Os Trichoptera recebem,
em diversas regiões do mundo, a denominação de intolerantes a moderadamente tolerantes à poluição orgânica, de acordo com o
taxa estudado.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
Muitos dos sistemas de pontuação utilizam nível de família ou gênero em sua avaliação, mas a resposta é mais precisa quando se
identifica a espécie. Para isso, a taxonomia deve
ser bem conhecida e estudada, assim como as
associações entre as larvas e os adultos das
espécies. O objetivo deste trabalho é a identificação das espécies de macroinvertebrados
bentônicos das microbacias do córrego Tripuí
e rio Belchior e sua utilização, juntamente com
parâmetros físicos e químicos, para avaliação
da qualidade da água desses ambientes. Com
isso, pode-se determinar uma metodologia
consistente e barata para o constante monitoramento da qualidade das águas da bacia, que
consiste na elaboração de chaves de identificação pictóricas e interativas de fácil utilização por membros treinados da comunidade.
Pode-se também desenvolver programas de
monitoramento voluntário que, além de produzirem dados interessantes, despertam a
consciência do público para a importância da
conservação dos recursos aquáticos.
Material e métodos
Área de estudo
A Estação Ecológica Tripuí (E. E. T.), criada
em 1978 com o objetivo de proteger o habitat
natural do Peripatus acacioi (MARCUS; MARCUS, 1955), possui uma área total de 337 hectares com altitudes variando entre 1.100 e 1.350
metros e se limita geologicamente, ao norte
e nordeste, por rochas xistosas da Formação
Sabará, e ao sul e sudeste por filitos grafitosos
da Formação Barreiro. Os solos são desenvolvidos sobre material litológico atribuído ao
grupo Minas, constando essencialmente de
xistos, filitos e, bem menos freqüentemente,
influenciados por quartzitos. Ocorre em relevo
muito movimentado (forte ondulado e montanhoso), com declividades dominantes quase sempre superiores a 25%, atingindo muitas
vezes mais de 45% (PEDRALLI et al., 1997). O
clima da região, segundo Köeppen, é do tipo
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
Cwb temperado úmido, com inverno seco e
verão quente e chuvoso, cujas médias anuais
de precipitação variam de 1.450 a 1.800mm.
As temperaturas médias anuais oscilam entre
14° e 19°C (FEAM, 1995). Os principais tipos
vegetacionais encontrados na estação são as
florestas mesófilas estacionais, o cerrado, a
vegetação aquática (brejos, lagoa artificial e
córregos) e formações sucessionais em vários
estágios (PEDRALLI et al., 1997).
Caracterização dos pontos de
amostragem
Os pontos de amostragem (TAB. 1) situam-se na bacia do córrego Tripuí em regiões
distintas, com e sem influência antrópica. Um
ponto fora da unidade (rio Belchior, ponto 6)
foi monitorado biologicamente através da
fauna de insetos aquáticos adultos como referência de boa qualidade ambiental.
Ponto 1 - Córrego Botafogo - Venda
Nova - Ponte antiga da Estrada Real - Coordenadas geográficas: 20º 22.908’ S, 43º 33.615’ W
Ponto de amostragem localizado a montante da microbacia local, no córrego Botafogo, próximo ao limite noroeste da E. E. Tripuí.
Principal afluente do córrego Tripuí, é caracterizado por longo período de atividades
antrópicas no passado (fim do século XVIII a
meados do século XIX), devido à existência
de ouro de aluvião na época e à proximidade
de um trecho da Estrada Real que ligava Vila
Rica a Diamantina. A tipologia vegetal predominante atualmente é a floresta estacional semidecidual secundária em diversos estágios
sucessionais, sendo marcante a presença de
indivíduos centenários de pinheiro-do-Paraná
(Araucaria angustifolia).
Ponto 2 - Córrego Tripuí – Apiário Coordenadas geográficas: 20º 23.009’ S, 43º
33.237’ W
Área afetada por erosões nas margens
do córrego Tripuí, causadas pelas “descargas” e
inundações periódicas, devido ao escoamento
45
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
TABELA 1
Coletas e pontos de amostragem para avaliação da qualidade da água
do córrego Tripuí e rio Belchior.
Data
Corpo d’água
Local
Coordenadas
31/1/98
Córrego Tripuí
Apiário
20º 25.041’ S - 43º 25.633’ W
1/2/98
Córrego Botafogo
Ponte da Estrada Real
20º 25.041’ S - 43º 25.633’ W
2/2/98
Rio Belchior
Serra da Serrinha
20º 23.309’ S - 43º 32.622’ W
8/5/98
Rio Belchior
Serra da Serrinha
20º 23.120’ S - 43º 32.440’ W
9/5/98
Rio Belchior
Serra da Serrinha
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
27/5/98
Córrego Tripuí
1ª ponte da RFFSA
20º 25.041’ S - 43º 25.633’ W
16/7/98
Nascente dos Fortes
Represa
20º 22.923’ S - 43º 33.594’ W
27/7/98
Córrego Tripuí
2ª ponte da RFFSA
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
28/7/98
Rio Belchior
Serra da Serrinha
20º 25.041’ S - 43º 25.633’ W
29/7/98
Córrego Tripuí
Apiário
20º 27.258’ S - 43º 24.094’ W
16/8/98
Córrego Tripuí
2º ponte RFFSA
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
17/8/98
Rio Belchior
Serra da Serrinha
20º 27.258’ S - 43º 24.094’ W
18/8/98
Córrego Mainarte
Ponte da estrada do Cibrão
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
19/9/98
Córrego Belchior
Parque do Itacolomi
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
19/9/98
Córrego Mainarte
Ponte da estrada do Cibrão
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
20/9/98
Córrego Tripuí
2ª ponte da RFFSA
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
1/11/98
Córrego Tripuí
2ª ponte da RFFSA
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
8/11/98
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
20/11/98
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
21/11/98
Córrego Tripuí
2ª Ponte da RFFSA.
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
16/12/98
Córrego Botafogo
Venda Nova
20º 22.908’ S - 43º 33.615’ W
17/12/98
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
19/2/99
Córrego Tiririca
Captação de água da RFFSA
20º 22.867’ S - 43º 32.849’ W
20/2/99
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
21/2/99
Córrego Tripuí
2ª Ponte da RFFSA.
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
19/3/99
Córrego Tripuí
2ª Ponte da RFFSA.
20º 23.364’ S - 43º 32.541’ W
20/3/99
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
21/3/99
Córrego Tiririca
Captação de água da RFFSA
20º 22.867’ S - 43º 32.849’ W
16/4/99
Rio Belchior
Parque do Itacolomi
20º 25.048’ S - 43º 25.737’ W
rápido das águas pluviais, acentuadas pela topografia de entorno acidentada, e ao tipo de
encaixamento do córrego. A vegetação local
é bem distinta em cada margem, sendo a esquerda mais alterada por influência antrópica,
com presença de um bambuzal (Bambuza sp.)
e de árvores frutíferas remanescentes da antiga estação de fruticultura. Do lado direito, a
46
vegetação nativa secundária encontra-se em
vários estágios de regeneração.
Ponto 3 - Córrego Tripuí - sob a ponte 1
da RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima) - Coordenadas geográficas: 20º
23.250’ S, 43º 32.550’ W
Área onde se verte o efluente sólido da
vila do Tripuí (atualmente cinco casas com
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
moradores). Caracteriza-se por um trecho espraiado do córrego e mata ciliar com presença
de invasoras como lírio-do-brejo (Hedichium
coronarium) e algumas espécies de gramíneas no estrato herbáceo. As coletas foram realizadas a montante da ponte da RFFSA.
Ponto 4 - Córrego Tripuí - jusante do
efluente da vila - Coordenadas geográficas:
20º 23.364’ S, 43º 32.541 W
Área localizada a jusante da ponte 1 da
RFFSA, caracterizada por afloramentos de
quartzito e pelo estrangulamento do córrego, que causa o aumento da profundidade do
córrego, principalmente durante as chuvas,
podendo atingir até 4m de altura, “lavando” as
margens por curtos períodos.
Ponto 5 - Lagoa dos Fortes - Estação
Ecológica do Tripuí - Coordenadas geográficas: 20º 23.120’ S, 43º 32.440 W
Trata-se de um açude artificial formado
pela barragem de duas nascentes de primeira ordem, formando uma lagoa de aproximadamente 0,5 ha de espelho d’água. Área com
atividade humana bem marcante, pois é utilizada para natação e pesca. A coleta de adultos
de insetos aquáticos nesse ponto foi realizada
apenas uma vez, a título de caracterização.
Ponto 6 - Córrego Belchior – Parque
do Itacolomi - Coordenadas geográficas: 20º
25.048’ S, 43º 25.737’ W
Ponto bem preservado, localizado na divisa do Parque Estadual do Itacolomi, na Serra
da Serrinha, onde a floresta estacional encontra-se em avançado estágio de regeneração.
Realizaram-se nesse ponto coletas de insetos
aquáticos adultos e uso de parâmetros físicoquímicos de qualidade de água como referência de boa qualidade ambiental.
Metodologia
As amostragens biológicas e físicoquímicas foram realizadas mensalmente na
calha do leito do rio, quando a profundidade
assim o permitia, ou nas margens dos cursos
d’água, totalizando 29 coletas distribuídas em
16 meses (TAB. 1). Os parâmetros físico-químicos consistiram na análise da temperatura da
água, pH, oxigênio dissolvido, turbidez, condutividade, demanda química de oxigênio,
demanda bioquímica de oxigênio, nitrogênio
TABELA 2
Determinação da classificação dos níveis de saprobidade da água em função dos parâmetros físicoquímicos da água.
Classes Grau de Saprobidade
Teor de
carga
orgânica
PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS
O.D
DBO
NH - N
5
Déficit de
Supersatu- (mg/ml)
saturação (%) ração (%)
(mg/ml)
4
DQO
(mg/ml)
I
Oligosapróbio (OS)
Ausente
até pouco
0–5
0-3
0,0 - 0,5
< 0,1
1-<3
I – II
Oligo-betamesosapróbio
(OS – BMS)
Pouco
5 – 15
3 - 10
0,5 - 2,0
0,1
3 -< 6
II
Betamesosapróbio (Bms)
Moderado
15 – 30
10 - 25
2,0 - 4,0
> 0,1 - <0,3 6 - < 10
II – III
Beta-alfamesosapróbio
(Bms - ams)
Crítico
30 – 50
25 - 50
4,0 - 7,0
>0,3 - <0,7
10 - < 19
III
Alfamesosapróbio (ams)
Forte
50 – 75
50 - 100
7,0 - 13,0
>0,7 - <3,0
19 - < 75
III – IV
Alfamesopolisapróbio
(ams - ps)
Fortíssimo
75 – 90
+ 100
13,0 - 22,0
>3,0 - <9,0
> 75
IV
Polisapróbio (ps)
Excessivo
+ 90
-
+ 22,0
> 9,0
Fontes: LAWA (1982); modif. HAMM. In: SHAFFER (1985); HUTTER (1984) modif.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
47
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
amoniacal, coliformes fecais e estreptococos
fecais (TAB. 2 e 3). Essas coletas foram realizadas seguindo os métodos descritos em Standard methods for the examination of water and
wastewater, 19th edition, 1995. A classificação
do grau de saprobidade (TAB. 4) foi feita com
base no sistema de sapróbios (HAMM, 1985).
As coletas para realização da amostragem físico-química e formas imaturas de insetos aquáticos (qualitativas) foram realizadas
simultaneamente. A fauna de insetos aquáticos adultos e parâmetros físico-químicos de
qualidade de água foram amostrados em um
ponto fora da unidade (rio Belchior, Ponto 6),
como referência de boa qualidade de água.
As coletas de insetos adultos foram feitas
com armadilhas luminosas e a mesma freqüência. As coletas, preservação, armazenamento e análise das amostras zoobentônicas foram
realizadas segundo o Standard methods for the
examination of water and wastewater, 19th edi-
tion, 1995. Foi utilizada uma rede de coleta do
tipo surber de 3mm de poro e 0.10m² de área,
com a qual foram amostradas três réplicas por
ponto de amostragem. O material colhido foi
acondicionado em sacos plásticos e preservado com formol (10%). Uma vez fixadas, as
amostras seguiram para o laboratório, onde foram submetidas a análise, que consistiu inicialmente na tamisação com peneiras circulares
Granutest, com abertura de malha de 1,0, 0,5
e 0,3mm para lavagem e separação dos organismos. Todo o resíduo retido nas peneiras foi
preservado em álcool 70% e levado ao estereomicroscópio com aumento de dez a 40 vezes,
conforme as necessidades de identificação.
Foram utilizadas pranchas ilustrativas e chaves
de identificação taxonômicas (PENNAK, 1978;
FLINT, 1982; DOMINGUEZ et al., 1992; MERRITT;
CUMMINS, 1996; WIGGINS, 1996).
Para as coletas de insetos adultos foi utilizada uma armadilha luminosa composta de
TABELA 3
Parâmetros físico-químicos em 22 de março de 1999.
Parâmetros físico-químicos
Unidades
Temperatura da água
ºC
pH (in loco)
P-01
Venda Nova
P-02
Apiário
P-03
1ª ponte da
RFFSA
P-04
2ª ponte
da RFFSA
19,7
21,2
19,5
21,0
5,82
7,60
7,31
7,60
Condutividade elétrica (in loco) µS
0,005
0.080
0.071
0,082
Oxigênio dissolvido
Mg/l
8,94
10,31
7,24
9,93
Turbidez
NTU
Grau de saprobidade
0
0
2
0
OS
OS-BMS
OS
OS-BMS
TABELA 4
Parâmetros físico-químicos em 1 de março de 1998.
Parâmetros
físico-químicos
Unidades
P-01
P02
Venda Nova Apiário
P03
P-04
1ª ponte da 2ª ponte da
RFFSA
RFFSA
P-06
Belchior
Temperatura da água
ºC
17,9
19,9
17,6
19,5
21.5
6,62
7,70
7,50
7,65
7,3
PH (in loco)
Condutividade elétrica
(in loco)
µS
0,004
0,82
0,027
0,050
0.005
Oxigênio dissolvido
mg/l
11,05
10,12
10,25
9,80
10,9
Turbidez
NTU
0
0
0
1
0
OS
OS-BMS
OS
OS-BMS
OS
Grau de saprobidade
48
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
duas lâmpadas, uma U.V. (ultravioleta) e uma
fluorescente comum de 40 W. Foram utilizados
um lençol branco, uma bateria de 12 volts, cordas, pregadores, frascos mortíferos de cianeto
de potássio e frascos com álcool 70%. O lençol
foi fixado na corda por meio de pregadores, as
lâmpadas dependuradas e conectadas à bateria. As coletas iniciaram-se ao entardecer. A
sua duração variou de acordo com a atividade
dos insetos, ou seja, com temperaturas mais
baixas a atividade dos insetos cessa mais cedo
e interrompe-se a coleta. A duração da coleta
com armadilha luminosa variou entre duas e
quatro horas. Os exemplares coletados foram
identificados, espetados e acondicionados em
caixas entomológicas.
Resultados e discussão
Quanto às condições organolépticas da
água (TAB 2 e 3), a condutividade elétrica baixa
reflete poucos sais dissolvidos. Nesse caso, os
pontos 1 e 3 apresentam uma condutividade
muito baixa, com característica semelhante à
de água destilada. A condutividade aumenta
gradativamente, de montante para jusante,
em conseqüência do aporte de serrapilheira e
do recebimento de contribuintes como o córrego Botafogo. Este, por sua vez, recebe influência a montante do Hotel Estalagem das Minas. Em condições de poucos sais, o que equivale a dizer poucos nutrientes no ambiente,
mesmo sendo a água bastante pura, há uma
menor diversidade de organismos, por falta
de alimento. Nascentes com a mata ciliar mais
preservada contribuem para a alimentação
de organismos fragmentadores e raspadores,
subsidiando os predadores e coletores.
Foram identificadas 91 espécies pertencentes à ordem Trichoptera, 39 no córrego do Tripuí
e 68 no rio Belchior (TAB. 5). Dessas 91 espécies,
35 são novas à ciência. O Brasil conta atualmente com 378 espécies registradas e o Estado de
Minas Gerais com 101 espécies (PAPROCKI et al.,
2004). Foram também identificadas quatro espécies da ordem Plecoptera (TAB. 6).
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
TABELA 5
Lista de ocorrência de espécies de Trichoptera
adultos no córrego do Tripuí e no rio Belchior.
Espécie
Anchitrichia
Atopsyche
Austrotinodes
Austrotinodes
Austrotinodes
Austrotinodes
Barypenthus
Centromacronema
Cernotina
Cernotina
Chimarra
Chimarra
Chimarra
Chimarra
Chimarra
Chimarra
Chimarra
Cochliopsyche
Contulma
Dolophilodes
Grumichella
Grumichella
Grumichella
Grumichella
Helicopsyche
Hydroptila
Leptonema
Leptonema
Leptonema
Macronema
Macronema
Marilia
Marilia
Marilia
Marilia
Metrichia
Metrichia
Mexitrichia
Mexitrichia
Mortoniella
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
duplifurcata
sp.
sp.
n. sp. 1
n. sp. 2
sp.
concolor
obscurum
sp.
n. sp. 4
sp.
camposae
froehlichi
heligma
n. sp. 2
sp.
teresae
sp.
n. sp. 1
n. sp. 6
aequiunguis
n. sp. 1
rostrata
sp.
sp.
n. sp. 1
sparsum
sp.
viridianum
sp. 5
sp. 9
minor
lateralis
sp. 2
sp.
n. sp. 2
n. sp. 3
sp.
n. sp. 6
n. sp. 2
n. sp. 1
n. sp. 10
n. sp. 12
n. sp. 16
rio
rio
Belchior Tripuí
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
49
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
Espécie
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Nectopsyche
Notalina
Nothotrichia
Nyctiophylax
Nyctiophylax
Oecetis
Oecetis
Oecetis
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Oxyethira
Polycentropus
Polycentropus
Polycentropus
Polyplectropus
Polyplectropus
Polyplectropus
Rhyacopsyche
Smicridea
Smicridea
Smicridea
Smicridea
Smicridea
Smicridea
Smicridea
Triplectides
Triplectides
rio
rio
Belchior Tripuí
n. sp. 17
x
n. sp. 2
x
x
n. sp. 35
x
n. sp. 38
x
n. sp. 5
x
n. sp. 7
x
separata
x
x
sp.
x
n. sp. 1
x
neotropicalis
x
sp.
x
(oecetis) sp.
x
x
n. sp. 1
x
sp.
x
sp.
x
n. sp. 10
x
n. sp. 11
x
n. sp. 12
x
n. sp. 13
x
n. sp. 14
x
n. sp. 15
x
n. sp. 3
x
x
n. sp. 4
x
n. sp. 8
x
parce
x
x
sp.
x
tica
x
x
zilaba
x
sp.
x
n. sp. 18
x
n. sp. 19
x
n. sp. 11
x
n. sp. 7
x
sp.
x
n. sp. 1
x
sp.
x
coronata
x
n. sp. 1
x
x
n. sp. 19
x
piraya
x
x
radula
x
sp.
x
gracilis
x
x
neotropicus
x
TABELA 6
Lista de famílias, gêneros e espécies de Trichoptera e Plecoptera adultos, coletados com armadilha
luminosa na Estação Ecológica do Tripuí.
TRICHOPTERA
Hydropsychidae
Centromacronema obscurum
Macronema sp.
Leptonema viridianum
Leptonema sparsum
Macronema sp. 5
Macronema sp. 9
Smicridea coronata
Smicridea n. sp. 1
Smicridea n. sp. 19
Smicridea piraya
Smicridea radula
Smicridea sp.
Leptoceridae
Oecetis sp.
Triplectides gracilis
Triplectides neotropicus
Nectopsyche n. sp. 2
Nyctiophylax neotropicalis
Oecetis (Oecetis) sp.
Oecetis (Oecetis) n. sp. 1
Grumichella aequiunguis
Grumichella n. sp. 1
Grumichella rostrata
Grumichella sp.
Nectopsyche n. sp. 1
Nectopsyche n. sp. 10
Nectopsyche n. sp. 2
Nectopsyche n. sp. 5
Nectopsyche n. sp. 7
Nectopsyche n. sp. 10
Nectopsyche n. sp. 12
Nectopsyche n. sp. 16
Nectopsyche n. sp. 17
Nectopsyche n. sp. 35
Nectopsyche n. sp. 38
Nectopsyche separata
50
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
Notalina sp.
Mortoniella n. sp.
Philopotamidae
Nothotrichia n. sp.
Chimarra sp.
Rhyacopsyche n. sp. 1
Chimarra camposae
Odontoceridae
Chimarra n. sp. 2
Marilia n. sp. 2
Chimarra froehlichi
Barypenthus concolor
Chimarra heligma
Marilia minor
Chimarra teresae
Marilia lateralis
Dolophilodes n. sp.
Helicopsychidae
Polyplectropus n. sp. 7
Helicopsyche sp.
Polyplectropus n. sp. 11
Cochliopsyche sp.
Polycentropus n. sp. 18
Calamoceratidae
Anomalopsychidae
Phylloicos sp.
Contulma n. sp. 1
Ecnomidae
Polycentropodidae
Austrotinodes n. sp. 1
Polycentropus sp.
Austrotinodes n. sp. 2
Polycentropus n. sp. 18
PLECOPTERA
Polycentropus n. sp. 19
Perlidae
Polyplectropus n. sp. 7
Kempnyia obtusa
Polyplectropus n. sp. 11
Anacroneuria sp.
Cernotina n. sp. 4
Gripopterygidae
Hydroptilidae
Tupiperla gracilis
Anchitrichia duplifurcata
Tupiperla tecelata
Metrichia n. sp. 2
Metrichia n. sp. 3
Mexitrichia n. sp. 6
Hydroptila n. sp. 1
Oxyethira n. sp. 3
Oxyethira n. sp. 4
Oxyethira n. sp. 8
Oxyethira n. sp. 10
Oxyethira n. sp. 11
Oxyethira n. sp. 12
Oxyethira n. sp. 13
Oxyethira n. sp. 14
Oxyethira n. sp. 15
Oxyethira parce
Oxyethira tica
Oxyethira zilaba
Hydrobiosidae
Atopsyche sp.
Glossosomatidae
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A utilização de organismos zoobentônicos como bioindicadores de ambientes lóticos apresenta muitas vantagens. Esses organismos refletem com maior precisão as condições de qualidade da água de trechos do rio,
pelo fato de viverem aderidos a substratos ou
mesmo sob pedras no fundo e terem um ciclo
de vida relativamente grande. São também de
fácil visualização, mesmo a olho nu.
O córrego Tripuí é de primeira ordem,
tendo como principal afluente o córrego Botafogo. Essa microbacia caracteriza-se por
ser muito encaixada, ou seja, delimitada por
margens altas. Com isso, o córrego Tripuí sobe
aproximadamente quatro metros em uma
hora de chuva forte no verão. Essas cheias repentinas lavam o leito do rio, provocando o
carreamento de material e da fauna zoobentônica.
51
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
Foram encontradas larvas de quatro filos,
Arthropoda, Annelida, Nematoda e Platelmintes. Do filo Arthropoda havia 32 famílias, das
quais 29 pertencem à classe Insecta. Apenas
organismos das classes Ephemeroptera, Plecoptera e Trichoptera foram identificados em
nível genérico, perfazendo um total de 18 gêneros (TAB. 7). Entre os adultos coletados em
armadilha luminosa, foram encontradas 11 famílias, nove das ordens Trichoptera e duas de
Plecoptera. Dessas duas famílias, foram identificados 20 gêneros, sendo quatro de Plecoptera e 16 de Trichoptera (TAB. 7).
TABELA 7
Lista de táxons de formas imaturas de macroinvertebrados aquáticos, encontrados nas amostragens com rede surber na Estação Ecológica de
Tripuí nos anos de 1998 e 1999
EPHEMEROPTERA
Leptohyphidae
Leptohyphes sp.
Baetidae
Baetodes sp.
Camelobaetidius sp.
Acerpenna sp.
Leptophlebiidae
TRICHOPTERA
Hydropsychidae
Leptonema sp.
Smicridea sp.
Hydroptilidae
Leuchotrichia sp.
Hydroptila sp.
Oxyethira sp.
Ochrotrichia sp.
Odontoceridae
Marilia sp.
Hydrobiosidae
Atopsyche sp.
Helicopsychidae
Helicopsyche sp.
Calamoceratidae
Phylloicos sp.
Glossosomatidae
Philopotamidae
Chimarra sp.
52
DIPTERA
Chironomidae
Tipulidae
Simulidae
Empididae
Thaumaleidae
Ceratopogonidae
Tabanidae
Dixidae
PLECOPTERA
Perlidae
Anacroneuria sp.
Gripopterygidae
Tupiperla gracilis
MEGALOPTERA
Corydalidae
Corydalus sp.
HEMIPTERA
Veliidae
Mesoveliidae
LEPIDOPTERA
Pyralidae
ODONATA
Libellulidae
Gomphidae
Coenagrionidae
COLEOPTERA
Elmidae
Lampyridae
Dytiscidae
Staphylinidae
Psephenidae
TURBELARIA
OLIGOCHAETA
NEMATODA
Quanto ao índice biológico BMWP (TAB.
8 a 12), pode-se inferir que o ponto de melhor
qualidade de água foi o ponto 1, em janeiro
e fevereiro de 1999, com uma pontuação de
137 e 114, respectivamente (TAB. 9 e 10). Em
seguida, o ponto 4, em abril de 1999, com
uma pontuação de 113. Os piores resultados
foram obtidos nos pontos 3 e 4, com pontuação de 63 e 65, em março e janeiro de 1999,
respectivamente (TAB. 9 e 11). Esses resultados devem estar mais relacionados com as
enchentes ocorridas, que dizimam a fauna
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
aquática local, cuja recomposição leva algum
tempo. Isso pode ser confirmado pela alta
pontuação dos pontos 3 e 4 nos outros meses.
Em média, o melhor ambiente foi o ponto 1,
por apresentar uma mata ciliar preservada e
pouca ou nenhuma influência a montante. Já
o ponto 2 foi o que teve menor qualidade e
diversidade, mas é também o que sofre maior
influência antrópica do Hotel Estalagem das
Minas. Além disso, a ausência da vegetação
nativa intensifica a erosão e, conseqüentemente, o assoreamento dos corpos d’água.
Nesse ponto os parâmetros físico-químicos
indicaram águas com grau de saprobidade
oligo-betamesosapróbio, corroborando em
parte os resultados do BMWP. Em parte porque oligo-betamesosapróbio significa pouca
carga orgânica e, muitas vezes, um pouco de
carga orgânica pode aumentar a produtividade e, conseqüentemente, a riqueza.
TABELA 8
Ocorrência das famílias de macroinvertebrados
aquáticos nos pontos amostrados e resultado do
índice biótico BMWP no mês de dezembro de
1998.
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
EPHEMEROPTERA
Leptohyphidae
x
x
x
x
Baetidae
x
x
x
x
Leptophlebiidae
x
x
TRICHOPTERA
Hydropsychidae
x
Hydroptilidae
x
x
x
x
x
x
Hydrobiosidae
x
Helicopsychidae
Glossosomatidae
Philopotamidae
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
COLEOPTERA
Elmidae
x
DIPTERA
Chironomidae
x
x
x
Tipulidae
x
x
x
Simulidae
x
x
x
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
x
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Empididae
x
x
x
x
Thaumaleidae
Ceratopogonidae
x
x
Tabanidae
x
Dixidae
x
PLECOPTERA
Perlidae
Gripopterygidae
x
x
x
x
x
x
x
x
MEGALOPTERA
Corydalidae
x
x
HEMIPTERA
Veliidae
x
LEPIDOPTERA
Pyralidae
ODONATA
Libellulidae
x
Calopterygidae
x
x
Coenagrionidae
TURBELARIA
x
OLIGOCHAETA
x
x
BMWP
114
64
82
101
Riqueza
19
12
15
18
TABELA 9
Ocorrência das famílias de macroinvertebrados
aquáticos nos pontos amostrados e resultado do
índice biótico BMWP no mês de janeiro de 1999.
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
EPHEMEROPTERA
Leptohyphidae
x
x
x
Baetidae
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Leptophlebiidae
TRICHOPTERA
Hydropsychidae
x
Hydroptilidae
x
Glossosomatidae
Philopotamidae
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
COLEOPTERA
Elmidae
Psephenidade
x
x
DIPTERA
Chironomidae
x
x
Tipulidae
x
x
53
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Simulidae
x
Empididae
x
x
x
x
Thaumaleidae
Tabanidae
x
x
PLECOPTERA
Perlidae
x
x
x
x
Gripopterygidae
x
x
x
x
x
Chironomidae
x
x
x
x
Tipulidae
x
x
x
x
Simulidae
x
x
x
x
Empididae
x
x
Ceratopogonidae
x
x
x
x
Tabanidae
PLECOPTERA
Perlidae
MEGALOPTERA
Corydalidae
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Gripopterygidae
x
x
x
Corydalidae
x
x
x
x
x
x
Libellulidae
x
x
Calopterygidae
x
OLIGOCHAETA
x
x
104
Riqueza
18
14
93
16
x
NEMATODA
12
BMWP
137
Riqueza
23
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Leptohyphidae
x
x
x
x
Baetidae
x
x
x
x
Leptophlebiidae
x
x
x
x
x
Hydropsychidae
x
x
Hydroptilidae
x
x
x
Glossosomatidae
x
x
x
Calamoceratidae
x
x
x
DIPTERA
54
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
COLEOPTERA
Elmidae
x
x
x
Philopotamidae
COLEOPTERA
x
x
TRICHOPTERA
x
Psephenidae
21
x
x
Elmidae
15
Leptophlebiidae
x
x
19
x
x
x
109
Leptohyphidae
x
Philopotamidae
86
EPHEMEROPTERA
Hydroptilidae
Calamoceratidae
111
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Hydropsychidae
x
x
TABELA 11
Ocorrência das famílias de macroinvertebrados
aquáticos nos pontos amostrados e resultado do
índice biótico BMWP no mês de março de 1999.
Baetidae
TRICHOPTERA
Glossosomatidae
x
x
EPHEMEROPTERA
Helicopsychidae
x
Coenagrionidae
65
TABELA 10
Ocorrência das famílias de macroinvertebrados
aquáticos nos pontos amostrados e resultado do
índice biótico BMWP no mês de fevereiro de 1999.
Hydrobiosidae
x
x
OLIGOCHAETA
x
79
x
x
Coenagrionidae
BMWP
x
ODONATA
x
Gomphidae
NEMATODA
x
x
Mesoveliidae
ODONATA
x
x
x
Veliidae
x
Libellulidae
x
HEMIPTERA
LEPIDOPTERA
Pyralidae
x
MEGALOPTERA
HEMIPTERA
Veliidae
x
Psephenidae
x
x
x
x
x
x
x
x
DIPTERA
Chironomidae
x
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
Tipulidae
x
x
x
Tipulidae
Simulidae
x
x
x
Simulidae
Empididae
x
Empididae
Thaumaleidae
x
Ceratopogonidae
Ceratopogonidae
Tabanidae
x
Perlidae
x
x
Gripopterygidae
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Perlidae
x
x
x
x
Gripopterygidae
x
x
x
x
MEGALOPTERA
x
x
Corydalidae
MEGALOPTERA
x
x
HEMIPTERA
Corydalidae
x
HEMIPTERA
Veliidae
Mesoveliidae
x
x
x
ODONATA
x
ODONATA
Libellulidae
Libellulidae
x
Gomphidae
x
x
x
PLECOPTERA
x
PLECOPTERA
Veliidae
x
x
Coenagrionidae
OLIGOCHAETA
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Calopterygidae
x
x
x
BMWP
95
86
111
113
OLIGOCHAETA
x
x
x
Riqueza
15
16
18
19
BMWP
86
80
63
66
Riqueza
16
15
11
12
TABELA 12
Ocorrência das famílias de macroinvertebrados
aquáticos nos pontos amostrados e resultado do
índice biótico BMWP no mês de abril de 1999
Ponto Ponto Ponto Ponto
1
2
3
4
EPHEMEROPTERA
Leptohyphidae
x
x
x
x
Baetidae
x
x
x
x
x
x
Leptophlebiidae
x
TRICHOPTERA
Hydropsychidae
x
x
x
x
Hydroptilidae
x
x
x
x
Helicopsychidae
x
Odontoceridae
x
Glossosomatidae
x
Philopotamidae
x
x
x
x
COLEOPTERA
Elmidae
x
x
Staphylinidae
Psephenidae
x
x
DIPTERA
Chironomidae
x
x
x
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
x
As atividades antrópicas na microbacia
do córrego Tripuí remontam à segunda metade do século XVIII, quando foi encontrado o
ouro preto (paladiado), explorado até meados
do século XIX. Nos dias atuais, a interferência
ocorre devido ao referido hotel, moradores
da reserva e pelo esgoto doméstico de cinco
casas da vila do Tripuí. Esse esgoto é jogado
in natura, entre os pontos de coleta 3 e 4, aumentando a matéria orgânica à jusante e apresentando uma elevação de coliformes fecais
e estreptococos fecais. A construção de uma
estação de tratamento de esgoto já foi prevista no plano de manejo da unidade como ação
emergencial (FEAM, 1995). Seu projeto está
pronto, aguardando recursos.
A microbacia do córrego Tripuí ficou caracterizada como oligosapróbio e em alguns
pontos oligo-betamesosapróbio, ou seja, com
o teor de carga orgânica de ausente até pouco.
Esse aumento do teor de carga orgânica altera
a condutividade, o pH e a turbidez (TAB. 2 e 3).
A microbacia do córrego Tripuí foi caracterizada (FIG. 1) através de um mapa indicativo das
55
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
variações das qualidades de água encontradas em sua calha e em seus afluentes, durante o período de estudo. Todos os parâmetros
analisados estiveram em consonância com os
padrões estabelecidos pela resolução Conama 010/86.
Ramez Safar, Virgínia Mendes Braga, José Bosco Isaac Junior, Alberto Vieira de Melo Matos
e, principalmente, a Aristides Salgado Guimarães Neto. Também agradecemos as valorosas
observações e contribuições dos revisores
anônimos.
Conclusão
As águas da microbacia do córrego Tripuí apresentam boa qualidade em relação
aos parâmetros físico-químicos e biológicos,
variando entre oligosapróbio a oligobetamesosapróbio, ou seja, a carga orgânica varia de
ausente a pouca. Os resultados do BMWP corroboram essa tendência, variando apenas em
poucas ocasiões. Notou-se também que um
pequeno aporte de carga orgânica pode levar
ao aumento da produtividade e, conseqüentemente, da diversidade, desde que o aporte
de carga orgânica não atinja níveis onde fatores limitantes, como o oxigênio dissolvido e
material em suspensão, sejam prejudiciais aos
organismos.
Uma vez conhecida a fauna bentônica e
testada a utilização do índice BMWP adaptado, criam-se condições para a implementação
de um sistema eficiente e barato de monitoramento da qualidade da água da bacia. Esse
monitoramento deve ser incorporado ao plano
de manejo da reserva. A continuidade das pesquisas sobre qualidade da água contribui para
a conservação da biodiversidade. Um mapa de
qualidade de água (FIG. 1) é apresentado.
Agradecimentos
Somos gratos à coordenadoria de proteção à vida silvestre do Instituto Estadual de
Florestas (IEF-MG) pela emissão das autorizações de coleta nos parques do Estado. Agradecemos também a Roger Blahnik e Ralph
Holzenthal, pela identificação dos insetos da
ordem Trichoptera. Ao Fundo Nacional do
Meio Ambiente (FNMA), pelo financiamento.
Aos que colaboraram nas coletas, Margarete
56
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
A qualidade de água e as comunidades de macroinvertebrados aquáticos da Estação Ecológica do Tripuí
Figura 1 - Mapa de avaliação da qualidade da água do Córrego Tripuí.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
57
Amarante, M. C.; Paprocki, H.
Referências
AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Standard methods for the determination of water and
wastewater. 15. ed. Washington: AWWA/WPCH, 1980.
DOMINGUEZ, E.; HUBBARD, M. D.; PETERS, W. L. Clave para ninfas y adultos de las familias y gêneros de
ephemeroptera (insecta) sudamericanos. Biologia Acuatica, la Plata, n. 16, p.1-32, 1992.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 43-58, dez. 2005
Resumos
Resumos
Hábitos alimentares da Corvina plagioscion squamosissimus
(Perciformes, Sciaenidae) em dois reservatórios do sudeste
do Brasil1
Feeding habits of Corvina plagioscion squamosissimus (Perciformes,
Sciaenidae) in two reservoirs in southeastern Brazil
André Corrêa Costa (mestrando)
Gilmar Bastos Santos (orientador)
Resumo
Neste trabalho descreveu–se a ecologia trófica da corvina Plagioscion squamosissimus em dois
reservatórios do rio Grande (MG/SP), Marimbondo e Porto Colômbia, bem como diferenças na morfologia
trófica entre jovens e adultos dessa espécie. As amostragens foram realizadas entre fevereiro e novembro
de 2004, em quatro coletas trimestrais, utilizando-se redes de emalhar, com diferentes tamanhos de malha.
Os exemplares de P. squamosissimus coletados foram separados em jovens e adultos, de acordo com a
primeira maturação sexual. A morfologia trófica de jovens e adultos mostrou diferenças principalmente
na disposição e aumento de dentes e no primeiro arco branquial. Foram analisados 176 estômagos no
reservatório de Marimbondo e 254 em Porto Colômbia, sendo os itens alimentares mais consumidos,
entre os jovens: microcrustáceo (Cladocera e Copepoda), inseto (principalmente Odonata e Diptera),
crustáceo (Macrobrachium sp.), vegetal (macrófitas aquáticas e parte de vegetais superiores) e o item peixe
na fase adulta. O item detrito/sedimento apareceu apenas em dois estômagos, podendo ser considerado
acidental. Foram observadas variações no consumo desses itens entre as estações (seca e chuva). A
espécie se alimentou de presas (peixes) de pequeno porte, que não ultrapassou 4cm de média, não
ocorrendo correlação entre o tamanho do predador e da presa. Os dados obtidos permitem concluir que
P. squamosissimus, nos reservatórios amostrados, apresentou um hábito alimentar insetívoro-piscívoro,
com uma evidente ontogenia trófica, canibalismo presente e comportamento oportunista.
Palavras-chave: Alimentação; Ecologia trófica; rio Grande.
Abstract
The aims of this study were to describe the feeding habits of the corvine Plagioscion squamosissimus
in two reservoirs of Grande River (Minas Gerais and São Paulo states), Marimbondo and Porto Colômbia,
and to detect differences in the trophic morphology among juveniles and adults. From February
to November 2004, 4 samplings were made quarterly by means of gillnets with several mesh sizes.
Collected samples of P. squamosissimus were separated into juveniles and adults, according to the first
sexual maturation. Ontogenetic fish stages were determined through the first sexual maturation length.
The trophic morphology of juveniles and adults showed differences mainly in teeth arrangement and
increment, as well as in the first branchial arch arrangement. One hundred and seventy-six stomachs were
analyzed in the Marimbondo reservoir, and 254 in Porto Colômbia. The main food items eaten by juveniles
were micro-crustaceans (Cladocera and Copepoda), insects (mainly Odonata and Diptera), crustaceans
(Macrobrachium sp.) and plant material (aquatic macrophytes and terrestrial plants). For adult specimens,
fish was the predominant item. Detritus/sediment was detected in two stomachs only, being considered
an accidental item. Variations in the ingestion of those items between dry and wet seasons were also
observed. The species fed on small prey that never reached more than 4cm, there being no relation
1. COSTA, A. C. Hábitos alimentares da Corvina plagioscion squamosissimus (Perciformes, Sciaenidae) em dois reservatórios
do sudeste do Brasil. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
Belo Horizonte, 2005.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
between the predator’s and the prey’s size. Results allow us to conclude that P. squamosissimus shows an
insectivorous-piscivorous feeding habit with a strong trophic ontogeny, cannibalism and an opportunistic
feeding behavior in the sampled reservoirs.
Key words: Food; Trophic ecology; Grande river.
Aspectos ecomorfológicos indicadores de modalidades
locomotoras e estratégias forrageadoras de xenartros
Phyllophaga Owen, 1842 e Vermilingua (Illiger, 1811) atuais e
fósseis intertropicais brasileiros (Xenarthra; Pilosa)2
Ecomorphological aspects indicating locomotion systems and foraging
strategies of living xenartrans Phyllophaga Owen, 1842 and Vermilingua
(Illiger, 1811) and Brazilian intertropical fossils (Xenarthra;
Pilosa
Bruno Machado Kraemer (mestrando)
Robert Young (orientador)
Resumo
As várias modalidades de locomoção de grupos mamalianos não voadores são o resultado de sua
capacidade em adaptar-se em face das forças seletivas. Uma análise mais profunda da variação anatômica
dos membros locomotores de mamíferos xenartros recentes e fósseis permite que se faça uma distinção
mais acurada dessas classes locomotoras principais. Comparando-se as preguiças terrícolas (extintas)
com as arborícolas (viventes) e tamanduás (viventes), as primeiras apresentam morfologia osteológica,
em sua estrutura geral, com claras afinidades com as preguiças e tamanduás, assemelhando-se crânio,
mandíbula e dentes, assim como escápula, aos das preguiças viventes e a coluna vertebral e membros
locomotores aos dos tamanduás. O objetivo principal deste estudo é analisar os aspectos ecomorfológicos
de 12 espécies de xenartros, cinco extintas e sete viventes, pertencentes ao grupo dos Pilosa (preguiças
e tamanduás), com o intuito de identificar modalidades locomotoras preponderantes em cada espécie,
assim como estratégias de forrageamento correlacionadas às especializações locomotoras desenvolvidas.
Os índices morfométricos aqui utilizados foram sete, a saber: índice de flexibilidade do cotovelo (SMI),
índice de braquialidade (BI), índice de capacidade semifossorial (IFA), índice de robustez do fêmur (FRI),
índice de robustez da perna (LRI), índice de cursorialidade (CI) e índice de proporção intermembral (IMI). As
análises discriminantes resultantes mostraram que os índices SMI, LRI e IFA perfazem 96,6% da significância
amostral, apresentando SMI como o índice de maior expressividade, com 65,8%. Foram identificados três
agrupamentos de especializações locomotoras, apresentando maiores valores em investimento de força
nos membros torácicos as preguiças terrícolas, seguidas por tamanduás e preguiças arborícolas. Os maiores
valores de robustez nos membros pélvicos concentraram-se nos tamanduás, seguidos por Eremotherium,
preguiças terrícolas de médio porte e preguiças arborícolas. Essa diversidade mastofaunística no bioma do
2. KRAEMER, B. M. Aspectos ecomorfológicos indicadores de modalidades locomotoras e estratégias forrageadoras de xenartros Phyllophaga Owen, 1842 e Vermilingua Illiger, 1811 atuais e fósseis intertropicais brasileiros (Xenarthra; Pilosa). Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
cerrado pleistocênico pode ser percebida quando comparadas as modalidades locomotoras das diversas
espécies em conjunto com sua morfologia craniana e dentária, identificando-se espécies generalistas e
especialistas altamente adaptadas a esse bioma.
Palavras-chave: Phyllophaga; Vermilingua; Ecomorfologia; Paleobiomecânica; Paleobiologia.
Abstract
The various locomotion systems of non-volant mammals are the result of evolutionary selective
forces. An in-depth analysis of the anatomic variation in locomotor limbs of extant and extinct xenartrans
allows a more accurate distinction of their main locomotor classes. A comparison of ground sloths (extinct)
with arboreal sloth species (extant) and anteaters (extant) shows that ground sloths possess a skeleton,
whose structure has clear affinities with living sloths and anteaters both in terms of cranial and postcranial bones. The main objective of this study was to analyze ecomorphological aspects of 12 species of
xenartrans (five extinct and seven extant) belonging to the group of Pilosa (sloths and anteaters), trying
to identify locomotor modalities in each species, and thus foraging strategies related to their locomotor
adaptations. The seven used morphometric indices were: flexibility of the elbow (SMI); brachial ability (BI);
semi-fossorial ability (IFA); robustness of the femur (FRI); robustness of the leg (LRI); crural ability (CI); and
intermembral proportion (IMI). These indices were analyzed with both discriminant and cluster analysis
using post-cranial material of those species to identify which indices were causing the greatest variation
between species, as well as to group extinct and living species in terms of their locomotor systems. Results
showed that the SMI, LRI and IFA indices account for 96.6% of the variation between the analyzed species
and, therefore, are the most important factors in species separation on an ecomorphological-locomotor
level. The SMI index alone accounted for 65.8% of the variation. Visual inspection of the discriminant
analysis showed the presence of three distinct groupings of species, which were separated by thoracic
member strength into ground sloths, anteaters and, lastly, arboreal sloths. The greatest values for pelvic
limb robustness were found in the anteaters, followed by the Eremotherium, medium-size ground sloths
and, finally, arboreal sloths. In conclusion, the large number of xenartrans living sympatrically in the Cerrado
biome at the end of the Pleistocene can be explained by their locomotor separation, and consequently,
ecological separation (i.e., avoidance of niche competition through different foraging strategies).
Key words: Phyllophaga; Vermilingua; Ecomorphological; Functional Anatomy; Paleobiology.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
Embriogênese e ontogênese larval de três espécies de peixes
Erythrinidae da bacia do rio São Francisco3
Larval embryogenesis and ontogenesis of three species of Erythrinidae
fish of the São Francisco river bay
Bruno Vilaça Campos Gomes (mestrando)
Nilo Bazzoli (orientador)
Resumo
Estudos de ovos e larvas são relevantes para o conhecimento global da biologia e da sistemática de
peixes, principalmente em seus aspectos relacionados à variação ontogênica, morfologia, alimentação,
comportamento e mortalidade. Com o objetivo de comparar os desenvolvimentos embrionário e larval
de três espécies de Erythrinidae da bacia do São Francisco, exemplares de jejú, Hoplerythrinus unitaeniatus,
de traíra Hoplias malabaricus e de trairão Hoplias lacerdae foram submetidos à reprodução induzida por
hipofisação. A extrusão dos gametas ocorreu com 13h após a aplicação da última dose para H. malabaricus e
H. lacerdae e com 16h para H. unitaeniatus à temperatura de 26°C. Os ovos, após fertilização, foram mantidos
em incubadoras à temperatura de 24°C. Para acompanhar o desenvolvimento embrionário, coletaram-se
amostras de ovos das incubadoras de uma em uma hora até a eclosão, as quais foram analisadas sob
microscópio estereoscópio. As larvas foram coletadas diariamente até a total reabsorção do saco vitelino,
fixadas em solução de formalina neutra 10% para biometria e em líquido de Bouin para histologia. Ovos de
Erythrinidae são esféricos, amarelos e adesivos. O tempo de desenvolvimento embrionário variou entre as
espécies, 44h para H. unitaeniatus, 48h para H. malabaricus e 50h para H. lacerdae. Larvas de jejú eclodiram
com comprimento total de 4,20±0,28 mm, enquanto as de H. malabaricus e H. lacerdae eclodiram com
5,40±0,30 e 5,72±0,39 mm, respectivamente. Larvas das três espécies apresentaram abertura da boca a
partir do sexto dia pós-eclosão. Em H. malabaricus e H. lacerdae a total reabsorção do saco vitelino ocorreu
com 10 e 12 dias respectivamente, enquanto em H. unitaeniatus ela foi de nove dias. As características
de ovos, embriogênese e a ontogênese larval das espécies do presente trabalho corroboram com outros
estudos que mostram serem estas sedentárias e adaptadas à sobrevivência em ambientes com baixa
concentração de oxigênio.
Palavras-chave: Embriologia; Ontogenia; Teleostei; rio São Francisco.
Abstract
Research into fish eggs and larvae is important to the global knowledge of general biology and fish
systematics, mainly in what concerns ontogenic variation, morphology, feeding, behavior and mortality.
With the purpose of comparing the embryonic and larval development of three species of Erythrinidae
fish of the São Francisco basin, jejús, Hoplerythrinus unitaeniatus and trahiras, Hoplias malabaricus and
Hoplias lacerdae were induced to spawning through hypophysation. Extrusion of gametes occurred 13h
after the last dose in H. malabaricus and H. lacerdae, and 16h in H. unitaeniatus, at water temperature of
26°C. The eggs, after fertilization, were maintained in incubators at 24°C. To accompany the embryonic
development, samples of fresh eggs were collected at 1-hour intervals until hatching, and were analyzed
under stereoscope microscope. The larvae, collected at 24-hour intervals until the complete absorption
of the yolk sac, were fixed in neutral formalin solution at 10% for biometry purposes and in Bouin’s fluid
for histological analyses. Eggs of Erythrinidae are round, yellow and adhesive. The time of embryonic
development was different among the species: 44h for H. unitaeniatus, 48h for H. malabaricus and 50h for
3. GOMES, B. V. C. Embriogênese e ontogênese larval de três espécies de peixes Erythrinidae da bacia do rio São Francisco.
Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
H. lacerdae. Larvae of jejú hatched with a total length of 4.20±0.28, while larvae of H. malabaricus and H.
lacerdae hatched with 5.40±0.30 and 5.72±0.39, respectively. Larvae of the three species showed mouth
opening after the 6th day post-hatching. In H. malabaricus and H. lacerdae, the complete absorption of the
yolk sac happened after 10 and 12 days, respectively, while in H. unitaeniatus it occurred on the 9th day. The
features of eggs, embryonic and larval development of the species studied in this research confirm that
they are sedentary and totally adapted to survival in environments with low oxygen content.
Key words: Embriology; Ontogeny; Teleostei; São Francisco river.
Teores de mercúrio total em Rhandia quelen (Quoy &
Gaimard, 1824) e sua relação com os parâmetros físicos,
químicos e físico-químicos do rio Piracicaba em Minas Gerais4
Total mercury concentrations in Rhandia quelen (Quoy & Gaimard,
1824) and their relation with physical, chemical and physical-chemical
parameters of Piracicaba river, State of Minas Gerais
Carolina Decina Vieira (mestranda)
Maria Tereza Candido Pinto (orientadora)
Resumo
O presente trabalho avalia a concentração de mercúrio total em tecido muscular de bagre Rhandia
quelen e seu potencial risco para a saúde da população humana, que o consome. Os peixes foram
capturados em um trecho do curso médio do rio Piracicaba, tributário do rio Doce, pela margem esquerda.
As quantificações do mercúrio nos peixes e no sedimento foram feitas por espectrometria de absorção
atômica analyst 100/ Perkin Elmer acoplado a sistema de geração de vapor frio MHS-20. A contaminação do
rio foi avaliada através de amostras de sedimento, coletadas em quatro pontos situados ao longo do trecho
estudado, e sua dinâmica química foi inferida através dos teores de carbono orgânico do sedimento e das
medidas de pH, oxigênio dissolvido, condutividade elétrica, temperatura, Secchi e teores de sólidos totais
e dissolvidos na água, capazes de determinarem as formas químicas do metal nos dois compartimentos
do rio: coluna d’ água e sedimento. A correlação positiva dos sólidos dissolvidos e em suspensão na água
com o mercúrio do sedimento nos pontos amostrais localizados na porção de menor vazão do rio (porção
lêntica) indicou o escoamento superficial do solo como a principal via de contaminação do sistema e
apontou esses locais como ideais para a acumulação de matéria orgânica e inorgânica lançada a jusante,
assim como para a síntese das espécies químicas que são preferencialmente absorvidas pelos organismos
da cadeia trófica, terminando por contaminar os peixes. A concentração do mercúrio nos peixes oscilou ao
longo do ano amostral (janeiro a dezembro de 2001) entre valores não percebidos pelo método utilizado
(<4,0 ng/g p.f.) no verão, aos maiores teores (123,8 ng/g p.f.) medidos na estação seca (maio). Ainda que tais
valores estivessem abaixo do permitido pela legislação brasileira (500 ng/g p.f.) para consumo de pescado
contaminado, para os sedimentos os valores foram elevados (0,02 - 0,16 mg/g PS) e, ao se apresentarem
acima do estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (0,1 mg/g PS), confirmaram a contaminação
do sistema pelo metal.
Palavras-chave: Mercúrio; Cadeia trófica; Rhandia quelen; rio Piracicaba.
4. VIEIRA, C. D. Teores de mercúrio total em Rhandia quelen (Quoy & Gaimard, 1824) e sua relação com os parâmetros físicos, químicos e físico-químicos do rio Piracicaba em Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados).
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
Abstract
This study evaluates total mercury concentrations in muscle tissue of Rhandia quelem and their
potential risk for human health. The fish were captured in a segment of the medium course of Piracicaba
River, a tributary of Doce River, on the left margin. In that segment, the river presents two different
physiographic characteristics: the lotic ones flow faster and are deeper, and the lentic ones present
small depth and slower flow. The mercury quantification in fish and sediments was measured by atomic
absorption spectrometry made by Analyst 100/Perkin-Elmer equipment connected to MHS-20 cold vapor.
The river contamination was evaluated through sediment samples, collected in four different sites along
the studied course, and its chemical dynamics was inferred through organic carbon levels in the sediment
and the pH measures, dissolved oxygen, conductivity, temperature, Secchi and levels of suspended matter
in the water, capable of determining the metal chemical transformation in both river compartments: water
and sediment. The positive correlation between dissolved matter and suspended solids on the water with
mercury from the sediment in the sample points located in the portion of slow river flow indicated that
the soil superficial runoff was the main way for the system contamination. Due to the natural barriers
(meanderings) and artificial ones (Piracicaba Dam) in the sampling points, the place is ideal to accumulate
organic and inorganic matter thrown downstream, the same occurring for chemical species syntheses
that are preferably absorbed by trophic web organisms, resulting in fish contamination. The total mercury
levels in fish oscillated all sampling year long (January to December, 2001), presenting values not quantified
by the used method (<4.0 ng/g ww) in the summer, and higher levels (123.8 ng/g ww) quantified in dry
season (May). Even if those values were below the ones recommended by Brazilian Legislation (500 ng/g
ww) for human consumption of contaminated fish, they were higher for the sediments (0.02-0,16 mg/g
dw; range values) and, when they exceeded the limits established by the World Health Organization (0.1
mg/g dw), they confirmed the system contamination by the metal.
Key words: Mercury; Trophic chain; Piracicaba river.
Quantificação de mercúrio em órgãos celomáticos de
Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1842) e sua relação
com parâmetros abióticos do rio Piracicaba, Minas Gerais5
Mercury contamination in celomatic organs of Geophagus brasiliensis
(Quoy & Gaimard, 1842) and its relation with abiotic parameters of
Piracicaba river, State of Minas Gerais
Domingos Sávio Pereira (mestrando)
Maria Tereza Candido Pinto (orientadora)
Resumo
No presente estudo foram investigadas as contaminações por mercúrio total no sedimento e em
órgãos da cavidade celomática de Geophagus brasiliensis capturados em um trecho de aproximadamente
20 km do Rio Piracicaba, que passa pelo interior do município de Rio Piracicaba, em Minas Gerais, no
período de janeiro a dezembro de 2001 e nos meses de maio e junho de 2004. Uma caracterização do rio
foi feita através de medidas limnológicas, in situ, com aparelhos da marca Digimed. Os teores de mercúrio
5. PEREIRA, D. S. Quantificação de mercúrio em órgãos celomáticos de Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1842) e sua
relação com parâmetros abióticos do rio Piracicaba, Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados).
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
total no sedimento e nos peixes foram quantificados por espectrometria de absorção atômica, acoplada
a sistema de geração de vapor frio. No segmento estudado, o rio foi pouco profundo e conteve águas
ligeiramente aquecidas, levemente ácidas, bem oxigenadas, com baixos teores de sólidos totais suspensos
e dissolvidos, além de baixos valores de condutividade elétrica. A relação dessas variáveis com os teores
de carbono orgânico e mercúrio total do sedimento demonstrou condições favoráveis à metilação do
metal e sua incorporação nos peixes, em especial no trecho lêntico do rio. No sedimento, os teores médios
mensais de carbono orgânico variaram entre 5,53 (valor mínimo) e 7,31% P.S. (valor máximo), enquanto
os de mercúrio total variaram de 0,04 a 0,11µg/g p.s., alguns deles situados acima do permitido pela
Organização Mundial de Saúde (1998; 0,10µg/g). Nos órgãos e tecido adiposo da cavidade celomática dos
espécimes de Geophagus brasiliensis capturados, os maiores valores de mercúrio ocorreram na estação
seca (0,131µg/g p.s.; maio), sugerindo a influência da dieta na contaminação dos peixes, assim como
o efeito diluidor da gordura acumulada na sua cavidade celomática, durante a estação chuvosa. Todos
os teores situaram-se abaixo do permitido pela legislação brasileira (1998), estabelecido em 0,5µg/g. O
hepatopâncreas e os demais órgãos da cavidade celomática (baço, gônadas, ductos do sistema excretor,
reprodutor e tecido adiposo = resto) revelaram uma relação direta entre as classes de tamanho dos peixes
e os teores de mercúrio total. Tal resultado indicou que a biomagnificação ocorreu nas classes de maior
tamanho e, portanto, nos espécimes mais velhos. O tubo digestivo apresentou teores de mercúrio que não
variaram significativamente com o aumento das classes de tamanho dos organismos, sugerindo ausência
de biomagnificação nessa porção do sistema. Tal resultado, associado à fisiologia do tubo digestivo,
permitiu que se concluísse pela sua capacidade de absorção do metal.
Palavras-chave: Mercúrio; Cadeia trófica; Geophagus brasiliensis; rio Piracicaba.
Abstract
This study investigated the total mercury contamination in the sediment and in celomatic organs
of Geophagus brasiliensis captured in a 20-km stretch of the Piracicaba River, which crosses the city of
Piracicaba, State of Minas Gerais. Specimens were captured from January to December, 2001, and in May and
June, 2004. The river was characterized liminologically, in situ, with Digimed instruments. The total mercury
in the sediment and fish was quantified by cold-vapor atomic absorption spectrometry. In the studied
stretch, the river was not very deep and the water was relatively warm, a little acid, well oxygenated, with
low levels of suspended and dissolved matter, and low conductance. The relation between these variables
and organic carbon and total mercury in the sediment showed favorable conditions for metal metilation
and its accumulation in fish, especially in the lentic section of the river. In the sediment, the monthly mean
values of organic carbon varied between 5.53 (minimum value) and 7.31% d.w. (maximum value), while
the total mercury values varied from 0.04 to 0.11µg/g d.w. Some of the values encountered exceeded that
permitted by the World Health Organization (1998; 0.10µg/g). In the celomatic organs and fat tissue from
Geophagus brasiliensis, the higher mercury values occurred during the dry season (0.131µg/g d.w.; May),
suggesting the direct influence of diet on fish contamination, as well as the dilution effect of accumulated
fat in the celoma, during the wet season. All contamination levels were below that allowed by the Brazilian
legislation (1998) (0.5µg/g). The hepatopancreas and the other celomatic organs (spleen, gonads, ducts
of excretory and reproductive systems and fat matter = rest), revealed a direct relationship between fishsize classes and total mercury contamination. This result indicated that biomagnification had occurred in
larger-size classes, therefore, in older specimens. The digestive tube results for mercury contamination did
not vary significantly with the increase of fish-size classes, suggesting the absence of biomagnification in
that portion of the system. Such result, associated to the organ physiology, demonstrated the capacity of
the digestive tube to absorb mercury, as well as the low predisposition to accumulate it.
Key words: Mercury; Trophic chain; Geophagus brasiliensis; Piracicaba river.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
O homem, as matas ciliares e os peixes de Lagoa da Prata, no
Alto São Francisco: um estudo das inter-relações6
Man, riparian vegetation and fish in Lagoa da Prata, upstream São
Francisco River: a study of interrelations
Flávia Peres Nunes (mestranda)
Maria Tereza Candido Pinto (orientadora)
Resumo
A manutenção da integridade ambiental da vegetação ciliar é um pré-requisito para a preservação do
rio, de seus recursos pesqueiros e do solo do entorno, pois, por se instalarem na região de interface terra/
água, as matas influenciam tanto o sistema terrestre quanto o aquático. Embora estudos que abordem
a relação terra/água/homem no município de Lagoa da Prata sejam inexistentes, essa cidade merece
destaque, por se inserir na porção alta da bacia hidrográfica do rio São Francisco, fortemente impactado,
na região, pelo despejo dos dejetos provenientes, sobretudo, do cultivo de cana-de-açúcar, estabelecido
no local como principal atividade econômica. Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo
resgatar junto a dois grupos de indivíduos residentes no município, o de pescadores (N=10), praticantes de
alguma modalidade de pesca, esportiva ou profissional, e o de ambientalistas (N=10), formado por pessoas
envolvidas com as atividades das ONGs ambientalistas locais e que convivem com as matas ciliares da região,
o conhecimento empírico sobre esse tipo de vegetação, bem como sua importância para a manutenção
da integridade dos rios São Francisco e Santana, no trecho de seus cursos em Lagoa da Prata, no período
compreendido entre outubro de 2001 e fevereiro de 2002. Os grupos foram submetidos a um questionário
semi-estruturado com perguntas abertas e fechadas. Embora revelassem perfis socioculturais distintos,
especialmente no tocante à formação escolar e diferente motivação para o convívio com as matas ciliares
da região, os dois grupos foram unânimes em atribuir importância às matas ciliares para a preservação da
qualidade ambiental do ecossistema aquático que lhe é adjacente. Demonstraram também conhecimento
empírico sobre a composição ictíca dos rios Santana e São Francisco, relacionando-a inclusive às suas
condições físicas e químicas, no trajeto de seus cursos pelo município, além de conhecimento sobre
as dimensões, composição florística e dinâmica de funcionamento da vegetação ciliar nativa (Mata do
Urubu) que lhes é adjacente. Tal fato não ocorreu em relação ao reflorestamento da Fazenda Capoeira
da Cana, considerado por eles inadequado à proteção do rio Santana, por seu tamanho reduzido e por
conter espécies não nativas da região (exóticas e frutíferas). O saber empírico dos pescadores sobre a
inter-relação mantida entre a vegetação ciliar e os rios foi construído pelo seu convívio cotidiano com
o ambiente, sobretudo pela necessidade de conhecerem o funcionamento do ecossistema aquático
para obterem sucesso nas atividades de pesca, enquanto o dos ambientalistas foi adquirido durante sua
formação escolar e, principalmente, durante as práticas conservacionistas promovidas pelas ONGs de
Lagoa da Prata, tais como os plantios de talhões de vegetação ciliar e programas de educação ambiental.
Ao manterem um convívio permanente com a região de interface terra/água, pescadores e ambientalistas
demonstraram percepções que se igualaram ou mesmo se sobrepuseram ao citado na literatura técnicocientífica. Dessa forma, eles se revelaram uma fonte rica de informações para o aprimoramento das
estratégias de preservação e recuperação da vegetação ciliar no município e região.
Palavras-chave: Inter-relação; Homem; Matas Ciliares; bacia do rio São Francisco.
6. NUNES, F. P. O homem, as matas ciliares e os peixes de Lagoa da Prata, no Alto São Francisco: um estudo das inter-relações. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2005.
68
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
Abstract
The maintenance of the environmental integrity of riparian vegetation is a prerequisite for the
preservation of a river, of its fishing resources and the surrounding soil, as, given their location in the landwater interface, the bushes influence the terrestrial and aquatic systems. Although there are no studies
on the relation land-water-man in the city of Lagoa da Prata, the place deserves prominence for being
inserted in the high portion of the hydrographic basin of the São Francisco River, strongly affected in the
area by ousting of the dejections mostly from sugar cane culture, the region’s main economic activity.
In that context, this study aimed to detect, in the period between October, 2001 and February, 2002,
in two groups of local residents (one of 10 fishermen or people involved in some modality of leisure or
professional fishing, and one of 10 conservationists or people engaged in local environmental NGOs’
activities and coexisting with the riparian bushes in the region), their empirical knowledge of this type of
vegetation, as well as of its importance to preserve the integrity of the San Francisco and Santana rivers in
the region of Lagoa da Prata. The groups answered a semi-structured questionnaire with open and closed
questions. Although presenting distinct social and cultural profiles, especially regarding schooling and
motivations for contact with riparian bushes, the two groups were unanimous in giving importance to
those bushes for the preservation of environmental quality of the adjacent aquatic ecosystem. They also
demonstrated empirical knowledge of the icthyofauna composition of Santana and São Francisco rivers,
relating it to the physical and chemical conditions along their courses through the city, besides knowledge
of the dimensions, vegetation and functional dynamics of the adjacent native riparian forest (Urubu Bush).
This did not occur in relation to the Sugar Cane Capoeira Farm Reforestation, which they considered
inadequate to the protection of the Santana River, as it is reduced in size and contains non-native species
(exotic and fruitful). The fishermen’s empirical knowledge concerning the interrelation between riparian
vegetation and the rivers was constructed through their daily contact with the environment, mainly their
need to know the aquatic ecosystem functioning in order to succeed in their fishing activities. On the
other hand, the conservationists’ was acquired during their studies and mainly through conservationist
practices promoted by NGOs in Lagoa da Prata, such as riparian vegetation reforestation activities and
environmental education programs. In keeping a permanent contact with the land-water interface, fishers
and conservationists demonstrated perceptions equal or superior to what is recorded in the technical
and scientific literature. Thus, they proved to be a very rich source of information for the improvement of
strategies to preserve and recover riparian vegetation in the city and its region.
Key words: Interrelation; Man; Riparian zone; São Francisco river basin.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
Aspectos biológicos, ecológicos e comportamentais do
lobo-guará, Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815) (Mammalia:
Canidae), segundo os moradores do entorno da Reserva
Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Caraça7
Biological, ecological and behavioral aspects of the maned wolf,
Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815) (Mammalia: Canidae), according
to dwellers of the Private Reserve of the Natural Heritage of Serra do
Caraça)
Graziela Mendes Resende (mestranda)
Sonia Nicolau dos Santos (orientadora)
Resumo
Neste trabalho apresenta-se um estudo de caso desenvolvido com os moradores de duas
comunidades – Santana do Morro e Sumidouro – do entorno da Reserva Particular do Patrimônio Natural
(RPPN) do Caraça, Catas Altas, Minas Gerais. Expõem-se as imagens que os moradores locais constroem
sobre o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Objetivou-se resgatar, descrever e analisar os conhecimentos
dos moradores sobre o animal, as interfaces entre a literatura científica (modelo operacional) e os
conhecimentos etnobiológicos (modelo percebido). Também são analisadas as percepções e as atitudes
relativas à conservação do lobo e as indicações valorativas sobre uso e crenças existentes acerca da espécie e
os significados subjetivos e/ou atitudes racionais em relação ao comportamento de ataque do lobo-guará.
A coleta de dados foi realizada entre agosto de 2002 e agosto de 2003. Um censo por moradia foi realizado,
no qual entrevistas semi-estruturadas com questões abertas foram aplicadas. Quando os moradores das
duas comunidades descrevem o lobo-guará, recorrem a três padrões cognitivos distintos: identificação
de outro animal definido como semelhante através de critérios morfológicos ou qualificações pessoais
ou morais; categorias ou qualificações pessoais e morais, sem usar outro animal para compor a descrição
ou observar características físicas e a associação desses dois últimos padrões e critérios. A freqüência de
expressões que depreciam o lobo é menor em Santana do Morro do que em Sumidouro. Em Santana do
Morro, o padrão de associação a outro animal semelhante ao lobo-guará é predominante. Em Sumidouro os
padrões são mais complexos e verifica-se maior flexibilidade entre os três padrões estabelecidos. O padrão
de atribuição que dispensa o emprego de outro animal é a imagem predominante em Sumidouro (44%).
Em relação aos etnoconhecimentos, a maioria dos moradores dá informações sobre comportamentos
ecológicos e o maior número de respostas se concentra no hábito cursorial noturno-crepuscular. O
turismo é a razão mais apontada para a conservação do lobo-guará. Não há indícios de que os moradores
não desejem ou sejam indiferentes à presença do lobo na região, embora as percepções aproximem-se
mais de atitudes econômicas ou de cunho religioso. Os usos mais freqüentes que os moradores fazem de
partes do lobo são o couro e o pêlo, principalmente para usos místicos. A crença em um animal ameaçador
é relatada por alguns moradores em Santana do Morro e em Sumidouro. Existe entre os moradores uma
imagem do lobo como animal que ataca galinhas e pessoas. Quanto ao ataque às pessoas, a percepção é
de ordem cultural subjetiva. O que os moradores percebem como ataque pode estar relacionado com o
comportamento de defesa da prole ou de defesa de território do lobo. Partindo-se das percepções desses
moradores é possível substituir, modificar a idéia de que o lobo é um animal feroz e violento por natureza.
Espera-se que esses resultados sirvam para subsidiar atividades em educação ambiental e gestão dessa
7. RESENDE, G. M. Aspectos biológicos, ecológicos e comportamentais do lobo-guará, Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815)
(Mammalia: Canidae), segundo os moradores do entorno da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Caraça. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
unidade de conservação que efetivem a participação das comunidades, tomando-se como referência os
etnoconhecimentos existentes.
Palavras-chave: Etnoconhecimentos; Percepção Ambiental; Moradores locais; RPPN do Caraça.
Abstract
This is a case study developed with dwellers of two communities – Santana do Morro and Sumidouro
– of the Private Reserve of the Natural Heritage of Serra do Caraça, Catas Altas municipality, Minas Gerais
State. Local dwellers’ images of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus) are presented. The aim was to
describe and analyze those dwellers’ knowledge of the animal, and to examine interfaces between the
scientific literature (operational model) and ethno-biological knowledge (perceived model). Perceptions
and attitudes concerning the maned wolf conservation, value indications about existing uses and beliefs
concerning the species, as well as subjective meanings and/or rational attitudes related to attack by
the maned wolf, were analyzed. Data were collected from August, 2002 to August, 2003. A census per
residence was made, through semi-structured interviews with open questions. When dwellers from
the two communities describe the maned wolf, they make use of three distinct cognitive patterns:
identification of another animal defined as similar according to morphological criteria, or moral or personal
qualifications; moral and personal categories or qualifications, without using another animal to compose
the description or observe physical characteristics; and the association of those two patterns and criteria.
The frequency of expressions depreciating the wolf is smaller in Santana do Morro than in Sumidouro. In
Santana do Morro, the pattern of association to another animal similar to the maned wolf is predominant.
In Sumidouro, the patterns are more complex and there is more flexibility between the three established
ones. The attribution pattern, which dispenses with the use of another animal, is the predominant image
in Sumidouro (44%). In relation to ethno-knowledge, most dwellers give information about ecological
behavior, and most answers concern cursorial nocturne-crepuscular habit. Tourism is the main reason to
conserve the maned wolf. There is no indication that dwellers do not desire or are indifferent to the maned
wolf’s presence in the region, although their perceptions are related to economic or religious viewpoints.
The most frequent wolf’s parts used by them are the leather and hair, mainly for mystic purposes. Belief in
a threatening animal is reported by some in Santana do Morro and Sumidouro. One image incorporated
by them is that the wolf is an animal that attacks hens and people. As to attacking people, the perception
is of a subjective cultural nature. What dwellers perceive as attack could be related to defense of the
maned wolf’s offspring or territory. It is possible to change the belief that the maned wolf is a violent
and ferocious animal by nature. These results can be used as an instrument for environmental education
and management activities related to this conservation unit involving the communities’ participation with
basis on the existent ethno-knowledge.
Key words: Ethnoknowledges; Environmental perception; Local dwellers; RPPN do Caraça.
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Resumos
Estrutura espacial e temporal da anurofauna associada a
poças naturais na Reserva Particular do Patrimônio Natural
(RPPN) Serra do Caraça, MG8
Spatial and temporal structure of anuran fauna associated to natural
ponds in the Private Reserve of the Natural Heritage of Serra do Caraça,
Minas Gerais State
Kátia Alcione Kopp (mestranda)
Paula Cabral Eterovick (orientadora)
Resumo
Os trabalhos aqui apresentados abordam aspectos referentes à distribuição espacial e temporal da
anurofauna associada a poças naturais. No primeiro capítulo três assembléias de anuros que ocorrem
em poças naturais foram estudadas em relação à composição de espécies, partição de microambientes,
distribuição espacial e temporal das atividades reprodutivas e à influência de alguns fatores abióticos
nos padrões observados. Vinte e duas espécies representantes de quatro famílias (Bufonidae, Hylidae,
Leptodactylidae, e Microhylidae) foram registradas durante o estudo. O mês de ocorrência, a altura em
relação ao solo e tipo de substrato foram as variáveis mais importantes para distinguir as espécies de
anuros. O número total de espécies e o número de espécies com machos em atividade de vocalização
registrados para as três poças foram positivamente correlacionados com a precipitação média mensal
e a temperatura no campo. Os resultados obtidos apontam para a importância da vegetação marginal
para as atividades reprodutivas dos anuros, provendo disponibilidade de microambientes para um grande
número de espécies com requerimentos particulares. No segundo capítulo, no contexto do uso e partição
de recursos por assembléias de girinos, três poças naturais foram estudadas no Sudeste do Brasil com a
intenção de inventariar as espécies de anuros que usavam as poças durante seu estágio larval, descrever sua
distribuição temporal e espacial, inventariar os potenciais predadores de girinos e relacionar a riqueza de
espécies de girinos à presença dos seus potenciais predadores. Onze espécies de girinos foram registradas
nas três poças estudadas. A posição dos girinos na coluna d’água, a profundidade da água e presença
de vegetação aquática foram as variáveis mais importantes para discriminar entre as espécies de girinos.
Doze famílias de insetos aquáticos considerados como potenciais predadores de girinos foram registradas
nas três poças amostradas. A riqueza de espécies de girinos não foi relacionada ao número de tipos de
predadores potenciais de girinos nas poças, nem à abundância dos predadores. Este estudo contribui
para maior conhecimento da organização das comunidades de girinos neotropicais. No terceiro capítulo,
através do acompanhamento de um experimento em campo, foram examinados os efeitos de predadores
e da vegetação aquática na sobrevivência de girinos de Dendropsophus minutus e Scinax curicica em
Minas Gerais, Sudeste do Brasil, pela quantificação de como os refúgios para os girinos influenciam as
taxas de predação por baratas d’água (Belostoma oxyurum, Belostomatidae, Heteroptera). Considerando
que estudos prévios sobre seleção de microambientes têm mostrado que algumas espécies de girinos
preferem microambientes com vegetação aquática no Sudeste do Brasil, formulou-se a hipótese de que
esses girinos são vulneráveis a predadores co-ocorrentes e podem selecionar tais microambientes porque
estes podem oferecer alguma proteção contra insetos aquáticos predadores. Usamos gaiolas no campo
contendo girinos de duas espécies de Hylidae (Dendropsophus minutus e Scinax curicica) nos estágios de
desenvolvimento 26-30 e um predador (Belostoma oxyurum), colocadas em substrato natural em locais
com e sem vegetação aquática, de acordo com o tratamento. Medimos os efeitos do predador e da
complexidade ambiental na sobrevivência dos girinos, monitorando cada gaiola diariamente durante dez
8. KOPP, K. A. Estrutura espacial e temporal da anurofauna associada a poças naturais na Reserva Particular do Patrimônio
Natural (RPPN) Serra do Caraça – MG. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
dias para amostrar os girinos sobreviventes. Os tratamentos com predadores reduziram significativamente
a sobrevivência dos girinos em relação aos controles, para ambas as espécies de girinos. A interação entre
os predadores e a vegetação também foi significante, uma vez que as taxas de predação foram menores
quando a vegetação estava presente. Este estudo demonstra que a complexidade estrutural do ambiente
reduz as taxas de predação por baratas d’água e não deve ser ignorada em estudos que queiram verificar
a importância da predação para a estruturação das comunidades de girinos.
Palavras-chave: Distribuição; Espacial; Estacional; Poças naturais; Anurofauna; RPPN Serra do
Caraça.
Abstract
The work presented here focuses on aspects of the spatial and temporal distribution of anuran
assemblages in natural ponds. In the first chapter, three anuran assemblages occurring in natural ponds
were studied regarding species composition, microhabitat partitioning, temporal and spatial distribution
of reproductive activities, and the influence of some abiotic factors on the observed patterns. Twentytwo species belonging to four families (Bufonidae, Hylidae, Leptodactylidae and Microhylidae) were
recorded during the study. The month of occurrence, height above ground and kind of substrate were the
most important variables to discriminate anuran species. The total number of species and the number of
species with calling males recorded in the three ponds were positively correlated with the mean monthly
rainfall and temperature in the field. Results obtained in this study point out the importance of marginal
vegetation to anuran reproductive activities, providing suitable microhabitats for a large variety of species
with particular needs. In the second chapter, in the context of resource use and partitioning by tadpole
assemblages, three natural ponds were studied in southeastern Brazil, aiming to list the anuran species
using the ponds during larval stage, to describe their temporal and spatial distribution, to list potential
tadpole predators, and to relate tadpole species richness to the predators’ presence. Eleven tadpole
species were recorded in the three studied ponds. Tadpole position in the water column, water depth and
the presence of aquatic vegetation were the most important variables to discriminate tadpole species.
Twelve families of aquatic insects considered potential tadpole predators were recorded in the three
sampled ponds. Tadpole species richness was not related to the number of types of potential tadpole
predators in the ponds, nor to predator abundance. This study contributes to a deeper knowledge of the
organization of neotropical tadpole communities. In the third chapter, through field work, we examined
the effects of predators and aquatic vegetation on the survival of tadpoles Dendropsophus minutus and
Scinax curicica in Minas Gerais, Southeastern Brazil, by measuring how refugia for tadpoles influence the
rates of predation by water bugs (Belostoma oxyurum, Belostomatidae, Heteroptera). Considering previous
studies on microhabitat selection have demonstrated that some tadpole species prefer microhabitats
with aquatic vegetation at sites in Southeastern Brazil, a hypothesis was formulated that those tadpoles
are vulnerable to co-occurring predators and may select such microhabitats because they can offer some
protection against predatory aquatic insects. Field enclosures containing tadpoles from two species of
Hylidae (Dendropsophus minutus and Scinax curicica) at development stages 26-30 and one predator
(Belostoma oxyurum) were placed on natural substrata in sites both with and without aquatic vegetation,
according to the treatment. The effects of the predator and habitat complexity on the tadpoles’ survival
were measured by monitoring each enclosure daily during 10 days to survey surviving tadpoles. Treatments
with predators reduced the tadpoles’ survival significantly in relation to controls for both tadpole species.
The interaction between predator and vegetation was also significant, predation rates being lower when
vegetation was present. This study demonstrates that the habitat structural complexity reduces tadpole
predation by water bugs and cannot be ignored in studies aiming to assess the importance of predation
to tadpole community structure.
Key words: Distribution; Spacial; Temporal; Natural ponds; Anuran assemblages; RPPN Serra do
Caraça.
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Resumos
Estrutura temporal e espacial de comunidades de anuros em
riachos de mata na RPPN Serra do Caraça (Catas Altas, Minas
Gerais)9
Temporal and spatial structure of anuran communities in forest streams
at Serra do Caraça (Catas Altas, State of Minas Gerais)
Lílian Gomes Afonso (mestranda)
Paula Cabral Eterovick (orientadora)
Resumo
A comunidade de anuros da RPPN Serra do Caraça, localizada no município de Catas Altas (MG), foi
estudada de agosto de 2003 a outubro de 2004 em oito riachos permanentes de mata. Foram registradas
19 espécies de anuros pertencentes a quatro famílias: Bufonidae (10.53%), Centrolenidae (5,26%), Hylidae
(63,16%) e Leptodactylidae (21,05%). Houve uma relação negativa significativa entre o número de espécies
presentes e o volume dos riachos. Não houve uma relação entre os fatores abióticos (precipitação e
temperatura) e a diversidade de espécies por mês e a diversidade de espécies vocalizando, mas os anuros
apresentaram diferenças quanto à distribuição temporal. Das 19 espécies encontradas, 12 apresentaram
atividade de vocalização e para dez espécies foram encontrados indícios de atividade reprodutiva, como
fêmeas ovadas, pares em amplexos, desovas, girinos e jovens recém-metamorfoseados. O tamanho dos
riachos parece ser um importante fator que determina a riqueza de espécies de anuros local. A relativa
estabilidade climática dos riachos de mata favorece as espécies de anuros com período reprodutivo
longo, bem como o aumento do período reprodutivo de espécies mais flexíveis. A utilização do nicho
espacial pelos anuros adultos foi estudada em oito riachos de mata na RPPN Serra do Caraça localizada
no município de Catas Altas (Minas Gerais). Os microambientes avaliados foram classificados em 18
tipos baseados nos substratos, na distância e na altura da água. Um total de 440 anuros de 19 espécies
apresentou grande seletividade na utilização desses microambientes. Espécies com nichos mais amplos
(mais generalistas) não ocuparam um maior número de riachos do que as espécies mais especialistas, nem
os riachos com maior riqueza de espécies apresentaram espécies com valores mais estreitos de nicho. As
espécies apresentaram variados níveis de sobreposição na utilização dos microambientes. O padrão de
distribuição observado neste estudo sugere que a competição não é um importante fator a influenciar a
estrutura espacial das comunidades de anuros de riachos permanentes de mata.
Palavras-chave: Estrutura; Espacial; Temporal; Riachos; Comunidade de anuros; RPPN Serra do
Caraça.
Abstract
Anuran communities were studied at eight permanent forest streams located in the Private Reserve
of the Natural Heritage of Serra do Caraça, located in the municipality of Catas Altas, State of Minas Gerais,
southeastern Brazil, from August, 2003 to October, 2004. A total of 19 anuran species from four families
were recorded: Bufonidae (10.53%), Centrolenidae (5.26%), Hylidae (63.16%) and Leptodactylidae (21.05%).
The number of species present in the streams was negatively related to stream volume. Rainfall and mean
monthly temperatures were not related to anuran species diversity per month or to species diversity
with calling males, though species differed in their temporal distribution. Of the 19 recorded species, 12
exhibited calling activities during the study period, and 10 presented signs of reproductive activity such
as gravid females, amplexed pairs, egg clutches tadpoles and post-metamorphic froglets. Stream size
9. AFONSO, L. G. Estrutura temporal e espacial de comunidades de anuros em riachos de mata na RPPN Serra do Caraça
(Catas Altas, Minas Gerais). Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
seems to be an important factor determining local anuran species richness, while the relatively stable
climatic conditions of forest streams seem to favor anuran species with long breeding periods, as well as
the increase of breeding periods of more flexible species. The use of spatial niche by anuran amphibians
was studied in eight forest streams in Serra do Caraça, Catas Altas municipality, State of Minas Gerais,
southeastern Brazil. Microhabitats were sampled and classified in 18 types based on substrate, water
distance and water height above the ground. A total of 440 individual anurans of 19 species presented
high selectivity in the use of those microhabitats. Species with broader niches (generalists) did not occur
in more streams than species with narrower niches (specialists), nor did streams with more variety of
species richness shelter more specialists. Species showed variable overlap levels in microhabitat use. The
distribution patterns observed in the studied anuran assemblages suggest that competition is not an
important factor influencing the spatial structure of those assemblages in permanent forest streams.
Key words: Structure; Spacial; Temporal; Streams; Anuran community; RPPN Serra do Caraça.
Análise da variação craniométrica em Wiedomys
pyrrhorhinos (Wied, 1817) (Rodentia, Muridae)10
Craniometric variation analysis of Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817)
(Rodentia, Muridae)
Maria Olímpia Garcia Lopes (mestranda)
Adriano Garcia Chiarello (orientador)
Resumo
Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817) é um roedor amplamente distribuído no bioma caatinga,
sendo encontrado do norte de Minas Gerais até o Ceará e Rio Grande do Norte. Este estudo analisou 301
espécimes do gênero Wiedomys, contemplando quase toda a distribuição da espécie. Foram tomadas
20 medidas cranianas e mandibulares, que foram submetidas a análises univariadas e multivariadas.
Não foram verificadas diferenças significativas entre os sexos para as quatro maiores amostras, mas as
análises evidenciaram variabilidade craniana entre grupos geográficos. As amostras de Araçuaí (Minas
Gerais) e Vitória da Conquista (Bahia), situadas ao sul na distribuição da espécie, apresentaram os maiores
tamanhos cranianos, seguidos das amostras de Feira de Santana e Seabra (ambas na Bahia), localidades
situadas pouco mais ao norte, que formam um grupo semelhante e um pouco menor que o anterior.
O grupo formado por Garanhuns, Pesqueira (ambos em Pernambuco), Quebrangulo (Alagoas), Caruaru
(Pernambuco) e Santana do Ipanema (Alagoas), de latitudes mais setentrionais, apresentou as menores
medidas cranianas, ao passo que a amostra de Ipu, do norte do Ceará, apresentou valores ainda menores.
Esse padrão de variação craniana, em que o tamanho do crânio diminui com a diminuição da latitude,
sugere um padrão de variação clinal em tamanho.
Palavras-chave: Crânio; Morfometria; Variação geográfica; Wiedomys pyrrhorhinos.
Abstract
Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817) is a widely distributed rodent in the Caatinga biome, being
found from the north of Minas Gerais State to the states of Ceará and Rio Grande do Norte. In this study, 301
10. LOPES, M. O. G. Análise da variação craniométrica em Wiedomys pyrrhorhinos (Wied, 1817) (Rodentia, Muridae). Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Resumos
specimens were examined, encompassing most of the species distribution. Twenty cranial measurements
were taken of skulls and mandibles, and submitted to univariate and multivariate analyses. No significant
differences were detected between male and female samples in the four largest population samples, but
the analyses revealed cranial variation between geographic groups. Samples from Araçuaí (Minas Gerais)
and Vitória da Conquista (Bahia), located at the southern range of the species distribution, presented the
largest cranial sizes, followed by samples from Feira de Santana and Seabra (both in Bahia), located further
north, which formed a similar but slightly smaller group than the first one. The group formed by samples
from Garanhuns, Pesqueira (both in Pernambuco), Quebrangulo (Alagoas), Caruaru (Pernambuco) and
Santana do Ipanema (Alagoas), at lower latitudes, presented the smallest skull dimensions, whereas the
sample from Ipu (north of Ceará) had even lower values. This pattern of cranial variation, in which the
cranial size gets smaller at lower latitudes, suggests a pattern of clinal variation in size for the species.
Key words: Skull; Morphometry; Geographical variation; Wiedomys pyrrhorhinos.
Área de vida e uso de micro-ambientes em uma
população de Crossodactylus sp. (gr. gaudichaudii) (Anura,
Cyclorhamphidae) na Serra do Caraça, Minas Gerais11
Home range and microhabitat use in a population of Crossodactylus
sp. (gr. gaudichaudii) (Anura, Cyclorhamphidae) at Serra do Caraça,
State of Minas Gerais
Milena Wachlevski Machado (mestranda)
Paula Cabral Eterovick (orientadora)
Resumo
As espécies do gênero Crossodactylus são diurnas, vivem em pequenos riachos permanentes e
apresentam reprodução prolongada. A área de vida, o uso e a disponibilidade de micro-ambientes foram
estudados para uma população da espécie Crossodactylus sp. (gr. gaudichaudii) através de técnica de
marcação e recaptura em um quadrante ao longo de um riacho permanente na Serra do Caraça, Sudeste
do Brasil. A área de vida foi estimada através do método do mínimo polígono convexo, e seu tamanho não
diferiu entre machos e fêmeas. Houve uma grande sobreposição de áreas de vida intra-sexual, mas pouca
sobreposição entre os sexos. Os adultos estiveram concentrados em trechos do riacho que apresentaram
características favoráveis a suas atividades reprodutivas. O tamanho estimado da população foi de
dez indivíduos por 100m2. Os indivíduos não se distribuíram uniformemente ao longo do riacho, mas
concentraram-se em sítios específicos. As variáveis ambientais medidas indicam uso diferenciado de
micro-ambientes entre machos, fêmeas e jovens. As variáveis que melhor explicam as diferenças entre
os segmentos da população foram correnteza, distância da água e profundidade. Os micro-ambientes
disponíveis foram seletivamente utilizados pelos machos, mas não por fêmeas grávidas.
Palavras-chave: Crossodactylus sp. (gr. gaudichaudii); Área de vida; Tamanho da população; Seleção
de micro-ambiente; Partilha de ambiente; Sudeste do Brasil.
11. WACHLEVSKI, M. M. Área de vida e uso de micro-ambientes em uma população de Crossodactylus sp. (gr. gaudichaudii)
(Anura, Cyclorhamphidae) na Serra do Caraça, Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
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Resumos
Abstract
Species of Crossodactylus are diurnal, live in small permanent streams and have long breeding periods.
Home range, microhabitat use and availability were studied for a population of the Crossodactylus sp. (gr.
gaudichaudii) species, using a capture and recapture technique within a grid placed along a stream at Serra
do Caraça, State of Minas Gerais, southeastern Brazil. Home ranges were estimated through the minimum
convex polygon method, and the size did not differ between males and females. A high home-range
overlap was recorded within sexes, whereas less overlap was observed between sexes. Adult distribution
concentrated on a stream section with features considered suitable to their reproductive activities. The
estimated population size was 10 individuals per 100 m2. Individuals were not uniformly distributed
along the stream, but aggregated at some specific sites. Measured environmental variables indicated a
differential use of microhabitats among males, females and juveniles. The variables that better explained
differences between population segments were water flow, distance from water and water depth. The
available microhabitats were used selectively by males, but not by gravid females. To the former, such
microhabitats correspond to defended calling and breeding sites.
Key words: Crossodactylus sp. (gr. gaudichaudii); Home range; Population size; Microhabitat selection;
Habitat partitioning; Southeastern Brazil.
Avaliação do estado de saúde e do risco de transmissão de
doenças entre canídeos (Mammalia, Carnivora) silvestres
e domésticos na região da Serra do Cipó, Minas Gerais:
implicações para a conservação12
Evaluation of health conditions and disease transmission risk between
wild and domestic canids (Mammalia, Carnivora) in the Serra do
Cipó National Park region, State of Minas Gerais: implications for
conservation
Nelson Henrique de Almeida Curi (mestrando)
Sônia Aparecida Talamoni (orientadora)
Resumo
As doenças ocupam, junto com a fragmentação, caça e outros fatores, lugar de destaque entre
as ameaças para a conservação de canídeos silvestres. Este estudo teve como objetivo avaliar o estado
sanitário de canídeos silvestres e a existência do risco de transmissão de doenças entre cães domésticos
e canídeos silvestres na região do Parque Nacional da Serra do Cipó, Minas Gerais. Foram capturados nos
mesmos pontos de armadilhagem 14 canídeos silvestres das espécies presentes na região (três lobosguará Chrysocyon brachyurus, nove cachorros-do-mato Cerdocyon thous e duas raposinhas-do-campo
Lycalopex vetulus) e 19 cães domésticos (além de outros carnívoros domésticos e outras espécies). Também
foram amostrados 74 cães domésticos não vacinados que viviam soltos ao redor de três aglomerações
urbanas do entorno do parque. Exames clínicos completos, biometrias, análises clínicas, parasitológicas
12. CURI, N. H. A. Avaliação do estado de saúde e do risco de transmissão de doenças entre canídeos (Mammalia, Carnivora)
silvestres e domésticos na região da Serra do Cipó, Minas Gerais: implicações para a conservação. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
77
Resumos
e testes sorológicos para leishmaniose, cinomose e parvovirose foram realizados nos canídeos silvestres
capturados, e os cães domésticos amostrados foram apenas testados sorologicamente. Todos os canídeos
silvestres capturados estavam clinicamente normais, saudáveis e apresentando determinações biométricas,
hematológicas e urinárias nos padrões já descritos, apesar dos níveis de parasitismo encontrados.
Os seguintes táxons de ectoparasitos foram encontrados em lobos-guará: carrapatos - Amblyomma
cajannense, A. tigrinum, Boophilus microplus; pulgas - Pulex irritans. Em cachorros-do-mato: carrapatos - A.
cajannense, A. ovale; pulgas - P. irritans, Ctenocephalides felis felis. Em raposinhas-do-campo: carrapatos A. cajannense. Ovos de endoparasitos encontrados em fezes de lobos-guará foram de Acanthocephala,
Ancylostomidae, Trichuridae, Hymenolepidae, Physaloptera sp., Platynossomun sp., Spirometra sp. Em
cachorros-do-mato foram Trematoda, Hymenolepidae, Spirometra sp., Platynossomun sp., Toxocara sp.
Relatamos pela primeira vez a infestação pelo endoparasito Platynossomun sp. em lobos-guará de vida
livre. As soroprevalências aparentes encontradas para leishmaniose, cinomose e parvovirose nos canídeos
silvestres foram de respectivamente 14,3%; 0%; e 100%. Nos cães domésticos, essas prevalências foram de
8,1%; 65,7%; e 58,6%. Concluímos que existe o risco de transmissão de doenças entre canídeos domésticos
e silvestres no Parna Cipó e que as populações de canídeos silvestres da região estão ameaçadas por
patógenos caninos e parasitas comuns em animais domésticos. Medidas de manejo preventivo de baixo
risco e custo podem ser implementadas, desde que envolvam a conscientização da população local e a
minimização do contato entre animais domésticos e silvestres, no intuito de contribuir para a conservação
dos canídeos silvestres em longo prazo.
Palavras-chave: Canídeos; Doenças; Conservação; Leishmaniose; Cinomose; Parvovirose; Parque
Nacional da Serra do Cipó.
Abstract
Nowadays diseases, along with fragmentation, hunting and other factors, are some of the relevant
threats for wild canids’ conservation. This study aimed to evaluate the health conditions of wild canids and
the existence of disease transmission risk between wild and domestic canids in the Serra do Cipó National
Park region (State of Minas Gerais). In the same trap points, 14 wild canids of the species present in the
region were captured: 3 Chrysocyon brachyurus (maned wolfs), 9 Cerdocyon thous (crab-eating foxes) and
2 Lycalopex vetulus (hoary foxes), besides 19 domestic dogs (as well as other domestic carnivorous and
other species). Seventy-four free-ranging and non-vaccinated domestic dogs in three urban settlements
around the National Park were also sampled. Complete clinical examinations, biometrics, clinical and
parasitological analyses, as well as serology for leishmaniasis, distemper and parvovirosis were performed
in the captured wild canids, while the domestic dogs were only serologically tested. All captured wild
canids were healthy and clinically normal, showing biometrical, hematological and urinary determinations
according to described standards, despite the levels of parasitism found. Ectoparasites found in maned
wolves were from the following taxa: ticks - Amblyomma cajannense, A. tigrinum, Boophilus microplus;
fleas - Pulex irritans. In crab-eating foxes: ticks - A. cajannense, A. ovale; fleas - P. irritans, Ctenocephalides
felis felis. In hoary foxes: ticks - A. cajannense. Endoparasite eggs found in maned wolves’ excrement were
Acanthocephala, Ancylostomidae, Trichuridae, Hymenolepidae, Physaloptera sp., Platynossomun sp. and
Spirometra sp. In crab-eating foxes, they were Trematoda, Hymenolepidae, Spirometra sp., Platynossomun
sp. and Toxocara sp. This is the first report of the Platynossomun sp. genus in free-ranging maned wolves.
The apparent sero-prevalence for leishmaniasis, distemper and parvovirosis in wild canids was of 14.3%,
0% and 100%, respectively. In domestic dogs, the prevalence was of 8.1%, 65.7% and 58.6%, respectively.
We concluded that the risk of disease transmission between wild and domestic canids is present in
Parna Cipó, and wild canid populations are threatened by canine pathogens and parasites common in
domestic animals at the study site. Low-risk and low-cost preventive management measures should be
taken, provided they involve the local population’s awareness and minimize the contact between wild and
domestic animals, in order to contribute to long-term wild canids’ conservation.
Key words: Canids; Diseases; Conservation; Leishmaniasis; Distemper; Parvovirosis; Parque Nacional
da Serra do Cipó.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
Diversidade de mamíferos em diferentes fitofisionomias
do Cerrado do Parque Nacional Grande Sertão Veredas: um
estudo com foto-armadilhas13
Diversity of mammals in different physiognomies of Cerrado of Parque
Nacional Grande Sertão Veredas: a study with camera trapping
Rafael Luiz Aarão Freitas (mestrando)
Adriano Garcia Chiarello (orientador)
Resumo
O presente trabalho procurou avaliar por meio de armadilhamento fotográfico e procura de vestígios
a diversidade de espécies de mamíferos de médio e grande porte em quatro diferentes tipos de vegetação
existentes no bioma Cerrado. A área de estudo, Parque Nacional Grande Sertão Veredas, atualmente com
cerca de 231.000 ha, se localiza no noroeste do estado de Minas Gerais, e sudoeste da Bahia. Para cada
hábitat avaliado (cerrado estrito senso, carrasco, veredas e matas de galeria) foram estabelecidos três
pontos amostrais, representados por três réplicas cada. Em cada um desses pontos amostrais foi instalada
um armadilha fotográfica e uma transecção de 200 m. O esforço amostral obtido foi de 4.019 câmerasdia e 26,4 km, respectivamente para as foto-armadilhas e procura de vestígios nas transecções. Foram
obtidos 380 registros independentes, provenientes das câmeras, e 336 registros baseados nos vestígios
encontrados, nos quais somente a presença daquela espécie na transecção naquele mês era considerada.
Trinta e uma espécies de mamíferos de médio e grande porte foram confirmados na área de estudo,
inclusive algumas ameaçadas de extinção, de acordo com a IUCN, como por exemplo, o tatu-canastra
(Priodontes maximus). Análises de agrupamento (Cluster) utilizando dados de rastros (presença/ausência
da espécie) revelaram maior semelhança na composição faunística entre o cerrado e o carrasco e, em
menor grau, entre veredas e matas de galeria. A maior parte das espécies foi registrada em mais de uma
fitofisionomia e uma porção muito reduzida das espécies foi registradas exclusivamente em cada uma
delas. Os dados demonstram que, para a conservação da mastofauna do Cerrado de maneira geral, é
importante conservar a diversidade de hábitats característico deste bioma.
Palavras-chaves: Mamíferos; Armadilhamento fotográfico; Cerrado; Conservação.
Abstract
The present study analyzed the mammal diversity in four different physiognomies of Cerrado using
camera trapping and footprint recording. The study area was the Parque Nacional Grande Sertão Veredas,
currently with 231.000 ha of area. The park is located in northwest Minas Gerais and southwest Bahia
states. Three sampling points were established in each one of the four study habitats (cerrado, carrasco,
mata de galeria e veredas). In each sampling point a camera trap was set and a 200 m long transect was
created. Sampling effort was 4,019 camera-days and 26.4 km for cameras and transects, respectively. It was
obtained 380 records from the cameras and 336 from the transects, in which only the presence or absence
of a given species was recorded. Thirty-one species of mammals were confirmed for the Park, including
some endangered species such as the giant armadillo (Priodontes maximus). Cluster analyses revealed
high similarity among cerrado and carrasco and, to a lesser extend, between veredas and mata de galeria.
The majority of species was recorded in more than one habitat type and a minor proportion was recorded
in just one habitat type. Data demonstrate that, for the conservation of mammals in cerrado in general, it
is important to conserve the whole diversity of habitat types which are characteristics of this biome.
Key words: Mammals; Camera trapping; Cerrado; Conservation.
13. FREITAS, R. L. A. Diversidade de mamíferos em diferentes fitofisionomias do Cerrado do Parque Nacional Grande Sertão
Veredas: um estudo com foto-armadilhas. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade
católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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Resumos
Estratégias reprodutivas dos peixes do reservatório de Porto
Colômbia, bacia do rio Grande, sudeste do Brasil14
Reproductive strategies of fish in Porto Colômbia Reservoir, Grande
river basin, southeastern Brazil
Renê Eiji Souza Hojo (mestrando)
Nilo Bazzoli (orientador)
Resumo
Para a realização do presente estudo, capturaram-se 1551 exemplares de peixes no reservatório de
Porto Colômbia, MG/SP, pertencentes a nove espécies. Os peixes foram coletados utilizando-se redes de
emalhar de três a 12 cm entre nós opostos, armadas ao entardecer e retiradas na manhã seguinte. As
coletas foram realizadas em quatro trimestres de 2001/2002 (novembro-dezembro-janeiro, fevereiromarço-abril, maio-junho-julho, agosto-setembro-outubro). Os espécimes foram fixados em formol 10% e
transferidos para bombonas contendo álcool 70%. Fragmentos de gônadas de alguns exemplares foram
fixados em líquido de Bouin por oito a 12 horas para serem submetidos às técnicas histológicas de rotina.
Baseando-se nos valores de proporção sexual, índice gonodossomático (IGS), freqüência dos estádios de
maturação gonadal, tipo e duração da desova, período reprodutivo, tamanho de maturação gonadal,
migração reprodutiva e cuidado parental, estabeleceram-se três grupos de estratégias reprodutivas para
as espécies mais abundantes do reservatório de Porto Colômbia: estratégia de equilíbrio: L. lentiginosa,
S. pappaterra e C. monoculus, que apresentam desova do tipo parcelada, longo período reprodutivo, não
realizam migrações reprodutivas e têm cuidado parental; estratégia oportunista: S. nasutus, M. maculatus,
S. spilopleura, P. maculatus e P. squamosissimmus apresentam desova parcelada, longo período reprodutivo,
não realizam migrações reprodutivas e não têm cuidado parental; e estratégia sazonal: L. friderici apresenta
desova do tipo total, realiza migrações reprodutivas e nenhum cuidado parental.
Palavras-chave: Estratégias reprodutivas; Teleostei; bacia do rio Grande.
Abstract
For this study, 1551 fish specimens belonging to nine species were captured in Porto Colômbia
Reservoir, Minas Gerais and São Paulo states. They were collected using fishing nets with mesh size from 3
to 12 cm, spread at sunset and removed in the following morning. The collections were carried out during
four quarters in 2001/2002 (November-December-January, February-March-April, May-June-July, AugustSeptember-October). The specimens were fixed in formaldehyde 10% and transferred to alcohol 70%.
Gonad scraps of some specimens were fixed in Bouin liquid from 8 to 12 hours in order to be submitted
to routine histological techniques. With basis on the sexual proportion values, gonadossomatic rate (IGS),
reproductive cycle stages frequency, spawn kind and duration, reproductive period, gonad maturation
size, reproductive migration and parental care, three reproductive strategies groups were established for
the most abundant species of Porto Colômbia Reservoir: equilibrium strategy: S. spilopleura, L. lentiginosa,
S. pappaterra and C. monoculatus, which present fractional spawn, a long reproductive period, parental
care and no reproductive migrations; opportunistic strategy: S. nasutus, M. maculatus, P. maculatus and P.
squamosissimmus, which present fractional spawn, a long reproductive period, no reproductive migrations,
no parental care; and seasonal strategy: L. friderici, which present total spawn, reproductive migrations and
no parental care.
Key words: Reproductive strategies; Teleostei; Grande river basin.
14. HOJO, R. E. S. Estratégias reprodutivas dos peixes do reservatório de Porto Colômbia, bacia do rio Grande, sudeste do
Brasil. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2005.
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Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
Resumos
Estrutura e dieta da ictiofauna em dois riachos na bacia do
rio Pará (MG) com ênfase nas interações tróficas entre peixes
e macroinvertebrados bentônicos15
Icthyofauna structure and diet in two streams of Pará river basin (Minas
Gerais State) with emphasis on trophic interactions between fish and
benthic macroinvertebrates
Taynan Henriques Tupinambás (mestrando)
Gilmar Bastos Santos (orientador)
Resumo
O presente estudo teve por objetivo avaliar a composição, dieta e estrutura da comunidade de peixes
de dois riachos da bacia do rio Pará, região do alto São Francisco, com ênfase nos aspectos relacionados
às interações tróficas entre peixes e macroinvertebrados bentônicos, assim como caracterizar o status
de conservação dos ambientes amostrados. Foram encontradas 29 espécies de peixes, predominando
Characiformes e Siluriformes, bem como detectada considerável dominância de espécies de peixes para a
maioria dos pontos amostrados, com destaque para Astyanax sp. A diversidade e riqueza não aumentaram
espacialmente e foram influenciadas pelo nível de preservação dos pontos de coleta. Foram determinadas
oito guildas tróficas, refletindo uma grande variedade de itens ingeridos, com algumas espécies
demonstrando preferência alimentar por determinados recursos. A análise do conteúdo estomacal
adicionou quatro taxa ao inventário de macroinvertebrados bentônicos realizado através da análise de
sedimentos. As conclusões obtidas sugerem que os cursos d’ água estudados vêm sofrendo impactos
antrópicos como o desmatamento da vegetação ripária e a extração de areia ao longo de seus cursos,
o que vem alterando sensivelmente as condições naturais da área de estudo. Apontam também para o
importante papel da mata ciliar na manutenção da integridade dos habitats aquáticos e suas ictiofaunas
associadas.
Palavras-chave: Composição; Dieta; Estrutura; comunidade de peixes; bacia do rio São Francisco.
Abstract
This study aimed to evaluate the fish community composition, diet and structure in two streams of
Pará River basin (São Francisco River headwaters), named Córrego do Bagaço and Ribeirão dos Coelhos, with
emphasis on aspects related to trophic interactions between fish and benthic macroinvertebrates, as well
as to characterize the environment conservation state. Twenty-nine fish species were found, Characiformes
and Siluriformes being the predominant ones. A strong dominance of some fish species in the sampled
sites was detected too, especially of Astyanax sp. Richness and diversity indexes did not increase along the
streams, and they were influenced by the preservation level of the sample sites. Eight trophic guilds were
determined, reflecting a great variety of ingested items, some species showing preference for some kinds
of food resources. Stomach content analysis showed four extra benthic macroinvertebrates taxa when
compared with the inventory made only from sediment analysis. Results suggest that the studied streams
have been affected by human impacts such as riparian vegetation deforesting and sand removal, which
have changed significantly the original conditions of the area. They also point out the importance of the
riparian zone to preserve the aquatic habitats and fish fauna integrity.
Key words: Composition; Diet; Structure; Fish community; São Francisco river basin
15. TUPINAMBÁS, T. H. Estrutura e dieta da ictiofauna em dois riachos na bacia do rio Pará (MG) com ênfase nas interações
tróficas entre peixes e macroinvertebrados bentônicos. Dissertação (Mestrado em Zoologia de Vertebrados). Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.
Bios. Belo Horizonte, v. 13, n. 13, p. 59-81, dez. 2005
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BIOS – CADERNOS DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS
BIOLÓGICAS DA PUC MINAS
Normas gerais para publicação
BIOS é uma publicação do Departamento de Ciências Biológicas da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais para a divulgação de relatos de pesquisa, artigos de revisão, notícias, comentários, comunicações, ensaios, editoriais e cartas ao Conselho Editorial nas diferentes áreas
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7.2 Texto:
Margens: Superior, esquerda e direita com 2,0cm, inferior com 2,5cm.
Espaçamento entre linhas: 1,5
83
7.3 Título:
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estiver em inglês; em português e inglês se a contribuição estiver em espanhol, logo
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7.4. Autores:
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Em caso de co-autoria, nome do responsável, endereço postal completo, telefone(s) ou
fax para contato e e-mail. Estas informações deverão ser colocadas no rodapé da primeira página.
7.5. Resumo:
Cada contribuição virá com um resumo, em português e inglês, que não deverá exceder
a 100 (palavras), contendo até 5 (cinco) unitermos (palavras-chave), por idioma, após o
resumo e o abstract.
7.6. Texto principal:
Deverá iniciar-se na página 2, coluna simples, não conterá figuras, gráficos ou tabelas
inclusas.
7.7. Figuras, tabelas e gráficos:
Deverão vir em anexos, sendo indicado no texto onde deverão ser inseridas, porém a
comissão editorial se reserva no direito de uma recolocação para permitir melhor diagramação da revista.
Todas as figuras, gráficos e tabelas deverão ser referenciados no texto e numerados com
algarismos arábicos. Quando citados no decorrer do texto, devem ser referenciados
como FIG. 1 ou FIG. 1 e 2 (quando for mais de uma figura), TAB. 1 ou TAB. 1 e 2 (quando
fora mais de uma tabela). No caso de gráficos, utilizar a mesma FIG. 1 ou FIG. 1 e 2 (quando for mais de um gráfico).
As legendas das tabelas e figuras devem estar abaixo das mesmas, sendo referenciadas
como “Tabela 1.”, “Tabela 1 e 2.”, “Figura 1.”, “Figura 2.”, “Figuras 1 e 2.”. Gráficos devem ser
referenciados da mesma forma que as figuras.
Tabelas e gráficos devem ser inseridos em documento Word, sendo enviado também
uma cópia no formato original, citando o nome do programa utilizado e a versão.
Preferencialmente, não utilizar cores em gráficos e tabelas, mas padrões de textura diferentes. As fotografias devem ser apresentadas em original preto-e-branco em papel brilhante de alto contraste. Desenhos e gráficos devem ser enviados em CD, como arquivo
de programa gráfico nos formatos .TIFF, .JPG, .CDR, .PSD, .AI ou .EPS. A comissão editorial
se reserva no direito da inclusão ou não de figuras em outro formato. Podem ser enviados ainda em nanquim.
7.8. Referências bibliográficas:
As referências bibliográficas dentro do texto devem estar da seguinte forma:
Um autor: (RIZZINI, 1979) ou Rizzini (1979); dois autores: (RIBEIRO; FERNANDES, 1999)
ou Ribeiro e Fernandes (1999); três autores: (NASCIMENTO; POMBAL; HADDAD, 1999) ou
Nascimento, Pombal e Haddad (1999); mais de três autores: (ROCHA et al., 2000) ou Rocha et al. (2000).
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Devem ser listadas ao final do trabalho, fonte Arial tamanho 9, de acordo com o padrão:
Artigos de periódicos:
BAZZOLI, N.; GODINHO, H. Reproductive biology of the Acestrorhynchus lacustris (Reinhardt, 1874) (Pisces: Characidae) from Três Marias Reservoir, Brazil. Zoologischer Anzeinger, v. 226, n. 516, p. 285-297, 1991.
Livros e relatórios técnicos:
BRITSKI, H. A.; SATO, Y.; ROSA, A. B. S. Manual de identificação de peixes da região de
Três Marias: com chave de identificação para peixes da bacia do São Francisco. Brasílias:
Câmara dos Deputados, 1984. 143p.
ELETROBRÁS. Plano diretor de meio ambiente do setor elétrico, 1991-1993. Rio de
Janeiro: Centrais Elétricas Brasileiras, 2v. 1991.
CETEC/LEME Engenharia/CEMIG. Levantamentos ambientais em Nova Ponte – Ictiofauna: Relatório Final. Belo Horizonte, 1988.
Capítulos de livros:
HRBÁCEK, J. Competition and predation in relation to species composition of freshwater
zooplankton. In: CAIRNS Jr., J. (Ed.). Aquatic microbial communities. New York: Garland.
1977. Cap. 3, p. 305-353.
Teses e dissertações:
DINIZ, C. C. 1997. Dinâmica reprodutiva de L. striatus e histologia do ovário de cinco
espécies do gênero Leporinus Spix, 1829 (Osteichthyes, Characiformes, Anostomidae) na represa de Camargos, MG. 1997. 106f. (Dissertação, Mestrado em Zootecnia:
Nutrição de Monográstrico). Universidade Federal de Lavras, Lavras.
GARAVELLO, J. C. Revisão taxonômica do gênero Leporinus Spix, 1829 (Ostariophysi,
Anostomidae). 1979. 455f. (Tese, Doutorado em Ciências: Zoologia). Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, São Paulo.
Resumos de congressos:
SANTOS, J. E. dos. Comportamento de larvas de 6 espécies de peixes sob condições experimentais de fotoperíodo. In: ENCONTROS ANUAIS DE AQUICULTURA, 10, 1992, Belo
Horizonte. Anais... Belo Horizonte: Associação Mineira de Aqüicultura, 1992. p. 75-77.
8.O artigo deverá ser enviado em CD para computador, em formato Microsoft Word 6.0 ou
superior, exceto Windows Vista.
8.1. O original, em CD, deverá vir acompanhado de uma folha de identificação, com os
seguintes dados:
(a) Número total de figuras, pranchas, tabelas e gráficos.
(b) Número total de CDs com informações sobre os formatos de arquivos de texto, de
figura ou gráficos.
(c) Outras informações julgadas necessárias.
(d) Fonte Arial, tamanho 12, nomes científicos em itálico.
8.2. Quando o original for enviado em CD, este deverá conter uma etiqueta com o nome da
contribuição e uma cópia impressa.
9.Os CDs deverão ser submetidos a programas antivírus.
10. As referências não deverão exceder 30 (trinta).
11.Embora a comissão editorial possa providenciar a revisão de referências bibliográficas, a exatidão sobre suas informações é de inteira responsabilidade dos autores da contribuição.
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12. As unidades de medida, grandezas, símbolos e abreviaturas devem seguir as normas nacionais ou internacionais correspondentes.
13. A impressão a cores, quando absolutamente necessária, dependerá do pagamento, pelo(s)
autor(es) da contribuição, das despesas correspondentes.
14. As ilustrações poderão ser reduzidas por exigência gráfica, guardando-se as devidas proporções.
15. As contribuições deverão, o mais absolutamente possível, se ater a estas normas gerais para
a apresentação de originais.
16. Comprovante da publicação:
16.1. Cada contribuição terá direito, sem ônus, a 10 (dez) exemplares da publicação.
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17. Para informações adicionais acesse o site da biblioteca da PUC Minas, sobe padronização
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BIOS – REVIEW OF THE DEPARTMENT OF BIOLOGICAL
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separately the version used, format A4 (210X297mm), Arial font size 12.
7.2 Text:
Margins: Superior, left and right 2.0cm, inferior 2,5cm.
Space between lines: 1,5
87
7.3 Title:
Complete Title, in the language of the document, aligned to the right.
Title in English if the document is in Portuguese, in Portuguese if the document is in English; in Portuguese and English if the document is in Spanish;
7.4. Authors:
Full author(s) name, identifying the home institution(s) below, aligned to the right.
In the case of coauthorship, name the responsible person, full, address, telephone(s) or
fax, e-mail. Those data should be placed at the foot of the first page.
7.5. Abstract:
Each document must include an abstract, in Portuguese and in English, not above 100
words, with up to five keywords per idiom, after the abstract.
7.6. Main text:
It begins on page 2, in a single column, without figures, graphs or tables.
7.7. Figures, graphs, and tables:
They are annexed, with indications in the text of where they should be inserted. The Editorial Council has the right to rearrange them so as to have a better diagram of the periodical.
All figures, graphs and tables will be referred to in the text and numbered with Arabic
numerals. When they are quoted within the text, they must be referred to as FIG. 1 or FIG.
1 and 2 (in the case of more than one figure), TAB. 1 or TAB. 1 e 2 (in the case of more than
one table). As to graphs, the same FIG. 1 or FIG. 1 e 2 (in the case of more than one graph)
will be used.
Tables and figures legends are placed below them, and referred to as “Table 1.”, “Table 1
and 2.”, “Figure 1.”, “Figure 2.”, “Figures 1 and 2.”.
Graphs are referred to in the same way as figures.
Graphs and tables must be inserted in Word document, with a copy in the original format, mentioning the program used and its version.
Photographs must be presented in the original black-and-white high-contrast glossy paper.
Drawings and graphs must be sent in CD as graphic program file in .TIFF . JPG, .CDR, .PSD,
.AI or .EPS. The Editorial Council has the right to include or not figures in a different format. They can also be sent in China ink on vegetable paper.
7.8. Bibliography:
Bibliographical references in the text will appear as follows:
one author: (RIZZINI, 1979) or Rizzini (1979); two authors: (RIBEIRO; FERNANDES, 1999) or
Ribeiro e Fernandes (1999); three authors: (NASCIMENTO; POMBAL; HADDAD, 1999) or
Nascimento, Pombal and Haddad (1999); more than three authors: (ROCHA et al., 2000)
or Rocha et al. (2000).
They are listed at the end of the text, Arial font size 9, according to the standard:
Periodical articles:
BAZZOLI, N.; GODINHO, H. Reproductive biology of the Acestrorhynchus lacustris (Reinhardt, 1874) (Pisces: Characidae) from Três Marias Reservoir, Brazil. Zoologischer Anzeinger, v. 226, n. 516, p. 285-297, 1991.
Books and technical reports:
88
BRITSKI, H. A.; SATO, Y.; ROSA, A. B. S. Manual de identificação de peixes da região de
Três Marias: com chave de identificação para peixes da bacia do São Francisco. Brasília:
Câmara dos Deputados, 1984. 143p.
ELETROBRÁS. Plano diretor de meio ambiente do setor elétrico, 1991-1993. Rio de
Janeiro: Centrais Elétricas Brasileiras, 2v. 1991.
CETEC/LEME Engenharia/CEMIG. Levantamentos ambientais em Nova Ponte – Ictiofauna: Relatório Final. Belo Horizonte, 1988.
Book chapters:
HRBÁCEK, J. Competition and predation in relation to species composition of freshwater
zooplankton. In: CAIRNS Jr., J. (Ed.). Aquatic microbial communities. New York: Garland.
1977, p. 305-353.
Thesis e dissertations:
DINIZ, C. C. 1997. Dinâmica reprodutiva de L. striatus e histologia do ovário de cinco
espécies do gênero Leporinus Spix, 1829 (Osteichthyes, Characiformes, Anostomidae) na represa de Camargos, MG. 1997. 106f. (Dissertação, Mestrado em Zootecnia:
Nutrição de Monográstrico). Universidade Federal de Lavras, Lavras.
GARAVELLO, J. C. Revisão taxonômica do gênero Leporinus Spix, 1829 (Ostariophysi,
Anostomidae). 1979. 455f. (Tese, Doutorado em Ciências: Zoologia). Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, São Paulo.
Abstracts in seminars:
SANTOS, J. E. dos. Comportamento de larvas de 6 espécies de peixes sob condições experimentais de fotoperíodo. In: ENCONTROS ANUAIS DE AQUICULTURA, 10, 1992, Belo
Horizonte. Anais... Belo Horizonte: Associação Mineira de Aqüicultura, 1992. p.75-77.
8.Documents are sent in a CD, Microsoft Word 6.0 or above format, except Windows Vista, in
no more than 20 (twenty) pages with 60 (sixty) lines.
8.1. An identification sheet is attached to the original, in CD, with the following information:
(a) Total number of figures, boards, tables, and graphs.
(b) Total number of CDs with information on the text file, figures, and graphs
formats.
(c) Further information considered important.
(d) Arial font, size 12, scientific names in italics.
8.2. When the original is sent in CD, a label with the paper title and a printed copy must be
annexed.
9. CDs must be submitted to antiviral program.
10. Bibliographical references must not exceed 30 (thirty).
11.Though the Editorial Council may see to it bibliographical references are revised, the authors are entirely responsible for the data accuracy.
12.Measured units, values, symbols and abbreviations must follow corresponding national or
international standards.
13. Color prints, when absolutely necessary, will depend on the authors’ payment of the corresponding costs.
14.Illustrations may be reduced due to graphic demands, keeping due proportions.
15. Papers must follow, as much as possible, those general norms for the submission of originals.
89
16. Publication confirmation:
16.1. Each paper will receive, free of charge 10 (ten) copies.
16.2. Extra copies may be requested, in written form, to the Editorial Council, shipment
being conditioned to the payment of print and post costs.
17. The author(s) could be accessed PUC Minas Library site for additional information of standard methods for periodical articles: http://www.pucminas.br/documentos/normalizacao_
artigos.pdf
90
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REVISTA DA FACULDADE MINEIRA DE DIREITO
Faculdade Mineira de Direito
SCRIPTA
Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Cespuc
91
Impressão e acabamento
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