Quais são os Fatores que Estimulam o Desenvolvimento da
Capacidade Tecnológica? Um estudo do Caso de Pequenas e
Médias Empresas Fornecedoras no Setor Aeronáutico Brasileiro
Autoria: Rosane Argou Marques, Francisco Teixeira
Resumo:
O artigo tem por objetivo identificar os principais fatores que estimulam o desenvolvimento
da capacidade tecnológica pelas PMEs localizadas em sistemas de inovação fragilizados e de
alta tecnologia, estudando o caso empírico das empresas fornecedoras do setor aeronáutico no
Brasil. Estuda-se, particularmente, o caso das PMEs fornecedoras da Embraer que é a terceira
empresa produtora mundial de aviões para transporte de passageiros. Particularmente, os
objetivos específicos são: identificar a capacidade tecnológica que essas PMEs
desenvolveram ao longo do tempo e analisar as diferenças entre elas quanto aos fatores que
condicionaram esse desenvolvimento. Parte-se do argumento de que existem três fatores que
condicionam o desenvolvimentod a capacidade tecnológica: esforços internos, relações com
empresas e instituições de pesquisa, e participação em programas governamentais. Conclui-se
que numa amostra de 12 PMEs, 8 empresas seguiram a primeira trajetória e mantiveram a
capacidade tecnológica básica, enquanto 4 empresas seguiram a segunda trajetória e
desenvolveram capacidade tecnológica. Dessas 4 empresas, duas desenvolveram capacidade
tecnológica inovativa, que foi influenciado pelos três fatores descritos anteriormente.
1. Introdução:
Existe uma extensa literatura sobre capacidade tecnológica como a habilidade das
empresas para gerenciar e gerar mudanças tecnológicas (Bell, 1984). O desenvolvimento de
capacidade tecnológica pressupõe a passagem do nível rotineiro, referente às mudanças que as
empresas implementam no seu dia-a-dia para solucionar problemas da rotina do
funcionamento da mesma, para níveis que envolvem grandes investimentos em pesquisa e
desenvolvimento (P&D), levando à aceleração no lançamento de novos produtos e processos
no mercado. Essa mudança e o fortalecimento da capacidade de lançar novos produtos e
processos competitivos globalmente são considerados uma das principais fontes de
competitividade internacional (Lall, 1992).
Aas pesquisas sobre o tema diferem em foco conforme o contexto ambiental no qual
as empresas operam, bem como seus esforços para aprender ou desenvolver capacidade
tecnológica. De fato, é senso comum que as empresas em países de recente industrialização
estão construindo capacidade tecnológica para adquirir e adaptar tecnologias, por meio do
“aprender fazendo”; enquanto as empresas em países industrializados estão fortalecendo e
aprofundando a sua capacidade tecnológica já existente para gerar e gerenciar mudanças
tecnológicas, por meio de esforços de aprendizagem que não são somente baseados no “fazer”
mas incluem as atividades relacionadas a “pesquisar”, “procurar” e “interagir”, além de outras
(Kim, 2000).
Alguns pesquisadores apontam que o desenvolvimento de capacidade tecnológica por
empresas em países com industrialização recente, como é o caso do Brasil e Coréia do Sul,
refere-se ao processo de aquisição-imitação-adaptação-difusão de tecnologias ou “inovação
imitativa” (Kim, 1997 e 1998, Lall, 1992, Bell, 1984). Por outro lado, outros pesquisadores,
examinando o mesmo processo em empresas de países industrializados, consideram-no um
1
processo de criação-adaptação-diversificação-difusão de inovações de produtos e processos
(Leonard-Barton, 1990 e 1995; Cohen e Levinthal, 1990; Iansiti e Clark, 1994; Nonaka e
Takeuchi, 1995; e Teece, Pisano e Shuen, 1997).
Esse tema foi largamente pesquisado com base em estudos aprofundados sobre
grandes empresas e pouco foi apreendido sobre as pequenas e médias empresas - PMEsi. Para
o caso específico das empresas de menor porte, alguns estudos enfatizam os determinantes da
capacidade tecnológica em empresas localizadas em países industrializados, por exemplo
Reino Unido e França em setores de alta tecnologia como eletrônico e biotecnologia
(Avermaete et al, 2004; Mangematin et al, 2003; Romijn and Albaladejo, 2002).
Existe uma ampla literatura que considera a importância de sistemas nacionais de
inovação articulados e organizados de forma a potencializar o desenvolvimento da capacidade
tecnológica empresarial. Freeman (1987) refere que o Japão conseguiu alcançar os Estados
Unidos da América porque desenvolveu instituições, organização e articulação entre
academia, governo e indústria de forma a potencializar o desenvolvimento industrial
experimentado durante as décadas de 60, 70 e meados de 80. Desde então, vários estudos
apontam para a importância de uma série de fatores relacionados ao sistema de inovação que
possibilitam o desenvolvimento de ambientes mais propícios ao desenvolvimento da
capacidade tecnológica (Lundval, 1992; Nelson e Rosenberg, 1993; Pavitt e Patel, 1994;
Carlsson e Jacobsson, 1994; Cooke, et al, 1997; Bell e Albu, 1999).
A partir desses estudos, alguns autores consideram que os sistemas de inovação dos
países com industrialização recente são mais frágeis comparados com os sistemas de inovação
dos países industrializados. Esses estudos apontam para uma série de motivos pelos quais
existem essas diferenças mesmo entre países com industrialização recente, como é o caso do
Brasil e da Coréia do Sul (Dahlman e Frischtak, 1990; Albuquerque, 1996; Cassiolato e
Lastres, 1999; De Ferranti e Perry, 2002; Viotti, 2002; e Dantas, 2005). As fragilidades são
consideradas como um dos motivos pelos quais a capacidade tecnológica brasileira ainda é
baixa comparada com a capacidade tecnológica de empresas localizadas em países
industrializados.
Outra literatura examina a importância da proximidade das empresas em clusters
industriais como fator motivador da aprendizagem coletiva e desenvolvimento de capacidades
ou competências necessárias ao fortalecimento da competitividade global. Essa literatura
evolui para o estudo da melhoria funcional e produtivo possibilitado – ou não – pela
participação das empresas em cadeias de valor global (Kishimoto, 2004; Knorringa, 1999;
Schmitz, 2004 e 1995). Ambas as literaturas – clusters/cadeia de valor global e sistema de
inovação - pouco exploram os fatores que estimulam a acumulação de capacidade tecnológica
das PMEs em um quadro analítico articulado.
Particularmente, Bernardes (2000a) estudou o desenvolvimento das PMEs
fornecedoras do setor aernáutico brasileiro utilizando o modelo teórico desenvolvido na
literatura sobre clusters e cadeias de valor global. Esse estudo aponta para uma série de
fragilidades nas relações entre as PMEs fornecedoras e sua maior compradora brasileira, a
Empresa Brasileira de Aeronáutica S. A. – Embraer. No entanto, esse estudo pouco analisa o
desenvolvimento da capacidade tecnológica dessas PMEs, bem como os fatores que
condicionaram esse desenvolvimento.
Sendo assim, esse artigo tem por objetivo explorar os principais fatores que estimulam
o desenvolvimento da capacidade tecnológica pelas PMEs localizadas em sistemas de
inovação fragilizados e de alta tecnologia. O entendimento dessa lacuna na literatura é
particularmente relevante para o desenvolvimento de estratégias e políticas industriais em
economias com grande participação de PMEs, como é o caso do Brasil. Conforme dados do
IBGE, aproximadamente 90% das empresas industriais brasileiras são PMEsii. Essa questão é
particularmente explorada nas PMEs fornecedoras do setor aeronáutico devido a sua relevante
2
posição no cenário internacional – a Embraer é a terceira produtora mundial de aviões para
transporte de passageiros, ficando atrás da Boeing e Airbus – e por ser um setor de alta
tecnologia localizado em um sistema de inovação fragilizado, como é o caso do Brasil.
Particularmente, os objetivos específicos são: identificar a capacidade tecnológica que
as PMEs fornecedoras do setor aeronáutico desenvolveram ao longo do tempo e analisar as
diferenças entre elas quanto aos fatores que condicionaram esse desenvolvimento.
2. Metodologia
Inicialmente é importante definir o conceito do setor aeronáutico, particularmente
aquela parte que será tratada nesse artigo. Segundo Lima et al (2005), a indústria aeronáutica
engloba montadoras e fornecedores de aeronaves e helicópteros civis, comerciais e militares,
sistemas de propulsão, estruturas de fuselagem, sistemas eletro-eletrônicos, sistemas
mecânico-hidráulico-pneumáticos, materiais metálicos e não-metálicos, sistemas de comando,
comunicação e controle (aviônicos), entre outros necessários à produção de aviões e
helicópteros. É importante lembrar que o desenvolvimento da indústria aeronáutica está
diretamente relacionado às políticas de defesa nacional, tendo em vista que a área civil é
influenciada por programas de desenvolvimento tecnológico e fabricação de aviões,
helicópteros e sistemas espaciais militares. Este artigo tem como foco a análise do
desenvolvimento do setor de fabricação de aviões para transporte de até 100 passageiros e
fornecedores para a produção desses aviões localizados no Brasil.
As PMEs fornecedoras no setor foram selecionadas usando amostragem intencional.
Em oposição à amostragem probabilística, a lógica e o poder da amostragem intencional está
na seleção de casos ricos em informação dos quais é possível aprender sobre questões centrais
para o objetivo da pesquisa (Patton, 1990 e Yin, 1994). A seleção das PMEs fornecedoras
locais foi feita em duas etapas: a fase piloto e a pesquisa de campo. Na fase piloto, um
catálogo de empresas do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI), no CTA,
chamado CESAER 2001, foi utilizado para selecionar as empresas. Uma lista de empresas foi
comparada com aquelas pesquisadas para a pesquisa em Bernardes (2000a e 2000b) e
apresentada a Embraer. Assim, foram selecionadas 15 empresas para a pesquisa de campo,
sendo que 12 completaram a entrevista. Para a entrevista utilizou-se um questionário semiestruturado. As entrevistas foram realizadas pessoalmente com os gerentes das empresas.
Além das entrevistas, a fase de coleta de dados também incluiu a análise das informações
contidas em publicações, relatórios e manuais elaborados pelas PMEs.
O quadro analítico da pesquisa considerou o conceito de capacidade tecnológica
desenvolvido por Bell (1984), ou seja, a habilidade das empresas em gerar e gerenciar a
mudança tecnológica. Mudanças tecnológicas podem ser alterações incrementais em
tecnologias já existentes ou desenvolvimento de tecnologias completamente novas para a
empresa. Essas mudanças podem ser implementadas em várias áreas da empresa, tais como
produto, produção e organização. A acumulação de capacidade tecnológica envolve, portanto,
alterações nos recursos necessários à gestão e à geração das mudanças nestas áreas, tais como
nas competências e conhecimento, nos processos e gestão e nos tipos de relações
institucionais.
Parte-se do argumento de que existem duas possíveis trajetórias para o
desenvolvimento de capacidade tecnológica: implementação de mudanças mantendo a já
existente capacidade tecnológica; ou desenvolvimento de capacidade tecnológica com a
mudança na direção de níveis mais complexos de capacidade inovativa. Qualquer uma das
duas trajetórias é dependente da experiência acumulada pelas empresas ao longo do tempo,
seu contexto setorial e histórico. Considera-se, incialmente, que os fatores que poderão
condicionar o processo de desenvolvimento tem como elementos (ver Quadro 1): o ambiente
setorial (história, políticas governamentais e mercado), as relações com outras empresas
3
nacionais e estrangeiras e com instituições de pesquisa, e os esforços internos às empresas
para a geração de mudanças tecnológicas que podem ser relacionadas à produto, produção e
organização. Esses esforços internos referem-se à capacidade tecnológica da empresa.
A capacidade tecnológica está dividida em dois níveis principais: (1) capacidade
inovativa e (2) capacidade rotineira. Essa divisão foi definida a partir de Lall (1992), Bell e
Pavitt (1993) e dos resultados da pesquisa qualitativa realizada em 11 PMEs, na Embraer, no
CTA e com pesquisadores do setor em São Paulo. A capacidade tecnológica inovativa diz
respeito a habilidade das empresas em gerenciar, desenvolver e modificar substancialmente as
tecnologias gerando novos produtos e novos processos ou produtos e processos modificados
para o mercado, estando subdividada em dois tipos: intermediária ou avançada. Capacidade
inovativa avançada está relacionada à habilidade no desenvolvimento de novos produtos,
novos equipamentes, màquinas, software e procesos de produção e novos procedimentos
organizacionais, essencialmente por meio de atividades de P&D interno e de parcerias com
outras empresas, centros de pesquisa e universidades. Já a capacidade inovativa
intermediária está relacionada à habilidade no desenvolvimento de modificações de produto,
produção e organizacionais por meio de atividades como desenho, engenharia e prototipação
de produtos e processos e trabalho em grupo.
Quadro 1 – Modelo Analítico
Ambiente Setorial (história, políticas governamentais, mercado)
Relações: Empresas-Empresas
Empresas-Instituições de Pesquisa
Capacidade Tecnológica
Níveis:
1. Inovativa
1.1 Avançada
1.2.Intermediária
2. Rotineira
2.1 Pré-intermediára
2.2. Básica
Produto
Mudança Tecnológica
Níveis:
1. Grande impacto
Produção
2. Impacto médio
Organizacional
3. Baixo impacto
Área:
Tipos de relações:
1. Compra
2. Acordo de cooperação (participação em projetos, P&D)
3. Transferência de tecnologia
Fonte: Elaboração própria.
A capacidade tecnológica rotineira refere-se à habilidade da empresa em gerenciar,
utilizar e realizar pequenas adaptações nas tecnologias, podendo ser de dois tipos: básica e
pré-intermediária. As empresas com capacidade rotineira pré-intermediária têm habilidade
para administrar melhorias de qualidade através de pequenas adaptações, tais como realização
de testes, controle de qualidade, pequenas adaptações no maquinário e trabalho em grupo. Por
firm, capacidade rotineira básica refere-se à habilidade de reproduzir técnicas adaptando-as à
4
produção, controle de qualidade e procedimentos rotineiros de realização de projetos a partir
das especificações e requisitos já existentes.
Quanto às áreas, a capacidade tecnológica relacionada ao produto consiste na
habilidade das empresas em gerenciar, desenvolver e implementar mudanças nos requisitos e
especificações, no desenho e/ou na qualidade do produto. A capacidade tecnológica de
produção é diferenciada em duas formas: processos produtivos e produção de equipamentos
(maquinário, equipamentos e software). E a capacidade tecnológica organizacional foi
subdividida em duas áreas que são particularmente importantes para as empresas do setor
aeronáutico: gestão de projetos e procedimentos para projetar produtos e sua produção.
Quando se refere às mudanças tecnológicas, considera-se que ela consiste na
introdução pela empresa de tecnologias que se relacionam às três áreas explicitadas
anteriormente, sendo diferenciadas conforme o seu nível de novidade para a firma (baseado
em Bell e Pavitt, 1993). A mudança pode relacionar-se à introdução de uma tecnologia
completamente nova ou a adaptações em produtos, produção ou processos organizacionais já
existentes. Sendo assim, a classificação usada na pesquisa é baseada em três níveis de
novidade: grande impacto, impacto médio e baixo impacto (Quadro 1). A incorporação de
técnicas completamente novas em qualquer uma ou em todas as áreas corresponde ao nível de
grande impacto. Mudanças incorporadas ao produto, à produção ou à organização para
melhoria e atualização de técnicas já existentes corresponde ao nível médio impacto.
Finalmente, a reprodução de técnicas já em uso pela empresa são associadas ao nível baixo
impacto. É importante ressaltar que as mudanças podem estar inter-conectadas, no sentido de
que uma mudança em produto, por exemplo, pode influenciar mudanças na produção que, por
sua vez, pode exigir mudanças nos processos organizacionais.
O desenvolvimento da capacidade tecnológica exige a melhoria dos recursos das
empresas, tais como nas competências, conhecimento, experiência, processos organizacionais
e relações institucionais. O aprendizado tecnológico possibilita estas melhorias. Neste sentido,
Bell e Pavitt (1993) salientam a importância de distinguir mudanças tecnológicas de
aprendizado tecnológico. As primeiras referem-se a “qualquer forma de incorporação de uma
nova tecnologia na capacidade produtiva das firmas”; enquanto a última refere-se “ao
processo pelo qual recursos para geração e gestão de mudança [tecnológica] são
incrementados ou reforçados” (Bell e Pavitt, 1993, p.163).
O aprendizado tecnológico não acontece por si mesmo, mas requer esforços e
investimentos sistemáticos pelas empresas. Esforços podem ser empreendidos de modos
diversos, sendo alguns passivos e outros ativos. Esforços passivos de aprendizado são
associados, em sua maior parte ou totalidade, ao aprendizado pelo fazer, baseado na
experiência das pessoas em atividades produtivas. No limite, as firmas aprendem ao mudarem
suas tecnologias utilizando a capacidade tecnológica existente: aprendizado P na Figura 1. O
aprendizado baseado no fazer contribui para a melhoria dos recursos da empresa porque "a
execução das tarefas da produção no período 1 geram um fluxo de informação e entendimento
que auxiliam na melhoria da execução no período subsequente." (Bell, 1984, p.188)
Por outro lado, o aprendizado ativo dá-se quando a firma realiza esforços para mudar
as tecnologias mediante investimentos em aquisição de competências e conhecimento, novas
atividades organizacionais e relacionamento com outras empresas, instituições de pesquisa e
universidades, permitindo que a mesma alcance níveis superiores de capacidade tecnológica:
aprendizado A na Figura 1. Este tipo de aprendizado não só é baseado na experiência das
pessoas no desempenho das atividades produtivas, mas também em outros mecanismos de
aprendizado baseados no fazer ou não, tais como interação com outras firmas, laboratórios de
P&D e universidades, busca por novas tecnologias e contratação e treinamento de pessoal,
entre outras formas (Malerba, 1992; e Bell, 1984).
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Figura 1 – Trajetória de Desenvolvimento da Capacidade Tecnológica
Mudança Tecnológica
Nível 3
Aprendizado P
Aprendizado A
Nível 2
Nível 1
Capacidades
rotineiras
básicas
Capacidades
rotineiras préintermediárias
Capacidades
inovadoras
intermediárias
Capacidades
inovadoras
avançadas
Desenvolvimento de Capacidade Tecnológica
Fonte: Elaboração própria.
A distinção entre esses dois tipos de aprendizado tecnológico é particularmente
importante na medida em que eles influenciam a trajetória de desenvolvimento da capacidade
tecnológica de modo diverso. De fato, as firmas constróem a capacidade tecnológica
utilizando diferentes mecanismos de aprendizado (Figueiredo, 2003; Kim, 1997). Níveis mais
altos de capacidade tecnológica são associados a esforços ativos de aprendizado, enquanto
níveis mais baixos estão relacionados a esforços passivos (Viotti, 2002).
Utilizando o modelo analítico proposto, na próxima seção serão apresentados os
resultados da pesquisa realizada nas PMEs fornecedoras do setor aeronáutico brasileiro.
3. O Caso das PMEs do Setor Aeronáutico Brasileiro
3.1 O Ambiente Setorial:
É importante contextualizar alguns aspectos das políticas brasileiras antes de analisar
as especificidades da indústria aaeronáutica. Entre as décadas de 1940 e de 1980, a política
industrial brasileira foi orientada para substituição das importações e firmas estatais foram
criadas em setores considerados estratégicos para o país, tais como aeronáutica (aviões,
helicópteros e satélites), indústria naval, aço e exploração de petróleo, entre outros. Desde o
golpe de 1964, o principal objetivo dos projetos militares era alcançar a autonomia
tecnológica através de uma estratégia baseada em uma legislação protecionista das indústrias
nascentes, na criação de firmas em setores estratégicos, de laboratórios dedicados à pesquisa e
desenvolvimento a estes relacionados e na reforma do sistema de educação superior (Velho &
Saenz, 2002).
Entre 1960 e 1980, a industrialização e o desenvolvimento tecnológico do país tinha
como um dos seus instrumentos a criação de cadeias de suprimento para as estatais. Além
disso, incentivos foram dados para a instalação de firmas estrangeiras no país, incluindo
incentivos para o desenvolvimento de fornecedores locais (Dahlman e Frischtak, 1990). Os
laboratórios de pesquisa e desenvolvimento (P&D) ligados às estatais criadas eram
responsáveis pelas pesquisas, sendo essas empresas responsáveis pelo desenvolvimento
aplicado às suas necessidades de melhoria de produtos e processos e pela difusão de novas
tecnologias entre seus fornecedores que eram carentes de recursos humanos e de capital para
realizarem por si só tais atividades (Velho e Saenz, 2002).
6
Apesar da prioridade ser o desenvolvimento econômico, foi criada uma infra-estrutura
de Ciência e Tecnologia (C&T): foram fundadas universidades, centros de pesquisa, escolas
técnicas e instituições de apoio para atender às necessidades da indústria nascente. O Governo
Federal criou fundos especiais para o desenvolvimento de pesquisa e de educação superior em
áreas consideradas estratégicas para o país, de acordo com o regime militar então vigente,
como a aeronáutica. Tais fundos eram administrados por agências governamentais, como
CNPq e FINEP, dos quais cerca de 75% foram gastos para o desenvolvimento nas áreas de
matemática, física, química e de engenharia entre os anos de 1970 e 1976 . Sendo que, quando
as estatais desenvolveram suas capacidades tecnológicas, algumas incorporaram esses centros
de P&D para formarem os seus próprios departamentos internos (Velho e Saenz, 2002).
Segundo Velho e Saenz (2002), desde a metade da década de 1980 as políticas
governamentais para desenvolvimento industrial e tecnológico mudaram profundamente: da
substituição de importações para a liberal. De acordo com esses autores, esta mudança foi
acompanhada pelo abandono de áreas de pesquisa prioritárias para que fosse feita uma
alocação mais "democrática" de recursos. Eles ainda consideram que as principais políticas
industriais e de ciência e tecnologia foram: voltadas ao incentivo à importação e investimento
estrangeiro pare empresas intensivas em tecnologia, tradicionalmente mantidas sob controle
governamental; redução do protecionismo às indústrias nascentes; redução do controle sobre
importações; e mudanças na legislação de propriedade intelectual. Dois elementos
importantes da política de C&T cabem destacar: o estímulo às firmas privadas para
compartilhar gastos em P&D e a criação e aprofundamento das relações entre instituições
públicas de pesquisa e firmas privadas.
Tendo em vista os principais aspectos das políticas governamentais que influenciaram
o contexto de desenvolvimento da indústria aeronáutica explicitados rapidamente acima, foi
possível distinguir cinco estágios da história desta indústria (Marques, 2004). Definidos a
partir de Bernardes (2000b) e Braga e Cabral (1986) tais estágios estão divididos em: primeira
fase de desenvolvimento de competência (1930-1940); segunda fase de desenvolvimento de
competência (1950-1960); fase moderna (1970-1980); fase de internacionalização (transição,
1980-1994); e fase de reestruturação industrial (liberalização, 1995-2002). Estas cinco fases
estão sumarizadas nos Quadros2 e 3.
7
Quadro 2 . Fases do desenvolvimento do setor aeronáutico brasileiro: políticas governamentais e infra-estrutura de C&T
Desenvolvimento de Competência:
primeira fase (1930-1950)
Desenvolvimento de
Competência: segunda fase
(1950-1970)
Programa governamental para
treinamento de pilotos e
qualidficação de engenheiros
aeronáuticos nos EUA; fundação do
Instituto de Tecnologia Aeronáutica
(ITA) e compra de aeronaves.
Fundação do Instituto de
pesquisa CTA; fomento à
pesquisa aeronáutica;
contratação de pesquisadores
estrangeiros; proteção do
mercado nacional; e política
para compra de aeronaves.
Força Aérea Brasileira;
IPT
ITA
CTA
IPT
Projeto Neiva : Centro de
Desenvolvimento
Políticas Governamentais
Infra-Estrutura de C&T
Reestruturação
Industrial
(Liberalização, 1995(ISI, 1970-1980)
(transição, 1980-1994)
2002)
Políticas de P&D;
Fomento à pesquisa e ao Políticas de offset
subsídios orientados à
treinamento de
(compras militares)
exportação; e retomada
engenheiros
envolvendo
da política de
aeronáuticos; definição transferência de
de políticas para
tecnologia estrangeira; nacionalização de
componentes aéreos.
transferência de
fomento à P&D;
tecnologia estrangeira; redução dos incentivos
propriedade conjunta
e subsídios fiscais;
governo-privado;
redução do
incentivos e subsídios
protecionismo ao
fiscais; proteção ao
mercado nacional;
mercado nacional;
redução das compras
desenvolvimento de
goernamentais; e
políticas de exportação; privatização.
política para
nacionalização de
componentes aéreos; e
CTA d
CTA
CTA; IPT
Fase Moderna
IPT
USP
Internacionalização
IPT
USP
USP
Universidade de São
Carlos
UNICAMP
UFSC; UFSCar
Outras universidades
brasileiras
Fonte: Elaborado a partir de Bernardes (2000b), Dagnino e Proença (1989), Green (1987), Braga e Cabral (1986) e entrevistas.
Notas: Ver notas de final de texto: CTAiii, IPTiv, ITAv, Neivavi
8
Quadro 3 – Fases do desenvolvimento do setor aeronáutico brasileiro: características do mercado e das aeronaves
Desenvolvimento de Competência:
primeira fase (1930-1950)
Desenvolvimento de
Competência: segunda fase
(1950-1970)
Fase Moderna
(ISI, 1970-1980)
Reestruturação
Industrial
(Liberalização, 1995(transição, 1980-1994)
2002)
Internacionalização
Características do Mercado
5 firmas nacionais
Produtores Finais
1 joint venture entre o governo
brasileiro e a firma alemã Focke
Wulf
2 firmas nacionais
Fornecedores
(sistemas – I nível da cadeia de
fornecedores)
-
-
Principais Clientes
Governos brasileiro e americano –
aviões militares
Governo brasileiro e firmas
agropecuárias nacionais
De Havilland, Cessna,
Fairchild, Piper, Saab, BAe,
Dornier, Fokker, e Canadair,
entre outros.
Características das Aeronaves
1 firma de capital misto
privado-estatal
(Embraer)
1 firma estatal
(Embraer)
1 firma de capital misto
nacional-estrangeiro
(Embraer)
1 firma nacional (Neiva)
1 firma nacional
(Aeromot)
1 firma nacional
(Aeromot)
Aproximadamente 500, Aproximadamente 500, Aproximadamente 50,
entre os quais 70% são entre os quais 70% são entre os quais 95% são
firmas estrangeiras
firmas estrangeiras
firmas estrangeiras
Governo brasileiro
EUA e Europa
De Havilland, Cessna,
Fairchild-Dornier e
Fairchild, Piper, Saab,
BAe, Dornier, Fokker, e Bombardier-Canadair
Canadair, entre outros.
EUA e Europa
Principais Competidores
Piper e Fairchild, entre outros.
Número de Passageiros
De 01 a 02 passageiros; aviões de
caça
De 01 a 02 passageiros
19 passageiros
30 passageiros
De 45 a 108 passageiros
Motor
Mono e duplo turbo-propulsores
Mono e duplo turbo-propulsores
Turbo-propulsores
duplos
Turbo-propulsores
duplos
Turbo-propulsores
duplos a jato
Bombardier
Fonte: Elaborado com base em Bernardes (2000b), Dagnino e Proença (1989), Braga e Cabral (1986) e entrevistas.
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3.2 O Desenvolvimento da Capacidade Tecnológica pelas PMEs
Depois de realizar as entrevistas e visitas as 11 empresas, foi possível identificar duas
trajetórias de desenvolvimento da capacidade tecnológica das PMEs fornecedoras do setor
aeronáutico brasileiro. Primeiro, quatro empresas desenvolveram capacidade tecnológica
implementando mudanças de alto impacto. Essas quatro empresas tiveram experiências
distintas em relação aos fatores que condicionaram esse desenvolvimento, bem como nos
tipos de relações com a Embraer e com as compradoras estrangeiras.
A única empresa que desenvolveu capacidade tecnológica inovativa implementou
mudanças de alto impacto, estando ativamente engajada em atividades de P&D, relacionadose com outras empresas na forma de acordo de cooperação e transferência de tecnologia (e
não somente contrato de compra), desde a sua constituição no período de internacionalização
do setor (1981-1994). Todos esses esforços relacionavam-se na maior parte à implementação
de mudanças tecnológicas em produto e processos organizacionais para gestão de projetos e
procedimentos para projetar produtos e sua produção, comparado com os esforços
relacionados a execução da produção propriamente dita. As mudanças na produção referiramse em particular aos procedimentos de testes e tratamento de materiais e estavam fortemente
relacionados aqueles implementados nos processos organizacionais.
De fato, essa empresa recebeu transferência tecnológica de fornecedores estrangeiros
do Ministério da Defesa, formalizados em contratos que incluíam transferência de tecnologia,
em paralelo com investimentos militares em treinamento e infra-estrutura para o
desenvolvimento da capacidade tecnológica, considerando que no início do processo a
empresa possuía capacidade tecnológica rotineira básica. Esses investimentos levaram a
empresa a implementar atividades internas que fizeram com que ela acumulasse capacidade
tecnológica intermediária e conseguisse participar em desenvolvimento de produto
cooperativo com fornecedores estrangeiros da Embraer e com compradores estrangeiros.
A participação em projetos cooperativos com os compradores estrangeiros no período
1995-2002 influenciou investimentos em pesquisa aplicada e desenvolvimento de produto,
tanto quanto no desenvolvimento de tecnologias para gestão de projetos e procedimentos para
projetar, contribuindo para que a empresa chegasse em um nível de capacidade tecnológica
avançada em produto.
Cabe salientar que a participação dessa empresa em programas de compras do
Ministério da Defesa brasileiro, na qualidade de recebedora de transferência tecnológica,
foram essenciais para o desenvolvimento da capacidade tecnológica inovativa. O
envolvimento da empresa nesses programas aconteceram concomitantemente com
investimentos na aprendizagem tecnológica de forma ativa, ou seja, em procedimentos para
projetar, realizar prototipagem e testes, além da implementação de atividades de P&D e
treinamento dos recursos humanos.
Dentre as três outras empresas, uma outra acumulou capacidade tecnológica o fez até
o nível intermediário, implementando mudanças tecnológicas de alto impacto e seguindo uma
trajetória distinta. Essa empresa investiu na aprendizagem tecnológica baseada na experiência
dos sócio-fundadores, na sua proximidade com uma universidade local onde um dos sócios
foi pesquisador e professor e pela participação em projetos militares. Os investimentos em
treinamento e contratação de recursos humanos com experiência no setor aeronáutico foram
bastante intensos no período de internacionalização do setor (1981-1994) comparado com os
outros períodos (1970-1980 e 1995-2002). Foi possível identificar através dessa pesquisa que
os investimentos para o desenvolvimento de produto foram realizados no período de 19811994, servindo de base para os desenvolvimentos futuros realizados pela empresa.
Particularmente, a participação em contratos de fornecimento com a Embraer,
seguidos de assistência técnica dos militares e conversas informais com uma empresa
10
brasileira de manutenção de aviões, contribuíram para que a empresa acumulasse capacidade
tecnológica pré-intermediaria para a realização de pequenas melhorias em produto e processo
produtivo. A acumulação de capacidade tecnológica intermediária necessitou da empresa
investimentos na aquisição de tecnologia estrangeira, contratação de recursos humanos
estrangeiros e brasileiros, treinamento e esforços internos para desenvolvimento de produto,
bem como a cooperação com uma universidade localizada próxima à empresa.
Cabe salientar que a participação dessa empresa que acumulou capacidade tecnológica
intermediária em programas militares que envolviam transferência de tecnologia possibilitou
a implementação de mudanças tecnológicas em equipamentos de produção e em produtos nos
quais a empresa utilizou a capacidade que já possuía. Assim, a participação nesses programas
pouco contribuiu para que a empresa acumulasse a capacidade tecnológica intermediária,
diferentemente do caso da empresa que acumulou capacidade inovativa avançada.
As duas empresas que construíram capacidade tecnológica pré-intermediária tinham
estratégias de aprendizagem tecnológica passivas que se diferenciavam, particularmente, em
relação ao tipo de relações estabelecidas com outros agentes e seus esforços internos. Uma
dessas empresas tinha uma relação muito próxima com a principal compradora – que era uma
multinacional fornecedora da Embraer. O contrato entre elas era de compra mas previa a troca
de informações técnicas que contribuíram para o desenvolvimento da sua capacidade
tecnológica para pré-intermediária. Já no caso da outra empresa, o desenvolvimento da
capacidade foi influenciado pelos contatos que os gestores da empresa possuíam com a
universidade onde concluíram seus cursos de engenharia e nas suas experiências anteriores.
As diferenças nas influências dos compradores no desenvolvimento de capacidade
tecnológica pode estar relacionada ao tipo de produto dessas empresas: a primeira produz
software para gestão da empresa (ERP), que depende largamente das informações que o
comprador passa, bem como visitas a planta dele, enquanto a segunda empresa produz
pequenas peças seguindo as especificações e desenho fornecidos pelos compradores. As duas
empresas implementaram mudanças em processos produtivos que podem ser considerados de
médio impacto. É importante esclarecer que nenhuma dessas empresas esteve envolvida em
programas governamentais.
Oito empresas mantiveram a capacidade tecnológica básica, tendo implementado
mudanças tecnológicas em produto, produção e organizacional considerados de médio e baixo
impacto. Essas empresas tiveram uma atuação passiva em relação aos esforços internos de
aprendizagem das tecnologias implementadas. De fato, as mudanças foram na maioria
implementadas com base na experiência dos gestores das empresas e dos seus funcionários,
adquiridas quando eles trabalharam na principal compradora brasileira - a Embraer. A
Embraer estava dando assistência técnica e fazendo exigências para que as empresas
adotassem melhores práticas de gestão da produção para que o produto fosse entregue
conforme as especificações e no prazo acordado, incluindo o rastreamento de toda a produção.
A Embraer, também, apoiou o treinamento dos funcionários dessas empresas de modo que
eles adquiriram capacidade para replicar e produzir conforme o seu sistema de qualidade.
Na maior parte dessas oito empresas, o treinamento dos empregados era feito no
“chão-de-fábrica” ou “fazendo” (executando) a produção, controlando a qualidade e conforme
os padrões da ISO 9000. Essas empresas não realizavam atividades para gerar as mudanças
tecnológicas mas para implementar as mudanças conforme as especificações e os manuais.
Observou-se na metade das oito empresas um tipo informal de relacionamento com a
Embraer que possibilitou uma aprendizagem através da busca por soluções de problemas
relacionados as modificações tecnológicas que eram exigidas pela Embraer ou por
compradores estrangeiros. No entanto, essa busca restringia-se a consulta com contatos no
CTA, na Embraer e, em alguns casos, na Internet. Esses problemas relacionavam-se,
particularmente, à questões de conformidade da produção com as especificações da Embraer.
11
É importante salientar que três dessas oito empresas estavam participando em projetos
de desenvolvimento conjunto de produto com a Embraer e fornecedores estrangeiros da
Embraer focados em engenharia de projetos, os quais estavam contribuindo para a
implementação de mudanças tecnológicas nos processos para projetar os produtos e na
formalização das atividades de treinamento dos funcionários, conforme as exigências da
Embraer. As principais mudanças eram relacionadas a implementação de procedimentos para
assegurar a qualidade do projeto e rastreamento de falhas, caso ocorressem.
Quatro empresas tinham funcionários trabalhando dentro da planta da Embraer em
projetos de engenharia (uma empresa), na montagem de partes na fuselagem do avião e dos
ferramentais (outras três empresas). Os fluxos de informações nessas relações com a Embraer
e com os compradores estrangeiros, que eram fornecedores da Embraer, eram relacionados a
assitência técnica e manuais que auxiliavam na implementação das mudanças tecnológicas.
Com relação à participação em programas governamentais, seis PMEs estavam
participando do programa de promoção de exportações da Agência Brasileira de Promoção de
Exportações (APEX-Brasil). A participação dessas empresas nesse programa resultou na
formação do High Technology Consortium (Consórcio HTA), formado por aproximadamente
8 empresas. O Governo Brasileiro financiou, através desse programa, mudanças tecnológicas
em processo de produção, máquinas e equipamentos, implementação da ISO 9000,
treinamento de recursos humanos e visitas a feiras internacionais, além de outras ações.
Essas mudanças tiveram alto, médio ou baixo impacto nas empresas. Os resultados das
entrevistas sugerem que a participação nesse programa estava incentivando algumas das
empresas a implementarem mudanças tecnológicas que poderiam auxilá-las na construção de
capacidade tecnológica inovativa de nível intermediário. Entretanto, as PMEs participantes do
programa da APEX-Brasil estavam realizando esforços para a aprendizagem tecnológica
passivos no momento das entrevistas.
4. Conclusões
Os resultados apresentados sugerem duas contribuições do artigo. Em primeiro lugar,
o desenvolvimento de capacidade tecnológica pode ter uma forte correlação com o nível de
mudança tecnológica, ou seja, com o seu grau de novidade para a empresa. A influência da
relação com os principais compradores nacionais e estrangeiros no processo de
desenvolvimento depende do nível de novidade da mudança tecnológica que as PMEs
deverão implementar, em relação à capacidade tecnológica já existente, bem como com os
seus esforços para a aprendizagem tecnológica. No caso das PMEs no setor aeronáutico
brasileiro observou-se que os esforços internos de aprendizagem tecnológica, os tipos de
relações com outros agentes (empresas, institutos de pesquisa e universidades) e a
participação em programas governamentais são os principais fatores que condicionaram o seu
desenvolvimento. De fato, os tipos de relações estabelecidas com outros agentes identificados
foram: contrato de compra, acordo de cooperação para desenvolvimento de produto e
processo produtivo e aqueles que envolveram transferência de tecnologia.
As exigências do mercado tem importância relativa. Compradores que “amarram” as
PMEs para atualização de seus produtos, processos produtivos e organizacionais para atender
as especificações tendem a ter uma contribuição para a manutenção da sua capacidade
tecnológica. Compradores que possuem relações de desenvolvimento tendem a contribuir para
a acumulação de capacidade tecnológica, forçando a PME a realizar investimentos em
pesquisa e desenvolvimento (P&D) quando esta já não o estiver realizando. Quando a PME
já realiza atividades de P&D, a contribuição será para o fortalecimento da capacidade
inovativa avançada já existente.
12
Segundo, a participação em programas governamentais também teve impactos
diferenciados no desenvolvimento da capacidade tecnológica dessas empresas. De fato, uma
pesquisa futura poderia aprofundar o entendimento desse fator como condicionante do
desenvolvimento da capacidade tecnológica pelas PMEs do setor aeronáutico.
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i
O conceito para pequenas e medias empresas considerado nessa tese é o do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE (www.ibge.gov.br). Assim, as médias empresas são aquelas com 100 a 500 empregados e
pequenas empresas aquelas com 1 até 99 empregados.
ii
Existia no cadastro do IBGE (www.ibge.gov.br) 484.000 empresas industriais, sendo 483.000 PMEs em 2005,
ou seja, empresas com menos de 500 empregados.
iii
O Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA) é composto por quarto institutos: Instituto de
Tecnologia Aeronáutica (ITA), Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), Instituto de Estudos Avançados (IEAv),
e Instituto para o Desenvolvimento e Coordenação da Indústria Aeroespacial (IFI). A instituição brasileira mais
importante para o treinamento de engenheiros aeronáuticos é o ITA (http://www.cta.br; setembro, 2006).
15
iv
Instituto de Pesquisas Tecnológicas, localizado no Estado de São Paulo, teve origem no Laboratório de Ensaios
de Matérias da USP, fundado em 1934.
v
Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) fundado no final da década de 1940.
vi
Neiva é um fabricante brasileiro de pequenas aeronaves que foi adquirida pela Embraer (Bernardes, 2000b).
16
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Quais são os Fatores que Estimulam o Desenvolvimento da