XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. MOBILIDADE URBANA NA CIDADE DE SANTA CRUZ DO SUL: ANÁLISE E PERCEPÇÕES Andre Luiz Emmel Silva (UNISC) [email protected] Lucas Vinicius Reis (UNISC) [email protected] Augusto Lauschner Bohnen (UNISC) [email protected] Leonardo Moraes Aguiar Lima dos Santos (UNISC) [email protected] Mauricio Sandim (UNISC) [email protected] Os problemas relacionados à falta de planejamento dos centros urbanos estão presentes na grande maioria das cidades do território brasileiro e seus impactos se refletem na qualidade de vida dos cidadãos, no meio ambiente e na economia. Este artigo é um estudo que visa compreender os principais conceitos relacionados à Mobilidade Urbana, os problemas que a cidade alvo deste estudo vem enfrentando e suas alternativas de melhoria. A cidade de Santa Cruz do Sul, localizada na região central do estado do Rio Grande do Sul, foi escolhida por ser um município que está enfrentando problemas com o crescimento desordenado de sua área urbana e teve um aumento de sua frota de veículos individuais superior a 50% nos últimos dez anos. Através de uma pesquisa bibliográfica, soluções propostas por diversos autores foram analisadas e um questionário foi elaborado e aplicado a uma amostra representativa de pedestres e motoristas selecionados ao acaso no centro da cidade. Como resultado do estudo, foi possível identificar os motivos que levam as pessoas a se deslocarem na área urbana, os meios de transporte utilizados, as vias com piores condições de tráfego e os motivos da não adoção de meios de transporte alternativo e opções para mudança de hábito. Palavras-chave: Mobilidade Urbana, Congestionamentos, Trânsito XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. 1. Introdução Os problemas que as cidades enfrentam a partir de um determinado estágio de crescimento são bem conhecidos, como o déficit habitacional, a poluição do ar, das águas e visual, carência de infraestrutura básica, dificuldades de locomoção e, consequentemente, diminuição da qualidade de vida dos habitantes (PIZZOL, 2006). A mobilidade é vista hoje como fator de fundamental importância dentro das cidades quando se aborda a questão da qualidade de vida de seus moradores. Seus debates têm oportunizado o desenvolvimento de medidas de planejamento e controle do crescimento das cidades e de suas frotas de veículos. Para Bertini (2005) a sensação de tempo perdido diante de um enorme congestionamento é preocupante e são poucas as pessoas que sabem conviver com essa realidade naturalmente. Nos últimos anos, milhões de pessoas têm perdido dinheiro e tempo por causa deles. Mesmo que esteja relacionada aos deslocamentos realizados por indivíduos nas suas atividades de estudo, trabalho, lazer e outras (MAGAGNIN, 2008), a mobilidade é um complexo fenômeno social que ultrapassa as dimensões físicas, corporais e econômicas, envolvendo também as dimensões cultural, afetiva, imaginária, espacial e individual (URRY, 2007). Dessa forma ela deve ser abordada não apenas baseando-se na movimentação das pessoas, mas no motivo pelo qual isso ocorre e no por que delas utilizarem qualquer meio de transporte. A cidade de Santa Cruz do Sul, alvo deste estudo, possui um sistema viário que apresenta deficiências, como dificuldade no deslocamento de veículos em diversos pontos da sua área central nos horários de maior tráfego e falta de vagas de estacionamento. Sua população é de 118.374 habitantes (IBGE, 2010) e sua área urbana está em constante crescimento. Apesar da ânsia por soluções universais, que possam ser replicadas em diferentes partes do planeta, cada vez mais se percebe a importância de estudos e diagnósticos locais que fundamentem a proposição de alternativas para mobilidade urbana (MOKHTARIAN e SCHWANEN, 2005). Sendo assim, o presente artigo investigou a percepção da população de Santa Cruz em relação ao trânsito, os principais problemas que o município enfrenta, suas possíveis causas e algumas soluções cabíveis. 2. Materiais e métodos 2 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. É possível enquadrar esta pesquisa como sendo uma abordagem qualitativa, que segundo Gil (2010) é caracterizado do ponto de vista técnico, como uma pesquisa bibliográfica por meio da qual se desenvolverá uma análise de conteúdo dos artigos publicados a cerca dos temas em estudo. Também consiste em uma pesquisa exploratória pelo seu objetivo de analisar um problema para propiciar uma melhor compreensão do mesmo (MALHOTRA, 2005). A partir da pesquisa bibliográfica prévia, foi possível uma melhor compreensão dos problemas oriundos da falta de planejamento da mobilidade urbana e a estruturação do questionário aplicado durante o estudo, o qual encontra-se em anexo. A determinação do tamanho da amostra a ser aplicado o questionário baseou-se no processo de amostragem aleatória simples e utilizou-se a equação descrita por Luiz e Magnanini (2000), onde: (1) Sendo: n = tamanho amostral; Z²α/2 = quadrado do valor da tabela de distribuição t para o intervalo de confiança adotado; N = tamanho da população; P = prevalência amostral; Є² = quadrado do erro tolerável de amostragem; No cálculo, adotou-se o intervalo de confiança de 95% e para a prevalência amostral um valor de 0,5 foi atribuído como forma de maximizar o tamanho da amostra e reduzir possíveis distorções nos resultados. A partir desta equação, chegou-se a uma amostra mínima de 383 questionários. As respostas extraídas foram analisadas e agrupadas adequadamente, podendo então ser estabelecida uma ordem de prioridade de ações que devem ser tomadas, para garantir uma maior qualidade na mobilidade urbana do município. 2.1 Características da cidade alvo do estudo Localizada na região central do estado do Rio Grande do Sul, a cidade de Santa Cruz do Sul tem sua economia baseada na produção e beneficiamento de tabaco e vem se desenvolvendo 3 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. em ritmo acelerado nos últimos anos. Fato este que pode ser observado na elevada quantidade de empreendimentos imobiliários em fase de projeto e construção presentes em seu território e na tabela 1, que demonstra o aumento da quantidade de veículos ao longo dos últimos anos. Tabela 1 - Veículos emplacados na cidade de Santa Cruz do Sul de 2005 a 2014 Ano Camin hão 1468 Caminhão trator 322 Camin honete 1287 Camin honeta Microônibus Motoci cleta Ônibus Utilitá rio Set/05 Auto móvel 30233 2162 124 10285 462 74 Set/06 31374 1568 334 1533 2143 132 11124 487 83 133 11857 516 117 Set/07 32413 1594 359 1940 1935 Set/08 33988 1628 397 2766 1312 139 12576 489 173 Set/09 35917 1731 415 2959 1431 137 13056 504 224 Set/10 38187 1893 405 3297 1633 147 13509 531 297 Set/11 40567 2030 415 3565 1870 149 13933 574 373 Set/12 43636 2180 423 3920 2145 164 14290 596 437 Set/13 46417 2276 428 4357 2447 161 14582 605 505 Set/14 48956 2333 462 4898 2718 172 14945 617 566 Fonte: Adaptado de Denatran (2014) Santa Cruz do Sul é considerada uma cidade de médio porte em relação a sua região, pois concentra um significativo contingente de indústrias, sobretudo, multinacionais vinculadas ao beneficiamento de tabaco, sedia órgãos públicos, além de atividades comerciais e de prestação de serviços (DEEKE, 2012). Possui um território de 733,412 Km², sendo 133,40 Km² de área urbana e 661,09 Km² de área rural (RUOSO, 2012). Sua população é de 118.374 habitantes sendo 88,9% na área urbana (IBGE, 2010). Seus habitantes enfrentam muitos pontos de lentidão no trânsito em horários de pico, além da falta de vagas de estacionamento na área central. Estes problemas acabam aumentando as emissões de poluentes, o stress dos motoristas e pedestres e o número de acidentes. 3. Revisão bibliográfica 3.1 Mobilidade urbana Problemas relacionados ao deslocamento de pessoas e bens no espaço urbano existem desde o surgimento das cidades, no entanto esses acabam tornando-se cada vez mais graves com o seu crescimento desenfreado (MIRANDA, 2010). Tais problemas provêm tanto de escolhas 4 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. históricas, como da falta de planejamento e investimentos, quanto atuais, decorrentes da extrema dependência dos meios motorizados (SILVA, COSTA e MACEDO, 2008). A Lei nº 12.587/12 – Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU), em seu art. 4º, difere transporte urbano de mobilidade urbana: I – transporte urbano: conjunto dos modos e serviços de transporte público e privado utilizado para o deslocamento de pessoas e cargas nas cidades integrantes da PNMU; II – mobilidade urbana: condição em que se realizam os deslocamentos de pessoas e cargas no espaço urbano (BRASIL, 2012). A mobilidade pode ser definida como um atributo relacionado aos deslocamentos realizados por indivíduos nas suas atividades de estudo, trabalho, lazer e outras (MAGAGNIN e SILVA, 2008) e visa conferir melhor circulação de bens e recursos humanos nas cidades (NASCIMENTO, 2014). Uma cidade com um bom plano de mobilidade urbana deve oportunizar meios de circulação que possibilitem o acesso a diferentes pontos de forma rápida e segura. Evitando assim, congestionamentos e todos os prejuízos que estes podem trazer a vida social e econômica dos indivíduos. Resultados positivos em ações relacionadas à mobilidade urbana provêm de um conjunto de políticas de transporte e circulação com a finalidade de proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano, através da priorização dos modos de transporte coletivo e não motorizados, de forma efetiva, socialmente inclusiva e sustentável de modo a garantir a acessibilidade (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2007). É preciso compreender que os problemas relacionados à mobilidade têm muitas origens sendo que uma das principais esta relacionada às opções de transportes oferecidas aos cidadãos e por eles adotadas. A forma como se dá o processo de circulação urbana interfere diretamente na demanda por transportes, nas áreas destinadas a estacionamento, nos congestionamentos, etc. (MAGAGNIN, 2008). O estacionamento é uma peça chave nas estratégias de transporte das grandes cidades, afetando a maneira como vivemos, a acessibilidade e o sucesso econômico de uma estratégia de desenvolvimento sustentável. Além disso, a oferta e o custo do estacionamento podem desempenhar um papel fundamental na mudança de um sistema dependente do automóvel para modos de transportes mais ecológicos como os percursos pedestres, vias de ciclismo e os transportes coletivos (FILOSA, 2006). A procura de um lugar de estacionamento livre cria congestionamento de veículos que estão à espera ou à procura de uma vaga. Quase ninguém 5 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. percebe a quantidade de veículos que estão inseridos neste ciclo, pois esses mesmos condutores encontram-se misturados com os outros que realmente procuram circular para determinada localização, tornando-se um catalisador dos grandes congestionamentos (SHOUP, 2005). Para Coyle, Bardi e Novack (2006) as principais perdas financeiras envolvidas em um congestionamento são o preço do tempo perdido na viagem, o custo adicional de combustível, manutenção e depreciação dos veículos e o custo da poluição sonora e atmosférica. Porém os autores alertam que os custos advindos dos congestionamentos são transferidos para a população, e vão além do prejuízo financeiro, com exposição aos riscos que gradualmente reduzem a qualidade de vidas das pessoas. O transporte público é apontado como uma possível solução para redução nos congestionamentos do tráfego, redução da emissão de CO2, maior eficiência no consumo de energia, bem como para melhoria da mobilidade urbana (FREITAS e REIS, 2013). Representa um modo de deslocamento importante para a sociedade e pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de uma região (FUJII e VAN, 2009). A eficiência dos sistemas de transporte coletivo é ainda maior quando a utilização de sistemas de alta capacidade e baixo custo, como metrôs, trens de superfície e ônibus de alta capacidade (RODIER, JOHNSTON e ABRAHAN, 2002; DESSOUKY, RAHIMI e WEIDNER, 2003). 3.2 Problemas e soluções A expansão urbana acelerada nesse novo contexto contemporâneo constitui-se, portanto, em uma nova forma de viver a cidade (OJIMA, MONTEIRO e NASCIMENTO, 2015). Os estudos realizados por diferentes autores apontam uma forte relação entre os diferentes problemas relacionados à mobilidade, sendo necessária bastante cautela na tomada de ações para minimização dos seus impactos, pois resultados positivos com relação a um problema específico podem agravar outro devido a esta relação já mencionada. Um exemplo disso é a cobrança de taxas para a circulação de veículos motorizados em determinados setores das cidades, medida esta que reduz os congestionamentos e as emissões de GEE (gases do efeito estufa). Porém corre-se o risco de estimular uma dispersão urbana na medida em que se introduz a taxação em determinadas áreas (DALKMANN e BRANNIGAN, 2007). Está dispersão irá demandar uma maior quantidade de deslocamentos e consequentemente 6 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. aumentar as emissões de GEE, além de penalizar alguns grupos sociais, restringindo seu acesso a determinados serviços urbanos (BARCZAK e DUARTE, 2012). As questões tratadas pela mobilidade urbana apresentam importância principalmente quando analisadas quanto ao aumento do tempo e custos de viagens, fragmentação do espaço urbano, acidentes de trânsito, segregação espacial, ruído, poluição atmosférica e outras externalidades (NASCIMENTO, 2014). Dentre os principais problemas observados, oriundos da falta de planejamento dos centros urbanos podemos citar, conforme Evans (2005) e Ruberg (2007) formação de congestionamentos; geração elevada de gases do efeito estufa; prejuízos financeiros e econômicos; stress da população e consequente diminuição da qualidade de vida; e dificuldade de gerenciamento de resíduos urbanos. Os períodos entre 7h e 9h, e entre 17h e 19h são caracterizados por uma grande quantidade de pessoas que necessitam se locomover, que juntamente com a preferência de grande parte da população de utilizar o transporte individual agravam os congestionamentos das áreas urbanas (RESENDE, 2009). Estes fatores podem explicar algumas das causas dos atuais problemas relativos à mobilidade urbana. Ainda é possível acrescentar o crescimento desordenado e a falta de políticas públicas que possam orientar o crescimento espacial de forma sustentável e com qualidade de vida (MAGAGNIN, 2008) e o aumento do número de veículos superior a construção de ruas e avenidas (DOWS, 2004). É evidente que a utilização de transporte individual traz conforto e flexibilidade aos deslocamentos dos cidadãos, porém o revés desta forma de deslocamento é o aumento da poluição ambiental com as emissões de gases poluentes, poluição sonora por meio dos elevados índices de ruídos, perda de tempo em congestionamentos crônicos, riscos a vida e de ferimentos graves devido a acidentes de trânsito, e rupturas em comunidades e nos ecossistemas (WBCSD, 2004). Frente às causas e problemas presentes na organização dos centros urbanos, diferentes órgãos governamentais ou não-governamentais e autores da área estão propondo e/ou implantando ações para minimizar os impactos da ineficiência da mobilidade urbana. No quadro 1 estão elencadas algumas das principais medidas já propostas ou implantadas. Para garantir uma boa eficiência na utilização de qualquer medida relacionada à mobilidade urbana é preciso realizar um bom planejamento anterior a sua implantação, porém não é isso 7 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. que se pode observar nas cidades brasileiras. Normalmente o planejamento considera apenas o transporte motorizado, esquecendo que grande parte dos deslocamentos é realizado por pedestres ou outros meios não motorizados e que todo este sistema de transportes está inserido em um sistema maior, a cidade. Quadro 1 - Medidas para melhorar a mobilidade urbana Medida proposta/implantada Cobrança de tarifas, taxas ou emissão de certificados de poluição e pedágios urbanos; Adoção de normas regulatórias que visam restringir atividades poluidoras; Restrição de acesso a determinadas áreas urbanas, em determinados dias e horários, por automóveis; Adoção de políticas de mobilidade urbana que priorizem transporte público e não motorizado e que garantam investimentos nesta área; Resultado esperado Gerar receita para os órgãos reguladores e internalizar os custos de atividades poluidoras; Redução de danos ambientais causados por estas atividades; Redução de congestionamentos e melhoria do fluxo. Incentivo ao uso de transporte coletivo ou não motorizado; Proporcionar acesso democrático ao espaço urbano e garantir acesso aos serviços públicos de transporte coletivo; Referência LANFREDI, 2007; MAY, 2010; DALKMANN e BRANNIGAN, 2007; BARCZAK e DUARTE, 2012; MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2014; Implantação de sistemas informatizados que apresentam em tempo real as condições do trânsito em diferentes pontos da cidade e ofereçam informações sobre os serviços de transporte coletivo (horário, rota, custo); Mudança nas estratégias de deslocamento da população, reduzindo assim os congestionamentos; SAYEG e CHARLES, 2005; BATISTA, 2013; A utilização da bicicleta ao invés do carro como meio de transporte. Redução nos congestionamentos, emissões poluentes, diminui a necessidade de estacionamentos para veículos motorizados e traz benefícios para a saúde. BOUWMAN e MOLL, 2002; MARTENS, 2004 4. Resultados e discussão Através do questionário aplicado a 383 indivíduos durante os meses de fevereiro e março de 2015, foi possível identificar que 33% das pessoas que se locomovem pela área urbana de Santa Cruz do Sul estão insatisfeitas com as condições de mobilidade e 50% parcialmente insatisfeitas. Em uma das questões, foi solicitado aos entrevistados que atribuíssem uma nota de 1 a 5 às condições de trânsito da cidade, sendo 1 totalmente insatisfeito e 5 totalmente satisfeito. Como resposta, 6% atribuíram nota 1, 23% nota 2, 45% nota 3, 20% nota 4 e 3% nota 5. A pesquisa também identificou o período entre 17h e 19h como sendo o pior para se efetuar deslocamentos na área urbana, com 68% das indicações. 21% responderam das 6:30 às 8:30, e 8 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. 11% das 11:30 às 13:30. Entre os motivos que levam aos deslocamentos, 84% citaram o trabalho, 13% o estudo e apenas 3% o laser. Ao serem perguntadas quais as ruas com piores condições de tráfego devido a lentidão e congestionamentos, os entrevistas citaram 23 diferentes ruas, sendo que as principais encontram-se na tabela 2. Já a tabela 3 mostra os meios de transporte mais utilizados. Tabela 2 - Ruas com piores condições de trafego em Santa Cruz do Sul Nome da Rua/Av. Percentual Av. Dep. Euclides N. Kliemann 35% Rua Marechal Floriano Peixoto 21% Av. Independência 11% Acesso Grasel 7% Rua Ernesto Alves 4% Outras 22% Tabela 3 - Meios de transporte utilizados em Santa Cruz do Sul Meio de transporte Percentual de utilização Automóvel 58% Motocicleta 15% Ônibus 16% Caminhada 9% Carona 1% Bicicleta 1% Durante a aplicação do questionário buscou-se identificar os motivos da não adoção de meios de transporte menos poluentes e que contribuam para a redução dos congestionamentos e também, as formas de conseguir uma maior adesão deste tipo de meio de transporte. Duas perguntas objetivas foram aplicadas, somente a entrevistados que não tem o hábito de utilizar tais meios: Porque você não utiliza um meio de transporte alternativo? O que deve mudar em Santa Cruz do Sul, para que você passe a utilizar meios de transporte alternativos? 9 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. O resultado referente à aplicação destas questões está na tabela 4, onde as opções de resposta com o percentual de entrevistados que às escolheram é apresentado. Tabela 4 - Motivos da não adoção de meios de transporte alternativo e opções para mudança de hábito Motivo da não utilização de meio de Percentual de Opções para se obter Percentual de transporte alternativo resposta maior adesão resposta Acredita que perderia muito tempo com outro meio de transporte 43% Distância grande de deslocamento diário 28% Não quer sair da rotina 16% Outro 13% Melhoria no sistema de transporte coletivo Implantação de ciclovias Implantação de sistemas (aplicativos) de carona Outro 55% 28% 10% 7% 5. Considerações finais Para garantir uma boa eficiência na utilização de qualquer medida relacionada à mobilidade urbana é preciso realizar um bom planejamento anterior a sua implantação, porém não é isso que se pode observar nas cidades brasileiras. Normalmente o planejamento considera apenas o transporte motorizado, esquecendo que grande parte dos deslocamentos é realizado por pedestres ou outros meios não motorizados e que todo este sistema de transportes está inserido em um sistema maior, a cidade. O presente estudo identificou as necessidades de deslocamento para trabalho e estudo como sendo os principais causadores do fluxo elevado de pessoas na área urbana. Como a grande maioria das pessoas encerra sua jornada de trabalho justamente no horário crítico (entre 17h e 19h), e este período coincide com o término das aulas do turno da tarde dos colégios e universidade bem como o início das aulas do turno da noite, este é o período mais problemático. A ampliação do número de ciclovias é uma medida que apresenta grande potencial para minimizar os impactos da mobilidade urbana em Santa Cruz do Sul, pois durante a pesquisa, foi possível identificar que o uso da bicicleta como meio de transporte é baixo, porém a implantação de ciclovias é a segunda medida mais solicitada pela população, para que passem a utilizar menos os meios de transporte motorizados. Melhorias no sistema de transporte coletivo foi a medida mais solicitada e deve ser priorizada na busca pela redução do número de veículos individuais nas ruas. 10 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Para estudos futuros, podem-se realizar pesquisas que avaliem os custos da implantação de medidas mitigadoras da mobilidade urbana e seus impactos na atividade econômica do município. REFERÊNCIAS BARCZAK, R.; DUARTE, F. 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WBCSD - WORLD BUSINESS COUNCIL FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT (Inglaterra). Momility 2030: Meeting the challenges to sustainability. Stevenage, 2004. ANEXO Questionário aplicado aos entrevistados. Data: ___ / ___ / ____ Sexo: M ( ) F ( ) 1) Qual o principal meio de transporte que você utiliza? ( ) Carro ( ) Moto ( ) Bicicleta ( ) Ônibus ( ) Carona ( ) A pé ( ) Outro Secção para indivíduos que não utilizam meios de transporte coletivo ou não poluente. 6) Por que você não utiliza um meio de transporte alternativo (ônibus, bicicleta, carona, etc)? 2) Qual o principal motivo que te leva a se deslocar? ( ) Trabalho ( ) Estudo ( ) Lazer ( ) Outro 3) Você esta satisfeito com as condições de trânsito de Santa Cruz do Sul? ( ) Sim ( ) Não ( ) Parcialmente 4) Qual a pior faixa de horário para trafegar nas ruas de Santa Cruz do Sul? ( ) 6:30 às 8:30 ( ) 11:30 às 13:30 ( ) 17:00 às 19:00 5) Qual a rua/avenida/bairro que tem o pior transito para você? (Apenas o nome do local). ________________________________________________ ( ) Distância grande de deslocamento diário ( ) Acredita que perderia muito tempo com outro meio de transporte ( ) Não quer sair da rotina ( ) Outro 7) O que deve mudar em Santa Cruz do Sul, para que você passe a utilizar meios de transporte alternativos? ( ( ( ( ) Melhoria no sistema de transporte coletivo (ônibus) ) Implantação de ciclovias ) Implantação de sistemas (aplicativos) de carona ) Outro 8) Qual a nota que você da a situação atual do transito em Santa Cruz do Sul? (Sendo 1 (um) totalmente insatisfeito e 5 (cinco) totalmente satisfeito). ( )1 ( )2( )3( )4( )5 13