Geologia Estrutural 64 5.2 - Mecanismo da Deformação Contínua 5.2.1- Introdução A deformação contínua pode ser produto da atuação de mecanismos elementares que podem atuar na escala de um simples cristal. Sob a ação de esforços desviatórios, um único cristal pode se deformar por i) deslizamento (gliding) de seus planos reticulares, caracterizando a deformação plástica no seu senso restrito, ii) por difusão direcional (directional diffusion) de seus átomos ao longo de toda a estrutura cristalina ou ao longo de suas faces e iii) por cristalização de uma nova fase em detrimento de uma fase anterior, caracterizando a chamada cristalização sintectônica. As deformações por deslizamento ou por difusão podem ocorrer inteiramente dentro do estado sólido e sem mudanças de volume. Isso caracteriza a deformação plástica em seu sentido mais geral. A difusão e a neo-cristalização são favorecidas pela presença de fluidos que podem modificar a ductilidade do meio, conforme já visto em capítulos anteriores. Embora possam estar algumas vezes associadas, a deformação plástica no estado sólido e a deformação relacionada à presença de fluidos (fluid-assisted deformation) diferem quanto aos mecanismos e agem em distintas assembléias mineralógicas e diferentes situações geológicas. A deformação associada à presença de fluidos é principalmente encontrada durante o metamorfismo progressivo. As fases minerais ao sofrerem reações de desidratação durante a progressão do metamorfismo liberam fluidos que, por sua vez, favorecem esse tipo de deformação. Por outro lado, a deformação plástica afeta preferencialmente os domínios do metamorfismo retrógrado, o qual já se encontra empobrecido em fases fluidas. 5.2.2- Deformação Plástica no Estado Sólido 5.2.2.1 - Unidades de fluxo e mecanismos de deformação A deformação plástica é o resultado de deslocamentos relativos de elementos estruturais cujas formas e composições controlam o mecanismo de deformação. São as unidades de fluxo. O conceito de ductilidade se aplica à escala onde o material é considerado estatisticamente homogêneo. Podemos distinguir: • rochas ou fragmentos de cristais cujos movimentos relativos correspondem à fluxo cataclástico; • cristais cujos movimentos relativos correspondem a fluxo superplástico; Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 65 • domínios intra-cristalinos cujos movimentos de deslocamentos internos correspondem à fluxo plástico - senso restrito ou fluxo de deslocamento; • átomos, moléculas ou espaços vazios (vacancies) cujos movimentos correspondem a fluxo de difusão. Existem, portanto, quatro mecanismos de deformação plástica, e seus campos de atuação dependem do esforço, taxa de deformação, temperatura, pressão confinante, etc. Escolhendo-se dois desses fatores é possível desenhar mapas de deformação mostrando os diversos campos de atuação de cada um desses mecanismos. A Figura 5.18 é um exemplo desses mapas para deformação de um cristal de olivina. Fig.5.18 - Mapa de deformação da olivina no plano (T,σ) ou (T/Tf, τ/μ), onde Tf é a temperatura de fusão, τ é o esforço cisalhante, μ é o módulo de cisalhamento. As linhas curvas representam as taxas de deformação. (Fig. 4.1 Nicolas , 1987) 5.2.2.2- Mecanismos e processos de deformação plástica 5.2.2.2.1- Deformação plástica à baixa temperatura Entende-se como mecanismos de baixas temperaturas, aqueles que atuam sob temperaturas abaixo de 1/3 da temperatura de fusão. Eles são principalmente gliding (deslizamentos), twining (geminação), kinking e cleavage cracking. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 66 Deslizamentos de planos (dislocation slips) produzem cisalhamento (Fig 5.20) Fig.5.19 - Cisalhamento macroscópico causado por “dislocation creep”, onde τ é o esforço cisalhante e Ψ é o ângulo de cisalhamento (Fig. 4.10 -Nicolas, 1987) Twining, comparativamente com os deslizamentos, ocorre muito rapidamente. Caracteriza-se por uma reorganização localizada dos átomos, o que requer mais alta condição de esforço do que para o caso de deslizamentos. Kinking, (Fig. 5.20b) envolve rotação dos elementos ao longo de uma superfície, formando kink bands. Fig. 5.20 - Deformação em baixa temperatura de cristais tendo uma direção de deslizamento (slip) orientada na direção do esforço compressivo (setas). a)deformação por “bending”, b) deformação por “kinking”, c) e d) deformação por “kinking” e cleavagem paralela ao plano de deslizamento dominante. (Fig. 4.11 -Nicolas, 1987) Cleavage cracking ocorre quando planos cristalográficos, de ligações menos fortes, são rompidos pela ação de esforços. Certos cristais não se deformam em função de orientações de seus elementos pouco favoráveis ou por falta de condições de esforço suficientemente altas para vencer a resistência da estrutura do cristal. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 67 5.2.2.2.2- Deformação plástica à alta temperatura Em altas temperaturas o processo de difusão se torna mais ativo. Novos mecanismos de deformação, tais como dislocation climb (elevação de deslocamento) (Fig 5.21), difusão ao longo da estrutura ou difusão ao longo de planos passam a dominar o mecanismo de deformação. Esses mecanismos trazem uma alta homogeneidade para a deformação nas rochas. Fig. 5.21 - Mecanismo de elevação de uma borda de deslocamento sob efeito de uma força F. Em a) uma linha de átomos é removida ao longo da borda de um meioplano suplementar, b) Uma linha de átomos é acrescentada ao longo dessa borda. (Fig. 4.6 -Nicolas, 1987) 5.2.2.2.3- Hardening e recovery Em baixas temperaturas os movimentos ao longo de planos de deslizamentos tendem a ser obstruídos pela presença de vários obstáculos, tais como outros deslocamentos, impurezas, precipitados ao longo dos contatos entre grãos, etc. Para que a deformação possa continuar é necessário que o esforço seja aumentado. Isso é o que chamamos de hardening. Esse aumento no esforço imprime a formação de novos deslocamentos na estrutura para ultrapassar os obstáculos que se apresentaram (Fig.5.22). Fig.5.22 - Diagrama (σ, ε) ilustrando os principais regimes de fluxo em diferentes temperaturas. (Fig. 4.12 -Nicolas, 1987) Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 68 Em altas temperaturas, graças à recristalização dinâmica e à recovery os impedimentos à propagação dos deslocamentos são bastante reduzidos. Recovery é o termo utilizado para o processo no qual os obstáculos à propagação dos deslocamentos são reduzidos pela interação entre elementos do retículo cristalino. 5.2.2.2.4- Dislocation creep Sob altas temperaturas, um equilíbrio dinâmico tende a se estabelecer entre os fenômenos opostos de hardening e recovery. A densidade das deslocações se estabiliza o que é mostrado por uma linha horizontal no diagrama da Fig. 5.22. Este é o steady - state creep o qual é produzido por deslizamento e rotação das deslocações. O steady-state é controlado pelas rotações das deslocações numa situação na qual o deslizamento é mais rápido do que a rotação e a taxa de fluxo é no mínimo igual à taxa de rotação. A taxa de rotação é controlada por difusão. O coeficiente de difusão depende exponencialmente da temperatura e inversamente da pressão confinante. OBS.: Os testes realizados sobre cristais individuais ou sobre rochas mostram que os mesmos apresentam um comportamento reológico característico quando deformados sob compressão (Fig. 5.23). Na figura, para cada incremento do esforço normal (σ) a quantidade total de deformação se expressa através de uma quantidade correspondente de encurtamento: ε = (L1 - Lo) / Lo onde Lo é o comprimento inicial e L1 o comprimento final. Fig. 5.23 - Deformação de uma rocha submetida à esforço. Na figura (a), a linha mais grossa corresponde ao domínio elástico. A figura (b) mostra um ciclo com uma deformação plástica (εp) depois do limite elástico (εM). (Fig. 2.8 -Nicolas, 1987) Essa grandeza é denominada deformação final uniforme, em oposição à deformação infinitesimal dl. Essa não é uma medida de deformação de uso comum na geologia que utiliza o termo deformação finita natural. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 69 Para deformações moderadas que geralmente têm lugar neste tipo de teste, igualar as duas grandezas não introduz um erro muito significativo. A Figura 5.23 mostra a resposta de um material, materializada por uma linha tendo inclinação forte e em seguida um pouco mais atenuada. A primeira parte corresponde geralmente a deformações menores que 1% e esse comportamento linear corresponde ao domínio da deformação elástica. O ponto de transição separando os dois setores da linha mais ou menos inclinados corresponde ao limite de elasticidade. Acima do limite de elasticidade alcança-se a deformação plástica, na qual se relaxa o esforço aplicado. A inclinação positiva da linha indica que é necessário aumentar o esforço aplicado para continuar a deformação e diz-se que o material apresenta um hardening. A inclinação da linha pode ser zero (p = constante). O fluxo sob essas condições de esforço constante é denominado creep (Fig. 5.24). Se a taxa de deformação é também constante, fala-se de steady-state flow. Os líquidos e alguns sólidos podem se deformar de maneira viscosa. Esse modo de deformação é caracterizado pela presença de uma relação linear entre a taxa de deformação e o esforço aplicado (fluidos Newtonianos). A reologia de corpos viscosos é marcada freqüentemente pela ausência de um limite (threshold), (Fig. 8), como o limite elástico para o caso da deformação plástica. Os fluidos naturais tais como sedimentos molhados (saturados com água) ou magmas podem manifestar um comportamento de tal forma que a viscosidade não é mais independente do esforço. Fig. 5.24 - Deformação plástica (linha grossa) em função do esforço aplicado, começando com “hardening” e seguido por “creep”. (Fig. 2.9 -Nicolas, 1987) Freqüentemente, o hardening que tem lugar no campo de deformação plástica é precursor do estágio de ruptura e fratura (Fig. 5.25). Isso marca a transição de um comportamento dúctil durante o estágio plástico para o comportamento rúptil quando intervém a ruptura. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 70 Fig. 5.25 - Comportamentos elástico, plástico, viscoso e ruptural. (Fig. 2.10 Nicolas, 1987) 5.2.2.2.5- Diffusion creep (Figuras 5.26 e 5.27) Sob temperaturas muito elevadas acontece a difusão direta de átomos através da rede cristalina ou ao longo dos limites dos grãos. Fig. 5.26 - Fluxo Nabarro-Herring. Um cristal (limite tracejado) submetido à uma compressão vertical desenvolve uma concentração de espaços, que serão menores ao longo das faces de compressão (C-) e maiores ao longo das faces de extensão (C+). A difusão de átomos na direção oposta altera, progressivamente, a forma do cristal (contorno de linha sólida) (Fig. 4.14 -Nicolas, 1987) • Nabarro-Herring creep: implica na difusão através da rede cristalina sob a influência de um esforço aplicado, como mostrado na Figura 5.26. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 71 • Coble creep: implica na difusão através das superfícies, parece ocorrer no comportamento creep de alguns milonitos que apresentam deslizamentos de contatos entre grãos (Fig. 5.27) Fig. 5.27 - Fluxo superplástico. Deslizamentos (Gliding) ao longo dos contatos dos grãos (como mostrado pelas setas) provocado pela difusão superficial, resulta nos afastamentos de grãos vizinhos. a) estado inicial, c) estado final. (Fig. 4. 15 -Nicolas, 1987) 5.2.2.2.6- Recristalização A recristalização pode ser considerada do ponto de vista de sua relação com a deformação. Podem ser reconhecidas: • recistalização sintectônica ou dinâmica: é concomitantemente com o processo de deformação; aquela que ocorre • recristalização pós tectônica ou estática (anneling): é aquela que ocorre após o evento da deformação; • recristalização estática primária: é aquela em que a energia responsável pelo processo é a mesma da recristalização dinâmica, isto é, a energia da deformação elástica devido à presença de deslocações. A recristalização continua até que as deslocações nos cristais recristalizados tenha quase desaparecido; • recristalização secundária: é aquela que utiliza, para sua formação, a energia liberada pelo crescimento dos cristais - energia das superfícies dos cristais ( surface energy of the crystals). Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 72 5.2.2.3 - Defeitos dos cristais A formação periódica e regular da estrutura de um determinado cristal jamais é perfeita e tanto o crescimento cristalino como a deformação são focos potenciais de introdução de defeitos. Esses defeitos podem ser de três tipos principais: • defeitos pontuais, ou defeitos não dimensionais; • defeitos lineares ou unidimensionais; • defeitos planares ou bidimensionais. Defeitos pontuais: são formados principalmente por átomos intersticiais ou vazios na estrutura cristalina. Esses vazios representam um importante papel nos processos de difusão através de troca (exchanging) dos espaços estruturais com os átomos. Os átomos intersticiais podem ser diferentes daqueles da estrutura cristalina (impurezas, por exemplo) e podem afetar a plasticidade causando efeitos estruturais ou elétricos, em função de diferenças de volume ou cargas elétricas. Defeitos lineares: existem domínios dentro dos cristais onde a estrutura não é contínua, muitas vezes como resultado de deslocamentos plásticos. Existem dois tipos de deslocamentos: • edge dislocation (deslocamento em cunha): resultado do acréscimo de um meio-plano. O deslocamento ocorre na borda desse meio-plano onde a deformação elástica é maior (Fig. 5.28); • screw dislocation (deslocamento em parafuso): resulta de uma conexão helicoidal entre os movimentos dos planos reticulares e aqueles dos domínios considerados (Fig. 5.29). Fig. 5.28- Deslizamento (slip) pela propagação de uma borda de deslocamento (edge dislocation) (Fig. 4.3 -Nicolas, 1987) Defeitos planares: os principais defeitos planares são dislocation walls (deslocamento de paredes), geminações e superfícies de cristais, também chamadas grain boudaries (contatos entre grãos), quando os cristais estão em contato e são formados pela mesma fase mineral, e interfaces, quando pertencem à fases diferentes. Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA Geologia Estrutural 73 Fig. 5.29 - Deslizamento (slip) causado pela propagação de um deslocamento em parafuso (screw dislocation) (Fig. 4.4 -Nicolas, 1987) Geminação: afeta uma parte do cristal, transmitindo-lhe uma orientação simétrica em relação à parte restante do mesmo, através de processos de rotação ao longo de eixos específicos (eixos de geminação), Fig. 5.30 )Fig. 4.9 , Nicolas.) Fig. 5.30- Geminação (twinning) causada por cisalhamento mecânico com amplitude S. (Fig. 4.9 -Nicolas, 1987) Profs. M. Matta & F. Matos - DGL-CG/UFPA