III SEMINÁRIO DE ESTUDOS CULTURAIS, IDENTIDADES E RELAÇÕES INTERÉTNICAS. GT 1 - EXPRESSÕES URBANAS, ESTILOS DE VIDA E IDENTIDADES. HIP HOP E ESPAÇO PÚBLICO: O EXEMPLO DA PRAÇA SANTA TEREZA EM MACEIÓ. SÉRGIO DA SILVA SANTOS HIP HOP E ESPAÇO PÚBLICO: O EXEMPLO DA PRAÇA SANTA TEREZA EM MACEIÓ. Sérgio da Silva Santos Universidade Federal de Sergipe [email protected] Introdução Nosso artigo tem a proposta de realizar uma reflexão em torno da Praça Santa Tereza como um lugar e espaço público utilizado por alguns atores pertencentes à cultura Hip Hop em Maceió. Sendo assim, vamos realizar algumas reflexões em torno de dois eventos que aconteceram nessa praça para duas atividades especificas. A primeira realizada em abril de 2012 em que foram desenvolvidas atividades ligadas ao Rap e ao Break; e a segunda em dezembro 2012 que foi desenvolvida atividade ligada ao Break. Para realizar essa reflexão, pretendemos desenvolver questões como o Hip Hop, Cultura Urbana e Espaço Público. A ideia do nosso texto é mostrar num primeiro momento a inserção do Hip Hop na cultura urbana e apresentar alguns exemplos que encontramos em Maceió que representa essa cultura como um elemento urbano. Em seguida nos propomos a realizar uma reflexão entorno da ideia de espaço público. Essa proposta tem o objetivo de ligar nossa discussão para a esfera do lugar onde a ação humana se desenvolve. E por fim trazer a discussão do próprio lugar no qual nos propomos a apresentar, a Praça Santa Tereza. Para a produção desse texto utilizamos matérias de jornais em que narram à ocorrência dos eventos em que citamos, utilizamos vídeos e fotografias, publicações dos Blogs: Blog da Sakura e Blog Hip Hop Alagoano. Realizamos também uma entrevista com o organizador dos eventos, MC Zazo. Esses materiais nos deram elementos subjetivos interessantes que envolvem a construção do lugar como um espaço do Hip Hop, sobre o perfil dos frequentadores dos eventos e dos mecanismos utilizados para conseguir usar o espaço para a prática da cultura Hip Hop. Propomos também nesse texto realizar uma reflexão sobre a ideia de lugar. Como também demonstrar como os grupos de Hip Hop interagem com as diferentes formas de usar a praça por outros sujeitos. Dessa forma, entendemos que a Praça Santa Teresa nos revela elementos importantes no que se refere a negociação e disputas, mas também nos mostra como os atores sociais que compartilham da cultura hip Hop se apropria do lugar, dando a ele, mesmo que de modo temporal uma marca da cultura em questão. Ou seja, dando a possibilidade de pensar o espaço público de forma heterogenia em relação as várias manifestações humanas. O Hip Hop na Cultura Urbana O Hip Hop surgiu a partir da inserção cultural de jovens imigrantes negros e latinos em metrópoles dos Estados Unidos e Grã Bretanha. Essa cultura, ou para alguns estilo de vida se apresenta como um conjunto de elementos que apresentam uma homogeneidade e uma heterogeneidade, ou melhor, apresenta elementos que compõe um mecanismo de compartilhamento de pensamentos e ações, e também algo conflitante em seu meio. Mas o que nos importa é a compreensão de que o Hip Hop é formado por algumas subculturas que estão em movimento e que são dotadas de mecanismos de transformação. Sendo assim, faz parte do conjunto que forma a cultura Hip Hop, o Break (dança ou movimentos corporais), o Rap (música ou poesia), o Dj ( invenção de sons a partir dos discos) e o Grafite (desenhos construídos a partir do imaginário). Como enfatizamos anteriormente o Hip Hop têm sua gênese no urbano e para tal, necessitou de um contexto para sua inserção, no caso especifico, a questão da imigração negra e latina. Paul Gilroy (2001) se remete à categoria diáspora como uma proposta para os estudos culturais, com o objetivo de explicar a formação de uma cultura vernacular do Atlântico Negro. A diáspora transferiu formas culturais e de sentimentos que nos ajudam a pensar também sobre o surgimento do Hip Hop e as influencias que estão inseridas nessa cultura. Podemos entender que o Hip Hop surge no bojo de um espaço-tempo onde se articula culturas segregadas e um urbano provido de atividades e movimentos que inspiram interesses diversos. E principalmente num contexto de busca por reconhecimento de uma população segregada diante das políticas culturais desses países em que está contextualizado o surgimento do Hip Hop. Esse modo de reivindicação social e por reconhecimento de uma estética, são importantes para entender esse elemento cultural urbano. O Hip Hop no Brasil tem muita influencia do movimento que acontecerá nos Estados Unidos e mostra suas primeiras aparições na década de 80, principalmente na cidade de São Paulo. Dessa forma, não apresenta características diásporicas que discutimos o surgimento dessa cultura nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas se apresenta como algo urbano como no contexto dos países citados. Outro ponto de congruência é que o Hip Hop no Brasil também tem elementos reivindicatórios, principalmente de reconhecimento. Gustavo Souza (2004) diz o seguinte: “o surgimento do hip-hop está diretamente vinculado à história da música negra norte-americana e a luta por espaço e visibilidade por parte desse segmento. Os guetos de Nova York - habitados majoritariamente por uma população negra e pobre - foram o local onde surgiram as primeiras experiências da cultura. De lá, o hip hop se disseminou para outras áreas, obtendo força principalmente nos centros urbanos que apresentam uma deficiente infra estrutura sócio urbana.” (Pg. 34) A citação acima nos apresenta algo em comum ao exemplo americano e britânico, o contexto urbano e também questões que remete a imigração articuladas com as lutas por reconhecimento do povo negro nesses países. No caso Brasileiro, o Hip Hop nos apresenta duas questões que identificamos como semelhante ao modo americano e britânico, a questão do racismo, e das lutas por melhorias nas periferias brasileiras, principalmente, no lugar que podemos de chamar de “berço” do Hip Hop brasileiro, em São Paulo. Dessa forma, vamos apenas nos remeter a questão urbana, enfatizando a questão dos problemas em que as cidades estão imersas e como o Hip Hop se impõe nessa realidade. Ressaltamos também a importância da questão geracional para o entendimento sobre o Hip Hop. Dessa forma, é necessário articular as ações dos jovens diante da cultura Hip Hop e seu protagonismo diante do cotidiano urbano. Os autores Frank Marcon; Florival Filho (2012) nos mostram uma ideia compatível com que pensamos e concordamos. O desenvolvimento do hip-hop está intimamente associado à criação estética e performática dos jovens da periferia, também relacionada às suas histórias de vida, dos seus familiares e de seus amigos. Estas vivências aparecem expostas no universo da cultura de rua, através das pinturas nas paredes da cidade, das narrativas e das sonoridades do rap, das plasticidades das danças de rua, assim como, em alguns casos, elas aparecem através da reivindicação e da mobilização organizadas. (2012) O protagonismo juvenil diante às questões urbanas e cotidianas, seja ela dada a partir da sociação1 ou não, apresenta um grande instrumento de analise sobre o Hip Hop. Pensamos que a convivência entre jovens, tendo como prerrogativa a idade, como elemento necessário para o inicio de uma interação, como também outras variáveis, que se estabelece a partir de uma relação tempo-espaço, são fundamentais para pensar não só o Hip Hop, mas outras culturas que aparentemente caracteriza-se pela participação massiva de jovens. No caso do Hip Hop, não apenas aspectos da geração estão envolvidos, mas questões sociais e geográficas do urbano. Um dos principais exemplos de protagonismo juvenil que observamos no Hip Hop são as chamadas Posses, como também, as Associações de Hip Hop, que vem ganhando força nos últimos anos. As Posses são organizações que aglutinam jovens que se interessam pela cultura Hip Hop e que tem o objetivo de realizar intervenções nas comunidades em que estão inseridos. São vários os exemplos que temos no Brasil que evidenciam a importância das Posses no cotidiano da cidade, principalmente nas periferias das grandes cidades. Esses grupos realizam varias atividades, mas se destacam por realizar uma contribuição no plano da conscientização de jovens das comunidades em que atuam, dando ênfase principalmente no campo político. MARCON; FILHO (2012), ao apresentar uma reflexão sobre o movimento Hip Hop de Aracajú/Sergipe enfatiza justamente a questão didática das posses no processo de interação social nas periferias e principalmente o papel político, como movimento social, desses agentes no cotidiano. Segundo os autores: 1 Para Simmel (2006), “a sociação só começa a existir quando a coexistência isolada dos indivíduos adota formas determinadas de cooperação e de colaboração que caem sob o conceito geral de interação. A sociação é realizada de diversas maneiras, na qual os indivíduos constituem uma unidade dentro da qual se realizam seus interesses”. Nestes casos, a preocupação de tal militância do hip-hop é com a politização de outros adolescentes e jovens, envolvendo-os em atividades como: oficinas de música, de dança, de grafite e de cidadania nas escolas e nos bairros da periferia. Os próprios rappers se tornam instrutores multiplicadores das técnicas, bem como, comunicam com suas expressões artísticas, suas mensagens e formas de percepção da vida cotidiana. (2012) O protagonismo das Posses no que chamamos de periferia pode ser entendido a partir das suas ações no cotidiano, principalmente quando tenta dar outro sentido, ao que é chamado de periferia. Esse termo que tem sua origem nas produções da Escola de Chicago nos anos 30 e 40 foi utilizado para compreender o processo de urbanização a partir das diferenças de sociais. (TAVARES, 2009) A segregação sócio espacial dinamiza as ações desses grupos, que tenta a todo instante criar perspectivas e estratégias de se inserir em um debate em que possa ter voz e participação ativa. Só a partir dessa inserção. Em Maceió temos três posses, essas se movimentam basicamente na região periférica da cidade, a Posse Atitude Periférica se articulam nos conjuntos residências Cleto Marquez Luz, BLeão, Santa Lucia. A Posse CIA Hip Hop interagem no Conjunto Village Campestre, também parte alta da cidade, e Posse Guerreiros Quilombolas realizam suas ações no Complexo Benedito Bentes, também bairro da parte alta da cidade. Esses grupos estão sempre articulando estratégias de ação no cotidiano, algumas se articulam com o poder público, outras tentam agir de forma independente, mas sempre tentando transformar a partir do seu modo, as concepções discriminatórias das periferias e dos jovens moradores da mesma. Os jovens que formam os grupos realizam atividades basicamente nas escolas e espaços públicos em que possam dar visibilidade as suas atividades e seus modos de fazer. Os lugares em que esses grupos escolhem para a realização dos eventos tem um sentido e um propósito, a demarcação do lugar, como um lugar do Hip Hop, ou como um lugar de alguma sub cultura que forma o Hip Hop como o Break e o Rap, por exemplo, são estratégias diante outras culturas e o cotidiano. É justamente o sentido do lugar enfatizado por Antonio A. Arantes (2009) quando diz que “lugares são espaços apropriados pela ação humana. São realidades a um só tempo tangíveis e intangíveis, concretas e simbólicas, artefatos e sentidos resultantes da articulação entre sujeito (identidades pessoais e sociais), práticas (atividades cotidianas e rituais) e referências espaços-temporais (memória e historia).” Reflexões sobre o lugar e o Espaço Público A discussão sobre espaço público nos mostram importantes elementos no que concerne a atuação dos grupos de Hip Hop em Maceió. Os autores que nos propomos a utilizar nesse texto nos apresentam questões importantes que podemos transpor ao tema do nosso texto. Uma primeira ideia que nos parece interessante destacar é a de Fraya Frehse (2009) em que argumenta o seguinte: Quanto aos usos das ruas, uma primeira possibilidade é associá-los às relações dos indivíduos com tais locais. Caracterização vaga, mas que serve como ponto de partida para a reflexão sobre os significados dessa expressão nos estudos urbanos. (p.151) A utilização da Praça Santa Tereza pelos grupos que compartilham da cultura Hip Hop em Maceió, se dar de forma cotidiana e também temporal. Todos os dias jovens dançam Break na praça. Mas são nos eventos públicos organizados de forma mais sistemática onde percebemos a relação dos indivíduos com o lugar e como esses sujeitos interagem com o lugar e com seus frequentadores e também com as pessoas que são indiferentes a cultura Hip Hop. Há nesse bojo a questão simbólica do lugar, a praça se torna um lócus da cultura Hip Hop, e os participantes do evento tomam o lugar como seu, demarcando o espaço da praça e imprimindo seu modo de interagir. Essa questão nos remete a Néstor Canclini (1997) quando afirma que “todo grupo que quer diferenciar-se e afirmar sua identidade faz uso tácito ou hermético de códigos de identificação fundamentais para a coesão interna e para proteger-se frente a estranhos”. (p.164) Fraya Frehse (2009) ressalta também que “refletir sobre os significados de “usos de rua” nos estudos urbanos acarreta pois, em primeira instancia, considerar que estão em foco os vínculos dos indivíduos com os locais das cidades modernas potencialmente mais receptivos à diversidade humana”. De fato, é uma questão interessante que nos põe a refletir sobre a Praça Santa Tereza. A relação temporal do uso da praça pelos grupos de Hip Hop de forma mais sistemática, abre a possibilidade de pensar que essa praça é utilizada por outras formas de agir cultural, como por exemplo, grupos de skatistas, grupos de punks, entre outros, e também de negociantes dos chamados “churrasquinhos” que estão cotidianamente comercializando produtos. Nesse sentido, nos abre a possibilidade de pensar sobre as disputas emanadas na Praça santa Tereza, como uma forma de entender as relações de significados e espaço. Mas esse não é o objetivo do nosso texto. A discussão sobre o uso da praça, nos trás também uma reflexão em torno do não uso dos espaços públicos como práticas de interação. Nos chama a atenção, especificamente no caso da cidade de Maceió, a quantidade de praças que não consideram as diferentes práticas culturais, em detrimento de uma supervalorização de espaços fechados e próprios para a cultura consumista, como Shopping Center, por exemplo. Carlos Fortuna (2002) nos chama a atenção para essa questão no instante em que afirma: A participação pública dos cidadãos, grupos e movimentos sociais surge condicionada e, perante os efeitos sensíveis da globalização da economia, da cultura e da comunicação, o espaço público das cidades surge pautado pelos desígnios da massificação e da estetização dos consumos, do mesmo modo que o planejamento urbano e mesmo numerosas imagens identitárias e promocionais das cidades passam a sujeitar-se à lógica do mercado. É a chamada colonização do espaço público urbano. (p.131) A discussão em torno da Praça Santa Tereza nos proporciona também uma reflexão que é realizada por Rogério Proença Leite (2010) em que discuti a partir da produção de Michel de Certeau a ideia de espaço e lugar. Para Proença (2010) “a distinção entre espaço e lugar, na qual o espaço corresponde à ausência de posições definidas e, por isso, é uma ordem móvel que propicia vislumbrar as diferentes experiências espaciais da vida cotidiana; e o lugar corresponde, opostamente, a certas configurações mais estáveis de posições. O que o primeiro tem de provisório, o segundo tem de permanente”. Dessa forma, entendemos que a praça em que estamos evidenciando como um objeto de reflexão, quando levado em consideração a ação dos grupos de Hip Hop possui característica marcante de um “lugar”, justamente por está definido provisoriamente como um lugar da cultura Hip Hop. Ainda sobre o “lugar” Proença (2010) afirma: Em outras palavras, como já pude sugerir em outra ocasião, tendo como ponto de partida Certeau, devemos entender por lugar algo que resulta de uma demarcação física e/ou simbólica no espaço, cujos usos o qualificam e lhe atribuem sentidos diferenciados, orientando ações sociais e sendo por estas reflexivamente delimitado. (p. 748) Podemos entender que a Praça Santa Tereza possui vários lugares , ou melhor, várias dimensões de interação. Ao observar a dinâmica dessa praça, percebemos uma nítida disputa, que não vai além da delimitação do espaço. Mas que representa um fenômeno interacional importante, já que esse lugar é usado por diversos grupos, e cada um externa seus significados. Para o Hip Hop a praça representa o lugar em que as ações são realizadas, lócus de movimento entorno de significados que são negociados diante da diversidade de representações. Para Proença (2007) “os lugares urbanos têm fronteiras, mas elas não são necessariamente fixas e muito menos dadas: são construídas socialmente e negociadas cotidianamente com outros lugares no complexo processo de interação pública, através do qual afirmam suas singularidades, emergem conflitos, dissensões e, eventualmente, consensos”. Sendo assim, mesmo que a praça seja vista como um lugar especifico e delimitado por metragem e aspectos públicos, ela se entende para a vizinhança que ouvi as músicas, aos comerciantes que vendem produtos para os participantes dos eventos, como também para os órgãos de fiscalização que procuram regrar e limitar o uso da Praça Santa Tereza para eventos de cunho cultural, não hegemônico, como os eventos realizados pelos grupos de Hip Hop. Ainda segundo Proença (2007) “os lugares podem apresentar conjuntos de sentidos convergentes diversos, através dos quais é possível ocorrer o entendimento cultural necessário para que sejam estabelecidas uma ou mais identidades socioespaciais”. (p. 304) Nosso objetivo não é articular uma identidade dos grupos de Hip Hop a Praça Santa Tereza. Fica claro que não propomos essa perspectiva. Nossa ideia é mostrar como esses sujeitos se apropriam do lugar que é utilizado também por outros grupos e como eles se interagem diante a diversidade. A ideia é mostrar como essa questão se articula entorno das reflexões sobre lugar e espaço público. E em nosso caso entendemos que há uma proximidade do nosso objeto de reflexão com o que o autor chama de lugar hibrido, em que esse é sempre um “campo tenso de disputas e negociações”. (PROENÇA, 2007) A praça como “rua”, como “lugar”, como “espaço público” e como lócus de ações do cotidiano, nos impulsiona no sentido de tentar entender as relações sociais, e as formas de sociação que estão presentes nesse universo. Pensar a praça como algo primitivo talvez não seja um caminho aceitável para o entendimento do agir no cotidiano. Sabemos que as lógicas do consumo e de valorização dos espaços estão cada vez mais caminhando para técnicas de interações virtuais, principalmente nos formatos de redes sociais. Os grupos de Hip Hop estão também logrados a essa lógica, mas vale a pena realizar uma reflexão em torno dessa temporalidade do lugar como pratica de uma cultura especifica, como o exemplo da praça. A construção dos eventos na Praça Santa Tereza, pelos sujeitos que compartilham da cultura Hip Hop, passa necessariamente pelos contatos realizados via redes sociais, principalmente pelo Facebook e por Blogs. Os sujeitos que participam dos eventos nos quais iremos discutir mais adiante são mobilizados principalmente pela internet. Essa realidade mostra outra entrada para entender o espaço público e o lugar. No entanto não vamos nos deter a essa questão, já que necessitaríamos de muito mais elementos reflexivos. Praça Santa Tereza como um lócus do Hip Hop em Maceió. Realizar uma pequena reflexão em torno da Praça Santa Teresa, localizada no bairro da Ponta Grossa, sul da cidade de Maceió, a partir de dois eventos realizados nessa praça e que foram realizados por alguns atores sociais que compartilham da cultura Hip Hop na cidade é de fundamental importância para que possamos entender um pouco sobre a dinâmica das interações produzidas nesse lugar em relação à cultura Hip Hop. É importante, antes de qualquer coisa, fazer um pequeno retrato do bairro em que está localizada a Praça Santa Tereza. A Ponta Grossa é um bairro vizinho de um dos principais bairros de Maceió, o Vergel do Lago. Esse bairro fica as margens da Lagoa Mundaú, principal fonte de renda dos moradores ribeirinhos do bairro, que vivi basicamente da pesca e da comercialização do sururu. Mas essa é uma característica que não passa por nossa reflexão de forma tão intensa. Acreditamos que as condições de vivencia e trabalho dos moradores faz parte do nosso contexto, quando se tratando principalmente das de condições de infraestrutura do bairro, principalmente quando tratando de equipamentos de lazer e de encontros. Os bairros Ponta Grossa e Vergel do Lago são apontado segundo as estatísticas da Secretária de Defesa Social de Alagoas, como um dos bairros com maiores índices de homicídios, e outros crimes. Sendo assim, representa um lugar que requer atenção no que se refere as políticas públicas desenvolvidas pelo estado. Nesse contexto, o que conseguimos identificar são algumas ações de natureza repressiva, como o uso da Força Nacional de segurança Pública e a criação de uma Base Comunitária de segurança. Não identificamos nenhum instrumento que venha de alguma forma beneficiar essa população culturalmente ou intelectualmente, como bibliotecas, eventos culturais, melhorias nas escolas do bairro, fortalecimento de associações de bairro e também melhorias nas poucas praças que existem no bairro. A Praça Santa Tereza é a principal praça do bairro, fica centralizada e localizada na principal via de acesso ao bairro. Em torno dela, temos vários pontos comerciais como, farmácias e lanchonetes, e centralizada a praça estão os “churrasquinhos”, que comercializam cervejas e outros “aperitivos”. A praça também é um “ponto” de parada de ônibus e também fica localizada a única banca de revista do bairro. A Praça Santa Tereza é um lugar de passagem de várias pessoas do bairro, referencia a qualquer ponto do bairro e também um lugar de comercio e principalmente um lugar de interação alguns grupos. De forma sucinta descreveremos a Praça Santa Tereza a partir de um olhar do dia, e um olhar da noite. Uma tentativa de utilizar o olhar de Proença (2007) realizado no livro “Contra-Usos da cidade”, em sua reflexão em torno do lugar a partir do cotidiano durante o dia, ao entardecer e da noite. Mas nos limitaremos a descrever esse lugar apenas ao olhar do dia e da noite. A Praça Santa Tereza durante o dia é um lugar de passagem e de consumo. Não observamos nenhum tipo manifestação em grupo, apenas pessoas no ponto de ônibus, comprando algo em torno da praça e carros de sons ligados, reproduzindo o som do consumo. A praça serve como um local de estacionamento de carros, e motocicletas. Podemos dizer que o dia, mesmo com tantos barulhos do consumo, é o silêncio dessa praça. À noite, há uma transformação significativa da praça, podemos evidenciar pelos menos cinco grupos que frequentam a praça. O primeiro grupo que nos parece maior e que toma a maior parte da praça são os comerciantes de “churrasquinhos”, esse grupo distribuem mesas e cadeiras na praça de forma que há uma divisão imaginaria entre eles, e que dificilmente conseguimos identificar a divisão. O segundo grupo, são os skatistas, que utilizam os bancos e paralelepípedos da praça para realizar suas manobras. Percebemos claramente na praça o espaço desse grupo, não se estende mais que 20 metros da praça, já que do lado, está o grupo da Bike que é o terceiro grupo, esses compartilham muitas vezes o mesmo espaço. O quarto grupo são os B’Boys e B’girls que utilizam um tapete adequado para realização das atividades e por fim identificamos o quinto grupo que são os fumadores de maconha. Esses estão sempre interagindo entre os grupos citados de forma pacifica e dialogal; mas geram algumas inquietações com os moradores vizinhos da praça, ao ponto de acionarem a policia. Durante a noite a praça se torna movimentada, tendo muitos elementos que nos fornece informações importantes, mas nos propomos a analisar apenas dois eventos que ocorrera na Praça Santa Tereza que nos chamou a atenção, principalmente porque tornou a praça um ponto de referencia da cultura Hip Hop em Maceió. A Praça Santa Tereza foi o lugar escolhido por MC Zazo, que é responsável pelo Blog Hip Hop Alagoano, para organizar os eventos que envolvem a cultura Hip Hop. O contexto dos eventos foi a premiação do Blog Hip Hop Alagoano no Prêmio Preto Góes2 em 2010. De 2010 a 2012 foram realizados vários eventos na Praça Santa Tereza, mas vamos nos deter apenas nos dois últimos e a partir desses realizar uma reflexão sobre a praça e o Hip Hop. O primeiro evento que fora realizado em abril de 2012 contou a participação de grupos de Rap e de grupos de Break; o segundo apenas de grupos de Break. Os eventos em questão foram realizados, segundo Mc Zazo, a partir da premiação recebida por ele, através do seu blog, e que também contou com o apoio de outros atores, como Aline Sakura que também é blogueira e do grupo MZS Crew. O evento Recebeu também o apoio de uma comerciante da praça que em todos os eventos cedeu energia elétrica para a utilização dos aparelhos elétricos. Um dado importante que nos apresenta a entrevista com o Mc Zazo, é que nos eventos há uma interação importante entre os frequentadores dos eventos e os comerciantes, no sentido de 2 Prêmio Cultura Hip Hop que premiou 128 iniciativas em todo o Brasil que tiveram interesse em fortalecer a cultura hip hop. considerar que esses eventos dão uma maior possibilidade de consumo de seus produtos. Quando perguntado sobre quais os motivos que fizeram escolher o local do evento, Mc Zazo disse: A Praça Santa Tereza já virou um local tradicional para a realização de eventos de Hip-Hop na zona sul de Maceió. Mesmo não sendo uma praça muito grande, há espaço para haver evento de HH e ao mesmo tempo skatistas andam no local. Várias 'tribos urbanas' se reúnem naquela praça, isso faz com que o movimento HH seja conhecido por um número cada vez maior de pessoas. A Praça Santa Tereza é bem localizada, ônibus de diversas partes da cidade passam por lá. A falta de outras praças públicas aqui na zona sul de Maceió nos deixa com poucas opções de locais para realizar eventos de rua (que é uma característica do Hip-Hop). (Entrevista realizada em janeiro de 2013) Observamos que o ator identifica justamente a praça como um lugar de passagem. Como também, a praça tornando-o própria a realização do evento a partir da ideia de que usar a praça como rua é elemento próprio à cultura Hip Hop. Nesse sentido, podemos pensar que a Praça Santa Tereza representa apenas o universo “rua”, sendo essa praça um mecanismo de representação de um local generalizado. Durante nossas observações no evento percebemos alguns comportamentos interessantes em torno do evento e da praça. A primeira é em relação ao consumo de maconha, em que muitos jovens presentes repudiavam o uso naquele lugar. Parece-nos que a praça, a rua, o Hip Hop estão imersos nesses eventos em um só espaço. Os fumadores de maconha foram alertados muitas vezes em não usar no lugar por conta da presença de crianças e “pessoas de família”. Esse foi um dado importante, porque o uso da praça tomou um discurso “tradicional”. A segunda observação é em relação à tentativa dos envolvidos no evento, quando em posse do microfone, mencionarem sobre os assaltos e esvaziamento da praça, e que o evento de Hip Hop ter a intenção de dar outra característica ao lugar, como um lugar de festas e de confraternização. Parece-nos importante ressaltar também que os atores envolvidos no evento sentem-se pertencentes a praça, enfatizando a Praça Santa Tereza um ponto histórico da cultura Hip Hop. Mc Zazo nos fala também da relação com os vizinhos da praça. De modo geral, a receptividade das pessoas que frequentam a praça e dos moradores é muito boa. Só tivemos problemas uma vez, em que uma moradora chamou a polícia reclamando do som alto. Muitas vezes as pessoas não conhecem bem a movimentação e acham que é coisa de droga, de crime... alimentando assim um preconceito acerca do movimento Hip-Hop. Várias pessoas nos relatam que gostam dos eventos na praça, pois traz uma animação nova, quebra a rotina e movimenta o comercio naquela região. (Entrevista realizada em janeiro de 2013) Percebemos que há no bojo da utilização da praça pela cultura Hip Hop uma relação de conflito. O uso da rua como forma de sociabilidade, de fato gera um questionamento. Nesse caso, os de “fora” possuem opiniões e moral que podem ser diferentes dos frequentadores dos eventos. Sendo assim, possibilita o conflito ou a indiferença. Outra questão trazida na fala de Mc Zazo é a questão da quebra da rotina no cotidiano da praça. Ele nos faz pensar a dimensão do cotidiano como movimento, no caso especifico da praça, quando a cultura Hip Hop está presente na praça; e no cotidiano rotinizado quando não há eventos do Hip Hop ou outros. Outra questão que nos remete ao cotidiano está relacionada as pessoas que frequentam os eventos. Nossa observação conseguiu identificar pessoas que se envolvem diretamente e os que estão envolvidos indiretamente. Entre os estão ligados diretamente são os Mcs, os Bboys e Bgirls, os grafiteiros e os Dj’s, estes estão interagindo diretamente; os que estão numa interação social menos densa são os moradores de vizinhança, os comerciantes, os curiosos e os que vão apenas assistir o evento. A Praça Santa Tereza tornou-se um lócus da cultura Hip Hop em Maceió, e essa identidade dos atores que compartilham da cultura com a praça se dar a partir de uma lógica a principio objetiva por não ter lugar próprio ou fechado para realização de eventos ou outras atividades relacionadas ao Hip Hop, e uma questão subjetiva de tentar dar ao lugar uma marca histórica do Hip Hop, a partir de eventos públicos. Segundo Mc Zazo: Existe uma certa relação histórica que se limita apenas à realização de eventos na praça. Não existe nada de mais substâncial envolvendo o HipHop além dos eventos. A falta de praças públicas nos empurram a realizar eventos na Praça Santa Tereza. (Entrevista realizada em janeiro de 2013) A Praça Santa Tereza apresenta a partir dos eventos realizados pelo Mc Zazo e o Blog Hip Hop Alagoano, uma dimensão do estabelecido e do estranho no espaço público. Em nossas observações, conseguimos construir essa dimensão entendendo que os atores que estão interagindo com o evento se torna um estabelecido, e esse mecanismo avança na medida em que ter qualquer atividade relacionada ao Hip Hop na praça não se torna estranho. Doutro lado, podemos pensar que o “estranho” são os transeuntes, são atores sócias de pouca interação ou alguma interação. No primeiro momento temos na praça interações sociais prolongadas, fixadas e determinadas pela cultura Hip Hop e potencializadas pelos eventos, e em seguida temos interações sociais aleatórias ou interações indiretas. Considerações Finais. Entendemos que a Praça Santa Tereza é um espaço público que representa o lugar do Hip Hop em Maceió, se dando a partir dos eventos relacionados a cultura que foram e são realizados nesse local. A construção desse lugar passa por uma construção simbólica e da ação social dos sujeitos que frequentam o lugar. Segundo Proença (2007) “lugares são espaços de convergências simbólicas, que resultam de experiências compartilhadas mediante alguma possibilidade de entendimento sobre o que significa um certo espaço e sobre o que representam certos conteúdos culturais partilhados”. A Praça Santa Tereza não possui equipamentos ou uma arquitetura que possa marcar o lugar como sendo própria a prática da cultura Hip Hop, essa praça está distante também de ser um lugar próprio dos skatistas e de outros grupos. A Praça Santa Tereza é apenas uma praça se levarmos em consideração a questão física. Mas quando saímos de uma imagem física e nos deslocamos a uma reflexão das praticas sociais, conseguimos identificar inúmeros elementos de natureza interacional que valoriza nosso olhar. Essa praça não é um lugar enobrecido, ela não está no contexto do consumo como a Praça Vera Arruda localizada na parte nobre da cidade, especificamente no bairro da Jatiúca. Mas tem um contexto marcado pela cultura Hip Hop e por outras manifestações próprias de bairros chamados de periféricos. Nossa pequena reflexão nos trouxe também um elemento importante que não aprofundamos que é a questão da diferença. O uso da Praça Santa Tereza por diversos grupos e pessoas nos dar uma possibilidade de identificar elementos que estão interagindo a partir das diferenças. Mesmo a cultura Hip Hop se estabelecendo na praça a partir dos eventos e do uso diário dos BBoys e Bgirls, há também outros grupos que estão interagindo nesse lugar e deixando suas marcas, é o caso dos skatistas, dos comerciantes e os fumadores de maconha. As diferenças são visíveis em alguns momentos e são potencializadas quando na disputa pelo espaço. Nesse sentido, entendemos que o Hip Hop a partir dos eventos realizados toma um caráter hegemônico no lugar. A representação do Hip Hop na praça exerce uma influencia maior no que se refere a consistência, em comparação a outras formas de manifestações. Entendemos que a Praça Santa Tereza só se torna um lugar da cultura Hip Hop porque há nos eventos um compartilhamento de sentimentos, símbolos e ações. Entendendo que esse lugar funciona para a cultura Hip Hop como um lugar temporário, que se potencializa nos eventos, ou seja, por fluxos. Bibliografia ARANTES, Antonio A. Patrimônio Cultural e Cidade/ Plural de Cidade: léxicos e culturas urbanas/ Org. Carlos Fortuna, Rogério Proença Leite. – (CES). CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas - estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: EDUSP, 1997. FRAYA, Frehse. “Usos da Rua”/ ARANTES, Antonio A. Patrimônio Cultural e Cidade/ Plural de Cidade: léxicos e culturas urbanas/ Org. Carlos Fortuna, Rogério Proença Leite. – (CES). GILROY, Paul. 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