Pensando a feminilidade no meio da vida
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Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIII, no 135, 25-39
Pensando a feminilidade no meio da
vida: especificidade e enfoque clínico*
Eliane Michelini Marraccini
A feminilidade no meio da vida é tema específico a ser pensado na teoria e
clínica psicanalíticas, devendo levar em consideração os fatores biológicos, psíquicos e relacionais deste período crítico na vida da mulher.
É fundamental a consideração da mulher enquanto sujeito total, enfrentando
mudanças e perdas em vários aspectos nesta fase da vida, incluindo-se o climatério e a menopausa.
A intervenção clínica “Grupo de Encontro de Mulheres”, com objetivo focal e
duração limitada, é oportunidade de reflexão, discussão e troca de experiência
entre mulheres na faixa de idade entre 40 e 55 anos. Visa proporcionar-lhes
um ambiente favorecedor para o enfrentamento da crise pessoal e retomada do
desenvolvimento emocional, em alguns casos podendo constituir sensibilização
para tratamento psicoterapêutico convencional.
Neste trabalho são apresentados aspectos da dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP, “Mulher: significados no meio da vida”, enfocando
a visão psicanalítica do climatério e menopausa, assim como a crise ao atingir
a meia-idade. São relatados alguns resultados obtidos no atendimento clínico de
20 pacientes em “Grupo de Encontro de Mulheres”, em momento de grande vulnerabilidade emocional.
Palavras-chave: Psicanálise, feminilidade, teoria e clínica psicanalíticas, meia-idade
Feminality in middle-life is a specific subject to be thought about theoretically
and in psychoanalytic clinics, taking into account the biological, psychic and
relational factors in such a critical period of a woman’s life.
*
Texto apresentado e discutido no Encontro Sul-Americano dos Estados Gerais da Psicanálise,
realizado em São Paulo, de 13 a 15 de novembro de 1999. Reúne pontos da dissertação de
Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC-SP: “Mulher: significados no meio da vida”.
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It is fundamental to consider the woman as a whole subject, the one who faces
changes and losses in several aspects throughout this period of life, including
the climacterium and menopause.
The clinical intervention called “Women Encounter Group”, with a focal objective
and limited duration, is the opportunity of reflexion, discussion and exchange
of experiences among women between their 40 and 55. The aim is to provide
them with a favourable environment that may help them to face their personal
crisis and recover their emotional development. In some cases it may lead them
to a conventional psychotherapeutic treatment.
In this paper, some aspects of the MA dissertation in Clinical Psychology “Women:
meanings in the middle-life” from PUC/SP are presented. It emphasizes the
psychoanalytical point of view of the climacterium and menopause as well as
the middle-age crisis. Some results obtained during clinical assistance with 20
patients from the “Women Encounter Group”, in a high moment of emotional
vulnerability are also reported.
Key words: Psychoanalysis, feminality, theory and psychoanalytic clinic, middle
life
E
ste trabalho consiste em proposta
para pensar a feminilidade no meio da
vida, tema específico muito pouco enfocado tanto na teoria quanto na clínica
psicanalítica. Tendo em vista a subjetividade feminina nesta fase, torna-se
obrigatória a consideração e integração
dos fatores presentes em período crítico de desequilíbrio hormonal, psíquico
e relacional na vida da mulher.
Freud (1969, p. 235) apontava: “que os
processos de desenvolvimento biológico
podem produzir alterações no equilíbrio
dos processos psíquicos produzindo,
então, rupturas neuróticas nas fases-chave do ciclo vital como a puberdade e a
menopausa”. Passadas muitas décadas
deste início da psicanálise, é surpreendente que ainda persista, entre os psicanalistas, resistência em considerar a menopausa como um tema de investigação
psicanalítica, produzindo escassa bibliografia sobre esta condição específica do desenvolvimento feminino.
Da mesma forma como o psíquico pode
refletir impactos da condição biológica
em processo de mudança, não é possível negar o caráter e importância dos significados atribuídos por cada mulher à
sua vivência do fenômeno climatérico e
menopausal, enquanto anúncio e encerramento de sua vida reprodutiva; constituindo especificidade que merece estudo pela psicanálise e necessita ser
considerado pelos psicanalistas no atendimento a pacientes que se encontram
nesta fase da vida, como salientou Gueydan (1991).
Se entre os médicos o enfoque dado à
mulher que se encontra no meio da vida
é fundamentalmente voltado para o climatério e menopausa na categoria de fe-
Pensando a feminilidade no meio da vida
nômenos eminentemente biológicos, entre os psicanalistas há resistências em
enfocar a mulher nesta fase como uma
paciente com características e necessidades específicas. Esta situação é ainda
mais intrigante se conferirmos que nos
últimos anos a proporção de mulheres
entre 50 e 60 anos que têm procurado
atendimento terapêutico aumentou muito, conforme apontou Pines (1995).
Alguns psicanalistas contrapõem que não
haveria especificidade quanto à crise vivenciada pela mulher madura em sua
transição pelos anos climatéricos, culminando com a finalização de sua vida reprodutiva, com a menopausa. Bemesderfer (1996), perguntando a seus colegas
psicanalistas sobre como o assunto da
menopausa emergia no curso de seu trabalho analítico com mulheres de meiaidade, verificou que consideravam inicialmente que a menopausa é de fato
uma importante experiência no desenvolvimento feminino para, finalmente, afirmarem que ela emerge em associação
com sentimentos sobre sintomas e sobre envelhecimento em geral. Com isto,
não manifestaram muito interesse no tópico da menopausa em si, pois afirmaram não ver sua importância particular,
comparada com outros aspectos do funcionamento da paciente. “Neste sentido,
a negação da paciente combina com a cegueira do analista em manter o tópico fora
de análise.” (Bemesderfer, idem, p. 359)1
Para muito além do biológico, este período comporta representações, desloca1. Tradução livre desta autora.
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mentos, simbolizações e ressignificações
importantes, seja quando se pensa no
desenvolvimento feminino, seja quando
se enfoca a psicopatologia. Assim, é interessante retomar algumas concepções
dentro da psicanálise, onde o foco é a
compreensão da subjetividade feminina
neste momento de vulnerabilidade e desestabilização.
UMA VISÃO PSICANALÍTICA DO
CLIMATÉRIO E MENOPAUSA
Uma das pioneiras no enfoque psicanalítico da menopausa foi Deutsch (1951),
salientando que frente a esta condição a
mulher reagiria inevitavelmente com depressão, pela perda de sua capacidade
procriativa e, segundo ela, da feminilidade em desaparecimento, o que foi alvo
de críticas contundentes pela concepção
de sexualidade atrelada à capacidade reprodutiva. De qualquer modo, em consonância com perspectiva falocêntrica,
ela pontuou a renovação da angústia de
castração fálica, quando seria revivificada a inveja do pênis e o conseqüente
sentimento de inferioridade feminino. A
isto se somaria uma terceira edição das
relações edípicas, agora revividas com
relação aos filhos crescidos. Em síntese, Deutsch possui o enorme valor de
ter sido pioneira em esboço de compreensão psicanalítica sobre o climatério e menopausa, sendo que suas colocações vieram orientando autores mais
recentes a respeito de pontos que necessitavam ser melhor compreendidos.
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Contemporânea a Deutsch, Benedek
(1950) ressaltou na mulher climatérica
intrincados processos de identificação
com a mãe no período pré-edípico, e os
conflitos com a figura materna durante
e após o período edípico, que demandariam nova elaboração na maturidade.
Sua preocupação em compreender esta
fase crítica do desenvolvimento feminino como uma integração de fatores fez
com que considerasse as reações emocionais da mulher às oscilações de estrógenos por ela produzidos, afirmando
seus reflexos em toda vida adulta, retomando para isto a consideração das contingências dos ciclos menstruais e períodos pré-menstruais que, por sua vez,
contribuiriam para a compreensão da fisiologia e patologia do climatério. Segundo ela, a administração de hormônios
costuma aliviar os sintomas vasovegetativos, mas não resolvem os conflitos emocionais. Somente a psicoterapia poderia conduzir à descoberta do
problema emocional ao qual cada mulher responde quando sofre de depressão reativa.
Lax (1982), por sua vez, considerou a
crise psíquica que a mulher experimenta durante a fase climatérica à luz do
seu senso de integridade corporal, seu
senso de funcionamento corporal, sua
auto-imagem e suas tarefas vitais e interesses egóicos. O desequilíbrio ocorreria em todas estas áreas do funcionamento psíquico. As mulheres responderiam ao climatério de diferentes maneiras, algumas lidando em direção a uma
nova e saudável integração, outras rumando em direção à patologia.
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Aquelas mulheres que têm especial investimento narcísico em sua aparência sentem o envelhecimento como um processo
traumático. O reconhecimento de sua irreversibilidade e a permanência destas
mudanças em sua imagem faz com que
experimentem um sentido de perda narcísica, podendo em muitos casos encaminhar-se para sentimentos de inveja e
hostilidade contra mulheres mais jovens,
às vezes experimentados conscientemente, mas muitas vezes completamente inconscientes. A perda do controle sobre
o que ocorre com seu corpo faz reavivar fantasias e tendências regressivas,
sentindo-se exposta e sem defesa contra sintomas como ondas de calor e suores, que inclusive a mortificam, pois revelam seu estado menopausal sem que
possa ter controle sobre seu corpo e suas
manifestações, promovendo por vezes
interferência no sentimento de integridade corporal e funcionamento harmonioso, resultando em decréscimo do senso
de bem-estar, enquanto ocorre, por vezes, estados de pânico transitório.
O final da função reprodutiva pode ser
vivido como uma experiência de morte
parcial, sendo que as mulheres que não
têm filhos ressentir-se-iam de forma especial com o final irreversível de sua procriatividade, ameaçadas pelo “relógio biológico”. Por outra parte, haveria também
mulheres para quem a experiência de gestar bebês, cuidar das crianças e da casa
compreendem as mais significantes e freqüentemente as únicas tarefas vitais e interesses egóicos. Estes papéis seriam
consoantes com os objetivos presentes
em sua auto-imagem desejável e confi-
Pensando a feminilidade no meio da vida
gurar-se-iam para elas em importantes
organizadores psíquicos. Neste sentido,
na meia-idade, com o encolhimento ou
término de suas tarefas de maternagem,
estas mulheres poderiam enveredar por
severas crises vitais. No caso das mulheres profissionais, no entanto, por contarem com interesses egóicos que se somariam às ocupações femininas com a
maternidade, estariam mais capacitadas
a encontrar compensações para os assaltos narcísicos resultantes do climatério. Estas gratificações também auxiliariam na inveja edípica e pré-edípica
evocadas pelo crescimento da competência e criatividade da geração mais nova.
Esta autora salientou ainda que o modo
e extensão da resposta da mulher ao climatério dependeria de vários fatores:
... a severidade dos sintomas fisiológicos,
a natureza das experiências passadas, suas
relações objetais internalizadas, sua estrutura psíquica, a força de seus investimentos libidinais, a amplitude de sua esfera
egóica livre de conflito, a natureza e força
de seus interesses egóicos, a extensão de
seu narcisismo saudável, a natureza de
suas relações objetais correntes e a natureza de seu setting familiar e social”. (Lax,
1982, p. 157)2
Quando a mulher menopausal encontrase em relativa boa saúde física e mental, pode utilizar seus recursos pessoais
para elaborar a injúria narcísica representada pelo período climatérico, de modo
a reconstruir uma vida plena de signifi2. Tradução livre desta autora.
3. Tradução livre desta autora.
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cados para si mesma, fazendo um ótimo uso de todas as oportunidades presentes para um preenchimento criativo
e libidinal. Uma superação de sucesso
dependeria em larga medida das capacidades adaptativas da mulher, suas fontes libidinais e seus interesses egóicos.
Conseqüentemente, a esperada reação
depressiva durante os anos de perimenopausa seria para ser vista, segundo
Lax (1982), como um afeto específico
da fase, indicando que o necessário processo de luto estaria ocorrendo. A capacidade para conter e tolerar tal depressão é um pré-requisito para a resolução
saudável do processo climatérico. A elaboração deste luto com sucesso conduziria à renúncia de objetivos e ideais da
auto-imagem da juventude, o que encaminharia para uma resolução adaptativa e
criativa, inclusive promovendo o enriquecimento das relações objetais femininas.
Na menopausa, quando a mulher de meiaidade confronta-se com a perda de sua capacidade de gerar bebês, um fator significativo em sua reação a isto é a memória de
sua mãe na meia-idade e sua orientação
emocional e psicológica com relação às
suas funções femininas alteradas. Durante este processo de retomada e re-elaboração, muitas mulheres reconhecem que menopausa, como a menstruação, é uma parte essencial do que significa ser uma mulher. Assim, menopausa normal, como
menarca normal, é uma confirmação da
identidade feminina primária. (Bemesderfer,
1996, p. 358)3
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A menopausa é universal e inerente ao
desenvolvimento sexual feminino, fazendo parte dos ciclos que constituem o
destino biológico da mulher. Deste
modo, faz parte da condição feminina
estar sujeita a todos os significados aí
implicados, sejam eles conscientes ou
não, conforme apontou Gueydan (1991).
Esta parada imposta pela ordem biológica é um momento conveniente para
repensar a feminilidade e apreendê-la
mais do que nunca. Em torno dos 50
anos, tendo-se suficiente passado e depois de uma última rememoração, repetição, perlaboração, visualiza-se o futuro quando o luto pode ser feito. É fundamentalmente uma etapa que se inicia,
rica em possibilidades de vida “sublimada”, sendo que esta deveria ser cada vez
mais uma das preocupações da prevenção psicopatológica.
Além do mais, a perda da capacidade reprodutiva para as mulheres de várias décadas atrás, sob a supremacia da maternidade como função principal em suas
vidas, poderia mais freqüentemente
resultar em reação depressiva, como
apontado por Gueydan (idem). Na atualidade, a maternidade é apenas um dos aspectos da vida de uma porcentagem de
mulheres, observando-se que principalmente através de atividades de interesse
egóico, dentre as quais a profissão, as
mulheres têm possibilidade de elaborar
e superar criativamente esta perda.
ATINGINDO O MEIO DA VIDA
Em busca de uma visão ampla e integrada sobre as vivências associadas ao atingir o meio da vida, é interessante pes-
quisar o que a psicanálise tem descrito.
A idade adulta, e principalmente a maturidade, acaba sendo alvo de interesse
de pouquíssimos autores que voltam seu
olhar e pretendem uma escuta das questões aí compreendidas. Isto, apesar de
a grande maioria dos psicanalistas acabarem por se deparar com questões que
freqüentemente marcam presença no discurso de pacientes que se encontram no
meio da vida.
A seguir, as concepções de Jaques e
Kernberg, que procuram descrever as
vivências e significados específicos que
se encontram em jogo neste período da
vida adulta.
O psicanalista Jaques (1990) ocupou-se
da descrição da “crise da meia-idade”.
Um dos focos abordados foi a condição
criativa da pessoa que enfrenta esta crise, ocorrendo mudanças quanto ao
modo de trabalho produzido e quanto ao
seu conteúdo. Na juventude, a criatividade tenderia a ser intensa e espontânea,
parecendo que a maior parte do trabalho ocorreria inconscientemente. Em
contrapartida, aquela que tem lugar na
meia-idade seria uma criatividade esculpida, havendo um grande processo até
a finalização da criação, embora o trabalho inconsciente não fosse menor.
Ocorreria, no entanto, um processo de
dar forma e estilo ao produto, trabalhando e retrabalhando o material externalizado, sendo que este processo de externalização seria parte essencial do trabalho na idade adulta madura. O resultado bem-sucedido, segundo este autor, encontrar-se-ia ligado a uma resignação construtiva, ao conferir as imper-
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feições dos homens, abrigando tanto impulsos amorosos como destrutivos. Do
mesmo modo, o conferir das deficiências do próprio trabalho levaria a uma
reelaboração da depressão vivenciada na
infância primitiva, de acordo com o
pensamento de Klein (1934), base das
idéias deste autor.
Um outro ponto essencial nas idéias de
Jaques (1990) refere-se ao fato do indivíduo começar a envelhecer, tendo de
fazer face a novas circunstâncias externas. A juventude e a infância seriam tempos passados, havendo como principal
tarefa psicológica a construção de uma
vida madura e independente. Aí residiria um paradoxo, pois paralelamente ao
estar no estágio da plenitude, haveria o
ingresso, na cena psicológica, da realidade e inevitabilidade da própria morte,
aspecto central e crucial da “crise da
meia-idade”, que imporia um futuro circunscrito para a realização de tudo o que
teria sido desejado. Muito acabaria tendo de ficar inacabado e não realizado.
Haveria um padrão geral de mudança
psicológica neste estágio da vida: com
a consciência do início da última metade da vida, despertariam ansiedades depressivas inconscientes, requisitando a
repetição e continuação da elaboração da
posição depressiva infantil. Assim, quando houvesse um predomínio do ódio sobre o amor, e não havendo a integração
destes impulsos, ocorreria um transbordamento de destrutividade que contaminaria o mundo interno e externo, não
ocorrendo a mitigação do ódio pelo
amor. Os processos de reparação e sublimação subjacentes à criatividade se
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inibiriam ou falhariam. Neste caso, a
“crise da meia-idade” seria vivenciada
como período de perturbação emocional
e de colapso depressivo, o que se refletiria em empobrecimento da vida emocional e no comprometimento da capacidade criativa.
Em contrapartida, quando há o predomínio do amor sobre o ódio, este poderia ser por aquele mitigado, conduzindo
ao processo de reparação que promoveria a recuperação dos aspectos amorosos e positivos das experiências previamente vivenciadas. Ao final, o saldo
amoroso e construtivo conduziria a uma
integração das limitações e inevitabilidade da morte, tornando-as toleráveis, e
fazendo com que o crescimento e amadurecimento pessoal viessem a se refletir na própria criatividade. O produto da
criação seria vivenciado como provedor
da vida, o medo de morrer transformarse-ia em experiência construtiva, e o sentimento de segurança limitada, mas confiável, seria o equivalente à noção infantil
de vida. Apesar de tudo, segundo Jaques
(1990), estas condições mais equilibradas não pressuporiam uma passagem
fácil pela “crise da meia-idade”, compreendendo o luto pelas perdas, incluindo-se a infância e juventude já passadas.
Neste processo, o sentido de continuidade da vida poderia ser fortalecido e o
ganho encontrar-se-ia no aprofundamento da consciência, da compreensão e da
auto-realização. O autor finalizou apontando que “a atenção inicia seu processo proustiano de voltar-se para o passado, examinando-o conscientemente no
presente e entrelaçando-o ao futuro
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concretamente limitado.” (Jaques, 1990,
p. 270)
Em consonância com estas idéias, Kernberg (1989) apontou que a meia-idade
traz consigo algumas tarefas desenvolvimentais específicas, sendo resumidas
a seguir:
. Mudanças na perspectiva cronológica:
a relação com os pais se atualiza na relação com os filhos jovens e adolescentes, mas com papéis invertidos. Emergem os afetos ligados às identificações
do passado e há a reativação de angústias e culpas edipianas, nos cuidados
com os pais idosos.
Reversão nos ritmos exterior e interior de transformação: agora são os filhos que crescem rapidamente e os pais
que envelhecem rapidamente e desaparecem. A maturidade apresenta um ritmo diverso, sentindo a ameaça da estabilidade até no mundo inanimado. Luto
pela consciência da natureza efêmera da
vida humana.
. Limites da criatividade: percepção dos
próprios limites do passado e a restrição
para as realizações no futuro. Outras
pessoas provavelmente ultrapassarão estas limitações, colocando em pauta a
questão do amor e do ódio para consigo e para com os outros.
Identidade do ego na perspectiva do
tempo: o novo conhecimento da meiaidade sobre as próprias limitações consolida a identidade do ego, diferentemente do passado. Aceitar a si mesmo é aspecto importante da maturidade emocional, com reflexos em todos os relacionamentos.
.
.
. Ajuste de contas com a agressão exterior: enfrentamento realístico dos ataques que permeiam o ambiente adulto,
sem explorá-los, sem negá-los, sem submeter-se ou por eles ser corrompido.
Aceitação do fato de que a responsabilidade final é para consigo mesmo.
Perda, luto e morte: o enfrentamento
da perda dos pais, irmãos, parentes e
amigos soma-se às próprias manifestações de envelhecimento, reforçando a
consciência do possível adoecer e morte pessoal. A aceitação de perdas e fracassos pessoais deve permitir a sensação de contar com recursos suficientes
para a aceitação de si mesmo e a reconstrução de uma vida significativa, tendo
por base o narcisismo normal.
Conflitos edipianos: nova reativação do
complexo de Édipo, seja pelo crescimento dos filhos, pelas experiências concretas na vida social e grupal ou pelas vivências com os pais enfraquecidos rumo
à morte. Este enfrentamento promove
numerosas tarefas psicológicas, quando
interagem todos os fatores do passado
pessoal, com as mudanças da meia-idade e a elaboração de um novo patamar
psíquico, fruto da perda real dos pais e
integração definitiva, normal, de conflitos edipianos na personalidade. A elaboração inconsciente da ambivalência de
sentimentos promove uma renovada superação do complexo de Édipo, emergindo o desejo e a capacidade para partilhar amorosamente seu passado com a
geração mais jovem, continuando e reforçando vínculos e identificações.
Kernberg (1989) analisou também o
.
.
Pensando a feminilidade no meio da vida
narcisismo patológico na meia-idade, basicamente considerado à luz das perturbações que podem advir do enfrentamento e realização das tarefas do desenvolvimento normais neste período, que
acabam de ser resumidamente citadas.
Com a descrição da “crise da meia-idade” e as tarefas desenvolvimentais
próprias a este período do desenvolvimento, ficam pontuadas características
marcantes às quais homens e mulheres
devem fazer face à medida que atingem
o ponto médio da vida, vivenciando
pessoalmente estas dificuldades em
maior ou menor grau. No entanto, a conjugação desta crise psíquica com as contingências associadas ao climatério e
menopausa faz com que esta fase do
desenvolvimento seja ainda mais complexo para as mulheres, devido à mútua
influência de fatores de ordem física,
psíquica e social. Assim, se o atendimento médico é imperativo nesta fase, o psicológico pode ser imprescindível, pois
não há na medicina medicamento de
metabolização e reposição que processe
essas vivências e significados associados. Assim, a prevenção marca presença enquanto enfoque importante para a
mulher que atinge o meio da vida e que
enfrenta fase de vulnerabilidade, com freqüência, em surdina e solitariamente.
ENFOQUE CLÍNICO
Interessada em compreender a subjetividade feminina no meio da vida e em
oferecer a possibilidade de atendimento
psicológico às mulheres desta faixa etária, realizei pesquisa em minha dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica,
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quando utilizei a intervenção “Grupo de
Encontro de Mulheres” junto a 20 pacientes, compreendidas em dois grupos de
mulheres com idade entre 40 e 55 anos,
realizados na Clínica Psicológica Ana
Maria Poppovic da PUC-SP.
Após a conferência do que constitui vivência feminina ao atingir o meio da vida,
plena de significados que colocam em
pauta de modo destacado a feminilidade, é importante observar como reagem
as mulheres em geral, sendo que muito
poucas chegam a tratamento terapêutico convencional, beneficiando-se da
oportunidade de auxílio na elaboração
dos conteúdos e significados emergentes, e portanto, reduzindo o risco potencial de exacerbação ou cristalização da
problemática apresentada.
Nesta direção, o “Grupo de Encontro de
Mulheres” constitui ambiente facilitador
para vivência, reflexão pessoal e discussão com seus pares sobre significados
fundamentais na vida da mulher desta
faixa de idade, à medida que surgem tantas mudanças em seu corpo, mente e
vida de relações. A mulher que atinge o
meio da vida necessita de um espaço de
escuta para sentir-se acolhida e auxiliada a redefinir a si mesma, em momento
vivencial que compreende a desestabilização em várias direções.
A opção por esta forma de intervenção
clínica, com objetivo preventivo, deveuse ao fato de ser considerada centrada
no binômio crise-foco, procurando
abordar situação do desenvolvimento feminino potencialmente desencadeadora
de crise com mulheres que vivenciavam
dificuldades variadas, mas tendo como
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eixo de referência ser condição associada a este período do ciclo vital. Em
atendimento de duração limitada, a psicanálise esteve na base das intervenções
terapêuticas que pretendiam propiciar o
desenvolvimento emocional das participantes.
Nesta forma de intervenção clínica, é
imprescindível salientar não ser possível
serem pretendidos objetivos semelhantes
àqueles do tratamento psicanalítico convencional e prolongado. Winnicott (1989)
sempre ressaltou que o importante é ter
em vista o objetivo pretendido e o quanto será possível fazer para atingi-lo.
Além do mais, apontou que as necessidades do paciente é que determinam a
escolha do tipo de psicoterapia indicado, sendo importante que analista treinado possa conduzir atendimentos que
tenham caráter distinto daquele proposto pela análise tradicional.
A utilização do “Grupo de Encontro de
Mulheres”, como este espaço de reflexão, discussão e troca de experiência,
foi tentativa como psicanalista em procurar ir ao encontro do que poderia ser
a experiência necessitada por estas mulheres, conforme formulou Winnicott a
respeito de uma das funções do analista, que tem o objetivo de funcionar como
propiciador de um ambiente facilitador
para o desenvolvimento emocional, pois
o self não cessa de se transformar permanentemente em processo de construção
contínua do nascimento até a morte.
Foi possível conferir entre as participantes do “Grupo de Encontro de Mulheres”, que é através do olhar do outro que
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o eu se sente reconhecido e identificado, sentindo-se existir e percebendo a si
próprio como referência e unidade distinta. Conforme Winnicott tão bem
descreveu, é a relação interpessoal a serviço do desenvolvimento emocional
mútuo, pois quem olha também não permanece o mesmo depois desta experiência de encontro. É um compartilhar de
ilusão e de realidade psíquica que os relacionamentos grupais possuem enorme
riqueza em oferecer, estabelecendo uma
troca significativa que dá sentido à vida
e faz com que a realidade objetiva, uma
vez compartilhada, possa ser melhor enfrentada.
A seguir, estarei apresentando alguns aspectos que marcaram presença durante
o atendimento grupal que compôs minha
pesquisa, não sendo possível reunir aqui
muito além de algumas breves pontuações, mas que no entanto indicam o curso das discussões grupais, a visão das
dificuldades e significados atribuídos,
ratificando determinadas colocações
teóricas anteriormente assinaladas neste
trabalho.
A reação depressiva é em certa medida
esperada neste período da vida feminina, indicando muitas vezes o andamento do processo de luto pelas mudanças
e perdas enfrentadas. Foram várias as
participantes que indicaram algum grau
de depressão, indo desde certa apatia,
falta de motivação e desinteresse geral,
até àquelas que vinham sendo acompanhadas profissionalmente e medicadas.
O “Grupo de Encontro de Mulheres” era
divisado por elas como uma possibilida-
Pensando a feminilidade no meio da vida
de de ajuda neste estado depressivo,
pois permitia a troca de experiência e a
discussão de temas comuns que poderiam estar afligindo a todas, o que as tirava do isolamento e descaracterizava
serem exceção. Em geral, este atendimento psicológico grupal, onde se dava
a interlocução e troca de experiências
entre mulheres de mesma faixa etária,
foi sentido como setting favorecedor;
pois sentiam-se acompanhadas ao serem
acolhidas, reconhecidas e compreendidas, além de contarem com figuras de
identificação que as auxiliavam na elaboração de suas angústias e vivências pessoais. Nesta direção, minha participação,
enquanto profissional de mesmo sexo e
idade, também foi experimentada como
favorecedora de identificação e transferência.
Com relação aos problemas de saúde que
apresentavam, vinham sendo avaliados e
acompanhados por médicos especialistas, mas elas estabeleciam clara associação entre sua condição psico-emocional e a sintomatologia apresentada. De
forma geral, todas contavam com informações a respeito da importância da avaliação médica sistemática da condição
climatérica e menopausal, compreendendo exames clínicos importantes, medidas preventivas e a Terapia de Reposição Hormonal (TRH), mas também verificavam não estarem a salvo de ocorrências como determinados tipos de
câncer, tais como o de mama, ataque
direto à integridade física e psíquica da
mulher desta faixa de idade, atingindo em
cheio sua feminilidade.
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Quanto à opção pela TRH, parecia-lhes
certo que esta medicação poderia auxiliálas em alguns sintomas, mas não solucionava todas as suas inquietações e angústias, e muito menos repunha seu sentimento de perda e de vazio para muito
além da falta de estrógeno.
Em várias ocasiões, as participantes fizeram associação direta entre menopausa
e envelhecimento. Atingir a menopausa
era um registro angustiante e inegável de
que estavam envelhecendo e já não eram
as mesmas, portanto, sua ocorrência era
temida por este significado associado.
Para as mulheres que haviam sido submetidas à histerectomia já há alguns
anos, esta intervenção cirúrgica não ficara diretamente registrada em nível
consciente como algo em suas vidas que
tivesse representado maiores dificuldades emocionais. No entanto, nunca pode
ser desconsiderado que os reflexos desta
perda pudessem estar em nível inconsciente. Um dado importante é que estas
mulheres eram casadas e todas tinham
pelo menos dois filhos já adultos. Com
isto, a perda do órgão reprodutivo não
adquiria o mesmo significado que para
as mulheres sem filhos. No entanto, houve casos de pacientes que, apesar da indicação médica, não pretendiam realizar
esta intervenção cirúrgica, por experimentarem que o fato de continuarem
menstruando, apesar dos incômodos físicos decorrentes da patologia com que
contavam, representava algo de sua condição feminina da qual não desejavam
abrir mão. Isto aponta para o significado mais amplo e profundo da perda do
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órgão reprodutor e sua função para muito além do que pode ser divisado em nível biológico.
Cabe aqui considerar que a perda do órgão reprodutivo e/ou condição procriativa pode exprimir-se em boa parte dos
casos de forma simbólica. Assim, o que
foi reiteradamente registrado pelas mulheres que participaram dos “Grupos de
Encontro de Mulheres”, foi o sentimento predominante de que suas vidas estariam sendo alvo de perdas que por vezes não identificavam claramente, mas
sentiam tratar-se de algo referente à sua
condição feminina. Em geral, apontavam
que surgiam limitações, sentiam certo
apagamento ou esvaziamento, experimentavam sensação de perda ou finalização. Ora localizavam estes sentimentos ou sensações em sua condição de
saúde, ora na estética e envelhecimento, ora nos filhos que iam embora e encerravam uma fase em suas vidas, ora
no marido que se interessava por mulheres mais jovens, ora no preconceito
social com relação às mulheres mais velhas. Embora muito importante a especificidade de cada uma destas circunstâncias de mudança ou perda em si, não
é possível deixar de considerá-las à luz
do deslocamento simbólico, que pode
revelar o quanto estas mulheres se sentiam atingidas em sua condição feminina, em período da vida em que tem lugar a perda da capacidade reprodutiva.
Esta capacidade, tradução significativa e
valorizada do ser feminina, teria estado
presente até aquele momento, mas agora encontrava-se abalada pelo encerra-
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mento da condição biológica. As mulheres mais jovens eram vistas como contando com muito mais possibilidades, ao
passo que as mais velhas, aí incluídas
suas mães, eram figuras que ameaçavam
com o envelhecimento, perda do poder
de atração, solidão e morte.
Em geral, as participantes não contavam
com excessiva preocupação estética,
embora algumas tenham apontado reiteradamente seu desconforto com o envelhecimento e as marcas do tempo em
seu físico, conferindo alguma defasagem
entre sua aparência física e sua disposição ou desejo, sentindo-se estranhas na
pele de uma senhora quando, internamente, por vezes, sentiam arder os impulsos e desejos de uma jovem.
O pesar pelo envelhecimento, que se fazia visivelmente presente em cada sinal
do corpo e do rosto, remetia ao conferir do tempo passar, havendo a conscientização de estarem atingindo o meio de
suas vidas. A ansiedade por tudo que
desejavam ter realizado e não haviam feito, a pressa em começar a concretizar
projetos que haviam sido postergados
mostravam muito flagrantemente a
consciência a respeito da própria finitude. Neste sentido, não havia tempo a perder, e isto gerava em algumas forte angústia, temendo não ser mais possível
realizações desejadas.
Algumas delas apontaram sentir o espaço doméstico como o lugar onde sentiam impossível realizar-se plenamente,
como se estivessem sacrificando alguma coisa essencial da própria identidade, quando se dedicavam às exigências
Pensando a feminilidade no meio da vida
das tarefas domésticas, e por vezes aos
cuidados com os filhos. Nesta direção,
pareciam ter de passar por uma possibilidade de identificação paterna, pois a
geração das mães como mulheres “do
lar” não abria canais para a sublimação,
pela condição de restrição infeliz, resignada aos papéis doméstico e maternal,
tal como apontou Kehl (1996). Assim,
para serem criativas em campo de interesse egóico que pudesse dar continuidade à capacidade procriativa, de modo
transformado mas oriundo da mesma
fonte, como apontou Gueydan (1991),
elas necessitavam elaborar profundamente esta modificação.
A atualização, informação pessoal e convivência social foram assinaladas como
essenciais para combater a tristeza e a
solidão que em geral as participantes divisavam no envelhecimento. Assim, a limitação à vida doméstica foi vista por
praticamente todas como fator empobrecedor diante dos recursos e estímulos
que compõem o mundo atual. Mesmo
aquelas que não se encontravam com
atividade profissional, viam no contexto
sociocultural as possibilidades de enriquecimento pessoal e construção de uma
vida significativa no presente e no futuro, tendo reflexos em uma melhor inserção e relacionamento familiar.
Sentiam-se realizadas no papel de mãe,
mas almejavam concretizações em outros campos de interesse para se sentirem mais vivas e inteiras, com certeza
vislumbrando no processo de externalização de suas criações uma questão importante neste período, como apontou
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Jaques (1990). O vínculo com os filhos
representava apoio importante nos momentos em que se enfrentaram com alguma crise pessoal, tal como no caso
das que passaram pela separação conjugal. A reativação do complexo de Édipo era marcante para algumas que não
sabiam como se organizar pessoalmente frente à maior independência e partida dos filhos, apresentando sentimentos
de exclusão e traição. A elaboração de
sua própria independência dentro deste
vínculo em transformação era tarefa árdua para algumas delas, sentindo aí uma
perda que as atingia profundamente.
Havia preocupação e grande interesse
em discutir o relacionamento entre homens e mulheres, o que se encontrava
relacionado muito diretamente ao exame
da relação conjugal e suas mudanças ao
longo da convivência de muitos anos. As
insatisfações, a rotina e a perda do romantismo inicial foram alvo de discussão em vários momentos. O reencontro
com o parceiro na maturidade, após o
crescimento e independência dos filhos,
parecia requerer uma reformulação e
adequação às necessidades atuais, assim
como antigos problemas pareciam demandar finalmente uma solução, ou então uma acomodação final. Com o balanço de vida em suas realizações, estas
mulheres colocavam na ordem do dia o
desejo de contar com um parceiro mais
presente, afetivo, companheiro e, se possível, também mais romântico e sexualmente estimulante.
O fato de acompanharem o envelhecimento, a doença e a morte dos genito-
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res não só colocou as participantes em
contato com a perda aí compreendida,
como promoveu a emergência de ansiedades com relação à inversão dos papéis
nos cuidados e temores com relação ao
próprio futuro. Em processo identificatório, tornava-se esta uma realidade factível para si mesmas a partir da chegada ao meio da vida, o que lhes acenava
com o sentimento de desamparo na velhice, pretendendo evitar a solidão e
alheamento afetivo em que percebiam
seus pais envelhecidos. A renovação
de sentimentos edípicos fazia retornar
necessidades afetivas que não encontravam eco e respaldo nos pais agora
muito distantes da figura de sua infância e juventude. Com relação aos irmãos,
era por vezes difícil a conciliação e divisão dos cuidados com os pais, reavivando antigos sentimentos de rivalidade
edípica.
A aposentadoria era sentida como perda significativa em suas vidas, pois a
participação ativa em contexto de atividade profissional fazia com que se sentissem mais preenchidas e realizadas.
Mesmo aquelas que ainda não haviam
chegado à aposentadoria, mas dela se
aproximavam, preocupavam-se com o
desenvolvimento de alguma outra atividade produtiva fora de casa, que se traduzisse em ocupação ativa e preenchimento significativo para suas vidas.
A grande maioria das participantes apontou que contava com muito poucas amizades, o que fazia com que sentissem
falta de convívio social e diálogo. A solidão e falta de companhia foram temas
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constantemente abordados, pois era freqüente se sentirem sozinhas, embora
muitas vezes rodeadas de família e colegas que, no entanto, não supriam suas
necessidades afetivas de parceria, troca
e compreensão. O “Grupo de Encontro
de Mulheres” de algum modo era identificado como espaço para tratar de suas
angústias, mas ao mesmo tempo atendia à expectativa de acompanhamento
entre pares com troca significativa que
podia auxiliar na elaboração de seus próprios conteúdos.
Finalizando, após este breve relato de alguns aspectos de minha experiência
com “Grupos de Encontro de Mulheres”,
é importante ressaltar que as participantes de forma geral, além da valorização desta experiência em suas vidas,
iniciaram processo pessoal onde efeitos
terapêuticos foram flagrantemente conferidos.
Como psicanalista, nos “Grupos de Encontro de Mulheres” exercendo atendimento em forma distinta do setting terapêutico tradicional, pude identificar na
grande maioria destas mulheres processo elaborativo que se encontrava em
marcha, sendo que as realizações manifestas indicavam claramente efeitos analíticos mais profundos: em processo a
elaboração do luto pelas mudanças e perdas; revitalização de recursos pessoais
adormecidos; início da superação criativa de golpe em sua feminilidade, representado pelo climatério e menopausa;
aceitação de desafios que colocavam à
prova sua capacidade e estrutura emocional; descoberta de possibilidades pes-
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soais que só o maior desenvolvimento
emocional pôde fazer frutificar; início da
concretização de projetos que indicavam
maior independência afetiva e financeira; maior amadurecimento da condição
de separação conjugal; encorajamento
para a tomada de decisões importantes
na vida profissional; procura de atividade que implicava em empatia e doação
afetiva aos que dela necessitam.
Deste modo, concluo a exposição desta
experiência falando sobre minha gratificação pessoal e profissional com este
trabalho de objetivo preventivo com efeitos terapêuticos em “Grupos de Encontro de Mulheres”. Constitui atendimento no qual é possível abranger um grande número de mulheres necessitadas da
experiência que ele favorece, podendo ser
de grande auxílio como atendimento focal em período de crise, assim como pode,
em alguns casos, constituir sensibilização para tratamento psicoterapêutico
convencional e sem prazo determinado.
Este tipo de intervenção de caráter psicoprofilático pode ser desenvolvido em
consultórios médicos ou psicológicos,
em instituições tais como hospitais, centros de saúde, centros de atendimento
comunitário e demais organizações que
congreguem o público de mulheres desta
faixa de idade. Elas se encontram ciosas por uma oportunidade para serem
reconhecidas em sua especificidade, escutadas e compreendidas em momento
de grande vulnerabilidade, necessitando
reverter a crise rumo a uma nova e saudável integração. „
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