Surdez e Linguagem
Primeiramente vamos falar sobre o conceito de surdez. É bastante
comum ouvirmos as pessoas se referirem ao surdo como "mudo", ou
pior, "mudinho", surdo-mudo, deficiente auditivo, entre outros. A
maioria dos surdos não apresenta nenhuma deficiência no aparelho
fonador, ou seja, seus órgãos internos e externos da fala estão
intactos, por isso não podem ser considerados como mudos1.
Então por que alguns não falam quase nada ou falam
diferente?
Todos os surdos vocalizam, algumas vezes produzem sons mais
graves, outras vezes mais agudos, porém, por não ouvirem, não têm
feedback auditivo2.
As pessoas da família ou outros ouvintes3, que convivem com a
pessoa surda já estão mais acostumados com seu tipo vocal, por isso
compreendem melhor o que ele diz.
A oralidade no surdo depende de alguns fatores, entre os quais estão
o momento do aparecimento da surdez , que pode ser pré-lingual,
peri-lingual ou pós lingual4; do grau de surdez, que varia de perda
leve, perda moderada, perda severa, perda profunda e perda total5; e
do estímulo da fala, que quanto mais precoce, maiores as
possibilidades de uma criança com surdez severa ou profunda por
exemplo desenvolver a oralidade.
Mas, por que Surdo?
Os surdos não se definem como deficientes porque procuram
enfatizar o aspecto cultural e lingüístico da surdez e não a ausência
de algo, no caso, da audição.
A existência de uma comunidade, que se identifica como grupo
cultural, contribuiu para que os estudos sobre a surdez ganhassem
espaço no campo dos estudos culturais. Antes disso, a surdez era
exclusivamente objeto dos estudos médico- terapêuticos.
1
Mudo é a pessoa incapaz de falar, por defeito do aparelho fonador
(dicionário Silveira Bueno); Impossibilitado de falar, por defeito
orgânico ou por acidente; silencioso; calado (dicionário on- line Priberam); Privado do uso da palavra por defeito orgânico ou causa
psíquica (dicionário Aurélio).
2
O feedback auditivo é uma expressão para designar um retorno
auditivo que permite o autocontrole da fala.
3
Ouvinte é o termo utilizado pelos surdos para se referirem aos não
surdos.
4
A Surdez Pré-lingual é caracterizada pela total ausência de memória
auditiva, sendo por isso extremamente difícil a estruturação da
linguagem. A Surdez Peri-lingual surge nas crianças que falam mas que
ainda não lêem, situação em que, se não existir um acompanhamento
eficaz, se dá uma rápida degradação da linguagem. A Surdez Pós-lingual
surge quando a criança já fala e lê, não se acompanhando praticamente
de regressão devido ao suporte da leitura.
5
Dependendo do grau de surdez, a prótese auditiva pode ser muito útil
na aprendizagem da fala. Nos casos de perda severa à total, a prótese
não produz muitos efeitos.
As Comunidades surdas e as Línguas de Sinais
Durante muito tempo e até algum tempo atrás, os surdos eram
submetidos a duras e longas sessões de reabilitação da fala nas
próprias escolas de surdos, cujo objetivo era transformar esses
alunos num modelo mais próximo possível ao ouvinte.
A língua de sinais foi proibida nas escolas de surdos no final do
século XIX e por quase cem anos, pois, muitos estudiosos da época
acreditavam que a língua de sinais retardaria o desenvolvimento da
fala e que contribuiria para a segregação dos surdos, excluindo-os da
sociedade majoritária ouvinte.
Mas as línguas de sinais, que já estavam estruturadas em vários
países e era utilizada pelos surdos para se comunicarem em outros
contextos além do espaço escolar, sobreviveu, principalmente nas
associações de surdos.
Até hoje as associações de surdos desempenham um papel
fundamental de espaço de produção cultural e de disseminação da
identidade e da cultura surda tendo a Língua de Sinais como
elemento principal e determinante dessa cultura.
Em algumas cidades que não existem associações de surdos, eles
costumam se reunir em locais específicos. Esses encontros podem ser
em uma praça, um terminal urbano, um parque, entre outros.
PARA CONHECER AS ASSOCIAÇÕES DE SURDOS NO BRASIL
ACESSE
http://www.cbsurdos.org.br
Segundo Tomaz Tadeu da
Silva, autor do livro "Identidade e Diferença" "a identidade e a
diferença são criações sociais e culturais".(p.76)
A identidade surda é criada e fabricada pelas pessoas surdas no
convívio com outros surdos falantes de uma mesma língua.
Os estudos surdos, que se definem como uma ramificação dos
estudos culturais, buscam aprofundar as questões que evidenciam a
existência da identidade e cultura surda, ainda que os surdos estejam
inseridos no meio ouvinte.
As comunidades surdas, atualmente, se articulam, assim como outras
minorias étnico-lingüístico-culturais, na luta por reconhecimento
lingüístico e por direitos que garantam sua liberdade de expressão e
acessibilidade, facilitando seu desenvolvimento como ser humano
integral e o exercício de sua cidadania.
O final do século XX e início do século XXI no Brasil têm sido
fortemente marcados por movimentos surdos, resultando em
conquistas bastante significativas para as comunidades.
A foto abaixo ilustra a passeata feita pela comunidade surda de
Niterói-RJ, no dia 26 de setembro de 2006. A passeata com o tema
"orgulho surdo" realizada no Dia Nacional dos Surdos, remete a
sociedade a enxergar a surdez com outros olhos, associando-a a
questão da diversidade e da diferença.
PARA SABER MAIS
Veja:
http://www.eusurdo.ufba.br/arquivos/estudos_surdos_feneis.doc
Métodos de Ensino para Surdos
O congresso de Milão, em 1880, foi o marco do período denominado
por alguns autores como "período das trevas da pedagogia oralista"
Nesta aula, vamos conhecer algumas características dos métodos
utilizados na educação de surdos e os novos rumos que tem tomado
essa educação, bem como as leis que amparam e respaldam a
educação dos surdos no Brasil.
Os cinco modelos educacionais na Educação de Surdos:
• ORALISMO
• COMUNICAÇÃO TOTAL
• BILINGUISMO
• PEDAGOGIA DO SURDO
• MEDIAÇÃO INTERCULTURAL
Oralismo
"O oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser
minimizada através da estimulação auditiva". (GOLDFELD, 1997,
p.31)
Talvez você pense: "Mas, que mal há em ensinar o surdo a falar a
língua padrão do país, pois, se a maioria das pessoas utiliza esta
língua será muito mais fácil o convívio dele na sociedade".
O problema da filosofia oralista não é este, mas o fato de não aceitar
a língua de sinais como língua natural do surdo e impor a língua oral.
É fazer da escola um espaço de reabilitação da fala, transformando-a
em uma clínica fonoaudiológica.
O surdo tem direito de aprender a língua oral escrita ou falada, mas a
escola deve garantir a ele, primeiramente um ambiente lingüístico
rico, que favoreça o seu desenvolvimento integral (social, cognitivo,
afetivo, psicomotor,etc) o que as longas sessões de terapia da fala
não permitiam, trazendo sérios prejuízos ao desenvolvimento da
criança surda.
Ainda hoje existem escolas que trabalham na perspectiva de ensino
oralista, apoiando-se em experiências de casos isolados de surdos
que conseguiram desenvolver a fala e se destacarem socialmente.
Porém, mesmo nessas escolas não se pode proibir mais a língua de
sinais, pois a legislação vigente não permite tal medida.
Comunicação Total
O próprio nome é bastante sugestivo, pois a Comunicação Total é um
modelo de educação que utiliza todas as possíveis formas de
comunicação como auxiliares no desenvolvimento da fala, inclusive
gestos naturais das crianças surdas, alfabeto manual, leitura orofacial1 e utilização de aparelhos auditivos.
Essa modalidade de educação foi desenvolvida em meados de 1960,
após detectado o fracasso do oralismo puro em muitos sujeitos
surdos.
Bilingüismo
A proposta educativa em questão entende que o bilinguismo2 consiste
no ensino da língua oral e língua de sinais separadamente.
Dentro desta proposta de ensino a língua de sinais é reconhecida
como língua materna, natural e primeira a ser adquirida pela criança
surda e a língua portuguesa como uma segunda língua, considerando
que por ser majoritária, a aquisição desta segunda língua é
necessária para que o surdo tenha maior acesso às informações em
geral e melhores condições de convivência no meio ouvinte.
Pedagogia do Surdo
Este modelo pedagógico é aspirado pela comunidade surda, que
busca reafirmar sua identidade e emancipar-se das práticas
ouvintistas3 na educação de surdos. Entende a escola como um
espaço de vivências e experiências culturais compartilhadas entre os
sujeitos surdos. A Língua de Sinais deve ser o principal veículo de
comunicação e instrução dos surdos dentro da escola, sem
interferências da língua oral. A história da educação dos surdos e das
línguas de sinais passa a compor o conteúdo estruturante das aulas.
A Pedagogia do Surdo4 valoriza a presença do profissional surdo
dentro da escola. A criança surda, desde a educação infantil, deve
estar em contato constante com a Língua de Sinais, que, irá mediar o
processo de desenvolvimento integral dessa criança.
A ilustração abaixo, mostra o trabalho do professor Alexandre,
que é Surdo, na escola Rio Branco. Ele atua na educação
infantil com bebês surdos.
1
Leitura oro-facial é a leitura labial associada à visualização de toda a
fisionomia da pessoa que fala, incluindo sua expressão fisionômica e
gestos espontâneos. Leitura labial é a capacidade de "ler" a posição dos
lábios e captar os sons que alguém está fazendo. É útil quando o
interlocutor formula as palavras com clareza. Porém, é provável que até
o melhor leitor labial adulto só consiga entender 50% das palavras
articuladas (talvez menos). O resto é pura adivinhação. Muitos sons são
invisíveis nos lábios. Por exemplo, a diferença entre as palavras "gola" e
"cola" dependem unicamente dos sons guturais. Outros sons, como "p"
e "m", "d" e "n" e "s" e "z", podem ser facilmente confundidos. Se a
pessoa não souber bem qual o assunto da conversa, terá mais
dificuldade de fazer a leitura labial. Para quem já nasceu surdo, a leitura
labial é muito mais difícil do que para alguém que tinha audição, pois
tem de imaginar os sons que nunca foram ouvidos.
2
Bernardino (2000), cita Appel e Muysken sobre três definições de
bilinguismo, baseados em três autores diferentes: 1) "um bilíngue deve
possuir um domínio de duas ou mais línguas como um nativo"
(Bloomfield); 2) "uma pessoa poderia ser qualificada como bilíngue se
tiver , além das habilidades em sua primeira língua, algumas habilidades
em uma das quatro modalidades (falar, entender, escrever ou ler) da
Segunda língua"(Macnamara); e 3) ä prática de utilizar duas línguas de
forma alternativa.
3
Ouvintismo: "(...) é um conjunto de representações dos ouvintes, a
partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se
fosse ouvinte". (SKLIAR, 1998, p 15).
4"
A expressão Pedagogia para surdos foi traduzida por Pedagogia da
Diferença, pela pesquisadora surda, Gladis Perlin (Mestre em Educação
de Surdos pela UFRGS, doutora na mesma linha e Coordenadora do
Setor de Educação da FENEIS/RS) quando ministrou a aula inaugural do
Curso de Pedagogia para Surdos em 9/3/02, na UDESC". (MACHADO,
2008, p 75).
Mediação Intercultural
O procedimento parte do conceito de que: "Todos nós nos
localizamos em vocabulários culturais e, sem eles, não conseguimos
produzir enunciações enquanto sujeitos culturais". ( Hall, 2003,
p.83).
Nesse contexto, a cultura ouvinte não serve de parâmetro para o
surdo, não regula mais as ações educativas nas escolas de surdos,
mas o outro cultural é indispensável para afirmação da própria
cultura dos sujeitos surdos.
Os três últimos modelos de educação descritos acima são mais
recentes, mas todos valorizam a Língua de Sinais e consideram a
necessidade de constituição das identidades surdas.
Ainda há outras considerações importantes sobre a Educação de
Surdos, como a adoção da prática de letramento para surdos.
Surdez e "Letramento"
Alguns estudos têm apontado para a ineficácia dos métodos de
alfabetização no ensino da língua escrita para surdos, pois eles
requerem do alfabetizando a capacidade de codificação e
decodificação de sons. Os surdos, por não ouvirem, têm dificuldades
de fazer associações entre o som e a palavra escrita.
Diante dessas considerações, algumas escolas de surdos estão
adotando a prática do "letramento' .
O "letramento" visa a uma leitura mais consciente dos textos,
considerando o contexto em que se apresenta, e não a simples
decodificação de sons e palavras isoladas.
Observe a imagem abaixo:
Se os textos trouxerem apenas informações escritas, se apresentarão
como grandes cartas enigmáticas, como comparativamente a leitura
desse texto em árabe nos pareceria.
Porém o processo de letramento envolve a associação entre a
linguagem verbal e não-verbal atribuindo sentidos à escrita, como no
exemplo abaixo.
Você é capaz de decodificar essa escrita pela informação visual? O
que antes parecia sem sentido ficou bem mais claro agora, não é?
A partir desse exemplo você pode ter uma noção melhor do que é o
letramento para surdos.
PARA SABER MAIS ACESSE:
http://www.smec.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espacovirtual/espaco-educar/educacaoespecial/artigos/letamento%20e%20surdez.pdf
SUGESTÃO DE FILMES:
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Filhos do Silêncio
Seu nome é Jonah
Fonte: Aula da professora Josiane Junia Facundo de Almeida, professora e Intérprete da Língua
de Sinais Brasileira .sinais de Almeida, professora e Intérprete de Língua
de Sinais Brasileira. ais Brasileira
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Surdez e Linguagem Primeiramente vamos falar sobre o conceito