Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 83 DA NECESSIDADE DE EDIÇÕES CRÍTICAS DE AUTORES BAIANOS Rita de Cássia R. de Queiroz RESUMO: O levantamento, a seleção e a edição crítica de textos de autores baianos representam um ato de preservação do patrimônio literário, escritural, lingüístico e cultural da Bahia e, por conseguinte, do Brasil. Essas etapas constituem uma obrigação de filólogos, teóricos da literatura e lingüistas, face às gerações vindouras, no sentido de perpetuar a memória baiana, preparando edições críticas com o intuito de apresentar a genuinidade das obras. PALAVRAS-CHAVE: Literatura baiana; Crítica Textual; Patrimônio literário. Introdução A Crítica Textual tem suas origens mais remotas na Grécia do pe ríodo alexandrino (322-146 a.C.). O trabalho dos primeiros críticos textuais, Zenódoto de Éfeso ([335-234 a.C]), Aristófanes de Bizâncio ([258180 a.C.]) e Aristarco de Samotrácia ([216-144 a.C.]), estava voltado para a restauração, intelecção e explicação dos textos. De acordo com Cambraia: Uma das contribuições desses alexandrinos, que se dedicaram em especial à obra de Homero [...] está na constituição de um sistema de crítica (gr. ätüñèùóéò, i. é, ‘correção’) baseado na utilização de sinais com a finalidade de explicitar seu julgamento quanto à genuinidade do texto.1 A atuação dos alexandrinos foi decisiva, pois eles, além de fixarem os textos, comentavam e discutiam problemas relativos à interpretação. 1 Cf. CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 38. 84 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos O sistema alexandrino de sinais foi de extrema relevância porque assegurou a transmissão de todo o material que existia, mesmo o que não era genuíno; este, entretanto, era assinalado, pois não suprimiram e nem tampouco modificaram. Foi ao redor das bibliotecas de Alexandria e Pérgamo que se constituíram as primeiras escolas filológicas helenísticas. Na renascença, humanistas e filólogos redescobriram a Antigüidade, graças ao acesso renovado ao testemunho escrito dos grandes textos.2 Em Roma, os estudos de Crítica Textual que mais se destacaram foram os trabalhos de Varrão ([116-27 a.C]) e de Probo ([20-105 d.C.]). Varrão se ocupou do estabelecimento das peças de Plauto, com o emprego dos sinais críticos alexandrinos. Nos primeiros tempos da era cristã merece destaque a edição do texto bíblico elaborada por São Jerônimo ([347-420 d.C.]), cujo labor esteve centrado na transcrição dos manuscritos. Durante a Idade Média, a edição de textos se fez com critérios pouco rigorosos, pois os críti-cos desse período não dispunham de meios que permitissem chamar seus trabalhos de verda-deiras edições críticas. A Renascença, nos séculos XV e XVI, legou ao mundo o início do progresso da Crítica Textual. Tem-se, nesse momento, o interesse crescente pela Antigüidade greco-latina, principalmente pelos textos dos seus grandes autores. Contudo, estes textos eram adaptações secundárias. Era preciso recuperar a autenticidade deles; daí nasceu a busca constante pelos manuscritos, que as guerras, as catástrofes, a negligência e o olvido fize-ram desaparecer. Sobreviveu pouca coisa: apenas fragmentos de algumas obras célebres e pou-cos livros, cujas cópias eram também fragmentárias. A tarefa dos editores desse período é muito mais árdua: era necessário, antes de mais nada, encontrar os manuscritos que ainda existissem para depois compará-los e tentar apresentar os textos que representassem a redação autêntica do autor. 2 Cf. LEBRAVE, Jean-Louis. Crítica genética: uma nova disciplina ou um avatar moderno da filologia? In: ZULAR, Roberto (Org.). Criação em processo: ensaios de crítica genética. São Paulo: Iluminuras, 2002. p. 104. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 85 A Crítica Textual moderna só é iniciada no século XIX com a publicação das edições críticas feitas por Karl Lachmann ([1793-1851]) do Novo Testamento em grego (1842-1850) e do poema De natura rerum, de Lucrécio (1850). Lachmann dá à Crítica Textual caráter cien-tífico, adotando um método, que leva o seu nome, baseado numa síntese dos processos utiliza-dos pelos editores alexandrinos. A cópia manual foi o meio, até o século XV, com o qual os homens retiveram na memória coletiva e transmitiram para a posteridade todo o seu patrimônio cultural: sua religião, sua história, sua política, sua literatura. Até a invenção da imprensa, um texto muito divulgado e muito lido foi, necessariamente, um texto copiado muitas vezes. Foi assim, desta maneira, que os textos literários clássicos e medievais chegaram ao presente. Durante muito tempo, três inquietações dominaram a relação com a cultura escrita. A primeira é o temor da perda. Ela levou à busca dos textos ameaçados, à cópia dos livros mais preciosos, à impressão dos manuscritos, à edificação das grandes bibliotecas. Contra os desaparecimentos sempre possíveis, trata-se de recolher, fixar e preservar. A tarefa, jamais finda, é ameaçada por um outro perigo: a corrupção dos textos. No tempo da cópia manuscrita, a mão do escriba pode falhar e acumular os erros. Na era do impresso, a ignorância dos tipógrafos ou dos revisores, como os maus modos dos editores, trazem riscos ainda maiores.3 O trabalho da Crítica Textual consiste, destarte, em oferecer textos genuínos. A partir do texto editado pelo crítico textual, este pode ser estudado na sua mais profunda essência, pois lhe foram preservados os seus elementos retóricos, estilísticos e estéticos. A crítica textual e a literatura A história do texto se dá antes mesmo de seu nascimento. Para Chartier “[...] a produção, não apenas de livros, mas dos próprios textos 3 Cf. CHARTIER, Roger. Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura (séculos XI-XVIII). Tradução Luzmara Curcino Ferreira. São Paulo: Editora da UNESP, 2007. p. 99. 86 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos (grifo do autor), é um processo que implica, além do gesto da escrita, diversos momentos, técnicas e intervenções, como as dos copistas, dos livreiros editores, dos mestres impressores, dos compositores e dos revisores.” 4 Antes de enviar os originais para a editora, quantos testemunhos não foram escritos pelo autor e depositados no cesto de papel? E depois deste ato, quais e quantas foram as intervenções? É imprescindível, todavia, concentrar-se sobre o resultado final. Assim, deve o crítico textual debruçar-se sobre as várias redações ou, simplesmente, sobre as variantes autorais, a fim de verificar como o texto se constituiu, pois toda obra conserva a sua identidade, que se perpetuará assim que for reconhecida por seus leitores ou ouvintes. [...] o estudo da literatura propriamente dita pressupõe a expressão registrada por meio da escrita. Por isso, ela parte dum ORIGINAL, ou seja, um escrito emanado direta ou indiretamente de um AUTOR e destinado em princípio à divulgação, podendo ser manuscrito, datloscrito ou impresso. (Grifos do autor).5 A partir do original, chamado de autógrafo, eram feitas as cópias. A primeira destas é chamada de apógrafo. A cada cópia havia o risco das alterações, que podiam ser graves ou não. No entanto, é quase impossível transcrever um texto sem cometer erros ou sem conseguir adulterá-lo. Assim, uma cópia representa a versão modificada do original. A principal expressão para a literatura é o texto escrito. Neste sentido, a Crítica Textual contribui com o trabalho do crítico literário assegurando que este tenha em mãos um testemunho que seja efetivamente aquele que o autor produziu, ou seja, o texto genuíno. Nesta direção, afere Cambraia: Com certeza a contribuição mais evidente e importante da crítica textual é a recuperação do patrimônio cultural escrito de uma dada cultura. Assim como se restauram pinturas, esculturas, igrejas e diversos outros bens culturais da humanidade, a fim de que mantenham a forma dada por seu autor intelectual, 4 5 Idem. p. 12. Cf. CANDIDO, Antonio. Noções de análise histórico-literária. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005. p. 19. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 87 igualmente restauram-se os livros em termos tanto físicos (recuperação da folha, da encadernação, da capa, etc.) quanto de seu conteúdo (recuperação dos textos). (grifos do autor)6 Após o trabalho do editor crítico, o texto restituído é novamente publicado, voltando a circular e a ser lido. Desta forma, a Crítica Textual, além de contribuir para a recuperação e preservação do patrimônio escrito, também contribui para a sua transmissão. O Desenvolvimento da Crítica Textual no Brasil O desenvolvimento da Crítica Textual no Brasil começou, efetivamente, nos meados do século XX, não tendo, portanto, longa tradição. Porém, a partir da década de 70 do século passado, têm-se intensificado os trabalhos apresentados e discutidos em congressos, seminários, cursos e livros, nos quais há um maior respeito pelo texto, conferindo importância às edições críticas. Estas, por sua vez, garantem aos estudiosos de língua e literatura fidedignidade aos seus trabalhos. Mesmo com pouca ou quase nenhuma tradição, as primeiras tentativas em Crítica Textual datam do século XIX, cujos pesquisadores tinham por objetivo, primordialmente, organizar o patrimônio das letras, para que este fosse representativo da cultura nacional. Os primeiros editores, Varnhagen, Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, dentre outros, não aplicaram os métodos da Crítica Textual porém, suas edições representam um trabalho de compilação das obras dos grandes autores do período e que se constituíram em material valioso para os futuros editores. Por volta de 1940, inicia-se a publicação das “Obras-Primas da Literatura Nacional”, sob a direção de Afrânio Peixoto, em que se vislumbra a condição de edição crítica, não com o conceito atual. Neste momento, publicam-se as seguintes edições: Castro Alves (Introdução e notas de Afrânio Peixoto), Casimiro de Abreu (Organização, apuração e notas de Sousa da Silveira), Álvares de Azevedo (Organização e notas de Homero Pires), Tomás Antônio Gonzaga 6 Op. cit. p. 19. 88 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos (Edição crítica de Rodrigues Lapa), Obras Poéticas de Gonçalves Dias (Organização, apuração do texto, cronologia e notas de Manuel Bandeira). Nessas edições, os editores partiam da seleção do melhor texto, acrescentando a este notas de rodapé, breve observação metodológica, seguidas, algumas vezes, da cronologia do autor em tela ou de uma bibliografia. Nos anos 50 do século passado, surgem trabalhos de relevada importância, cujo objetivo era estabelecer textos críticos de autores medievais. Neste momento, o nome do Pe. Augusto Magne é destaque. As suas edições de: A Demanda do Santo Graal, Livro da Vita Christi (de Ludolfo Cartusiano), Boosco deleitoso solitário e Castelo perigoso são dignas de reverência. Outro nome que se sobressai nesta época é o do professor Sousa da Silveira. É de sua responsabilidade a edição de cinco obras-primas do século XVI, a saber: Sôbolos rios que vão, de Luís de Camões; a écloga Crisfal, de Cristóvão Falcão; a tragédia Castro, de Antônio Ferreira; o Auto da Alma e o Auto da Mofina Mendes, de Gil Vicente; como também obras do século XIX, Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães e Máximas, pensamentos e reflexões do Marquês de Maricá. A dedicação do professor Sousa da Silveira à Crítica Textual fez escola. São seus discípulos Antônio Houaiss, Celso Cunha, Albino de Bem Veiga, Nelson Rossi, Darcy Damasceno, Emanuel Pereira Filho, Maximiano de Carvalho e Silva, Adriano da Gama Kury, Gladstone Chaves de Melo, Serafim da Silva Neto, Cleonice Berardinelli e Carlos Henrique da Rocha Lima. Em 19 de setembro de 1958, o então presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, reconhecendo a baixa qualidade editorial brasileira, constituiu, no Ministério da Educação e Cultura, a Comissão Machado de Assis, cujo objetivo foi consolidar o texto do grande escritor. Compunham a referida Comissão, presidida por Austregésilo de Ataíde, Antônio José Chediak, Antônio Houaiss, Celso Ferreira da Cunha, José Galante de Sousa e M. Cavalcanti Proença. Contudo, faltavam aos estudiosos em Crítica Textual obras teóricas nacionais, pois nem todos tinham acesso à bibliografia estrangeira. Na segunda metade dos anos de 1960, Antônio Houaiss, pioneiro na elabora- Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 89 ção dos princípios norteadores de uma edição crítica, publicou os “Elementos de Bibliologia”.7 Os anos de 1960 foram marcados pelo desenvolvimento da Crítica Textual no Brasil, pois além da obra teórica supracitada, têm-se as primeiras edições críticas exemplares, a saber: Iracema, de José de Alencar, de responsabilidade de Cavalcanti Proença; Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, de Machado de Assis, a cargo da Comissão Machado de Assis; o Livro das aves, sob a responsabilidade de Nelson Rossi e sua equipe; Teatro, de Martins Pena, O guarani, de José de Alencar, a cargo de Darcy Damasceno; e O Tratado da Província do Brasil, de Gândavo, por conta de Emanuel Pereira Filho. Os anos de 1970 e 1980 são marcados pela publicação das seguintes edições: Lírica de Camões, a cargo de Leodegário A. de Azevedo Filho; Últimos sonetos, de Cruz e Souza, por conta de Adriano da Gama Kury; A vida de dom frei Bertolomeu dos Mártires, de Luís de Sousa, sob a responsabilidade de Gladstone Chaves de Melo e Aníbal Pinto de Castro; As Poesias de Anchieta em português, por conta de Leodegário A. de Azevedo Filho e Sílvio Elia. No final do século XX, os estudos de Crítica Textual no Brasil ganharam um grande impulso, intensificando-se nos grandes centros universitários brasileiros a conclusão de muitas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Nestes centros, foram produzidas algumas edições das obras de autores como Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Arthur de Salles, Manuel Antônio de Almeida, Euclides da Cunha, Cassiano Ricardo, Clarice Lispector, dentre outros. Conforme afirma Telles (1998, p. 58): “[...] os centros universitários tomam a dianteira dos trabalhos nessa vertente, embora o recenseamento da produção ainda esteja por fazer.” Em se tratando de texto teórico, no século XXI foi publicada no Brasil uma obra relevante: Introdução à Crítica Textual, de César Nardelli Cambraia.8 O desenvolvimento da Crítica Textual na Bahia 7 8 Cf. HOUAISS, Antônio. Elementos de Bibliologia. Rio de Janeiro: MEC/INL, 1967. Cf. CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 90 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos O desenvolvimento da Crítica Textual na Bahia data dos anos de 1960. Porém, a real produção de edições críticas no estado começa a partir dos anos de 1970, com a criação do Grupo de Edição Crítica de Textos da UFBA, sob a direção do professor Nilton Vasco da Gama. Desde 1977 que este grupo vem se dedicando à edição crítica da obra do poeta baiano Arthur de Salles. No entanto, outros trabalhos nessa linha são desenvolvidos pelo grupo, a saber: edições de textos medievais, de textos portugueses quinhentistas da literatura de viagens e edições semidiplomáticas de textos notariais dos séculos XVIII e XIX. O Grupo de Edição Crítica de Textos da UFBA vem trabalhando efetivamente com a obra do poeta baiano Arthur de Salles, o que gerou inúmeras dissertações de mestrado (dezenove) e teses de doutorado (cinco), segundo informações de Telles e Carvalho (2005, p. 88); além da publicação da edição crítica do poema regional Sangue Mau (SALLES, 1981) e dos poemas dedicados ao Dois de Julho (GAMA, 1993). Além da obra de Arthur de Salles, na UFBA também foi defendida uma dissertação sobre a edição de alguns poemas do poeta Godofredo Filho (BRASIL, 2006). Contudo, faz-se necessário que sejam editados mais autores, cujas obras têm relevante representatividade literária, tanto regional quanto nacionalmente: Afrânio Peixoto, Sosígenes Costa, Xavier Marques, Carlos Chiacchio, Pedro Kilkerry, Francisco Mangabeira, Pethion de Vilar, Jorge Amado, Manuel Carigé, Sérgio Cardoso, Cirilo Elói, Ana Ribeiro de Góis Bittencourt, Amélia Rodrigues, dentre outros, apenas para citar alguns. A Literatura Baiana e a Necessidade de Edições Críticas de Autores Baianos Do Grupo de Edição Crítica de Textos da UFBA saíram profissionais que atuam em outras universidades do estado da Bahia (Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS; Universidade do Estado da Bahia – UNEB), onde são desenvolvidos trabalhos de edição crítica de autores baianos. Na UNEB, em seu Programa de Pós-graduação em Linguagens, está sendo desenvolvida a dissertação de Bárbara Martingil da Silva sobre poemas de Ildásio Tavares. Na UEFS, no Programa de Pós-gradução em Literatura e Diversidade Cultural, recentemente foi defendida uma dissertação Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 91 sobre a edição crítica dos sonetos de Eulálio Mota (BARREIROS, 2007). No entanto, ainda há muito a ser feito na seara da Crítica Textual em relação aos autores baianos. A literatura baiana tem suas primeiras manifestações a partir da instalação do Colégio Jesuíta, ocorrida em 1556. Foi neste colégio que estudou Bento Teixeira, português de nascimento que, entretanto, escreveu em terras brasileiras seu poema intitulado Prosopopéia (1601). Seguem-se a Bento Teixeira: Manuel da Nóbrega, José de Anchieta, Gabriel Soares de Sousa, Antônio Vieira, Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira, dentre outros. No período setecentista, em solo baiano, foram fundadas algumas agremiações, tais como Academia Brasílica dos Esquecidos e Academia Brasílica dos Renascidos. Segundo Pedro Calmon (1949, p. 67): “No período de 1724 a 1758, entre as duas Academias da Bahia, há oradores sacros, poetas religiosos, eruditos frades dignos de memória, que, todavia, jazem no mesmo olvido dos ‘esquecidos’.” Destaca-se nesse período Frei José de Santa Rita Durão. Nos anos oitocentistas, com a fase de transição da colônia para o Império, são presenças marcantes na poesia baiana Domingos Borges de Barros (Visconde de Pedra Branca), Guilherme Embiruçu Camacuã, José Estanislau Vieira, João Gualberto de Passos, Francisco Moniz Barreto, Manuel Pessoa da Silva, Junqueira Freire, Laurindo Rabelo, Agrário Meneses, Luiz Gama e Castro Alves (não se pode deixar de mencionar os poetas da geração de Castro Alves: Antônio Augusto Carvalhal, Plínio de Lima e João Batista de Castro Rebêlo). É nesse período também que se dá vasão ao texto dramático. Destacam-se nesse estilo: Castro Alves, Agrário de Meneses, Júlio César Leal, Antônio Joaquim Rodrigues da Costa, Filgueiras Sobrinho, Constantino do Amaral Tavares, Belarmino Barreto, João José de Brito e Cirilo Elói. No final do século XIX, em plena efervescência do simbolismo, dois poetas singulares merecem reverência: Francisco Mangabeira e Pethion de Vilar. No século XX, a nova geração de escritores baianos passa a integrar novas associações, as quais lançam também suas revistas literárias. Dentre estas, no início do século, destaca-se A Nova Cruzada. Após A Nova Cruzada surgem outras revistas que marcam o cenário literário baiano: Nova Revista, Arco & 92 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos Flexa, Samba, Meridiano, O Momento, etc. Fazem parte desta geração de escritores: Arthur de Salles, Pedro Kilkerry, Durval de Moraes, Roberto Correia, Álvaro Reis, J. da Silva Campos, Carlos Chiacchio, Xavier Marques, Afrânio Peixoto, Manuel Carigé, Sérgio Cardoso, Cirilo Elói, Ana Ribeiro de Góis Bittencourt, Amélia Rodrigues, João Gumes. Seguem-se a estes: Bráulio de Abreu, Alves Ribeiro, Pinheiro Viegas, Nonato Marques, Clodoaldo Milton, Costa Andrade, Elpídio Bastos, Otto Bittencourt Sobrinho. A cena literária baiana sempre contou, além da qualidade das obras de seus autores, também com a irreverência de alguns destes. Nesta direção, em 1927 surge na Bahia a Academia dos Rebeldes, reunindo nomes como Jorge Amado, Sosígenes Costa, Pinheiro Viegas – o mais irreverente que, segundo Ivia Alves (1999, p. XVI), foi “[...] figura importantíssima na Bahia dos anos 20, mas cujo valor ainda não foi ressaltado.”, Edison Souza Carneiro, Alves Ribeiro, Costa Andrade, Oswaldo Dias Costa, José Bastos, João de Castro Cordeiro, Walter da Silveira, Guilherme Freitas Dias Gomes. Na sequência do século XX e de seus acontecimentos, outros escritores despontam nas letras baianas: Carvalho Filho, Godofredo Filho, Eurico Alves Boaventura, Ariovaldo Matos, Vasconcelos Maia, Nestor Duarte, Herberto Sales, Florisvaldo Mattos, José Carlos Capinan, Guido Guerra, Carlos Anísio Melhor, Antônio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho, etc. Na seleção de autores baianos apresentada até aqui, pode-se constatar que apenas dois nomes ilustram a galeria da representação feminina, no entanto, a produção de escritoras baianas foi considerável, devendo também serem lembrados os nomes de Ildefonsa Laura César, Edith Gama Abreu, Jacinta Passos, Eufrosina Miranda, Anna Autran, Adélia Fonseca, Adelaide de Castro Alves Guimarães, Áurea Miranda, Emília Leitão Guerra, Júlia Lopes de Almeida, Myriam Fraga, Helena Parente Cunha, Sônia Coutinho, Valdelice Pinheiro, Elvira Foeppel, dentre tantas outras. Estas mulheres, no dizer de Márcia Leite: “[...] ampliaram a capacidade de compreensão da realidadse à sua volta e se firmaram enquanto pessoas dedicadas à arte da escrita com idéias e conteúdos próprios [...]”.9 9 Cf. LEITE, Márcia Maria Barreiros da Silva. Entre a tinta e o papel: memórias de leituras e escritas femininas na Bahia (1870-1920). Salvador: Quarteto, 2005. p. 159. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 93 Pede-se aqui desculpas para o esquecimento ou não lembrança de alguns escritores ou escritoras, requerendo-se que se leve em conta a brevidade deste texto. Dentre os não lembrados, ficam aqueles que não alcançaram a devida popularidade mas que, entretanto, têm suas produções esquecidas nos porões e armários familiares, nas bibliotecas públicas, nas páginas dos jornais e das revistas literárias e que merecem o devido resgate e inclusão no cânone literário baiano e brasileiro. Além destes, estão os contemporâneos, cujas obras serão objeto de estudos futuros. Conclusão O levantamento, a seleção e a edição crítica de textos de autores baianos representam um ato de preservação do patrimônio literário, escritural e lingüístico da Bahia e do Brasil. As etapas que constituem o trabalho da Crítica Textual são obrigações dos pesquisadores, face às gerações vindouras, no sentido de perpetuar a memória literária baiana. A importância desse tipo de trabalho está centrada na recuperação do texto como documento de uma ideologia, enquanto produto social e cultural. A Crítica Textual está a serviço da Literatura, proporcionando cada vez mais edições confiáveis ou fidedignas. Neste sentido afirma Telles: “Vale ressaltar que o mais importante é que se usem textos fidedignos, não nos esquecendo de que enquanto não dispomos de um texto fidedigno, todas as operações hermenêuticas e críticas podem tornar-se arbitrárias, intempestivas e inseguras [...]”.10 É de responsabilidade dos editores críticos a recuperação, transmissão e preservação do patrimônio cultural escrito de uma determinada cultura. De acordo com Cambraia: Considerando [...] a literatura escrita, a contribuição da crítica textual está em assegurar que o crítico literário possa exercer sua função com base em um testemunho que efetivamente reproduz a forma do texto que o autor lhe deu, ou seja, sua forma genuína.11 Cf. TELLES, Célia Marques. Que textos são oferecidos aos estudantes? Revista do GELNE – Grupo de Estudos Lingüísticos do Nordeste, João Pessoa, v. 5, n. 1 e 2, p. 21-28, 2003. p. 22. 11 Cf. Op. cit. p. 21. 10 94 Queiroz, Rita de Cássia R. de. Da necessidade de edições críticas de autores baianos Destarte, a importância de se editar textos vem de longas datas, desde a Antiguidade Clássica pois, como afere Auerbach: A necessidade de constituir textos autênticos se faz sentir quando um povo de alta civilização toma consciência dessa civilização e deseja preservar dos estragos do tempo as obras que lhe constituem o pa-trimônio espiri-tual; salvá-las não somente do olvido como também das alterações, mutilações e adições que o uso popular ou o desleixo dos copistas nelas introduzem necessariamente.12 Nesta direção devem seguir os pesquisadores brasileiros, em especial aqueles que se dedicam à literatura baiana, pois: Um simples olhar para trás, no tempo, é suficiente para descortinar, no panorama da literatura e da ensaística baianas, um rico acervo de obras e autores subestimados e esquecidos. Até mesmo ficcionistas, poetas e ensaístas de grande prestígio, em sua época, são lembrados por um ou dois títulos, que não são reeditados ou, quando muito, ganham edições tímidas, acessíveis a um pequeno número de aficcionados.13 O trabalho é árduo, pois deve-se ir em busca da produção dos autores baianos nos diversos centros de memória, tanto locais: Academia de Letras da Bahia, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Biblioteca Pública do Estado da Bahia, Fundação Clemente Mariani, bibliotecas e acervos de universidades, acervos particulares, casas de cultura de autores, tais como a Casa de Cultura Afrânio Peixoto e a Fundação Casa de Jorge Amado; quanto nacionais: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/USP, biblioteca particular de José Mindlin, Casa de Rui Barbosa, Academia Brasileira de Letras etc. Neste sentido, deve-se lutar contra o que afirma Santana: Cf. AUERBACH, Erich. Introdução aos estudos literários. Tradução José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1972. p. 11. 13 Cf. RIBEIRO, Carlos. Bahia madrasta. Jornal A Tarde, Salvador, 20 maio 2006. A Tarde Cultural, p. 6-9. p. 6. 12 Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Patrimônio cultural e latinidade, no 35, p. 83-95, 2008 95 [...] neste Brasil ainda tão desmemoriado, e, por isso mesmo, com sua identidade comprometida, projetos culturais esbarram em dificuldades de todo gênero, principalmente no habitual desapreço com que são vistos, e acabam quase sempre no fundo das gavetas ou na cesta do lado.14 Deste modo, devem os pesquisadores refletir sobre o que argumenta Teixeira: “Recolher, colecionar, comparar, restaurar, restituir a autenticidade são ações que fazem parte do labor filológico para que a sociedade de modo geral possa ter acesso ao saber armazenado nos textos.”15 RÉSUMÉ: L’enquête, l’élection et l’édition critique de textes d’auteurs originaires de Bahia représentent un acte de conservation du patrimoine littéraire, contractuel, linguistique et culturel de la Bahia et, par conséquent, du Brésil. Ces étapes constituent une obligation de philologues, théoriciens de la littérature et linguistes, face aux générations futures, dans le but de perpétuer la mémoire originaire de Bahia, préparant des éditions critiques avec l’intention de présenter des oeuvres pures. MOTS-CLÉS: Littérature de Bahia; Critique Textual; Patrimoine littéraire. Recebido em 20/12/2007 Aprovado em 05/06/2008 Cf. SANTANA, Valdomiro. Literatura baiana: 1920-1980. Rio de Janeiro: Philobiblion / Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1986. p. 9. 15 Cf. TEIXEIRA, Maria da Conceição R. Os textos literários e a crítica textual: a importância do labor filológico. In: TEIXEIRA, Maria da Conceição R.; QUEIROZ, Rita e Cássia R. de; SANTOS, Rosa Borges dos (Org.) Diferentes perspectivas dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto, 2006. p. 95-115. p. 113-114. 14