Novos aldeamentos jesuítas na Índia nos finais do séc. XVI e
inícios XVII
Ensaios, confrontos e mutações
HÉLDER CARITA
In: Colloque Internacional – Terrains Coloniaux – Architecture et Urbanisme. Centre
Culturel Calouste Gulbenkian , Paris, 2004 (em publicação).
Introdução
A partir de meados do séc. XVI os jesuítas implementam em diversas aldeias de Salcete
um conjunto de processos de urbanização que irão ter fortes repercussões no urbanismo e
na imagem deste território. Além da formulação de novos núcleos urbanos, marcados pela
instituição de uma grande praça pontuada pela presença da igreja, os jesuítas estendem este
esforço à paisagem no sentido de uma nova reformulação da imagem do território. A partir
de pontos fundamentais desmultiplicam-se ermidas, capelas e cruzeiros claramente
relacionadas entre si e com a paisagem, imprimindo ao território de uma personalidade
peculiar de forte valor cenográfico e pictórico.
O fenómeno de urbanização de Salcete não foi, porém, um facto isolado. Tanto no Sul da
Índia como, mais a Norte, na região das Ilhas de Salcete, a vasta documentação jesuítica
dá-nos notícia da constituição de aldeias e de estratégias continuadas com vista a uma
estruturação urbana do território. O posterior afastamento, tanto dos jesuítas como das
autoridades políticas portuguesas, diluiu, em muitos casos, as estruturas e o traçado destes
ensaios urbanísticos, dificultando hoje o seu estudo in loco.
É o caso de toda a vasta região das Ilhas de Salcete que constitui hoje a grande Bombaim,
cuja estrutura urbana foi recentemente objecto de estudo 1 . Num processo de organização
do território, diferentes cartas de jesuítas referem a criação de aldeias e um reordenamento
de aglomerados urbanos, salientando-se a aldeia da Trindade, perto de Tâna, com uma
estrutura comunitária com afinidades às “reduções” jesuíticas da América do Sul. O facto é
1
GOMES, Paulo Varela e ROSSA, Walter. “O Primeiro Território – Bombaim e os Portugueses”. In:
Oceanos, n. 41, Jan./Março, Lisboa, p. 220.
referido em carta de 1565, onde se afirma:“não sendo (nesta aldeia) nenhum senhor
particular mas todos se aproveitão do que he necessario repartido polo arbitrio do yrmão
que disso tem cuydado” 2 . Na descrição da aldeia, a mesma carta permite a visualização de
uma imagem urbana, que encontramos noutras áreas onde a igreja polarizava um núcleo
urbano, descrevendo que “junto com a igreja e casa esta huma povoação de christãos da
terra”.
Talvez mais interessantes por terem chegado até nós elementos urbanos mais consistentes,
são as aldeias macúas da costa sul do Malabar. Embora muito alteradas, em diversos casos
é detectável a formação de estruturas urbanas programadas, com uma praça de desenho
regular pontuada pela a igreja e envolvida por habitação. Deste conjunto sobressai a
pequena aldeia de Chelanam, a Sul de Cochim, cuja praça apresenta ainda hoje um claro
sentido urbano e racional ao constituir-se por um conjunto coerente de igreja, casa
paroquial, escola, muro do cemitério e cruzeiro. Com claras semelhanças a outros ensaios
urbanísticos jesuítas, esta praça desenha-se num rectângulo regular de proporções
alongadas marcado num dos seus topos pela fachada da igreja em contraponto com o
cruzeiro.
A escassez de fontes documentais, associada à falta de monografias relativas a cidades e
aldeias de Salcete, não tem permitido, até hoje, estabelecer uma cronologia para estes
ensaios e processos urbanos. O estudo que desenvolvemos recentemente na aldeia de
Benaulim 3 permitiu-nos, através do cruzamento de documentação com a análise formal do
local, colocar estes ensaios urbanísticos num período precoce que se situa entre os finais do
séc. XVI e inícios do séc. XVII. É durante este período que são construídas ou renovadas a
maioria das igrejas de Salcete e que a Companhia atinge o seu maior vigor interventivo
coincidindo, por outro lado, com o desanuviamento decorrente do tratado de paz assinado
com os sultões de Bijapur em 1580 4 .
2
Carta do Padre Belchior Dias aos irmãos de Portugal, datada de Baçaim 1 de Dezembro 1565. In: REGO,
António da Silva. Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente, vol. III,
Lisboa: F.O.-CNCDP, 1995, p. 504.
3
Este estudo integra-se num projecto de investigação mais alargado com o tema “Lógicas Coloniais –
Espaço e Sociedade” a decorrer entre os anos de 2002 e 2004, com o apoio da Fundação da Ciência e
Tecnologia.
4
SOUSA, Teotónio de. Goa Medieval – O Cidade e o Interior no séc. XVIII, Lisboa: Editorial estampa,
1993.
2
Cabe aqui referir que se este impulso urbanizador teve uma expressão profundamente
conseguida ao nível da criação de uma nova imagem do território, já no plano estritamente
urbano, as praças implementadas neste período, nunca adquiriram uma dinâmica suficiente
para se constituirem como núcleos de desenvolvimento capazes de impor uma nova
estrutura urbana alargada a toda a povoação. Esta circunstância remete-nos para um
universo inter cultural complexo, de assimilações mútuas, em que modelos e princípios
importados pelos jesuítas são submetidos a uma leitura local, adaptando-se às formas préexistentes de vivência e estruturação de espaço.
Diferentemente do que os jesuítas encontraram na América do Sul, a Índia apresentava-se
com tradições de carácter urbano e formas de organização do território consolidadas havia
longos séculos, cujo estudo e análise se afirma fundamental para a compreensão de todo o
processo.
Marcado já no séc. XVI por uma forte densidade populacional, o território nas zonas férteis
de lezíria tendia a formar uma densa grelha de aldeias constituindo-se em aglomerados de
habitação dispersa. Cada um destes aglomerados urbanos estruturava-se, por sua vez, em
bairros claramente diferenciados. Uma sociedade fortemente estratificada mantinha cada
grupo social afecto a um bairro com limites físicos marcados, evidenciando uma constante
preocupação de pureza de sangue e uma aversão, por parte das classes mais altas, a
qualquer contacto físico com os grupos tidos como mais impuros.
Esta dispersão era acentuada, ainda, por um modelo de casa popular envolvida por um
pequeno quintal murado, relacionando-se cada lado da casa com orientações solares,
seguindo normas que encontramos sistematizadas nos antigos tratados hindus de
arquitectura e construção 5 . O clima tropical propiciava a que muitas das actividades
domésticas fossem realizadas ao ar livre formando o interior e exterior um micro universo
doméstico interdependente.
5
Entre os textos de maior prestígio e que são referência fundamental, podemos citar os tratados traduzidos
por ACHARYA, Prasana Kumar. Indian Architecture According to Mãnasãra-Silpasastra, Oxford
University Press, (1. ed., 1927) – The Architecture of, Mãnasãra. Ed. crítica, tradução e notas, P. K. Acharya,
Oxford University Press, 1933.
DAGENS, Bruno. Mayamata Traité Sanskrit D’Architecture, Institut Français d’Indologie, Pondichery, 1º
vol., 1970, 2º vol., 1976. Les Enseignements Architecturaux de l’Ajitãgama e du Rauravãgama, Institut
Francais d’Indologie, Pondichery, 1977.
3
Ao nível dos materiais e estrutura, a casa popular era construída em barro e madeira com
cobertura vegetal 6 , reduzindo-se ao estritamente necessário, já que culturalmente a
habitação não se revestia dos valores de representação social e confronto de classes que
adquire no Ocidente sobretudo a partir do período moderno.
Nesta aproximação muito geral à casa tradicional distinguimos variações entre casa rural e
urbana, casa popular e habitação das classes privilegiadas, que se torna necessário abordar,
para um melhor entendimento do impacte urbano dos jesuítas na zona de Salcete.
Para os primeiros viajantes portugueses que percorreram as costas do mar Arábico e do
Malabar como mais tarde o interior do Decão, a precariedade da habitação corrente causou
uma forte admiração. Entre outros viajantes a personalidade e longa permanência na Índia
de Duarte Barbosa, como feitor em Cananor, faz deste autor um observador exímio,
fornecendo-nos elementos preciosos sobre estas tradições.
No cruzamento de documentação, podemos detectar, durante a primeira metade do séc.
XVI, quanto às características da habitação urbana, variações entre a zona do Decão e o a
costa do Malabar. À medida que vamos descendo, e chegamos à zona do Decão, as
referências a casas cobertas de palha em agregados urbanos torna-se mais sistemática. É
assim que Duarte Barbosa refere sobre a cidade de Chaul “...este lugar de Chaul é do
regno de Decão não é muito grande, nem de fermosas casas porque são cobertas de
palha” 7 .
Ainda no Decão, mas referindo-se à cidade de Bijapur, Duarte Barbosa faz uma
interessante distinção entre habitação erudita das classes mais privilegiadas e a casa
popular, assinalando “assi per todaa cidade há i muitos outros paços em que vivem
grandes senhores e governadores da dita cidade e todas as outras casa do povo são
coberta de palha” 8 . Porém esta distinção extingue-se, no Malabar e Sul da Índia onde a
construção sólida, com cobertura em telha, se constitui como um privilégio real. O facto,
assinalado por vários autores do séc. XVI, é relatado pelo Vigário Geral que visitara as
cidades e praças portuguesas na Costa do Malabar escrevendo numa carta de 1545: “os
6
Vários autores fazem esta referência, como é o caso de Duarte Barbosa que seguimos pela sua grande
experiência na Índia cof. BARBOSA, Duarte. O livro de Duarte Barbosa, ed. crítica e anotada por Maria
Augusta da Veiga e Sousa, Lisboa: CNCDP, 2000, vol. II.
7
BARBOSA, Duarte. Ob., cit., vol. II, p. 2.
8
Idem, ibidem. Vol. II, p. 56.
4
mouros e jemtios tem de costume serem todalas suas povoações em que vivem de palha
somente pagode ou mizquita am de ser de pedra e cal, telhada 9 . Sobre o mesmo tema,
Duarte Barbosa acrescenta de uma forma mais detalhada “...e há i ( no Malabar ) outros
muito senhores por esta tera que se querem chamar reis e não o são porque não podem
fazer moeda nem cobrir as casas de telha nem em todo o malabar ninguem as pode cobrir
por grande senhor que seja” 10 .
Este quadro permite-nos entender melhor o texto do Padre Gonçalo Rodrigues, que, em
1561, acompanhando a embaixada ao sultão de Bijapor, escrevia sobre as cidades que
percorrera até à capital: “passamos por sinco ou seis lugares de Bilguão a Visapor, todos
amurados de muros muy fracos, de reboco muyto pequeno e de mate e as partes de taipa
muyto fraca e mal feita. Tem parecer e mostra lugares grandes, mas ho de dentro he cousa
triste humas cuchicholas que melhores as tem os bois na nossa patria e em partes os
porcos” 11
Esta passagem pela arquitectura popular no Decão e Malabar permite-nos visualizar com
algum rigor a arquitectura popular e as morfologias urbanas nas aldeias de Goa, onde os
jesuítas irão intervir a partir de meados do séc. XVI, caracterizadas por uma habitação
dispersa de barro e com cobertura vegetal.
Neste quadro cultural propício à formação de agregados populacionais de ordenamento
disperso segmentado, o templo tendia a constituir-se como um conjunto arquitectónico
autónomo, no agregado urbano envolvido por muros e edifícios de apoio à vida religiosa.
No caso de povoações de maior dimensão, a zona de comércio, designada por bazar,
assumia uma natural densidade urbana mantendo-se também como zona autónoma no
conjunto urbano. Decorrendo deste facto verificamos que fontes portuguesas fazem
coincidir bazar com agregado urbano ou, como Frei Paulo da Trindade refere como duas
entidades separadas, escrevendo “mandou por fogo á povoação e bazar” 12 , o que salienta a
clara autonomia em termos espaciais da zona comercial, o bazar, e das zonas de habitação.
9
REGO, António da Silva. Ob. cit., 1992, vol. III, p. 225.
10
BARBOSA, Duarte. Ob. cit., vol. II, p. 107.
11
Carta do Padre Mestre Gonçalo Rodrigues ao Provincial da Índia escrita de Bijapor a 7 de Abril de 1561.
In: REGO, António da Silva. Ob. cit., vol. VIII, 1991, p. 358.
12
TRINDADE, Frei Paulo da. Conquista Espiritual do Oriente. Intr. e notas de F. Felix Lopes, Lisboa, II
Parte, p. 274.
5
Ao entendimento europeu de urbanidade como um espaço continuo e uniforme, que se
desenvolve sobretudo a partir da época moderna, a cultura indiana opunha uma visão onde
espaço se estruturava de uma forma descontínua, segmentada com fronteiras e limites
regulados por rigorosos códigos sociais.
A intervenção dos jesuítas nos aglomerados urbanos existentes em Goa confrontava-se
assim com tradições profundamente sedimentadas. A um nível mais pragmático os jesuítas
necessitavam da disponibilidade de vastos terrenos onde pudessem ser ensaiadas novas
formas de organização urbana e territorial. Em Salcete vão encontrar a sua grande
oportunidade, com a destruição dos templos iniciada em 1567 13 e respectiva entrega aos
padres da Companhia da gestão das propriedades a eles afectas. Facto referido pela
historiografia goesa muitos das novas igrejas vão ser construídas nos locais ou terrenos
onde se encontravam os antigos templos. É o caso das igrejas de Colva, Orlim e do Espirito
Santo de Margão, relativamente ao qual o Foral de Salcete refere explicitamente “o chão
em que estava o mesmo pagode em que ora esta a igreja do espirito santo” 14 .
Numa perspectiva urbana esta opção transparece uma primeira acomodação às lógicas de
representação do espaço da cultura indiana. Se a substituição do templo pela igreja
corresponde a uma continuidade de lugares sagrados e à afirmação de uma nova ordem
cujos valores simbólicos se vêem sobrepor aos pré-existentes, em termos espaciais a
implantação da igreja no local do antigo templo assume os contornos de uma assimilação a
visões de ocupação territorial uma relação espacial e urbana claramente diferenciada das
tradições europeias e portuguesas.
As igrejas construídas pelos jesuítas tendem, no seu conjunto, a localizar-se na periferia
dos aglomerados assumindo uma relação mais privilegiada com a paisagem, adoptando
uma clara tradição hindu e afastando-se, por outro lado, dos conceitos da urbanidade
europeia onde a igreja matriz tende a ocupar um lugar central e gerador do traçado urbano
assente em grandes eixos que a partir dela se vão desenvolvendo.
Para o estudo destes desenvolvimentos urbanos em Salcete revelou-se essencial o estudo
do Livro de Registo das Provisões, Patentes e Alvaras do Collégio de Santo Inácio de
13
A destruição e demolição de todos os templos é descrita por carta Gomes Vaz em carta de 12 de Dezembro
de 1567. Cof. REGO, António da Silva. Ob. cit., vol. X, 1991, p. 274-308.
14
Goa State Archives, Ms.nº3071, tr. In: Purabhilekh-Puratatva Vol. II, July-December, 1988, p. 35.
6
Rachol. Aqui encontramos registados uma série de contratos e acordos que testemunham
diferentes acções dos jesuítas com vista, não só à obtenção de terrenos para a construção de
novas igrejas, como ao estabelecimento de novas praças urbanas. Neste quadro, o contrato
celebrado com os ganvkares de Benaulim para a implantação da Igreja de São João
Baptista, é particularmente elucidativo. A circunstância do terreno ser uma doação dos
ganvkares determinou a referência explicita aos fins para que o mesmo se destinava. Além
da autorização para a construção de uma igreja os ganvkares dão o seu consentimento
oficial a que se possa proceder-se ao sub-aforamento do terreno, registando o contrato
“poderão fundar no dito chão a Igreja de S. João Bautista, e deixando o chão necessario
pª o fundamento della o restante q. ficar podera dar e aforar a pessoas q. bem parecer
passando em seus nomes patos e cartas de aforamento” 15 . É assim claro que os jesuítas,
em 1596, ao tempo deste contrato, tinham o claro propósito de urbanizar a área envolvente
à igreja.
O processo de urbanização da zona parece ter sido efectivado logo em paralelo com a
construção da igreja como salienta o padre Caetano da Cruz Fernandes num estudo sobre a
aldeia de Benaulim 16 . Ao analisar o mais antigo registo dos membros da Confraria da
Igreja, datado de 1624, Cruz Fernandes assinala já a presença de várias famílias de
moradores na nova urbanização, caso dos Dinis, Alberto, Cruz e Ferrão.
Esta operação de urbanização não teve a dinâmica suficiente para instituir um novo centro
unificador do espaço urbano, resultando apenas na constituição de mais um bairro na
estrutura dispersa dos outros bairros da actual Benaulim. O quase paradoxo do pequeno
bairro ter perpectuado a denominação portuguesa de «povoação» transparece bem as
expectativas dos jesuítas quanto a este novo núcleo urbano, que de nova povoação acabou
por ficar apenas com o nome. Denunciando o caracter de uma acção alargada a várias
aldeias, encontramos também em Curtorim o mesmo fenómeno, assumindo-se o conjunto
das casas do Largo da Igreja como um bairro com a igual e significativa denominação de
“povoação”.
Mas se a “povoação” de Benaulim passa hoje quase despercebida em termos urbanos, pelo
contrário, a área envolvente à igreja apresenta um conjunto de relações formais com o
15
Goa State Archives, Ms.n. 824, fl. 72v.
7
território envolvente de notável efeito paisagístico. Implantada numa pequena colina a
monumental fachada da igreja relaciona-se em alinhamentos sucessivos com um
imponente cruzeiro, seguido por um largo escadório. Ascendendo ao topo da colina
fronteira o escadório termina num novo terreiro onde, por sua vez, emerge uma capela que
sobranceira domina toda a região.
O estudo do Livro de Registos do Collégio de Rachol permite-nos, ainda, confirmar
documentalmente o início de um outro processo urbano na aldeia de Loutulim. Como em
Benaulim, a referência à intenção dos jesuítas iniciarem um processo urbano decorre do
terreno ser sido doado pelos ganvkares e pescadores da aldeia, registando, o
correspondente contrato, os fins para que era realizada a doação. O contrato toma a forma
de carta de aforamento em fatiota assinalando o texto que os ditos ganvkares e pescadores
“aforam hum chão aos padres de S. Paulo que esta na dita aldeia para nelle se fazer huma
igreja e cazas” 17 .
Neste esforço urbanístico, Margão e em particular a praça do Espirito Santo, destaca-se
como o primeiro e melhor sucedido processo de reordenamento urbano em Salcete. Mais
importante centro urbano desta região os jesuítas vão estabelecer aqui o seu principal
centro de operações. Era aqui que se localizavam a mais poderosas famílias e onde se
concentrava o maior numero templos: treze ou quatorze, segundo o Foral de Salcete
18
.
Logo em 1564 inicia-se a construção de uma primeira igreja. Três anos depois, já a ela
agregada funcionava uma “escola de ler e escrever a que vem alguns meninos filhos de
bramanes onrados” 19 , seguidondo-se-lhe, em 1574, um colégio, designado por “Colégio
de Salcete”. Destruído em 1579 pelas tropas de Adil Shah que invadem a região e
queimam o colégio, os jesuítas iniciam um novo colégio agora em Rachol cuja fortaleza
dava mais garantias de protecção. Mas poucos anos depois, em1597, o colégio volta para
Margão, permanecendo aqui até 1606, ano em que volta definitivamente para Rachol, lugar
não só mais seguro, mas com melhor acessibilidade a Goa pelo rio Zuary.
16
FERNANDES, Caetano Cruz (org.). Fourth Centenary Saint John The Baptist Church. Benaulim. 15961996: The faith lives on. Souvenir. Benaulim, 1996.
17
Goa State Archives, Ms. 824, fl. 50v.
18
“quatorze pagodes ou treze q estão na dita aldeia”. Nacional Archives of Goa Ms.nº3071, tr. In
Purabhilekh-Puratatva, Vol. II, July-December, 1988. p. 32.
19
WICKI, Joseph. Documenta Indica, Institutum Historicum Soc. Jesu, Roma, 1970, Vol. VIII, p. 70.
8
Coincidentemente com este período, pelos anos de 1576, a praça do Espirito Santo estava
plenamente consolidada, em termos de traçado, como nos certifica o contrato de doação do
terreno para o colégio datado deste ano. A análise das confrontações referidas no texto
permite-nos atestar que o largo estava estruturado espacialmente fazendo o colégio
confrontação com dois arruamentos paralelos respectivamente: o “caminho que vay de
longo do esprital...” e “da outra banda com caminho que vay de longo das casas dos
gancares”.
A presença dos ganvkares na praça remete-nos, mais uma vez, para uma outra
continuidade cultural que emerge pela permanência, junto dos locais sagrados, dos
ganvkares, que de antigos mahajans, isto é, doadores do templo se afirmam agora como
exclusivos benfeitores da igreja. Nesta linha de continuidade dos antigos direitos dos
ganvkares, em 1591 estava em pleno funcionamento a Irmandade do Espirito Santo20 cujos
estatutos garantiam os privilégios dos seus confrades ao estabelecer a obrigatoriedade de
serem “os mais honrados de todo o Salcete” 21 . Formando-se como lugar exclusivo de
habitação dos ganvkares, a praça do Espirito Santo acaba por ficar privada da participação
de outros grupos sociais na conformação da sua urbanidade, com particular incidência das
actividades comerciais que caracterizam os valores de centralidade da praça portuguesa.
Com implicações no desenho urbano destas praças, entre brâmanes e ganvkares
estabeleciam-se, ainda, hierarquias que dificultavam uma localização uniforme e em
alinhamento dos alçados das suas casas. As maiores casas da Praça do Espirito Santo,
como as dos Colaço e dos Alvares, situam-se nos seus limites formando como que
pequenos largos autónomos, evitando assim colocar-se em situação equitativa com as
outras famílias. Detectamos igualmente este facto nas praças de outras aldeias onde a
forma de apropriação do espaço urbano da praça da igreja, como lugar exclusivo de
ganvkares, será um factor de resistência à formação de uma dinâmica urbana de
desenvolvimento. Muitas destas praças nunca chegam a adquirir uma continuidade urbana
ao nível dos seus quatro alçados. Aldeias, como Chandor ou Lotulim, grandes famílias
evitam deslocar-se para junto da praça, recusando colocar-se em paralelo com outras
famílias de menor prestígio social.
20
ROCHA, Leopoldo da. “As Confrarias de Goa- Conspecto Histórico-Canónico”. In: Studia, n. 31, Junho
1972, p. 347.
9
Ao nível da arquitectura observamos, ainda, nestas praças uma variação relativamente às
tradições e normas portuguesas. Cada casa vai formar uma entrada em alpendre o que
obriga ao recuo das fachadas dos edifícios em relação à rua, imprimindo ao espaço um
certo ambiente semi-rural. Mais uma vez nos confrontamos com a permanência de um
sistema de tradições onde o sentido de privacidade da casa exigia espaços de transição
entre exterior e interior. A grande quantidade de famílias de gankares que viviam em
Margão permitiu, porém que a sua praça se definisse formalmente nos seus diferentes
alçados, afirmando-se as suas características e opções estéticas como exemplo
paradigmático dos ensaios urbanísticos implementados pelos jesuítas em Salcete.
No seu conjunto os traçados das praças implementadas neste período vão-se caracterizar
por um desenho em rectângulo, de proporção alongada, colocando-se a igreja numa
situação de preponderância e autonomia ao ocupar a totalidade de um dos lados menores
do largo. Aproveitando sempre que possível a inclinação do terreno a igreja assume o lugar
mais alto, numa polarização de forte efeito cenográfico.
Caso paradigmático de um apurado efeito visual, na praça da aldeia de Cortalim a igreja
recorta-se sobre uma praça que, descendo suavemente, abre o lado oposto à igreja sobre as
margens do lago Angoddi. Outra característica peculiar destas praças é a escala, tanto da
igreja como da praça em si, erguendo-se em grandes proporções, sobretudo se comparadas
com outras praças e igrejas do Brasil ou do continente europeu. Esta alteração da escala
consequente a um forte monumentalidade, específica da arquitectura e urbanismo indoportuguês, vemo-la referida na documentação quando o Vedor da Fazenda Real se
desculpa perante o Rei pela grandeza do mosteiro dos Dominicanos, escrevendo que “esta
terra nom consente igrejas pequenas” 22 ou ainda quando frei Vicente de Lagos numa carta
a D. João III se escusa “…pola obra ser hum pouco grande e nam se pode fazer pelos
muitos moços e mais a terra o requere 23 .
Aos valores de escala monumental e tendência cenográfica acrescenta-se a inclusão no
centro das praças, de grandes cruzeiros, com bases profusamente decoradas com pilastras,
colunelos e molduras.
21
Idem, ibidem , p. 357.
22
IAN/TT. Gaveta XV, maço 19, n. 17, publicado em Gavetas da Torre de Tombo, vol. V, Lisboa, 1965, p
89.
10
No seu conjunto e talvez porque a “terra não o requeria”, os impulsos urbanizadores
ensaiados pelos jesuítas nos aglomerados de Salcete não resultaram no surgimento de uma
dinâmica geradora de centralidades urbanas capazes de produzir eixos de desenvolvimento
tendentes à unificação do espaço da cidade. Por outro lado, quase em oposição, os
processos tendentes a estruturar a paisagem tiveram pela população uma outra aceitação
marcando de uma forma irreversível todo território. A sua aplicação e sucesso decorre de
uma clara sintonia com a tendência hindu para uma forte codificação do espaço. A grande
novidade emerge, porém, nas categorias de visualidade e efeito à distância com que estes
projectos são concebidos, resultando numa estruturação de todo o território. Decorrente de
uma capacidade de racionalização do espaço que os jesuítas mostram, numa época recuada
dos finais do séc. XVI, a sua grande mestria no domínio da aplicação da geometria e
matemática à perspectiva e a uma estruturação urbana e paisagística do território.
Anexo Documental
Doc. 1
TRESLLADO DE HUM NEMO E CARTA DE AFORAMTO. Q FIZERÃO OS GARES daldea de vanelim
de hum chão do oiteiro ao pe. Alberto laerçio Reitor de Margão plas. declarações abaixo
declaradas .....
Goa State Archives - Livro de Registo das Provisões, Patentes e Alvaras do Collégio de
Santo Inácio de Rachol ms 824, fls.
Margão, 26 de Outubro de 1596
Tresllado de hum assento q esta lançado no livro do ano 1596 – as fs 125 onde g.res ficão
assinados.
Aos vinte e seis dias de mez de septembro de mil e quinhentos noventa e seis annos naldea
de vanelim se assentarão no oiteiro chamado dongarim onde forão juntos em camara os
gancares do acordo daldea cujos nomes são seguintes - S - João antão rama naiq filho de
Pursso naique neto de Depa naique, e Alfonço Pacheco fonddo naique filho de Pursso
naique neto de Balpa naique, e Martim da silva filho de Mhala naique e Diogo loubo
23
REGO, António da Silva. Ob.cit., vol. IV, 1992, p. 200.
11
Caullo naique filho de pursso naique neto de Dacullo naique e Francisco da cruz filho de
Beta naique, e P da cruz filho de Pursso naique e porque P. Roiz filho de locu sinai esta
em goa sua voz fica ao conselho daldea sendo assi juntos estes gancares derão o nemo na
maneira seguinte em como o chão q he daldea e per dereito lhe pertencer do oiteiro
chamado dongarim que prte. do norte com o vallado do alto do palmar de Antonio Monis
chimbalcaru per nome Mhadda batallem cullagra todo o chão que esta ate o limite daldea
de suraulim e da banda do sul, e do nascente parte com o valado de Palmar de P Roiz per
nome mharadda todo o chão q esta atee o limite daldea de Canna, e da banda do ponente
prte. com os limites e valados dos palmares seguintes - s – com o de ferros. em
baddabattalem, e mudessalem, e Ambequeiranni e com palmar de Nossa Sra. que esta no
oiteiro, e com as vargeas por nome Anni e tallajo esta com as sobreditas proprieds. prte. o
dito chão com o nacente dellas q ate ahi chega, e ate o chão onde se faz a Igreia todo em
dereito do oiteiro e arredor delle q for daldea, e per dereito ser e pertencer pa. nossa
aldea, damos pa. sempre em fatiota ao pe. Reitor de Margão Alberto laerçio da compa. de
JESVS, e passi ser da feitura deste em diante ser o tal chão a conta delle , e elle fara do
dito chão o q lhe bem vier e parecer, e p sua vont. se quiser far a nelle a Igreja de S. João
bautista ou o que lhe melhor parecer, e nos não teremos dever com o dito chão, o quel
elle, e os pes. da compa. possuirão pa. sempre em fatiota em quanto durar o sol e llua, e
Nos e nossos decendentes, e progenia virão fazendo bom e de paz pa. sempre o qt. chão
possuirão com todas suas entradas e saidas com as agoas, paos, e pedras, e o mais de
sima ate baixo per suas justas confrontações, e demarcações e nos obrigamos de fazer pa.
sempre bom e de paz, o qt. chão possuirão com obrigação de pagar delle de foro limitado
chamado contubana em cada hum anno seis leais brancos do tombo pa. sempre
resalvando, o chão chamado galli que esta em sima do palmar de muddada talem
cullagravera. E outro chão mado falli que esta sobre o palmar de chimbalcaru, e o chão
sonarinchavelli, tirando estes chãos a demasia poderão possuir pa. sempre, e deixarão
caminho pa. levar o gado a paçer e por assi ser demos nemo daldea escrito por mim
escrevão corrente Phellipe Dinis que o escrevj etc. O qt. aforamento e nemo eu Dgos. Vaaz
treslladador destas teras. De salcete o treslladei na verdade. O qt. he escrito e assinado
pello dito escrivão segundo de sua letra e sinal parece a que me reporto oje xx6 douto de
noventa e seis annos. Domingos Vaaz .......
12
Doc. 2
Trelado de huma petição e terreno feito sobre o chão onde esta o collegio de Margão
Goa State Archives - Livro de Registo das Provisões, Patentes e Alvaras do Collégio de
Santo Inácio de Rachol. ms 824, fls.
Margão, 10 de Junho de 1591
Sror Diz Thomaz Estevão Reitor do collegio de Espirito santo da Comp.ª de Jesus que he
mecessarº o tresllado de huma doação que os gancares da ditta aldêa fizeraç de hum pedaço
de chão para a fundação do dito Collegio e assi de huma venda de outro pedaço anexo para
o mesmo efeito que fizerão P.º Glz. e Piliquu e maço Chanderins da dita aldêa de que tudo
se fez assento por nemo dos ditos gancares em virtude de huma Provisão que para isso
ouverão o que tudo consta do dito asentoque ora esta acostado a hum feito que neste juizo
se tratou entre partesA.: P.º Glz. contra Paulo da silva R. E p. que para justificação e
memoria da dita doação e compra lhe he necessario o tresllado autentico em forma que
faça fé Pede a V. M. Lhe mande passar para sua guarda e Receberá Justiça e Mercê.
Passe-se como pedem Tavora
Satisfazendo o mandado acima do Sr capitão Christovão de Távora provi eu João gomes
dandrade escrivão destas terras de salcete o cartório que em meu poder há em que achei
hum feito findo em que he autor P.º Glz. e Pelliquu e maço Irmãos mordomos de Margão
contra Paulo da Silva e bastião de Bragança e António de Noronha naique em que as folhas
oito do dito feito de folhas nove esta o termo e doação de que na petição atraz faz
mençãocujo tresllado he o seguinte.
Aos seis dias do mês de dezembro do ano de mil quinhentos e setenta e seis anos, damião
de Sousa falcão capitão da fortaleza de rachol e suas terras e Luis dorta tesoureiro dos
Pagodes com o escrivão somente pollo ... destas terras André Fernandez não pode vir
sendo por mim escrivão requerido forão a aldeia de Margão ao collegio della e sendo ahi
pello reverendo Padre António da Costa Reitor do dito Collegio da Com.ª de Jesus lhes foi
apresentado a provisão atras escrita do Sr. Governador per que lhes mandava que
comprassem ou avaliassem o dito chão que os Padres tem tomado e escolhido para
setuarem o dito Collegio que he o emque ora esta setuado como Sua ª manda que faça e
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sendo todos juntos mandarão vir perante si aos gancares da dita aldêa e sendo prezente lhes
fizerão perguntas cujo era o dito chão em que assim estava situado o dito collegio e p’elles
foi dito que o chão em que o dito collegio esta situado esta situado parte de huma banda
com ferreiros e da outra banda parte com o caminho que vay ao longo de esprital e da outra
banda que e diante parte com o chão dos alparqueiros e da outra banda parte com caminho
que vay de longo das casas dos gancares do qual a metade delle he delles gancares e a
outra a ametade he de Pero Gonçalves e Piliquu e macho chanderins e que a metade delles
gancares elles gancares a dão livremente para o dito Collegio sem obrigação nem condição
nenhuma doze para sempre e que a outra ametade vendião elles Pero Gonçalves Pellicu e
maço para o dito Collegio pr presso e contia de dous pardaos de reales os quais lhes pagara
o dito Luis dorta conforme a dita provisão atras das rendas dos ditos Pagodes e que elles
Pilliquu e Pº Glz e Maço o vendião de seus próprio moto livre e boa vontade doze para
sempre para o dito Collegio e dessi demitião e renunciavão e elles gancares de seu ametade
o direito anção mandodominio e senhorio util que nelle tiverão e ao diante podia ter o que
todo poem e trespassão no dito reverendo Padre ou no Reitor do dito Collegio e em todos
soscessores delle que lhe sucederem renunciando esi e de seus herdeiros gancares e Pº Glz.
e Pilliquu e Maço todo o direito aução que tivurem e tem no dito chão e por de tudo serem
contentes assinarão aqui os gancares o secrivão Mortu Sinai p elles por seu nome e os ditos
Pº Glz. e Pelliqu e Maço o dito Capitam pos nesta venda sentença judicial quando em
direito podia assinou com elle Luis dorta eu Gonçalo Roiz. E escrivão destas terras que o
escrevi – Falcão Gº Roiz, Luis dorta, Moutu Sinai – Pº Glz. – Pelliquu e Maço. A qual
doação e termo de venda eu Joaõ Gomes dAndrade escrivão destas terras treslladei da
propria que fica aos autos em meu poder bem fielmente sem acrescentar nem diminuir
cousa que duvida faça e o concertei com o Sr. Capitão aqui comigo asinado em rachol aos
10 de Junho de 1591, João Gomes dAndrade. Tavora
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Arquitectura civil indo-portuguesa e a paisagem urbana de Goa