PAISAGEM E CAMUFLEM: por uma metodologia de diagnóstico.
FREITAS, ANA LUIZA CERQUEIRA.
Universidade do Estado de Minas Gerais. Escola de Design
www.ed.uemg.br
[email protected]
RESUMO
É importante refletir sobre os formatos e as metodologias de intervenção cujo objetivo é valorizar a
paisagem cultural, entendendo aqui tal valorização como uma oportunidade de criação de novas
alternativas de desenvolvimento econômico e social local, principalmente aquelas voltadas para a
economia criativa, entendendo-a não somente como uma possibilidade de elaboração de novos
negócios, mas também como um conjunto de ações voltadas para a educação, no amplo sentido de
promover a apropriação dos valores das peculiaridades locais pela suas próprias comunidades de
procedência. Algumas questões são consideradas aqui como fundamentais – metodologia, educação e
políticas públicas, todas conectadas entre si e entre as áreas envolvidas. Uma questão trata sobre os
procedimentos de pesquisa, elaboração e aplicação de ações de intervenção, e suas respectivas
construções de critérios primordiais de avaliação e decisão. É imprescindível conhecer as
experiências realizadas em outros países de diferentes estágios de economias e cultura. Mas
é importante ter em conta que o Brasil é um país de grandes dimensões, de diferentes paisagens,
portanto, de grande diversidade de características geográficas físicas e culturais. Este fato já nos torna
peculiares na forma de pensar e de planejar estratégias para a promoção do nosso
desenvolvimento. Esta proposta de discussão parte da experiência em planejamento e implementação
de ações de intervenção com ênfase em Design e Território, realizadas principalmente a partir da
aplicação de Meta-projeto definindo o cenário, a visão e o concept em estudo, e de Pesquisa-ação
visando uma ação coletiva para a prática da transformação social, educacional e técnica. A educação é
outro ponto basilar; é condição para promover a adequada apropriação da cultura, de caráter tangível e
intangível, por suas próprias comunidades de procedência. Esta é também uma ação social que
envolve um programa educacional, de metodologia específica, que abrange desde o ensino
fundamental até a formação e educação de adultos. Por fim, todos estes aspectos, interdisciplinares,
transversais e convergentes, demandam por médios e longos prazos de estudos, planejamento e
dedicação, e de recursos capitais. Para fazer valer este alinhamento de intenções, é necessária a
existência de políticas públicas contínuas. Este é provavelmente um dos maiores desafios. Em
observações feitas em trabalhos de campo foi possível constatar a existência de patrimônios
camuflados na paisagem, não por desconhecimento, mas talvez por receio de competição e de
desrespeito. Por quê? A principal questão é preservar a cultura através da proposição de ações
de intervenção e de integração que promovam oportunidades perenes para o desenvolvimento local, e
não somente institucional. Ao invés da imposição, o objetivo deveria ser compartilhar valores,
procedimentos, métodos e experiências, processando todos os aspectos em função das
especificidades de cada demanda.
Palavras-chave: metodologia, educação, investigação.
Introdução
“A paisagem traz a marca da atividade produtiva dos homens e de seus esforços para habitar
o mundo, adaptando-o às suas necessidades” (CLAVAL, 2007, p.15). A atividade produtiva,
característica inerente ao ser humano, decorre como patrimônio cultural de grupos sociais,
entendendo a cultura como um processo dinâmico e contínuo de construção de
conhecimentos (FREITAS, COSTA e MENEZES, 2011). O estudo da paisagem constitui-se
como uma fonte de referências de características específicas; constitui-se como uma
plataforma de conhecimentos (MORAIS, 2011) fundamental para a elaboração de propostas
de incremento local calcadas na produção de bens funcionais e simbólicos.
Neste cenário, um exemplo de vertente largamente explorada é a área denominada como
Economia da Cultura. Cultura é um conceito tenso, conforme demonstra Nascimento Júnior.
Economia e Cultura, juntos então, são objetos de longa reflexão. Apenas para fins de
balizamento neste artigo, será referenciado o conceito “Economia da cultura é a utilização
metodológica dos instrumentos e do aprendizado da economia a favor da cultura”. Segundo
este autor, “o que a economia da cultura faz é colocar a favor da cultura todo o instrumental
teórico da primeira para que, uma vez definido o que queremos de uma política de cultura,
encontremos o melhor caminho para chegar lá” (NASCIMENTO JUNIOR, 2013, p.139), o que
demonstra novamente a demanda por uma afinação metodológica entre intervenções de
caráter cultural e intervenções de caráter econômico. Neste sentido, o design tem atuado
visando promover o fortalecimento e a integração de atividades relacionadas à cultura como
estratégia de desenvolvimento, através de ações voltadas para as competências criativas do
território, alinhadas a programas e políticas públicas relacionadas.
O Design, inserido no campo das ciências sociais aplicadas, é uma atividade dinâmica que
explora a técnica, a tecnologia, corporifica o universo simbólico e o espaço. É uma prática
social que muda no decorrer da linha evolutiva da história. Mudam os seus significados e
valores. Mudam as necessidades e as convergências são retrabalhadas no sentido de alinhar
novos campos de conhecimento. Sob esta ótica, algumas questões são consideradas neste
artigo como fundamentais para o exercício de ações de intervenções em paisagens culturais –
metodologia, educação e políticas públicas, todas conectadas entre si e entre as áreas
envolvidas.
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Antecedentes
O estímulo para a discussão proposta neste artigo decorre da participação, desde 1997, em
diversas ações de intervenção relacionadas aos temas ‘Design e Território’ e ‘Design e
Artesanato’, através de diversos projetos e programas institucionais que tiveram como meta o
desenvolvimento de produtos, serviços, e a elaboração de estratégias de incremento local
através da valorização de especificidades físicas e socioculturais de comunidades produtivas.
Alguns destes projetos tiveram também o objetivo de realizar o mapeamento da produção
artesanal no Estado de Minas Gerais.
Os projetos institucionais tiveram maior abrangência e se destacaram pelo formato de
capacitação integrada nas áreas de empreendedorismo, gestão, associativismo e
cooperativismo, desenvolvimento de produtos e comercialização. O Projeto Artesão Minas
(Instituto Centro CAPE), o Projeto Art’Estruturada (Instituto Centro CAPE e Sebrae-MG), o
Projeto Sempre-Vivas (Instituto Centro CAPE, Sebrae-MG e Instituto Terra Brasilis), o
Programa Sebrae de Artesanato e o Programa Sebrae Design são alguns exemplos.
Quanto aos projetos realizados através de instituições de ensino, especificamente através da
Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais – ED/UEMG, o objetivo foi o
desenvolvimento de projetos de pesquisa e de projetos extensionistas, ambos nas áreas de
‘Design e Artesanato’, ‘Design e Território’ e ‘Design Social’. Os objetivos têm sido criar uma
base de dados sobre estas áreas e de ações de planejamento e desenvolvimento de produtos
e serviços de maneira integrada, interdisciplinar e também interinstitucional, através da
adoção de metodologias que contemplassem as peculiaridades socioculturais e econômicas
de grupos e setores produtivos do Estado de Minas Gerais. Além destes objetivos, a
ED-UEMG visa contribuir para a formação de novos profissionais que optem em atuar nestas
áreas.
Dentre os projetos, programas e pesquisas realizados através da Escola de Design/UEMG
destacam-se o Programa Minas Artesanal (SEAPA, EMATER), Projeto Pitangaporã (PBH),
Projeto Design Social (Centro Minas Design e Sebrae-MG), Programa Minas Raízes
(prefeituras municipais, associações de artesãos e EMATER), Projeto Alimiro (PROEXT MEC
- Cultura), Programa Minas Raízes, e Projeto Design e Integração Competitiva no Território
Estrada Real (Centro Minas Design, FAPEMIG). Os projetos pesquisas realizados referem-se
ao mapeamento de técnicas artesanais tradicionais no Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).
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Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
Metodologia - flexibilidade e sintonia
Uma metodologia de diagnóstico trata sobre os procedimentos de pesquisa que precedem a
elaboração e aplicação de ações de intervenção, e suas respectivas construções de
critérios primordiais
de
avaliação
e
decisão.
É
imprescindível
conhecer
as
experiências realizadas em outros países de diferentes estágios de economias e cultura. Mas
é
importante ter em conta que o Brasil é um país de grandes dimensões, de
diferentes paisagens, portanto, de grande diversidade de características geográficas físicas
e culturais. Este fato já nos torna peculiares na forma de pensar e de planejar estratégias para
a promoção do nosso desenvolvimento.
O Design Sistêmico é um processo de concepção integral de um produto – produto e sua
respectiva cadeia produtiva, que vai muito além do mero ato de desenhar. Isto também tem
sido aplicado aos setores produtivos de base artesanal tradicional, levando em conta aquilo
que os produtores locais estão ou não preparados para produzir, e as condições tangíveis e
intangíveis que regem seus respectivos processos produtivos (BISTAGNINO, 2011, p.19).
Portanto, o universo sociocultural no qual se insere determinado sistema produtivo de caráter
tradicional e espontâneo norteia a elaboração de ações de intervenção.
Esta proposta de discussão parte da experiência em planejamento e implementação de ações
de intervenção com ênfase em Design e Território, realizadas principalmente a partir da
aplicação de Metaprojeto definindo o cenário, a visão e o concept em estudo, e de
Pesquisa-ação visando uma ação coletiva de construção de conhecimentos para a prática da
transformação social, educacional e técnica.
O modelo metaprojetual se consolida por intermédio da formatação e prospecção teórica que
precede a fase de projeto. Neste primeiro momento são elaboradas novas propostas
conceituais de produtos e/ou serviços, e são identificadas a possibilidade de ações corretivas
(diagnose) em situações já existentes (MORAIS, 2010, p.32), e de ações antecipatórias. Sob
a ótica do design, este modelo apresenta-se além da simples forma de um objeto, tornando-se
um conjunto de atividades produtivas compreendidas em um cenário específico.
Meta + projeto: que vai além, que transcende e que faz reflexão crítica e reflexiva sobre o
próprio projeto. Este é um espaço de reflexão e de elaboração de conteúdos da pesquisa
projetual que nasce da necessidade de uma “plataforma de conhecimentos” que sustente e
que oriente a cultura projetual (PER, 2012, caderno 1). O levantamento de informações sobre
a economia local, população, cultura, situação geográfica, condição social, se dá tanto no
âmbito tangível quanto no âmbito intangível e simbólico.
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A fase metaprojetual é o momento no qual devemos colocar tudo sobre a
mesa, as questões, informações e dados inerentes ao projeto para uma
reflexão inicial até chegarmos à formulação mais precisa sobre o conceito a ser
desenvolvido na fase projetual. ... O objeto do projeto se torna o sistema de
relações que ligam o produto a um contexto maior, que vai de uma comunidade
cultural a um território, de um contexto econômico a uma região. (MORAES,
2010, p.27)
Aliada às metodologias projetuais de design, a Pesquisa-ação tem sido identificada como
apropriada para o objetivo de atender a grupos ou comunidades produtivas, característica
intrínseca quando se trata de implementar um plano de ações de intervenção.
Proposta por Michel Thiollent (2002), a metodologia de pesquisa-ação propõe uma ação
coletiva na busca de resolução de problemas, e que vai além do levantamento de dados, já
que ela exige a participação de todos os atores envolvidos. Thiollent a define como uma
pesquisa social de base empírica, realizada para atender a uma demanda coletiva, e na qual
pesquisadores e participantes desempenham um papel ativo, de modo cooperativo e
participativo diante do contexto em que estão envolvidos. O objetivo da pesquisa-ação é tanto
a ação em si, uma investigação da situação, quanto ampliar o nível de consciência da
comunidade a fim de produzir conhecimento. Logo, a pesquisa-ação proporciona o
mapeamento do contexto em questão, de forma ampla, possibilitando a compreensão e a
incorporação deste conhecimento ao cotidiano da comunidade envolvida.
O mapeamento, ato desenvolvido pelo ser humano para identificar e qualificar os elementos
que caracterizam determinado ambiente surgiu da necessidade de compreensão local para
fins de habitação e de exploração. O ato de mapear o ambiente abrange não só as geografias
geofísicas de um local, mas também abrange processos, aspectos culturais, aspectos
religiosos, aspectos históricos, características socioeconômicas, dentre outras (MUSEUTEC,
2013), aspectos inerentes à geografia humana (CLAVAL, 2007, p10). Mapear estas
características, muitas vezes de caráter mais subjetivo, associando-as às características
físicas locais, significa a possibilidade de verificar comportamentos de desenvolvimento e
prospectar ações de incremento no território.
O mapeamento se tornou um dos processos mais utilizados para o desenvolvimento de
projetos de projetos. A aplicação simultânea dos procedimentos enunciados pelo método
metaprojetual e de pesquisa-ação resultam em uma metodologia de diagnóstico eficiente,
quando aplicada de forma coletiva e construtiva. O resultado é a construção de um conteúdo
com orientação sustentável, com valores e objetivos definidos para uma produção cultural
espontânea. Atualmente, o fazer tradicional reaparece fortalecido principalmente em função
de seus atributos identitários e de sustentabilidade, tendo em conta os fenômenos físicos e
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humanos que ocorrem na formação da paisagem e no estabelecimento de causas e relações
dos sistemas produtivos locais.
Ao se buscar soluções e oportunidades para a valorização do território com ênfase nas suas
paisagens culturais, estamos mapeando potencialidades e dificuldades específicas. Este
mapeamento pode orientar ações e estratégias de inovação que potencializam o
desenvolvimento econômico e social, respeitando a cultura e a tradição local. Entretanto, é
importante ressaltar que tal mapeamento deve ser feito não apenas pelo profissional e/ou
instituição que promove um projeto de ações de intervenção, mas principalmente, pela
comunidade local envolvida. O mapeamento da situação cultural, econômica, política,
geográfica, social da região investigada deve ser totalmente compreendida, reconhecida e
apropriada pela comunidade trabalhada, para que esta possa fortalecer estas características
em seu cotidiano.
Sobre a camuflagem.
Partindo do conceito sobre camuflagem – “adaptação em que um organismo possui
características que o confundem com o meio onde vive” (HOUAISS, 2009), foram
considerados dois pontos de vista nesta discussão – aquele de quem intervém [profissionais,
instituições] e aquele de quem recebe a intervenção inserida em um contexto particular
[grupos de indivíduos, comunidades].
No que tange às formas de atuação dos profissionais envolvidos nas ações de mapeamento
para fins de projetar o projeto de intervenção foi citado anteriormente o papel do facilitador.
Em uma ação coletiva, trabalhando junto com os atores locais de uma comunidade, o
facilitador alcança o seu objetivo quando ele se torna invisível no processo, ou camuflado
junto ao público trabalhado, na identificação dos parâmetros que irão conduzir a elaboração
do projeto em questão. Isto significa dizer que o papel do facilitador é o de ser um agente
apoiador e o sujeito que trabalha para manter o foco do trabalho, e não o protagonista do
processo neste construção de conhecimentos. Este conhecimento é a ferramenta, o meio
através do qual se faz as coisas acontecerem. (PARNES,1997, p. 112; YUDESS, 1995, p.7,
21)
Por outro lado, em um trabalho solitário, o profissional que objetiva realizar um mapeamento
para fins de diagnóstico pode inserir-se na comunidade em questão, como um procedimento
antecipativo, a fim de percorrer o cenário alvo e conversar com aqueles indivíduos que o
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compõem de forma supostamente mais informal. Este é um procedimento que sido
demonstrado como eficaz em experiências de campo. Por já estarem acostumados com as
características nas suas localidades de convívio cotidiano é comum haver certa dificuldade de
percepção por parte daqueles que a integram, sobre as peculiaridades e os atributos da
região e de suas potencialidades produtivas.
Daí a importância de destacar que a realização deste levantamento de informações em
etapas, ou melhor, em uma seqüência de visitas. O intervalo entre estas visitas proporciona
um tempo de discernimento sobre as informações coletadas, para ambos os lados envolvidos.
No caso do mapeamento construído de forma coletiva, freqüentemente somos surpreendidos
com a inserção de novas considerações que estavam camufladas em seu cotidiano dos
indivíduos que integram a comunidade trabalhada.
Outro aspecto importante de ser destacado é quando tratamos da investigação de
identificação de patrimônios. Em observações feitas em trabalhos de campo foi possível
constatar a existência de patrimônios camuflados na paisagem, não por desconhecimento,
mas talvez por receio de certa competição, e de desrespeito no que tange a um sentimento de
invasão de território. Não raras são as vezes em que nos deparamos com verdadeiros
tesouros culturais, que estão ocultos e muito bem guardados. Neste sentido, em trabalhos de
campo, é comum perceber sentimentos de desconfiança por parte de importantes atores
locais. Este é outro aspecto relevante que não tem como deixar de ser considerado no
processo de diagnóstico. Um aspecto importante dada à hierarquia inerente aos grupos
sociais locais.
Educação.
A educação é outro ponto basilar quando se trata de interferir na paisagem cultural; é
condição para promover a adequada apropriação da cultura, de caráter tangível e intangível,
por suas próprias comunidades de procedência. Esta é também uma ação social que envolve
um programa
educacional,
de
metodologia
específica,
que
abrange
desde
o
ensino fundamental até a formação e educação de adultos – pedagogia e andragogia.
Pensar-se em um programa educacional que contemple as diversas especificidades locais
inserido no formato do ensino convencional, por exemplo, pode servir como estímulo à
sedimentação dos valores trabalhados.
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Freitas, Costa e Menezes (2008) afirmam que a atuação do designer junto ao produtor
artesanal tornou-se necessária para contribuir na identificação de referências da cultura local
e na revitalização de sua produção, produzindo novos significados, revelando aspectos e
valores, e garantindo a sua sustentabilidade através de ações de continuidade. O designer,
assim como os profissionais de áreas correlatas, devem então atuar como facilitadores, fato
que contribui para estimular o processo criativo do indivíduo e, consequentemente, para uma
produção local calcada na cultura e nas demais potencialidades locais. A criatividade é um
conceito intrínseco ao conceito de cultura, e a cultura é um aspecto intrínseco ao processo
educacional.
A previsão de ações de continuidade é um dos desafios para as propostas de ações de
intervenção. Quando implantamos um projeto, a comunidade passa a ter uma expectativa alta
em relação ao início dos trabalhos, ao funcionamento dos modelos e ferramentas propostos e
aos resultados alcançados. Por isso, o acompanhamento detalhado de todos os processos e
o bom relacionamento são essenciais para dar suporte, segurança, tranqüilidade e
continuidade
às
ações
implementadas.
Neste
sentido,
é
possível
vislumbrar
o
estabelecimento de ações educacionais que possibilitem a sua manutenção.
O patrimônio em questão em cada projeto de ações de intervenção, no âmbito da educação,
detém conhecimento explícito e conhecimento tácito. O conhecimento explícito caracteriza-se
pelo processamento e armazenamento de informações, de maneira formal. O conhecimento
tácito é mais subjetivo e está diretamente relacionado ao indivíduo, valorizando a experiência
pessoal; é fruto do processo de aprendizado pela prática (FREITAS, 2011, p.48). Os
processos de transferência de conhecimento são fundamentais na construção e na
manutenção de uma paisagem cultural genuína tanto entre os atores institucionais como entre
os atores locais envolvidos no projeto, podendo ser pensado como uma fase preparatória que
poderá inclusive identificar aptidões. A estratégia é formar o homem para formar o sistema.
Paul Claval (2002, p.20) destaca que “o objetivo da abordagem cultural é entender a
experiência dos homens no meio ambiente e social, compreender a significação que estes
impõem ao meio ambiente e o sentido dado às suas vidas”. É importante ter em mente que o
diagnóstico sociocultural e econômico contribui para a identificação das nuanças
metodológicas que possam contribuir para a apropriação dos valores pretendidos pela
comunidade produtiva que irá receber a intervenção.
Políticas públicas.
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De acordo com Krucken (2009, capítulo 7), há diferentes métodos para a valorização do
território, mas que há oito ações essenciais para promover os produtos e seus respectivos
territórios. [1] Reconhecer suas qualidades: é necessário compreender o espaço onde nasce
o produto, suas histórias e qualidades, associadas ao território e à comunidade de origem. [2]
Ativar as competências situadas no território, integrando-as, e investindo no desenvolvimento
de uma visão compartilhada entre atores do meio empresarial, institucional e governamental.
[3] Comunicar o produto e o território, traduzindo seus valores e qualidades em linguagem
acessível a consumidores que vivem em outros contextos. [4] Proteger e valorizar a
identidade local e o patrimônio material e imaterial a fim de fortalecer a sua imagem. [5] Apoiar
a produção local: o design pode contribuir para a valorização do saber-fazer tradicional e
buscar novas formas de incorporar tecnologias e possibilidades de projeto sem
descaracterizá-la. [6] Promover sistemas de produção e de consumo sustentáveis, através do
uso consciente de recursos locais, relacionando-os à qualidade de vida da comunidade local.
[7] Desenvolver novos produtos e serviços baseado nos recursos e nas competências locais.
[8] Por fim, consolidar redes no território, integrando-o de forma competitiva, a fim de facilitar o
acesso ao produto pelo consumidor e de promover a conectividade e o domínio de novas
tecnologias.
Todos estes aspectos, [interdisciplinares, transversais, convergentes] demandam por médios
e longos prazos de estudos, planejamento e dedicação, e de recursos capitais. As ações
citadas no parágrafo anterior são reconhecidas como de fato essenciais. Trata-se de uma
síntese de inúmeras referências, e que foram abordadas no presente artigo. É consenso dizer
que o item [2] - Ativar as competências situadas no território, integrando-as, e investindo no
desenvolvimento de uma visão compartilhada entre atores do meio empresarial, institucional e
governamental, é fundamental para a concatenação e perenidade de ações de intervenção,
considerando as ações de diagnóstico, as ações projetuais técnicas e as ações de
continuidade.
“O econômico, o político e o social nunca existiram como categorias imutáveis e
independentes do espaço onde se encontram. Elas dependem da cultura no seio da qual
funcionam” (CLAVAL, 2002, p.20). Para fazer valer este alinhamento de intenções, é
necessária a existência de políticas públicas contínuas. Este é provavelmente um dos
maiores desafios. A principal questão é preservar a cultura através da proposição de ações
de intervenção
e
de
integração
que
promovam
oportunidades
perenes
para
o desenvolvimento local, e não somente institucional. Ao invés da imposição, o
objetivo
deveria
ser
compartilhar
valores,
procedimentos,
métodos
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e
experiências, processando todos os aspectos em função das especificidades de cada
demanda.
Dentre estes sentimentos de desconfiança citados anteriormente, destaca-se a identificação
de certo desgaste dos atores locais em relação a novos projetos de ações de intervenção.
Enquanto em algumas regiões sofre-se com o desgaste, dada à avalanche de propostas de
projetos, em outras o sofrimento é pela escassez de propostas de projeto. Ao rever
estratégias metodológicas para a elaboração e aplicação de ações de intervenção,
dever-se-ia pensar também no alinhamento contínuo de políticas públicas visando não
somente o turismo como forma de incremento local e como fonte geradora de receita, mas
também o desenvolvimento local tendo em conta as possibilidades de melhoria de qualidade
de vida, de forma independente.
“... No caso brasileiro, vivemos um momento muito particular: depois de longo
tempo, temos a possibilidade de constituir algo novo no futuro. Uma visão de
nação planejada, alicerçada em políticas que viabilizem a inclusão de vastas
camadas da população nos parâmetros de cidadania, e que se expressem,
entre outros fatores, pela democratização do acesso aos bens culturais.
O conjunto das políticas públicas de cultura tem sido percebido como fator de
desenvolvimento econômico e de inclusão social, o que implica no
reconhecimento da cultura como área estratégica para o desenvolvimento do
País. Nessa perspectiva, o que se pretende é a geração de um superávit
cultural decorrente da adoção de políticas transversais integradas entre as
áreas de educação, saúde e cultura.” (NASCIMENTO JR, 2013. p.143)
Um exemplo que propõe uma forma de alinhamento contínuo de políticas públicas a ser
destacado aqui é o Programa de Gestão Pública e Cidadania. Iniciado em 1996, esta é uma
iniciativa da Fundação Getulio Vargas e da Fundação Ford, com apoio do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O objetivo deste programa é identificar e
disseminar iniciativas inovadoras voltada para a solução de questões públicas em diversas
áreas como segurança, educação, cultura, sustentabilidade ambiental, saúde, dentre outras.
A meta é atender às necessidades de comunidades, avaliando e identificando pontos-chave
de inovação e criar mecanismos para a ampla divulgação de abordagens práticas para uma
gestão pública eficaz em consonância com a sociedade civil em questão. As ações mapeadas
pelo Programa Gestão Pública e Cidadania têm em comum as seguintes características
definidas como identificadoras de experiências inovadoras:
1) introduzem mudanças significativas em relação a práticas anteriores;
2) têm impacto positivo sobre a qualidade de vida das comunidades;
3) podem ser repetidas ou transferidas para outras regiões ou
administrações;
4) ampliam ou consolidam o diálogo entre a sociedade civil e os
agentes públicos e
5) utilizam recursos e oportunidades de forma responsável, visando
a auto-sustentabilidade.
(TEIXEIRA, GODOY e CLEMENTE, 2005, p.5)
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Com base neste exemplo, e na sua permanência até os dias atuais, não há como não se
pensar em programas similares, no entanto específico para a área de ações de intervenção
com ênfase nos seus resultados quando se trata de inferir em paisagens culturais. O presente
evento – Colóquio Ibero-americano Paisagem Cultural, Patrimônio e Projeto, já demonstra
esta iniciativa. No entanto, há de se destacar que outra especificidade metodológica - aquela
que está calcada nos princípios da administração pública. São mais especificidades que
devem ser incorporadas ao alinhamento de objetivos e na construção de seus respectivos
critérios balizadores.
Considerações finais.
É notória a importância dada às discussões e ações voltadas para a valorização do patrimônio
natural e cultural brasileiro, haja vista o número crescente de eventos científicos e projetos de
intervenção com este objetivo. Tais iniciativas provêm das mais diversas áreas de
conhecimento, como história, geografia, economia, sociologia, biologia, arquitetura, design,
educação, turismo, dentre outras. Este fato, per se, comprova a necessidade de uma visão
sistêmica e transversal a fim de concatenar conhecimentos e métodos de intervenção dada a
diversidade e complexidade de elementos que formam a paisagem.
Refletir sobre a valorização da paisagem cultural como uma oportunidade de criação de novas
alternativas de desenvolvimento econômico e social, significa pensar e repensar
continuamente sobre os formatos, procedimentos e critérios para a elaboração de
metodologias de intervenção. Trata-se não somente da possibilidade de proposição e
elaboração de novos negócios, mas também de um conjunto de ações complementares
voltadas para a educação e para as políticas públicas, no amplo sentido de promover a
apropriação dos valores de peculiaridades locais pelas suas próprias comunidades de
procedência.
REFERÊNCIAS:
BISTAGNINO, Luigi. Design sistemico – progettare la sostenibilità produttiva e ambientale.
Cuneo: Slow Food Editore. 2011.
CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. 3.ed. Florianópolis: Editora da UFSC. 2007.
CLAVAL, Paul. “A volta do cultural” na geografia. Mercator – Revista de Geografia. Fortaleza:
Universidade Federal do Ceará. 2002.
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FREITAS, Ana Luiza Cerqueira. Design e Artesanato – uma experiência de inserção da
metodologia de projeto de produto. São Paulo: Blucher Editora. 2011.
FREITAS, Ana Luiza Cerqueira; COSTA, Andreia; MENEZES, Marlette. O design e a
produção artesanal na pós-modernidade. In: Oitavo Congresso Brasileiro de Pesquisa e
Desenvolvimento em Design. São Paulo: Anais. 2008.
HOUAISS, Antônio. Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 2009.
KRUCKEN, Lia. Design e Território: valorização de identidades e produtos locais. São
Paulo: Studio Nobel. 2009.
MORAES, Dijon de. Metaprojeto: o design do design. São Paulo: Blucher Editora. 2010.
MUSEUTEC – Museu de Tecnologia de São Paulo. Os mapas. Disponível em:
<http://www.museutec.org.br/preview museologico/os_mapas.htm>. Acesso em 28 nov.
2013.
NASCIMENTO JUNIOR, José do. Escritos não criativos sobre economia criativa: por um
novo olhar da relação cultura e desenvolvimento. Cadernos do CEOM - Ano 26, n. 39 Economia Criativa e Economia da Cultura. 2013.
PARNES, Sidney. Optimize: the Magic of your mind. Buffalo: The Creative Education
Foundation. 1997.
PER - PROJETO DESIGN E COMPETITIVIDADE NO TERRITÓRIO ESTRADA REAL.
Identificação de design – caderno 1. Belo Horizonte: Politecnico di Torino, FAPEMIG,
Centro Minas Design / Universidade do Estado de Minas Gerais. 2012.
TEIXEIRA, Marco Antônio Carvalho; GODOY, Melissa G.; CLEMENTE, Roberta (Org). 20
experiências de Gestão Pública e Cidadania – ciclo de premiação 2005. São Paulo:
Programa Gestão Pública e Cidadania. 2005.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa-ação. São Paulo: Cortez Editora. 1997.
YUDESS, Jo. Habilidades de facilitação. Apostila do curso de formação de facilitadores do
Instituto Latino Americano de Criatividade e Estratégia. São Paulo: ILACE. 1995.
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