Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Letras
Trabalho de Conclusão de Curso
ALICE CRESCEU, DIMINUIU, CRESCEU... COUBE E
DESCOUBE NAS MEDIÇÕES DO MUNDO
u
Uma leitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
Autor: Danielle Camargos Fabrício
Orientador: Prof. Msc. Lívila Pereira Maciel
NOME DO AUTOR
Brasília - DF
2012
DANIELLE CAMARGOS FABRÍCIO
ALICE CRESCEU, DIMINUIU, CRESCEU... COUBE E DESCOUBE NAS
MEDIÇÕES DO MUNDO
Uma leitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
Monografia apresentada no curso de
Graduação em Letras da Universidade
Católica de Brasília como requisito para a
obtenção do título de Licenciado em Letras
com Habilitação em Língua Inglesa.
Orientadora: Prof. MSc. Lívila Pereira Maciel
Brasília
2012
2
Monografia de autoria de Danielle Camargos Fabrício, intitulada “ALICE CRESCEU,
DIMINUIU, CRESCEU... COUBE E DESCOUBE NAS MEDIÇÕES DO MUNDO: Uma
leitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll” apresentada como requisito parcial
para obtenção do título de Licenciada em Letras com Habilitação em Língua Inglesa da
Universidade Católica de Brasília, em 13 de junho de 2012, defendida e/ou aprovada pela
banca examinadora abaixo assinada:
______________________________________________________
Prof. Msc. Lívila Pereira Maciel
Orientadora
Curso de Letras da Universidade Católica de Brasília – UCB
______________________________________________________
Prof. Msc. Cléria Maria Costa
Curso de Letras da Universidade Católica de Brasília - UCB
______________________________________________________
Prof. Dr. Maurício Lemos Izolan
Curso de Letras da Universidade Católica de Brasília - UCB Brasília
Brasília
2012
3
Dedico este trabalho aos meus familiares
que sempre me deram apoio nos momentos
difíceis da vida.
4
AGRADECIMENTO
Agradeço em primeiro lugar a Deus por ter me dado forças para concluir mais essa etapa da
minha vida. Aos professores do curso de Letras por toda dedicação e contribuição para minha
formação. À minha professora e orientadora Lívila Pereira Maciel, pela paciência e por me
ajudar a encontrar o caminho, quando eu estava perdida. A toda minha família que sempre me
deu apoio nas horas em que mais precisava.
5
LUDISMO
Quebrar o brinquedo
é mais divertido.
As peças são outros jogos:
construiremos outro segredo.
Os cacos são outros reais
antes ocultos pela forma
e o jogo estraçalhado
se multiplica ao infinito
e é mais real que a integridade:
mais lúcido.
Mundos frágeis adquiridos
no despedaçamento de um só.
E o saber do real múltiplo
e o sabor dos reais possíveis
e o livre jogo instituído
contra a limitação das coisas
contra a forma anterior do espelho.
E a vertigem das novas formas
multiplicando a consciência
e a consciência que se cria
em jogos múltiplos e lúcidos
até gerar-se totalmente
no exercício do jogo
esgotando os níveis do ser.
Quebrar o brinquedo ainda
é mais brincar.
Orides Fontela
6
RESUMO
FABRÍCIO, Danielle Camargos. Alice cresceu, diminuiu, cresceu... coube e descoube nas
medições do mundo: Uma leitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. 2012.
64 páginas. Trabalho de Conclusão de Curso de Letras com habilitação em Língua Inglesa.
Universidade Católica de Brasília. Brasília. 2012.
As Alices de Lewis Carroll causam, até mesmo no leitor menos experiente, muitas
provocações e chamam atenção para inúmeras questões simbólicas que perpassam as obras
literárias, quer sejam elas destinadas ao público infantil ou não. Animais que falam, reis e
rainhas saídos das cartas de baralho, mudanças de tamanho em um passe de mágica,
personagens enigmáticos que aparecem e desaparecem de repente, diálogos “sem pé nem
cabeça”, estória que se passa dentro de um sonho, esses são ingredientes que tornam tudo
muito complexo e curioso. O presente trabalho objetiva entender os principais elementos do
maravilhoso e do nonsense que estruturam a obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis
Carroll. Procura apreender os significados das aventuras que Alice vivencia no País das
Maravilhas, focalizando, sobretudo, as possíveis significações dos diferentes seres, lugares e
eventos que pululam neste mundo onírico e inusitado imaginado por Carroll. O estudo iniciase com a discussão sobre a presença do imaginário, do fantástico, do maravilhoso, que funda a
linguagem, os eventos e o ser dos personagens. É essa presença que delineia o gênero
narrativo das aventuras de Alice e o filia à literatura do nonsense e ao conto de fadas. Em
prosseguimento, apresenta-se um estudo da trama de símbolos que o livro encena quando
levamos em consideração os significados dos habitantes, dos objetos e do próprio “País das
Maravilhas”. Por fim, e não menos importante, vem a discussão sobre a menina Alice,
protagonista de toda a aventura nesse mundo insólito, novo, imaginado e sonhado por ela.
Trata-se, então, da questão dos exercícios de ser criança, do sonhar da criança e dos devaneios
em demanda da infância, bem como das vertiginosas experiências de crescer e diminuir de
Alice, ressaltando-se a relevância das mesmas para a “formação da identidade” ou para a
“educação do ser poético” da protagonista e dos leitores.
Palavras-chave: Fantástico maravilhoso. Nonsense. Lewis Carroll. Alice no País das
Maravilhas.
7
ABSTRACT
FABRÍCIO, Danielle Camargos. Alice cresceu, diminuiu, cresceu... coube e descoube nas
medições do mundo: Uma leitura de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. 2012.
64 páginas. Trabalho de Conclusão de Curso de Letras com habilitação em Língua Inglesa.
Universidade Católica de Brasília. Brasília. 2012.
The Lewis Carroll's Alice's cause, even the less experienced reader, many provocations and
call attention to symbolic issues that cross many literary works, being for children or not.
Talking animals, kings and queens coming out of cards, changes in size in a magically way
enigmatic characters that appear and disappear suddenly, dialogues "mindless" story that
takes place within a dream, these are ingredients that make it very complex and interesting.
The present study aims to understand the key elements of the marvelous and the nonsense that
structure the book Alice in Wonderland, by Lewis Carroll. It tries to understand the meaning
of the adventures that Alice experiences in Wonderland, focusing in particular the possible
meanings of the different creatures, places and events that abound in this dream world
imagined by Carroll. The study begins with a discussion of the presence of the imaginary, the
fantastic, the marvelous, who founded the language, events and the characters. It is this
presence that outlines the narrative genre of the adventures of Alice and affiliated to the
literature of nonsense and the fairy tales. Then, we present a study of the plot of the book
symbols stages when we consider the meanings of people, objects and their own
"Wonderland." Last but not least, comes the discussion about the girl Alice, the protagonist of
the adventure in this unusual world, new, imagined and dreamed. It is the question of the
exercise of being a child, dreaming dreams of children and childhood in demand, as well as
the dizzying experience of Alice grow and shrink, emphasizing the relevance of these for the
"formation of identity "or" be poetic education "of the protagonist and readers.
Keywords: Fantastic wonderful. Nonsense. Lewis Carroll. Alice in Wonderland.
8
SUMÁRIO
É PRECISO SEGUIR O COELHO BRANCO, CAIR EM SUA TOCA E VISITAR O
PAÍS DAS MARAVILHAS. UMA INTRODUÇÃO...........................................................10
1. A CHAVE DO TAMANHO DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: INFÂNCIA,
JOGO E LINGUAGEM NA OBRA DE LEWIS CARROLL............................................15
2. “EM QUE SENTIDO, EM QUE SENTIDO”? QUAL CAMINHO TOMAR?
PERGUNTA ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS........................................................22
3. FOI ASSIM QUE, BEM DEVAGAR, O PAÍS DAS MARAVILHAS FOI URDIDO,
UM EPISÓDIO VINDO A OUTRO SE LIGAR... E OS POÇOS DA FANTASIA
NUNCA MAIS VÃO SE ESGOTAR....................................................................................31
3.1. O COELHO BRANCO E SEU RELÓGIO.......................................................................39
3.2. O GATO DE CHESHIRE E SEU CURIOSO SORRISO.................................................40
3.3. A LAGARTA E SEU NARGUILÉ...................................................................................42
3.4. UM CHÁ MALUCO E SEUS PARTICIPANTES............................................................43
4. ALICE CRESCEU, DIMINUIU, CRESCEU...COUBE E DESCOUBE NAS
MEDIÇÕES DO MUNDO.....................................................................................................49
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: A CHAVE DO JARDIM QUE LEWIS
CARROLL NOS DEIXOU. UMA CONCLUSÃO..............................................................59
9
É PRECISO SEGUIR O COELHO BRANCO, CAIR EM SUA TOCA E VISITAR O
PAÍS DAS MARAVILHAS - UMA INTRODUÇÃO
A fantasia não é exatamente uma fuga da realidade. É
um modo de entendê-la.
Lloyd Alexander
As obras de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson) que contam as
aventuras de Alice – no País das Maravilhas e, depois, através do Espelho – marcam a posição
diferenciada de seu criador na História da Literatura, por conta da forma pioneira como tratam
as situações e da utilização, em certa medida inusitada, do recurso do nonsense para o público
infantil. De forma original, criativa, Carroll consegue reunir em suas Alices elementos da
realidade e do imaginário, que povoam o universo infantil e “sem-sentido” (ou não), presentes
nos contos de fadas e nos sonhos.
Como bem observa Ana Maria Machado (2001), Lewis Carroll funda a "literatura
infantil de verdade, aquela que não fica querendo ensinar nada nem dar aulinha, mas faz
questão de ser uma exploração da linguagem, matéria-prima de toda obra literária de
qualidade” (MACHADO, 2001, p. 199). Deixando de lado as lições de moral e os episódios
de terror, geralmente encontrados nas formas tradicionais dos contos de fadas, as aventuras de
Alice inauguram, de acordo com as anotações de Martin Gardner, “um novo gênero de ficção
para crianças.” (CARROLL, 2002, p.16).
Nelly Novaes Coelho (1981) também fala dos aspectos incomuns das aventuras de Alice
que, vinculadas ao recurso do fantástico / maravilhoso, despertaram enorme atração e
encantamento junto a leitores de outras línguas, mesmo se considerarmos os jogos de palavras
no idioma original. As Alices partem de situações identificadas como do mundo real, familiar
ao leitor, para então fazerem irromper algo de mágico, fabuloso, que irá reverter e transformar
a ordem das coisas, no universo da leitura. Essas são algumas das razões pelas quais a
estudiosa compreende a obra de Carroll como obra que ultrapassa os limites do público-alvo
ao qual se destinara. (COELHO, 1981:315-317)
A importância das Alices de Carroll pode ser medida pela quantidade de publicações,
traduções e adaptações que tiveram no mundo todo, pela abundância de peças de teatro e
10
filmes que suscitaram e até mesmo pela profusão de poetas e filósofos nos quais exerceram
tanto fascínio e interesse, destacando-se, entre eles, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, João
Guimarães Rosa, Osman Lins, Gilles Deleuze e Ludwig Wittgenstein.
Alices’s Adventures in Wonderland (Alice no País das Maravilhas), de Lewis Carroll, é
um clássico da literatura universal. Publicada em 04 de julho de 1865, é considerada uma das
mais célebres do gênero literário nonsense ou do fantástico-maravilhoso.
Imagens e
personagens fantásticos, diálogos inusitados, referências a situações de vida quotidiana de
uma criança na Inglaterra vitoriana, paródias a poemas populares infantis ingleses, referências
linguísticas e matemáticas através de enigmas, questões existenciais sobre o ser e o tempo...
tudo isso misturado com irreverência e humor. Ingredientes fundamentais que fazem o leitor
se “encontrar” e se “encantar” com a estória de Alice, o que contribuiu para a enorme
popularidade da obra.
O livro narra a estória de Alice, uma menina que persegue um apressado Coelho Branco
de colete e relógio e cai em sua toca que a leva ao País das Maravilhas, um mundo surreal,
povoado por criaturas fantásticas, que só poderiam existir em sonhos. Uma dessas criaturas é
o próprio Coelho Branco que parece estar sempre atrasado para algo; outra é o Gato de
Cheshire, que tem o poder de aparecer e desaparecer. Há ainda o Chapeleiro Maluco, que está
perpetuamente na hora do chá e foge da Rainha de Copas, que o condenou à decapitação. A
Lagarta Azul que fuma narguilé; as cartas de baralho que pintam rosas; bolinhos, cogumelos e
bebidas que fazem crescer e encolher num “passe de mágica”; bebês que viram porcos, uma
Rainha de Copas que vive ordenando aos seus valetes que cortem a cabeça daqueles que
contrariam suas ordens... Sem falar na própria Alice que, à medida que viaja no País das
Maravilhas, vai se descobrindo, vai “aprendendo” e se revelando puro devir. Alice, a
protagonista das estórias de Carroll, é sonho dentro de um sonho, é um poder ser, que nos
convida a pensar sobre o poder do imaginário, da linguagem e da infância.
Alice visita o País das Maravilhas, um mundo possível, cujas regras a menina não
conseguia seguir, pois elas pareciam não fazer sentido – por comparação com o nosso mundo,
com nosso bom senso. No País das Maravilhas de Lewis Carroll o sem-sentido faz sentido e o
que tem sentido (aqui) deixa de fazer sentido (lá). Lá, aquele lugar ilusório, onírico, fabuloso,
fantástico, que a rigor não existe. Um lugar ficcional, deliberadamente inventado pela rica
imaginação do professor de matemática inglês Charles L. Dodgson, que, jogado pelo jogo da
11
poesia, se inventou Lewis Carroll, o mundialmente conhecido autor de Alice no País das
Maravilhas.
O presente trabalho objetiva entender os principais elementos do maravilhoso e do
nonsense que estruturam a obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Procura
apreender os significados das aventuras que Alice vivencia no País das Maravilhas,
focalizando, sobretudo, as possíveis significações dos diferentes seres, lugares e eventos que
pululam neste mundo onírico e inusitado imaginado por Carroll.
A pesquisa foi feita a partir da leitura, principalmente, de Gaston Bachelard, Gilles
Deleuze, Martin Gardner e Carl Jung. Também buscamos ajuda na obra de Jacqueline Held,
Jean Chevalier e Max Luthi, entre outros (Hesíodo e Autran Dourado, por exemplo). Os
comentários de alguns autores brasileiros que escreveram reflexões sobre a Literatura Infantil
e a respeito da obra de Lewis Carroll ou traduziram / adaptaram Alice no País das
Mavravilhas para o português foram muito importantes. Entre eles destacamos Ana Maria
Machado, Cecília Meireles, David Arrigucci Junior, Maria José Palo, Maria Rosa Oliveira,
Nelly Novaes Coelho e Sebastião Uchoa Leite.
Dividimos o trabalho em quatro capítulos. No primeiro capítulo, fazemos uma
reflexão sobre os elementos essenciais da obra – a linguagem, o jogo, a infância – procurando
mostrar como a obra Alice no País das Maravilhas foi recebida pelo público e pela crítica: um
livro infantil, destinado às crianças, ou não? Neste capítulo, buscamos mostrar que a literatura
infantil é, antes de tudo, literatura, imaginação criadora, poesia, não é tão-somente uma
produção cultural destinada a um público infantil. A literatura, qualquer literatura, implica
linguagem, palavra, e também imaginação. Por isso mesmo está sempre vinculada à infância,
raiz originante do ser, fonte de onde jorra toda e qualquer literatura, garantia da poesia da
vida.
Associado a essa discussão está o nosso segundo capítulo no qual se busca apreender a
presença do imaginário, do fantástico, do maravilhoso, que funda a linguagem, os eventos e o
ser dos personagens da obra, mostrando que é essa presença que delineia o gênero narrativo
das aventuras de Alice e o filia à literatura do nonsense e ao conto de fadas. É nesse capítulo
que tratamos da “lógica dos sentidos” na obra de Carroll, apresentando sucintamente as
principais ideias de Gilles Deleuze a esse respeito, sem intenção, é claro, de exauri-las.
Em prosseguimento, no terceiro capítulo, apresenta-se um estudo da trama de
símbolos que o livro encena quando levamos em consideração os significados dos habitantes,
12
dos objetos e do próprio “País das Maravilhas”, lugar do paradoxo, do caos – cosmos, do
labirinto.
No quarto capítulo, complementando e desdobrando os capítulos anteriores, vem a
discussão sobre a menina Alice, protagonista de toda a aventura nesse mundo insólito, novo,
imaginado e sonhado por ela. Trata-se, então, da questão dos “exercícios de ser criança” 1, do
sonhar da criança e dos devaneios em demanda da infância, bem como das vertiginosas
experiências de crescer e diminuir de Alice (puro “parodoxo”, segundo Deleuze), ressaltandose a relevância das mesmas para a “formação da identidade” da protagonista e dos leitores e
assinalando a importância da literatura, sobretudo do conto de fadas, para a “educação do ser
poético” 2.
Por fim, esclarecemos que, para nosso trabalho de compreensão – uma tarefa nada
fácil -, tivemos que consultar diferentes edições e traduções da obra de Lewis Carroll. Em sua
maioria, os trechos citados foram extraídos de duas edições, uma na língua original, o inglês,
e outra em vernáculo. São elas: The Annotaded Alice3, com introdução e notas de Martin
Gardner; Aventuras de Alice no país das maravilhas & através do espelho e o que ela
encontrou por lá4, com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Julgamos melhor apresentar
os trechos da obra em inglês e em português nas citações que ficam em destaque porque
ocupam mais de três linhas. Nas outras, optamos usar exclusivamente a tradução para o
português, mas nos remetendo, em nota de rodapé, à original (em inglês). Quando achamos
necessário facilitar nosso trabalho de entendimento do texto, consultamos a edição brasileira
1
Fazemos referência ao título de um livro infantil de Manoel de Barros, que conta as estórias de um menino que
carregava água na peneira e de uma menina avoada, aparentemente cheias de “despropósitos” porque
mergulhadas em um mundo mágico, e, ao mesmo tempo, profundamente reais. . Cf. BARROS, Manoel de.
Exercícios de ser criança. Bordados de Antonia Zulma Diniz, ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre
desenhos de Demóstenes Vargas. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.
2
Fazemos menção ao título de ensaio de Carlos Drummond de Andrade. Nesse ensaio, o poeta diz que as
crianças são essencialmente poetas, mas com o tempo deixam de sê-lo. Para o autor, a infância permite criar,
inventar, reinventar, experimentar, montar, desmontar, etc. A educação desejável seria aquela em que se fosse
exercitada a capacidade da criança – de todo ser humano - de viver poeticamente o conhecimento e o mundo. Cf.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A educação do ser poético. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos,
Brasília: v. 61, n. 140, p. 593-594, out. /dez., 1976.
3
CARROL, Lewis. The annotaded Alice: Alice’s adventures in wonderland & through the looking-glass by
Lewis Carroll. Illustrations by John Tenniel. Introduction and notes by Martin Gardner. New York, London: W.
W. Norton, 2000.
4
CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas & através do espelho e o que ela encontrou por
lá. Inclui ilustrações originais de John Tenniel. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
13
da The Annotaded Alice, cuja tradução também foi realizada por Maria Luiza X. de A.
Borges.
14
1. A CHAVE DO TAMANHO DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: INFÂNCIA,
JOGO E LINGUAGEM NA OBRA DE LEWIS CARROLL
“Realmente me pergunto o que pode ter acontecido
comigo! Quando lia contos de fadas, eu imaginava que
aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no
meio de uma!”
Lewis Carroll
Sebastião Uchoa Leite, em seu texto introdutório, “O que a tartaruga disse a Lewis
Carroll”, à tradução que faz de Alice no País das Maravilhas e Alice através do Espelho
(1980), relativiza a questão de se considerá-las livros para crianças, sobretudo se tomarmos
como referência os dias de hoje. Na opinião do crítico e tradutor, a leitura das Alices tem se
tornado cada vez mais interesse dos adultos, em especial daqueles que buscam estudá-las do
ponto de vista lingüístico, filosófico ou mesmo científico (Física e Matemática). Além disso,
Sebastião Uchoa ressalta que já não se compreendem mais as obras de Carroll como sendo
apenas “caprichosas fantasias”, uma vez que vários foram os intérpretes que evidenciaram não
haver nada por detrás de seus enredos e personagens que não estivesse “rigorosamente
referenciado, seja através de dados da própria existência de Carroll, seja através de inúmeras
alusões literárias, científicas, lógico-matemáticas, etc.” (LEITE, 1980, p.9).
Carroll fazia questão de explorar a linguagem, que é matéria-prima de toda obra
literária de qualidade. Nas estórias de Alice, o fantástico/ o maravilhoso5 e o non-sense da
linguagem são os maiores atrativos, como podemos apreender na seguinte cena de Alice no
País das Maravilhas:
“One side will make you grow taller, and the other side will make you grow
shorter.” “One side of what? The other side of what?” thought Alice to herself. “Of
the mushroom,” said the Caterpillar, just as if she had asked it aloud; and in another
moment it was out of sight. Alice remained looking thoughtfully at the mushroom
for a minute, trying to make out which were the two sides of it; and, as it was
perfectly round, she found this a very difficult question. However, at last she
stretched her arms round it as far as they would go, and broke off a bit of the edge
5
“Fantástico”, “maravilhoso” (e “fabuloso”), neste trabalho, foram empregados como sinônimos. Referem-se,
sobretudo, ao uso do imaginativo, principalmente na literatura infantil, como, por exemplo, nos contos de fadas.
É aquilo que existe na imaginação. Buscamos aproximar o conceito de imaginação e devaneio poético de Gaston
Bachelard, em sua Poética do Devaneio, ao conceito de fantástico de Jacqueline Held, em seu O Poder do
Imaginário. Em primeira abordagem tudo aquilo que nos introduz a um mundo novo, fora da percepção comum
e familiar, aquilo que só existe na imaginação, na fantasia. Esse universo, todavia, incorpora elementos do nosso
mundo “real”, trazendo-nos encanto, admiração, surpresa, dúvida, e pode ser chamado de universo fantástico ou
maravilhoso.
15
with each hand. “And now which is which?” she said to herself, and nibbled a little
of the right- hand bit to try the effect. The next moment she felt a violent blow
underneath her chin: it had struck her foot! She was a good deal frightened by this
very sudden change, but she felt that there was no time to be lost, as she was
shrinking rapidly: so she set to work at once to eat some of the other bit.
(CARROLL, 2000, p. 53)
“Um lado fará crescer, e o outro a fará diminuir.” “Um lado de quê? O outro lado de
quê?” Alice se perguntou. “Do cogumelo”, foi a resposta da Lagarta, exatamente
como se ela tivesse perguntando em voz alta; mais um instante, e a Lagarta tinha
sumido de vista. Alice ficou olhando para o cogumelo por um minuto, pensativa,
tentando identificar quais eram seus dois lados; como era perfeitamente redondo,
aquela lhe pareceu uma questão muito difícil. No entanto, por fim esticou o máximo
que podia os braços em volta dele e quebrou um pedacinho da borda com a mão. “E
agora, qual é qual? perguntou-se, e mordiscou uma ponta do pedaço da mão direita
para experimentar o efeito: num instante sentiu uma pancada violenta sob o queixo:
ele batera no seu pé! Ficou bastante assustada com essa mudança súbita, mas lhe
parecia que não havia tempo a perder, pois estava encolhendo rapidamente; assim,
tratou logo de comer um pouco do outro pedaço. (CARROLL, 2010, p. 61)
Na vida “real” ninguém come um pedaço de bolo ou cogumelo e aumenta ou diminui.
Para aquele que vem do outro lado/direção do mundo subterrâneo da toca do coelho ou do da
superfície do espelho, mesmo sendo personagem de ficção, isso seria “impossível”, “irreal”,
“sobrenatural”. Seria mesmo? Se afirmativo, a partir de que perspectiva? Podemos perceber,
então, que, no universo ficcional de Carroll, as funções “fantásticas”, “maravilhosas”, de
aumentar e diminuir realizam o acontecer irônico da experiência passional de se
multiperspectivar o real, construindo e desconstruindo os sentidos. O País das Maravilhas
transforma-se num grande palco do nonsense, onde as relações de direção e percepção sofrem,
de modo vertiginoso e inesperado, grandes choques. Alice segue o apressado Coelho Branco
e, atrás dele, atravessa para um mundo onde as relações de tempo e espaço ganham lógica
peculiar.
O jogo paradoxal de sentido e não-sentido, de ordem e desordem, é o que rege as
situações narrativas, os encontros e desencontros das personagens de Alice no País das
Maravilhas. A linguagem, o ser e o tempo, colocados em questão pelo nonsense que reina no
País das Maravilhas, articulam-se pelos processos vertiginosos de inversão, conforme nos
explica Deleuze:
Daí as inversões que constituem as aventuras de Alice. Inversão do crescer e do
diminuir: “em que sentido, em que sentido?” pergunta Alice, pressentindo que é
sempre nos dois sentidos ao mesmo tempo, de tal forma que desta vez ela
permanece igual, graças a um efeito de óptica. Inversão da véspera e do amanhã, o
presente sendo sempre esquivado: “geléia na véspera e no dia seguinte, nunca hoje”.
Inversão do mais e do menos: cinco noites são cinco vezes mais quentes do que uma
só, “mas deveriam ser também cinco vezes mais frias pela mesma razão”. Do ativo e
16
do passivo: “será que os gatos comem os morcegos?” é o mesmo que “será que os
morcegos comem os gatos?”. Da causa o do efeito: ser punido antes de ter cometido
a falta, gritar antes de se machucar, servir antes de repartir. (DELEUZE, 2009, p.2)
A esse respeito, podemos mencionar Myriam Ávila (1996), que, ao estudar a poesia de
Lewis Carroll e Edward Lear, esclarece que o núcleo do nonsense reside na “ausência de um
ponto de repouso”, na “instabilidade” e na “instauração da dúvida”. A especificidade do
discurso nonsense “reside em algo que deixa o leitor suspenso entre o riso e a perplexidade,
entre a estranheza e a identificação, como se aquilo ao mesmo tempo lhe dissesse respeito e
não dissesse respeito a coisa alguma” (AVILA, 1996). Aparentemente dirigida às crianças,
conforme afirma Myriam Ávila (2004), por trás da escrita de Carroll e Lear, o que o leitor
encontra é uma reflexão sobre a “literatura como linguagem permanentemente em crise”.
(ÁVILA, 2004, p. 144).
Se pensarmos como “adultos”, seguindo os esquemas dicotômicos tão criticados pelo
próprio Lewis Carroll, ficaria difícil imaginar que as crianças pudessem se interessar por um
universo e por uma linguagem que, supomos, fossem, além de novos, extremamente
“complexos” para elas. Sem dúvida, conforme adverte David Arrigucci Júnior, a infância, o
jogo e a linguagem são três marcos essenciais do mundo poético de Lewis Carroll e Edward
Lear, os quais, certamente, chamam a atenção das crianças, “mas nenhum deles é em si
suficiente para compreendê-lo.” (ARRIGUCCI R, 1999, p. 143)
Embora gere controvérsias quando se discute o campo dos significados e o público
alvo de tais obras, não há como não tratar qualquer tema vinculado às obras de Lear e Carroll
sem mencionarmos que os mesmos criaram um universo cujo sentido é diferente do que rege
a realidade, ou do que está ligado ao conceito de senso comum. Nonsense já indica subversão,
já revela que o sentido como tal é transfigurado para que o absurdo seja crível, dentro de uma
nova ordem de coisas que cercam a linguagem, os eventos e as personagens das estórias
inventadas pelos escritores ingleses. Em suas obras, percebe-se um jogo entre as forças da
ordem e da desordem, uma tensão entre presença e ausência de sentido, que deixa qualquer
um em suspensão, diante da pura perplexidade, que sempre permanece.
A literatura nonsense, nascida no século XIX, foi, como podemos ler no texto de
Augusto de Campos, O Anticrítico (1986), “a mais curiosa de todas as reversões da grande
época vitoriana da mecanização e da alta compostura moral”. (p.123). Carroll e Lear
contestam a lógica do ensino, os “avanços” tecnológicos, a vida em sociedade. Como bem
assinala Augusto de Campos, “mais de cem anos de mau-senso nos separam / da
17
poesia nonsense” corrente estética que inclui autores, pretensamente inofensivos, como
Edward Lear e Lewis Carroll, que compuseram “para crianças” e criaram o humor inglês
vitoriano. (CAMPOS, 1986, p.123).
O termo nonsense, em seu contexto literário, foi tomado de empréstimo do título do
primeiro livro de Edward Lear, A Book of Nonsense (Um Livro de Nonsense), publicado em
1846. O nonsense ainda não havia sido estabelecido como gênero literário específico quando
Edward Lear começou escrever seus primeiros poemas cômicos, compostos de quatro ou
cinco versos, e acrescentar-lhes seus próprios desenhos. Com o “excesso de imaginação” de
seus poemas cômicos, Edward Lear conseguiu transportar os leitores de sua época, a maioria
deles crianças, e seus leitores posteriores, especialmente adultos, a um mundo
“potencialmente estranho”, por conta de seus ambientes inusitados, de seus personagens
curiosos e do trabalho lúdico, criativo, humorístico, de sua linguagem poética.
Conhecidos como limericks mais tarde, os poemas cômicos de Lear foram
primeiramente denominados por ele de poemas nonsense. Para o artista inglês, a palavra
nonsense, num primeiro momento, significava apenas algo alegre e inconseqüente, tratava-se
de forma encontrada para libertar seu espírito da opressão das regras impostas pela sociedade,
revelando também certa "tristeza", que, acreditava ele, parecia ser inevitável. Depois, ele e
Carroll, a partir do inusitado de seus textos, ampliaram e transformaram o horizonte de
significação da palavra e do gênero “nonsense”.
Carroll e Lear criaram em suas obras “idiomas” próprios, com características
específicas. Não se pode negar a sensibilidade poética das palavras, palavras tomadas por
Lear em si mesmas, em razão de suas cores e sons, palavras perfeitas e melodiosas, como
frases musicais, em sua individualidade, como se fossem seres humanos. Ou deixar de
mencionar seus neologismos, como, por exemplo, o adjetivo runcible, que aparece reiteradas
vezes em sua obra e não apresenta, de acordo com o próprio poeta, significado algum: a
palavra não aceita qualquer tentativa que outros possam fazer de dotá-la de um sentido fixo e
adapta-se, por essa razão, às mais diversas situações, sem que jamais se possa dizer
exatamente o que significa. Quanto a Lewis Carroll, não se deixa de destacá-lo como o
criador do portmanteaux (palavra-valise), definida por Humpty Dumpty, em Alice Através do
Espelho, como sendo aquelas que trazem “dois significados embrulhados numa só palavra”
(CARROLL, 1980, p. 197). É o caso da palavra-valise “lesmolisas” (de acordo com a
tradução de Augusto de Campos), que aparece no poema “Jabberwocky”, e significa, segundo
o próprio Humpty Dumpty, “lisas como lesmas”.
18
É a partir de Carroll, Lear e, posteriormente, James Joyce, que os procedimentos da
palavra-valise, do trocadilho, das palavras de caráter puramente melodioso, foram elevados à
condição de importantes recursos estilísticos da literatura. Esses recursos eram valorizados
por esses poetas, exatamente pelo fato de trazerem no uso da língua a marca inconfundível da
experiência original, lúdica, inusitada, da infância. Até então, se estivessem fora dos sonhos
ou das anedotas, ficavam relegados a uma dimensão periférica da comunicação: existiam
como “despropósitos” ou impropriedades do discurso diário, da linguagem das pessoas
iletradas, das crianças, dos loucos, dos idiotas, ou quanto muito, dos versos extraídos da
poesia nonsense.
Fica evidente a razão pela qual Carroll e Lear tenham despertado o interesse que
despertaram - e ainda despertam-, nos filósofos, lingüistas, psicanalistas... em todos que
estudaram a linguagem e analisaram a rede simbólica de seus livros. É Martin Gardner, em
sua edição comentada das Alices de Carroll (2002), por exemplo, que chega a afirmar que “é
apenas porque adultos – cientistas e matemáticos em particular – continuam a apreciá-lo que
os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada”. (GARDNER, 2002, p. vii). Mas, mesmo
considerando esse interesse, não podemos cometer o equívoco de pensar que as “dificuldades”
das obras de Carroll quanto à leitura tornam-se empecilho para as crianças.
Palo e Oliveira, no livro Literatura Infantil: Voz de Criança (2006), ao questionarem o
conceito tradicional do ser infantil e questionarem a função puramente utilitário-pedagógica
que se atribui aos livros infantis, ressaltam que poucos autores entenderam tão bem o fato de
que a literatura infantil deve também privilegiar o poético da linguagem, colocando em
prática uma nova forma de educação, a presidida pela palavra poética, como Lewis Carroll
(PALO e OLIVEIRA, 2006, p.17). O autor das Alices ofereceu às crianças um “espaço no
qual a linguagem informa, antes de tudo, sobre si mesma. Linguagem-coisa com carnadura
concreta, desvencilhando-se dos desígnios utilitários de mero instrumental”. (PALO e
OLIVEIRA, 2006, p. 11). Considerado pelas estudiosas “um dos inventores no campo da
literatura infantil”, Carroll, em sua Alice no País das Maravilhas, investiu como ninguém
num verdadeiro projeto artístico, simultaneamente gráfico, plástico e literário (PALO e
OLIVEIRA, 2006, p.17).
Cecília Meireles, em seu livro Problemas da Literatura Infantil (1984), afirma que o
bom livro é aquele cuja produção se deu independentemente do público alvo (crianças ou
adultos, homens ou mulheres). O que caracteriza uma leitura agradável é aquela em que o
leitor resolve voltar, reler, discutir, apreciar. O livro infantil deve seguir o mesmo parâmetro.
19
Muitos livros que são lidos na infância permanecem guardados na memória de jovens e
adultos que não se cansam de regressar as suas histórias favoritas.
A escritora brasileira também ressalta que as qualidades estéticas dos livros de Lewis
Carroll, sobretudo o caráter instigante, provocativo, do “obscuro”, do “misterioso”, das
aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice através do Espelho, sempre surpreendem
“os que, como Rousseau, julgam que a clareza é qualidade indispensável a um livro infantil”,
clareza que só poderia estar em histórias “que não confiam na visão poética das
crianças”.(MEIRELES, 1984, p.113)
De acordo com Cecília Meireles, a obra de Carroll provoca os leitores (adultos ou
crianças) exatamente pelo mundo “obscuro” da imaginação. As Alices atraem justamente
pelas características que dizem respeito ao maravilhoso e ao nonsense, tão bem explorados
pelo escritor inglês na construção dos personagens, do mundo em que habitam, e da própria
linguagem. Nesse “reino obscuro”, como assinala a escritora brasileira, “palpita uma claridade
secreta: aquele radioso mistério que a criatura humana, desde o nascimento, pressente
consigo, e conserva num zeloso silêncio”. Trata-se de uma “presciência”, que traz à cena “a
platônica recordação de sabedoria”, mas que, depois, “o mundo, as circunstâncias, as
transigências tiram a alguns de nós”. (MEIRELES, 1984, p.113-114). Provavelmente quando
abandonamos o “núcleo” de nossa alma, a infância (BACHELARD, 1988), e esquecemos o
ser.
Na visão da escritora, não há, no quadro de referência da Literatura Infantil do século
XIX, caso tão interessante quanto o de Lewis Carroll. O que torna únicos os livros de Carroll
é o fato de que, estruturados com elementos da realidade, eles sejam tão mais ricos do
maravilhoso que qualquer história de fadas:
Nem os contos de Perrault, nem os de Grimm, nem os de Andersen se aproximam
desse deslumbramento. Pois em todos os outros, o maravilhoso [os objetos
mágicos, as fórmulas encantatórias, as fadas, etc] consiste em tornar possíveis as
coisas desejadas e que por este ou aquele motivo são inacessíveis ou difíceis.
(MEIRELES, 1984, p.105)
Para Cecília Meireles, nos livros de Carroll, ao contrário dos contos de fadas, o que se
descobre (a própria Alice e também o leitor) é que o que existe realmente de maravilhoso está
nas coisas cotidianas e em nós (MEIRELES, 1984, p. 106). Carroll nos apresenta um mundo
“diferente e conhecido”, fantástico e insólito, o do País das Maravilhas, que acontece quando
Alice cai na toca do coelho ou atravessa o espelho. A literatura de Carroll descortina-nos o
mundo do imaginário, construído com fragmentos da nossa realidade, mas regido pelas regras
20
desconhecidas do sonho, do onirismo, do devaneio poético, do nonsense e, por isso mesmo,
com sentidos outros e com outras direções.
Nas palavras de Held, é essa relação do real com o imaginário na literatura fantástica
(maravilhosa) que estabelece o estreito vínculo com a infância:
Se o fantástico, a meio caminho do real e do irreal, é essa zona fronteiriça
inatingível, crepúsculo, cão e lobo em que os contornos se misturam esse “outro
lado do sonho” de que nos fala Hugo, esse “reverso do espelho” de Lewis Carroll,
perspectiva em que o cotidiano toma outra aparência, em que vemos todas as coisas
de maneira diferente, não mantém, por isso mesmo, estreita relação com a infância?
(HELD, 1980, p.39)
As Alices, onde se faz presente esse jogo irônico, essa “mistura”, do mundo real e do
mundo imaginário, simbolizam, na opinião de Cecília Meireles, as aspirações do humano para
romper as barreiras do que julgamos ser “realidade”. Com efeito, como bem nos diz Davi
Arrigucci Jr., em seu curto, mas aguçado, ensaio “Alice para adultos” (1999), não parece ser
boa política encarar as Alices de Lewis Carroll como leitura para adultos com o propósito de
valorizá-las, nem ser conveniente “inverter o equívoco e vê-las como leitura para crianças”.
De acordo com o crítico, “Esticar e encolher são possibilidades nada desprezíveis de Alice.
Grandes e pequenos compreenderão seu significado em dimensões diversas”. (ARRIGUCCI
JR., 1999, p. 141) Diversos são os aspectos estruturantes do universo de Carroll que,
entretanto, não devem deixar escapar o decisivo, o fascínio poético, que emana das aventuras
insólitas de Alice. Como bem nos mostra o crítico brasileiro,
A dificuldade fundamental da crítica diante das Alices é conseguir a perspectiva
adequada para uma visada abrangente, uma interpretação realmente inclusiva,
capaz de dar conta dos múltiplos aspectos do texto sem mutilar sua relativa
autonomia de obra literária. (ARRIGUCCI JR., 1999, p. 142)
Por essa razão, Cecília Meireles chama atenção para um dos temas centrais das
aventuras da menina Alice e seus efeitos de sentido/não-sentido: “os pequenos leitores de
Alice tomarão como gracejo essa dúvida sobre a personalidade, essa indecisão da vida
exposta ao tempo”, “mas nós, os grandes, ai de nós que sabemos da sua íntima verdade, e nos
curvamos para ela, refletindo. Um dia, os pequenos leitores se encontrarão com essa pergunta
que na infância os fez rir: e compreenderão que era só aparente a sua futilidade”.
(MEIRELES, 1984, p. 107) Nos próximos capítulos do nosso trabalho, desenvolveremos essa
questão apontada por Cecília Meireles.
21
2. “EM QUE SENTIDO, EM QUE SENTIDO?”. “QUAL CAMINHO TOMAR?”
PERGUNTA ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
“Já vi muitas vezes um gato sem sorriso, mas um sorriso
sem gato! É a coisa mais curiosa que já vi na minha
vida!”
Lewis Carroll
Em Lógica do Sentido (2009), Gilles Deleuze aponta Alice no País das Maravilhas
como obra que nos permite compreender a percepção humana, a nossa capacidade de
compreender, interpretar, dar sentido ao mundo e a nós mesmos. Para o filósofo, a obra de
Carroll trata de acontecimentos puros:
Quando digo ‘Alice cresce’, quero dizer que ela se torna maior do que era. Sem
dúvida, não é o mesmo tempo que ela é maior e menor. Mas é ao mesmo tempo que
ela se torna um e outro. Ela é maior agora e era menor antes. Mas é ao mesmo
tempo, no mesmo lance, que tornamos maiores do que éramos e que nos fazemos
menores do que nos tornamos. Tal é a simultaneidade de um devir cuja propriedade
é furtar-se ao presente. Na medida em que se furta ao presente, o devir não suporta
a separação nem a distinção entre do antes e do depois, do passado e do futuro.
Pertence à essência do devir avançar, puxar nos dois sentidos ao mesmo tempo:
Alice não cresce sem ficar menor e inversamente. O bom senso é a afirmação de
que, em todas as coisas, há um sentido determinável; mas o paradoxo é a afirmação
dos dois sentidos ao mesmo tempo. (DELEUZE, 2009, p. 1)
Logo depois, chama a atenção para o fato segundo o qual, semelhantemente à
interpretação que os estóicos dão, “o único tempo dos corpos e estados de coisas é o presente”
(DELEUZE, 2009, p. 3). Transitando em universo estranho, o País das Maravilhas, Alice
perde o controle de suas formas, de sua razão e até mesmo de sua identidade pessoal. Essa
incerteza pessoal, o caráter dubitativo da personagem ao aventurar-se, ao perigar-se nas
profundezas da toca do coelho, não é pura exterioridade ao que se passa, ela é, na visão de
Deleuze, a estrutura mesma do próprio acontecimento que interroga a linguagem, “na medida
em que vai nos dois sentidos ao mesmo tempo” e fragmenta, recorta, dissolve, o sujeito
segundo esta dupla direção. Destrói-se, então, o bom senso como sentido único; desconstróise, assim, o senso comum como designação de identidades fixas. Estamos, conforme Deleuze
compreende, no paradoxo. (DELEUZE, 2009, p. 3-5). O universo mítico narrado por Carroll
perturba, atravessa o sentido, confundindo-o, desafiando a lógica comum, fundamentada no
pensamento dicotômico e na relação centro-periferia.
22
Deleuze toma o conceito de sentido como direção, rumo, caminho. Como nas Alices
há sempre problemas que afrontam a percepção daquilo que seja crível pela lógica “desde que
Aristóteles a fundou”
6
ou pelo senso comum, o sentido é tomado pelo filósofo como
percepção e sempre é correlacionado com o contra-senso, com o nonsense. Em Alice no País
das Maravilhas, a simultaneidade dos sentidos, ou seja, das direções, provoca rupturas,
torções, na percepção do devir, gerando o nonsense do País das Maravilhas, e da própria
Alice. Discute-se, então, o conceito de sentido, relacionando-o com os de paradoxo, nãosentido, bom senso e senso comum.
De acordo com Deleuze “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o
atributo do estado de coisas” (2009, p.23). Para o filósofo, o sentido está entre as palavras e as
coisas, é um acontecimento, um devir. Por essa razão, não se trata de buscar o sentido de um
acontecimento, uma vez que “o acontecimento é o próprio sentido. O acontecimento
pertence essencialmente à linguagem”. (DELEUZE, 2009, p.23)
Na proposição/ sentença, conforme Deleuze, há três relações distintas: a designação ou
indicação, a manifestação e o significado. A designação ou indicação é a relação entre
proposição e estado de coisas exteriores, é o que faz a proposição ser verdadeira ou falsa,
aponta o objeto físico ou o estado de coisas. Designar é apontar, é perceber real ou não-real o
que é proposto. Deleuze define a manifestação como sendo a relação da proposiçao ao sujeito
que fala, circunscrevendo-se ao domínio pessoal, implica a veracidade e o engano, não mais o
verdadeiro e o falso. Trata-se do psicológico, da atividade mental do sujeito que se expressa
na proposição. Já o significado refere-se às relações da palavra com conceitos universais.
Define-se pelo conceito em que a proposição não interfere senão como elemento de
“demonstração”, no sentido de premissa ou conclusão. Desse modo, Deleuze chega a uma
conclusão-questionamento: “o círculo da proposição é formado pela designação, manifestação
e significação. Mas, onde pode ser encontrado o sentido de uma proposição?” (DELEUZE,
2009, p. 18)
É a partir daí que Deleuze sublinha que o sentido se diferencia tanto do objeto físico
(designação), como do vivivido psicológico e das representações mentais (manifestação) e
dos conceitos lógicos (significação): o sentido é a quarta dimensão da proposição; e, segundo
os estóicos, denomina-se “acontecimento” (DELEUZE, 2009, p.20). O sentido, assim, é o
6
Referimos à expressão de Guimarães Rosa em “Desenredo”, conto de Tutameia. No contexto, o narrador faz
um jogo de duplo sentidos, uma vez que temos aí, se considerarmos a realização fonética, melódica / rítmica das
palavras “a” e “fundou”: Aristóteles fundou a lógica, Aristóteles “afundou”. Cf. ROSA, João Guimarães.
Tutameia. In: _. Ficção Completa, vol II. São Paulo: Aguilar, 1994, p.555-557.
23
expresso da proposição, e como o expresso não existe fora da sua expressão, é um
acontecimento puro que não existe, mas que insiste ou subsiste na proposição.
Se, para o filósofo francês, “toda designação supõe o sentido e que nos instalamos de
antemão no sentido para operar toda designação”, identificar o sentido à manifestação tem
maiores chances de êxito, uma vez que os próprios designantes não têm sentido a não ser em
função de um Eu que se manifesta na proposição. Este Eu é realmente primeiro, pois ele é o
que faz começar a fala.
É Alice, e também Humpty Dumpty, conforme assinala Deleuze, que nos alerta sobre o
caráter “paradoxal” do “começo” do dizer e conclui que o sentido reside nas crenças (ou
desejos) daquele que fala: “se falássemos somente quando alguém nos fala, nunca ninguém
diria nada”, observa Alice; “Quando emprego uma palavra, ela significa o que eu quero que
ela signifique, nem mais nem menos... A questão é saber quem é o senhor e isso é tudo.”, diz
Humpty Dumpty. (DELEUZE, 2009, p.14 e p.18.).
Então, para Deleuze, “Quando designo alguma coisa, suponho sempre que o sentido é
compreendido e já está presente (...) instalamo-nos logo ‘de saída’ em pleno sentido. O
sentido é como a esfera em que estou instalado para operar as designações possíveis e mesmo
pensar suas condições”. No entanto, “nunca digo o sentido daquilo que digo. Mas em
compensação, posso sempre tomar o sentido do que digo como objeto de uma outra
preposição, da qual, por sua vez, não digo o sentido. Entro então numa regressão infinita do
pressuposto.” (DELEUZE, 2009, p. 31).
Lewis Carroll, conforme assinala Deleuze, é quem explicava “que as possibilidades de
interpretação eram infinitas” (2009, p.48). Circulação infinita, sentidos produzindo sentido. O
sentido é produzido por essa “circulação”, “como sentido que volta ao significante, mas
também sentido que volta ao significado. Em suma, o sentido é sempre um efeito. Não
somente um efeito no sentido casual; mas um efeito de superfície, efeito de posição, efeito de
linguagem”. (DELEUZE, 2009, p. 73)
Tais considerações levam-nos a entender o que vem a ser “senso comum” para
Deleuze: “nós o dizemos comum, porque é um órgão, uma função, uma faculdade de
identificação, que relaciona uma diversidade qualquer à forma do Mesmo”, esse “mesmo”
seria, então, “uma fase determinada do tempo no sistema individual considerado”
24
(DELEUZE, 2009, p. 78). O “senso comum”, nas palavras do filósofo, “identifica”,
“reconhece”, “não menos quanto o bom senso prevê” (2009, p. 80).
Falamos de “bom senso” concernente a uma direção, acrescenta Deleuze. O “bom
senso” é o “senso único”, ele “exprime a existência de uma ordem de acordo com a qual é
preciso escolher uma direção e se fixar a ela. Esta direção é facilmente determinada como a
que vai do mais diferenciado ao menos diferenciado (...)” Daí Deleuze afirmar que a função
essencial do “bom senso” é a de prever:
Segundo ela [a direção], orientamos a flecha do tempo, uma vez que o mais
diferenciado aparece necessariamente como passado, na medida em que ele define
a origem de um sistema individual e o menos diferenciado como futuro e como fim.
Esta ordem (...) é instaurada com relação ao presente, isto é, com relação a uma
fase determinada do tempo escolhida no sistema individual considerado.
(DELEUZE, 2009, p.78)
A obra poética de Lewis Carroll, sobretudo sua “trilogia do nonsense” 7, construída
principlamente através dos intrigantes e divertidos jogos de linguagem e paradoxos
semânticos, das suas figuras, espelhadas e invertidas, de cartas de baralho sem espessura, e do
encontro da menina Alice, que cresce e encolhe o tempo todo, com inusitados seres como a
Lagarta e o Gato de Cheshire, permite-nos pensar sobre a “lógica do sentido”. “Em que
sentido, em que sentido?, perguntamos juntamente com Alice. Mas a pergunta, como o
filósofo nos explica, “não tem resposta, porque é próprio do sentido não ter direção, não ter
“bom sentido”, mas sempre as duas ao mesmo tempo, em um passado-futuro infinitamente
subdividido e alongado”. (DELEUZE, 2009, p. 79).
“Infinitamente subdividido e prolongado” é um dos aspectos do sentido, e eis o
paradoxo da regressão. Segundo Deleuze, quando não se diz o sentido do que foi dito, esse
revela a “impotência” daquele que fala, visto que esse não tem domínio sobre o sentido do
que quer dizer; e revela, ainda, o poder que a linguagem proporciona para falar sobre as
palavras. O sentido das coisas, Deleuze enfatiza, não está nas coisas propriamente ditas, mas
sim nas outras coisas. O sentido é o quanto alguma coisa faz sentido diante de outra.
Em seu livro Anotações sobre Leitura e Nonsense, Lúcia Kopschitz Xavier Bastos
(2001), afirma que nos textos de Carroll percebemos uma reativação do processo do sentido
em um nível das intuições, do imaginário, do aleatório, mas não se trata da morte do sentido.
Em Alice temos um ser que é “ameaçado e atacado pela linguagem”, como nos diz Bastos
7
A trilogia do nonsense compõe-se das seguintes obras: os romances Alice’s Adventures in Wonderland e Alice
througt the Looking-Glass e o célebre poema The Huting of the Snark, conforme Uchoa (1980, p. 10) explicita.
25
(2001, p. 20-21). Entretanto, não se pode dizer que o nonsense seja um “caos textual”, uma
vez que com ele abandona-se a regra, o aspecto gramatical, mas ainda se encontra na língua.
Talvez seja por essa razão que alguns teóricos do nonsense, e entre eles está o próprio
Deleuze, o definam como objeto paradoxal, fronteira ou limite. O nonsense está entre o
gramatical e o agramatical, entre a ordem e a desordem da língua, não ultrapassa apenas um
(01) limite. Como espaço de jogo, desconsidera as relações afetivas já estabilizadas e tem
como material a ser trabalhado as palavras, cujo efeito inesperado, repentino, é o humor.
E, o mais importante, se o nonsense, conforme Leite afirma (1980, p.20) é “pura
superficie”, se é “um processo em si mesmo”, “sem qualquer outra finalidade” que não seja
ele mesmo – daí sua relação com o jogo na obra de Lewis Carroll - , o valor do nonsense é o
de chamar atenção para a linguagem, para o fato de a linguagem ser processo, algo do qual
não se pode estar fora, algo a ser inventado, descoberto, percebido, experimentado, vivido,
não apenas conhecido. É algo que se dá ao homem, ser de linguagem, através da catarse
cômica, da presença sensível do humor, que tem o poder de desfazer as verdades absolutas,
estagnadas, que petrificam nossa percepção do mundo.
O uso que Lewis Carroll faz do duplo sentido, de portmanteaux (palavras-valise), das
alusões, das paródias aponta para o caráter “real”, “produtivo”, “operativo”, do nonsense. A
esse respeito poderíamos indagar: qual seria o papel das inúmeras referências que
encontramos nas obras do escritor inglês, sejam elas poemas infantis, contos de tradição
popular ou expressões e costumes locais, e que foram tão bem pontuadas por Sebastião Uchoa
Leite? (LEITE, 1980, p.15)
As Alices de Carroll nos dão os sentidos, as direções e percepções, do nonsense que
constitui a linguagem, o homem, o mundo, nas suas construções (ficções, fábulas). As
aventuras de Alice no “País da Linguagem” cumprem bem o papel que a poesia tem na vida
do homem, sobretudo na vida da criança: estimular o pensamento criativo e, portanto, a partir
de seu caráter poético, educá-la, instruí-la.
Estimulando poeticamente o leitor, Carroll
propõe, para os problemas lógicos e
semânticos, paradoxos, ao afirmar dois sentidos ao mesmo tempo nas inversões/reversões das
estórias. São reversões de tamanho, reversões na ordem do tempo, reversões de proposições,
reversões de causa e efeito, entre outras que abundam nas Alices e foram destacadas pelo
26
próprio Deleuze em sua Lógica do Sentido e por Sebastião Uchoa Leite em seu prefácio à
tradução que faz dessas obras de Carroll.
Por essa razão é que as aventuras da menina Alice despertam tanto interesse,
principalmente das crianças: as aventuras de Alice, uma menina, aparecem aos olhos dos
leitores mirins como se fossem deles mesmos. Sabem bem o que é dar de cara com a
linguagem e sua ludicidade, com os sentidos e não-sentidos, com as variadas oposições de
sentido, com os diferentes tipos de “paradoxos” e “jogos”. As crianças não “sabem” de
significados, sabem do sentido que as coisas fazem para elas, que é expresso somente por
elas, excessos de sentido, pelo nonsense. E Muitos são os exemplos, como bem nos mostra
Sebastião Uchoa Leite em sua introdução à obra de Carrroll:
Alice e a rainha Vermelha correm o máximo para ficar no mesmo lugar; a Rainha
oferece biscoitos secos para matar a sede de Alice; a Rainha Branca grita de dor
antes de ser picada no dedo; o mensageiro Hatta cumpre a sentença antes do
julgamento; o mensageiro Haitha grita no ouvido do rei Branco para contar um
segredo; um relógio que reverte o correr do tempo, etc. (LEITE, 1980, p.13)
Na habilidade de Carroll com o jogo do nonsense e seus paradoxos é que podemos
apreender a ludicidade da linguagem, bem como a inventividade de seu pensamento poético.
Como pensar a semântica de nomes e coisas? As palavras até adquirem individualidade nas
Alices. “Ninguém”, por exemplo, quando, conforme diz Leite, “para Alice, ninguém está
vindo pela estrada; para o Rei, Ninguém (isto é, alguém) está vindo pela estrada” (LEITE,
1980, p. 26). Também podemos perceber que um dos jogos preferidos por Carroll é o de
desnudar as armadilhas dos raciocínios lógicos, mostrando que problemas lógicos são também
problemas semânticos. O interesse do criador das Alices é, a partir das conversas entre Alice e
os habitantes do País das Maravilhas, colocar em questão a “lógica dos sentidos”. Muitos
sãos os “desentendimentos” provocados, por exemplo, pelos diferentes significados (pelas
diferentes direções) que cada um dos personagens pode atribuir a uma palavra, mas
destacaremos quatro: 1) entre Alice e a Pomba; 2) entre Alice e a Tartaruga Falsa; 3) entre
Alice e o Gato de Cheshire e, 4) entre o Rei de Copas e o Carrasco.
No capítulo V, “Conselho de um Lagarta” (“Advice from a Caterpillar”), o encontro
entre Alice e a Pomba se dá quando a menina, depois de comer um pedaço do outro lado do
cogumelo a fim de reverter a situação de pequenez em que se encontrava exatamente porque
havia comido uma primeira metade do mesmo cogumelo, cresce tanto que ultrapassa as
árvores e atinge os céus com seu “novo” tamanho. Nesse momento, uma pomba colide com a
cabeça de Alice e grita “Cobra!”. A Pomba afirma que Alice é uma cobra, a menina,
27
indignada, nega ser uma cobra. A Pomba continua insistindo que se trata de uma cobra e
pergunta à Alice se a menina come ovos. Diante da resposta afirmativa de Alice, que antecipa
a lógica da ave e observa que comer ovos não significa, obrigatoriamente, ser cobra, a Pomba
permanece gritando estar diante de uma cobra. A pomba afirma que conquanto Alice coma
ovos, ela é de fato, uma cobra. Ou seja, na perspetiva de uma pomba, de acordo com a sua
lógica, todo aquele que come ovos se insere no signo “cobra”, cujo significado é tão somente
“comer ovos”. Na perspectiva de Alice, entretanto, “cobra” remete a um significado muito
mais específico, que não se traduz em “devoradora de ovos”.
O encontro de Alice com a Falsa Tartaruga, no capítulo X, também é bem
exemplificativo. Quando a Falsa Tartaruga faz referência à chamada “Quadrilha das
Lagostas”, diz à menina: "Talvez você não tenha vivido muito tempo no mar...e talvez nunca
tenha sido apresentada a uma lagosta..." 8(CARROLL, 2010, p.116). A Falsa Tartaruga
descreve para Alice a "Quadrilha das Lagostas", mas a menina fica sem entender do que se
trata e mal pode “imaginar” essa dança, que é peculiar ao mundo marinho. Para Alice,
lagostas são apenas crustáceos que podem ser comidos em um jantar. Para os habitantes do
País das Maravilhas, "Quadrilha de Lagostas" tem uma significação clara e palpável. Para a
garota, os dois significantes diferentes (“quadrilha”
9
e “lagostas”) são completamente
estranhos um ao outro quanto ao significado. Ao serem unidos, não fazem o menor sentido
juntos, não podem compor uma unidade de sentido. "Quadrilha de Lagostas" ficaria, então,
restrito apenas àqueles cuja visão de mundo seria a marinha.
Ainda sobre a Tartaruga Falsa, convém recorrermos a Sebastião Uchoa Leite que
esclarece as explicações da Rainha à Alice sobre o que seja uma Tartaruga Falsa: “É aquilo
que se faz a Sopa de Tartaruga Falsa”, ou seja, Carroll faz referência à sopa que se fazia, na
Inglaterra, de carne de vitela, mas que levava o nome de sopa de tartaruga. Por isso o nome
dado à personagem. A Falsa Tartaruga afirma para Alice que antes era “verdadeira”. Toda a
estória que a Tartaruga conta a Alice é cheia de trocadilhos: o mais conhecido é o nome da
professora da Tartaruga que a torturava: “Torturuga”. (PALO e OLIVEIRA, 2006, p.18).
Todas as matérias escolares citadas pela Tartaruga são trocadilhos com as reais.
8
“You may not have lived much under the sea –“ (“I haven’t,” said Alice) – “and perhaps you were never even
introduced to a lobster -” (CARROLL, 2000, p.100)
9
Segundo Gardner (2000), a quadrilha, uma das mais famosas e dificeis danças no tempo de carroll, era um tipo
de dança em cinco.
28
Como se vê, Alice se aventura no país das maravilhas do paradoxo, do nonsense, ou
seja, da própria linguagem. Um lugar de louco, se ela, e também o leitor, considerar o
imperativo categórico do Gato de Cheshire a respeito dos habitantes do País das Maravilhas,
quando diz à Alice que procure a Lebre de Março ou o Chapeleiro Maluco, ambos loucos.
Diante da resposta de Alice, que afirma não querer se meter com gente louca, o Gato protesta:
"Oh! É inevitável. Somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca."
10
(CARROLL,
2010, p.77) E, quando Alice questiona, o Gato responde que ela só poderia ser louca, ou
então não teria ido parar naquele lugar. Obviedade pura do Gato: para ele, habitante do País
das Maravilhas e acostumado com o comportamento ilógico de todas as criaturas do país,
seria mais do que natural afimar que Alice fosse louca também - caso contrário, não estaria
ali. “Louco” não remete a pessoas com alguma desordem de origem psicológica, como Alice
supôs, e sim a uma característica inerente à vida dos habitantes do País das Maravilhas. O
signo "louco" possui no País das Maravilhas outro sentido.
E como “decapitar” o Gato de Cheshire? Trata-se de um problema lógico, mas também
semântico: qual seria mesmo o sentido de “decapitar”? Lewis Carroll coloca seus
personagens, e também seus leitores, diante dessa questão no capítulo VIII, “The Queen’s
Croquet- Ground” (“O campo de croqué da Rainha”), em que o Rei de Copas quer mandar
decapitar o Gato de Cheshire e o Carrasco se recusa porque não pode decapitar uma cabeça
sem corpo, enquanto o Rei acha que desde que haja cabeça pode haver decapitação.
Em um dos capítulos de Lógica do Sentido, Deleuze destaca a existência dos
paradoxos do absurdo e dos objetos impossíveis, indicando que as proposições que designam
objetos contraditórios evocam um sentido. Os objetos impossíveis são “objetos sem pátria”,
são “puros acontecimentos ideais inefetuáveis em um estado de coisas” (DELEUZE, 2009, p.
38). “Elemento impossível” é como Deleuze vê o nonsense (2009, p. 69). O nonsense tem
por função, segundo o filósofo francês, “percorrer as séries heterogêneas e, de um lado,
coordená-las, fazê-las ressoar e convergir e, de outro, ramificá-las, introduzir em cada uma
delas disjunções múltiplas.” Há sempre um desequilíbrio, pois as séries são opostas,
exemplificando-o com pares variáveis: [...] ele é ao mesmo tempo excesso e falta, casa vazia e
objeto supranumerário, lugar sem ocupante e ocupante sem lugar, ‘significante flutuante’ e
significado flutuando.” (DELEUZE, 2009, p. 69).
10
“Oh, you ca’n’t help that,” said the Cat: “We’re all mad here. I’m mad. You’re mad.” (CARROLL, 2000,
p.66)
29
As aventuras de Alice podem ser apreendidas também como uma experiência com
esse “elemento impossível”, tão grande é o número de episódios que encenam essa forma de
construção do nonsense. Em Alice no País das Maravilhas, os “desentendimentos” das
conversas entre a protagonista e os habitantes do mundo das maravilhas chegam a um
desfecho que desnuda as diferentes visões de mundo, os recortes semióticos das personagens
e um ordenamento (desejável!) dos sentidos, mas que, em se tratando do universo de Carroll,
não pode ser compreendido como mera “solução”, como encerramento definitivo, e sim como
um paradoxo, tal qual define Deleuze. Esse é mesmo o País das Maravilhas, o lugar do
paradoxo, do nonsense (não-sentido), que coloca em suspensão o senso comum, o bom senso.
O mistério do encantamento que as crianças tem pelo nonsense dá-se pela liberdade de
formar inúmeros sentidos sem adiantar procurá-los, pois não existem se não inventados,
imaginados. Quando, todavia, o leitor, assim como a menina Alice, depara com uma situação,
uma pessoa, uma palavra, para a qual não há “explicação” (não há sentido), ele é levado a
pensar, sentindo e imaginando, as coisas. As aventuras que Lewis Carroll nos conta não nos
permitem ficar limitados às designações já estabelecidas para elas. O que é realmente
importante em Alice no País das Maravilhas, e em qualquer livro para crianças, é propor ao
leitor, sobretudo à criança, percepções de sentidos em vez de significados já estabelecidos,
sugerir pensamentos mais amplos e uma educação do espírito, uma formação do ser poético.
30
3. FOI ASSIM QUE, BEM DEVAGAR, O PAÍS DAS MARAVILHAS FOI URDIDO,
UM EPISÓDIO VINDO A OUTRO SE LIGAR... E OS POÇOS DA FANTASIA
NUNCA MAIS VÃO SE ESGOTAR
Depois, por súbito silêncio tomadas,
Vão em fantasia perseguindo
A criança-sonho em sua jornada
Por uma terra nova e encantada,
A tagarelar com bichos pela estrada
-Ouvem crédulas, extasiadas.
Lewis Carroll
Viajar ao País das Maravilhas é experimentar uma série de “acontecimentos puros”
(DELEUZE, 2009, p.1), uma tessitura de fenômenos de sentido e percepção. É se aventurar
no mágico, no imaginário, no paradoxal do ser e da linguagem. Os caminhos, os sentidos (as
direções) ora se bifurcam, ora se cruzam, sempre confundindo quem por lá passa, sempre
enlaçando linguagem e ser, linguagem e inconsciente.
Lá, um lugar que não existe (?), o movimento, a velocidade, o vertiginoso, a
simultaneidade, as incertezas imperam. As noções de perto e longe, de grande e pequeno, são
incertas, instáveis, movediças, moventes. Sobre todas elas governa o DEVIR (não a Rainha de
Copas). Pouco importa o sentido e a direção. O antes e o depois se confundem! Tudo acontece
ao mesmo tempo. Alice pode estar em qualquer parte. Isso provoca rupturas na percepção do
devir gerando o nonsense.
O País das Maravilhas é o lugar onde estão todos os lugares do mundo. Então esse país
só pode ser habitado pelo Coelho Branco, pelo Gato de Cheshire, pelo Chapeleiro Maluco,
pela Lagarta Azul que fuma narguilé, pelas figuras, espelhadas e invertidas, de cartas de
baralho sem espessura. Por isso é que lá acontecem as situações mais inusitadas que se pode
imaginar.
Conforme apresentamos no capítulo anterior, a interpretação que Deleuze faz da obra
de Carroll leva em consideração essa especificidade do País das Maravilhas. Esse lugar
visitado, “em sonhos”, por Alice, traz, de modo especial, a pergunta do paradoxo,
considerando-se que o sentido mantém uma relação privilegiada com o nonsense,
(des)orientando-se sempre em duas direções ao mesmo tempo. Paixão do pensamento, como
puro devir, como "identidade infinita nos dois sentidos ao mesmo tempo”, “torções”, “dobras”
de futuro e passado, véspera e amanhã, mais e menos, demasiado e insuficiente, ativo e
31
passivo, causa e efeito, que apontam para o plano do acontecimento que interroga a
linguagem e o ser de todos que ali se encontram.
Carroll cria um universo ficcional caótico, cujos acontecimentos se dão em alta
velocidade na narrativa. Por não possuir um ordenamento, um fluxo objetivo, este mundo
transcende o tempo histórico na busca do imaginário, destruindo o caráter seqüencial de
sentido daquele. A existência do País das Maravilhas aponta para o descompasso que divide o
homem entre a linearidade e a circularidade do tempo, circularidade inerente ao mito e à
natureza. Daí as constantes referências que os habitantes do País das Maravilhas fazem ao
tempo, aos relógios, sobretudo os estranhos participantes de um “Chá Maluco”: o Chapeleiro,
a Lebre de Março, o Caxingulé que quase enlouquecem Alice quando explicam como o tempo
“funciona” naquele lugar.
Chevalier (2006, p. 876-877) em seu Dicionário de Símbolos, esclarece sobre a
simbologia das formas redondas ou quadradas dos relógios. A forma redonda simbolizaria a
ilusão humana de escapar à roda inexorável do tempo e de dominar a terra, impondo-lhe a sua
medida, a sua ordem. E a quadrada simbolizaria o espaço, a terra e a matéria. Chevalier
também fala do limite na duração do tempo, ao considerarmos linguagem e percepção
humanas, daí a distinção com a duração do mundo do Além, a Eternidade. De acordo com
Chevalier, o tempo humano é finito e o divino infinito. Haveria entre eles alguma medida
comum possível? Sair do tempo seria sair completamente da ordem cósmica e entrar em uma
nova ordem ou noutro universo. A experiência do tempo é o horizonte doador de sentido para
o homem.
Pode-se dizer que os princípios que regem o País das Maravilhas são os princípios
cosmogônicos, presentes desde o período clássico, nos mitos e na poesia grega, como
podemos perceber em Teogonia, de Hesíodo (2001). O princípio cosmogônico é também o
princípio que rege a construção do labirinto, conforme podemos entender nas “Proposições
sobre labirinto” de Autran Dourado (2006).
Em Teogonia (2001), lemos que no princípio era o Caos, que em grego, no sentido
próprio e primordial, significa vazio, nada. É, portanto, do vazio mais total que o mundo
emerge. Mas é Hesíodo que também nos diz que o universo é caos, no sentido de que não é
perfeitamente ordenado, de que não se submete às leis plenas de sentido. Podemos entender,
então, que, no princípio, reinava a desordem total, depois, foi criada a ordem, o cosmos. O
32
Cosmos, portanto, caracteriza-se como criação a partir do Caos que estaria na origem das
significações.
É nessa direção que procuramos considerar, por exemplo, o cuidado de Martin
Gardner (2000), em seu livro The Annoted Alice, em apontar a importância de se ler as Alices
observando-se suas referências históricas e seus símbolos - trata-se de “instituições” e
“significados” criados pelos homens, sobretudo os da época vitoriana -, para que possamos
capturar toda a “imaginação e sabor” presentes na obra de Carroll. Assim como Homero e
todos os demais poetas que lidaram com a fantasia, ressalta Gardner, a obra de Lewis Carroll,
em especial as Alices, necessita de interpretação simbólica, mítica. Poderíamos dizer que, a
partir de um princípio cosmogônico, Carroll, “afasta-se” da ordem que rege o mundo para
estabelecer um sentido novo em sua arte.
Quando o homem imprime sentido a um mundo sem-sentido, quando dá ordem a um
mundo desordenado, ou um novo sentido / uma nova ordem ao que já havia sido significado /
ordenado, vemos a emergência do cosmos, da ordem, e ela faz ver as relações criadas pelo
homem: criamos instituições, instauramos significações imaginárias para o nosso mundo. Daí
o mundo comportar o caos e o cosmos ao mesmo tempo. O cosmos é um ordenamento do
caos, só possível por ser ele de alguma forma ordenável. Caos é personificação do Vazio
primordial, fonte de toda a criação (e, por essa razão, anterior a ela), anterior a qualquer
ordem do mundo. De acordo com Junito Brandão, a etimologia da palavra “caos” nos remete
ao “abrir-se, entreabrir-se, significa abismo insondável” (BRANDÃO, 1991, p. 184). O Caos
sempre se mantém aberto às possibilidades de criação, residindo, então, na origem das
significações. Diante da incapacidade de o homem dominar o Caos, ou noutras palavras,
diante do fato de a relação do homem com o mundo ser uma relação de criação de sentido, o
Caos, que não tem sentido, só pode ganhar um sentido. Caos e Cosmos se correspondem
reciprocamente. A existência de um está intimamente relacionada à do outro, são
inseparáveis; um não existe sem o outro.
Assim sendo, o País das Maravilhas desliga linguagem de contexto usual e convida ao
estranhamento do mundo. As aventuras de Alice são encontros fenomenológicos. Cada
episódio, cada encontro, com os habitantes desse mundo, guarda níveis de apreensão diversos.
Carroll constrói uma narrativa que convoca a capacidade de se reordenar as significações. Os
encontros de Alice conduzem a pensar a própria linguagem de modo que se torne linguagem
primeira, redefinindo os próprios limites do mundo. Como bem nos mostra Arrigucci Júnior
33
(1999, p. 143), “infância, jogo e linguagem” são os marcos essenciais do universo poético de
Carroll.
Alice entra nesse “mundo imaginário” pela toca do coelho. O primeiro título que
Lewis Carroll pensou dar à obra era Alice Under the Ground. Alice, ao cair na toca do coelho,
passa por um escuro túnel, descendo às profundezas da terra. Essa viagem ao País das
Maravilhas é, conforme descobrimos no último capítulo do livro, um sonho que Alice tem.
Conforme Autran Dourado (2005, p. 71), “só se sonha aquilo dentro de si bem enterrado e
esquecido.”
As sensações que a menina tem ao cair, ao “abismar”, podem estar ligadas aos
obstáculos que enfrentamos quando nos dirigimos a um porão desconhecido. Para Bachelard
(1996, p.36-40), o porão revela o ser obscuro, aquele que participa das potências subterrâneas.
Se sonharmos com o porão, iremos concordar com a “irracionalidade” das profundezas. Nesse
mesmo lugar, os seres mais lentos, menos saltitantes e mais misteriosos irão se “agitar”, darse a conhecer. O homem quer sempre evitar o porão: geralmente resiste a descer até lá para
ver, por exemplo, o que causa um ruído. Nas profundezas do “porão”, ele pode se deparar
com seus medos, seus monstros, seus “minotauros” e tentar vencê-los para conquistar uma
outra realidade, uma nova visão do mundo. Penetrar a profundidade da terra, a profundidade
da toca do coelho, representa um pouco disso. Também tem um pouco da experiência do
labirinto.
Ir para o País das Maravilhas é dirigir-se a um lugar labiríntico. Também a alma
humana é labiríntica. Segundo Autran Dourado (2005), o labirinto não é uma desordem e sim
uma nova ordem. Uma nova ordem que é codificada e cifrada em um sistema de signos. Se a
planta baixa do labirinto for conhecida, tudo será mais simples e será o fim, pois será possível
uma “decodificação” que, entretanto, não esgota o mistério de uma vez e para sempre. Para
ter acesso ao labirinto é necessário ter uma chave, que sempre se encontra no meio. Então,
como entrar nesse labirinto sem essa chave ou como sair de lá? É preciso atravessar,
experimentar, os caminhos e descaminhos do labirinto. Não se sabe o que se pode achar
dentro do labirinto. O que ele esconde? O que ele revela? Lá se pode ter um caos organizado,
a aventura, o perigo. O labirinto sempre leva a uma nova porta. Onde termina algo sempre
haverá o início de algo novo que se abre pela próxima porta.
Alice já se sentia perdida dentro de si antes de “cair no sono/no sonho” e isso se
reflete em seu devaneio. O País das Maravilhas é um labirinto, de caminhos que se bifurcam e
34
se cruzam, de portas que se abrem e se fecham. Toda vez que Alice “fecha uma porta”, outra
se “abre” e surgem novos lugares e personagens, novas situações, novos obstáculos para
transpor, novas questões para fazer e tentar responder. Alice vive situações de harmonia, mas,
logo depois, se vê em situações de conflito e instabilidade. Sempre que pensa ter tudo
acabado, logo aparece uma novidade, uma situação-problema para tentar superar e solucionar
Alice não sabe qual é e onde está a chave e como sair desse “labirinto”. No País das
Maravilhas, como nos diz Deleuze na abertura de Lógica do Sentido, “para além do prazer
atual” há sempre “algo diferente, um jogo do sentido e do não-senso, um caos - cosmos.”
(DELEUZE, 2009, s/p)
Mas a experiência do País das Maravilhas pode ser considerada a experiência do
labirinto “perfeito”. Segundo Dourado (2005), o perfeito labirinto tem um ponto de partida e
um ponto de chegada, uma entrada e uma saída. A experiência de Alice no País das
Maravilhas é a do labirinto perfeito porque tal experiência se “perfaz”, cumpre sua
destinação: tem um início (Alice segue o Coelho Branco e desce ao estranho mundo da toca
do Coelho) e um final (Alice, ao enfrentar Rei, Rainha, Valetes, todos que estavam no
julgamento, supera os obstáculos, acorda de seu sonho, instaura uma nova realidade para si
mesma, sai do labirinto).
Assim, Alice no País das Maravilhas não é trama de ações consecutivas, mas a
interpretação das ações que se submetem ao questionamento hermenêutico e às reações
mentais e emocionais das personagens, sobretudo das da menina Alice. Vejamos o drama
interior de Alice, quando se depara com as “portas” da entrada (que se relaciona
paradoxalmente com as da saída, visto que a lógica é outra):
“Dear, dear! How queer everything is to-day! And yesterday things went on just
as usual. I wonder if I’ve been changed in the night? Let me think: was I the same
when I got up this morning? I almost think I can remember feeling a little different.
But if I’m not the same, the next question is ‘Who in the world am I?’ Ah, that’s the
great puzzle” And she began thinking over all the children she knew that were of the
same age as herself, to see if she could have been changed for any of them.
I’m sure I’m not Ada,” she said, “for her hair goes in such long ringlets, and mine
doesn’t go in ringlets at all; and I’m sure I ca’n’t be Mabel, for I know all sorts of
things, and she, oh, she knows such a very little! Besides, she’s she, and I’m I, andoh dear, how puzzling it all is! I’ll try if I know all the things I used to know. Let me
see: four times five is twelve, and four times six is thirteen, and four times seven is –
oh dear! I shall never get to twenty at that rate! However, the Multiplication-Table
doesn’t signigy: let’s try Geography. London is the capital of Paris, and Paris is the
capital of Rome-no, that’s all wrong, I’m certain! I must have been changed for
Mabel! I’ll try and say ‘How doth the little-‘,” and she crossed her hands on her lap,
35
as if she were saying lessons, and began to repeat it, but her voice sounded hoarse
and strange, and the words did not come the same as they used to do:
“How doth the little crocodile
Improve his shining tail,
And pour the waters of the Nile
On every golden scale!
“How cheerfully he seems to grin,
How neatly spreads his claws,
And welcomes little fishes in,
With gently smiling jaws!”
“I’m sure those are not right words,” said poor Alice, and her eyes filled with tears
again as she went on, “I must be Mabel after all, and I shall have to go and live in
that poky little house, and have next to no toys to play with, and oh, ever so many
lessons to learn! No, I’ve made up my mind about it: If I’m Mabel, I’ll stay down
here! It’ll be no use their putting their heads down and saying ‘Come up again,
dear!’ I shall only look up and say ‘Who am I, then? Tell me that first, and then, if I
like being that person, I’ll come up: if not, I’ll stay down here till I’m somebody
else’-but, oh dear!” cried Alice, with a sudden burst of tears, “I do wish they would
put their heads down! I am so very tired of being all alone here!” (CARROLL, 2000,
p.22-24)
“Ai, ai! Como tudo está esquisito hoje! E ontem as coisas aconteciam exatamente
como de costume. Será que fui trocada durante a noite? Deixe-me pensar: eu era a
mesma quando me levantei esta manhã? Tenho uma ligeira lembrança de que me
senti um bocadinho diferente. Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é:
‘Afinal de contas quem sou eu?’ Ah, este é o grande enigma!” E começou a pensar
em todas as crianças da sua idade que conhecia, para ver se poderia ter sido trocada
por alguma delas.
“Ada com certeza não sou”, disse, “porque o cabelo dela tem cachos bem longos,
e o meu não tem cacho nenhum; é claro que não posso ser Mabel, pois sei todo tipo
de coisas e ela, oh! Sabe tão pouquinho! Além disso, ela é ela, e eu sou eu, e... ai, ai,
que confusão é isto tudo! Vou experimentar para ver se sei tudo que sabia antes.
Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes
sete é...ai, ai! Deste jeito nunca vou chegar a vinte! Mas a Tabuada de Multiplicar
não conta; vamos tentar Geografia. Londres é a capital de Paris, e Paris é a capital de
Roma, e Roma...não, está tudo errado, eu sei! Devo ter sido trocada pela Mabel!
Vou tentar recitar ‘Como pode...’”, e de mãos cruzadas no colo, como se tivesse
dando lição, começou a recitar, mas sua voz soava rouca e estranha e as palavras não
vieram como costumavam:
Como pode o crocodilo
Fazer sua cauda luzir,
Borrifando a água do Nilo
Que dourada vem cair?
Sorriso largo, vai nadando,
E de manso, enquanto nada,
36
Os peixinhos vai papando
Co’a bocarra escancarada!
“Tenho certeza de que estas não são as palavras certas” disse a pobre Alice, e seus
olhos se encheram de lágrimas de novo enquanto continuava. “Afinal de contas,
devo ser Mabel, e vou ter de ir morar naquela casinha apertada, e não ter quase
nenhum brinquedo com que brincar, e oh! Muitíssimas lições para aprender! Não
minha decisão, está tomada; eu sou Mabel, vou ficar aqui! Não vai adiantar nada
eles encostarem suas cabeças no chão e pedirem ‘Volte para cá, querida!’ Vou
simplesmente olhar para cima e dizer ‘Então quem sou eu? Primeiro me digam; aí,
se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo, se não, fico aqui embaixo até ser alguma
outra pessoa’...Mas, ai, ai!”exclamou Alice numa súbita explosão de lágrimas,
"queria muito que encostassem a cabeça no chão! Estou tão cansada de ficar assim
sozinha aqui!”(CARROLL, 2010, p.25-27)
No País das Maravilhas, Alice sofre tantas transformações. Está longe da família, da
escola, das atividades e círculos sociais próximos, e, por isso, em um lugar que não lhe
oferece “segurança”. Alice está longe de sua CASA, está dispersa no mundo, sem proteção e
agasalho. De acordo com Bachelard, (1996), a casa é o nosso canto no mundo, é preciso
sempre habitar uma casa. Alice, no País das Maravilhas, deverá aprender a habitar essa
“nova” casa, que é fruto do seu devaneio poético, da sua imaginação. Para Held (1980), o país
imaginário tem seu principio no lugar da infância real e ao mesmo tempo nos elementos
naturais de que se tem nostalgia. A paisagem imaginária reúne os desejos e as nostalgias do
leitor (criança ou adulto). De acordo com Bachelard (1996),
Quando, na nova casa, retornam as lembranças das antigas moradas, transportamonos ao país da Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial. Vivemos fixações,
fixações de felicidade. Reconfortamo-nos ao reviver lembranças de proteção. Algo
fechado deve guardar às lembranças, conservando-lhes seus valores de imagens. As
lembranças do mundo exterior nunca hão de ter a mesma tonalidade das lembranças
da casa. Evocando as lembranças da casa, adicionamos valores de sonho.
(BACHELARD, 1996, p.25)
Agora, Alice começa a aprender a habitar o País das Maravilhas, esse lugar que lhe
é tão estranho e, paradoxalmente tão íntimo, tão irreal e tão cheio de realidade. Todos os
habitantes - que valem pelo que são e não são e não pelo que fazem ou não fazem - com os
quais terá encontros inesquecíveis vão sugerir essa “verdade”, ajudá-la (mesmo que a
princípio lhe apareçam como “antagonistas”) a se colocar diante da pergunta essencial:
“Quem é você? (ou noutras palavras, “Você chegou a existir?”). A resposta (a “chave”)
poderá ser “errada”, porque demanda de Alice retomar a própria essência. A emoção decorre
de algo que ainda não é, mas que deve vir a ser. A menina pressente esse devir, experimenta
as mais variadas emoções que a levam a “errar”, a “viajar”, a “perfazer”. Alice consegue
37
aprender a jogar, ou melhor, a ser jogada pelo jogo da vida do País das Maravilhas, melhor
talvez que um adulto o faria, e chega ao fim da partida.
Nesse sentido, não há como negar a “modernidade” da narrativa de Carroll com
relação ao estatuto de seus personagens. O personagem (sobretudo o personagem-criança),
misto do maravilhoso-fantástico e do real, no espaço-tempo de sua consciência, não mais se
caracteriza (única e exclusivamente) pelo que faz exteriormente, mas e sobretudo, pelo que
sente, imagina, deseja, sonha, interpreta, lembra (de atributos de seu mundo interior); não uma
coisa depois da outra, mas tudo ao mesmo tempo, nas dimensões de um espaço-tempo
dinâmico e relativo. O personagem vai se desfazendo enquanto imagem estática, tal qual o
próprio Gato de Cheshire.
De acordo com Palo e Oliveira (2006, p.18), “Alice no país das maravilhas é o melhor
exemplo” dessa modernidade na construção dos personagens e, por isso mesmo, do grau de
poeticidade e imaginação da obra de Carroll. Essa modernidade se estende, segundo Palo e
Oliveira, às originais ilustrações de John Tenniel dos personagens do País das Maravilhas.
Muito embora alguns deles, no texto verbal e no texto visual, tragam a marca das referências
históricas e culturais como nos mostrou Gardner (2000), os personagens de Carroll.
São figuras apenas. Não há modo de vê-los como réplicas do ser humano. Não há
como provar sua existência no contexto extratextual. (...) Seres de papel que
habitam o imaginário do livro e se transformam em lances vivos para outras formas
de pensamento no instante mágico da leitura. (PALO e OLIVEIRA, 2006, p. 18)
E o que dizer de Alice? Temos a definição de uma representação visual dela? Não.
Mesmo se pensarmos nas ilustrações originais de John Tenniel. Pelo contrário, temos “a baixa
definição de uma figura, que é ao mesmo tempo bruxa, fada, serpente, anã e monstro. Tudo e
nada disso.” (PALO e OLIVEIRA, 2006, p. 18)
“Sonho dentro de um sonho”, “um poder ser”, “formas de metamorfose tal qual o
diagrama de uma cadeia de pensamentos, na qual ela própria se vê inscrita como signo”
(PALO e OLIVEIRA, 2006, p. 18), Alice, já que estava “metida numa dessas estórias de
contos de fadas”, tem “um encontro marcado” com criaturas nada comuns como o Coelho
Branco, o Gato de Cheshire, a Lagarta, o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março, o
Caxinguelé, a Duquesa, o Bebê-Porco (ele se transforma em porco no colo de Alice), a
Tartaruga Falsa, o Grifo, o Rei e a Rainha de Copas (e todos os “valetes” da realeza).
Vejamos, então, os possíveis significados dos encontros da protagonista com esses habitantes
do País das Maravilhas.
38
3.1 O COELHO BRANCO E SEU RELÓGIO
So she was considering, in her own mind (as well as she could, for the hot day made
her feel very sleepy and stupid), whether the pleasure of making a daisy chain would
be worth the trouble of getting up and picking the daisies, when suddenly a White
Rabbit with pink eyes ran close by her. There was nothing so very remarkable in
that; nor did Alice think it so very much out of the way to hear the Rabbit say to
itself “Oh dear! Oh dear! I shall be too late!”(CARROLL, 2000, p.11)
[...] But, when the Rabbit actually took a watch out of its waistcoat-pocket, and
looked at it, and then hurried on, Alice started to her feet, for it flashed across her
mind that she had never before seen a rabbit with either a waistcoat-pocket, or a
watch to take out of it, and, burning with curiosity, she ran across the field after it,
and was just in time to see it pop down a large rabbit-hole under the hedge.
(CARROLL, 2000, p.12)
Assim, refletia com seus botões (tanto quanto podia, porque o calor a fazia se sentir
sonolenta e burra) se o prazer de fazer uma guirlanda de margaridas valeria o
esforço de se levantar e colher as flores, quando de repente um Coelho Branco de
olhos cor-de-rosa passou correndo por ela. Não havia nada de tão extraordinário
nisso; nem Alice achou assim tão esquisito ouvir o Coelho dizer consigo mesmo:
“Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”[...])
[...] Mas quando viu o Coelho tirar um relógio do bolso do colete e olhar as horas, e
depois sair em disparada, Alice se levantou num pulo, porque constatou subitamente
que nunca tinha visto antes um coelho com bolso de colete, nem com relógio para
tirar de lá, e, ardendo de curiosidade, correu pela campina atrás dele, ainda a tempo
de vê-lo se meter a toda a pressa numa grande toca de coelho debaixo da cerca.
(CARROLL, 2010, p.13)
No mundo real, o coelho é “personagem” comum, mas que, geralmente, encanta as
crianças. Elas sempre destinam toda a atenção e admiração do mundo para brincar com ele.
Elas lhe dedicam todo o tempo do mundo. No mundo do faz-de-conta, os coelhos, como
qualquer animal, são personagens que falam, pensam, agem e, por isso mesmo, despertam o
interesse das crianças. Alice, ao avistar o Coelho Branco de olhos cor-de-rosa falando que
estava atrasado, nem se espantou muito, isso era até normal no universo imaginário. Mas,
quando a menina vê o Coelho tirar um relógio do bolso do colete e olhar as horas, e depois
sair correndo, é que ela se surpreende e também sai em disparada atrás dele.
O Coelho Branco é o primeiro personagem do Mundo das Maravilhas. Seu
aparecimento pode ter a mesma função do “Era uma vez” dos contos de fadas: a primeira
coisa que ele diz a Alice é que vai chegar atrasado demais. Ele surge para aguçar a
curiosidade de Alice e fazer a menina o seguir. Se não fosse o Coelho Branco, Alice não teria
39
a quem seguir e, talvez, nem vivesse toda a aventura que se coloca para ela ao cair na toca do
Coelho.
De acordo com o Dicionário de Símbolos, de Chevalier (2006, p.262), o coelho seria
um símbolo de renovação, já que vive entrando em tocas. Alice vive sua renovação
justamente a partir do momento em que começa a seguir o coelho e cai em sua toca. O Coelho
seria uma espécie de “mestre de cerimônias”, uma “primeira chave” para se “atravessar” o
reino do imaginário, o País das Maravilhas.
Outro interessante fato sobre coelhos é o de serem bem rápidos, eles também
apareceriam como o símbolo da rapidez com que se passa a vida, da fugacidade do tempo. Já
se prenuncia então os aspectos paradoxais do tempo, a vivência diferente das categorias de
tempo e espaço no País das Maravilhas.
Essa “rapidez” pode também funcionar como paródia da percepção que o homem
moderno tem do tempo, sobretudo a partir das revoluções industriais. Estressado, “arrogante”,
cheio de responsabilidades, “cronometrando” o tempo (olhando as horas no relógio), o Coelho
nunca tem tempo suficiente para fazer tudo o que se deseja. Além disso, o Coelho Branco é
empregado da Rainha de Copas cujas ordens ele cumpre sem questionar.
O Coelho do País das Maravilhas é aquele que “vive” a “lógica” / a “ordem” do
tempo, aquele que marca a hora para tudo: horas das refeições, hora de acordar, hora de
dormir, hora de trabalhar, etc. O Coelho tenta manter tudo em perfeita ordem, daí ficar com o
relógio sempre por perto. Sem o seu relógio, o Coelho Branco provavelmente não iria cumprir
nenhuma das suas obrigações. Ficaria completamente perdido. Provavelmente o medo e a
preocupação de estar atrasado seriam por causa da Rainha. Já que ela mandava cortar a cabeça
de qualquer um que a contrariasse.
Com o surgimento do Coelho Branco, estamos (Alice e o leitor) às portas do País das
Maravilhas. Basta segui-lo.
3.2 O GATO DE CHESHIRE E SEU CURIOSO SORRISO
“Please would you tell me,” said Alice, a little timidly, for she was not quite sure
whether it was good manners for her to speak first, “why your cat grins like that?”
“It’s a Cheshire-Cat,” said the Duchess, “and that’s why. Pig!” She said the last
word with such sudden violence that Alice quite jumped; but she saw in another
moment that it was addressed to the baby, and not to her, so she took courage, and
went on again: “I didn’t know that Cheshire-Cats always grinned; in fact, I didn’t
know that cats could grin.” (CARROLL, 2000, p. 60)
40
“Por favor, poderia me dizer”, perguntou Alice um pouco tímida, pois não sabia se
era de bom-tom falar em primeiro lugar, “por que seu gato tanto sorri?” “É um gato
de Cheshire”, disse a duquesa, “é por isso. Porco!” Disse a última palavra com tão
súbita violência que Alice deu um pulo; mas num instante viu que era dirigida ao
bebê, não a si. Diante disso, tomou coragem e continuou: “Não sabia que os gatos de
Cheshire sempre sorriem; na verdade, não sabia que gatos podiam sorrir.”
(CARROLL, 2010, p. 70)
O Gato de Cheshire é o personagem com o qual Alice vive se encontrando. Ele aparece
e desaparece diversas vezes à Alice. E funciona como um “guia” nada comum da menina. Ele
parece ser o senhor dos caminhos e descaminhos, das possíveis direções que se podem tomar
no País das Maravilhas. Todas as vezes que ele surge, deixa Alice surpresa, pois assim como
ele aparece de repente, também desaparece num piscar de olhos. Algumas vezes, ao
desaparecer, fica só uma parte do corpo. A mais intrigante (e preferida de todos os leitores)
acontece quando ele some e deixa apenas seu sorriso, como se fosse uma lua. O processo de
desaparecer é mais intrigante ainda: primeiro o Gato desaparece pelo rabo deixando
desaparecer por último o seu sorriso.
Personagem mais inusitado que Alice encontra na sua aventura pelo País das Maravilhas,
o Gato de Cheshire compõe-se e decompõe-se de forma múltipla e contínua. Revela-se em
partes. Seria uma espécie de oráculo para a menina, pois suas respostas nunca são diretas,
exatas, Alice sempre tem que interpretá-las para saber o que ele quer dizer. Ele age como um
paradoxo. Seu corpo não pode ser visto por inteiro, mas mesmo quando não pode ser visto,
EXISTE de fato, está em presença, é perceptível. Também reúne em si as alturas celestes e os
terrificantes, o grotesco das unhas e dentes e o sublime das aparições do sorriso em cima da
árvore ou no céu, suscitando em quem o vê as atitudes de espanto, curiosidade e riso, mas
também de respeito e temor, como nos fala Deleuze:
O gato está presente nos dois casos, já que aparece, pela primeira vez, na cozinha da
duquesa, e, em seguida, aconselha Alice a ir ver a lebre “ou” o chapeleiro. A posição
do gato de Chester em cima da árvore ou no céu, todas as suas características,
inclusive os terrificantes, identificam-no ao superego como “bom” objeto das alturas
(ídolo): “Ele parece ter um bom caráter, pensou Alice: contudo, possuía longas
unhas e muitos dentes e ela julgou que seria melhor tratá-lo com respeito.”
(DELEUZE, 2009, p. 242)
O Gato de Cheshire, e o seu sorriso, é mesmo o acontecimento mais inusitado no País
das Maravilhas. Um gato sem sorriso é possível de se ver, mas um sorriso sem gato, como
observa Alice, é a coisa mais curiosa que se poderia encontrar na vida. Revelar-se em partes e
41
ser até puramente sorriso. É assim que a imaginação de Carroll interpreta, conforme anotações
de Gardner, a frase, cuja origem não é conhecida ao certo, mas que é tão comum no tempo do
escritor inglês: “sorrir como um Gato de Cheshire” (CARROLL, 2000, p. 68).
Um dos segredos revelados a Alice: entre o sorriso e o Gato está o percurso. O
percurso é o mais importante. Não importa o início ou o fim, mas o meio, o percurso, a
travessia, o devir.
3.3 A LAGARTA E O SEU NARGUILÉ
She stretched herself up on tiptoe, and peeped over the edge of the mushroom, and
her eyes immediately met those of a large blue caterpillar, that was sitting on the
top, with its arms folded, quietly smoking a long hookah, and taking not the smallest
notice of her or of anything else. (CARROLL, 2000, p. 46)
Esticou-se na ponta dos pés e espiou sobre a borda do cogumelo e seu olhar
encontrou imediatamente o de uma grande lagarta azul, sentada no topo, de braços
cruzados, fumando tranquilamente um comprido narquílé, sem dar a mínima atenção
a ela ou a qualquer outra coisa. (CARROLL, 2010, p.54)
Até o momento desse encontro com a Lagarta azul (Capítulo 5), Alice já havia passado
por tantas situações que só podia se sentir muito confusa, estranha, desassossegada. Alice está
longe de casa, da família e de seus amigos. Caiu em uma toca estranha de um coelho. Toda
vez que pensa que algo acabou, acontece algo novo. A Lagarta e Alice ficaram olhando uma
para outra até que a Lagarta começa a conversa com uma pergunta:
“Who are you?” said the Caterpillar. This was not an encouraging opening for a
conversation. Alice replied, rather shyly, “I- I hardly know, Sir; just at present – at
least I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been
changed several times since then.” “What do you mean by that?” said the
Caterpillar, sternly. “Explain yourself!” “I ca’n’t explain myself, I’m afraid, Sir,”
said Alice, “because I’m not myself, you see.” (CARROLL, 2000, P.47)
“Quem é você?” perguntou a Lagarta. Não era um começo de conversa muito
animador. Alice respondeu, meio encabulada: “Eu...eu mal sei, Sir, neste exato
momento... pelo menos seu quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho
que já passei por várias mudanças desde então.” “ Que quer dizer com isso?”
esbravejou a Lagarta. “Explique-se!” “Receio não poder me explicar”, respondeu
Alice, “porque não sou eu mesma, entende?” (CARROLL, 2000, P.55)
É possível ver o quanto Alice está em crise consigo mesma. A Lagarta tem nesse
momento um papel fundamental. É uma “conselheira” de Alice. Em seu Dicionário de
42
Símbolos, Chevalier (2006, p.532) diz que a lagarta é o símbolo da transmissão, já que passa
de uma folha para a outra de maneira rápida e também pelo fato de passar do estado de larva
para o de crisálida. A Lagarta questiona Alice sobre a identidade da menina. Alice, por sua
vez, não consegue responder, sua identidade está sendo o tempo todo contestada, como
observa Deleuze:
(...) Todas essas inversões, tais como aparecem na identidade infinita têm uma
mesma consequência: a contestação da identidade pessoal de Alice, a perda do nome
próprio. A perda do nome próprio é a aventura que se repete através de todas as
aventuras de Alice. (DELEUZE, 2009, P. 3)
Para o filósofo francês, o nome próprio é a garantia da permanência do saber, que é
encarnado em nomes gerais, nos quais o nome próprio conserva uma relação constante,
trazendo, então, a necessidade de Deus e do mundo em geral. Mas quando tudo começa a se
misturar, toda a identidade se perde para o eu, para o mundo e para Deus. A Lagarta, assim
como a própria Alice, está em processo de mudança.
Outro fato curioso é que a Lagarta está fumando um narguilé. O narguilé é conhecido
como símbolo de paz e sociabilidade. Fumar um narguilé é considerado a companhia perfeita
para uma boa conversa. Sua origem vem do Oriente Médio. A Lagarta azul está fumando um
narguilé, quando Alice a encontra. O conteúdo da conversa não é tão fácil, traz uma questão
de vida e morte, de ser e não ser, é filosófico-existencial. Mas a Lagarta, em oposição à Alice,
encontra-se em paz, é sociável, calma. A Lagarta azul assume uma forma bem peculiar de dar
“conselhos” a uma menina. Isso porque a Lagarta será borboleta. Pura metamorfose. Ela sabe
bem qual é o valor da espera: é preciso ser paciente com as lagartas se quisermos encontrar as
borboletas. Paradoxalmente, a conversa é “boa”, mesmo que o desassossego se instale
mediante a pergunta “Quem é você?”. Fazer essa pergunta é reconhecer-se incompleta, em
permanente criação. As respostas não estão prontas para serem “memorizadas”, “decoradas”.
Viver no País das Maravilhas não é saber (e ensinar) as respostas, mas aprender a perguntar.
3.4. UM CHÁ MALUCO E SEUS PARTICIPANTES
There was a table set out under a tree in front of the house, and the March Hare and
the Hatter were having tea at it: a Dormouse was sitting between them, fast asleep,
and the other two were using it as a cushion, resting their elbows on it, and talking
43
over its head. “Very uncomfortable for the Dormouse,” thought Alice; “only as it’s
asleep, I suppose it doesn’t mind”. (CARROLL, 2000, p. 69)
Em frente à casa havia uma mesa posta sob uma árvore, e a Lebre de Março e o
Chapeleiro estavam tomando chá; entre eles estava sentado um Caxinguelê, que
dormia a sono solto, e os dois usavam como almofada, descansando os cotovelos
sobre ele e conversando por sobre sua cabeça. “Muito desconfortável para o
Caxinguelê”, pensou Alice; “só que, como está dormindo, suponho que não se
importa.” (CARROLL, 2010, p.80)
Nada melhor do que participar de um “chá maluco”, na companhia do Chapeleiro, da
Lebre de Março e do Caxinguelé, para se ter ideia do lugar onde se está e para aonde se deseja
ir. É o que acontece no capítulo VII, intitulado “A Mad Tea Party” (“Chá Maluco”), quando
Alice vai até a casa do Chapeleiro Maluco e senta-se à mesa sem o consentimento dos três
comensais.
A mesa é grande, com nove ou doze lugares e os três participantes estavam todos juntos
em um dos cantos. Ao ver Alice sentar-se, a Lebre de Março adverte a menina dizendo que
todos os lugares estavam tomados. Alice retruca indignada e mantém-se sentada, pois, para
ela, mais que a metade da mesa está vazia, os lugares não estão todos ocupados. Logo depois,
a Lebre de Março olha tristemente o seu relógio de bolso e constata (mais uma vez) que ele
está parado. O relógio parou na hora do chá e, por essa razão, o tempo fica “parado”. Essa
permanência temporal obriga os participantes a manterem-se continuamente à mesa, apenas
alternando os lugares. Daí a irritação de Alice ao entrar naquele circuito. Os lugares,
efetivamente, estavam ocupados, pois eram usados alternadamente pelos três personagens. E
o que “acontece” então? Mais discussão sobre o tempo.
A menina acha que os três personagens estão gastando o tempo de forma inútil: “’Acho
que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo’ disse ‘do que gastá-lo com
adivinhações que não têm resposta’.” (Carroll, 2010, p.84). 11Ao ouvir a opinião de Alice, o
Chapeleiro lhe diz que se ela conhecesse o tempo igual a ele, falaria do tempo com mais
respeito. Temos, então, percepções do tempo completamente distintas. Alice parece “maluca”
para os três, ao mesmo tempo, que os três parecem “malucos” para Alice. Todos, então, são
malucos. Será que o Gato de Cheshire não estaria “certo”?
11
“’I think you might do something better with the time, she said ‘than wasting it in asking riddles that have no
answers’.”(CARROLL, 2000, p.72)
44
De acordo com Deleuze (2009), o Chapeleiro e a Lebre de Março habitam, cada um,
uma direção diferente. As direções são, entretanto, inseparáveis: uma subdivide a outra. “É
preciso ser dois para ser louco, somos sempre loucos em dupla, ambos se tornam loucos no
dia em que massacraram o tempo” (DELEUZE, 2009, p. 82). Os dois mataram o presente que
não mais subsiste a não ser no momento abstrato, na hora do chá, infinitamente subdivisível
em passado e em futuro. Nenhum dos dois está na hora certa, os dois estão sempre adiantados
ou atrasados e não cessam de mudar de lugar.
Às voltas com uma situação bastante desafiadora, cheia de charadas sem respostas, de
“anedotas de abstração”, em sua maioria sobre o tempo, Alice percebe que não “pertence”
mesmo àquele mundo. É muita “maluquice” num lugar só. Parecia muito despropósito, muito
nonsense: uma mesa que tinha lugares vazios, mas que estavam ocupados, um relógio que
marcava o mês porque não marcava o ano porque não podia marcar as horas porque o tempo
estava parado na hora do chá. Alice passa a entender o que Gato de Chershire falou quando se
referia aos habitantes do País das Maravilhas: “we all are mad here” (“Aqui somos todos
loucos”). O Chapeleiro, a Lebre e o Caxinguelê com certeza não estão muito certos sobre
suas “razões”. Aliás, a loucura, tão perceptível agora, parece ser a loucura do próprio tempo:
que estaria “parado”!?
É também nesse “chá maluco” que percebemos a forma inusitada e cômica como
Carroll vê as discussões da sua época sobre o tempo. Além disso, podemos observar,
sobretudo a partir do método de leitura proposto por Martin Gardner na edição anotada das
Alices, a capacidade imaginativa de Carroll ao emoldurar situações de vida concreta da
Inglaterra de seu tempo.
Segundo as anotações de Gardner (2000), existe uma razão para o Chapeleiro ser
parecido com Theophilus Carter (um comerciante de móveis perto de Oxford). Carter era
conhecido como Chapeleiro Maluco na região por causa das suas idéias excêntricas. Certa vez
inventou um despertador que, quando despertava, lançava a pessoa para fora da cama. Isso
talvez explique porque o Chapeleiro seja tão preocupado com o tempo e sempre acorde o
Caxinguelê. Além disso, no período vitoriano, utilizava-se mercúrio na fabricação de chapéus,
o que poderia causar transtornos psicológicos. A Lebre de Março traz em seu nome o mês em
que as lebres estão no cio: março. O Caxinguelê (em algumas traduções para o português
temos “Leirão”) é um animal roedor que mais parece um esquilo do que um rato. Ao contrário
dos esquilos, este tem hábitos noturnos. Por conta de seus hábitos noturnos, o Caxinguelê fica
45
muito sonolento durante o dia, assim como o da estória. O chá maluco acontece às seis horas
da tarde (Carroll escreveu o romance antes da famosa tradição britânica do chá das cinco),
quando as crianças comiam. E talvez seja por essa razão que Alice se sinta tão frustrada
porque, na verdade, ela não come e não bebe coisa alguma nesse inusitado chá.
Alice não suporta ficar naquele ambiente, pois já se reencontrou o suficiente para seguir
em frente. A menina, que ainda não é, mas deverá vir a ser, “terá tempo para saber sobre o
tempo”. Haverá de chegar sua hora e vez. Alice sai renovada daquela experiência maluca.
Sabe o que quer e prossegue, tornando-se “maior” do que era.
Logo que sai do “chá maluco”, Alice avista novamente a porta para o jardim e
consegue passar. Alice percebe uma árvore que curiosamente tinha uma porta que dava para o
interior e entra nessa árvore. De novo se dá com o salão, e a pequena mesa de vidro. Mas
agora já “sabe” como fazer: pegou a pequena chave dourada, abriu a porta que dava para o
jardim, só depois é que começou a comer o cogumelo (que ela mantivera em seu bolso) até
que estivesse com aproximadamente 30 centímetros de altura, podendo, assim, atravessar a
pequena passagem que dava para um lindo jardim entre canteiros de flores resplandecentes e
fontes de água fresca. É nesse jardim que encontra jardineiros, que são cartas de baralho,
pintando de vermelho as rosas brancas. Alice estava no campo de croqué da Rainha de Copas,
que reservava mais uma situação inusitada: o próprio jogo era inimaginável: o campo “era
cheio de saliências e buracos; as bolas eram ouriços vivos, os malhos flamingos vivos, e os
soldados tinham de se dobrar e se equilibrar sobre as mãos e os pés para formar os arcos”. 12
(CARROLL, 2010, p. 98)
3.5 A RAINHA DE COPAS
First came tem soldiers carrying clubs: these were all shaped like the three
gardeners, oblong and flat, with their hands and feet at the corners: next the tem
courtiers: these were ornamented all over with diamonds, and walked two and two,
as the soldiers did. After these came the royal children: there were ten of them, and
the little dears came jumping merrily along, hand in hand, in couples: they were all
ornamented with hearts. Next came the guests, mostly Kings and Queens, and
among them Alice recognized the White Rabbit: it was talking in a hurried nervous
12
“(…) it was all ridges and furrows: the croquet balls were live hedgehogs, and the mallets live flamingoes, and
the soldiers had to Double themselves up and stand on their hands and feet, to make the arches.” (CARROLL,
2000, p.84)
46
manner, smiling at everything that was said, and went by without noticing her. Then
followed the Knave of Hearts, carrying the King’s crown on a crimson velvet
cushion; and, last of all this grand procession, came THE KING AND THE QUEEN
OF HEARTS. (CARROLL, 2000, p.81)
Primeiro vieram dez soldados carregando paus; tinham todos o mesmo formato dos
três jardineiros, eram alongados e chatos, com as mãos e os pés nos cantos. Em
seguida, os dez cortesãos; estes estavam enfeitados com losangos vermelhos da
cabeça aos pés e caminhavam dois a dois, tal como os soldados. Atrás vieram os
infantes reais; eram dez, e os queridinhos vinham saltitando alegremente de mãos
dadas, aos pares: estavam todos enfeitados de corações. Depois vinham os
convidados, na maioria Reis e Rainhas, e entre ele Alice reconheceu o Coelho
Branco: falava depressa, nervosamente, sorria de tudo que era dito e passou sem a
notar. Seguia-os o Valete de Copas, transportando a coroa do Rei numa almofada de
veludo vermelho; e por fim, fechando esse grande cortejo, VIERAM O REI E A
RAINHA DE COPAS. (CARROLL, 2010, p.93)
Através do trecho acima, podemos observar que todo o cortejo indica que a Rainha
de Copas é um personagem importante: ela detém o poder e todos a temem. Qualquer um que
a contrarie arrisca-se a perder a cabeça. O que mais se escuta da Rainha é “Cortem-lhe a
cabeça!” Talvez porque o que mais acontece no País das Maravilhas é “perder a cabeça” e
contrariar as ordens, as regras, o absolutismo da Rainha de Copas. Aqui vemos como Carroll
vai ao “real”, decompõe-no criando um universo fantástico e paradoxal a partir de sua fantasia
sistemática. O real da Inglaterra vitoriana comparece pelo horizonte de sentido da ficção de
Carroll. A Rainha de Copas é a Rainha Vitória, importante figura social e econômica, mas
com poder político limitado. Mais ainda: Carroll opera as mais variadas reversões de sentido,
quando se trata de contestar a grande época vitoriana da mecanização e da alta compostura
moral. Ou ainda, a Rainha de Copas representa a lógica do ensino, os “avanços” tecnológicos,
a vida em sociedade e, sobretudo, a rigidez e autoritarismo exercidos pelos adultos (pais,
professores, por exemplo) sobre as crianças. Mas o Grifo, no capítulo 9, traz uma revelação
importante à Alice: trata-se de pura “fantasia” da Rainha de Copas, na verdade nunca tinham
executado alguém, as ordens da Rainha nunca foram cumpridas! É como se o Grifo
“destronasse” a Rainha de Copas.
Em suas notas, Gardner (2000) nos lembra do caráter mítico do Grifo. Ele é um
fabuloso monstro, com cabeça e asas de águia e corpo de um leão; traz em si os elementos da
terra e do céu. N’ A Divina Comédia, de Dante, mais precisamente no canto XXIX do
“Purgatório”, a carruagem de Beatriz é puxada por um Grifo. O animal também era um
símbolo medieval para a união de Deus e o homem em Cristo. Conforme verbete do
Dicionário de símbolos de Chevalier (2006, p.478), o Grifo representa a força e a vigilância,
47
mas também o obstáculo a superar para chegar ao tesouro. Além disso, em Alice no País das
Maravilhas, Carroll se serve dos dados reais, históricos, da Inglaterra para fazer uma sátira às
instituições de ensino: o Grifo é o emblema da Oxford’s Trinity College e aparece no portão
principal.
O importante é que a missão do Grifo consiste na revelação de que Alice poderá
enfrentar, sem medo, a Rainha de Copas e tudo o que a regente representa. Alice poderá
“quebrar o brinquedo”, “construir outros segredos”, experimentar as vertigens das novas
formas até “gerar-se totalmente no exercício do jogo” 13, ela poderá ser a rainha de seu próprio
destino. É exatamente isso o que acontece no capítulo final de Alice no País das Maravilhas,
conforme explicaremos no próximo capítulo do nosso trabalho.
13
Conferir o poema “Ludismo”, de Orides Fontela, que escolhemos como epígrafe de nossa monografia.
48
4. ALICE CRESCEU, DIMINUIU, CRESCEU... COUBE E DESCOUBE NAS
MEDIÇÕES DO MUNDO
Hoje eu sinto que cresci bastante
Hoje eu sinto que estou muito grande
Sinto mesmo que sou um gigante
Do tamanho de um elefante
É que hoje é meu aniversário
E quando chega meu aniversário
Eu me sinto bem maior, bem maior, bem maior, bem maior
Do que eu era antes
Paulo e Luiz Tati, Palavra Cantada
As aventuras de Alice no país das Maravilhas são narradas em terceira pessoa, o que,
segundo Beth Brait, em seu livro A Personagem (2006), focaliza a personagem nos momentos
mais importantes que interessam ao desenvolvimento da estória e à materialização dos seres
que a vivem. É assim que Lewis Carroll chama atenção para o caráter questionador de Alice e
para o processo de aprendizagem que a protagonista vivencia. A situação narrativa de terceira
pessoa ilumina a vida da protagonista e revela surpreendentes aspectos da formação da
menina como ser que dúvida, indaga, vence vários obstáculos, “erra” e aprende enquanto está
no País das Maravilhas.
É possível ver que Alice, no início de suas aventuras, sentia-se sozinha e já se
encontrava em “crise” consigo mesma. Segundo Bachelard em sua Poética do Devaneio
(1988), a criança, na sua solidão, pode acalmar seus sentimentos, pois é nessa solidão que ela
começa seu devaneio, a ventura do sonhar. O sonhar da criança não tem limites, ela pode
sonhar o estranho e o inimaginável, ela pode construir pontes entre o real e o imaginário. Para
um adulto, por exemplo, um objeto inanimado é apenas um objeto qualquer, já para a criança,
esse mesmo objeto encerra todas as possibilidades de sentido inusitado, todas as
possibilidades de se criar vida. Um personagem pode se transformar, ele pode ser herói e
vilão. Não há limites quando se trata da imaginação infantil, quando estamos na experiência
dos devaneios poéticos em demanda da infância.
No devaneio da criança, prevalece a imaginação, que é a faculdade de deformar e
transformar imagens. Para Bachelard (1988), são os devaneios poéticos que possibilitam à
criança enxergar grande e enxergar belo: “Quando sonhava em sua solidão, a criança conhecia
49
uma existência sem limites. Seu devaneio não era simplesmente um devaneio de fuga. Era um
devaneio de alçar vôo”. (BACHELARD, 1988, p.94)
Alice estava se sentindo sozinha e entediada antes de começar a sua aventura.
Aventura que acontece dentro de um sonho. O sonho de Alice, assim como os sonhos da
infância ou em demanda da infância, não tem limites. Esses sonhos são repletos de fantasias.
Em seu sonho Alice passa por uma incrível aventura, que jamais seria possível no mundo real.
São muitas as situações, a começar pelo Coelho Branco com seu relógio, o crescer e diminuir
de forma repentina, os animais falantes, a rainha autoritária que por qualquer gafe ou
desobediência cometida manda cortar a cabeça de seus súditos. No mundo real,
provavelmente nada disso aconteceria. Ou aconteceria? Toda a fantasia, que acaba por fazer
Alice experimentar o sentido e o nonsense das coisas, é vivida através do imaginário, no e
pelo País das Maravilhas.
Bachelard sublinha que, até certo ponto, a criança tem a liberdade para sonhar sem ser
censurada. Mas isso não acontece por muito tempo, pois assim que a criança atinge a idade da
“razão”, a família e a escola assumem a tarefa de ensinar as crianças, de trazer-lhes as
habilidades e competências do equilíbrio, da objetividade, da coerência e da obediência às
regras e valores sociais. Objetividade, da mesma maneira como os adultos acreditam ser
objetivos. Razão e objetividade para ensinar a criança, que vai crescer e tornar-se “madura”,
adulta, para manter-se no “mundo social”, no ideal dos homens “estabilizados”. Bachelard
afirma que a criança é “empurrada no espremedor” para que siga direitinho o caminho dos
outros. A criança vive na zona de conflitos familiares, sociais e psicológicos. Muitas vezes, é
obrigada a “amadurecer” prematuramente. Tais conflitos são vivenciados na solidão, mais
secreta que a solidão do adulto, como nos diz Bachelard (1988, p.102). A criança, sozinha,
tem, então, a oportunidade de torna-se sonhadora. E é em suas solidões felizes que a criança
sonhadora conhece o devaneio cósmico. É aí que o ser da infância liga a realidade ao
imaginário, vivendo a imaginação através das imagens extraídas do seu cotidiano, do campo
de referência. A realidade é, então, transformada em fantasia.
Alice entra no País das Maravilhas e tudo aparenta ser completamente desorganizado.
Entretanto, ao mesmo tempo em que essa desordem se torna presente, concreta aos sentidos
da menina, algo acontece e então surge uma estranha, mas nova, ordem. Para Gilles Deleuze
(2009), trata-se de uma mistura de caos e cosmos. Essa mistura “estrutura” a crise de Alice.
Ninguém passa por todos esses “riscos”, por esse movimento de ordem e desordem, sem
50
metamorfoses, não é possível continuar o mesmo depois que se entra no País das Maravilhas.
Alice vai se afastando gradativamente da fidelidade de um modelo preexistente e fincado na
realidade, instaura-se uma questão, para a qual não há uma resposta única e definitiva.
Entrar no País das Maravilhas significa fazer uma outra leitura da vida: essa leitura faz
nascer uma vida nova, um mundo novo, uma nova forma de se relacionar com os outros e
consigo mesmo. Alice não tem controle sobre o que acontece nesse mundo. Ela não sabe para
onde vai, quem irá encontrar, e nem como sair, se desejar sair, daquele mundo repleto do
fantástico e do nonsense. Não tem o conhecimento prévio das coisas. É sempre jogada pelo
jogo “paradoxal” da vida do País das Maravilhas, e, por isso, está sempre “errando”. A
menina passa por todas essas indecisões e ainda pelo “abalo” da própria identidade. É tanta
confusão que ela não se lembra mais da sua essência, ou melhor, daquilo que ela achava ser a
sua essência. Qual seria a razão para ela estar vivenciando tudo aquilo? O que ela representa
como ser? Alice busca as respostas para a compreensão de sua existência. Alice vive a
experiência interior, a questão do ser. Algumas vezes se perdendo durante essa busca e, no
final, se libertando através da descoberta e do crescimento interior. No País das Maravilhas,
Alice difere na semelhança, experimenta diferentes versões de si mesma.
A criança interior que todos nós temos é a fonte que pode nos oferecer a coragem, o
entusiasmo e a vontade pelo “saber do real múltiplo” e pelo “sabor dos reais possíveis”. A
infância, esse núcleo permanente na nossa alma, incentiva a procura, a procura pelo “Eu”, que
não se limita a algo fixo, estático, imutável, mas que, como pura criatividade, traz a potência
do eterno e “maravilhoso” movimento do ser e não ser, o vigor do “exercício de ser criança”.
Segundo Bachelard (1988), a beleza anímica, psicológica, diante dos acontecimentos
está em nós, está na raiz de nossas memórias. É o impulso que nos anima e que nos mostra o
dinamismo da beleza da vida. Todos nós sonhamos com a liberdade, assim como
costumávamos sonhar na infância. É no devaneio que nos tornamos seres livres:
Sonhamos enquanto nos lembramos. Lembramo-nos enquanto sonhamos. Nossas
lembranças nos devolvem um rio singelo que reflete um céu apoiado nas colinas.
Mas a colina recresce, a enseada do rio se alarga. O pequeno faz-se grande. O
mundo do devaneio da infância é grande, maior que o mundo oferecido ao devaneio
de hoje. Do devaneio poético diante de um grande espetáculo do mundo ao devaneio
da infância há um comércio de grandeza. Assim, a infância está na origem das
maiores paisagens. Nossas solidões de criança deram-nos as imensidades primitivas.
Ao sonhar com a infância, regressamos à morada dos devaneios, aos devaneios que
nos abriram o mundo. (BACHELARD, 1988, p.96)
51
No livro A Criança Divina: uma introdução à essência da mitologia (2011), Carl Jung
e Karl Kerényi explicam que a criança é a personificação de forças vitais, ela traz a memória
da origem. Essas forças vão além do alcance limitado da consciência; são manifestações
daquilo que chamam de “arquétipo” (Jung) ou “mitologema” (Kerényi). No capítulo que trata
da psicologia do arquétipo da criança, Jung assinala que a criança representa o mais forte
impulso do ser de realizar-se a si mesmo. “O impulso e compulsão da auto-realização é uma
lei da natureza e, por isso, tem uma força invencível mesmo que o seu efeito seja no início
insignificante e improvável” (JUNG, 2011, p. 135). Noutras palavras, o aspecto mais
importante do arquétipo da criança é “seu caráter de futuro. A criança é o futuro em
potencial” (JUNG, 2011, p. 126-127), mesmo que, ao motivo da criança, esteja associado
outro aspecto típico que é o de ser, ao mesmo tempo, “menor que pequeno” e “maior que
grande”.
Alice é submetida a toda espécie de “perigos” e isso nos leva a pensar no arquétipo da
criança. A respeito desse arquétipo, Jung esclarece que o “abandono” e o “perigo da
perseguição” aparecem como obstáculos impostos à criança e também fazem parte das
manifestações do arquétipo da “criança-deus” ou do “herói-criança”. Jung vai além e oferece
uma análise adequada à questão do tamanho:
O motivo da “insignificância”, do estar exposto a, do abandono, perigo, etc. procura
representar a precariedade da possibilidade da existência psíquica da totalidade, isto
é, a enorme dificuldade de atingir este bem supremo. Caracteriza também a
impotência, o desamparo daquele impulso de vida o qual obriga tudo o que cresce a
obedecer à lei da máxima auto-realização; neste processo as influências do
ambiente colocam os maiores e mais diversos obstáculos, dificultando o caminho
da individuação (JUNG, 2011, p. 129-130).
Muitas são as experiências de Alice que podem ser associadas aos diferentes aspectos do
motivo da criança apresentado por Jung. A primeira delas diz respeito ao tamanho reduzido,
que por si só parece sugerir insignificância e, por isso, associa-se ao tema do “menor do que
pequeno”. Como, por exemplo, no primeiro capítulo, quando a experiência de ficar tão
pequena faz a menina pensar sobre a possibilidade de reduzir seu tamanho até acabar-se, “até
sumir completamente como uma vela” (CARROLL, 2009, p. 20). O tamanho tão pequeno
também a faz pensar em si mesma como algo insignificante, após segurar o leque e calçar as
luvas do Coelho Branco: “‘as coisas estão piores que nunca’, pensou a pobre criança, ‘pois
52
nunca fui tão pequena assim antes, nunca!’” (CARROLL, 2010, p. 28)14 Noutro momento,
Alice bebe o líquido de nova garrafa e torce para que os efeitos sejam os desejados: “Espero
que me faça crescer de novo, porque estou realmente cansada de ser esta coisinha tão
pequenininha”15 (CARROLL, 2010, p. 45). Como destaca Held, para as crianças, na vida real
ou na ficção, o tamanho é uma questão de poder, uma vez que por serem elas pequenas em
contraposição aos adultos que são mais altos, sejam sempre colocadas em posição de
submissão a eles:
Se a criança está sempre interessada por esse tema do pequeno e do grande, com
certeza é porque, como dissemos muitas vezes sofre, inicialmente, com seu
tamanho em relação ao adulto, porque é, para ela, sinônimo de fraqueza, e, pois, de
dependência. (HELD, 1980, p. 137)
A personagem de Alice passa pelas dúvidas e desejos presentes na infância. Deleuze
(2009) cita que ao se dizer “Alice cresce”, se quer dizer que ela está se tornando maior do que
era. Alice vai adquirindo “maturidade” ao longo de toda a obra. Mas ao mesmo tempo em que
ela cresce, ela também diminui.
Quando digo “Alice cresce”, quero dizer que ela se torna maior do que era. Mas por
isso mesmo ela também se torna menor do que é agora. Sem dúvida, não é ao
mesmo tempo em que ela é maior e menor. Mas é ao mesmo tempo em que ela se
torna um e outro. Ela é maior agora e era menor antes. Mas é ao mesmo tempo, no
mesmo lance, que nos tornamos maiores do que éramos e que nos fazemos menores
do que nos tornamos. (DELEUZE, 2009, p.1)
Alice cresce, Alice diminui. No País das Maravilhas, isso acontece doze (12) vezes.
As alterações no corpo de Alice são provocadas por vários agentes mágicos: o líquido de uma
garrafa (na qual há a inscrição “BEBA-ME”, aliás, há sempre a inscrição, a palavra que
requer interpretação do “sentido” e que é instauradora!), pedaços de cogumelo, o simples fato
de segurar um leque ou comer um bolo... As mudanças podem também ocorrer de forma
totalmente irregular, inesperada, sem uma justificativa plausível, sem que seja preciso
qualquer ação da personagem, como acontece, por exemplo, nas últimas cenas. Em certo
momento, por exemplo, apenas o pescoço de Alice cresce. A forma como essas modificações
acontecem no corpo de Alice já apontam para o caráter do nonsense. É impossível alguém
diminuir ou aumentar apenas com um lanche.
14
‘“And things are worse than ever,” thought the poor child, “for I never was so small as this before, never!”
(CARROLL, 2000, p.24)
15
“ I do hope it ‘ll make me grow large again, for really I’m quite tired of being such a tiny litte thing!”
53
Ser grande/pequena ou não ser. Essa é a “questão”.
O “efeito mágico” capaz de
mudar o tamanho de Alice permite-lhe interagir com os demais personagens de formas
diferentes e discutir as próprias questões do tamanho com eles. As alterações no tamanho
permitem Alice a entrar e sair dos lugares (salas, casas, jardins, etc.) - cujo tamanho é
igualmente diverso à “escala” natural do mundo tal e qual a menina, e nós, conhecia -, a
alcançar os objetos mais distantes ou a ter um ponto de vista privilegiado, diante das
limitações do tamanho dos outros habitantes e dos objetos do País da Maravilhas. Mas não é
sempre que algo bom acontece. As mudanças, às vezes, ajudam, mas podem também
atrapalhar Alice. Enfim, as novas dimensões, às quais Alice é submetida, trazem uma série de
novas circunstâncias. Quando Alice se torna maior, o seu tamanho a faz assumir uma postura
mais confiante perante os absurdos das situações encontradas no País das Maravilhas
(situações que duplicam, pelo procedimento do paradoxo que gera o nonsense, as situações
vividas pela menina Alice fora do País das Maravilhas).
Segundo Palo e Oliveira, no livro Literatura Infantil: Voz de Criança (2006), quando
se fala de criança nas sociedades ocidentais, refere-se a uma minoria, que não tem direito à
voz, não dita valores e que deve ser conduzida pelos valores de quem tem autoridade, ou seja,
pelos valores dos adultos. As crianças sempre devem obediência a um adulto. A possibilidade
do “reduzir para caber” causa na menina Alice o medo de desaparecer por completo. As
transformações de Alice são físicas, mas ao mesmo tempo são internas. Ela muda de tamanho
e seu humor também é alterado. A protagonista experimenta todo tipo de “desmedida”, de
paixões: alegrar, entristecer, chorar, rir, gritar, ficar com raiva, indignar-se, sentir-se poderosa,
sentir-se insignificante... O que faz mudarem e serem testados os seus valores – na verdade os
valores do mundo real, adulto, que leva com ela para o País das Maravilhas - e sua nova
noção de realidade.
Deleuze (2009) assinala: “Alice não cresce sem ficar menor inversamente.” (p.1) Ele
explica que todas as inversões tem a mesma conseqüência. Essa conseqüência seria a
contestação da identidade pessoal de Alice, a perda do próprio “nome” de Alice. A maior
dúvida de Alice é sobre quem ela é. Na obra, a própria Alice pergunta sobre sua identidade e
também é questionada por outros personagens. Em toda a estória, Alice modifica o seu
tamanho por diversas vezes. Sempre quando come ou bebe algo, ela cresce ou diminui. É no
capítulo “Advice from a Caterpillar” (“Conselho de uma Lagarta”),como já vimos no capítulo
anterior do nosso trabalho, que Carroll encena um dos principais questionamentos de Alice:
“Quem é você?” Pergunta da Lagarta à Alice.
54
É perceptível o drama existencial de Alice nesse capítulo. Vemos como o desassossego
se instala. Alice diz para a Lagarta Azul que não consegue mais entender quem realmente é, já
que teve tantos tamanhos diferentes em um mesmo dia. As mudanças são as principais causas
desses questionamentos. Alice se pergunta várias vezes sobre sua identidade. É interessante
perceber que, a cada situação de confronto, de “ilogicidade” ou “não-sentido”, Alice acaba
por aprender a adotar uma forma particular de existir: pensa consigo mesma, conversa “entre
si”, reflete sobre os diferentes ângulos das coisas.
Durante sua jornada Alice encontra diversos personagens, porém seus encontros são
sempre curtos. Em grande parte do caminho a garota se encontra em estado de solidão,
somente com seus próprios pensamentos, desejos, sentimentos. Após cada conversa com os
outros personagens Alice pode refletir sobre o que aconteceu naquele momento e algumas
vezes sobre a razão pela qual um fato ocorreu. Alice sempre pensa sobre sua vida fora do País
das Maravilhas, ela sempre se questiona sobre o que os outros diriam se vissem as mesmas
coisas que ela está vendo naquele universo tão diferente para ela. Percebemos como Carroll
questiona a existência antes da autodefinição. Dúvida antes do Verbo. Escapa a Alice a razão
de não poder identificar-se. A nova pergunta desconcerta, confronta sem se revelar. Carroll
desarticula o mundo instituído. Retoma respostas socialmente aceitas, esvaziadas de
significação (perceba-se a “polidez” de Alice, comportamento que toda criança deveria ter no
seu mundo “real”) e lhes dá outro lugar, outra direção.
Nesse sentido, podemos dizer que esse é um dos vários procedimentos criados por
Lewis Carroll para questionar o período vitoriano. A partir das questões relacionadas ao
tamanho de Alice, criadas pelo paradoxo, pelo sentido e não-sentido de crescer e,
principalmente, de encolher, o escritor submete a uma crítica radical a educação e o
tratamento que se dava às crianças no período vitoriano, marcados pela repressão, que
objetivava mostrar a submissão como algo bom e natural. De acordo com Morais (2004), o
papel da “educação” nos lares da Inglaterra vitoriana era extremamente valorizado. As
crianças eram educadas para se comportarem como adultos. Para a sociedade, as crianças
precisavam ter plena consciência de culpa e aprovação. “O universo infantil era povoado por
esses dois conceitos, que ao final, eram regidos por um único: medo. Medo de punição, uma
das poucas certezas que aquele mundo apresentava”. (MORAIS, 2004, p.68)
Muitos são os estranhamentos que ocorrem do princípio ao fim das aventuras de Alice.
Cada acontecimento traz, em ritmo vertiginoso e em tom tragicômico, seus paradoxos e
55
conseqüentes não-sentidos, variando o tema e promovendo uma enorme abertura de
significações. Alice está em transição durante sua viagem ao Mundo das Maravilhas. Ela é a
criança que, através da experiência vivida, exercita-se como ser que é, ao mesmo tempo,
“menor que pequeno” e “maior que grande”.
Alice entra no País das Maravilhas com uma forma de ver o mundo. Ao longo da
viagem, começa a mudar e aprende a tomar suas próprias decisões, aprende que viver é
sempre perguntar para descobrir novas respostas, que nunca são definitivas, que nunca
esgotam o real da vida.
Crescer, diminuir, crescer... Alice se compreende agente de sua própria transformação,
pode ser autoconfiante, construir sua individualidade/diferença. O último capítulo, “Alice’s
Evidence” (“O depoimento de Alice”), encena essa verdade, essa “evidência”. Na cena final
do julgamento, ainda no “sonho”, momentos antes de “acordar”, Alice confronta a Rainha,
sem se importar com suas ameaças. Mandada calar, a menina investe contra as cartas, fazendo
pouco delas: “‘Quem se importa com vocês’, disse Alice (a essa altura, tinha chegado a seu
tamanho normal). ‘Não passam de um baralho!’ ” (CARROLL, 2010, p.145). 16
Pouco a pouco, Alice vai se sentindo mais segura, como já denota a própria cena em
que o Rei, percebendo o “crescimento” de Alice, inventa uma regra que proíbe Alice de
participar do tribunal por conta do seu tamanho (Carroll chama atenção para isso porque,
segundo a regra inventada na hora pelo Rei, todos os que tivessem “mais de um quilômetro de
altura” deveriam se retirar do tribunal) e manda-a sair do tribunal. Alice percebe a
transformação gradual e isto gera progressivamente uma noção de poder, que ampara sua
decisão de ficar.
É esse saber / sabor / poder, é essa a educação (tão diferente daquela que o mundo
“real” - a Inglaterra vitoriana -, regido pelo bom senso, pelo senso comum), que o “País das
Maravilhas” proporciona a Alice (e também a todos os leitores, sobretudo às crianças).
Assim, o efeito “mágico”, capaz de alterar o tamanho dos seres, constitui-se em um
dos princípios estruturais de Alice no País das Maravilhas. Alice cresce, diminui, cresce, cabe
e descabe no mundo. As alternâncias, reversões, inversões paradoxais do tamanho
transformam-se em recurso que percorre todas as peripécias de Alice e muda o ponto de vista
16
“’Who cares for you?’ said Alice (she had grown to her full size by this time). ‘You’re nothing but a Pack of
cards”’” (CARROLL, 2000, p. 124)
56
da protagonista ao longo da trama. São também um dentre muitos recursos de Carroll para
criar um motivo maravilhoso, fantástico, para encantar os leitores, sobretudo as crianças.
Nada melhor do que este recurso para fazer a imaginação levantar vôos mais altos.
O fato é que Carroll não deixa de usar criativamente os principais ingredientes dos
contos de fadas, mesmo lançando mão das diferentes referências históricas e culturais tão
propagadas pela recepção crítica de sua obra, sobretudo por Martin Gardner (2000). Até
mesmo o fato de dar às aventuras de Alice um “desfecho” (embora esse final apresente a
abertura dos sentidos) participa do maravilhoso dos contos de fadas, uma vez que Carroll
torna a viagem pelo País das Maravilhas um “sonho” da menina Alice e faz a correspondência
entre esse desfecho e o começo da estória: na cena inicial, Alice lê um livro enfadonho “sem
figuras e sem diálogos”, antes de, como nos sugere a cena final, “cair no sono”, ou melhor,
antes de “cair na toca do Coelho Branco”, ou ainda, antes de “aprofundar-se em seus
devaneios poéticos” e realizar, como os contos de fadas possibilitam, os exercícios de ser
criança.
O tempo todo, Alice - Carroll e também o leitor, sobretudo se for o leitor uma criança
- traz à memória a “verdade” dos contos de fadas e o vigor dos devaneios poéticos em
demanda da infância, como podemos perceber nesta cena do quarto capítulo:
“It was much pleasanter at home,” thought poor Alice, “when one wasn’t always
growing larger and smaller, and being ordered about by mice and rabbits. I almost
wish I hadn’t gone down that rabbit-hole – and yet – and yet – it’s rather curious,
you know, this sort of life! I do wonder what can have happened to me! When I
used to read fairy tales, I fancied that kind of thing never happened, and now
here I am in the middle of one! There ought to be a book written about me,
that there ought! And when I grow up, I’ll write one – but I’m grown up now,”
[…] (CARROLL, 2000, p.39, grifo nosso)
(“Era muito mais agradável lá em casa”, pensou a pobre Alice, “lá não se ficava
sempre crescendo e diminuindo, e recebendo ordens aqui e acolá de camundongos e
coelhos. Chego quase a desejar não ter descido por aquela toca de coelho... no
entanto... no entanto... é bastante interessante este tipo de vida! Realmente me
pergunto o que pode ter acontecido comigo! Quando lia contos de fadas, eu
imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de
uma! Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria! E quando eu
for grande, vou escrever um... mas sou grande agora” [...]). (CARROLL, 2010,
p.46, grifo nosso)
É que Alice, Carroll e o leitor bem sabem da importância dos contos de fadas e, por
isso mesmo, do devaneio poético. Conforme Max Luthi nos mostra em seu livro Once upon a
time. On the nature of fairy tales (1970), tudo pode acontecer em um conto de fadas. E o
ponto central nas transformações que são encenadas é a capacidade de metamorfose inerente
57
ao homem, que lhe permite transpor os obstáculos, que lhe ensina a suplantar modalidades de
vida inautêntica e inaugurar-se num existir mais verdadeiro.
Ainda bem que os devaneios poéticos são comunicáveis: Carroll explora criativamente
o tema do “sonho dentro do sonho”. Ainda bem que podemos ler/escrever, falar/ouvir contos
de fadas: Alice conta para irmã o “sonho” que teve e também a irmã sonha o sonho de Alice.
Tudo começa quando termina (paradoxo dos sentidos, lógica do nonsense, unidade de caos e
cosmos, labirinto perfeito): de novo o confronto com o mundo, de novo alguém que possui a
capacidade de elevar-se acima de si mesmo e adquire todas as condições para conquistá-las.
Quem será o próximo a crescer, diminuir, crescer... caber e descaber nas medições do mundo?
Quem vai seguir o Coelho Branco até a toca, cair no túnel e chegar ao País das Maravilhas?
58
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: A CHAVE DO JARDIM QUE LEWIS
CARROLL NOS DEIXOU – UMA CONCLUSÃO
Recebe este conto de fadas.
E guarda-o, com mão delicada,
Como a um sonho de primavera
Que a teia da memória se entretece,
Como a guirlanda de flores murchas que
A cabeça dos peregrinos guarnece.
Lewis Carroll
Alice cresceu, diminuiu, cresceu... coube e descoube nas medições do mundo. No País
das Maravilhas, a menina se viu diante de situações paradoxais, puros acontecimentos em sua
falta de sentido, instalando campos problemáticos aparentemente impossíveis de serem
resolvidos. A Alice (e também a nós), o País das Maravilhas dá a ver o poder de significação
de um acontecimento ao colocar a protagonista frente a situações absurdas que fogem do
esperado e quebra as expectativas. A lógica para se mover no País das Maravilhas é oposta,
completamente diferente daquela que a menina estava acostumada.
A pergunta que não se cala, o julgamento-problema que insiste e persiste se
materializa na pergunta “Quem é você?”. Pergunta que desconcerta e desarticula o mundo
previamente instituído da menina. Alice abisma-se na vertigem da pergunta que questiona e
demanda respostas nada fáceis porque não se encontram já formuladas, exigindo a procura, a
errância, pelo País das Maravilhas.
Mas Alice, nesse universo insólito, estranho, habitado por seres inimagináveis, que
parecem ter saído de um conto de fadas, sempre vislumbra chegar ao lindo jardim, que já lhe
aparece logo que chega ao País das Maravilhas:
Alice opened the door and found that it led into a small passage, not much larger
than a rat-hole: she knelt down and looked along the passage into the loveliest
garden you ever saw. How she longed to get out of that dark hall, and wander about
among those beds of bright flowers and those cool fountains. (CARROLL, 2000,
p.15, grifo nosso)
Abriu a porta e descobriu que dava para uma pequena passagem, não muito maior
que um buraco de rato: ajoelhou-se e avistou, do outro lado do buraco, o jardim mais
encantador que já se viu. Como desejava sair daquele salão escuro e passear entre
aqueles canteiros de flores radiantes e aquelas fontes de água fresca!
(CARROLL, 2010, p.18, grifo nosso)
59
E mais, a menina está sempre às voltas com aquela minúscula chave dourada para
abrir as portas, os caminhos, daquele lindo jardim. No Dicionário de símbolos, de Becker
(1989), um jardim murado, no qual só se pode penetrar através da porta, simboliza justamente
as dificuldades e empecilhos que precisam ser vencidos para alcançar um estágio superior do
desenvolvimento espiritual no qual se encontra. Em The annotaded Alice: Alice’s in
Wonderland & through the looking glass, Gardner (2000) nos remete a T.S. Eliot, mais
precisamente ao que pensava quando escreveu as linhas de “Burnt Norton”, o primeiro poema
de seu “Four Quartets”:
Time present and time past
Are both perhaps present in time future.
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. (T.S. ELIOT apud GARDNER, 2000, p.16)
Tempo presente e tempo passado
São ambos talvez presentes no tempo futuro.
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Permanecendo uma possibilidade perpétua
Somente em um mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Aponte para uma das extremidades, que está sempre presente.
Passos ecoam na memória
Abaixo da passagem que não tomamos
Para a porta que nunca abrimos
Para o roseiral. (T.S. ELIOT apud GARDNER, 2000, trad. nossa)
O jardim é o lugar para o qual Alice sempre deseja voltar: ele é necessário, lá se
encontram as forças necessárias para a menina continuar suas aventuras. Como tudo naquele
universo onírico de Carroll (de Alice), o jardim também aparece e desaparece, cresce e
encolhe, expande-se e concentra-se, afasta-se e aproxima-se, revela e esconde, de acordo com
o horizonte de sentido de quem o procura. O jardim faz parte do País das Maravilhas. Ele é o
País das Maravilhas. E mora bem dentro da pequena Alice. O jardim é o espaço do devaneio
poético da menina: espaço do dinamismo e do repouso do ser que só é enquanto devir. É o
60
espaço dos devaneios do repouso e da vontade da menina sonhadora. A experiência do jardim
lhe oferta as qualidades de abertura que ele é, pura possibilidade de todas as formas a serem
criadas.
Alice, ser que cumpriu seu dever de bom sono / sonho, tem, no final do livro, um olhar
que “ama” o País das Maravilhas, os seus jardins, o Gato de Cheshire, a Lagarta Azul... É o
dia que desponta a partir do próprio ser que desperta do sono. O jardim irradia-se. Alice
amadurece. Mas agora Alice sabe que amadurecer é sem pressa, com calma... a Lagarta azul é
mesmo uma boa conselheira. O País das Maravilhas, a essência da vida interior de Alice, a
conduz devagar, com tempo, a outra compreensão de si mesma e do mundo. Como qualquer
processo e “progresso”, o amadurecimento de Alice vem do âmago do seu ser. Não se pode
apressá-lo nem reprimi-lo. Amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva. É preciso
esperar. Alice sabe que algo está acontecendo bem dentro dela. A menina descobre-se em
transição, em perigosa, difícil, desconcertante viagem. Desejava algo melhor do que isso?
Transformar-se, amadurecer, crescer? Eis porque não deixa de ser difícil, porque Alice não
cessa de crescer.
Viajar no País das Maravilhas: é o convite que Lewis Carroll, esse poeta que acolhe a
infância como o poder que instaura o que ainda não existia - o poder da poiesis – faz a todos
nós leitores, crianças e adultos. Melhor guardar Alice no País das Maravilhas, “como um
sonho de primavera” que a teia das memórias inventadas de Alice e de Lewis Carroll
entretece. Essa obra nos dá a chave para o belo jardim. Esse conto de fadas tão diferente
porque cheio de nonsense, é flor que guarnece a cabeça dos peregrinos. Flor murcha – porque
traz as marcas do ser (e do tempo) daquele que viaja / peregrina -, mas que viceja entre nós.
61
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Carlos Drummond de. A educação do ser poético. In: Revista Brasileira de
Estudos Pedagógicos, Brasília: v. 61, n. 140, p. 593-594, out. /dez., 1976.
ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. “Alice para adultos”. In: _ Outros achados e perdidos. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.141-144.
ÁVILA, Myriam. Rima e Solução: a poesia nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear.
São Paulo: Annablume, 1996.
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo:
Martins Fontes, 1988.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São
Paulo: Martins Fontes, 1996.
BARROS, Manoel de. Exercícios de ser criança. Bordados de Antonia Zulma Diniz, ângela,
Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre desenhos de Demóstenes Vargas. Rio de Janeiro:
Salamandra, 1999.
BASTOS, Lúcia Kopschitz Xavier. Anotações sobre leitura e nonsense. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
BECKER, Udo. Dicionário de símbolos. Trad. Edwino Royer. São Paulo: Paulus, 1989.
BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 2006.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega I. Petrópolis: Vozes, 1991.
CAMPOS, Augusto de. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
CARROLL, Lewis. Alice: edição anotada. Ilustrações originais de John Tenniel. Introdução
e notas de Martin Gardner. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
CARROL, Lewis. Aventuras de Alice. Organização e tradução de Sebastião Uchoa Leite. 3ª
ed. São Paulo: Summus, 1980.
62
CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas & através do espelho e o
que ela encontrou por lá. Inclui ilustrações originais de John Tenniel. Trad. Maria Luiza X.
de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
CARROL, Lewis. The annotaded Alice: Alice’s adventures in wonderland & through the
looking-glass by Lewis Carroll. Illustrations by John Tenniel. Introduction and notes by
Martin Gardner. New York, London: W. W. Norton, 2000.
CHEVALIER, Jean. Dicionário dos símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas,
figuras, cores, números). Trad. Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Ângela Melim e
Lúcia Melim. 20ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil. São Paulo/Brasília: Edições Quíron / INL /
MEC, 1981.
DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo:
Perspectiva, 2009.
DOURADO, Autran. Proposições sobre labirinto. In: _. O meu mestre imaginário. Rio de
Janeiro: Rocco, 2005, p. 62-72.
GARDNER, Martin. Preface to the definitive edition of The Annotated Alice; Introduction to
The Annotated Alice; Introduction to More Annotated Alice In: CARROL, Lewis. The
annotaded Alice: Alice’s adventures in wonderland & through the looking-glass by Lewis
Carroll. Illustrations by John Tenniel. Introduction and notes by Martin Gardner. New York,
London: W. W. Norton, 2000, p.xi-xii; p. xiii-xxii; p. xxiii-xxviii.
HELD, Jacqueline. O imaginário no poder. As crianças e a literatura fantástica. Trad. Carlos
Rizzi. São Paulo: Summus, 1980.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano. Edição revisada
e acrescida do original grego. São Paulo: Iluminuras, 2001.
JUNG, Carl. A psicologia do arquétipo da criança. In: KERÉNYI, Karl; JUNG, Carl. A
criança divina: uma introdução à essência da mitologia. Trad. Vilmar Schneider. Petrópolis:
Vozes, 2011, p. 109-148.
63
LEITE, Sebastião Uchoa. O que a tartaruga disse a Alice. In: CARROLL, Lewis. Aventuras
de Alice. Organização e tradução de Sebastião Uchoa Leite. 3ª ed. São Paulo: Summus, 1980,
p. 7-36.
LUTHI, Max. Once upon a time. On the nature of fairy tales. Transl. by Lee Chadeayne
and Paul Gottwald with additions by the author. Introduction and reference notes by Francis
Lee Utley. Bloomington/ Indianapolis: Indiana University Press, 1970.
MACHADO, Ana Maria. Texturas: sobre leituras e escritos. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2001.
MEIRELES, Cecília. Problemas de literatura infantil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1984.
MORAIS, Flávia Costa. Literatura vitoriana e educação moralizante. São Paulo: Alínea,
2004.
PALO, Maria José e OLIVEIRA, Maria Rosa D. A literatura infantil: voz de criança. São
Paulo: Ática, 2006.
ROSA, João Guimarães. Tutameia. In: _. Ficção Completa, vol II. São Paulo: Aguilar, 1994,
p.555-557.
64
Download

Danielle Camargos Fabrício - Universidade Católica de Brasília